sábado, 12 de março de 2022

Verdade está à frente do nariz

Nós já esquecemos completamente o axioma de que que a verdade é a coisa mais poética no mundo, especialmente no seu estado puro. Mais do que isso: é ainda mais fantástica que aquilo que a mente humana é capaz de fabricar ou conceber... de fato, os homens conseguiram finalmente ser bem sucedidos em converter tudo o que a mente humana é capaz de mentir e acreditar em algo mais compreensível que a verdade, e é isso que prevalece por todo o mundo. Durante séculos a verdade irá continuar à frente do nariz das pessoas mas estas não a tomarão: irão persegui-la através da fabricação, precisamente porque procuram algo fantástico e utópico
Fiodor Dostoievski, "Diário de um Escitor"

Em busca do tesouro perdido

Um mapa, um caminho pontilhado, um X, uma expedição minuciosamente organizada, um deslocamento árduo – ainda que profícuo – a navegar pela internet, uma pá. Uma desilusão. A metáfora do tesouro perdido combina com a maioria dos casos do recém prometido reembolso do dinheiro esquecido nas contas desativadas do sistema bancário nacional.

Longe de mim julgar que todos saíram frustrados desta aventura de galeões e piratas. Acredito com todas as forças em histórias afortunadas e resgates épicos. De minha parte, o CPF perdeu feio para os bolsos dos casacos, calças e jaquetas do roupeiro: “nada consta” foi a seca resposta. Nas incursões distraídas de minhas mãos nas roupas, vira e mexe surge uma nota de dez ou, no mínimo, uma moedinha de 25 centavos. Bendita seja a distração!

Fico um pouco triste com a decepção da imensa maioria das pessoas. A promessa tinha ares de redenção: milhões dormindo em baús enterrados aos pés de coqueiros de uma ilha chamada Esperança. Não era loteria, que demanda sorteio: o sinalizado era a justa propriedade. Dinheiro nosso que determinados passos no site do Banco Central – a tal linha pontilhada – ajudaria a revelar. A correria foi tão grande que, nos primeiros dias, chegou a travar o sistema. O que ninguém imaginava é que milhares de CPFs pulverizam qualquer cifra…

Minha sogra, por exemplo. Ela foi uma que acreditou na boa nova. Confiou ser uma das afortunadas desafortunadas. Não descansou enquanto não averiguamos seu suspeitado tesouro. E o Banco Central não a decepcionou: havia não uma, mas duas contas com valores a resgatar. Porém, mesmo quando somados, os saldos não chegavam a R$1,00. Ou seja, desenterramos os baús e, dentro deles, uma garrafa de Pepsi-Cola com o gargalo lascado e um bilhete de rifa já vencido era todo o prêmio que nos aguardava.

Oh, dor. Em quase todos os mapas, para onde se olha, vemos tempos de muito desencantamento.
Rubem Penz

A ditadura explícita e a disfarçada

É fácil se ver no meio de uma manifestação ao caminhar pelas ruas de Budapeste, a belíssima capital da Hungria. De um lado do rio Danúbio, em Buda, o partido ultraconservador Mi-hazank exibe seus símbolos patrióticos. Do outro, em Peste, militantes antivacina prestam solidariedade aos caminhoneiros canadenses. Todos os anos há uma enorme parada gay, sem repressão policial.

Parece uma democracia, mas não é. Livros de temática inclusiva são multados, uma universidade inteira acabou expulsa do país por abrigar intelectuais críticos ao governo e a

Constituição foi reescrita para permitir a reeleição eterna do Fidesz, o partido do primeiro-ministro Viktor Orbán.

Nas duas últimas semanas foram divulgados os resultados anuais de dois rankings de democracia, o da revista britânica The Economist e o do instituto V-dem, que é sediado em Gotemburgo, na Suécia. Tais rankings são especialmente necessários em casos como o da Hungria, em que o autocrata de plantão, Viktor Orbán, usa o manto da democracia para esconder um duro regime autoritário. Os dois estudos estão anexados à versão digital da coluna.


Estive na Hungria quando Jair Bolsonaro visitou Viktor Orbán, a quem chamou de “irmão”. Antes, o presidente brasileiro havia visitado o autocrata russo, Vladimir Putin, que nunca tentou disfarçar seus ímpetos autoritários. “A visita de Bolsonaro a Putin e a Orbán não trouxe nenhum resultado prático, apenas serviu para mostrar à base do presidente que ele tem amigos no mundo”, analisa o cientista político Christian Lynch no minipodcast da semana.

E que amigos! Dias depois da visita de Bolsonaro, Vladimir Putin invadiu a Ucrânia. Num congresso no ano passado, o V-dem vaticinou que a onda autoritária aumentaria a possibilidade de guerras pelo planeta. Viktor Orbán enfrenta uma eleição difícil no próximo dia 3 de abril, e fustiga o tempo todo o Judiciário, a academia e a imprensa para se manter no poder. No Brasil, essas mesmas instituições têm ajudado a frear seu “irmão” Bolsonaro.

