segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Pensamento do Dia

 


Gilded Age e a bolha das big tech

Fala-se em Mark Twain e imediatamente nos lembramos das aventuras de Huckleberry Finn e Tom Sawyer, no sul dos Estados Unidos da América. Mas foi o seu menos conhecido livro The Gilded Age: A Tale of Today que deu o nome ao período histórico entre 1870 e finais de 1890. Um período da História dos EUA marcado pela expansão económica e o excesso materialista. O desenvolvimento tecnológico, com a expansão do caminho de ferro, marcou a época, financiado via mercado de capitais de Wall Street. A economia era dominada por monopólios, que controlavam todas as fases de produção de um determinado bem. A mecanização promoveu a eficiência. Os comboios criaram a gestão moderna, que se expandiu dos caminhos de ferro para os setores financeiro, industrial e comercial. O comboio mudou a América, homogeneizando culturalmente um país de dimensão continental.

O lado negro do desenvolvimento desenfreado foi a disparidade económica, onde 1% dos mais ricos detinham 51% da riqueza. Isto, enquanto o big business condicionava as decisões políticas, financiando políticos de forma a garantir que os negócios em expansão não eram objeto de regulação. Para a História, os presidentes americanos da Gilded Age são denominados forgotten presidents (os presidentes esquecidos), dada a sua prestação medíocre na defesa da causa pública.

A industrialização exigia mão de obra, fomentando a imigração europeia e chinesa. A imigração tornou-se um tema político e a imigração chinesa chegou a ser proibida.


A Golden Age terminou fruto de duas crises financeiras, conhecidas como Panic 1873 e Panic 1893. Mais de 100 empresas ferroviárias e 500 bancos faliram e 15 000 negócios sucumbiram. Um número gigantesco para a economia da época. O índice de desemprego escalou, atingido 35% no estado de Nova Iorque (o mais dinâmico). Multiplicaram-se as sopas dos pobres.

A bolha dos comboios explodiu e deixou rasto.

Lemos sobre a Gilded Age e parece o nosso presente. O desenvolvimento tecnológico, os monopólios, a promiscuidade entre a política e as grandes empresas tecnológicas, a desregulação, a desigualdade social, a imigração…

Discute-se se, ou melhor, quando, irá explodir a bolha das big tech. As próprias já se prepararam. A dívida tomada para construir a infraestrutura desta revolução está a ser desviada dos balanços destas empresas para SPV (special purpose vehicles), ou seja, sociedades que emitem dívida, que financia a construção dos data centers. Como garante da dívida já não estão os balanços das big tech e os seus muito rentáveis negócios, mas os data centers cuja construção afirmam ser indispensável para atingir a Inteligência Artificial Genérica. O jornal Financial Times dava conta, num artigo recente, de que o risco de a bolha tecnológica explodir “estava agora em Wall Street”.

Mas o que significa “estar” em Wall Street? Significa que o risco está com os investidores institucionais e entre estes os mais relevantes são os fundos de pensões e seguradoras. Pressionados por garantir rentabilidades que lhes permitam no futuro fazer face aos compromissos de uma população envelhecida, são atraídos pelas rentabilidades mais elevadas da dívida das big tech. Caso a bolha venha de facto a explodir, não serão Mark Zuckerberg ou Larry Ellison (respetivamente, os donos da Meta e da Oracle) a sentir o estoiro, mas o cidadão comum, que mensalmente paga prémios de seguro e desconta para o fundo de pensões.

A crise financeira de 1890 permitiu reequilibrar poderes, com o Estado a assumir o seu papel de regulador da economia. À Gilded Age sucedeu a Progressive Era, marcada por um esforço reformista. Será também necessário a bolha das big tech explodir, com o seu expectável custo social, para que o Estado retome o seu papel na defesa do bem público?

