quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Direita e esquerda

A crise é deflagrada por um impeachment e pela descoberta da corrupção num governo de esquerda. O fato marcante é o assalto aos bens públicos fora dos polos canônicos – esquerda e direita. Não há como ignorar como a desonestidade desmanchou a solidez das polaridade políticas.

Enquanto a esquerda foi um lugar na topografia política inaugurada com a Revolução Francesa, como mostrou J. A. Laponce num livro notável, não havia novidade. Mas, quando ela chega ao poder, cabe discutir como e onde sua moralidade fica semelhante à de uma cavernária direita.


Um governo de esquerda decepciona justamente por sua semelhança com a direita no que tange a ineficiência pública e a corrupção. Se a prova do pudim está em comê-lo, a esquerda não mudou a receita e governou seguindo as mesma práticas sociais que dominam o campo da política – um campo dinamizado mais pelos relacionamentos e favores pessoais do que por princípios ideológicos.

*
Antigamente a “direita” significava manter o “status quo” que a “esquerda” queria mudar. Minha geração tinha como ideal reduzir a distância entre os poucos com muito e a multidão empobrecida. Até meu reacionário e alienado pai entendia isso, embora ponderasse que relativizar a propriedade seria promover o terremoto que derrubaria tanto o sistema quanto a nossa casa.

Era correto, entretanto, entender a história nessa chave desde que a esquerda não desempenhasse o papel da direita. A troca de lugar – esse movimento democrático – foi um avanço, pois democratizou também a esquerda. Ela deixou a lista negra e passou a fazer suas listas negras. No governo, foi obrigada a abandonar o “quanto pior, melhor” e exibiu poderosos e fracos no seu próprio espaço. Perdeu a inocência.

*

Até onde a dualidade entre esquerda e direita disfarça hierarquias? Num ensaio famoso e em outro contexto, Lévi-Strauss questiona se as organizações dualistas existem – ou seriam um modo de esconder hierarquias. Tal ocorreu quando a França revolucionária acabou com aristocracia, clero e povo e reduziu tudo a uma dualidade. Quem era contra o rei, ficava à esquerda; os que o sustentavam, à direta.

É prático, como sugere Laponce, reduzir o complexo campo da política à polaridade das mãos. Afinal, vive-se sem uma das mãos – como revelam os despotismos de direita e de esquerda –, mas não se caminha sem os pés ou sem a cabeça. A polaridade entre esquerda e direita integra diferenças porque suprime relações e estabelece, como mostrou Hertz, o destaque da mão direita. Mas, como ensina Dumont, não podemos esquecer que as mãos, distintas num juramento, juntam-se numa prece. São interdependentes.

*

Minha geração viu realizado o sonho de ter a esquerda no poder e observou desencantada como as peculiaridades do Estado à brasileira, associado a práticas sociais como o familismo e o favor, a transformaram em direita. Nela, vimos também surgir uma selvagem corrupção. Um hóspede sempre convidado do poder nacional, mas lamentavelmente escancarado pela esquerda.

*

Temo que, fora do poder, esquerda e direita se diferenciem, mas tal não ocorre quando elas se mudam para o palácio. Nele, o eleito tem que lidar com a matriz hierárquica nacional, com seu atávico e engenhoso legalismo a qual lhe assegura uma capacidade de mando maior do que esperava. Tal matriz tem feito milagres no Brasil. Se ela foi capaz de ordenar eleição com escravismo, por que não seria igualmente competente para conciliar austeridade socialista com riqueza capitalista? Além disso, o palácio tem suas portas abertas aos movimentos populares e aos projetos milionários. Governar, logo se descobre, é criar elos e fazer amizades cruzadas. Não é, pois, sem espanto que descobrimos como o político atua por meio de um espesso tecido de favores pessoais amparado por um igualmente denso e arcaico legalismo de cunho teológico, destinado a criar e manter privilégios.

Resumo da ópera: além da luta de classes, temos que nos haver com o combate entre o bom senso e um arraigado fetichismo legal. Com ele, mascaramos crimes e garantimos impunidade. Hoje, fica muito claro que eleições livres e competitivas não consagram apenas representantes do povo, mas também fazem com que os eleitos pelo povo entrem numa casta – fiquem além da lei. Quem deveria dar o exemplo de cidadania é tentado a virar mestre de mistificação e oportunismo. E aqui, caros leitores, as mãos lamentavelmente se unem e se igualam embolsando dinheiros...

Moscas sem asas

Após a votação da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), lembrei-me de uma das composições do Skank: “Indignação”. Diz o refrão: “Eu fiquei indignado, ele ficou indignado, a massa indignada, duro de tão indignado. A nossa indignação é uma mosca sem asas, não ultrapassa as janelas de nossas casas”.

De fato, pouca gente estava nas cercanias da Alerj e ninguém nas galerias, a não ser uns puxa-sacos do bando. Até a oficial de Justiça que tentou entregar um mandado para que o circo fosse público foi barrada. Em 17 minutos, 39 deputados restituíram o mandato de três colegas presos acusados por corrupção.

Em momentos assim, as vítimas são a Justiça, a democracia e a nossa esperança de viver em um país mais digno. Como dizia o educador Paulo Freire, “num país como o Brasil, manter a esperança viva é em si um ato revolucionário”.

A população — tal como um lutador de boxe nocauteado após muito apanhar — ficou indiferente à votação, até porque já previa o resultado.


O Supremo Tribunal Federal (STF) abriu a porta da impunidade aos políticos ao transferir para o Legislativo a decisão sobre o afastamento do senador Aécio, em noite que culminou com um voto atabalhoado da ministra Cármen Lúcia.

Nessa brecha, corruptos já voltaram à vida pública também no Rio Grande do Norte e em Mato Grosso. Caberá à Suprema Corte deixar claro se todo o Legislativo poderá cometer crimes e ficar impune ou se essa é uma prerrogativa exclusiva dos parla mentares federais. Por enquanto, pelo mesmo ralo onde passa um corrupto federal, passam quadrilhas estaduais. O esgoto é o mesmo.

A Lava-Jato mostrou que a corrupção brasileira não é apenas episódica, do tipo que existe em todos os países e é combatida com transparência, controle social e educação de qualidade.

No país há várias quadrilhas estruturadas — que precisam ser extirpadas — compostas por políticos, agentes públicos e empresários, tendo como alvo negócios bilionários do Estado, sejam contratos, subsídios, isenções fiscais, concessões, financiamentos, autorizações tarifárias e tudo o mais que possa gerar propina.

No Rio de Janeiro, porém, o roubo foi potencializado a partir do momento em que políticos com interesses comuns passaram a ter domínio sobre o estado, a prefeitura, a Alerj e, inclusive, o Tribunal de Contas. Assim, ficaram reunidos sob o mesmo comando quem legisla, contrata, executa, paga e fiscaliza, um verdadeiro paraíso para os corruptos.

Daí a importância de se alterarem as legislações que permitem o vaivém de políticos entre o Legislativo e o Executivo, bem como a composição dos tribunais de contas de forma a impedir a politização.

Mas tal como aconteceu com a operação Mãos Limpas, ocorrida na Itália, a Lava-Jato está ameaçada desde quando as investigações atingiram as oligarquias políticas.

