sexta-feira, 9 de janeiro de 2026
Prefiro rosas
Prefiro rosas, meu amor, à pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.
Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.
Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,
Se cada ano com a primavera
As folhas aparecem
E com o outono cessam?
E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?
Nada, salvo o desejo de indiferença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.
Ricardo Reis (heterônimo de Fernando Pessoa)
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.
Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.
Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,
Se cada ano com a primavera
As folhas aparecem
E com o outono cessam?
E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?
Nada, salvo o desejo de indiferença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.
Ricardo Reis (heterônimo de Fernando Pessoa)
'A vida dos pobrezinhos é um mistério'
Saímos das estradas mais movimentadas. Andámos por muito tempo até chegar a uma colina um pouco isolada. Lá em cima, um punhado de pequenos prédios iguais, com não mais de quatro andares e um ar desolado sob o céu cinzento e ventoso. “É aqui? É mesmo longe de tudo”, perguntei ao fotógrafo, enquanto subíamos a colina. Tocámos à campainha e subimos a pé vários lanços de escadas, galgando os degraus de mármore claro, frios e húmidos. A porta abriu-se e o nosso olhar quase conseguiu abarcar toda a casa. Era pequena. Na sala, para onde nos convidaram a entrar, havia um monte de roupa equilibrado em cima das costas do sofá. Não estava desarrumado. Era roupa acabada de lavar, dobrada, sem outro sítio onde estar.
Estávamos ali porque eu tinha escrito a história de Liliana, uma mãe a quem retiraram oito filhos porque era pobre. Nas semanas a seguir a essa história ser impressa, recebi muitos emails e telefonemas. Houve até uma mãe que veio ter comigo, à redação do jornal, garantir que tinha sido também por esse delito de pobreza que a tinham afastado dos filhos. E agora estava ali em frente a mais uma mulher, ainda jovem, mas já com a cara marcada e três filhos de uma relação anterior, que a tinha feito fugir e pedir ajuda. Vítima de violência doméstica, com dificuldades em pôr comida na mesa dos filhos, pediu auxílio na escola onde andavam as crianças e, em troca, puseram-lhe em cima um foco de luz demasiado pesado, que revelava todas as falhas, todos os erros. O mais velho começou a dar chatices na escola e passado pouco tempo estava institucionalizado.
Mas não era por isso que eu ali estava. A rapariga tinha refeito a vida com um novo companheiro, que estava ali ao seu lado. Quiseram ter mais um bebé. A criança nasceu, mas não veio para ali. Ficou no hospital porque as assistentes sociais acharam que não havia estrutura familiar naquela casa para a receber. Tinham-se passado meses. A mulher levou-me a um dos quartos e abriu, uma a uma, as gavetas onde tinha dobradas as roupinhas que o filho nunca chegou a vestir. Engoli em seco. Aquelas gavetas cheias foram a coisa mais vazia que já vi.
Ela foi-me explicando o inferno que era provar que queria continuar a ser mãe do seu próprio filho. Desempregada, não podia faltar aos cursos marcados pelo Centro de Emprego, que lhe davam os poucos euros de que precisava para viver. Mas também não podia faltar às visitas para ver o bebé, mesmo que isso lhe custasse demasiado dinheiro e tempo em transportes, atravessando concelhos para estar ali a manter um vínculo. Qualquer passo em falso podia custar-lhe o fim do subsídio ou a decisão de que a criança estaria melhor com uma família adotiva. Todas as escolhas daquela mulher eram impossíveis e insuportáveis.
Nunca cheguei a saber o que aconteceu depois de voltar ao jornal e escrever. Lembro-me de ter pensado que aquela periferia onde estive era num país diferente do que conhecia. E ocorreu-me que talvez essa estranheza me viesse de não ser uma alfacinha de gema. Mas acabei por concluir que há muitos lisboetas para quem as fronteiras de algumas periferias são um abismo ou um mistério.
“A vida dos pobrezinhos é um mistério”, diz-me às vezes um amigo, carregando na ironia, porque ele não é dos que viram as costas aos bairros que os jornais classificam como “difíceis” e onde as televisões só entram para mostrar raides policiais, marcas de balas e graffiti nas paredes.
Nos meses em que fui acompanhando as histórias de mães pobres, assustadas com o sobressalto de poderem ficar sem os filhos, não conseguia deixar de pensar no que exigimos aos que nada têm. Os pobres têm de ser perfeitos, imaculados. Já lhes toleramos a pobreza como falha. Não estamos dispostos a perdoar mais nada. E vão ter de nos provar uma e outra vez que são merecedores de qualquer direito. Os pobres estão sempre à prova. E sabem disso. E é talvez por isso que se escondem. Não é por vergonha. É por cálculo. É por saberem quais serão as consequências de qualquer sombra de ingratidão, pecado ou erro. O melhor é andarem de cabeça baixa ou, para os que têm sorte, esconderem a pobreza o melhor que podem, exibindo o pouco que têm, sem se aperceberem de que há quem os tope à légua e se indigne ainda mais por ser possível ser pobre e ter uns ténis de marca ou um iPhone. Não, não é fácil.
Os pobres aprendem depressa que o respeitinho é bonito. Os ricos não. Sabem que têm mais a ganhar quando questionam e exigem. Um estudo da Nova SBE Economics mostra que 31,7% dos mais pobres acham que as pessoas devem fazer o que lhes mandam e cumprir sempre as regras. Só 17,7% dos mais ricos acham o mesmo. E, como de pequenino é que se torce o pepino, 84% dos pobres acreditam que a obediência e o respeito pela autoridade são os valores mais importantes para ensinar às crianças, quando só 54,2% dos mais ricos defendem a mesma ideia.