Ilusionismos são perigosos em ano eleitoral

Quem não gosta de uma boa ilusão? Todo espetáculo do mágico Harry Houdini, fosse qual fosse a novidade apresentada, deixava maravilhadas gerações de crianças e adultos. Húngaro de nascimento e cultuado até hoje por sua arte inimitável, Houdini era simplesmente o maior e melhor de sua época (1874-1926). Uma noite específica se tornou histórica — a de 7 de janeiro de 1918, que reuniu 5.300 espectadores num vasto anfiteatro de Nova York, o antigo Hippodrome Theater. Saíram dali boquiabertos.


Uma elefanta que pesava perto de 7 toneladas fora trazida para o palco dentro de um contêiner giratório, aberto, como carroça de circo. Chamava-se Jennie, era filha de Jumbo, gentil e gostava mais de açúcar que de ganchos. Apresentada aos três níveis da sala (orquestra, balcões e galerias), sem jamais sair do campo de visão do público, a mastodonte rotacionava 180 graus iluminada de todos os ângulos o tempo todo. Nada mais parecia haver no palco além de 30 homens que acionavam polias e cabos. Em determinado momento, Jennie sumiu. Houdini a fizera desaparecer num passe de mágica analisado até hoje. Para aficionados do caso ou de leitura de férias, “Hiding the elephant”, de Jim Steinmeyer, talvez seja a melhor entre as muitas versões, explicações e teorias sobre o feito.

Viradas de ano costumam ser propícias à construção de ilusões, luas de papel ou castelos de areia. Não confundir com a arte da magia, a que Houdini deu grandeza benigna e humanista. Coube ao alemão Thomas Mann fazer caminho inverso, ao explorar o uso maligno e desumanizante do ilusionismo como arma política.

“Mário e o mágico: Uma experiência trágica de viagem” é uma novela de pouco mais de cem páginas publicada depois do colossal “A montanha mágica”, de 1924. Ambientada num balneário do sul da Itália em período de ascensão do fascismo, a história acompanha uma família alemã de férias, cujos dias de descanso são assombrados por uma atmosfera opressiva, indefinida.

A experiência da família atinge o clímax quando ela se junta à população local para assistir à apresentação de um hipnotizador de audiências, o mágico Cipolla. Figura grotesca e carismática, o ilusionista criado pelo escritor porta o título de “Il Cavaliere Cipolla”, evocando Mussolini. Seus métodos e manipulações funcionam como alegoria para o autoritarismo emergente na Itália. Cipolla é o “moderno domador das multidões, homem de vontade e ação, cuja astúcia e energia estavam inteiramente a serviço do mal”.

A aparência do mágico — um homem fisicamente deformado, fumante inveterado, de dentes estragados e pele amarelada — apenas camufla seu extraordinário poder hipnótico. Domina a multidão com um carisma inquietante e uma espécie de supremacia psicológica. Ao longo do espetáculo, Cipolla constrange o público a executar atos bizarros e humilhantes, como fazer um homem contorcer-se de dor por mera sugestão ou obrigar outro a servir de banquinho humano. Escolhe uma pessoa por noite para servir-lhe de alvo. O público ri, aplaude, se entrega à manipulação, e o espetáculo vai ganhando em intensidade, mal-estar e crueldade. O clímax ocorre quando Cipolla chama um garçom local que assistia de pé ao espetáculo — o Mário do título — e o obriga a beijar sua repulsiva boca na presença da noiva.

Nesse momento, a obediência de Mário se rompe. Ele se rebela contra a humilhação pública e mata Cipolla com dois tiros após descer do estrado, quebrando o feitiço que o mágico exercia sobre os demais. Com a chegada da polícia, a família de veranistas alemães foge do local, no que pode ser lido como uma libertação ambígua e ilusória, tingida de trauma. Afinal, não tardaria muito para que brotasse, na própria Alemanha, a insânia hitlerista.

