sábado, 26 de maio de 2018

A caminho do brejo

Um país não vai para o brejo de um momento para o outro — como se viesse andando na estradinha, qual vaca, cruzasse uma cancela e, de repente, saísse do barro firme e embrenhasse pela lama. Um país vai para o brejo aos poucos, construindo a sua desgraça ponto por ponto, um tanto de corrupção aqui, um tanto de demagogia ali, safadeza e impunidade de mãos dadas. Há sinais constantes de perigo, há abundantes evidências de crime por toda a parte, mas a sociedade dá de ombros, vencida pela inércia e pela audácia dos canalhas.

Aquelas alegres viagens do então governador Sérgio Cabral, por exemplo, aquele constante ir e vir de helicópteros. Aquela paixão do Lula pelos jatinhos. Aquelas comitivas imensas da Dilma, hospedando-se em hotéis de luxo. Aquele aeroporto do Aécio, tão bem localizado. Aqueles jantares do Cunha. Aqueles planos de saúde, aqueles auxílios moradia, aqueles carros oficiais. Aquelas frotas sempre renovadas, sem que se saiba direito o que acontece com as antigas. Aqueles votos secretos. Aquelas verbas para “exercício do mandato”. Aquelas obras que não acabam nunca. Aqueles estádios da Copa. Aqueles superfaturamentos. Aquelas residências oficiais. Aquelas ajudas de custo. Aquelas aposentadorias. Aquelas vigas da perimetral. Aquelas diretorias da Petrobras.

A lista não acaba.

Um país vai para o brejo quando políticos lutam por cargos em secretarias e ministérios não porque tenham qualquer relação com a área, mas porque secretarias e ministérios têm verbas — e isso é noticiado como fato corriqueiro da vida pública.

Um país vai para o brejo quando representantes do povo deixam de ser povo assim que são eleitos, quando se criam castas intocáveis no serviço público, quando esses brâmanes acreditam que não precisam prestar contas a ninguém — e isso é aceito como normal por todo mundo.

Um país vai para o brejo quando as suas escolas e os seus hospitais públicos são igualmente ruins, e quando os seus cidadãos perdem a segurança para andar nas ruas, seja por medo de bandido, seja por medo de polícia.

Um país vai para o brejo quando não protege os seus cidadãos, não paga aos seus servidores, esfola quem tem contracheque e dá isenção fiscal a quem não precisa.

Um país vai para o brejo quando os seus poderosos têm direito a foro privilegiado.

Um país vai para o brejo quando se divide, e quando os seus habitantes passam a se odiar uns aos outros; um país vai para o brejo quando despenca nos índices de educação, mas a sua população nem repara porque está muito ocupada se ofendendo mutuamente nas redes sociais.

A falta que um governo faz

A crise que paralisa o país neste ano eleitoral é um estímulo para que as pessoas compreendam a falta que um governo faz num país.

O governo tinha condições de prever a paralisação. Possui recursos para a inteligência e, sobretudo, tinha uma posição privilegiada para entender a evolução da crise: desde julho do ano passado estava negociando com os caminhoneiros.

Portanto, falhou nesse quesito. Sua saída seria ter um plano para permitir que, apesar da greve, o país funcionasse no essencial. Mas nunca se aprovou uma estratégia de defesa nacional, apesar de o projeto ter uma década de existência.

O Brasil foi pego de calças na mão. Mostrou-se um país vulnerável. Um plano elementar de defesa garantiria com escolta armada a saída dos caminhões com combustível. Isso aconteceu em Curitiba e, parcialmente, deu certo para manter o transporte urbano em ação, aliviando o peso dos que se deslocam para trabalhar.

O Brasil poderia estar menos dependente da gasolina. Mas congelou o projeto que impulsiona os biocombustíveis. Seduzidos pelas descobertas do pré-sal, acorrentamos nosso destino ao combustível fóssil.

Da mesma forma, o Brasil poderia ter mantido e desenvolvido suas ferrovias. Mas caiu na ilusão tão comum no Novo Mundo: uma nova opção tecnológica remete as outras para os museus.

O preço da gasolina não precisava ser tão alto. Cerca de 45% são impostos. A máquina dos governos em Brasília e nos estados não dispensa esse dinheiro porque jamais soube reduzir seus custos.

Os políticos e a elite burocrática ainda não caíram na realidade. A máquina administrativa é de um país ilusório, muito mais rico do que o país de concreto, que todos habitamos de carne e osso.

É esse país da fantasia que precisa desaparecer com a sua máquina do Estado catapultada para o mundo real. Vivemos um momento de avanços tecnológicos que poderia tornar o enxugamento dos gastos mais fácil que no passado.

Não creio que gastando mais com o país e menos com o seu governo arriscaríamos a competência ou mesmo a dignidade dos cargos.

No país real, a dignidade de uma elite governante também se mede pelo seu esforço em ser austera, pela decisão de compartilhar nossas limitações cotidianas. E não por construir um oásis particular no deserto de nossa desesperança. A ausência de um governo revela também a nossa fragilidade quando não dispomos desse instrumento. De repente, o Brasil parou, somem os alimentos, em alguns lugares também a água mineral.

É como se o país trocasse de mãos. Não só estradas, como refinarias foram bloqueadas. Uma coisa é fazer greve, outra intervir na vida dos outros e do próprio governo. Os lances ilegais não foram punidos, nem apurados os indícios da presença das grandes empresas na greve. Paradoxalmente, num momento de fragilidade como esse a sociedade encontra uma possibilidade de mostrar sua força.

Para muitos, o que se passa no universo político não interessa, o melhor é deixar de lado e cuidar da própria vida. Mas eis que uma paralisação como essa revela claramente que não existe vida própria, blindada contra os descaminhos da elite dirigente. Gasolina, alimentos, água de beber tudo isso invade a existência pessoal com seus vínculos familiares.

A greve foi um momento em que nos sentimos muito sós. Mas abre a chance de nos reunirmos em torno da ideia de um país, uma cultura, enfim, de retomar algum nível de sentimento nacional. Isso passa por uma grande sacudida no país da fantasia.

Caos

O “Partido dos Caminhoneiros” conseguiu o que MST, MTST, CUT e partidos de oposição ao governo Temer ameaçaram e não tiveram força para fazer, nem mesmo com a prisão de Lula: paralisar o País. É uma nova força política que pode ser qualquer coisa, menos um movimento de esquerda.
Assim como em junho de 2013, o protesto dos caminhoneiros também teve combustão espontânea, sem partidos por trás ou líderes carismáticos e estridentes. Ambos surgiram de repente, pegando todo mundo de surpresa e jogando o governo contra a parede.

A motivação dos milhares de pessoas que foram às ruas em junho de 2013 foi o aumento das tarifas de transportes urbanos. A dos caminhoneiros neste maio de 2018 é o aumento diário dos combustíveis, principalmente do diesel. Os dois protestos encontraram ambiente propício, foram uma fagulha em palha seca e incendiaram os governos de Dilma, primeiro, e de Temer agora. O Brasil nunca mais foi o mesmo depois daquele junho. E muita coisa pode mudar a partir deste maio.


Em 2013, homens e mulheres, jovens e velhos, gente de esquerda e de direita lotaram as ruas, e o que menos contou foram partidos e ideologias. Em 2018, há um acordo tácito entre os patrões e caminhoneiros, que fecharam estradas, produziram um efeito cascata e ameaçam com o colapso.

Litros de leite jogados fora, montanhas de hortaliças murchas, prateleiras vazias nas farmácias, tanques secos nos postos de gasolina, falta de água mineral e de combustível de aviação nos aeroportos… E os preços disparando. O que começou como um protesto de um setor, de uma categoria, virou um movimento nacional.

Produtores rurais, empresas privadas e serviços públicos foram atingidos em cheio. E o que dizer do cidadão e da cidadã, já irados com a corrupção, desconfiados com as eleições, mal-humorados com o governo e estarrecidos com o aumento da gasolina? A crise, latente, explodiu de cima a baixo.
Como só iria acontecer, o governo Temer, já tão fraco e a caminho do fim, virou o principal alvo de várias frentes autônomas e conflitantes: caminhoneiros, confederações (como a dos Transportes e da Agricultura), Congresso, a própria Petrobrás e a mais poderosa de todas, a opinião pública.

O estopim da crise foi o aumento do preço internacional do petróleo, a disparada do dólar e o trauma da Petrobrás, que afundou com Lula e Dilma não só pela corrupção, mas também pela manipulação política (ou populista) dos preços. Só que faltou cuidado.

Assim como aumento de impostos, o de combustíveis é coisa para governos fortes, o que, definitivamente, não é o caso. Para piorar, a Petrobrás não apenas impôs o aumento, como impôs um aumento diário! Pode até fazer sentido empresarial, mas foi de uma audácia política incrível. E na hora errada.
Temer ficou entre os protestos e a política de preços independente da Petrobrás. Parente ficou entre uma solução política e uma sinalização perigosa para o mercado e para os investidores da companhia, que ontem caiu 14% na Bolsa. E o fim do mundo é (ou seria) ele ir embora.

Em ano eleitoral, o Congresso, à frente Rodrigo Maia e Eunício Oliveira, aproveitou para tirar uma casquinha na crise e espicaçar ainda mais o Planalto. E os governadores? Tiraram o corpo fora.

O maior problema no fim deste governo (e no início do próximo) é a crise fiscal, o rombo das contas públicas. Como cortar impostos do diesel sem cobrir o buraco com alguma outra receita? Tira de um lado, tem de pôr do outro. E isso não é uma “maldade liberal”, é um dado aritmético e uma realidade social: quando 2 + 2 não somam 4 na contabilidade pública, quem quebra a cara é quem mais precisa do Estado brasileiro.