Uma vírgula numa lei pode valer milhões para um rico. Mas os pobres arriscam todas as migalhas quando a austeridade lhes corta os apoios ou os aperta nos impostos. São os primeiros a sentir na carne o que se decide nos gabinetes. Mas nem por isso se interessam por política. O mesmo estudo diz que 45,2% dos mais pobres não têm nenhum interesse por política. Entre os mais ricos, apenas 11,5% que dizem não se interessar de todo. A explicação é simples: 50,1% dos pobres dizem que o sistema político não dá voz às pessoas (apenas 10,3% dos mais ricos pensam o mesmo) e 56,9% acreditam que é impossível influenciar a política (só 16,5% dos ricos sentem a mesma impotência).
O resultado está à vista. Dentre os mais pobres, 30,2% admitiram não ter votado nas legislativas anteriores ao inquérito. Agora, imaginem que eles votavam. E imaginem o que terá a dizer uma mãe que tem de provar a cada instante a perfeição, que é colocada perante dilemas impossíveis, a quem os transportes falham e a comida escasseia, que é posta de lado e julgada, mesmo antes de abrir a boca, e que sai da maternidade com o ventre vazio e os braços sem nada, obrigada a deixar para trás o bebé que quis, mas que lhe dizem que não pode ter.
Não podemos falar sobre isto. É populismo. O certo é defender baixas de impostos às grandes empresas e esperar que o dinheiro jorre em cascata por aí abaixo. O certo é apoiar os benefícios fiscais aos grandes investimentos. O certo é aceitar como mantras as obrigações orçamentais e rezar ao Deus das contas certas.
As vidas dos pobres são pornografia política. Não podem ser ditas em voz alta. Alguém alguma vez viu mesmo um pobre? Como, se há uma revista que assevera que vivemos na melhor economia do mundo? Se por um acaso muito remoto se cruzarem com um pobre, saibam que seguramente não se esforçou o suficiente. Ou, pior ainda: vive certamente às custas do dinheiro dos vossos impostos. Que não vos passe pela cabeça achar que essa gente merece sequer as migalhas que tem. E não pensem demasiado sobre porque é que só 10,3% dos mais ricos acham que o sistema político não lhes dá voz. Não pensem nisso. Nem pensem nisso.
Estávamos ali porque eu tinha escrito a história de Liliana, uma mãe a quem retiraram oito filhos porque era pobre. Nas semanas a seguir a essa história ser impressa, recebi muitos emails e telefonemas. Houve até uma mãe que veio ter comigo, à redação do jornal, garantir que tinha sido também por esse delito de pobreza que a tinham afastado dos filhos. E agora estava ali em frente a mais uma mulher, ainda jovem, mas já com a cara marcada e três filhos de uma relação anterior, que a tinha feito fugir e pedir ajuda. Vítima de violência doméstica, com dificuldades em pôr comida na mesa dos filhos, pediu auxílio na escola onde andavam as crianças e, em troca, puseram-lhe em cima um foco de luz demasiado pesado, que revelava todas as falhas, todos os erros. O mais velho começou a dar chatices na escola e passado pouco tempo estava institucionalizado.
Mas não era por isso que eu ali estava. A rapariga tinha refeito a vida com um novo companheiro, que estava ali ao seu lado. Quiseram ter mais um bebé. A criança nasceu, mas não veio para ali. Ficou no hospital porque as assistentes sociais acharam que não havia estrutura familiar naquela casa para a receber. Tinham-se passado meses. A mulher levou-me a um dos quartos e abriu, uma a uma, as gavetas onde tinha dobradas as roupinhas que o filho nunca chegou a vestir. Engoli em seco. Aquelas gavetas cheias foram a coisa mais vazia que já vi.
Ela foi-me explicando o inferno que era provar que queria continuar a ser mãe do seu próprio filho. Desempregada, não podia faltar aos cursos marcados pelo Centro de Emprego, que lhe davam os poucos euros de que precisava para viver. Mas também não podia faltar às visitas para ver o bebé, mesmo que isso lhe custasse demasiado dinheiro e tempo em transportes, atravessando concelhos para estar ali a manter um vínculo. Qualquer passo em falso podia custar-lhe o fim do subsídio ou a decisão de que a criança estaria melhor com uma família adotiva. Todas as escolhas daquela mulher eram impossíveis e insuportáveis.
Nunca cheguei a saber o que aconteceu depois de voltar ao jornal e escrever. Lembro-me de ter pensado que aquela periferia onde estive era num país diferente do que conhecia. E ocorreu-me que talvez essa estranheza me viesse de não ser uma alfacinha de gema. Mas acabei por concluir que há muitos lisboetas para quem as fronteiras de algumas periferias são um abismo ou um mistério.
“A vida dos pobrezinhos é um mistério”, diz-me às vezes um amigo, carregando na ironia, porque ele não é dos que viram as costas aos bairros que os jornais classificam como “difíceis” e onde as televisões só entram para mostrar raides policiais, marcas de balas e graffiti nas paredes.
Nos meses em que fui acompanhando as histórias de mães pobres, assustadas com o sobressalto de poderem ficar sem os filhos, não conseguia deixar de pensar no que exigimos aos que nada têm. Os pobres têm de ser perfeitos, imaculados. Já lhes toleramos a pobreza como falha. Não estamos dispostos a perdoar mais nada. E vão ter de nos provar uma e outra vez que são merecedores de qualquer direito. Os pobres estão sempre à prova. E sabem disso. E é talvez por isso que se escondem. Não é por vergonha. É por cálculo. É por saberem quais serão as consequências de qualquer sombra de ingratidão, pecado ou erro. O melhor é andarem de cabeça baixa ou, para os que têm sorte, esconderem a pobreza o melhor que podem, exibindo o pouco que têm, sem se aperceberem de que há quem os tope à légua e se indigne ainda mais por ser possível ser pobre e ter uns ténis de marca ou um iPhone. Não, não é fácil.