Com o mundo recém-estreando 2026 e eleições múltiplas na agenda, convém lembrar o poder sedutor de manipuladores de massas. Candidatos a Cipollas não faltam, e cumplicidade passiva de multidões perante regimes sem freios, também não. É relativamente rápida a decomposição ética de uma sociedade enquanto o público ri.

O que falta são Houdinis, cuja arte é honesta. E faltam Mários, muitos Mários, para quebrar a marcha da ilusão. Mas sem tiros, por favor.

Fascismo e irracionalidade

O fascismo e suas variantes são uma preocupação constante para os democratas ao redor do mundo. Suas principais características estão presentes na política externa norte-americana e, também, no populismo latino-americano.

Tanto Donald Trump quanto Nicolás Maduro são exemplos perfeitos disso.

Refiro-me aqui às características do fascismo clássico italiano. São elas: nacionalismo exacerbado, irracionalidade, corporativismo sindical, conluio com o grande capital, presença do líder carismático, desprezo pelas instituições, demagogia recorrente, autoritarismo frequente e corrupção sistêmica. Um pacote completo, logo se vê.

Contudo, desses componentes da doutrina e da prática fascistas, o principal, a meu ver, é a irracionalidade. Se a Grécia desenvolveu, sobretudo no século V a.C., o pensamento, a literatura e a retórica, isso se deveu ao seu compromisso inabalável de buscar entender o homem do seu tempo por meio da razão. E razão é o que mais falta faz no mundo de hoje, sobretudo no contato entre as nações.

A situação atual se aproxima perigosamente daquela que forjou um cenário de guerras mundiais no passado. Daí a necessidade de uma política de Frente Ampla, e, também, da valorização da coexistência pacífica entre os povos do mundo.
 Ivan Alves Filho

Auto-consumação

Esta onda de extremismo se consumirá a si mesma, porque as promessas dos populistas serão confrontadas pela sua incapacidade de criar um mundo melhor e mais seguro.
Mia Couto

Uma ideia subversiva: o ar é de todos

Os cientistas descobriram uma forma de canalizar todo o ar respirável que há no mundo. Nem um fôlego fica de fora. São agora capazes de o separar por grau de pureza, odor e níveis de concentração de oxigénio. Foi a maneira ideal de fugir à poluição que se instalou em vastas zonas do planeta. E, claro, agora o ar está à venda. Há para todos os gostos e (claro) para todas as carteiras. Há o que vem canalizado diretamente das mais altas montanhas dos Alpes, puro, sadio e frio. O que vem misturado com a maresia do Atlântico Norte, salgado e intenso, ou o mais cálido e com cheiro a aloendros, vindo do Mediterrâneo. Há o seco e ligeiramente áspero, que vem dos desertos, ou o húmido, carregado de notas de verde, trazido das florestas tropicais. Isto para os que podem pagá-lo.

Há, obviamente, versões mais baratas. Ares saturados de químicos, recolhidos junto a fábricas, poluídos e estafados, apanhados nos centros das grandes metrópoles, pestilentos e pesados, vindos diretamente das imediações de esgotos a céu aberto das mais sombrias favelas. Cada um paga o que pode. Mas todos pagam.

Há quem só respire de vez em quando, caindo zonzo no chão, de tanto suster a respiração. Há quem trabalhe horas extraordinárias para levar para casa mais um pouco de ar para a família. Há quem ande de mão estendida, mendigando pelo sopro de que precisa para se aguentar. Para os que são realmente miseráveis, inventou-se um sistema subsidiado pelo Estado, que entrega a conta-gotas ar de baixa qualidade. Mas as filas de espera são enormes. De cortar a respiração.


