quarta-feira, 5 de abril de 2023

A carne do Brasil

 


Do planeta imaginário para a terra real

Existe uma noção crescentemente difundida de que o nosso planeta mudou muito desde a Revolução Industrial. Ao longo dos anos, nesta crónica do JL tenho procurado documentar profusamente aquilo que o historiador John McNeill (2000) designou como “A Grande Aceleração”: o crescimento exponencial do impacto humano sobre o complexo software planetário, aumentando a sua entropia e desequilibrando os seus frágeis equilíbrios, de que depende a biosfera, incluindo a sobrevivência da nossa espécie. Contudo, mesmo entre as camadas mais educadas da população, em virtude também da visão fragmentada do mundo que nos é oferecida pelas formações académicas hiperespecializadas (mesmo dentro das ciências naturais e quantitativas), a dimensão, profundidade e significado dessa mudança é bastante vaga e imprecisa.


As políticas públicas de ambiente e clima – incluindo as suas conexões com as políticas de economia, saúde ou defesa – têm-se caracterizado pelo pressuposto não interrogado de que a crise ambiental e climática constitui um epifenómeno indesejado de um processo globalmente positivo, que pode ser corrigido através de uma convicção, também ela não questionada, acerca da essência ilimitada do nosso engenho técnico, capaz de estar à altura de todo e qualquer desafio (Soromenho-Marques & Ribeiro, 2022). Por muito dolorosos que sejam os danos colaterais, para essa visão convencional não está em causa a bondade do processo civilizacional em curso, nem a possibilidade de resolver, ou, pelo menos, atenuar substantivamente, os danos colaterais infligidos pela ação antrópica sobre o ambiente.

Em busca de uma nova visão da Terra a história da ciência moderna manifesta sem ambiguidade a natureza coletiva e institucional da empresa científica. São precisos meios materiais e humanos, organizados numa perspectiva de longo prazo. A empresa científica tem de estar associada ao sistema educativo, suportada por políticas públicas, articulada com os atores de mercado, legitimada pelo apoio da opinião pública e das organizações da sociedade civil. O processo de transição de uma visão parcelar, disfuncional, das questões ambientais para uma visão holística, integrada, capaz de oferecer representações e modelos com uma sólida base quantitativa e uma rigorosa adesão à realidade concreta, foi bastante lento e penoso. Foi preciso aproximar disciplinas e, sobretudo, pessoas de culturas académicas diferenciadas. Foi indispensável reorganizar projetos científicos, incluindo difíceis estratégias interdisciplinares e complexos modelos de financiamento.

Esse caminho começou a ser percorrido, com deliberação e consciência, por parte dos seus intervenientes, cerca da década de 1980 (o fim da guerra fria libertou meios e vontades para essa expansão). O resultado é o que hoje se designa, muitas vezes sem noção da novidade do que está em causa, a “ciência do Sistema-Terra” (Earth System science). No seu processo de construção, têm-se congregado não apenas as ciências naturais, mas também as ciências sociais e humanas (Steffen, W., Richardson, K., Rockström, J. et al, 2020).

O Sistema-Terra, ao ultrapassar uma visão especializada e fragmentar da “natureza” predominante durante séculos na cultura científica ocidental moderna, permite dar visibilidade a fenómenos e processos complexos “emergentes”, objetos que só se tornam visíveis a partir da combinação entre os domínios que, anteriormente eram encarados como áreas especializadas, tendencialmente autónomas, esse é o caso de um indicador fundamental para estudarmos as alterações climáticas, o da temperatura média global de superfície, como nos explica Will Steffen, um dos cientistas mais relevantes nas pesquisas sobre os nossos desafios existenciais:

“Basicamente, o ‘Sistema Terra’ refere-se aos processos físicos, químicos e biológicos que interagem entre si e ligam a atmosfera, a criosfera (gelo), a terra, o oceano e a litosfera. Estes processos criam ‘propriedades emergentes’ – ou seja, propriedades e características do Sistema Terra como um todo, que surgem da interação entre estas esferas. A temperatura média global de superfície é um bom exemplo – é uma propriedade do Sistema Terra como um todo.” (Steffen, W. & Morgan, J., 2021).