Assim, no Congresso está em curso a CPI da JBS, que tem como alvo principal o Ministério Público. Na Câmara, tramita o projeto de abuso de autoridade, que tenta constranger promotores e juízes. Outras propostas alteram a Lei da Ficha Limpa e impedem a delação de presos.

No STF, a qualquer momento pode ser rediscutida a prisão a partir da condenação em segunda instância e já existem objeções para homologação das delações premiadas. O foro privilegiado continua a ser um passaporte para a impunidade.

No Executivo, as designações da Procuradora-Geral da República e do diretor-geral da Polícia Federal geraram receios por terem contado com o apoio ou a indicação de investigados.

Ambos manifestaram preocupação com os “vazamentos”, enquanto a sociedade está preocupada é com maior publicidade. Em se tratando de homens públicos, é essencial termos conhecimento do inteiro teor das denúncias/delações, dos argumentos de defesa, da tramitação das ações e dos julgamentos.

Desde que a transparência não prejudique o aprofundamento das apurações, não há razão para sigilo.

Em alguns meses saberemos se as instituições estão realmente funcionando e atuando em defesa do Estado, ou se os brasileiros estão fadados a permanecerem comandados por uma corja de políticos sem escrúpulos que governa, legisla e indica ministros para tribunais superiores para que sirvam aos seus interesses.

Voltando ao Skank, precisamos ir além das moscas sem asas. Fazer com que a nossa indignação ultrapasse as janelas das nossas casas e chegue às ruas e às urnas. Tal como dizia Santo Agostinho, a esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las.

 Gil Castello Branco

Paisagem brasileira

Paisagem, João Batista da Costa

O que falta o diretor da Polícia Fwderal esclarecer...

Roga-se ao delegado Fernando Segóvia, novo diretor-geral da Polícia Federal, que esclareça algumas questões que ficaram no ar depois do seu discurso de posse, anteontem.

Sobre a mala, por exemplo. Ele disse que uma mala, como a carregada em São Paulo pelo ex-deputado Rocha Loures, não bastava para caracterizar crime de corrupção. De acordo. Mas...

Quando foi filmado com a mala, Rocha Loures era deputado do PMDB do Paraná e assessor especial do presidente Michel Temer. A mala continha R$ 500 mil em dinheiro vivo.


Isso poderia sugerir algo suspeito, Segóvia? Suspeito o suficiente para ser investigado? Ou não? Ou um deputado pode transitar impunemente por aí com uma mala cheia de dinheiro?

Até que pode, mas não é seguro. Quem se arriscaria a fazê-lo em um país onde bandidos assaltam e matam impunemente? Esse Rocha Loures seria um temerário, o que nada tem a ver com Temer.

Bem, mas ao que se sabe, apurado pela própria Polícia Federal, Rocha Loures acabara de receber a mala das mãos de um alto executivo do Grupo J&S que, por sinal, estava sob a mira da polícia.

Sabe-se também, por confissão do executivo que se tornou um delator, que o dinheiro dentro da mala foi dado a Rocha Loures a título de pagamento de propina. Êpa, Segóvia.

Aí não haveria um forte indício, quase diria uma prova, de crime de corrupção? De crime de corrupção cometido pelo corruptor e pelo corrompido, faltando averiguar quem corrompeu quem?

A cena do deputado correndo com uma mala de dinheiro deu-se na sequência de um encontro entre o presidente da República e o dono do grupo cujo executivo presentou Rocha Loures com a mala.

Foi durante esse encontro que o dono do grupo falou ao presidente que tinha pendências com o governo. E ouviu como resposta que se entendesse com Rocha Loures, seu homem de confiança.

Ôpa! Convenhamos, Segóvia: não lhe parece que a mala em questão há muito deixara de ser apenas uma mala, simplesmente uma mala, acima de qualquer suspeita como, de resto, o seu carregador?

Sim, a quem se destinava a mala? A Rocha Loures? Teria ele traído a confiança do presidente e achacado dinheiro para facilitar o acerto de pendências do Grupo J&S com o governo? Pobre Temer!

Uma vez filmado carregando a mala, Rocha Loures devolveu-a aos cuidados da Polícia Federal. Mas ficou com R$ 35 mil do total de R$ 500 mil. Devolveu-os depois. Teria sido sua comissão no negócio?

Se fosse, o resto do dinheiro não lhe caberia. A quem caberia, Segóvia? Tudo bem que nos últimos dois anos você viveu na África do Sul, distante do que se passava por aqui.

Mas deve ter conservado seu faro de bom policial. Tão bom policial que acabou promovido ao mais alto posto de sua carreira. Não podem lhe faltar méritos para tal.

Segóvia: ainda está em tempo de desfazer a péssima impressão que deixou no dia mais importante de sua vida até aqui. Revise a teoria da mala que nada prova.

Traia a confiança dos que lhe indicaram para o cargo – o PMDB de Sarney, Renan, Jucá, e sabe-se lá mais quem. Cumpra com o dever que seu cargo lhe impõe.

Ao restabelecer prisões TRF-2 dá aula ao STF

Em decisão unânime —5 votos a 0—, o Tribunal Regional Federal da 2ª Região restabeleceu a ordem de prisão contra três caciques do PMDB do Rio de Janeiro: Jorge Picciani, Paulo Melo e Edson Albertassi. Com essa decisão, os desembargadores do TRF-2 deram uma lição ao Supremo Tribunal Federal. Ensinaram o seguinte: quando a Justiça não faz da roubalheira uma oportunidade para impor a lei, os tribunais viram uma oportunidade que os larápios aproveitam.
Presos na semana passada, os três xamãs do PMDB fluminense foram libertados por decisão da Assembleia Legislativa do Rio. Abriram-se as celas sem que ao menos o TRF-2 fosse comunicado sobre a revogação de sua decisão. Nesta terça-feira, ao discorrer sobre a encrenca, um dos desembargadores do tribunal, Paulo Espírito Santo, disse ter enxergado as imagens dos deputados deixando o presídio de carro, sem ordem judicial, como “um resgate de filme de faroeste.”

O doutor resumiu assim a cena: “Acabo de ver, na sexta-feira passada, algo que nunca imaginei ver na vida. Nunca vi uma coisa dessas. Não há democracia sem Poder Judiciário. Quando vi aquele episódio, que a Casa Legislativa deliberou de forma absolutamente ilegítima, e soltou as pessoas que tinham sido presas por uma Corte federal, pensei: o que o povo do Brasil vai pensar disso? Pra quê juiz? Pra quê Ministério Público? Pra quê advogado? Se isso continuar a ocorrer, ninguém mais acreditará no Judiciário. O que aconteceu foi estarrecedor. Que país é esse?”

O desembargador Espírito Santo não disse, talvez por cautela, mas o Brasil virou um país em que a Suprema Corte às vezes fica de cócoras quando o Poder Legislativo faz cara feia. Assim procedeu ao lavar as mãos no caso do tucano Aécio Neves, autorizando o Senado a anular sanções cautelares como a suspensão do mandato e o recolhimento domiciliar noturno. Conforme já noticiado aqui, o STF tinha a exata noção de que abria um precedente que não passaria em branco nos Estados.

