segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Precisou denúncia para sair

João Vaccari Netto, tesoureiro do PT, que agora pediu demissão, ficou como conselheiro de Itaipu por 11 anos e 10 meses, desde janeiro de 2003. Seu "trabalho" tinha a remuneração de R$ 20.804,13 para pagar seis reuniões ordinárias por ano e, excepcionalmente, reuniões extraordinárias. Vaccari só saiu devido ao envolvimento com a gangue da Petrobras.

A democracia brasileira


Não há razão para temor em relação ao amanhã. A divisão das urnas é o mais eficaz antídoto contra o autoritarismo.
O Brasil que sai das urnas mostra ser um dos maiores laboratórios da democracia contemporânea. Os nossos 142 milhões de votantes posicionam o país no quarto degrau do ranking eleitoral, cujos três primeiros lugares são ocupados pela Índia, com 815 milhões de eleitores, os Estados Unidos, com cerca de 215 milhões,  e a Indonésia, com 187 milhões.

O termo laboratório aponta para um sistema democrático em fase de consolidação, não significando, portanto, uma democracia plena, nos termos do Índice Democrático, criado pela prestigiada revista The Economist por meio de pesquisa feita em 167 países.

Nessa planilha – que leva em consideração categorias como o processo eleitoral e o pluralismo, as liberdades civis, o funcionamento do governo, a participação popular e a cultura política – ocupamos a 45ª posição, ao lado de países de democracia imperfeita, dentre os quais,  pasmem, estão democracias de forte tradição como a francesa (29ª), a italiana (31ª) e a grega (32ª). A Índia, por exemplo, está na mesma faixa do Brasil, ocupando o 39º lugar. 

São visíveis os sinais de que temos dado vigorosos passos no caminho do aperfeiçoamento, bastando considerar que há 50 anos o país entrava na escuridão de um  golpe militar que durou  21 anos, tendo fixado as linhas mestras de sua democracia apenas a partir de 1988, com a chamada Constituição cidadã, que veio atender as demandas da sociedade organizada.

Sob uma pletora de liberdades, direitos e deveres, garantidos pela CF, realizou-se o pleito mais competitivo das últimas décadas. A animação da vida cívica que se viu constitui expressiva amostra da efervescência inerente às democracias incipientes. Não há motivo para assombro.

domingo, 2 de novembro de 2014

Foi dada a largada!


Diálogo ou novas imposturas?

A propaganda falaciosa, no caso, não está defendendo uma classe da exploração de outra, mas enganando uma parte do eleitorado em benefício dos seus autores. Isso não é política de esquerda nem de direita, é má-fé política para a manutenção do poder a qualquer custo.
Em uma democracia não cabe às oposições, como ao povo em geral, senão aceitar o resultado das urnas. Mas nem por isso devemos calar sobre o como se conseguiu vencer, nem sobre o por que se perdeu.

Os resultados eleitorais mostram que a aprovação ao atual governo apenas roçou um pouco acima da metade dos votos. Ainda que a vitória se desse por 80% ou 90% deles, embora o respeito à decisão devesse ser idêntico ao que se tem hoje com a escassa maioria obtida pelo lulopetismo, nem por isso os críticos deveriam calar-se.

É bom retomar logo a ofensiva na agenda e nos debates políticos. Para começar, não se pode aceitar passivamente que a “desconstrução” do adversário, a propaganda negativa à custa de calúnias e deturpações de fatos, seja instrumento da luta democrática.

Descanso dos 'coronés'



Dilma descansa da campanha ou batalha, como quiserem, na Bahia. Descanse em paz!

Chama a atenção da humildade dos presidentes brasileiros em comparação com a ralé política, que se diz revolucionária, “bolivariana” desde criancinha. Fernando Henrique e Lula, quando de férias, e mesmo a própria doutora nunca foram para o exterior se regalar com o mundo desenvolvido, as belezas lá de fora. Também nunca se ouviu falar que Barack Obama passe férias além do Havaí.