Os pobres aprendem depressa que o respeitinho é bonito. Os ricos não. Sabem que têm mais a ganhar quando questionam e exigem. Um estudo da Nova SBE Economics mostra que 31,7% dos mais pobres acham que as pessoas devem fazer o que lhes mandam e cumprir sempre as regras. Só 17,7% dos mais ricos acham o mesmo. E, como de pequenino é que se torce o pepino, 84% dos pobres acreditam que a obediência e o respeito pela autoridade são os valores mais importantes para ensinar às crianças, quando só 54,2% dos mais ricos defendem a mesma ideia.
Uma vírgula numa lei pode valer milhões para um rico. Mas os pobres arriscam todas as migalhas quando a austeridade lhes corta os apoios ou os aperta nos impostos. São os primeiros a sentir na carne o que se decide nos gabinetes. Mas nem por isso se interessam por política. O mesmo estudo diz que 45,2% dos mais pobres não têm nenhum interesse por política. Entre os mais ricos, apenas 11,5% que dizem não se interessar de todo. A explicação é simples: 50,1% dos pobres dizem que o sistema político não dá voz às pessoas (apenas 10,3% dos mais ricos pensam o mesmo) e 56,9% acreditam que é impossível influenciar a política (só 16,5% dos ricos sentem a mesma impotência).
O resultado está à vista. Dentre os mais pobres, 30,2% admitiram não ter votado nas legislativas anteriores ao inquérito. Agora, imaginem que eles votavam. E imaginem o que terá a dizer uma mãe que tem de provar a cada instante a perfeição, que é colocada perante dilemas impossíveis, a quem os transportes falham e a comida escasseia, que é posta de lado e julgada, mesmo antes de abrir a boca, e que sai da maternidade com o ventre vazio e os braços sem nada, obrigada a deixar para trás o bebé que quis, mas que lhe dizem que não pode ter.
Não podemos falar sobre isto. É populismo. O certo é defender baixas de impostos às grandes empresas e esperar que o dinheiro jorre em cascata por aí abaixo. O certo é apoiar os benefícios fiscais aos grandes investimentos. O certo é aceitar como mantras as obrigações orçamentais e rezar ao Deus das contas certas.
As vidas dos pobres são pornografia política. Não podem ser ditas em voz alta. Alguém alguma vez viu mesmo um pobre? Como, se há uma revista que assevera que vivemos na melhor economia do mundo? Se por um acaso muito remoto se cruzarem com um pobre, saibam que seguramente não se esforçou o suficiente. Ou, pior ainda: vive certamente às custas do dinheiro dos vossos impostos. Que não vos passe pela cabeça achar que essa gente merece sequer as migalhas que tem. E não pensem demasiado sobre porque é que só 10,3% dos mais ricos acham que o sistema político não lhes dá voz. Não pensem nisso. Nem pensem nisso.
Humilhação espetacular
A captura – ou rapto, ou sequestro – de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, na madrugada de sábado, foi amplamente analisada e comentada na imprensa. Só ficou faltando um pedaço. Além das razões geopolíticas (que levam a Casa Branca a tentar expulsar as influências russas e chinesas do mar do Caribe e da América do Sul), além das pressões exercidas sobre o presidente pela indústria petrolífera norte-americana (que quer beber o óleo extrapesado das águas venezuelanas) e além da ameaça de perda de popularidade interna (que o governo imagina conseguir desviar com agressividade bélica em plagas estrangeiras), há um quarto fator a se levar em conta.
Esse quarto fator é a imagem, a comunicação, a propaganda no seu sentido mais superlativo. Não se pense que seja apenas uma questão de modular a fala ou de escolher a melhor mensagem para o melhor momento. Para o trumpismo, a propaganda açambarca toda a episteme, mais ou menos como aconteceu com o nazismo. No Terceiro Reich, a massificação da ideologia constituiu a única forma de conhecer, explicar e moldar o mundo – na era Trump, a comunicação se realiza como a apoteose performática que reduz o mundo à lógica do entretenimento. Segundo essa doutrina, existir é aparecer, não importa a que custo e não importa para quê.
Aparecer implica empalidecer a imagem do outro. Pela chave do exibicionismo compulsivo, podemos compreender a política de aviltamento sistemático que o trumpismo dirige contra outras nações e seus representantes legítimos. Não se trata meramente de um jeito espalhafatoso de ser, mas de um discurso fechado, compacto e pesado que define o modo de ser. Donald Trump adestrou-se em seu discurso quando se tornou uma celebridade da televisão como apresentador do programa The Apprentice.
Mais adiante, aprendiz deslumbrado que sempre foi, elevou seu estilo discursivo ao patamar de escola para as relações externas. O método consiste em submeter o interlocutor a rituais sucessivos de humilhação explícita para quebrarlhe a dignidade, a autoconfiança e a independência. Adeus, ONU. Adeus, democracia. Adeus, soberania nacional dos outros – e, se a Otan bobear, adeus também para a Otan.
