sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

​Contra a indiferença, o deixa-andar e o calculismo de conveniência

É um dos paradoxos dos nossos tempos. Apesar de vivermos na era da discórdia permanente, das polémicas sucessivas e da indignação por tudo e por nada, também assistimos, cada vez mais, a um crescimento da indiferença em relação àquilo que, de facto, mais devia revoltar-nos e obrigar-nos a agir. E grande parte do problema começa exatamente nesse ponto: preferimos indignar-nos, porque assim já não precisamos de agir, de fazer alguma coisa para mudar o que está mal. Este adormecimento coletivo, potenciado pelos algoritmos que tanto dominam as redes sociais como a paisagem mediática, tem a consequência que se vai vendo: crescem os sinais de intolerância sobre tudo, mas promove-se a tolerância à indiferença, como se essa fosse a atitude mais cómoda, tranquila e, no fundo, a mais prudente. Numa sociedade em que apenas se quer ganhar a atenção, isso é feito não para estimular o pensamento e a ação, mas apenas para aceitar aquilo que nos é “servido”, sem ser preciso pensar em mais nada.


A lógica instalada, por quem mais quer prender-nos a atenção sem estar preocupado com o conhecimento, é simples: promover a polémica, o combate, mas deixar que tudo se resolva com um “gosto” ou não “gosto”, com um comentário violentíssimo nas palavras, mas sem qualquer relevância na realidade. Com um bónus: o de permitir que tenhamos outros a aplaudirem a nossa reação, fazendo com que sintamos que cumprimos a nossa missão, com brio, esforço e, sabe-se lá, até valentia – quando, afinal, não fizemos nada, de facto, que tivesse consequências para mudar a realidade.

É este contínuo fechar de olhos ou encolher de ombros às injustiças, às indecências, até às ilegalidades que acaba por minar o sentido de comunidade. Para tudo, há sempre um “mas” a justificar uma ação que deveria ser condenável ou um “também” para minimizar o impacto de algo que, em condições normais, deveria ser escandaloso e, por isso mesmo, inadmissível.

É por isso que, nesta época, é cada vez mais necessária uma informação livre, rigorosa e independente, inclusive dos humores e dos negócios escondidos do algoritmo. Uma informação que saiba hierarquizar os temas pela sua importância e não apenas para captar a atenção. Precisamos de informação que nos ajude a abrir os olhos, e não para ser consumida como se estivéssemos de olhos fechados. Não é preciso que estejamos sempre de acordo com o que ela nos transmite nem de a ter como fonte única e exclusiva de conhecimento – muito pelo contrário. O necessário é que, nestes tempos em que já nem sempre conseguimos distinguir o verdadeiro do falso, ela seja de confiança e credível – o que, convenhamos, é cada vez mais difícil de encontrar, infelizmente.

Uma sociedade mais informada será sempre, necessariamente, uma sociedade mais esclarecida e exigente. E, nessa medida, menos tolerante para com sentimentos de indiferença e mais severa com quem, na política ou no espaço público, faz da sonsice um estilo de vida ou insiste na mentira, sem qualquer pudor nem embaraço.

Vivemos num tempo de grandes transformações mundiais, em que as relações de força e as alianças estão metidas numa espécie de máquina centrifugadora, sem sabermos muito bem o que virá a seguir.

Na vida, como na política e nas relações internacionais, é importante que não nos remetamos permanentemente para o lugar da indiferença ou do calculismo exacerbado, como a querer dizer que “nada temos a ver com o que se está a passar”. A verdade é que temos. A guerra na Ucrânia, os massacres em Gaza, as convulsões em África ou a invasão ilegal da Venezuela podem parecer-nos longe, mas têm tudo a ver connosco. Não podemos ser indiferentes ao que lá se passa, nem usar pesos diferentes para medidas semelhantes. E, no mínimo, deveríamos preparar-nos para as convulsões que, inevitavelmente, se adivinham num futuro muito próximo. É melhor que, nessa altura, estejamos sustentados na verdade e não em perceções. De olhos bem abertos.

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