quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Uma epidemia mundial de passividade: a câmera na mão

Um teto em chamas, pânico, mortes. Mais um incêndio em boate, mais uma vez pelo mesmo motivo: fogos de artifício em ambiente fechado. República Cromañon, Buenos Aires, 2004, 194 mortos. Boate Kiss, Santa Maria, 2013, 242 mortos. Le Constellation, Alpes suíços, semana passada, 40 mortos. Em algum momento vamos entender que não se acendem fogos dentro de boates.

As tragédias se repetem, mesmo assim seguimos como se fossem inéditas.

Mas não é sobre o incêndio em si que quero escrever. É sobre algo maior: a quantidade de vídeos gravados na boate suíça. Vejam bem, era um lugar que estava pegando fogo. Nas gravações que circulam por aí, há várias pessoas filmando o incêndio sobre a própria cabeça; em uma delas, quatro pessoas filmam quem tenta apagar o início do fogo com o próprio casaco.


Uma pessoa viu o perigo e resolveu agir. Outras quatro acharam que o melhor não era ajudar, chamar os bombeiros ou mesmo gritar por socorro. Decidiram que o certo era filmar o incêndio se espalhando e só. Não quero dizer que os quatro foram irresponsáveis ou culpados, afinal eram eles mesmos as possíveis vítimas. Só que o gesto revela algo mais assustador: uma epidemia mundial de passividade, com câmera na mão.

Estamos acompanhando há mais de uma década a escalada: Primeiro, a multiplicação dos celulares, produzindo milhões e milhões de fotos e vídeos. Quando a memória dos aparelhos já não dava conta de tanta imagem, vieram as redes sociais e o frenesi dos likes e compartilhamentos. Só existe o que for filmado.

No começo parecia algo inofensivo: em shows, festas e eventos, eram cada vez mais celulares no alto, registrando tudo o que acontecia. De início os mais velhos ficaram chocados: qual o sentido de pagar caro por um ingresso, conseguir um bom lugar e passar o tempo todo filmando o que está em volta, sem prestar atenção ao que está na frente? Os mais velhos ainda reformularam a pergunta do Caetano em “Alegria, Alegria”: quem vê tanta imagem?

O que não entendíamos é que não bastava mais estar aqui e agora: é preciso se projetar nos olhos dos outros. Alguns acharam que era o ovo da serpente, o começo de uma era de dispersão crônica e exibicionismo agudo, mas a maioria não se importou muito. Que mal há em desperdiçar um show, um ingresso? São jovens; logo vão entender que só o que sentimos fica na memória.

Infelizmente, não parou nos shows, festas e eventos.

Hoje temos gente caindo de penhascos ou sendo levada por ondas porque queria uma selfie mais ousada, que desse mais engajamento. Há casos de acidentes em que se veem várias pessoas filmando, sem que façam nada. Ninguém é obrigado a atuar como herói e sabemos que a solidariedade está fora de moda, mas nem sequer usam o telefone para chamar os bombeiros ou a polícia. Em qualquer catástrofe, lá estão as testemunhas com o celular apontado, impassíveis, sem qualquer tipo de empatia, como se a tragédia fosse um espetáculo que existe apenas para ser compartilhado online.

Assim como é necessário repetir até cansar que não é para acender fogos em ambientes internos, vai ser necessário repetir que em situações de perigo é preciso guardar o celular no bolso e ajudar, fugir ou pedir ajuda.

Venezuela: Ataque de Trump foi 'Piratas do Caribe' sem graça

Em tempos houve uma distinção entre piratas e corsários. Os piratas atacavam barcos e cidades costeiras, roubavam, pilhavam e faziam mil malfeitorias, ilegalmente, e portanto eram feios, porcos e maus. Os corsários faziam tudo isso, mas com uma carta outorgada por um soberano, e portanto eram belos, bravos e legais.

O que aconteceu esta semana na Venezuela é como se no século 17 um desses monarcas tivesse decidido acabar com o fingimento dizendo: "Pessoal, não há diferença entre piratas e corsários, é tudo a mesma coisa. Os soberanos já não precisam fingir fazer o bem, podem pilhar como se fossem piratas, e admiti-lo."


Os argumentos de Vladimir Putin já eram tacitamente esses. Ele não precisava convencer ninguém de que estava do lado do bem, bastava insinuar que todos os líderes eram igualmente maus. E Donald Trump fez agora o mesmo no Caribe, só que foi ainda mais ostensivo.

Este estado de coisas faz com que não haja atividade mais humilhante no mundo do que a de quem tenta justificar Trump. O próprio presidente dos EUA acaba sempre por aparecer, um par de horas depois, dizendo em voz alta tudo aquilo que supunha-se estar encoberto por um manto diáfano de mentiras e pretextos.

Os justificadores de Trump ainda procuram fazer como antes e encontrar boas razões para maus atos (a democracia, os direitos humanos, o combate às drogas etc.) para logo serem desmentidos pelo próprio homem assumindo que o negócio dele é mesmo o petróleo e o exercício nu e cru do poder.

Para alguns observadores pode até parecer que a situação atual é preferível, porque caiu a máscara da hipocrisia. Mas não é. Entramos num mundo muito mais perigoso, e toda a gente vai ter de se adaptar.

O mundo ficou mais perigoso porque a hipocrisia é, afinal, o entendimento comum de que as justificações para os nossos atos têm de ter um quadro moral que, no caso presente, é o do direito internacional.

Se neste novo mundo o que vale é apenas o que o líder mais forte, mais tirânico, mais armado e mais desavergonhado quer, então ninguém está propriamente a salvo, a não ser que esteja armado até aos dentes, de preferência com armas nucleares. Imagino que muitos países, incluindo talvez o Brasil, estejam agora a pensar nisso mesmo.

E o mundo ficou mais perigoso ainda porque, como é hábito acontecer nestas situações, as nossas sociedades vão estar divididas entre os inconformados de um lado e os apaziguadores, oportunistas e traidores do outro. E essa reorganização vai esvaziar a política de sentido e inverter sua moral, ficando apenas a ideia de que realismo é aceitar a todo o momento aquilo que os chefes do mundo quiserem, mesmo que queiram a cada momento coisas diferentes. Que o mundo, no fundo, é só o mando de quem pode mandar e a obediência de todos os outros.

Na "Guerra dos Mundos", de H. G. Wells, há a figura de um oportunista que vende a sua rendição aos marcianos como realismo, não como traição. Assim vai ser agora, só que Trump no lugar do marciano que quer subjugar a Terra. Contra os que acharem que a capitulação é o caminho, afirmemos que a dignidade é neste momento o supremo realismo.