Foi com base nesse parâmetro que o vice-presidente J. D. Vance compareceu a uma reunião sobre segurança mundial na Europa, em fevereiro do ano passado, para anunciar aos seus pares que havia “um novo xerife na cidade”. Isso na mesma semana em que seu chefe, o assim chamado “xerife”, deixava claro que preferia negociar com Putin a se entender com os líderes europeus. Poucos dias depois, Trump, em pessoa, ladeado por Vance, admoestou com arrogância extrema o presidente ucraniano Volodmir Zelenski, durante uma reunião no Salão Oval: “Você está brincando com a Terceira Guerra Mundial”. A partir daí, vieram em cascata demonstrações de prepotência e soberba, como o bombardeio das instalações nucleares do Irã, em junho – bombardeio, diga-se, mais cenográfico do que efetivo: mal arranhou o projeto de enriquecimento de urânio do regime iraniano.
Na natureza do trumpismo, a dimensão do espetáculo é mais determinante do que a dimensão geopolítica (a vigilância das “áreas de influência”), a dimensão econômica (representada no caso presente pelas companhias de petróleo) e a dimensão da política interna (especialmente quando bate em índices de popularidade). O espetáculo condiciona e determina todo o resto.
Basta ver que o receituário de Trump, uma forma sistêmica de loucura, não tem nenhuma compatibilidade com a coerência e com o cultivo do respeito. Sobre sua incoerência constitutiva, lembremos que ele mandou prender Maduro porque o acusava de chefiar o narcotráfico. Depois, sem maiores explicações, retirou a acusação de narcotraficante, mas manteve a prisão. Lembremos também a patacoada que foi o capítulo das tarifas abusivas contra o Brasil. No início, a razão seria a defesa de Bolsonaro. Então, Bolsonaro ficou de escanteio mas a guerra tarifária prosseguiu. O show tem de continuar. Quanto ao cultivo do respeito, tentemos imaginar um Trump polido, cortês, afável e adepto do soft power. Esse Trump jamais existirá. Ele é puro bullying internacional.
O que aconteceu no sábado passado foi furor performático – e bem ensaiadinho. Teria de ser como foi, com a Força Delta de abre-alas, secundada por 150 aeronaves, entre bombardeiros, aviões de combate, helicópteros e drones, como se a política externa fosse a continuação de um filme de Bruce Willis por outros meios, passando pelos filmes de Tom Cruise, por certo. Em Trump, o fascismo alcança seu feitio mais avançado de entretenimento sem caráter e totalizante.
A investida contra Caracas, que fez letra morta do Direito Internacional, humilhou indistintamente os que apoiam Maduro e os que se opõem a ele. Os primeiros não tiveram como proteger seu ídolo e se desmoralizaram. Os segundos ficaram no papel de crianças, jurídica e politicamente incapazes, que chamam o irmão mais velho para bater no coleguinha. O continente inteiro está humilhado.
No mais, o Brasil, em ano eleitoral, está na alça de mira.
Esse quarto fator é a imagem, a comunicação, a propaganda no seu sentido mais superlativo. Não se pense que seja apenas uma questão de modular a fala ou de escolher a melhor mensagem para o melhor momento. Para o trumpismo, a propaganda açambarca toda a episteme, mais ou menos como aconteceu com o nazismo. No Terceiro Reich, a massificação da ideologia constituiu a única forma de conhecer, explicar e moldar o mundo – na era Trump, a comunicação se realiza como a apoteose performática que reduz o mundo à lógica do entretenimento. Segundo essa doutrina, existir é aparecer, não importa a que custo e não importa para quê.
Aparecer implica empalidecer a imagem do outro. Pela chave do exibicionismo compulsivo, podemos compreender a política de aviltamento sistemático que o trumpismo dirige contra outras nações e seus representantes legítimos. Não se trata meramente de um jeito espalhafatoso de ser, mas de um discurso fechado, compacto e pesado que define o modo de ser. Donald Trump adestrou-se em seu discurso quando se tornou uma celebridade da televisão como apresentador do programa The Apprentice.
Mais adiante, aprendiz deslumbrado que sempre foi, elevou seu estilo discursivo ao patamar de escola para as relações externas. O método consiste em submeter o interlocutor a rituais sucessivos de humilhação explícita para quebrarlhe a dignidade, a autoconfiança e a independência. Adeus, ONU. Adeus, democracia. Adeus, soberania nacional dos outros – e, se a Otan bobear, adeus também para a Otan.
Foi com base nesse parâmetro que o vice-presidente J. D. Vance compareceu a uma reunião sobre segurança mundial na Europa, em fevereiro do ano passado, para anunciar aos seus pares que havia “um novo xerife na cidade”. Isso na mesma semana em que seu chefe, o assim chamado “xerife”, deixava claro que preferia negociar com Putin a se entender com os líderes europeus. Poucos dias depois, Trump, em pessoa, ladeado por Vance, admoestou com arrogância extrema o presidente ucraniano Volodmir Zelenski, durante uma reunião no Salão Oval: “Você está brincando com a Terceira Guerra Mundial”. A partir daí, vieram em cascata demonstrações de prepotência e soberba, como o bombardeio das instalações nucleares do Irã, em junho – bombardeio, diga-se, mais cenográfico do que efetivo: mal arranhou o projeto de enriquecimento de urânio do regime iraniano.
Na natureza do trumpismo, a dimensão do espetáculo é mais determinante do que a dimensão geopolítica (a vigilância das “áreas de influência”), a dimensão econômica (representada no caso presente pelas companhias de petróleo) e a dimensão da política interna (especialmente quando bate em índices de popularidade). O espetáculo condiciona e determina todo o resto.