O debate sobre as prerrogativas dos legislativos para revogar prisões e sanções impostas a parlamentares federais e estaduais ainda vai dar muito pano para a manga. No Rio, a maioria cúmplice da Assembleia não há de ficar inerte. Farejando o cheiro de queimado, outro desembargador, Abel Gomes, mencionou inclusive a hipótese de o TRF-2 requerer ao STF intervenção federal na Assembleia fluminense.

A confusão certamente chegará ao Supremo, oferecendo aos ministros a oportunidade de se reposicionar em cena. Sob pena de desmoralização do Judiciário. Na antessala das urnas de 2018, não restará ao brasileiro senão a alternativa de praguejar na cabine de votação: ''Livrai-me da Justiça, que dos corruptos me livro eu.''

A hora da Previdência, que foi resultado de muitas lutas históricas

Os poetas sabem das coisas. Fernando Pessoa, como poucos: – “O homem e a hora são um só / quando Deus faz e a historia é feita / O mais é carne, cujo pó / a terra espreita”. Os três acabam sendo uma coisa só: o homem, a hora e a história. A história é a hora acontecendo. Na hora, o homem faz a história acontecer. Com as lutas do homem, a história vai surgindo do ventre do tempo.

Cada passo dado no Brasil, ao longo de dois séculos, para construir a Previdência Social, foi fruto de todo um longo e penoso processo, permanente e irreversível. Cada fato precedido de muitas e muitas lutas.

Resultado de imagem para temer e a previdência charge
É uma bela história, que ninguém contou melhor do que uma brilhante equipe do ministério da Previdência, comandada por Jorceli Pereira de Sousa, que pesquisou, organizou, escreveu, em 2002, com seus companheiros Mônica Cabañas Guimarães, Vinicius Carvalho Pinheiro, Delubio Gomes Pereira da Silva, Tereza Augusta dos Santos Ouro e Francisco Orru de Azevedo, o livro “Os 80 Anos da Previdência Social”.

Os três grandes marcos da Previdência no Brasil são a lei do paulista EloY Chaves, de 1923, governo de Artur Bernardes, a criação do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio (e Previdência), por Lindolpho Collor (avô de Fernando Collor), na “revolução” de 30, governo de Vargas, e a Lei Orgânica da Previdência Social (nº 3.807) de 1960, governo de Juscelino, projeto do inesquecível deputado Aluizio Alves, do Rio Grande do Norte.
Mas as Nações não caem do céu, como estrelas. Para cada vitória, sempre muitas lutas. A primeira medida governamental com efeito prático foi o decreto 9.912, de 26 de março de 1888, regulamentando o direito à aposentadoria dos empregados dos Correios. Também em 1888, foi criada uma Caixa de Socorros em cada uma das Estradas de Ferro do Império.

Ainda nos fins do século XIX, foram instituídos o Fundo de Pensões do Pessoal das Oficinas de Imprensa, a aposentadoria para os empregados da Estrada de Ferro Central do Brasil, posteriormente estendida a todos os ferroviários, o Montepio Obrigatório dos empregados do ministério da Fazenda e a aposentadoria por invalidez e pensão por morte para os operários do Arsenal da Marinha do Rio de Janeiro e seus dependentes.

Era a Previdencia Social engatinhando.
Em 1894, José Joaquim de Campos da Costa Medeiros e Albuquerque, senador por Pernambuco, apresentou projeto criando um seguro contra acidentes do trabalho.

Em 1908, o sergipano Mauricio Graco Cardoso, e o paulista Altino Arantes, depois presidente de São Paulo, de 1916 a 20, também apresentaram projetos criando o seguro de acidentes do trabalho.

Em 1917, o deputado Mauricio de Lacerda, do Rio (1912 a 20), jornalista, vereador e prefeito de Vassouras, pai de Carlos Lacerda, defensor das lutas e greves dos operários, um dos fundadores da Liga Socialista, havia apresentado um projeto criando o Código do Trabalho, estabelecendo, entre outras medidas, carga horária de 8 horas diárias de trabalho e proibição de trabalho aos menores de 14 anos.

 Todo o empresariado (como sempre, no Brasil) ficou logo contra o projeto de Mauricio de Lacerda, que não foi adiante. Mas Fernando Pessoa sabe mais do que a CNI, a Fiesp, a Firjan e todos os dinossauros patronais: – “O homem e a hora são um só, quando Deus faz e a historia é feita”

Como o poeta, o povo também sabe: o Bolsa Família é a Aposentadoria dos pobres e a Previdência dos miseráveis.

Gente fora do mapa

Kerala, India
Kerala (India)

O segredo de Lula

Lula acaba de afirmar que “não vai ser difícil ganhar as eleições” e já prepara novas caravanas pelo país, desta vez no Estado do Rio. Esconde Lula algum segredo para demonstrar essa certeza? Por que as eleições presidenciais de 2018 estão, de fato, tão fortemente condicionadas a que ele possa ou não ser candidato? Existe um consenso de que a presença de Lula no cenário político brasileiro perseguirá este país enquanto viver, livre ou na prisão. Apesar de todas as acusações e condenações por corrupção que recaem sobre ele, ninguém se atreve a dá-lo por morto politicamente, porque um de cada três eleitores continua sendo seu, considerem-no ou não culpado. A causa dos pobres segue com ele.

O segredo da imortalidade política de Lula talvez resida em ser tão bom psicólogo como político. Sua sensibilidade para conhecer os ângulos mais obscuros e as fraquezas dos outros não é fruto de estudos acadêmicos. É um dom dele, desde que se destacou como jovem líder sindicalista. O jornalista José Nêumanne Pinto, autor do livro O Que Sei de Lula, e que o acompanhou dia após dia desde que começou a se sobressair no sindicato, narra uma característica que o revelava como alguém com grande olfato para saber o que as plateias às quais se dirigia gostavam de escutar. Começava a tratar de um tema e se via que não empolgava logo mudava de assunto, até encontrar algo que despertava os ouvintes, embora fosse o contrário do que havia começado a falar.

A imagem pode conter: texto

Não sei se Lula é o melhor estrategista do Brasil. Talvez não seja no sentido acadêmico do termo, mas sim como “olfato político”. Como os cães de caça que rastreiam a presa, Lula sabe descobrir onde o sapato aperta nos outros e o que cada público deseja escutar, como fazia quando jovem sindicalista. Não importa que possa parecer contraditório, o importante é contentar todos ao mesmo tempo.

Lembro-me que quando ainda não conhecia bem esse lado psicológico natural de Lula fiquei surpreso um dia em que, já presidente, pela manhã falou em São Paulo a uma plateia de empresários que se queixavam da lentidão do Congresso em aprovar as leis. Lula entendeu e lhes disse: “Não me tentem porque tenho um demônio que a cada vez que me levanto me pede: ‘Lula, feche o Congresso!’” É o que queriam escutar aqueles empresários. Coincidentemente, à tarde teve de falar no Congresso, que celebrava não recordo que aniversário de sua criação. Lula, que só aguentou um ano como deputado porque não gostava daquele ambiente, fez naquela tarde uma grande defesa do Parlamento como indispensável à democracia.