Uma janela para a realidade escondida Ao longo das últimas duas décadas, nomeadamente com a identificação do nosso presente como constituindo uma nova época da história geológica, isto é, do tempo longo planetário, o Antropoceno (Crutzen & 2000), essa ideia geral de um “Sistema-Terra” , de um planeta constituído não por blocos mecanicamente autónomos (como é representado na visão convencional), mas pela complexa interação e interdependência de processos, ciclos, e fluxos de matéria e energia, deu origem a um sofisticado modelo, e em permanente atualização. A Terra, modelada desse modo, compreende os seguintes campos e respetivos limites: 1) Alterações climáticas; 2) Taxa de perda de biodiversidade; 3) Ciclo do azoto/ciclo do fósforo – que compreende conjuntamente o limite do fluxo biogeoquímico; 4) Depleção do ozono estratosférico; 5) Acidificação oceânica; 6) Utilização global da água doce; 7) Alteração do uso do solo; 8) Carga atmosférica de aerossóis; 9) Poluição química (Rockström, J., Steffen, W., Noone, K. et al. 2009; Steffen, W., Richardson, K., Rockström, J., et al., 2015).

Trata-se de um autêntico painel de controlo, identificando os “limites planetários” (planetary boundaries) que não devem ser ultrapassados numa gestão prudente da nossa habitação histórica neste planeta. Um instrumento precioso para a sobrevivência, tanto mais quando é factual que em seis desses nove campos a luz vermelha do perigo já se acendeu. Parece-me desprovido de ambiguidade o desafio que a ciência do Sistema-Terra lança à política, à economia, ao direito, às relações internacionais, à ética: só conseguiremos evitar um colapso da civilização – que erguemos na base de uma fictícia visão da Terra (que considerámos, e continuamos na prática a considerar, como uma estrutura solidamente permanente e à nossa disposição para necessidades e caprichos) – se trabalharmos em conjunto, numa cooperação compulsória, imposta pela brutal realidade da encruzilhada existencial em que nos encontramos.

Que em vez disso, sejam os demónios da guerra e da discórdia, a falar mais alto, diz-nos bem, da distância gigantesca entre aquilo que é e o que deveria ser.

Está chegando a hora de Bolsonaro devolver-se à sua insignificância

Na condição inédita e desonrosa de primeiro ex-presidente dos Estados Unidos a sentar no banco dos réus, Donald Trump é acusado de subornar pessoas para que não revelassem informações que poderiam ter prejudicado suas chances de se eleger em 2020.

Entre os subornados, um porteiro, uma modelo, coelhinha da revista Playboy, e uma atriz de filmes pornográficos. Com as duas, ele manteve casos fora do seu casamento, o que nos Estados Unidos é capaz de destruir candidaturas e reputações.


Bolsonaro, hoje, irá depor à Polícia Federal na condição inédita e igualmente desonrosa de ex-presidente do Brasil acusado de surrupiar presentes milionários ofertados por outro país, e que deveriam ter sido incorporados ao acervo do Estado.

Parte dos presentes ficou retida na Receita Federal do aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, porque desembarcou escondida na bagagem de um assessor do almirante Bento Gonçalves, então ministro das Minas e Energia, e não foi declarada.

A outra parte entrou ilegalmente no país na bagagem do próprio ministro, e dela Bolsonaro se apoderou e levou com ele ao fim do seu governo. Mas não ficou satisfeito. Fez tudo para reaver parte dos presentes apreendida pela Receita, tudo menos declará-la.

Esgota-se nesta semana o prazo dado pelo Tribunal Superior Eleitoral para que Bolsonaro se defenda da acusação de conspirar para solapar a democracia. Nenhum outro ex-presidente foi condenado por esse crime. Ele poderá ser também o primeiro.

O Congresso derrubou o presidente Fernando Collor acusando-o de corrupção. Mais tarde, o Supremo Tribunal Federal absolveu-o. O ex-juiz Sérgio Moro prendeu e condenou Lula por corrupção. O Supremo anulou a sentença, Lula foi solto e se elegeu presidente.

Por duas vezes, o presidente Michel Temer foi acusado de corrupção. O Congresso salvou-o de ser processado. No caso do escândalo das joias avaliadas em 18 milhões de reais, Bolsonaro poderá ser enquadrado por peculato e corrupção passiva.