Vivemos numa época em que golpes de Estado, de direita ou de esquerda, saíram do cardápio político do Ocidente. O autoritarismo passou a ser uma doença que se instala aos poucos. Rankings como o do Vdem e o da The Economist detectam os primeiros sinais do mal.

No ranking do V-dem, o Brasil está entre os países em que a democracia mais se deteriorou nos últimos dez anos. Nossa situação não é comparável à da Rússia ou à da Hungria, a ditadura explícita e a disfarçada – mas é bom ficar de olho.

A esquerda que apoia o imperialismo

É perturbador acompanhar o debate na esquerda sobre a invasão à Ucrânia. Logo no começo do conflito, o perfil do PT no Senado no Twitter publicou nota dizendo que “condena a política de longo prazo dos EUA de agressão à Rússia e de contínua expansão da Otan em direção às fronteiras russas”. Depois de ser criticada, a nota foi apagada, e manifestações individuais de senadores petistas contrários à invasão foram retuitadas. Mas a primeira nota ter saído mostra que forças relevantes no partido consideram a invasão justificada. A nota oficial do PT, publicada dois dias depois, reflete bem essa ambivalência, condenando uma solução militar, mas não a invasão: “Entendemos que a solução do contencioso entre Rússia e Ucrânia deve se dar de forma pacífica, utilizando todas as possibilidades de mediação em fóruns multilaterais”. Em sites de esquerda, predomina o apoio à invasão russa, em clima de torcida.

Para além do passado soviético, com que o atual regime não tem identidade política nem ideológica, é difícil entender a simpatia de parte da esquerda pela Rússia. O país não tem um regime socialista, mas uma economia capitalista bastante desigual, entre as mais desiguais da Europa. A Rússia também tem uma história imperialista de desrespeito à soberania e à autodeterminação dos seus vizinhos, já tendo invadido a Geórgia (em 2008) e a própria Ucrânia (na região da Crimeia, em 2014).

As violações aos direitos humanos lá são tão numerosas que é difícil resumi-las. A Rússia não respeita a liberdade de associação; persegue e impede o trabalho das mais tradicionais e respeitadas ONGs; dissidentes e opositores são presos, alguns assassinados, mesmo no exílio; o governo controla a imprensa; persegue e multa veículos; prende e mata jornalistas; a tortura nas forças policiais e militares é uma prática disseminada e tolerada; a população LGBTQIA+ não tem direitos civis básicos e é perseguida por agentes do Estado; e as eleições, embora aparentemente vencidas por Putin, são mesmo assim fraudadas, apenas para demonstrar força.

Se não é por simpatia pelas virtudes sociais e políticas do regime, a defesa da invasão por parte da esquerda parece se dar por razões geopolíticas, pelo efeito positivo de fazer emergir um mundo mais multipolar. Essa é, pelo menos, a tese mais frequente dos intelectuais e comentadores de esquerda que defendem a invasão.

O argumento é que a Otan, a aliança militar que na Guerra Fria se opunha à expansão da União Soviética, promoveu o atual conflito ao se ampliar para o Leste da Europa a partir dos anos 1990. Aproveitando a debilidade russa com o fim do regime socialista, a aliança incorporou países do antigo Pacto de Varsóvia e mesmo fronteiriços com a Rússia, como os bálticos. A tentativa recente da Ucrânia de aderir à Otan teria sido a gota-d’água para os russos, que teriam invadido o país num ato de defesa.

Os pressupostos do argumento estão corretos. De fato, a Otan aproveitou a fraqueza da Rússia para se expandir. Disso não deriva que os russos tenham o direito de violar a soberania ou de ameaçar a integridade territorial de um país vizinho para impedi-lo de entrar na União Europeia ou na Otan. Que direito legítimo é esse de um país invadir o outro em defesa de seus interesses geopolíticos? A esquerda, agora, em defesa de um mundo mais multipolar, passou a defender o imperialismo? Para extrair apenas uma consequência desse raciocínio: se um governo eleito no Brasil viesse a estreitar laços com a China, os Estados Unidos teriam o direito de invadir nosso território, já que a China estaria se expandindo a uma zona tradicional de influência americana?

Enquanto a maior parte da esquerda mundial protesta e repudia a invasão da Ucrânia, parte significativa da brasileira prefere defender o imperialismo. Se a esquerda quer manter um pouco de integridade moral, está na hora de romper com os defensores de ditaduras e impérios. Uma coisa é denunciar e combater todas as formas de imperialismo, inclusive o americano. Outra, bem diferente, é defender as ações imperialistas de um autocrata sanguinário, apenas porque equilibraria o jogo de forças no cenário mundial.
Pablo Ortellado