No entanto, os “coronés” petistas e de outros quilates adoram ir ao exterior. Alcaides desses baronatos até já aprontam as malas. Um desses, que já viajou meio mundo com o dinheiro público em poucos seis anos, deve antecipar o merecido descanso familiar com a mulher a tiracolo, já eleita, e logicamente levando novamente uma trupe de familiares, correligionários, amigos, quiçá vereadores, para mais um turnê de gastos. Eles se divertem, que o povo merece.

Inocente!


"Hoje, em cada quatro brasileiros, três estão na classe C e um nas classes B e A"
Dona Dilma confirma sua indicação para a canonização como Santa Rousseff pelo “milagre” de acabar com os pobres e miseráveis no país. Se depender da santa, há 150 milhões de pessoas na classe C e os demais nas outras classes.  

Mudou? Vai mudar?


Não tenho expectativas de que o governo agora vai ser um governo de esquerda. Acho que o PT já está absorvido por essa política de balcão de negócios. A tendência é que ceda aos interesses das figuras mais reacionárias. E só teremos avanços nessas questões por meio das mobilizações populares
 Luciana Genro, candidata pelo PSOL

Nem se completou uma semana do fim das eleições e o país andou no mesmo lugar. Ainda há foguetório pela vitória, mais arrefecimento dos ânimos aguerridos e continua o desânimo.

As manchetes de jornais só indicam que não será fácil, como o prometido, mudar, nem mesmo se houver disposição como se esbanjou na marquetagem. Os ares ainda são por demais poluídos, há uma seca quase geral de mãos estendidas.

Não há mais demonstração de que a quarta gestão petista será um salto de qualidade, ainda mais porque não estão com essa bola toda. Com o serenamento dos ânimos, em que pese da sempre arrogância de petistas desnaturados, volta o cotidiano para demonstrar que o continuísmo será completo com a mesma lenga-lenga.

Sem propaganda gratuita, não há mais demonstração de que a quarta gestão petista será um salto de qualidade, também porque não estão com essa bola toda. Em que pese a sempre arrogância de petistas desnaturados, volta o cotidiano para demonstrar que o continuísmo será completo com a mesma lenga-lenga.

Dilma ainda reina com o mesmo séquito de sempre, que não deve mudar. Para quê se ainda há tanto tempo para janeiro, fevereiro, março, abril etc ? Fiquemos no discurso de sempre.

Empurram-se com a barriga os mesmos casinhos pendentes. Cada dia se silencia um pouco mais sobre as promessas e assim a gente vai levando. O choque de mudança fica para 2015, quem sabe um presente natalino no Dia de Reis. Assim, vai mudar, só não se sabe quando e a que ponto num dois pra lá, dois pra cá.

sábado, 1 de novembro de 2014

A verdadeira face do Brasil


A vida curta da mentira eleitoral



Prometa uma coisa e faça o contrário.


Há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia.
Bom esse Shakespeare. Sabia das coisas. Não votava nem no PT nem no PSDB mas era antenado na tal da alma humana.

Durante a campanha eleitoral, o PT, pai e protetor dos pobres, mostrou, sem nenhuma clemência, que Marina Silva, a seringueira fajuta, na verdade era instrumento dos banqueiros para instalar-se no poder e sugar os pobres. A Sra. Neca Setúbal, com esse sobrenome, era a prova viva da conspiração banqueiro-seringueira.

Os anúncios de João Bendengó Santana mostravam uma mesa onde crianças comiam a sua ração diária, que ia sendo apagada e reduzida à medida em que os banqueiros avançavam sobre a taxa de juros. Cada meio ponto a mais na taxa de juros, as proteínas e os carboidratos iam sendo apagados dos pratos das crianças pobres.

Um anúncio sórdido como esse chegou a ser classificado como muito talentoso por profissionais da publicidade. E por profissionais da militância.