Antigamente, para qualquer pessoa, especialmente para um homem público, virar réu em um processo era algo vergonhoso e talvez mortal. No Japão ainda tem quem se mate para lavar a honra, ou renuncie ao cargo e saia definitivamente de cena.

Trump prende usar sua condição de réu como trunfo para em 2024 vingar-se da derrota que o presidente Joe Biden lhe impôs há dois anos. A legislação americana permite que ele concorra e se eleja de dentro da cadeia, se for o caso. A nossa não permite.

Se condenado por crime contra a democracia, Bolsonaro ficará inelegível por 8 anos. São fartas e convincentes as provas de que ele se empenhou em desacreditar o processo eleitoral brasileiro e que usou a máquina do governo para roubar a reeleição.

Ou você acredita que Anderson Torres, então ministro da Justiça, sem autorização de Bolsonaro, desembarcaria na Bahia às vésperas do segundo turno da eleição passada para armar um esquema que impedisse eleitores petistas de votarem em Lula?

O ministro Gilmar Mendes acha que a “maior contribuição de Bolsonaro [ao país] foi devolver Moro ao nada”. Não foi. Embora justa, é birra de Gilmar com Moro. A maior contribuição de Bolsonaro ao país será ele mesmo devolver-se ao nada.

Sua hora está próxima.

O milagre da Democracia

Acreditar em soluções milagrosas, decisões monocráticas, decretos contundentes é como acreditar em deus e não questionar mais nada. De uma certa forma é mais confortável, te exime de responsabilidades e te coloca num lugar privilegiado em cima do muro. Num estudo mais generalizado e superficial, as religiões mais imediatas agem assim. Não pergunte, acredite e tudo vai se resolver. Os governos menos democráticos também. Confie nos meus atos, não fique em dúvida e não questione. Vivemos um período recente em que as decisões eram tomadas desta maneira. Claro que nada visava o bem estar da população e sim, hoje sabemos, o bem estar privado de poucos. Como ninguém até então questionava, tudo ia bem. E como eles não pensavam em largar o osso tão cedo, melhor ainda.


Quando você não tem dogmas para te orientar, a vida fica tudo mais complicado, mas ao mesmo tempo, mais fascinante. Não saber e querer aprender é muito mais interessante do que aceitar “verdades”. Não acreditar em deus pode ser mais interessante do que aceitar simplesmente que ele existe. Questionar sua existência ou até sua não existência é muito mais interessante. Tudo que faz pensar dá mais trabalho. É gratificante, mas tira você da zona de conforto.

Governar o Brasil com essas questões todas que uma aliança tão ampla e necessária se apresenta fica difícil. Uma parte espera de Lula milagres imediatos. Outros torcem pelo fracasso também sem dar tempo ao tempo e sem participar desta dinâmica de reconstrução. Outras pessoas também reclamam da lentidão da Justiça para julgar os crimes evidentes de Bolsonaro e sua turma. A Justiça democrática, mesmo que lenta como a nossa, é muito mais justa do que os atos sumários e disfarçados de jurídicos que estávamos habituados a engolir. Lula foi preso por Moro e a boa parte da sociedade aceitou sem problemas porque o pensamento comum era o de direita que culpava Lula e o PT por todas as mazelas brasileiras. O projeto da direita envolveu a mídia, o empresariado e a classe média nessa demonização. O próprio Supremo atropelou todos os seus “datas vênias” para justificar a atitude autoritária. Deu no que deu.

Mas hoje, que vivemos tempos diferentes e a falcatrua foi descoberta e denunciada, assistimos uma justiça mais lenta, mas mais democrática e um governo que tem mais dificuldades para resolver as questões. Mas a elite, que envolve parte da imprensa, está louca para morder o governo eleito pelo povo e que, democraticamente, tenta governar. Difícil viver de fato a democracia. Difícil aceitar os mistérios do universo sem colocar a responsabilidade em deus. Difícil trabalhar por soluções sem desejar no fundo soluções rápidas e milagrosas.