Basta ver que o receituário de Trump, uma forma sistêmica de loucura, não tem nenhuma compatibilidade com a coerência e com o cultivo do respeito. Sobre sua incoerência constitutiva, lembremos que ele mandou prender Maduro porque o acusava de chefiar o narcotráfico. Depois, sem maiores explicações, retirou a acusação de narcotraficante, mas manteve a prisão. Lembremos também a patacoada que foi o capítulo das tarifas abusivas contra o Brasil. No início, a razão seria a defesa de Bolsonaro. Então, Bolsonaro ficou de escanteio mas a guerra tarifária prosseguiu. O show tem de continuar. Quanto ao cultivo do respeito, tentemos imaginar um Trump polido, cortês, afável e adepto do soft power. Esse Trump jamais existirá. Ele é puro bullying internacional.
O que aconteceu no sábado passado foi furor performático – e bem ensaiadinho. Teria de ser como foi, com a Força Delta de abre-alas, secundada por 150 aeronaves, entre bombardeiros, aviões de combate, helicópteros e drones, como se a política externa fosse a continuação de um filme de Bruce Willis por outros meios, passando pelos filmes de Tom Cruise, por certo. Em Trump, o fascismo alcança seu feitio mais avançado de entretenimento sem caráter e totalizante.
A investida contra Caracas, que fez letra morta do Direito Internacional, humilhou indistintamente os que apoiam Maduro e os que se opõem a ele. Os primeiros não tiveram como proteger seu ídolo e se desmoralizaram. Os segundos ficaram no papel de crianças, jurídica e politicamente incapazes, que chamam o irmão mais velho para bater no coleguinha. O continente inteiro está humilhado.
No mais, o Brasil, em ano eleitoral, está na alça de mira.
Crime superorganizado
As epidemias biológicas contagiam pelo contato; as epidemias morais contaminam pelo exemplo. O comportamento dos líderes espalha a corrupção ao ponto de a honestidade, que era um valor ético generalizado, passar a ser mania de poucos excêntricos que ainda a praticam. Em vez de servir à comunidade, os agentes públicos, especialmente mas não apenas os políticos, passaram a priorizar os próprios interesses, usufruir das funções, sem respeito aos interesses nem à opinião pública. As eleições perderam o propósito de escolher quem apresenta as melhores propostas para o país e passaram a eleger quem oferece vantagens pessoais ao eleitor. Tal como nas epidemias biológicas, ao contaminar a maior parte da população, a corrupção passou a ser vista como um simples incômodo: uma “gripe de consciência”.
Há um sentimento geral de que tudo o que é legal pode ser feito, mesmo que não seja decente; e de que o que é ilegal pode ser praticado, desde que não seja descoberto. A diferença em relação aos antigos coronéis é que os atuais usam dinheiro público para beneficiar seus eleitores, agora informados por outdoors ou redes sociais. O setor público brasileiro gasta bilhões com supersalários viabilizados por truques legais promovidos pelos próprios beneficiários. Em um país cujo rendimento médio mensal mal chega a R$ 3 mil e em que mais de 50 milhões de pessoas vivem com rendimento domiciliar per capita abaixo de R$ 1,5 mil, um pequeno grupo de privilegiados aufere remunerações que chegam a superar 100 vezes o salário mínimo de um trabalhador, além de contar com dezenas de penduricalhos e privilégios que fariam inveja às elites aristocráticas e aos ditadores mais extravagantes. Esse exemplo contamina e alimenta a epidemia do vírus da corrupção e faz com que ela pareça tão legal e natural que os excluídos passam a aceitar a existência dos privilégios, desejando, um dia, ter também acesso a eles, como escravos que sonhassem morar na casa-grande e não em abolir a senzala.
Os governos brasileiros gastaram, no ano passado, cerca de R$ 31 bilhões para pagar precatórios, resultantes não apenas de erros e inoperância administrativa, mas também de alianças e tráfico de influência entre sindicatos, advogados e aqueles que decidem esses pagamentos, definindo sua legalidade e o momento de sua quitação, mesmo em detrimento de serviços públicos essenciais. Quando um médico recebe honorários muito acima do que recebem outros igualmente competentes, passa-se a ideia de que existe algum tipo de tráfico de influência com Deus. Isso vale para outras profissões que dependem de redes de prestígio ou de mecanismos de poder.
Até mesmo bondades sociais foram corrompidas: bolsas sem exigência de contrapartida escolar ou produtiva; diplomas de curso superior sem exigência do respectivo conhecimento; greves justas por melhores salários de professores nas escolas públicas que provocam concentração de renda ao negar escola aos filhos das camadas de baixa renda; estabilidade no emprego transformada em argumento para descuido no trabalho.
A epidemia da corrupção, sob a forma de apropriação de recursos públicos, de ineficiência, desperdício e prioridades equivocadas espalhou-se tanto quanto os vírus biológicos, que, ao contaminarem a maioria da população, passam a ser parte do organismo, sentida apenas como um incômodo passageiro nos dias seguintes a um escândalo, logo aceito, explicado e normalizado por estar dentro da lei, embora seja indecente. A corrupção chegou a tal ponto que denunciar esse comportamento passou a ser visto como atitude preconceituosa contra o Estado ou a favor de meritocracia.
A corrupção deixou de ser exceção e foi normalizada: o crime organizado transformou-se em crime superorganizado, incorporando não apenas os que estão fora da lei, mas também os que fazem e administram as leis. Crime organizado é quando a máfia unifica bandidos; crime superorganizado é quando incorpora bancos, bancas, tribunas e tribunais em suas conexões.
É possível que isso já existisse durante a ditadura sem que soubéssemos, mas a democracia não trouxe vacina anticorrupção, ampliou para bilhões os valores desviados e legalizou suas práticas, permitindo que as tolerássemos como simples “gripe de consciência”.
