sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

'A vida dos pobrezinhos é um mistério'

Saímos das estradas mais movimentadas. Andámos por muito tempo até chegar a uma colina um pouco isolada. Lá em cima, um punhado de pequenos prédios iguais, com não mais de quatro andares e um ar desolado sob o céu cinzento e ventoso. “É aqui? É mesmo longe de tudo”, perguntei ao fotógrafo, enquanto subíamos a colina. Tocámos à campainha e subimos a pé vários lanços de escadas, galgando os degraus de mármore claro, frios e húmidos. A porta abriu-se e o nosso olhar quase conseguiu abarcar toda a casa. Era pequena. Na sala, para onde nos convidaram a entrar, havia um monte de roupa equilibrado em cima das costas do sofá. Não estava desarrumado. Era roupa acabada de lavar, dobrada, sem outro sítio onde estar.


Estávamos ali porque eu tinha escrito a história de Liliana, uma mãe a quem retiraram oito filhos porque era pobre. Nas semanas a seguir a essa história ser impressa, recebi muitos emails e telefonemas. Houve até uma mãe que veio ter comigo, à redação do jornal, garantir que tinha sido também por esse delito de pobreza que a tinham afastado dos filhos. E agora estava ali em frente a mais uma mulher, ainda jovem, mas já com a cara marcada e três filhos de uma relação anterior, que a tinha feito fugir e pedir ajuda. Vítima de violência doméstica, com dificuldades em pôr comida na mesa dos filhos, pediu auxílio na escola onde andavam as crianças e, em troca, puseram-lhe em cima um foco de luz demasiado pesado, que revelava todas as falhas, todos os erros. O mais velho começou a dar chatices na escola e passado pouco tempo estava institucionalizado.

Mas não era por isso que eu ali estava. A rapariga tinha refeito a vida com um novo companheiro, que estava ali ao seu lado. Quiseram ter mais um bebé. A criança nasceu, mas não veio para ali. Ficou no hospital porque as assistentes sociais acharam que não havia estrutura familiar naquela casa para a receber. Tinham-se passado meses. A mulher levou-me a um dos quartos e abriu, uma a uma, as gavetas onde tinha dobradas as roupinhas que o filho nunca chegou a vestir. Engoli em seco. Aquelas gavetas cheias foram a coisa mais vazia que já vi.


Ela foi-me explicando o inferno que era provar que queria continuar a ser mãe do seu próprio filho. Desempregada, não podia faltar aos cursos marcados pelo Centro de Emprego, que lhe davam os poucos euros de que precisava para viver. Mas também não podia faltar às visitas para ver o bebé, mesmo que isso lhe custasse demasiado dinheiro e tempo em transportes, atravessando concelhos para estar ali a manter um vínculo. Qualquer passo em falso podia custar-lhe o fim do subsídio ou a decisão de que a criança estaria melhor com uma família adotiva. Todas as escolhas daquela mulher eram impossíveis e insuportáveis.

Nunca cheguei a saber o que aconteceu depois de voltar ao jornal e escrever. Lembro-me de ter pensado que aquela periferia onde estive era num país diferente do que conhecia. E ocorreu-me que talvez essa estranheza me viesse de não ser uma alfacinha de gema. Mas acabei por concluir que há muitos lisboetas para quem as fronteiras de algumas periferias são um abismo ou um mistério.

“A vida dos pobrezinhos é um mistério”, diz-me às vezes um amigo, carregando na ironia, porque ele não é dos que viram as costas aos bairros que os jornais classificam como “difíceis” e onde as televisões só entram para mostrar raides policiais, marcas de balas e graffiti nas paredes.

Nos meses em que fui acompanhando as histórias de mães pobres, assustadas com o sobressalto de poderem ficar sem os filhos, não conseguia deixar de pensar no que exigimos aos que nada têm. Os pobres têm de ser perfeitos, imaculados. Já lhes toleramos a pobreza como falha. Não estamos dispostos a perdoar mais nada. E vão ter de nos provar uma e outra vez que são merecedores de qualquer direito. Os pobres estão sempre à prova. E sabem disso. E é talvez por isso que se escondem. Não é por vergonha. É por cálculo. É por saberem quais serão as consequências de qualquer sombra de ingratidão, pecado ou erro. O melhor é andarem de cabeça baixa ou, para os que têm sorte, esconderem a pobreza o melhor que podem, exibindo o pouco que têm, sem se aperceberem de que há quem os tope à légua e se indigne ainda mais por ser possível ser pobre e ter uns ténis de marca ou um iPhone. Não, não é fácil.

Os pobres aprendem depressa que o respeitinho é bonito. Os ricos não. Sabem que têm mais a ganhar quando questionam e exigem. Um estudo da Nova SBE Economics mostra que 31,7% dos mais pobres acham que as pessoas devem fazer o que lhes mandam e cumprir sempre as regras. Só 17,7% dos mais ricos acham o mesmo. E, como de pequenino é que se torce o pepino, 84% dos pobres acreditam que a obediência e o respeito pela autoridade são os valores mais importantes para ensinar às crianças, quando só 54,2% dos mais ricos defendem a mesma ideia.

Uma vírgula numa lei pode valer milhões para um rico. Mas os pobres arriscam todas as migalhas quando a austeridade lhes corta os apoios ou os aperta nos impostos. São os primeiros a sentir na carne o que se decide nos gabinetes. Mas nem por isso se interessam por política. O mesmo estudo diz que 45,2% dos mais pobres não têm nenhum interesse por política. Entre os mais ricos, apenas 11,5% que dizem não se interessar de todo. A explicação é simples: 50,1% dos pobres dizem que o sistema político não dá voz às pessoas (apenas 10,3% dos mais ricos pensam o mesmo) e 56,9% acreditam que é impossível influenciar a política (só 16,5% dos ricos sentem a mesma impotência).

O resultado está à vista. Dentre os mais pobres, 30,2% admitiram não ter votado nas legislativas anteriores ao inquérito. Agora, imaginem que eles votavam. E imaginem o que terá a dizer uma mãe que tem de provar a cada instante a perfeição, que é colocada perante dilemas impossíveis, a quem os transportes falham e a comida escasseia, que é posta de lado e julgada, mesmo antes de abrir a boca, e que sai da maternidade com o ventre vazio e os braços sem nada, obrigada a deixar para trás o bebé que quis, mas que lhe dizem que não pode ter.

Não podemos falar sobre isto. É populismo. O certo é defender baixas de impostos às grandes empresas e esperar que o dinheiro jorre em cascata por aí abaixo. O certo é apoiar os benefícios fiscais aos grandes investimentos. O certo é aceitar como mantras as obrigações orçamentais e rezar ao Deus das contas certas.

As vidas dos pobres são pornografia política. Não podem ser ditas em voz alta. Alguém alguma vez viu mesmo um pobre? Como, se há uma revista que assevera que vivemos na melhor economia do mundo? Se por um acaso muito remoto se cruzarem com um pobre, saibam que seguramente não se esforçou o suficiente. Ou, pior ainda: vive certamente às custas do dinheiro dos vossos impostos. Que não vos passe pela cabeça achar que essa gente merece sequer as migalhas que tem. E não pensem demasiado sobre porque é que só 10,3% dos mais ricos acham que o sistema político não lhes dá voz. Não pensem nisso. Nem pensem nisso.

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