Brasil de hoje


Desalentados e multirraciais

Artigo em jornal, na página de opinião, tem compromisso com fatos, notícias e acontecimentos. Ao menos, para refletir e analisá-los. É diferente de literatura. Nessa, a primazia absoluta é da linguagem, na exploração de suas possibilidades, para revelar seu poder latente na busca de sentido de se estar no mundo. Ou o encantamento e os impasses da dor diante dele. Carlos Drummond de Andrade, nosso poeta maior, já ensinou: “Não faças versos sobre acontecimentos./ Não há criação nem morte perante a poesia.”

É nas palavras que a poesia vai buscar sua força e poder. Sugere ainda o poeta: “Chega mais perto e contempla as palavras./ Cada uma/ tem mil faces secretas sob a face neutra.”

Mas jornal se faz com fatos. E eles se distribuem por todos os assuntos do mundo e do nosso tempo. Vão das dificuldades geradas pelo preço de combustíveis e protestos dos caminhoneiros à festa do casamento real em Windsor. Da revelação de novas frentes de corrupção no INSS ou na merenda escolar à escalada irrefreável da violência — da Rocinha à Cidade Universitária, da execução de Marielle Franco ao bebê baleado no colo da mãe. Fatos que parecem isolados se arrumam em constelações que lhes dão novos significados. Passam da pré-campanha eleitoral e das idas e vindas de recursos e embargos nos tribunais à divulgação dos mais recentes dados numéricos. Volta e meia, nesse processo, exigem palavras novas.

E elas surgem. Às vezes, em modismos artificiais, “lacrando” agora e destinados a durar pouco. Outras, na rica e original criação popular de potência duradoura. Os meios acadêmicos volta e meia trazem ou tentam impor artificialismos como “empoderamento” — criticado por tantos ouvidos sensíveis e já acusado de ser um “embutido” vocabular ou perversão linguística.

Estes últimos dias nos brindaram com duas contribuições interessantes nesse terreno de reapropriação léxica. Novas faces secretas reveladas sob a face neutra de que falava o poeta, de vocábulos “sós e mudos/ em estado de dicionário.”


Uma delas veio de um órgão que costumamos associar a números e não às letras. Rapidamente ganhou colunas de analistas e relatórios de economistas. Mas já o poeta ensinara que “sob a pele das palavras há cifras e códigos”. O IBGE amplifica o sentido de “desalentados” e mostra que, em quatro anos, subiu quase 200% o número de brasileiros que desistiram de procurar emprego porque chegaram à conclusão de que não vão mesmo encontrar nada. Dentro do estarrecedor descalabro nacional — com seu jovem e crescente contingente nem-nem, que nem estuda nem trabalha —, ganha visibilidade e nome uma imensa parcela de nossa população. É urgente buscarmos saídas racionais, num debate adulto, que não escamoteie os dados e fatos da realidade, nem fique tentando disfarçá-la com retórica oportunista e vazia, cuja única serventia talvez seja adiar soluções necessárias e perpetuar benefícios ou privilégios de quem tem poder.

Outra boa palavra surgida agora, a fazer pensar, brotou na cobertura do casamento na família real britânica. A noiva não se contenta em ser classificada como afrodescendente ou negra, como aconteceu com Barack Obama ao assumir a Presidência americana há alguns anos — sempre a inutilmente tentar lembrar que sua mãe era branca e seu pai, africano. Mezzo a mezzo... A nova duquesa de Sussex, intensamente ciente de cada indício simbólico nos mínimos detalhes da cerimônia, faz questão de se identificar como “birracial”, assumindo a mistura afro-caucasiana. No Brasil, talvez “multirracial” seja uma palavra mais verdadeira para nos descrever, ao incorporar indígenas — sem mistificação, como ainda Drummond aconselhava a recebermos as ordens da vida.

Já abandonamos o rico termo “favela” por “comunidade”, palavra que acentua laços importantes e força coletiva, mas traz perdas conceituais, ao relegar ao esquecimento uma série de conquistas culturais e um tecido histórico substancial, em prol de terminologia mais abstrata, mais ligada a uma classificação de capilaridade social americana. Já estamos fazendo campanhas para substituir a palavra “escravo” por “escravizado”, como se o número maior de sílabas e o aspecto de particípio passado, ao se afastar do substantivo concreto, mudasse o horror, o sofrimento e a vergonha do sistema escravocrata que nos fez como país e a que foram submetidos povos i
nteiros no correr da História. E assim seguimos, mesmo desalentados e multirraciais, a patrulhar palavras, discutindo o supérfluo e acessório, e deixando de encarar o essencial.

Pode parecer uma bobagem, mas acho que, se conseguirmos nos pensar como birraciais e multirraciais, estaremos mais próximos de ver quem somos e entender o imenso valor que tem essa identidade, os caminhos que ela pode nos abrir em meio às dobras do racismo persistente. Mais uma vez, com Drummond, podemos constatar que há calma e frescura na superfície intacta das palavras. “Com seu poder de palavra/ e seu poder de silêncio”.

Ana Maria Machado

Felicidade com pouco

Embora a experiência me tenha ensinado que se descobrem homens felizes em maior proporção nos desertos, nos mosteiros e no sacrifício do que entre os sedentários dos oásis férteis ou das ilhas ditas afortunadas, nem por isso cometi a asneira de concluir que a qualidade do alimento se opusesse à natureza da felicidade.

Acontece simplesmente que, onde os bens são em maior número, oferecem-se aos homens mais possibilidades de se enganarem quanto à natureza das suas alegrias: elas, efetivamente, parecem provir das coisas, quando eles as recebem do sentido que essas coisas assumem em tal império ou em tal morada ou em tal propriedade. Para já, pode acontecer que eles, na abastança, se enganem com maior
facilidade e façam circular mais vezes riquezas vãs. Como os homens do deserto ou do mosteiro não possuem nada, sabem muito bem donde lhes vêm as alegrias e é-lhes assim mais fácil salvarem a própria fonte do seu fervor 
Antoine de Saint-Exupéry, "Cidadela"

Em que ponto estamos dos sete pilares malditos da Venezuela?

Prestem atenção nos sete pontos levantados pela organização InSight Crime para explicar como a Venezuela, primeiro sob Hugo Chávez e depois sob o desmando alucinado de Nicolás Maduro, se transformou num estado mafioso.

As semelhanças com o Brasil são assustadoras. Nós escapamos de chegar lá ou ainda podemos alcançar o nível de deterioração em que cidadãos comuns simplesmente morrem de fome, doenças ou tiros inteiramente produzidos pelo regime?

“Coletivos” criados como movimentos sociais armados
 ajudam a manter estado bolivariano

Cada leitor tem capacidade de tirar suas conclusões. Os sete pilares da maldição são os seguintes:

1. Infiltração do crime nas mais altas instâncias do estado

A InSight Crime levantou os nomes de 123 funcionários das esferas superiores da máquina do governo. Incluem-se na lista a vice-presidência; os ministérios do Interior, Defesa, Agricultura, Educação, Serviço Penitenciário, Comércio Exterior, Energia, Elétrica, Guarda Nacional, Forças Armadas, Serviço de Inteligência e PdVSA, a estatal petrolífera.

As atividades criminosas são, majoritariamente, tráfico de combustível e de cocaína, e venda de alimentos e remédios no mercado negro.

O tráfico de drogas é institucionalizado e dividido em áreas sob o controle de militares e civis. O nome Cartel de los Soles não designa um cartel ou grupo dominante do tráfico como na Colômbia ou no México.

O sol se refere à estrela dourada usada pelos generais da Guarda Nacional Bolivariana, mas a expressão é usada para designar todos os funcionários do aparato estatal envolvidos com o tráfico.

Parece uma estrela de xerife americano. Maduro usa uma quando se fantasia de comandante.

2. Evidências de cleptocracia

A palavra “evidência” é uma forma elegante de designar o estado de desgraça nacional que a rapinagem organizada produziu no país com as maiores reservas mundiais de petróleo fora do Oriente Médio.

Tal como a hiperinflação, de 18 000%, é difícil calcular exatamente o montante do “grande saque do século XXI”, na definição do colunista Nelson Bocaranda, uma brincadeira amarga com o socialismo pregado por Chávez e correlatos.

“Os cofres nacionais foram pilhados em escala industrial pela elite bolivariana”, define a InSight, mencionando um cálculo de 300 bilhões de dólares, evidentemente impossível de ser confirmado pois os ladrões são os mesmos donos dos dados oficiais.

O controle de preços e da taxa de câmbio no comércio exterior, esta eliminada em janeiro quando a “moeda” oficial já valia 23 500 menos vezes que o dólar no paralelo, foram os principais instrumentos desse assalto coletivo.

3. Transferência do poder do estado para agentes irregulares ou ilegais

Em outras palavras, o inferno descontrolado que o regime cubano criou na Venezuela – embora em seu próprio país tudo seja altamente regulado.

Com a criação dos “coletivos”, os grupos comunitários armados que no Brasil seriam chamados ironicamente de movimentos sociais, as Forças Armadas e de segurança perderam o monopólio do uso da força como fieis depositários de um instrumento concedido pela sociedade.

Depois de devidamente cubanizadas e incorporadas ao esquema “roubolucionário” em ampla escala, as Forças Armadas venezuelanas viraram um braço do regime.

Mas os coletivos permanecem. Divididos entre bairros da periferia, principalmente de Caracas, recebem armas e licença para usar a violência. Seus integrantes cobrem o rosto quando mobilizados para atacar oposicionistas ou controlar postos de votação e usam motocicletas.

São uma espécie de motoboys do mal. O mesmo sistema foi “exportado” para a Nicarágua.

Os queimadores de pneus, plantações e edifícios ocupados do Brasil nunca chegaram nem perto do nível de nocividade de seus modelos venezuelanos, mas a próxima categoria é catastroficamente conhecida entre nós: bandidos que controlam o sistema penitenciário, exercem atividades criminosas dentro e fora das cadeias e operam em coordenação com as “autoridades”.