Tudo isso para que 72 horas depois da apertadíssima reeleição de Dilma Rousseff, o Banco Central anunciasse uma elevação de 0,25% na taxa básica de juros. Por que os bancos centrais aumentam a taxa de juros? Para controlar a inflação. Mas a inflação, não repetiu exaustivamente a soberana nos debates eleitorais, já não estava sob controle?

A escolha do ministro da Fazenda que substituirá o zumbi Guido Mantega, é outro mistério. O primeiro nome que circulou foi o do presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco. Quer dizer: quem votou em Dilma para evitar que Marina ou Aécio entregassem o país para os banqueiros só trocaria a bandeira do banco: do Itaú de dona Neca para o Bradesco de Trabuco.

Seria uma maneira de tranquilizar o mercado. Embora Lula, em uma de suas inúmeras bravatas, tenha dito que ele (e o PT, por supuesto) nunca governaram para o mercado, até os paralelepípedos da rua sabem que a famosa Carta ao Povo Brasileiro de 2001, que Antônio Palocci submeteu à aprovação de Joao Roberto Marinho (“o povo não é bobo/abaixo a rede Globo”), era mais do que um aceno ao mercado. Era um juramento de que o programa do PT seria arquivado e que a política econômica (neoliberal?) de FHC seria seguida religiosamente.


Bandeira anticorrupção murcha

Às pressas, senador inclui em texto de Medida Provisória um artigo que alivia multas a quem desvia dinheiro público. Quem seria beneficiado? O próprio autor
Uma das bandeiras mais levantadas durante a campanha eleitoral nas eleições deste ano foi o combate à corrupção. Em discursos inflamados, candidatos ao Congresso, ao Senado e à presidência, criticaram veementemente os crimes de corrupção na Petrobras e no poder público, de modo geral, prometendo combatê-los. Mas dizem que santo de casa não faz milagres. Ou ao menos não tão facilmente. Prova disso foi a votação da Medida Provisória 651, primeiro pelo Congresso, a uma semana do segundo turno das eleições, e depois pelo Senado, três dias depois da vitória de Dilma Rousseff.

A MP 651 trata, essencialmente, da desoneração da folha de pagamento de diversos setores. Um dos seus mais de 100 artigos, porém, se tornou polêmico. O artigo 35, que abriria uma brecha para aliviar as dívidas de condenados por desvios de dinheiro público. O artigo define o parcelamento, desconto e a redução de juros e multas às dívidas de “qualquer natureza perante a Fazenda Nacional”, segundo o texto.

Ou seja, as cobranças a servidores públicos que tenham se apropriado indevidamente de recursos oriundos do contribuinte poderiam ter redução ou até a exclusão total dos juros e multas, além da possibilidade de ser parceladas em até 15 anos, de acordo com a lei. Passados os horários políticos e os debates eleitorais, parece que tudo voltaria ao normal em Brasília, onde o discurso de endurecer perante à corrupção, muitas vezes, não condiz com a realidade.
 Não foi à toa que o senador Gim Argello tentou incluir o artigo em cima da hora. Alvo de seis investigações no Supremo Tribunal Federal por suspeita de lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, falsidade ideológica, peculato e crime contra lei de licitações, Argello, se vier a ser condenado, poderia ser o próprio beneficiado dessa brecha. 

Três perguntas para Dilma



Dilma Rousseff obedeceu a uma lei de ferro da vida eleitoral: como candidata vitoriosa, pronunciou um discurso que parecia ter sido redigido por Aécio Neves, seu rival. Falou em mudar, não em conservar o que já foi conquistado. Anunciou um acordo com os adversários, que, de repente, deixaram de ser os inimigos do povo. Propôs uma aproximação com os setores produtivos. E comprometeu-se a reduzir a inflação e buscar a estabilidade fiscal. Esta correção do tom conceitual da campanha, em vez de esclarecer, aprofunda os três grandes enigmas que a vitória apertada do PT coloca no Brasil.