Aos banqueiros ele provocava: “Vocês nunca ganharam tanto dinheiro como comigo”. Era verdade. A banca sempre gostou de Lula. No país profundo, no Nordeste pobre, dizia a seus seguidores cobras e lagartos contra os ricos que “os impediam de sair da pobreza”. Lula pôde ser sempre ele e o contrário. E com uma característica capaz de aglutinar consensos: que nunca foi extremista, como bem ressaltou meu colega Xosé Hermida aqui, em um de seus artigos. Foi talvez esse seu maior acerto político. Para sair do dilema paralisante da ideologia, Lula alcunhou uma definição de si mesmo que lhe trouxe sucesso: “Eu não sou nem de esquerda nem de direita: sou só sindicalista”. Com isso se colocava acima das intrigas entre os dos dois lados para se propor como do partido dos trabalhadores, que engloba a todos nós.

Essa obsessão por não aparecer como extremista observei na primeira vez que no Planalto me encontrei com ele, com outros cinco correspondentes estrangeiros, para uma entrevista. Estava para chegar ao Brasil para se encontrar com ele José María Aznar, então primeiro-ministro espanhol, do partido direitista PP. Quando a entrevista acabou, me levou a um canto da sala e me perguntou: “Acha que Aznar pensa que sou de extrema esquerda?” Quando se encontrou com ele, a primeira coisa que lhe disse foi: “Nem você, Aznar, é tão de direita como dizem na Espanha nem eu tão de esquerda como pensam aqui”. Sua preocupação sempre foi poder sentar-se a todas as mesas do poder sem se importar com a cor da toalha.

Dias atrás, Lula, à espera de ainda poder voltar ao poder, disse: “nem Bolsonaro é de extrema direita nem eu sou de extrema esquerda”. Sempre presente sua obsessão de não parecer extremista. Lula sabe que aos pobres não interessa sua ideologia, mas, sim, que o sintam como aliado, enquanto aos ricos basta saber que não é um Maduro. Nunca lhes infundiu medo. Estava sempre à vontade com eles.

Ninguém é mais hábil que Lula para saber jogar ao mesmo tempo com vários baralhos e fazer ver que todos ganham. Sabe do que gostam uns e outros, e seu método é tratar de contentar a todos. É outro de seus segredos. Nêumanne também conta isso em seu livro: “Lula aplicou, com grande êxito, seu enorme talento de fazer amigos e influenciar pessoas, adotando o comportamento incomum de ouvir a todos, aparentemente concordar com cada um e nunca deixar o interlocutor com a sensação de sua discordância, mas nunca desistiu de sua posição politicamente conservadora, ou melhor de sua posição pragmática”.

Dois casos emblemáticos de como Lula tentava, por exemplo, bajular os pobres e os ricos ao mesmo tempo: costumava dizer que os hospitais públicos brasileiros eram tão bons e modernos que as pessoas até queriam ficar doentes para poderem ser internadas. Não era verdade, mas os pobres gostavam de ouvir isso. Dizia também que com ele os pobres no Brasil já “podiam viajar de avião e ir de férias para Bariloche, na Argentina” e que o problema era que os ricos não queriam viajar em um avião ao lado de um pobre de chinelos. Não era verdade, mas os pobres se sentiram lisonjeados e os ricos não ficaram ofendidos porque sabiam que Lula, desde que deixou a presidência, nunca tinha subido em um avião de carreira sentado ao lado de um pobre. Viajava nos aviões particulares dos milionários.

Há quem não tenha entendido que Lula, depois de todo o drama do impeachment de Dilma, com o país enfurecido com o conservador Temer, tachado de golpista e traidor, tenha dito: “Não tenho mais idade para gritar ‘Fora, Temer!”. Entende-se, conhecendo a psicologia de Lula de querer aproveitar tudo para somar em vez de subtrair.

Explica-se assim que, apesar de tudo o que arde no país, Lula já esteja tecendo acordos eleitorais com a pior direita do PMDB, com os caciques mais corruptos desse partido. É que Lula sabe que, se consegue candidatar-se e ganhar, precisará de seu apoio para poder governar. Afinal, 80% dos corruptos do PMDB e do PP, por exemplo, governaram com ele e com Dilma no período em que já estavam roubando. Muitos foram seus ministros, e Temer era o vice de Dilma, escolhido por Lula.

Goste-se ou não, acabe ou não dando frutos, no final, Lula é um pragmático que conhece como poucos e desde dentro as misérias e fraquezas de uma classe política que foi companheira sua no poder. Quando o então presidente do Uruguai, José Mujica, quis saber de Lula a origem do escândalo do Mensalão, que na época levou a cúpula do PT para a cadeia por ter comprado o Congresso, Lula lhe respondeu sibilinamente: “É que no Brasil só há um modo de poder governar”. Considerava isso uma fatalidade à qual ele então se havia submetido.

Bem sabe Lula e sabe o Congresso, mercadoria exposta ao melhor comprador. E hoje, mais que nunca, envolvidos nas redes de corrupção e com medo de cair em mãos dos juízes, deputados e senadores corruptos se unem em um mesmo abraço de afogados. Lula e os demais, a direita e a esquerda, sabem que, como nas máfias, amigo é para sempre. Porque, afinal, não há outro caminho. Da máfia não se sai ileso. Hoje o Governo Temer e o Congresso, naufragados em um mesmo mar de problemas com a Justiça, e Lula, acossado com eles, buscam um pacto de sangue que salve a todos.

Lula tem uma vantagem sobre os demais políticos acusados de corrupção. Não precisa buscar provas materiais para se defender das acusações dos juízes. Em sua estratégia, mais que lutar para apresentar documentos que provem sua inocência, se proclamou um “perseguido político” A única coisa que lhe interessa é aparecer discriminado por defender os pobres. Gritou isso até para a ONU. Nenhum de seus colegas acusado de corrupção se atreveu a tanto.

Fora ou dentro da prisão, presidente ou não, é bem possível que Lula siga, enquanto viver, amarrado a sua estratégia. Sem contar o medo que tantos políticos, incluindo os ainda não denunciados, começam a ter de uma possível delação premiada de Lula, que poderia fazer a República tremer. Não haverá. Não lhe interessa, já que, ao contrário de seus colegas, Lula na prisão continuaria sentindo-se uma vítima. Continuaria fazendo política e, se o instigam, até fundaria um novo partido com os presos. É o que dizem os que o conhecem melhor.

Lula é assim, goste-se ou não. Nunca se dará por vencido nem jogará a toalha. O final só o destino dirá.

Justiça de privilégio

Perante a lei terrena, a igualdade se desiguala o tempo todo e em todas as partes, porque o poder tem o costume de sentar-se num dos pratos da balança da Justiça
Eduardo Galeano

Não será fácil remar contra essa maré

Não houve resistência do povão à implantação da reforma trabalhista. E este não reclamou porque ninguém reclama em tempo de desemprego elevado e, também, porque os trabalhadores parecem não estar cientes da tragédia que se abaterá sobre si mesmos. Resumo da ópera: daqui a para frente, haverá mais subempregados e nanoempreendedores, com menos dinheiro no bolso, jornadas mais desgastantes e menor sustentabilidade da Previdência Social.