Na Venezuela, são chamados de “pranes”. O acordo de cooperação surgiu depois de uma rebelião em que os mediadores, pela parte do governo, foram um pastor evangélico e um integrante do coletivo Las Piedritas.

O acordo com os “criminosos revolucionários” entrou em vigor em 2011, quando a deputada Iris Varela, conhecida como Comandante Fosforito, foi nomeada ministra do Serviço Penitenciário. Uma de suas qualificações aparentemente foi ser amante do mais alto escalão.

A partir daí, evidentemente, a coisa só degringolou. Como os bandidos, de novo, também são donos dos dados, só dá para ter uma ideia com cálculos não oficiais: 92 homicídios por 100 mil habitantes (no Brasil, 42).

4. Crescimento exponencial do crime organizado

O equivalente venezuelano dos grupos chamados de “comandos” no Brasil são as “megabandas”.

O crime em larga escala foi incentivado pelos motivos acima descritos, inclusive a corrupção institucionalizada. Mas seu fundamento ideológico bebe da mesma distorção do pensamento esquerdista segundo o qual a pobreza justifica e até enobrece a criminalidade.

Falsas políticas sociais criaram zonas de criminalidade livre, orwellianamente chamadas de “zonas de pacificação”. A polícia não entrava em determinadas áreas, na prática transferidas para o controle de grupos de criminosos comuns.

O pioneiro dessa “política” foi José Vicente Rangel Ávalos, prefeito de Sucre, na Grande Caracas, segundo o levantamento da InSight Crime.

Membro da elite bolivariana, filho de um ex-vice-presidente de Chávez, está na lista de 19 figurões do governo feita pelo Canadá, acusando-os de “graves violações dos direitos humanos” e corrupção. Atenção, Canadá, um dos países mais meticulosos do mundo em matéria de relações exteriores.

A retirada das forças de segurança de determinadas áreas é pregada por um conhecido campo político no Brasil. Um de seus mais frequentes argumentos é a falácia chamada de “genocídio do povo negro”, como se existissem batalhões de brancos matando pessoas com base na cor da pele.

Oficialmente, a política das “zonas de paz” na Venezuela foi cancelada. Todas continuam a ser, evidentemente, zonas de guerra.

5. Altos níveis de violência praticados por agentes estatais e não-estatais

De tão conhecido pelos brasileiros, este item praticamente dispensa explicações.

Numa de suas inúmeras farsas, Maduro lançou um programa de “operações de libertação do povo”, uma espécie de operação fantasia para combater o crime. Nem é preciso dizer o que aconteceu.

6. Exportação da criminalidade

Ao condenar à fome ou ao exílio seu próprio povo, o regime bolivariano criou legiões de pequenos contrabandistas de gasolina, mulas do tráfico de cocaína e envolvidos nas várias pontas da exploração sexual amplificada pela situação de necessidade.

Atualmente, cerca de cinco mil venezuelanos fogem do país por dia. Nesse ritmo, o número pode chegar a 1,8 milhão este ano – 5% da população do país.

As sucessivas ondas de refugiados dos milagres do socialismo do século XXI começaram com os empresários. Os que não quisessem ou conseguissem ser cooptados pelo companheiro Chávez foram simplesmente confiscados.

Depois foram os profissionais de alta qualificação, principalmente da indústria do petróleo. As classes médias com algum recurso vieram em seguida. As massas de desvalidos da hiperinflação, esfaimados mesmo com as bolsas-tudo, formam as atuais correntes humanas.

Alguns observadores acreditam que diversas camadas de bolivarianismo de raiz também já estão no mesmo caminho. Com ou sem reeleição, esta uma possibilidade inexistente, percebem que o madurismo é insustentável.

As figuras mais conhecidas estão na lista negra dos países onde historicamente os ladravazes latino-americanos procuravam estacionar o estilo de vida proporcionado por atividades ilegais, em especial a república de Miami.

Para onde irão? Onde encontrarão aliados no crime?

7. Acusações internacionais de amplo espectro de atividades criminosas

O último item da lista da InSight Crime parece quase uma formalidade. Mas reativa a urgência da questão do ponto de vista do Brasil.

De novo, onde irão se refugiar os bandidos de uma vizinhança na lonjura da selva amazônica?

Em todos os aspectos, o desastre produzido pelo chavismo na Venezuela epitomiza a desgraças latino-americanas.

Num amplo arco que vai da formação histórica de populações sem sentido de cidadania, propensas ao caudilhismo e seu companheiro de viagem, o clientelismo, até uma classe de intelectuais servis às mais delirantes teses neomarxistas, como se o original não fosse suficientemente ruim, a Venezuela bolivariana é o que nós poderíamos ser ou corremos o risco de nos transformar.

É possível também defender uma ideia oposta. Se Hugo Chávez tivesse sido acusado, investigado, julgado e condenado pelo regime intrinsecamente corrupto que criou, a catástrofe venezuelana teria sido em escala muito menor.

Mas isso nunca poderemos saber. A história real da América Latina é muito mais delirante do que a contrafactual.

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Falsa democracia

Na Itália, a Operação Mãos Limpas naufragou porque não houve mobilização da sociedade e após ser atingido o coração das organizações criminosas o corpo político reagiu estrategicamente, usou o poder de forma contundente e elaborou leis que impediram o prosseguimento do trabalho dos juízes e do Ministério Público (MP).

Legislou-se contra o bem comum, visando à autoproteção diante da letargia do povo, e as conquistas da Mãos Limpas foram por água abaixo. Esse roteiro é de pleno conhecimento do juiz Sergio Moro e dos procuradores da Lava Jato.

Temos vivido outro processo histórico, especialmente a partir de junho de 2013, quando o povo saiu às ruas – aparentemente para protestar contra um aumento de tarifa de ônibus. Logo se percebeu que os motivos eram muito mais graves: insatisfação com a política e os partidos.

Por isso foi rejeitada a PEC 37, que a Câmara, então presidida por Henrique Alves (preso por corrupção), pretendia aprovar para monopolizar a investigação criminal nas mãos da polícia, impedindo o MP de fazê-lo. Foi rejeitada por 430 x 9.

Além da rejeição da PEC 37, a Câmara aprovou naquele momento também as Leis 12.846 (anticorrupção) e 12.850 (delação premiada), mas, infelizmente, a verdade é que esse movimento teve o exclusivo objetivo de acalmar a sociedade. Quando a situação voltou a estar razoavelmente sob controle, reapresentou-se a crise de representatividade política que vivemos já há vários anos, com o descumprimento grave do papel de mandatários e partidos.


Aliás, as legendas políticas, em especial de centro e de direita, há mais de dez anos vêm rejeitando a denominação “partido” em seu nome. Querem esconder que o são. O PFL em 2007 deu início ao movimento transformando-se em DEM. Depois, o Solidariedade (2013), o Novo e a Rede (ambos em 2015). O PMDB baniu o P da sigla, assim como o PTN, que virou Podemos. Esses são apenas alguns exemplos.

No Congresso, diversas proposituras legislativas que não visam à proteção do bem comum nem à eficiência no combate à corrupção têm sido observadas nos últimos anos. Ao contrário, percebe-se nelas o objetivo de enfraquecer o sistema de Justiça e criar obstáculos ao trabalho de magistrados e do MP.

Nessa linha, a PEC 89/2015, que propunha a estranha criação de juizados de instrução presididos por delegados de polícia. Como o nome já diz, juizado é presidido por juiz, que colhe provas sob o crivo do contraditório. Para um delegado poder exercer funções de juiz deve ser aprovado em concurso para juiz, sob pena de violarmos o princípio constitucional da separação de Poderes, porque delegados são subordinados ao governador ou ao presidente e quem preside um juizado de instrução deve ser independente.

Em 29/11/2016 tivemos o público e notório pisoteamento das 10 Medidas contra a Corrupção, subscritas em projeto de iniciativa popular por quase 3 milhões de cidadãos brasileiros. E exatamente uma semana antes, à exceção de apenas quatro dos 35 partidos – Rede, PSOL, PHS e PPS –, os demais articularam anistia para todos os ilícitos praticados com caixa 2 eleitoral e pretendiam aprová-la em votação secreta. Isso só não se concretizou porque a manobra acabou vazando e a sociedade se mobilizou, reagindo fortemente contra a iniciativa.

Recentemente, sem alarde, o PL 7.448 caminhou sem discussões, sem audiências públicas na Câmara, sem debate em plenário e foi aprovado, trazendo em seu bojo simplesmente o desmantelamento do sistema de combate à corrupção, afetando especialmente o TCU, permitindo contratações com graves afrontas à lei sob o argumento de “modernização do sistema”. Seria um ataque grave ao Direito Administrativo. Nos “acréscimos do segundo tempo”, a sociedade civil virou o jogo com muita luta, conseguindo demonstrar os riscos do projeto, o que levou o presidente da República a vetar os mais escandalosos dispositivos.

O que se percebe em todas as situações é que o farol que tem iluminado o exercício do poder é apenas o da autoblindagem, como detectou a pesquisa Latinobarometro 2017 (97% dos brasileiros consideram que os políticos somente exercem o poder em próprio benefício), ganhando força, por isso, ideias como a das candidaturas avulsas.

Não foi diferente a inspiração do projeto que pretendia impedir a colaboração premiada de presos, ferindo frontalmente o princípio da isonomia, assim como o decreto de indulto presidencial “Black Friday”, que liquidava 80% das penas de corruptos numa canetada, esta contida pelo STF.

Nesse cenário surgem agora o projeto do novo Código de Processo Penal (CPP), sob a relatoria do deputado Delegado João Campos, e o “Estatuto de Responsabilidade Civil”, de autoria do deputado Hugo Napoleão (o mesmo proponente da PEC 89). São projetos que exigem extrema atenção da sociedade. Trazem questões delicadíssimas dentro de si.

