Uma elefanta que pesava perto de 7 toneladas fora trazida para o palco dentro de um contêiner giratório, aberto, como carroça de circo. Chamava-se Jennie, era filha de Jumbo, gentil e gostava mais de açúcar que de ganchos. Apresentada aos três níveis da sala (orquestra, balcões e galerias), sem jamais sair do campo de visão do público, a mastodonte rotacionava 180 graus iluminada de todos os ângulos o tempo todo. Nada mais parecia haver no palco além de 30 homens que acionavam polias e cabos. Em determinado momento, Jennie sumiu. Houdini a fizera desaparecer num passe de mágica analisado até hoje. Para aficionados do caso ou de leitura de férias, “Hiding the elephant”, de Jim Steinmeyer, talvez seja a melhor entre as muitas versões, explicações e teorias sobre o feito.
Viradas de ano costumam ser propícias à construção de ilusões, luas de papel ou castelos de areia. Não confundir com a arte da magia, a que Houdini deu grandeza benigna e humanista. Coube ao alemão Thomas Mann fazer caminho inverso, ao explorar o uso maligno e desumanizante do ilusionismo como arma política.
“Mário e o mágico: Uma experiência trágica de viagem” é uma novela de pouco mais de cem páginas publicada depois do colossal “A montanha mágica”, de 1924. Ambientada num balneário do sul da Itália em período de ascensão do fascismo, a história acompanha uma família alemã de férias, cujos dias de descanso são assombrados por uma atmosfera opressiva, indefinida.
A experiência da família atinge o clímax quando ela se junta à população local para assistir à apresentação de um hipnotizador de audiências, o mágico Cipolla. Figura grotesca e carismática, o ilusionista criado pelo escritor porta o título de “Il Cavaliere Cipolla”, evocando Mussolini. Seus métodos e manipulações funcionam como alegoria para o autoritarismo emergente na Itália. Cipolla é o “moderno domador das multidões, homem de vontade e ação, cuja astúcia e energia estavam inteiramente a serviço do mal”.
A aparência do mágico — um homem fisicamente deformado, fumante inveterado, de dentes estragados e pele amarelada — apenas camufla seu extraordinário poder hipnótico. Domina a multidão com um carisma inquietante e uma espécie de supremacia psicológica. Ao longo do espetáculo, Cipolla constrange o público a executar atos bizarros e humilhantes, como fazer um homem contorcer-se de dor por mera sugestão ou obrigar outro a servir de banquinho humano. Escolhe uma pessoa por noite para servir-lhe de alvo. O público ri, aplaude, se entrega à manipulação, e o espetáculo vai ganhando em intensidade, mal-estar e crueldade. O clímax ocorre quando Cipolla chama um garçom local que assistia de pé ao espetáculo — o Mário do título — e o obriga a beijar sua repulsiva boca na presença da noiva.
Nesse momento, a obediência de Mário se rompe. Ele se rebela contra a humilhação pública e mata Cipolla com dois tiros após descer do estrado, quebrando o feitiço que o mágico exercia sobre os demais. Com a chegada da polícia, a família de veranistas alemães foge do local, no que pode ser lido como uma libertação ambígua e ilusória, tingida de trauma. Afinal, não tardaria muito para que brotasse, na própria Alemanha, a insânia hitlerista.
Com o mundo recém-estreando 2026 e eleições múltiplas na agenda, convém lembrar o poder sedutor de manipuladores de massas. Candidatos a Cipollas não faltam, e cumplicidade passiva de multidões perante regimes sem freios, também não. É relativamente rápida a decomposição ética de uma sociedade enquanto o público ri.
O que falta são Houdinis, cuja arte é honesta. E faltam Mários, muitos Mários, para quebrar a marcha da ilusão. Mas sem tiros, por favor.

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