O que se viu nas ruas, no último dia 10, foram burocracias sindicais lutando, principalmente, pela preservação do chamado “imposto sindical”. Diziam que, sem ele, os trabalhadores não teriam como se defender dos empregadores. Bobagem! Se tomarmos por termo inicial a vigência da CLT, veremos que, no pós-guerra, o movimento sindical europeu, mesmo sem as tais contribuições compulsórias, sempre foi muito mais forte que seus correspondentes no Brasil. O Brasil, depois do Estado Novo, não por acaso, só presenciou greves relevantes a partir de maio de 1953, época em que os contratos celetistas originais começaram a perfazer dez anos e os trabalhadores passaram a gozar de estabilidade no emprego. Daí porque a ditadura tratou logo de inviabilizar a estabilidade, com a criação da “opção” pelo FGTS em 1966. Se os sindicatos não tivessem sido tão negligentes (apesar dos indecentes índices brasileiros de rotatividade de mão de obra) com a reivindicação de regulamentação da proteção contra a dispensa imotivada, prevista na Constituição de 1988, o quadro poderia ser outro.



Mas a proteção contra a dispensa imotivada não é remédio capaz de sanar o mal pela raiz. Estamos entrando na era do desemprego estrutural. A poderosa Siemens acaba de anunciar que eliminará 7.000 empregos na Alemanha. E a Alemanha é um país onde os sindicatos são fortes, não porque sejam sustentados por contribuições compulsórias, mas sim porque os trabalhadores têm sido protegidos por uma legislação que proíbe a dispensa imotivada. E, mesmo assim, a “moda” de trabalhos precários (terceirização, jornada parcial, trabalho intermitente, autônomos digitais etc.) já está grassando por lá, desde o governo do social-democrata Gerard Schröder, no início dos anos 2000.

A verdade é que o empresariado está conseguindo vender seu peixe, apesar de um tanto apodrecido. Os trabalhadores não têm conseguido propor um caminho diferente. Parecem ter sucumbido ao mantra da distopia de Margareth Thatcher: “Não há alternativa”. Ou, como propaga o professor José Pastore, um dos mais qualificados porta-vozes do empresariado no Brasil, “melhor emprego precário do que emprego nenhum”. Pelo menos assume-se, agora com sinceridade, que o capitalismo não pode oferecer um futuro róseo para os imensos contingentes de deserdados sobre a face da Terra.

Esse “balde de água fria” deveria servir de ponto de partida de uma luta ideológica a ser travada pelos que pensam que outro mundo ainda é possível.

Imagem do Dia

Por Vaas A beleza do campo nas pinturas de Jian Chong          http://cuadernoderetazos.wordpress.com
 Jian Chong 

2018 está longe

Faltam dez anos para as eleições de 2018. Lá chegando, o Brasil não lembrará que, um dia, acreditou ter de escolher entre Lula e Bolsonaro. Um país que chega a acreditar na dupla sertaneja Janot & Joesley como promessa de salvação, acredita em tudo.

Enquanto o gigante desperta para o trepidante confronto entre esquerda e direita no mundo da lua, José Dirceu samba em paz.

O guerreiro do povo brasileiro está na dele.

Você monta o maior assalto da história da República — um assalto republicano, como ensinou o saudoso Dr. Thomaz Bastos, precursor do Dr. Tomás Turbando — e é apanhado em flagrante. O que você pensa? “Já era”? Não. Você ainda tem uma fortuna no caixa da revolução e um exército de advogados, juízes, jornalistas (alugados e 0800), militantes baratinhos e sanguinários. Além disso, você está no Brasil. E tem a lenda.

Assim como faltam dez anos para 2018 (na translação mental da opinião pública), 1968 foi ontem. Daí a maravilha da assombração Bolsonaro: dá pra continuar brincando de “Os dias eram assim”, com Dirceu no papel de herói contra a ditadura — sambando para não perder a ternura (rima rica, ou melhor, milionária). E Lula, o ladrão condenado que Gabriel Predador não matou e a Justiça não prendeu, fantasiado de alternativa democrática.


Não prenda a gargalhada, caro leitor. Tire você também o cinismo do armário.

E tome uma atitude corajosa contra essas famílias retrógradas dos anos 50 (a década passada), que insistem em casar suas filhas virgens.

Rompa com esse conservadorismo sufocante, apoie o maiô de duas peças.

E se quiser ficar pelado para chocar a burguesia, fique logo, porque daqui a meio século, por volta de 2017, vão achar que você está com calor.

Proteste contra a censura imposta pelos milicos. Faça isso agora, neste febril 1968, porque daqui a 50 anos as liberdades estarão mais do que garantidas, e podem achar que você é um rebelde cenográfico.

Segundo Nostradamus, até a turma do é proibido proibir vai tentar censurar uns livros por volta de 2013 (quem te viu, quem te vê), mas não vai rolar.

O governo bonzinho que eles apoiarão também tentará, como quem não quer nada, controlar o que é publicado — fingindo defender os direitos humanos (tem certeza, Nostradamus?!). Isso também não vai colar.

Serão tempos difíceis para os canastrões ideológicos.

Ou nem tanto. Eles são criativos. E a plateia... Bem, é aquela sagacidade descrita acima. Foi assim que o assalto de quase década e meia aos cofres públicos sumiu do debate eleitoral para 2018.

Puseram alguma coisa forte na bebida do Brasil e, de repente, a vida real deu lugar à pantomima trash Lula x Bolsonaro, esquerda x direita — enfim, aquele melado demagógico que Serjão, o erudito, imortalizou como masturbação sociológica.

Merece até performance no museu, com Dirceu sambando ao fundo (vamos atualizar as obscenidades, por favor).

Enquanto o Brasil era estripado pelos companheiros por todos os seus orifícios (imagem exagerada? Vamos aos orifícios: Petrobras via petrolão, BB e Caixa via mensalão, Tesouro via pedaladas, BNDES via Joesley, Odebrecht e tráfico de influência de Lula junto a ditaduras amigas que humilham mulheres e gays sem comover os descolados daqui, Ministério dos Esportes/BNDES via escândalo da Copa etc).

Voltando: enquanto o Brasil era estripado pelos companheiros, a Lava-Jato era tribunal de exceção.

Quando, finalmente, o país conseguiu sair da bocarra do PT, a Lava-Jato mudou de sexo.

Os canastrões que defendiam a quadrilha da presidenta contra o golpe viraram amantes tórridos da operação — claro, a versão do Janot, do Joesley, do Miller, do Fachin, enfim, a Lava-Jato trans, pseudônimo da conspiração mais vagabunda já vista por aqui, regida pelos que depenaram o Brasil e queriam voltar a mamar.

A Lava-Jato real, liderada por Sergio Moro, subsiste desidratada — graças à inflexão de personagens como Dartagnol Foratemer, hoje lambendo as botas dos charmosos amigos da quadrilha.

Eles dizem que o governo foi tomado por uma quadrilha do PMDB. Ah, é? Então digam os nomes dos bandidos que sanearam a Petrobras em tempo recorde. Quem são eles?

Digam quais foram os pilantras do PMDB que acabaram com a roubalheira contábil no Tesouro e sanearam a política fiscal. O Brasil quer saber!

Quem são, afinal, os decrépitos que enxotaram a gangue do Dirceu e iniciaram as reformas do Estado, com a recuperação de todos — todos — os indicadores econômicos?