O projeto do CPP (elaborado por advogados e professores) estipula prazo de duração para inquéritos, como se fosse possível haver uma tabela e como se os casos não tivessem complexidades distintas. Passou o prazo, impunidade! Além disso, a prova colhida nos inquéritos é jogada fora e desconsiderada no processo, e sem cerimônia ressuscita-se a PEC 37, pois novamente se vulnera brutalmente o poder de investigação do MP, mesmo depois de decisão do pleno do STF que o consolidou.

O “Estatuto da Responsabilidade Civil” nada mais é que o projeto do abuso de autoridade maquiado e disfarçado, que pretende, na verdade, minar a independência do Judiciário e dificultar o combate à corrupção, o que reforça as evidências de não mais vivermos uma real democracia, mas uma verdadeira tirania, em que se pretende de forma indisfarçável tornar inviável o exercício livre da magistratura e do Ministério Público no Brasil.

Caminhões levam Temer da fantasia para o caos

No dia 15 de maio, Michel temer promoveu uma celebração no Planalto para marcar o aniversário de dois anos do seu governo. Ele desperdiçou um discurso de uma hora autoelogiando-se. A crise provocada pela paralisação dos caminhoneiros demonstra que o presidente estava hospedado no mundo das fantasias. Pouco importa que os fatos o desmintam. A reação de Temer à paralisação dos caminhões veio tarde e deixou a sociedade brasileira à mercê da anarquia de um setor econômico que não enxerga nada além do próprio umbigo.

Temer é um presidente enfraquecido por denúncias de corrupção. Ele mantém uma rotina de reuniões com assessores suspeitos que se dedicam exclusivamente a reclamar dos outros e a falar bem de um governo que apodreceu. O risco de uma coisa assim dar certo é inexistente. Mas, sob Temer, o Planalto exagera na capacidade de transformar o ruim em algo muito pior.

Os caminhoneiros desafiaram a autoridade do governo. Temer abriu a negociação pedindo trégua. Depois de ajoelhar-se, entregou a alma à turma da roda presa. Cedeu desde o congelamento do diesel até um subsídio de R$ 5 bilhões para atenuar o peso do reajuste dos combustíveis até o final do ano. E as estradas continuaram bloqueadas. Só então foram acionadas as forças de segurança. O Brasil tornou-se um lugar ideal para o surgimento de um país inteiramente novo. Caos não falta. Temer é um ex-presidente da República no exercício da Presidência.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Brasil de hoje


Os deuses e os mortos

Dirigido pelo moçambicano naturalizado brasileiro Ruy Guerra, Os deuses e os mortos é um ícone da fase “alegórica” do Cinema Novo, vencedor do festival de Brasília de 1970, numa abordagem barroca e tropicalista que retrata a violência no campo e o monopólio da política pelas oligarquias. Era uma época em que o regime militar estava no auge; parte da esquerda ainda acreditava que derrubaria o regime pegando em armas e que implantaria um “governo popular”. Era tudo um delírio, do “Brasil, ame ou deixe-o”, do general Garrastazu Médici, ao “Quem samba fica, quem não samba vai embora”, de Carlos Marighela.

Com fotografia excepcional de Dib Lufti e trilha sonora de Milton Nascimento, o filme tinha um elenco estrelado, a maioria viria a brilhar nas novelas da Globo: Othon Bastos (“O Homem”), Norma Bengell (“Soledade”), Rui Polanah (“Urbano”), Ítala Nandi (“Sereno”), Dina Sfat (“A Louca”), Nelson Xavier (“Valu”), Jorge Chaia (“Coronel Santana”), Vera Bocayuva (“Jura”), Fred Kleemann (“Homem de branco”), Vinícius Salvatore (“Cosme”), Mara Rúbia (“Prostituta”), Monsueto Menezes (“Meu Anjo”), Milton Nascimento (“Dim Dum”), Gilberto Sabóia (“Banqueiro”) e José Roberto Tavares (“Aurélio”).

O filme foi saudado pelo The New York Times como um “western tropical”, que misturava o japonês Akira Kurosawa com o italiano Sérgio Leone no sul da Bahia, tendo a temática do cacau na saga descrita por Jorge Amado como base do roteiro do próprio Guerra, Paulo José e Flávio Império. Ao lado do diretor, Sérgio Sanz fez uma edição fascinante. Audacioso no plano estético e político, a alegoria poética retratava de forma antropológica a vida nacional dos anos 1930, num ambiente rural que culturalmente permanecia o mesmo, mas, economicamente, já estava em mudança. Sua força vital e mágica parecia surgir do nada, como acontece hoje nas periferias e favelas. O protagonista é um personagem fantasmagórico, interpretado por Othon Bastos, ator de Deus e o diabo na Terra do Sol (1964) e São Bernardo (1972).


O Homem Sem Nome (Othon Bastos), depois de levar sete balas no corpo e não morrer numa chacina, se intromete entre dois clãs de coronéis que lutam pelo poder, ou seja, pela terra e pelo cacau, em cenas memoráveis. A câmara de Dib Lufti, num determinado plano-sequência, percorre lentamente um grupo enorme de guerrilheiros, com armas, sentados nos degraus a toda a volta da praça principal da cidade, à espera do grande confronto. Na cena seguinte, um plano muito aberto mostra toda essa gente agonizando na praça ensanguentada. O Homem Sem Nome fracassa.

A mesma alegoria poderia ser transposta para o cotidiano da vida urbana do presente, pois o seu material humano, do ponto de vista cultural e político, continua presente. A violência, a disputa de território, o banditismo, as oligarquias, a cultura do velho coronelismo, todos os elementos do roteiro de Os Deuses e os mortos estão vivíssimos não só nos grotões, mas nas grandes metrópoles.

Ruy Guerra sabia o que estava fazendo. “Esse filme é talvez o passo mais importante desde Deus e o diabo na Terra do Sol para definir uma realidade cultural, religiosa e humana do brasileiro, que não depende apenas do situacionismo econômico e histórico (…) O Homem, interpretado por Othon Bastos, está infinitamente ligado com o fato de ele não ser caracterizado em termos de passado, presente ou futuro, o que ‘desindividualiza’, o torna atemporal e alegórico; o desejo impessoal do poder”, explicou à época.

A alegoria com a nossa política também seria perfeita, basta ler as notícias dos jornais. O que não falta são candidatos a deuses e a mortos-vivos. Vicejam num ambiente de iniquidade social, desesperança, violência e crise ética. As narrativas desses atores funcionam como alegorias de um passado recente que foi atropelado pela globalização e pela Operação Lava-Jato, mas continua a assombrar o presente. Um ex-governador cordato e querido pelos pares tem a prisão decretada, o ex-líder de toda uma geração rebelde volta à cadeia, um ex-presidente preso insiste numa candidatura ficha-suja. Ministros, senadores, deputados, governadores compõem um cortejo de mortos-vivos, surgem candidatos a deuses.

Fora desse universo, o aparelho de segurança e o crime organizado se enfrentam, com baixas de ambos os lados. E a morte espreita o cidadão a cada esquina, no asfalto ou no morro, na noite escura ou à plena luz do dia, enquanto a vida segue milagrosamente o seu curso, ainda que a esperança não tenha sido reinventada, como nas cenas de Os deuses e os mortos. As instituições do país ainda funcionam, a economia resiste maltratada. Na democracia, acreditem, o povo astucia sua própria saída, que sempre aparece nos processos eleitorais, mesmo quando tudo parece dominado. Em algum momento, após a Copa do Mundo, haverá um reencontro entre a política e os cidadãos. E um democrático ajuste de contas.

Como fazer com que os super-ricos paguem mais impostos?

No mundo globalizado, um punhado de gigantes tecnológicos e seus donos são mais poderosos e ricos do que nações inteiras. São tempos de exuberância para os paraísos fiscais (por volta de 50 territórios em todo o planeta), o segredo bancário, a fraude e a sonegação fiscal das grandes corporações. Em boa parte do mundo, incluindo os países ricos, a sustentabilidade dos sistemas públicos (aposentadorias, saúde, educação) é posta em dúvida; o desemprego, em muitos países, é um drama enquanto a robotização ameaça os trabalhadores. E o sistema tributário atual é incapaz de captar os recursos públicos necessários para dar conta dessas necessidades.

“A enorme complexidade das operações globais das multinacionais, junto com a vontade das big four [KPMG, PwC, Ernst & Young e Deloitte] para criar estruturas que separam a tributação dos lucros dos lugares em que realmente se desenvolve a atividade da empresa, levou a uma situação em que até mesmo o Fundo Monetário Internacional (FMI) reconhece que as leis já não servem”, diz Alex Cobham, diretor do Tax Justice Network, um grupo de ativistas que denuncia os abusos do sistema impositivo internacional. Seus especialistas fizeram contas. A sonegação fiscal das multinacionais deixa perdas de 500 bilhões de dólares (1,85 trilhão de reais) por ano no planeta e acende as luzes vermelhas. A Associação Internacional de Advogados chama essas manobras tributárias de uma violação aos direitos humanos.


Esse é o assunto quando se fala hoje de impostos. Até mesmo o jornal Financial Times – trincheira inexpugnável do liberalismo – mostrou as fraturas do sistema. Um estudo recente do jornal britânico revela que as grandes multinacionais pagam muito menos impostos agora do que antes do crash mundial de 2008. Concretamente, a taxa efetiva (a proporção de lucros que esperam pagar) caiu 9% desde a crise financeira. Uma queda que chega a 13% nas grandes empresas tecnológicas. “Precisamos de um novo paradigma que onere os impostos empresariais e do capital de uma forma mais ampla”, diz Jason Furman, ex-presidente do Conselho de Assessores de Barack Obama. “Com as políticas adequadas podemos conseguir. O ideal seria que fossem negociados e coordenados entre os países. Mas se isso, como parece, for difícil, as nações podem criar sistemas que funcionem em seus próprios territórios”.