Há um sentimento geral de que tudo o que é legal pode ser feito, mesmo que não seja decente; e de que o que é ilegal pode ser praticado, desde que não seja descoberto. A diferença em relação aos antigos coronéis é que os atuais usam dinheiro público para beneficiar seus eleitores, agora informados por outdoors ou redes sociais. O setor público brasileiro gasta bilhões com supersalários viabilizados por truques legais promovidos pelos próprios beneficiários. Em um país cujo rendimento médio mensal mal chega a R$ 3 mil e em que mais de 50 milhões de pessoas vivem com rendimento domiciliar per capita abaixo de R$ 1,5 mil, um pequeno grupo de privilegiados aufere remunerações que chegam a superar 100 vezes o salário mínimo de um trabalhador, além de contar com dezenas de penduricalhos e privilégios que fariam inveja às elites aristocráticas e aos ditadores mais extravagantes. Esse exemplo contamina e alimenta a epidemia do vírus da corrupção e faz com que ela pareça tão legal e natural que os excluídos passam a aceitar a existência dos privilégios, desejando, um dia, ter também acesso a eles, como escravos que sonhassem morar na casa-grande e não em abolir a senzala.
Os governos brasileiros gastaram, no ano passado, cerca de R$ 31 bilhões para pagar precatórios, resultantes não apenas de erros e inoperância administrativa, mas também de alianças e tráfico de influência entre sindicatos, advogados e aqueles que decidem esses pagamentos, definindo sua legalidade e o momento de sua quitação, mesmo em detrimento de serviços públicos essenciais. Quando um médico recebe honorários muito acima do que recebem outros igualmente competentes, passa-se a ideia de que existe algum tipo de tráfico de influência com Deus. Isso vale para outras profissões que dependem de redes de prestígio ou de mecanismos de poder.
Até mesmo bondades sociais foram corrompidas: bolsas sem exigência de contrapartida escolar ou produtiva; diplomas de curso superior sem exigência do respectivo conhecimento; greves justas por melhores salários de professores nas escolas públicas que provocam concentração de renda ao negar escola aos filhos das camadas de baixa renda; estabilidade no emprego transformada em argumento para descuido no trabalho.
A epidemia da corrupção, sob a forma de apropriação de recursos públicos, de ineficiência, desperdício e prioridades equivocadas espalhou-se tanto quanto os vírus biológicos, que, ao contaminarem a maioria da população, passam a ser parte do organismo, sentida apenas como um incômodo passageiro nos dias seguintes a um escândalo, logo aceito, explicado e normalizado por estar dentro da lei, embora seja indecente. A corrupção chegou a tal ponto que denunciar esse comportamento passou a ser visto como atitude preconceituosa contra o Estado ou a favor de meritocracia.
A corrupção deixou de ser exceção e foi normalizada: o crime organizado transformou-se em crime superorganizado, incorporando não apenas os que estão fora da lei, mas também os que fazem e administram as leis. Crime organizado é quando a máfia unifica bandidos; crime superorganizado é quando incorpora bancos, bancas, tribunas e tribunais em suas conexões.
É possível que isso já existisse durante a ditadura sem que soubéssemos, mas a democracia não trouxe vacina anticorrupção, ampliou para bilhões os valores desviados e legalizou suas práticas, permitindo que as tolerássemos como simples “gripe de consciência”.
Contra a indiferença, o deixa-andar e o calculismo de conveniência
É um dos paradoxos dos nossos tempos. Apesar de vivermos na era da discórdia permanente, das polémicas sucessivas e da indignação por tudo e por nada, também assistimos, cada vez mais, a um crescimento da indiferença em relação àquilo que, de facto, mais devia revoltar-nos e obrigar-nos a agir. E grande parte do problema começa exatamente nesse ponto: preferimos indignar-nos, porque assim já não precisamos de agir, de fazer alguma coisa para mudar o que está mal. Este adormecimento coletivo, potenciado pelos algoritmos que tanto dominam as redes sociais como a paisagem mediática, tem a consequência que se vai vendo: crescem os sinais de intolerância sobre tudo, mas promove-se a tolerância à indiferença, como se essa fosse a atitude mais cómoda, tranquila e, no fundo, a mais prudente. Numa sociedade em que apenas se quer ganhar a atenção, isso é feito não para estimular o pensamento e a ação, mas apenas para aceitar aquilo que nos é “servido”, sem ser preciso pensar em mais nada.
A lógica instalada, por quem mais quer prender-nos a atenção sem estar preocupado com o conhecimento, é simples: promover a polémica, o combate, mas deixar que tudo se resolva com um “gosto” ou não “gosto”, com um comentário violentíssimo nas palavras, mas sem qualquer relevância na realidade. Com um bónus: o de permitir que tenhamos outros a aplaudirem a nossa reação, fazendo com que sintamos que cumprimos a nossa missão, com brio, esforço e, sabe-se lá, até valentia – quando, afinal, não fizemos nada, de facto, que tivesse consequências para mudar a realidade.
É este contínuo fechar de olhos ou encolher de ombros às injustiças, às indecências, até às ilegalidades que acaba por minar o sentido de comunidade. Para tudo, há sempre um “mas” a justificar uma ação que deveria ser condenável ou um “também” para minimizar o impacto de algo que, em condições normais, deveria ser escandaloso e, por isso mesmo, inadmissível.