Não citam, e não citarão um único nome.

Os cafetões da lenda — agora reforçados pela covardia tucana, que não falha — sabem que o comando das principais instituições nacionais está nas mãos de gente séria, virando noites para reverter 13 anos de pilhagem.

Os resultados estão aí, à prova de retórica, e é comovente ver os progressistas de butique fazendo voto de cegueira.

Não adianta. A eleição de 2018 (daqui a dez anos de lero-lero vermelho X verde-oliva) será sobre isso: concluir a descupinização do Estado ou devolvê-lo aos cupins, para vê-los sambando alegremente na sua cara, com o seu dinheiro.

Filha de Lula continua a subir na vida por conta do povo

Durante mais de dez anos, Sérgio Cabral, Lula, Pezão e Dilma prometeram usar o petróleo do Pré-sal para fazer do Rio de Janeiro uma versão ampliada da Cidade Maravilhosa. A imensidão de barris continua no fundo do mar, a Petrobras quase faliu, a capital lembra uma frente de guerra e o estado quebrou.

Dos quatro vigaristas, só Cabral está preso. Foi sentenciado a 72 anos de cadeia (por enquanto). Lula (por enquanto) está condenado a nove anos e meio de gaiola. Dilma e Pezão (até agora) não foram alcançados pelo merecidíssimo castigo.

Imagem relacionada

O quarteto malandro parece não ter entendido — ou finge não entender — que a festa acabou. Pezão permanece homiziado no gabinete do governador, disposto a completar a obra de destruição executada por Cabral. E Lula ainda recebe homenagens dos devotos infiltrados na Assembleia Legislativa.

Neste domingo, a imensidão de desempregados brasileiros soube que a filha do chefão, Lurian Lula da Silva, continua subindo na vida por conta dos pagadores de impostos. Era assessora da prefeitura de Maricá, controlada pelo petista Washington Quaquá, presidente do PT do Rio. Acaba de virar assessora parlamentar da deputada estadual Rosângela Zeidan, mulher de Quaquá.

Rosângela diz que escolhe os assessores que quiser. O pagamento do salário fica por nossa conta, claro. Lurian vai ganhar mais de R$ 7.300 por mês para ajudar a deputada a tirar do xilindró colegas presos, como aconteceu com Jorge Picciani.

Mais um motivo para que a população fluminense saia às ruas já. E mostre como deve ser tratado quem trata os brasileiros como se fossem um bando de cordeiros idiotizados.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

A proclamação da vadiagem

Só no Brasil um feriado na quarta-feira, a Proclamação da República, enseja o enforcamento de dois dias úteis, quinta-feira e sexta-feira, numa vadiagem emendada com o feriado de segunda-feira, o Dia da Consciência Negra, e muito sol, calor, feijoada, churrasco e caipirinha, para só voltar a trabalhar na terça-feira, como se navegássemos numa economia abundante, com alta produtividade e pleno emprego.

Temos feriados para todo gosto, de nacionais a municipais, datas comemorativas, homenagens a minorias e categorias, carnavais oficiais e facultativos, revoluções, celebrações religiosas, tudo para endeusar o ócio. Neste ano, “emendamos” nove feriados. Em 2018, serão dez. A classe que mais folga é, claro, a classe política, que também desfruta os recessos. Quando não estão em férias, os senadores, deputados e vereadores costumam enforcar o orçamento, o contribuinte e o cidadão comum.

Esta última sexta-feira viu, no entanto, um movimento inédito e espontâneo de suspensão de lazer na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, a Alerj. Deputados decidiram sacrificar a folga para tentar se unir e livrar da prisão o presidente da Assembleia, Jorge Picciani, e os colegas Paulo Melo, ex-presidente da Alerj, e Edson Albertassi, todos do PMDB. 


A enorme pressão popular para que a decisão da Justiça seja respeitada não sensibiliza, porém, quem já vive em águas turvas. São aliados e afilhados da turma que asfixiou o Rio sem pena nas últimas décadas. O governador Pezão é um exemplo dessa lealdade canina: fez tudo nos últimos dias para empossar Edson Albertassi no Tribunal de Contas do Estado, até demitiu seu procurador-geral, que era contra a nomeação. E agora, Pezão?

O “trio dos corruptos” foi preso na Operação Cadeia Velha. Os três também foram afastados de seus mandatos, por decisão unânime do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2) no Rio. Picciani teria recebido R$ 77 milhões em propina só da Fetranspor – empresas de ônibus. Paulo Melo teria recebido R$ 54 milhões. E Edson Albertassi só uma “gorjeta” de até R$ 4 milhões.

Os valores variam e perdemos a noção da fronteira entre realidade e ficção. Por que motivo alguém faz tudo para ganhar ilegalmente, em propina, um dinheiro que jamais conseguirá gastar, nem nas próximas gerações? Eles não perdem o sono?

Sabemos que o que normalmente vem à tona deve ser apenas um pedaço da fortuna desviada dos cofres públicos e das obras públicas. Os juízes decidiram que era necessário “afastá-los do convívio da sociedade” para impedir que continuassem a praticar crimes de lavagem de dinheiro. Foram passar a noite com o capo Sérgio Cabral, no presídio de Benfica, num verão precoce de 40 graus. Faz um ano exatamente que Cabral está preso. O ex-governador já foi condenado em três dos 16 processos contra ele. Ao todo, as penas contra Cabral somam 72 anos de prisão.

O dia 17 de novembro é uma data comemorativa na Lava Jato carioca. O juiz Marcelo Bretas, que comanda a operação no Rio, expressou, em entrevista ao jornal O Globo, o sentimento de estupor da sociedade: “O que me assustou foi a extensão e a capilaridade [no Rio de Janeiro]. Parece que tem mais gente envolvida do que não envolvida. É uma metástase”.

Jorge Picciani começou a mexer os pauzinhos da política do Rio pouco depois de ser eleito deputado estadual há 27 anos. Sua carreira foi meteórica. Foi secretário de Esporte de Leonel Brizola, sucessor de Cabral como presidente da Alerj no governo Rosinha Garotinho, não conseguiu tornar-se senador pelas mãos de Cabral, mas voltou à Alerj em 2014. Tornou-se presidente da Assembleia pela quinta vez, em 2015, com o voto de 65 dos 70 deputados. Com esse poder todo, enfiou no governo Temer seu filho Leonardo Picciani no Ministério do Esporte. Leonardo também foi denunciado agora pelo marqueteiro Renato Pereira por pedido de propina. Seu irmão, o empresário Felipe Picciani, foi preso, acusado de lavar dinheiro sujo. Formam apenas mais um clã familiar na política nacional.

Cadeia Velha é um nome adequado para velhos bandidos, velhas práticas, velha política, velha vadiagem. A Alerj foi obrigada a convocar sessão extraordinária, em um dia que deveria ser útil e ordinário. Com o objetivo claro de limpar a barra do “padrinho”, o maior amigo da insaciável Fetranspor, que o populacho apelidou (por que será?) de “máfia dos ônibus”.