Toda essa raiva despertou nos últimos meses as grandes empresas da revolução digital, que encontraram em inúmeros territórios com tributação ínfima (na Europa, países como Luxemburgo, Irlanda, Bélgica e Holanda) seu parque de diversões particular. Os países europeus perderam 5,4 bilhões de euros (23 bilhões de reais) entre 2013 e 2015 em impostos do Google e Facebook, porque diluíram seus lucros através dessas jurisdições. E sempre parece existir um país disposto a oferecer um paraíso fiscal melhor do que o anterior.

Poucas empresas refletem isso melhor do que a Amazon. Em 1994, a empresa de Jeff Bezos, à época somente um vendedor de livros online, procurava sede para seu negócio e a primeira opção foi uma reserva indígena norte-americana. Esses territórios têm generosas isenções fiscais. Mas o Estado da Califórnia se opôs. Depois escolheu Seattle (Washington). Bezos contou que a escolheu porque tinha uma população pequena. Naquela tempo somente os varejistas com presença física em um Estado pagavam impostos. Além disso as vendas a outros territórios com maior população não eram taxadas. Desde então, o sistema fiscal da Amazon é uma contínua evasão. De fato, o implantou em 2003 em Luxemburgo, um país que o Tax Justice Network chama de “a Estrela da Morte do segredo bancário”. Muitos de seus críticos afirmam que se a Amazon se transformou no maior varejista do planeta é em parte por essa busca de territórios com tributação ínfima. Como estão longe as palavras do jurista norte-americano Oliver Wendell Holmes (1841-1935): “os impostos são o preço que pagamos por uma sociedade civilizada”.

A União Europeia apresentou em março uma proposta para taxar em 3% as empresas de tecnologia com faturamento global superior a 750 milhões de euros (3,3 bilhões de reais) e 50 milhões de euros (220 milhões de reais) na Europa. Mas se calcula que ela não estará vigente até 2020. Os tributos que escapam impedem a construção de uma sociedade mais equitativa. Um trabalho da Royal Society of Arts (RSA) britânica sugere que com as novas taxas que poderiam ser impostas ao Facebook, Amazon e Apple seria possível dar a todos os britânicos menores de 55 anos uma renda básica universal de 10.000 libras (50.000 reais).

Um ensaio (The Role and Design of Net Wealth Taxes) da OCDE explica que hoje os milionários têm mais influência, poder e podem gerar lucros sem trabalhar. “Uma pessoa que trabalha por 20.000 euros (88.000 reais) por ano e outra que recebe o mesmo, mas investindo estão em posições diferentes”, critica o estudo. E acrescenta: “Um aspecto fundamental da acumulação de riquezas é que se retroalimenta: a riqueza gera riqueza”. Por isso o economista Thomas Pikettypropõe um imposto global sobre o patrimônio que taxe em 5% e 10% as fortunas superiores a 10 milhões de euros (44 milhões de reais).

Jorge Pérez é um dos homens mais ricos do planeta. A revista Forbes calcula sua fortuna em 3 bilhões de dólares (11 bilhões de reais). Logo será bem menor, pois se comprometeu com Bill Gates e seu programa de doar a metade para programas sociais. Colecionador de arte e um dos maiores filantropos dos Estados Unidos, reconhece que “pensa muito” em uma ideia: “Os milionários deveriam pagar mais impostos? A resposta não é fácil. O mais razoável seriam maiores taxas aos ricos e uma melhor distribuição, mas isso depende dos Governos, que são ineficientes e muitas vezes corruptos”.

Mas na sociedade cresce a pressão para taxar mais esse 1% que acumula 82% da riqueza da Terra. “Se Mark Zuckerberg prevê ganhar 4 bilhões de dólares (15 bilhões de reais) nesse ano, é melhor que esteja no mesma categoria de alguém que ganha, digamos, 300.000 dólares (1,12 bilhão de reais) ou deveria ser taxado em 90% e ter 3,6 bilhões de dólares (13 bilhões de reais) para hospitais e escolas?”, se pergunta Charles Enoch, professor na Universidade de Oxford. “E o próprio Zuckerberg seria menos ‘feliz’ se aumentasse seu patrimônio somente nesse valor?”. Parece razoável, diz Enoch, que alguém que ganha mais de 100 milhões de dólares (374 milhões de reais) por ano deva pagar pelo menos 90%.

Governo paga resgate, mas país continua refém

O baronato do transporte de carga sequestrou a rotina dos brasileiros sem levar o rosto à vitrine. Terceirizou o bloqueio de estradas aos caminhoneiros autônomos. No quarto dia, com o país submetido ao caos do desabastecimento, o Planalto cedeu integralmente às exigências. Em troca, obteve um armistício mixuruca de duas semanas, que não foi subscrito por todos os sequestradores da paz social. Quer dizer: o governo de Michel Temer pagou o resgate, mas o Brasil continua refém de uma ilegalidade: o locaute (pode me chamar de greve de patrões) é proibido pela legislação brasileira.

Nas palavras do negociador Eliseu Padilha, chefão da Casa Civil, o governo cedeu “tudo o que foi solicitado”. Isso inclui o tabelamento do preço do diesel por 30 dias e um subsídio para atenuar os reajustes até o final do ano. Para que a Petrobras não fique no prejuízo, o Tesouro Nacional (também conhecido como contribuinte) pagará à estatal a diferença entre o preço de mercado e o refresco servido à turma da roda presa. Coisa de R$ 5 bilhões até o final do ano, quando Temer será enviado de volta para casa. Ou para onde outro lugar.


Repetindo: armou-se algo muito parecido com uma versão envergonhada do controle de preços adotado sob Dilma Rousseff. A diferença é que, para não impor novos prejuízos à Petrobras, o custo do subsídio migrou do passivo da estatal para o bolso da plateia —que muita gente acredita ser a mesma coisa. Como dinheiro público não é gratuito, será necessário cortar os R$ 5 bilhões de outras áreas da administração pública. A última vez que o governo teve de fazer isso, transferiu verbas do seguro desemprego para cobrir o calote aplicado no BNDES pela Venezuela e por Moçambique.

Numa evidência de que o patronato utilizou os caminhoneiros como bonecos de ventríloquo, incluiu-se no acordo o compromisso do governo de não permitir que o Congresso reonere a folha salarial do setor. De novo: a folha das empresas transportadoras continuará isenta do pagamento de imposto. Tudo isso mais a redução de taxas e tributos que incidem sobre o diesel.

Admita-se que o governo não tinha outra alternativa senão negociar. Mas precisava fazer isso de joelhos? Não poderia ter condicionado as concessões à desinterdição prévia das rodovias? Era mesmo necessário passar a mão na cabeça do patronato que trafega no acostamento da legislação. Na manhã desta sexta-feira, ainda faltarão mantimentos na gôndola, combustível na bomba e remédios na prateleira. Mas nenhuma mercadoria é mais escassa no momento do que a autoridade presidencial.

Michel Temer tornou-se uma pequena criatura. Ninguém ignora que o personagem brigou para permanecer ao volante. Mas falta-lhe um itinerário. Consolidou-se como um ex-presidente no exercício da Presidência.

Perder tempo, paixão nacional

A crença na nossa abundância natural e inesgotável de florestas, campos férteis, subsolos ricos, rios e mares também parece valer para o tempo. Perdido, no caso.

Nos países mais prósperos e civilizados, o tempo do cidadão foi se valorizando cada vez mais, não por angústia metafísica, mas pelos resultados da boa e velha máxima time is money.

Principalmente quando money pode comprar o bem mais precioso: time.

Penso no tempo perdido no trânsito, em filas lentas e intermináveis, em longas e penosas viagens para o trabalho em transportes precários, no tempo que se perde em repartições públicas e em processos judiciais, como é tradição brasileira, e em setores modernos como bancos e supermercados.

No tempo que uma atendente de um McDonald’s americano serve quatro pessoas, uma brasileira serve uma. Uma questão de timing. E objetividade, da atendente e do freguês. O tempo ali é dinheiro para todos. É o que se pode chamar de produtividade, que dá mais dinheiro para empregados e empregadores, e mais tempo livre.

Recentemente, perguntaram a trabalhadores americanos e europeus se estariam dispostos a trabalhar mais 10% de tempo por mês para ganhar mais 10% de salário. A maioria absoluta de americanos aceitava, e os europeus rejeitavam. Pelo valor do tempo livre para eles. Mesmo em pequenos vilarejos italianos há obras de arte, tradição, histórias, famílias, comida, vinho, natureza. O que fazer numa cidadezinha americana no tempo livre?

O brasileiro tem uma capacidade nata para perder tempo, principalmente do outro. Movido por uma cultura do papo e da dispersão, tem no DNA a preguiça e a malandragem de Macunaíma, que vem de cima para baixo, e volta para cima, prejudicando a todos e torrando fortunas do bem mais precioso dos tempos modernos: o tempo.

O Brasil resiste à cultura moderna e tecnológica de “comprar um serviço” e insiste na tradição colonial de “alugar uma pessoa” o mês inteiro, para um trabalho que pode ser feito na metade do tempo.

Hoje não há tempo mais perdido do que horas vagando pela internet, espalhando mentiras e xingando adversários políticos.

quinta-feira, 24 de maio de 2018


Aprendendo com Brasil

Não seria possível arrolar as vezes que o Brasil foi mencionado por cronistas, missionários, viajantes, historiadores, escritores e curiosos. Quando pesquisamos os viajantes estrangeiros que falaram do Brasil, logo descobrimos como eles foram cegos ou míopes em relação a certos assuntos, ao mesmo tempo que, ironicamente, foram nítidos e certeiros relativamente a outros. Nós vemos o que os que nos visitaram não viram e eles viram o que nós não queríamos ou conseguíamos ver.

Todo antropólogo cultural sabe que ninguém enxerga tudo. Como dizia um dos expoentes da disciplina, E. E. Evans-Pritchard: “Na ciência, como na vida, só se acha o que se procura”. Foi, aliás, com essa advertência que eu abri o livro Relativizando no qual apresento uma visão embrionária da antropologia, destinada a estudantes e leigos. Pensando nessa equação entre o achar e o procurar, nesse mesmo livro eu assinalei que cada antropólogo tem inevitavelmente a tribo que merece.