A iniciativa privada, que controla todo o negócio, incluindo a parte que vende aos serviços públicos, a preços inflacionados, também não se esquece dos que mais precisam. Por isso, há eventos de caridade, destinados a angariar fundos para quem não tem como pagar o ar que respira. E uma vez por ano organiza-se um grande sorteio para atribuir ar gratuito vitalício a quem comprar a senha vencedora. Há quem diga que esta lotaria tem levado muitos sonhadores à miséria, gastando o pouco que têm na esperança de serem premiados com ar, mas, como é claro, o problema é o vício do jogo que afeta os mais fracos.

Nos recreios, as discussões deixaram de acabar com a frase: “O ar é de todos.” Já não faz sentido. O ar é de quem pode pagá-lo. E essa é que é uma frase que não tem discussão, porque já ninguém se lembra dos tempos em que pagar para respirar era só uma piada arrevesada. Só os muito antigos têm uma vaga lembrança de que em tempos não era preciso comprar o ar. Mas já só de ouvir contar. E a maioria aposta que a história é uma lenda, daquelas que se contam às crianças, ou talvez o delírio de uma utopia esquecida do passado.

Só os historiadores sabem que tudo começou quando se percebeu que toda a água tinha de ser cobrada. Não só a que saía das torneiras, pura e cristalina, mas também a que jorrava dos céus em dias de tempestade, a que corria por rios e riachos e, claro, a que estava nos lagos, mares e oceanos. Era o que fazia sentido. Era o que era sensato. Que desvario isso de pensar que uma coisa tão valiosa podia só existir sem ser comercializada! Se não pagamos algo, como podemos dar-lhe valor?

Foi assim que começou a combater-se o desperdício. Claro que muitos morreram à sede e milhares foram explorados para ter o que beber. Mas foi o progresso a acontecer. E se milhões caíram numa endividada miséria para ter o que beber e o que respirar, é preciso que se diga que isso os impediu de cair numa indolência acomodada, fê-los sair da sua zona de conforto e permitiu estimular o empreendedorismo. Além disso, floresceram as fortunas antigas, já donas de terrenos onde corriam cursos de água, e capazes de investir nas tecnologias inventadas para garantir a monetização deste recurso.

Isso aumentou a desigualdade? Sem dúvida. Mas esse é o efeito colateral do progresso. Pelo menos, é isso que acham os ricos herdeiros, sentados em cima do seu mérito, vivendo das rendas do ar e da água.

Um dia, houve alguém que encontrou um livro poeirento, esquecido numa velha biblioteca abandonada, que falava de Direitos Humanos e coisas que tinham de ser garantidas a todos. Foi preciso encontrar grandes especialistas para decifrar aquela mensagem bizarra e antiquada, na qual se falava – entre outras excentricidades esdrúxulas – da habitação como um direito. “Como assim?”, perguntou-se quem leu sobre este escrito antigo nas notícias. “O que é um direito?”, questionaram-se alguns, antes de passar à frente para ver os resultados do campeonato de futebol.

Felizmente, ninguém levou a sério aquelas patacoadas, sobreviventes em páginas amarelecidas, escritas num tempo em que uns tolos sonhadores, desconhecedores das maravilhas do pragmatismo realista dos nossos dias, ousaram pensar que podiam existir coisas dadas a quem nada fez para as merecer sem que elas fizessem parte de uma herança. Eram ideias loucas, insensatas. E, por isso, ficaram guardadas no mais recôndito e escuro depósito de um museu, acessíveis apenas a especialistas devidamente habilitados a lidar com tais pensamentos subversivos sem ficarem por eles contaminados.

Agora, falta perceber como é que se pode cobrar pela luz do dia ou pelo céu nas noites estreladas ou nas (obviamente) mais caras noites de lua-cheia. Os cientistas já estão a estudá-lo. E chegarão certamente à melhor fórmula para garantir que nada se desperdiçará. Nada ficará por explorar. E, sobretudo, que ninguém ouse pensar que tem direito a alguma coisa só por existir (a menos, claro, que se trate de alguma coisa herdada da família). É assim que o mundo faz sentido. E nem é possível imaginar que pudesse ser de outra maneira.