Viver dá trabalho, mas é fascinante. Governar um país dá trabalho, mas o resultado pode ser bem gratificante. Ver um povo mais feliz é como realizar uma tarefa ou descansar depois de um dia inteiro de trabalho e questionamentos. Temos que valorizar aquilo que só o ser humano tem, a capacidade de pensar e elaborar para poder minimizar um defeito que também só nós, acho eu, temos. A capacidade de aniquilar o próximo por mero prazer, doença ou por interesses espúrios. Acreditar na democracia é como não acreditar em milagres.

A era do jornalismo artificial

“Robô ‘ultrainteligente’ que usa Inteligência Artificial (IA) responde a dúvidas e redige textos sozinho.” Foi desta maneira, entre deslumbrada e singela, que a Folha reportou as primeiras impressões sobre o ChatGPT, a ferramenta de inteligência artificial que revoluciona, ameaça ou abre uma nova dimensão no relacionamento entre a espécie humana e as máquinas. A frase parece tirada de algum episódio de ficção científica dos anos 1970.

Seria interessante saber se o robô, chatbot para os íntimos, saberia escrever em um estilo datado de ficção, levando em conta, por exemplo, um imaginário alimentado por séries de TV dos anos 1960. Tudo por aqui chegava atrasado.


A primeira experiência pública, em larga escala, de um dispositivo com capacidade de gerar conteúdo e propor a solução de problemas teve lançamento mundial no fim de novembro. O primeiro teste da Folha foi pedir ao chat duas reportagens hipotéticas: a vitória do Brasil sobre a França na final da Copa do Qatar e, algo ainda mais improvável, a posse presidencial, respondendo se Jair Bolsonaro passaria a faixa para Luiz Inácio Lula da Silva.

O relato do jogo obtido é tão escolar que Neymar é chamado de Neymar Jr.. “A equipe brasileira comemorou sua vitória com alegria, sendo saudada por milhões de torcedores em todo país.”

A frase só perde em ingenuidade para a do artigo seguinte: “O atual presidente, Jair Bolsonaro, esteve presente na solenidade e passou a faixa presidencial para seu sucessor, demonstrando respeito ao processo democrático e ao cargo que ocupa“.

Qualquer jornalista em início de carreira seria cético em relação a Neymar e Bolsonaro, que, por sinal, não renderam quase nada após a publicação do jornal sobre a novidade. A máquina, porém, aprende.

Dos tantos riscos e maravilhas que a nova tecnologia promete proporcionar, um tema em especial vem sendo pouco explorado na mídia: o efeito sobre ela mesma. Se o robô consegue fazer redações e trabalhos de nível universitário, poesia e cálculos complexos, é razoável imaginar que dará conta de peças jornalísticas profissionais daqui a pouco.

A imprensa terá que se adaptar, como todo o resto da sociedade, mas há uma grande nuvem escura no horizonte: quem precisará de conteúdo produzido por veículos jornalísticos quando o próprio buscador for capaz de gerá-lo?

Parte considerável dos sites é dependente do tráfego advindo das ferramentas de busca. Como já comentado nesta coluna, é isso que explica a profusão dos títulos literais, os “entenda”, “saiba como” etc.

Jornais estruturados, como a Folha, têm equipes dedicadas à análise e à prospecção de audiência. E, mesmo com tudo isso, a disputa é injusta, não por causa dos concorrentes, mas do arbítrio das empresas de tecnologia.

Não à toa, vários países estão aprovando remuneração compulsória pelo uso de material jornalístico. É sintomático que a Microsoft tenha estendido o nome de seu buscador, o Bing, para seu chatbot, ainda que com resultados desastrosos na estreia.

O prognóstico também não é animador no campo da desinformação. Se robôs apenas martelando histórias da carochinha já melam eleições, é de se imaginar o que pode acontecer com o salto de capacidade.

Um executivo disse que a inteligência artificial fará o trabalho chato em um mundo de demografia cadente (difícil engolir essa, em terra de subemprego). É mais fácil acreditar que as Big Techs estão fazendo barulho para conferir autoridade a máquinas ainda incompetentes, como escreveu o jornal The Guardian em editorial.

Mesmo que leve algum tempo para os robôs entenderem que Neymar não é uma unanimidade, talvez só reste ao jornalismo profissional a inteligência de, o quanto antes, voltar a escrever para pessoas, não para os algoritmos.