A questão, porém, é quando se acha o que não se procura. Como a assombrosa prevenção contra os “índios” testemunhada por mim em 1959-60, confirmando o preconceito de não ter preconceito, denunciado por Florestan Fernandes. Uma falsa inocência tão maligna quanto o refrão “tudo foi feito dentro da lei”...

Consciente dessas descontinuidades de olhares, eu imagino o que os historiadores do futuro dirão do Brasil de hoje. Certamente, o espanto não vai estar no que foi superado, mas nos costumes que julgávamos suplantados ou extintos, mas que insistem e permanecem vivos até hoje.


Um deles é o pedir aos outros que façam alguma coisa para nós. “Será que você pegava o óculos do vovô?” é uma demanda situada entre o pedido de favor (opcional, mas sujeito ao famoso “você é imprestável”) e a ordem (que não deixa escolha) muito comum aqui em casa.

Tal transferência de serviço para um outro na forma de um favor foi notada pelos que nos visitaram no século 19. Sobretudo pelos visitantes cujo “lugar de fala” eram sistemas mais igualitários e individualistas que agora estavam enfurnados numa sociedade relacional, aristocrática de molde branco europeu, mas sustentada por uma imensa escravaria negra africana.

Vindos de sociedades inventoras de expressões como “leave me alone” (deixe-me só), “do it yourself” e do “take good care of yourself” (faça você mesmo, cuide bem de você mesmo) - os reflexivos salientando um estilo de vida individualista, eles se espantaram com um estilo de vida em que havia intermediários para falar com Deus, com o rei, com os amigos e com os criados. Foi o surpreendente Borges quem chamou minha atenção para esses - “get your self a wife” (arranje para você mesmo uma esposa), impraticáveis para quem sempre teve um escravo, um criado, ou uma boa mãe ou esposa para “tomar conta” e “cuidar” de quem foi de treinado para depender e a ter dependentes. Traço que é um dado inconsciente da própria natureza da vida social entre nós. “Se titio virar ministro, ele emprega toda a nossa família!”, eis - com as variantes de praxe - o axioma da cultura nacional.

Esse “tomar conta” é enorme: ele vai do oferecer e do prestar favor e cobre igualmente o servir o nosso prato, arrumar a nossa cama, nos dar remédio na doença e nos fazer companhia em viagens ou quando estamos solitários. Serve também para nos controlar ou “vigiar”.

Como não aprendemos a dizer não a nós mesmos, esses irmãos siameses servem de limites ou de cúmplices. O resultado é o extraordinário conjunto de crimes em quadrilha e partidários, realizados no modo relacional que hoje ameaça o funcionamento de uma democracia igualitária fundada no cidadão individual e não na companheirada partidária ou corporativa.

O fato é que, no Brasil, o isolamento é visto como um castigo. Quando alguém trai lealdades, ele é posto “no gelo” e suspenso da rede social. “Eu não falo mais com ele” revela não apenas incompatibilidades, mas desdém, desprezo e abandono - essas mortes em vida. Por outro lado, a dificuldade de separar pessoas carregadas de lealdades com outras pessoas de instituições e normas é o resultado de um sistema forjado por dependências pessoais. Nunca somos apenas um e no mundo político e religioso isso ficou bem claro para certos visitantes, sobretudo os que - como foi o caso de Thomas Ewbank - fizeram uma verdadeira etnografia do Rio de Janeiro dos 1850. Suas observações sobre as múltiplas manifestações da hierarquia e da importância das relações na vida cotidiana são numerosas e elucidativas.

Ewbank observou com método e por assunto, cobrindo um vasto campo da vida social brasileira num mesmo momento - vale notar - em que Manuel Antônio de Almeida publicava em folhetins o seu clássico Memórias de Um Sargento de Milícias. Num caso, uma ficção localizada no passado, no outro uma etnografia falando do presente. Em Almeida dramas, em Ewbank análise de uma realidade que o tempo apagou. Em Memórias, uma dupla ética; em Ewbank, a percepção aguda da hierarquia e da escravidão. Ambos mostrando como se aprende com o que chamamos Brasil.

Mortalidade infantil impõe queda de braço com ajuste fiscal de Temer

O congelamento de gastos planejado pelo Governo de Michel Temer como resposta à crise econômica poderá ter um impacto direto na mortalidade de crianças, aponta um estudo feito por analistas ligados à Fiocruz e divulgado nesta terça-feira pela revista científica norte-americana PLoS Medicine. Os pesquisadores fizeram uma simulação de quantas mortes de menores de cinco anos poderiam ser evitadas até 2030 caso os programas Bolsa Família e Estratégia de Saúde da Família tenham seus orçamentos aumentados de forma proporcional ao acréscimo no número de pobres no país. Seriam 19.732 mortes a menos até 2030 em comparação com o cenário mais provável, o de que os orçamentos aumentem apenas segundo a inflação do ano anterior, como prevê, de forma global para todas as pastas do Governo, a Emenda Constitucional 95(antiga PEC 241). A extrema pobreza no Brasil aumentou 11% entre 2016 e 2017, mas o orçamento do Bolsa Família previsto para este ano é menor do que o do ano passado.

"Quando você congela os gastos, ou seja, os ajusta de acordo com a inflação, você não consegue manter o nível de proteção social que você tinha antes”, diz Davide Rasella, do Instituto de Saúde de Coletiva da Universidade Federal da Bahia e principal autor do estudo. Segundo ele, a matemática não fecha porque há três dinâmicas sociais que não estão sendo ajustadas: primeiro, o crescimento populacional que faz com que se tenha menos dinheiro por pessoa. Depois, o envelhecimento populacional, dinâmica importante tanto para a assistência social como para a saúde. E, ainda, a inflação da tecnologia da saúde, que faz com que os custos da área aumentem a cada ano.

O estudo se apoia em duas notas técnicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) divulgadas em 2016, logo após a aprovação da Emenda Constitucional que congela os gastos do Governo. A primeira delas afirmava que em 20 anos de aplicação da PEC a política de assistência social brasileira, que comporta o Bolsa Família, contaria com menos da metade dos recursos necessários para garantir a manutenção da cobertura nos padrões atuais. A segunda nota apontava que, até 2036, o Sistema Único Brasileiro (SUS), responsável pelo Saúde da Família, perderia cerca de 400 bilhões de reais —número similar ao achado por outro estudo, do Conselho Nacional de Saúde.

Os pesquisadores também se basearam em outra nota, do Banco Mundial, que recomendou um aumento no orçamento do Bolsa Família em 2017 para 30,41 bilhões de reais para fazer frente aos brasileiros que entraram na faixa da pobreza pela severa crise econômica. "A distribuição do orçamento adicional do Bolsa Família para as famílias recém elegíveis entre os novos pobres pode evitar que a taxa de pobreza extrema no Brasil aumente para além do nível de 2015", afirma este estudo. Em 2017, o Governo gastou 28,9 bilhões para 13,8 milhões de famílias, aponta o site Poder 360. Para 2018, o orçamento previsto para o programa é menor: 28,2 bilhões, para 13,9 milhões de beneficiários. O Governo, entretanto, anunciou um reajuste no valor repassado às famílias no último dia primeiro.


Com base nos dados apresentados nesses três estudos, os pesquisadores consideraram três cenários distintos de crise econômica e seus efeitos no aumento da pobreza entre 2015 e 2030, um período de 15 anos. No primeiro cenário, mais moderado, se considerou que a taxa de pobreza aumentaria até 2017 e depois voltaria a cair até 2030. No segundo, considerado por eles o mais provável, a pobreza deixaria de aumentar após 2019. E no terceiro, mais agudo, o aumento da pobreza só pararia após 2021. Para cada um dos três cenários se estipulou duas possibilidades: a de o orçamento do Bolsa Família e do Saúde da Família aumentarem de acordo com o crescimento da pobreza; e a de os dois programas sofrem o efeito da Emenda Constitucional, ou seja, seus orçamentos só aumentarem pelo reajuste da inflação. A partir daí, eles calcularam em quanto seria impactada a taxa de mortalidade infantil.

Em todos os três cenários de aumento da pobreza, o país mantém a queda da mortalidade infantil vivenciada nos últimos anos —entre 2000 e 2016 ela caiu 31% em números absolutos (de 56.786 para 39.305). Mas essa diminuição varia de acordo com o nível de proteção orçamentária dos dois programas. No segundo cenário de crise, considerado pelos pesquisadores como o mais provável, a manutenção da proteção social adequada traria uma quantidade de mortes infantis 8,57% menor até 2030. Em números brutos, isso representaria 19.732 mortes a menos. No cenário de crise mais branda, se evitaria até em 2030 13.954 mortes. E no de crise mais grave o congelamento de gastos deixaria de evitar 23.424 mortes. O Governo federal refuta a ideia de que o orçamento será congelado e afirma que a cobertura do Bolsa Família tem crescido e vem sendo reajustado.

Para chegar a esta conclusão, os pesquisadores utilizaram a base de cálculo do impacto dos dois programas na taxa de mortalidade de crianças menores de cinco anos entre 2004 e 2009, observada por eles em outro estudo, publicado em 2013 na também revista científica The Lancet. Na ocasião, eles calcularam todas as causas de mortalidade infantil entre menores de cinco anos, incluindo, por exemplo, desnutrição, diarreia e infecções respiratórias agudas, e montaram modelos matemáticos que isolaram os efeitos do Bolsa Família nestas causas. Com isso, concluíram que o programa foi responsável pela redução de 17% das mortes de crianças menores de cinco anos.