A primeira pergunta é como Dilma vai se movimentar no novo tabuleiro do poder. Com seu discurso, a campanha da presidenta estimulou uma contradição de pobres contra ricos, Norte contra Sul, povo contra elites brancas. Quem aspira construir hegemonias sempre apela para essa estratégia bipolar. O problema é que as urnas negaram ao PT os recursos para essa hegemonia. O PT perdeu 18 deputados em um Congresso pulverizado entre 28 partidos. E vai governar apenas um dos grandes Estados brasileiros: Minas Gerais.

O vínculo com a oposição foi prejudicado por uma agressividade de discurso que o Brasil desconhecia. Por isso, a presidenta vai depender mais de sua aliança com o PMDB, que tampouco lhe bastará para ter maioria em matéria de deputados. O PMDB perdeu 13 assentos e é um agrupamento anfíbio, que em mais de um terço dos Estados apoiou Aécio, do PSDB. A divisão dos 39 Ministérios do gabinete federal será uma tarefa para mágicos.

É hora da caça ao dinheiro

"Devo e não nego. Pagarei quando puder"
Governador reeleito da Paraíba, Ricardo Coutinho (PSB),
aliado de Dilma a quem pede agora dinheiro para pagar gastos
Foi dada a largada para a romaria. A partir da próxima semana candidatos do PT e de aliados, vitoriosos ou derrotados, seguem de pires na mão para Brasília, onde esperam ordenhar nas tetas republicanas, controladas por Dilma, o dinheirinho para saldar os débitos de campanha. O livro-caixa da maioria ficou no vermelho depois de aplicarem o que tinham e não tinham na corrida para assegurar a cadeira, com que poderiam pagar seus débitos.

Querem esse socorro de Dilma, entre muitos outros, Lindinho, do Rio de Janeiro, e Alexandre Padilha, de São Paulo, ambos petistas, que tiveram resultados pífios, mas ainda assim contribuíram com seus votinhos para a reeleição. Vão cobrar pela mãozinha!

A coordenação no Rio de Janeiro, feita por Quaquá, presidente regional do PT, que aplicou milhões e milhões – a maior parte dos cofres de Maricá – para eleger a mulher para a Alerj e o companheiro para a Câmara federal, está com um rombo de R$ 6 milhões para ser coberto. Padilha, outro que ficou na rabeira, deve a merreca de R$ 30 milhões.

É de uma cretinice sem tamanho esse esbanjamento de dinheiro dos governistas. Em nome de serem defensores, únicos e abençoados, dos pobres, campeões da luta contra a miséria, paladinos contra o desemprego, fizeram a esbórnia financeira, gastaram a rodo em tudo que podiam, e agora vão assaltar os cofres que devem abastecer o povo em saúde, educação, desenvolvimento.

São os mesmos que carregam bandeiras de Minha Casa Minha Vida, Bolsa Família, que seguem para o Planalto, pimpões, em aviões, bem instalados e alimentados. Querem a grana que é de todos, por se acharem merecedores, para pagar suas contas de salafrários, adjetivo mais suave, para quem se fantasia de Robin Hood, mas não passa de Al Capone.   

A quarta vitória de Lula


Lula mal conseguiu sua quarta vitória, já está a caminho da quinta. E disso parece não fazer segredo.

Numa campanha milionária e feia, indigna de um ex-presidente, dizendo tudo que lhe vinha à cabeça porque o importante era a vitória de dona Dilma, não por ela, nem pelo Brasil, mas por ele mesmo que, em 2018, quer de volta a faixa presidencial, Lula venceu mais uma vez.

Em um vídeo gravado anteontem no Instituto Lula, o ex-presidente além de queixar-se amargamente das agressões sofridas pelo angelical PT, fala em tom calmo e civilizado, com palavras bem escolhidas, num linguajar em tudo diferente do usado nos palanques. Devemos ser justos: que grande ator é o Lula! 