Que venham tempos novos, mais éticos, mais produtivos, não só no Rio, mas no resto do país, para voltarmos a crescer e a acreditar. E que o Supremo Tribunal Federal, alô Cármen Lúcia, se dê conta de que o Legislativo no Brasil não tem a menor condição de julgar seus pares e dar a última palavra.

O caminho do governo e o pó da estrada

A depender do entendimento de política, pode-se aceitar como um determinado tipo de política os caminhos que o governo Temer tem percorrido. Seus cúmplices, apoiadores e torcedores traçam uma rodovia para chegar a 2018; ok, há alguma estratégia. Mas omitem todo o pó da estrada que o país ainda terá que engolir para fazer sua travessia para além da eleição.

O presidente é fraco e impopular; não tem carisma, é omisso e comete erros primários. Todavia, o grupo que o rodeia — o PMDB, o Centrão e parte do PSDB —, mais que vivo, se articula; calibra bússolas e define sua direção com vistas ao próprio futuro. Mesmo desgastado, opera o cenário de 2018: não quer ser o José Sarney, de 1989.

Conta com a possibilidade de apresentar um candidato que o represente, sendo competitivo; vencendo ou não a disputa, mas com relevância no jogo de composição da eleição de dois turnos. Para, ao final, dar abrigo aos principais personagens da atual coligação, protegendo-os de riscos jurídicos ainda tangíveis e visíveis no horizonte.

É desse modo que aposta na recuperação econômica: bate o bumbo, com as expectativas de crescimento significativo no ano eleitoral; diz-se o mais reformista da história, ressalta a economia e esconda a política. Ainda assim, com efeito, é preciso reconhecer que, somadas, pequenas alterações já aprovadas implicam em transformação importante para o ambiente de negócios.

Houve, sim, iniciativas que já incentivam alguma confiança econômica ou pelo menos descomplicam o emaranhado legal para investimentos no país. E mesmo uma pequena reforma da Previdência, seja no valor e ao custo que for, terá sentido simbólico para o governo capitalizar apoios e mostrar que ainda pulsa. Mesmo que mantenha intacta e se valha de estruturas velhas e carcomidas do sistema político.
***

Analistas econômicos independentes projetam crescimento do Produto Interno em torno de 3,5%, em 2018. Não é certeza, mas será significativo, sobretudo, comparado aos últimos anos. E não haveria governo que alardeasse isto. Numa palestra, ouvi do ministro da Fazenda, como só poderia ser, uma análise positiva do processo.

Ainda assim, Henrique Meirelles deixou escapar que grande parte do crescimento contratado se dará em função da capacidade ociosa, já instalada, da economia, além de incentivos ao consumo. A conclusão é minha: não se pode falar em aumento de produtividade ou da remoção de gargalos estruturais que dariam longevidade de voo, para além do salto da galinha — uma quimera hoje, diante da resignação geral.

O processo é de recuperação e é razoável minimizar seus efeitos políticos. A melhora será sentida, mas, sem ilusões, ficará distante do bem-estar percebido em anos recentes, como 2010. Não se pode imaginar o desemprego despencando. E, quando se sabe que no último ano o número de motoristas no Uber saltou de 50 mil para mais de 500 mil, compreende-se a precarização que ronda a tal retomada. O sujeito sai da estatística, mas a vida continua dura. Há sinais de melhora, mas nada para o eleitor sair às ruas comemorando o Plano Real ou o Plano Cruzado.

Imagino que o país haveria de engolir muito pó de estrada para voltar à euforia de 2010 — se é que voltará um dia. A sustentabilidade política do crescimento não foi discutida lá e tampouco é aqui. Não se admite que a mentalidade e os métodos de condução do processo estão esgotados. Sua preservação e renovação, pelo caminho governista, tende a resultar em pouco avanço; mesmo na economia. Mudanças estruturais, mais profundas, no entanto, ainda são imprescindíveis.

***

O bloco governista conta com a melhora do cenário econômico como a única bala na agulha. Despreza — ou prefere esconder — questões fundamentais no campo da política: a ética, a funcionalidade de um sistema exclusivamente fisiológico; um país desconcertado, dividido em agrupamentos indispostos ao diálogo, a crise das políticas públicas, principalmente na Segurança dos centros urbanos; o potencial de caos político e social. Não leva em conta esse caldeirão.

Os limitados caminhos do governismo parecem pouco para estabelecer paz e previsibilidade de longo prazo. Mesmo na oposição não se fala do pó da estrada que o país há de engolir. Os atalhos resolvem — ou simplesmente adiam — questões que afligem o próprio sistema; ainda que mitiguem, circunstancialmente, efeitos da crise econômica. O desconcerto geral ainda está no caminho; nada é mais urgente que o pó da estrada.

(Para Sá, Rodrix & Guarabira, que fizeram uma linda canção sobre ''O Pó da Estrada'').

Carlos Melo

Imagem do Dia

janetmillslove:  Oregon ✿⊱╮ moment love                                                                                                                                                     Mais
Oregon (EUA)

Com brasileiro não há quem possa

Compreensível que poucos cariocas tenham cercado o prédio da Assembleia Legislativa do Rio para protestar contra o que ali ocorria na tarde da última sexta-feira – uma sessão convocada às pressas com o único propósito de libertar os deputados Jorge Picciani, Paulo Melo e Edson Albertassi, do PMDB, presos e acusados de receber milionárias propinas. Perderam um espetáculo e tanto de sordidez.

É bem verdade que sexta-feira foi dia imprensado entre o feriado da Proclamação da República e o sábado da preguiça para quem pode. A temperatura bateu os 35 graus. Deu praia.

A três meses da folia, as escolas de samba costumam promover ensaios técnicos. É tempo de trabalho insano nos barracões, de tirarem-se medidas para as fantasias e de fazer-se provas de roupas incompletas. 

De resto, multidão alguma reescreveria o que se sabia escrito desde que o Tribunal Regional Federal da 2ª Região, em decisão unânime, mandou Picianni, Melo e Albertassi para o xilindró. 

Estava escrito que a prisão seria revogada porque na Assembleia mandam eles. Estava escrito também porque a Lei Cármen Lúcia diz que político só fica preso se seus colegas quiserem.

Estranha, pois, a reação do ministro Marco Aurélio Mello. Ele disse ter visto com “perplexidade” a decisão da Assembleia Legislativa do Rio.

Mas foi dele o quinto voto na sessão em que o Supremo Tribunal Federal (STF) rendeu-se ao Congresso no caso de prisão de parlamentar e de suspensão de mandato. O ministro Celso de Melo empatou a votação. Cármen Lúcia desempatou.

O que valeu para devolver o mandato ao senador Aécio Neves, e livrá-lo do recolhimento obrigatório noturno, passou a valer para qualquer parlamentar. Meliante federal é igual à meliante estadual.

A não ser que os portadores das togas mais ilustres da República mudem de opinião outra vez. Parecem prontos a fazê-lo no caso de prisão em segunda instância. Lula agradece.


Quem sabe não darão depois o dito pelo não dito no caso da homologação de acordos de delação premiada? Por ora, segundo entendimento da maioria deles, cabe ao Ministério Público acertar a pena e as restrições de direitos com os delatores.

Mas Ricardo Lewandowisk, voto derrotado na ocasião, recusou-se a homologar um acordo. O STF virou Casa de Mãe Joana. Ou de Mãe Cármen.