Isso acontece porque o Bolsa Família, segundo os pesquisadores, melhora tanto a qualidade quanto a quantidade de comida das famílias pobres, impactando, especialmente, na diminuição de casos de diarreia e de desnutrição. O programa também aumenta as consultas pré-natal das gestantes e a cobertura vacinal das crianças, pré-requisito para o recebimento do benefício, assim como as consultas com pediatras. Já o Saúde da Família aumenta o número de visitas médicas, já que ele prevê que os profissionais de saúde visitem os domicílios pobres para atender e orientar as famílias. Tudo isso tem impacto no chamado grupo de mortes evitáveis, aquelas que poderiam ser prevenidas por ações efetivas do Governo, como vacinação, atenção adequada à gestante, ao parto e ao recém-nascido, e ações adequadas de promoção à saúde, o que inclui, por exemplo, anemias associadas à deficiências nutricionais.

"A mortalidade de menores de cinco anos tem caído ao longo do tempo. O que importa do ponto de vista de política pública é o que nós podemos fazer para acelerar esta queda. O Bolsa Família é um dos mais bem sucedidos programas de melhoria da situação nutricional das famílias no mundo. Precisa ser utilizado, sim, no controle dos efeitos da crise econômica", ressalta Romulo Paes-Sousa, da Fiocruz Minas Gerais e outro dos autores do estudo.

O sistema de estatísticas do SUS (DataSus) já demonstra que diante do cenário atual de crise a mortalidade infantil está sendo impactada, segundo dados adiantados pelo jornal Valor Econômico no último dia 14 e confirmados por um levantamento feito pelo EL PAÍS no sistema. Os dados apontam que a mortalidade entre crianças de um a quatro anos cresceu 11% no país entre 2015 e 2016, últimos dados disponíveis. Apesar disso, os dados globais de mortes evitáveis de crianças caiu 1,2% no período, impulsionado pela queda ocorrida no grupo dos recém-nascidos que continua.

Quando os dados são analisados por cor ou raça, também percebe-se que o aumento nos dados das crianças entre um e quatro anos se deu especialmente entre brancos e pretos (14%) e indígenas (17%). Apenas Mato Grosso, Santa Catarina, Distrito Federal Sergipe e Tocantins diminuíram seus índices de mortes evitáveis nesta faixa etária. Em Roraima, o aumento chegou a 43% e, se olhados os dados referentes aos indígenas, o número de mortes se elevou em 106% — há anos os indígenas da etnia yanomami, que vivem no Estado, denunciam a precária situação da saúde indígena.

A política de achaques ao cidadão

Vamos explicar o nosso ponto de vista: o Estado achaca os cidadãos por meio de impostos exorbitantes; os políticos achacam a Petrobras para manter o Estado que achaca os cidadãos; a Petrobras achaca os cidadãos por meio do preço dos combustíveis que ajuda o Estado a achacar os cidadãos; os donos das frotas dos caminhões achacam o Estado para diminuir o preço dos combustíveis, sem diminuir o preço repassado aos cidadãos lá na ponta final do consumo; ao diminuir a incidência de impostos no preço do combustível, o Estado irá achacar os cidadãos de outra forma — e tudo continuará como está. 

Com você, cidadão, sendo permanentemente achacado por todo mundo.

Brasil de hoje


No país dos falsos dilemas

A questão do foro especial é mais um dos falsos dilemas brasileiros. A discussão ingressa agora no tema “tira o foro de todo mundo ou não” e engastalha de saída na momentosa questão do “o que, tecnicamente, define uma súmula vinculante” que seria uma das maneiras de estender a derrubada do privilégio para o judiciário e demais caronas. Esperar que o judiciário extinga um privilégio dele próprio é arriscar deixar a coisa rolar por mais 100 anos nesse vai não vai. A “via rápida” seria o legislativo fazer uma lei que anule as diversas leis e quase leis que estenderam indevidamente a regalia. Como, porém, tanta gente lá tem o rabo preso nas garras do judiciário a coisa não é tão simples. E ainda que passasse só como vingança é de esperar, a julgar pela “jurisprudência” mais recente, que o judiciário desfaça o que o legislativo fizer em idas e vindas sucessivas e o país continue parado esperando até que estejamos todos mortos…

Outro ponto a considerar é o vaticínio de Gilmar Mendes de que vamos nos arrepender de termos suspenso o foro especial amplo, geral e irrestrito ao menos para políticos. Diz ele, “conhecedor da nossa justiça criminal que é”, que a impunidade vai ficar mais garantida pelo caminho certo do que estava pelo caminho errado. E o pior é que todo mundo sabe que ele tem razão.

Essa seria a “deixa” para levar a discussão para o que interessa mas o Brasil que precisa disso ficou mudo depois que as escolas de jornalismo conseguiram estabelecer como dogma que o bom jornalista só “ouve fontes” e o exercício do raciocínio próprio para desafia-las e inquiri-las, ainda que seja apenas confrontando-as com os fatos que exponham suas mentiras, seria uma violação do princípio da separação entre opinião e reportagem. O resultado é que “cobrir política” de forma “isenta” passou a significar amplificar o que dizem as fontes oficiais desde que justapondo o dito pela “situação” ao dito pela “oposição” lá do Brasil que manda, deixando o Brasil mandado absolutamente sem voz. É isso que explica porque denunciar e exigir o fim dos privilégios que “situação” e “oposição” gostosamente compartilham enquanto se alternam no poder tornou-se oficialmente “impopular” ou no mínimo “controvertido” em todos os jornais e televisões do país, apesar de estarmos falando da causa primeira e ultima da sangria desatada de todos os bolsos miseráveis da nação estrebuchante para rechear com mais largueza, haja o que houver, os da ínfima minoria não meritocrática dentro da minoria dos mais ricos.


O ponto que interessa ao Brasil mandado é que o foro especial não é “causa” de nada, como dizem por aí, é apenas mais um efeito, ainda que este com poder multiplicador, do defeito essencial que responde por todas as nossas desgraças, que é estar invertido o poder de mando na relação entre representantes e representados da pseudo democracia brasileira. Se tivéssemos, como tem toda democracia de verdade, o direito de demitir, por iniciativa popular e a qualquer momento, políticos e funcionários indignos (recall) e recusar leis pervertidas vindas dos legislativos (referendo), não só o foro especial jamais teria extrapolado a função de proteger a palavra e a ação de quem nós elegemos para falar e agir por nós para a qual foi criado, como também tais palavras e ações jamais se teriam desviado para a criação de uma clientela militante para servir-se do serviço público com o propósito exclusivo de reelege-los em troca do compartilhamento de privilégios indecentes. Se fizéssemos, como faz toda democracia de verdade, eleições periódicas de retenção (ou não) dos juízes encarregados de nos entregar justiça, nós jamais teríamos de temer que levar os crimes comuns dos servidores do povo para a justiça comum pudesse resultar em mais impunidade.

O problema do Brasil sempre foi e continua sendo um só, de uma obviedade mais ululante a cada dia que persiste no seu anacronismo medieval. Pois ha 1/4 de milênio, já, que vem sendo confirmado e reconfirmado pelo argumento indiscutível do resultado que colhe toda e qualquer sociedade que se põe à salvo disso, que é uma lei da natureza que sempre que se concentra o poder esta-se fornecendo um endereço ao bandido que dorme dentro de cada ser humano: “Trabalhar pra quê? Suborne aqui e tenha o seu problema resolvido”. Por isso, em todo o mundo que funciona, a ultima palavra sobre cada medida que possa vir a afetar a vida da coletividade passou a ser da própria coletividade, convertida para efeitos práticos num eleitorado com poderes absolutos mas distritalmente pulverizados, a única maneira de não fornecer endereços a bandidos nem fazer da emenda um desastre pior que o soneto deixando o país sujeito aos golpes e passa-moleques de ilegitimidade que vêm junto com outros sistemas de representação pouco transparentes.

As eleições distritais puras deixam absolutamente claro quem representa quem na relação país real x país oficial. Desconcentram radicalmente o poder e assentam o país sobre uma base ampla e sólida de legitimidade. E, ao mesmo tempo, garantem o controle fino que se requer dos representantes encarregados de operar a reforma permanente das instituições que um mundo implacavelmente dinâmico e competitivo exige, sem o corolário da imprevisibilidade da arbitrariedade do monarca da hora que impede o desenvolvimento baseado na inovação, o único possível hoje.

Não ha como extinguir efeitos sem remover suas causas. O Brasil se tem alternado em variações de fórmulas autoritárias em que “iluminados” tratam de substituir-se ao povo para decidir o que é melhor para o povo e o resultado, salvo alguns soluços de marcha adiante, é uma sucessão de desastres. Mais radicais quanto mais radical for a dose de autoritarismo mas desastres sempre. A escolha real que há é entre aderirmos, finalmente, ao sistema de governo do povo, pelo povo e para o povo, ou nos conformarmos a permanecermos para sempre no século 18 pagando as carências e as doenças do século 18 como estamos hoje.

Fernão Lara Mesquita

'Você é uma preta de alma branca'

O maior número de eleitores nas próximas eleições presidenciais no Brasil, 54%, será de negros e pardos. E são eles que sofrem todos os recordes de mortes violentas. A cada 23 minutos é assassinado um jovem negro. 71% dos assassinatos são de pessoas negras. E enquanto a taxa de homicídios de brancos diminuiu 12%, a de negros aumentou 18%, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Diante dessa tragédia vivida pelos descendentes dos escravos, é urgente perguntar aos candidatos a governar o Brasil como pretendem abordar essa guerra aberta contra os negros e como farão para assegurar um futuro de igualdade de oportunidades que lhes devolva a dignidade que lhes foi roubada. Manter o país dividido entre negros e brancos é perpetuar a injustiça engendrada durante os 300 anos de escravidão. Escravidão, a brasileira, que foi uma das últimas a serem abolidas no mundo. Somente em 1888.