Veja bem, ilustre eleitor: Lula mal conseguiu sua quarta vitória, já está a caminho da quinta. E disso parece não fazer segredo. Desta vez, apesar de todos os truques mirabolantes, a vitória foi apertadíssima. Coisa pouca, mesmo. Como será daqui a quatro anos, é o que me pergunto.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Feliz sexta-feira na Bahia


'Continuemos assim' seria fatal para o Brasil


Depois de 12 anos de PT, a esquerda se tornou conservadora, e a direita pressiona por mudanças. Só que Dilma não pode ignorar as reformas reivindicadas
"Nada de experimentos! Manter o curso! Continuemos assim!" Quem diria que justamente os velhos slogans eleitorais dos conservadores alemães se aplicariam ao Partido dos Trabalhadores (PT) brasileiro? A legenda da presidente Dilma Rousseff se tornou conservadora. Ela quer preservar o status quo, prosseguir como fez até agora.

A maioria dos eleitores brasileiros tampouco queria experimentos: 51,64% deram seu voto a Dilma; o adversário Aécio Neves, do conservador PSDB, ficou com 48,36%. Em especial os eleitores das camadas mais pobres temeram que as reformas prometidas por Aécio também não fossem poupar os programas sociais.

É paradoxal, mas, depois de 12 anos de PT no poder, os conceitos políticos se deslocaram. A esquerda se tornou conservadora; a direita, por sua vez, pressiona por mudanças. Mas todo o Brasil não está ansiando por revolução e mudança? Os enormes protestos de junho de 2013, pelo menos, foram interpretados como indício inconfundível da insatisfação crescente com o governo da presidente Dilma.
Aécio não conseguiu usar em favor próprio essa insatisfação crescente. Sua campanha anti-Dilma teve sucesso sobretudo junto àqueles que já estavam céticos em relação ao PT. Os eleitores indecisos ou os simpatizantes do Partido dos Trabalhadores, esses ele não conseguiu convencer de seus méritos.

Dilma, por sua vez, reagiu com habilidade aos protestos de 2013 e "mandou ver". Ela trouxe médicos cubanos para o país e se empenhou para que o Congresso aprovasse duas leis que há anos estavam na gaveta: o emprego da receita adicional da exploração do petróleo nos setores de saúde e educação; assim como a definição da corrupção como crime hediondo.

Dilma não podia nem pretendeu acabar com a polarização da sociedade brasileira. Vencida a eleição, os petistas se encontram diante de um monte de destroços políticos. Escândalos de corrupção abalam o partido, investidas verbais abalaram relações pessoais, uma burocracia inflada fornece guarida a aproveitadores políticos.

É preciso conversar

Mesmo que as pessoas não concordem em algumas coisas, elas precisam conversar. Conversar, todos sabem, não arranca pedaço
Renan Calheiros, presidente do Senado 

Brasil, o mundo de amanhã


No novo mandato de Dilma Rousseff, o país enfrenta o desafio da modernização. Seria bom apostar nos talentos mais jovens e atender as expectativas de uma geração que exige um futuro melhor
Brasil e América Latina estão novamente numa encruzilhada. A região inteira está se despedindo de uma belle époque, um tempo de altas taxas de crescimento impulsionadas pelo empurrão das matérias primas. Com a irrupção da China no xadrez mundial, no início dos anos 2000, a América Latina viveu uma bonança sem precedentes. Esse motor está parando. O efeito do conto chinês ainda se mantém. Mas estamos vendo o fim de uma época. Como em “O Mundo que Eu Vi”, aquele canto de cisne escrito por Stefan Zweig no Brasil, toda a região deve despedir-se dos velhos tempos que passaram. E não voltarão.