É por isso que, nesta época, é cada vez mais necessária uma informação livre, rigorosa e independente, inclusive dos humores e dos negócios escondidos do algoritmo. Uma informação que saiba hierarquizar os temas pela sua importância e não apenas para captar a atenção. Precisamos de informação que nos ajude a abrir os olhos, e não para ser consumida como se estivéssemos de olhos fechados. Não é preciso que estejamos sempre de acordo com o que ela nos transmite nem de a ter como fonte única e exclusiva de conhecimento – muito pelo contrário. O necessário é que, nestes tempos em que já nem sempre conseguimos distinguir o verdadeiro do falso, ela seja de confiança e credível – o que, convenhamos, é cada vez mais difícil de encontrar, infelizmente.
Uma sociedade mais informada será sempre, necessariamente, uma sociedade mais esclarecida e exigente. E, nessa medida, menos tolerante para com sentimentos de indiferença e mais severa com quem, na política ou no espaço público, faz da sonsice um estilo de vida ou insiste na mentira, sem qualquer pudor nem embaraço.
Vivemos num tempo de grandes transformações mundiais, em que as relações de força e as alianças estão metidas numa espécie de máquina centrifugadora, sem sabermos muito bem o que virá a seguir.
Na vida, como na política e nas relações internacionais, é importante que não nos remetamos permanentemente para o lugar da indiferença ou do calculismo exacerbado, como a querer dizer que “nada temos a ver com o que se está a passar”. A verdade é que temos. A guerra na Ucrânia, os massacres em Gaza, as convulsões em África ou a invasão ilegal da Venezuela podem parecer-nos longe, mas têm tudo a ver connosco. Não podemos ser indiferentes ao que lá se passa, nem usar pesos diferentes para medidas semelhantes. E, no mínimo, deveríamos preparar-nos para as convulsões que, inevitavelmente, se adivinham num futuro muito próximo. É melhor que, nessa altura, estejamos sustentados na verdade e não em perceções. De olhos bem abertos.
A lógica instalada, por quem mais quer prender-nos a atenção sem estar preocupado com o conhecimento, é simples: promover a polémica, o combate, mas deixar que tudo se resolva com um “gosto” ou não “gosto”, com um comentário violentíssimo nas palavras, mas sem qualquer relevância na realidade. Com um bónus: o de permitir que tenhamos outros a aplaudirem a nossa reação, fazendo com que sintamos que cumprimos a nossa missão, com brio, esforço e, sabe-se lá, até valentia – quando, afinal, não fizemos nada, de facto, que tivesse consequências para mudar a realidade.
É este contínuo fechar de olhos ou encolher de ombros às injustiças, às indecências, até às ilegalidades que acaba por minar o sentido de comunidade. Para tudo, há sempre um “mas” a justificar uma ação que deveria ser condenável ou um “também” para minimizar o impacto de algo que, em condições normais, deveria ser escandaloso e, por isso mesmo, inadmissível.
É por isso que, nesta época, é cada vez mais necessária uma informação livre, rigorosa e independente, inclusive dos humores e dos negócios escondidos do algoritmo. Uma informação que saiba hierarquizar os temas pela sua importância e não apenas para captar a atenção. Precisamos de informação que nos ajude a abrir os olhos, e não para ser consumida como se estivéssemos de olhos fechados. Não é preciso que estejamos sempre de acordo com o que ela nos transmite nem de a ter como fonte única e exclusiva de conhecimento – muito pelo contrário. O necessário é que, nestes tempos em que já nem sempre conseguimos distinguir o verdadeiro do falso, ela seja de confiança e credível – o que, convenhamos, é cada vez mais difícil de encontrar, infelizmente.
Uma sociedade mais informada será sempre, necessariamente, uma sociedade mais esclarecida e exigente. E, nessa medida, menos tolerante para com sentimentos de indiferença e mais severa com quem, na política ou no espaço público, faz da sonsice um estilo de vida ou insiste na mentira, sem qualquer pudor nem embaraço.
Vivemos num tempo de grandes transformações mundiais, em que as relações de força e as alianças estão metidas numa espécie de máquina centrifugadora, sem sabermos muito bem o que virá a seguir.
Na vida, como na política e nas relações internacionais, é importante que não nos remetamos permanentemente para o lugar da indiferença ou do calculismo exacerbado, como a querer dizer que “nada temos a ver com o que se está a passar”. A verdade é que temos. A guerra na Ucrânia, os massacres em Gaza, as convulsões em África ou a invasão ilegal da Venezuela podem parecer-nos longe, mas têm tudo a ver connosco. Não podemos ser indiferentes ao que lá se passa, nem usar pesos diferentes para medidas semelhantes. E, no mínimo, deveríamos preparar-nos para as convulsões que, inevitavelmente, se adivinham num futuro muito próximo. É melhor que, nessa altura, estejamos sustentados na verdade e não em perceções. De olhos bem abertos.
A próxima invasão de Trump será à Groelândia?
Por mais terrível que fosse o regime do ditador Nicolás Maduro na Venezuela, nada justifica a invasão determinada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao país vizinho do Brasil. Além de contrariar todas as regras do direito internacional e de rasgar a carta da Organização das Nações Unidas (ONU), a ação militar norte-americana sanciona, a partir de agora, todos os abusos que venham a ser cometidos mundo afora.
Não cabe ao presidente de nenhum país definir qual será o destino de outra nação soberana, muito menos usar a sua força militar para remover um governante do poder. É ilegal e inaceitável, sobretudo, por abrir precedentes num mundo em que o autoritarismo vem destruindo democracias e reduzindo liberdades. Maduro havia passado de todos os limites, mas caberia, unicamente, aos venezuelanos destituí-lo do poder. Não ao presidente dos Estados Unidos, que está obcecado pelo petróleo da Venezuela.