“Não sei se o Brasil está preparado para aceitar um presidente negro”, afirmou o juiz Joaquim Barbosa, que acabou renunciando a ser candidato às eleições presidenciais. De qualquer forma, negro ou branco, o próximo presidente não pode fechar os olhos para toda essa massa de jovens negros que morrem a cada hora vítimas da violência.

Urgem políticas sérias, concretas, realistas, capazes de encerrar para sempre esse triste capítulo da discriminação sofrida por essa maioria da sociedade, que além de ter sido condenada a não poder estudar como os brancos, o que fez que tivessem que aceitar os trabalhos mais humildes, são os mais expostos a uma morte precoce e violenta. Hoje, no Brasil, a grande maioria das domésticas, por exemplo, são negras ou pardas e cabe lembrar que o vocábulo “doméstica”deriva dos escravos que deviam ser “domesticados”, como se fazia com os animais de carga.

A sociedade brasileira ainda está impregnada de racismo aberto ou dissimulado. Isso significa rever o que os sociólogos chamam de “rejeição sutil.” É o que sofreram, por exemplo, duas meninas negras que, depois de voltar da escola, perguntavam a suas mães: “Por que as outras crianças nos acham esquisitas e não falam conosco?”

A linguagem cotidiana muitas vezes nos trai. As expressões coloquiais ainda estão impregnadas de discriminação contra os negros. Basta recordar algumas delas, como passar um “dia negro”, ter um “lado negro”, ser a “ovelha negra” da família ou praticar “magia negra”. Diz-se que o preto é a cor do pecado. Usamos o verbo “denegrir” que significa “manchar uma reputação que era limpa” . O preto suja.

A linguagem nunca é inocente e, às vezes, as palavras carregam uma forte carga de dor e agressão. Uma jovem negra africana ouviu uma senhora dizer como um elogio: “Bem, filha, eu não te vejo tão negra como dizem.” Uma empregada negra teve que suportar o seguinte elogio da família para quem trabalhava: “Você é uma preta de alma branca.” Tão sutil é a associação do preto com o inferior que até no jogo de xadrez as primeiras peças que se movem são as brancas. O branco é que dá sorte, não o preto.

Como enviado especial a uma viagem do papa a Uganda, fiquei surpreso ao ver, nas igrejas da África negra, anjos brancos como a neve. Contaram-nos que os missionários europeus diziam àqueles africanos que, se se comportassem bem e se tornassem cristãos, “ressuscitariam brancos no céu”.

Sempre acreditei que a poesia é um dos instrumentos que pode nos libertar das sombras de racismo incrustadas em nosso inconsciente. No livro Poemas para Metrônomo e Vento, de Roseana Murray, que acaba de ser publicado pela Penalux, há um poema intrigante intitulado A Pele Negra. O poema trata, com rara delicadeza, precisamente dessa dor que pulsa sob a pele dos negros. Quis reproduzi-lo para os meus leitores amantes da poesia como um exemplo de linguagem empática com essa ferida ainda aberta na nossa sociedade.

A pele negra

A harpa
que ondula
debaixo
da pele negra,
debaixo,
dos antigos
açoites,
e antes,
debaixo da noite,
suas tochas
e panteras,
essa harpa
nunca se cala,
seus acordes
profundos,
oceânicos
atravessam
séculos de memória
e dor,
não dormem.


Só mantendo desperta essa “harpa que não se cala” sob uma pele que conserva as cicatrizes dos antigos açoites contra os escravos, só estando atentos para não silenciar séculos de memória e dor, seremos capazes de nos livrarmos do peso do nosso racismo aberto ou sutil. Já que, como diz o poema, essa harpa não só não se cala, mas “seus acordes (...) não dormem”. Permanecem despertos para nos lembrar que não é a cor da pele que nos distingue e separa, mas a capacidade de aceitar que somos filhos do mesmo barro.

Piorou

Não deu nos jornais, mas aparece nas conversas triviais. A gente aqui em São Paulo está com a impressão que o trânsito tem melhorado nas últimas semanas. Não é boa notícia. Se as pessoas estão circulando menos, para o serviço, compras e diversão, é sinal que a economia anda mais devagar que os carros. Não tem nada a ver com a crise dos combustíveis dos últimos dias. Isso vai piorar o sentimento, mas a coisa vem de antes.

Estava cogitando dessa hipótese, quando saiu ontem o Índice de Confiança do Consumidor, da FGV, mostrando que os brasileiros estão de fato mais desconfiados com o que vem pela frente. O índice, feito à base de entrevistas pessoais, pede que o consumidor avalie sua situação atual e as perspectivas para os próximos meses. O dado de maio – apurado antes do movimento dos caminhoneiros – foi curioso. As pessoas acharam que as coisas até melhoraram um pouco nos últimos dois meses, mas se mostraram bem menos animadas em relação ao futuro.

Em números: o Índice de Situação Atual, subiu para 77,2 pontos; o de Expectativas caiu forte, para 94,2, o menor desde setembro de 2017. Foi o segundo mês seguido de queda nesse indicador, depois de uma sequência positiva.


Repararam que a avaliação do presente é pior que a expectativa. Isso é normal. Parece que o brasileiro é sempre otimista, ou seja, acha que futuro será melhor que o presente. Continua assim, mas dois meses atrás havia mais confiança para a frente.

Como explicar? Talvez a inflação muito baixa permita um conforto no presente. Por outro lado, embora o IPCA amplo mostre que a inflação, na média, aumenta menos de 3% ao ano, o fato é que alguns preços muito sensíveis estão em alta forte. No IPCA-15 (inflação dos 30 dias encerrados em 15 de maio), a conta de luz, os remédios e a gasolina pesaram nos orçamentos.

Preços de alimentos continuam em queda – e isso tem efeito positivo poderoso. Já o dólar…

Tudo considerado, pode-se dizer o seguinte: a economia virou o ano ganhando fôlego. Nada espetacular, mas depois de uma forte recessão, um crescimento moderado – com a geração de 1,5 milhão de empregos em um ano – permitia algum alívio e, especialmente, a esperança de que o país estava mesmo saindo do buraco.

Foi essa expectativa que esmoreceu nos últimos dois meses. Os indicadores econômicos continuaram oscilando muito, mas indicando uma tendência mais moderada. Todo mundo reduziu suas previsões de crescimento para este ano, de 3% para 2,5%.

Convenhamos, não é uma grande diferença. Continua um PIB em expansão com inflação média no chão. Mas, se permitem, o jeitão da coisa ficou um pouco mais feio. A percepção de que a recuperação para valer, com recuperação de empregos, depende de muitos fatores ainda em suspenso, como, claro, quem será o próximo presidente.

Não foi só aqui. Ainda ontem saíram indicadores mostrando que a economia da União Europeia desacelerou, assim como a japonesa. Entre os ricos, os Estados Unidos continuam em marcha forte, mas com um viés negativo. Eis a sequencia: mais crescimento, mais estímulo, mais inflação, sobem os juros, valoriza-se o dólar, desvalorizam-se as demais moedas, especialmente dos países emergentes, incluindo a gente. Ou seja, dólar mais caro atrapalha muita gente.

Acrescentem aí a ameaça ainda presente de uma guerra comercial entre Estados Unidos e o resto do mundo, os riscos geopolíticos (Irã, Rússia) e a alta dos preços do petróleo – e temos fatores suficientes para gerar desconfiança. E situações concretas difíceis.

A crise dos caminhoneiros vem lá de fora: combustíveis e dólar mais caro.


A economia mundial continua em expansão, pelo terceiro ano seguido. A China garante seus 6,5% de crescimento, o que é bom para seus fornecedores, Brasil muito incluído. Mas algo apareceu no ar, uma sensação de que não é bem assim.

Fazer o quê?

Temos bastante serviço por aqui. O governo e o Congresso têm muitas matérias importantes para aprovar, a começar por alcançar algum alívio para os caminhoneiros. Estes podem até estar exagerando – e estão – mas um aumento de 50% no diesel, em menos de um ano, é difícil de suportar.

A Petrobras também estava fazendo o que tem de fazer. Compra mais caro, vende mais caro. E os governos não têm dinheiro para reduzir impostos.

Apenas um exemplo das enrascadas em que nos metemos. E que exigem dos governantes e legisladores mais do que briguinhas para saber quem pode mais. E, dos políticos, mais do que salvar o deles.

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Toledo (Espanha)

É hora de rediscutir privilégio da prisão especial

Sergio Moro trancou Lula numa “sala reservada” da Polícia Federal. Atribuiu o privilégio à “dignidade do cargo” que o preso ocupou. O juiz Luiz Carlos Rezende e Santo também enviou o tucano Eduardo Azeredo para uma “sala de Estado Maior”. Por quê? As penitenciárias mineiras ''passam por problemas de toda sorte”, escreveu o juiz. E Azeredo, figura de “inegável status”, “ex-governador”, merece “segurança individualizada”, justificou o magistrado. Decisões desse tipo ajudam o brasileiro a enxergar mais uma velha anomalia nacional: a cana dos poderosos.

No Brasil, os criminosos são tratados conforme o status social e a graduação profissional. Um político poderoso ou qualquer cidadão com canudo universitário —médico, advogado, jornalista…— mata uma pessoa e vai para uma prisão especial. Um jovem da periferia é flagrado com uma pequena quantidade de maconha e é enfiado numa cela superlotada, virando mão-de-obra para as facções criminosas.

Um ex-presidente e um ex-governador se beneficiam de dinheiro roubado do povo e vão para acomodações com banheiro privativo, TV individual, roupa de cama limpa, café da manhã, almoço, jantar e ceia. A suavidade do castigo é regulada pela origem do preso, não pela gravidade do crime. É aviltante, mas tem amparo legal. Ou igualam-se os presos ou elimina-se o privilégio. Extinguindo-se a cana especial, petistas e tucanos organizarão passeatas contra o abandono e a superlotação das prisões. Do contrário, logo, logo haverá filas de sem-teto exigindo hospedarias especiais como as de Lula e Azeredo.