As eleições brasileiras, que terminaram com a apertada reeleição de Dilma Rousseff, reforçam uma virada na região. Em todos os países – inclusive no sempre exemplar Chile – vê-se uma economia política da impaciência. Os jovens, que estão entrando no mercado de trabalho, pedem melhores condições e as classes médias, que se fortaleceram com a bonança, pedem melhores serviços públicos, mais e melhor educação, saúde, transporte. Os protestos de rua vistos nos últimos meses em Santiago, São Paulo e Lima têm uma mesma matriz, uma crescente demanda por melhor redistribuição das riquezas das nações. 

Nas estatísticas, Brasil é um dos menos corruptos


De duas, uma. Ou a corrupção que grassa no Brasil não ultrapassa nossas fronteiras ou ultrapassa, sim, mas os poderes encarregados de combatê-la estão pouco se lixando para isso.

Dilma Rousseff atravessou os dois turnos da recente eleição presidencial empenhada em convencer os brasileiros que seu governo, e os dois anteriores de Lula, sempre travaram o bom combate contra a corrupção.

Segundo o novo relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) sobre a Convenção de Combate ao Suborno de Funcionários Públicos Estrangeiros em Transações de Negócios Internacionais, na verdade falta ao Brasil vontade política para aplicar de forma eficaz os progressos de sua legislação contra a corrupção transnacional.

Leia mais o artigo de Ricardo Noblat


As pedras no caminho

Nas eleições presidenciais, o risco de derrota sempre existiu. Uma das causas foi a inapetência em simplesmente fazer política, lubrificada sobretudo pela conversa mole. Agora, passada a fantasia eleitoral, o caminho recomeça a ser trilhado com muitas dificuldades e uma grave herança maldita na política.  Para piorar, ronda, tal qual um dragão alado sobre o universo político, o avanço das investigações do Petrolão! 
Murillo de Aragão, "Caneladas de início"  

Um clique para a pose angelical


A campanha eleitoral não só deixou arranhões, marcas, hematomas, tal a sua agressividade. Ficaram lições da guerrilha petista, insuflada pelos seus comandantes, que abusou da calúnia, infâmia e difamação. Lições para se refletir sobre em que Estado vivemos. E não é nada bom o que se vê.

Com ordens de baixar o cacete, fazer o diabo, os comandos petistas e aliados mostraram do que são capazes quando têm as costas quentes. Em nenhum momento, foram advertidos da insanidade por quem de direito. Saíram como cachorros loucos, babando raiva como tropa do Estado Islâmico. Até a candidata entrou no coro dos enlouqueidos, levianamente, num exemplo de quem pouco ligou para respeito e discussão de ideias.

A pancadaria petista se viu liberada para bater em quem decidia em seus tribunais de esquerda festiva. O tacape se deu ao desvario em época de campanha, mas mesmo fora dela o regime popularizou a caça a quem apelidam de "eles".

Não é de hoje que o uso das instituições em nome de defender os petistas de críticas virou rotina. Taxam adversários como caluniadores, infames, detratores, mentirosos. Bancam mesmo ações judiciais contra o que apelidam de injúrias.

A internet está entulhada de casos da perseguição petista, sempre indignada com as críticas, que não tolera contra si.

Nos feudos municipais dominados pela gente do PT, a perseguição é conhecida há anos. Blogues são silenciados, saem do ar, a tropa de soldados entope caixas com comentários os mais agressivos. O inferno não é de hoje nessas localidades. Fedem longe as agressões de quem não convive com críticas, nem as mais leves.

Têm como exemplo o capo di tutti capi. Saiu batendo e denegrindo uns e outros, agora acena com o paz e amor de outros tempos, como um anjo da reconciliação com alto DNA de falsidade. No cúmulo da canalhice, diz que o "Nóis" como se identificam sofreram o pão que o diabo amassou. E agora estão prontos para a foto angelical e, se duvidarem, posam até com as bençãos papais.