Trump não economiza no seu delírio de se tornar o ditador do mundo. Diante do que se está vendo na Venezuela, qual a garantia de que o presidente norte-americano não levará adiante o desejo de invadir a Groelândia, território no Ártico que pertence à Dinamarca.
O presidente dos EUA tem repetido, sistematicamente, que a Groelândia é fundamental para a “segurança nacional” de seu país. A Groelândia fica na rota mais curta da Europa para a América do Norte, fundamental para o sistema de alerta de mísseis balísticos dos Estados Unidos, que também cobiçam as riquezas naturais da ilha.
Não há também como descartar, depois da invasão dos EUA à Venezuela, que Trump decida por atacar a Colômbia, governada por Gustavo Petro, que é malvisto pelo norte-americano. O presidente da maior economia do planeta, inclusive, já tem o discurso pronto, o mesmo que utilizou contra Maduro, acusado de chefiar um cartel do narcotráfico. A Colômbia é um dos maiores produtores de cocaína do mundo.
Trump, inclusive, deu a senha para que o ditador russo, Vladimir Putin, aja para sequestrar o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelensky, e retirá-lo do poder. Não seria nada diferente do que fizeram os Estados Unidos neste sábado, 3 de janeiro, ao sequestrar Nicolás Maduro e a mulher dele, Cilia Flores, e levá-los a julgamento em Nova York, outra ilegalidade, pois ali não é o tribunal adequado para decidir sobre os crimes cometidos pelo venezuelano.
Não só: Trump também abriu o caminho para que a China derrube o governo de Taiwan ou outro país mais forte ocupe regiões cobiçadas sem prestar contas a ninguém. Não há nenhum exagero nisso, uma vez que o presidente norte-americano indicou que, quando se tem um objetivo e poder, não há nada que impeça as invasões. Trump, convenhamos, nunca foi afeito à democracia. Tudo para ele é business. Ou seja, dinheiro.
É importante ressaltar ainda que todas as invasões cometidas pelos Estados Unidos foram desastrosas. Vamos ficar nas mais recentes, como as do Iraque, do Afeganistão e da Líbia. Tudo piorou naqueles países. Foram fracassos retumbantes. Nem de longe a democracia chegou naquelas nações.
Trump acredita que pode definir os rumos na Venezuela ao assumir o controle do país. Será? Enquanto a megalomania do norte-americano destrói as regras estabelecidas em 1947, após o fim da Segunda Guerra Mundial, os líderes mundiais se mostram atônitos e incapazes de reação. As portas aos abusos se escancararam de vez.
Vicente Nunes
Não cabe ao presidente de nenhum país definir qual será o destino de outra nação soberana, muito menos usar a sua força militar para remover um governante do poder. É ilegal e inaceitável, sobretudo, por abrir precedentes num mundo em que o autoritarismo vem destruindo democracias e reduzindo liberdades. Maduro havia passado de todos os limites, mas caberia, unicamente, aos venezuelanos destituí-lo do poder. Não ao presidente dos Estados Unidos, que está obcecado pelo petróleo da Venezuela.
Trump não economiza no seu delírio de se tornar o ditador do mundo. Diante do que se está vendo na Venezuela, qual a garantia de que o presidente norte-americano não levará adiante o desejo de invadir a Groelândia, território no Ártico que pertence à Dinamarca.
O presidente dos EUA tem repetido, sistematicamente, que a Groelândia é fundamental para a “segurança nacional” de seu país. A Groelândia fica na rota mais curta da Europa para a América do Norte, fundamental para o sistema de alerta de mísseis balísticos dos Estados Unidos, que também cobiçam as riquezas naturais da ilha.
Não há também como descartar, depois da invasão dos EUA à Venezuela, que Trump decida por atacar a Colômbia, governada por Gustavo Petro, que é malvisto pelo norte-americano. O presidente da maior economia do planeta, inclusive, já tem o discurso pronto, o mesmo que utilizou contra Maduro, acusado de chefiar um cartel do narcotráfico. A Colômbia é um dos maiores produtores de cocaína do mundo.
Trump, inclusive, deu a senha para que o ditador russo, Vladimir Putin, aja para sequestrar o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelensky, e retirá-lo do poder. Não seria nada diferente do que fizeram os Estados Unidos neste sábado, 3 de janeiro, ao sequestrar Nicolás Maduro e a mulher dele, Cilia Flores, e levá-los a julgamento em Nova York, outra ilegalidade, pois ali não é o tribunal adequado para decidir sobre os crimes cometidos pelo venezuelano.
Não só: Trump também abriu o caminho para que a China derrube o governo de Taiwan ou outro país mais forte ocupe regiões cobiçadas sem prestar contas a ninguém. Não há nenhum exagero nisso, uma vez que o presidente norte-americano indicou que, quando se tem um objetivo e poder, não há nada que impeça as invasões. Trump, convenhamos, nunca foi afeito à democracia. Tudo para ele é business. Ou seja, dinheiro.
É importante ressaltar ainda que todas as invasões cometidas pelos Estados Unidos foram desastrosas. Vamos ficar nas mais recentes, como as do Iraque, do Afeganistão e da Líbia. Tudo piorou naqueles países. Foram fracassos retumbantes. Nem de longe a democracia chegou naquelas nações.
Trump acredita que pode definir os rumos na Venezuela ao assumir o controle do país. Será? Enquanto a megalomania do norte-americano destrói as regras estabelecidas em 1947, após o fim da Segunda Guerra Mundial, os líderes mundiais se mostram atônitos e incapazes de reação. As portas aos abusos se escancararam de vez.
Vicente Nunes
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