Para que serve uma Justiça que não se faz respeitar? Diante de nossos olhos, e graças à nossa passividade, a Lava Jato (leia-se: o combate à corrupção) vem sendo liquidada à prestação.

Antes com um pouco de vergonha ou de medo da parte dos interessados. De uns tempos para cá, vencidos o medo e a vergonha, com a desfaçatez dos temerários.

O novo diretor da Polícia Federal, nomeado por indicação do PMDB de José Sarney, Renan Calheiros e Romero Jucá, antecipou o desejo de concluir até o início do processo eleitoral todas as investigações que envolvam políticos. 

Pode ser bom ou mau. Uma vez que a Lava Jato respira por meio de aparelhos, a pressa servirá fatalmente para salvar quem não deveria ser salvo.

Sem estresse, porém. Sigamos protestando nas redes sociais. É mais seguro e confortável. Não atrapalha o lazer.

O fim do ano dos fogos de artifício está às portas. Depois, ziriguidum, oi!, que ninguém é de ferro. Em seguida, a Copa (“A taça do mundo é nossa, com o brasileiro...”).

Por fim, o ansiado reencontro com as urnas. Com o caldeirão das caras de sempre, e com as falsas novas caras.
Ricardo Noblat

Escorpiões na política

              I
Na Câmara dos Deputados,
Dentro e fora dos salões,
No plenário principal
E também nas comissões,
A coisa que mais se vê
são levas de escorpiões.

               II
Tem escorpião laranja,
preto, branco e avermelhado,
À direita e à esquerda,
No centro, acima e de lado,
Se brincar o ferrão come
Nas costas do condenado .

              III

Há horas que eles se juntam
Pra combinar o malfeito,
Fazem uma maloca no canto,
O escorpião prefeito
Fala para o deputado:
- A emenda tá no jeito!

             IV
Ia passando uma jornalista,
Com o rosto puro carmim,
O escorpião subiu
E ficou dizendo assim:
- Pico essa devagar
Que ela fala bem de mim.

             V
Tinha escorpião bem velho,
Comandando um bloco novo,
Propôs que se disfarçassem
(Nova casca e velho ovo),
Que é para no próximo ano
Lascar os quibas do povo!

Casa legislativas viraram tribunais de exceção

Ao livrar da cadeia três parlamentares soterrados por evidências de corrupção, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro consolida um fenômeno ruinoso. Está entendido que o Congresso Nacional e os legislativos estaduais tornaram-se tribunais de exceção.

Elaborada nas pegadas da queda da ditadura militar, a Constituição de 88 cercou os parlamentares de imunidades que pretegiam o exercício do mandato. Os autores do texto constitucional não poderiam supor que o antídoto da imunidade viraria no futuro o veneno da impunidade. O Supremo Tribunal Federal poderia colocar ordem na gafieira. Mas preferiu atravessar o samba ao omitir-se no caso de Aécio Neves. Uma maioria de cúmplices e de compadres devolveu ao senador tucano o mandato e a liberdade noturna que a 1ª Turma da Suprema Corte havia cerceado.


Estabeleceu-se a partir de Brasília uma atmosfera de vale-tudo que anula o movimento benfazejo inaugurado pela Lava Jato. Tinha-se a impressão de que o Brasil ingressara numa nova fase —uma etapa em que todos estariam submetidos às leis. Devagarinho, o país foi retomando a rotina de desfaçatez. Brasileiros com mandato continuam se comportando como se não devessem nada a ninguém, muito menos explicações.

Congelaram-se as investigações contra Michel Temer. Enfiaram-se no freezer também as denúncias contra os ministros palacianos Moreira Franco e Eliseu Padilha. Enquanto Curitiba e Rio de Janeiro produzem condenações em escala industrial, a Suprema Corte não sentenciou um mísero réu da Lava Jato. Em vez disso, preferiu servir refresco a Aécio Neves, instalando nas Assembleias Legislativas um clima de liberou-geral que resulta em absurdos como o que se verifica no Rio.

Transformados em tribunais de exceção, os legislativos conspurcam a democracia. Neles, políticos desonestos livram-se de imputações criminais não pelo peso dos seus argumentos, mas pela força do corporativismo. Simultaneamente, a sociedade é condenada ao convívio perpétuo com a desonestidade impune. Fica-se com a impressão de que a turma do estancamento da sangria está muito perto de prevalecer.

Paisagem brasileira

Andorinha, Guttman Bicho

Coisa de preto

Nesta segunda-feira, será comemorado o Dia da Consciência Negra. A data foi criada para lembrar a luta contra a escravidão e a desigualdade que ainda separa brancos e negros no Brasil. Quem pensa que este debate é desnecessário deveria dedicar alguns minutos do feriado à Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, realizada pelo IBGE.

A nova versão do levantamento informa que pretos e pardos somam 63,7% dos desempregados. Isso equivale a um exército de 8,3 milhões entre os 13 milhões de brasileiros que procuram trabalho. Apesar da leve melhora da economia, a taxa de desemprego de pretos e pardos ainda alcança 14,6%. É um índice muito superior ao registrado entre trabalhadores brancos: 9,9%. A média nacional está em 12,4%.

Resultado de imagem para dia da consciência negra charge

As diferenças também persistem entre a população ocupada. De acordo com os números da PNAD Contínua, pretos e pardos ganham menos, ocupam vagas piores e têm menos estabilidade no emprego.

O rendimento médio desses brasileiros é de R$ 1.531, enquanto o dos brancos chega a R$ 2.757. Pretos e pardos somam 66% dos trabalhadores domésticos e 66,7% dos vendedores ambulantes, mas representam apenas 33% dos empregadores.
Em setembro, a Oxfam Brasil informou que o país ainda levaria sete décadas para equiparar o rendimento dos negros ao dos brancos. Segundo o estudo, os dois grupos só devem se igualar em 2089 – mais de dois séculos depois da Lei Áurea. Agora a projeção parece ter sido muito otimista. De acordo com a PNAD, a desigualdade voltou a crescer nos últimos 12 meses.

Na semana passada, o Brasil debateu o caso do apresentador de TV que foi afastado após se referir a um buzinaço como “coisa de preto”. O episódio mostrou que discutir o racismo ainda é importante e necessário. A pesquisa do IBGE nos lembra que também precisamos cobrar políticas públicas para combater a discriminação e tornar o país menos desigual.

Objetos perdidos

Babushka – Russiapedia Of Russian origin
O século XX, que nasceu anunciando paz e justiça, morreu banhado em sangue e deixou o mundo muito mais injusto que o que habia encontrado.

O século XXI, que também nasceu anunciando a paz e justiça, está seguindo os passos do século anterior.

Lá na minha infância, eu estava convencido de que tudo o que na terra se perdia ia parar na lua.

No entanto, os astronautas não encontraram sinhôs perigosos, nem promessas traídas, nem esperanças rotas.

Se não estão na lua, onde estão?

Será que na terra não se perderam?

Será que na terra se esconderam?

Eduardo Galeano

O infeliz Dia dos Pobres

Lee Jeffries
Comemorou-se neste domingo, 19 de novembro, o infeliz Dia Internacional dos Pobres.Há um ano,no encerramento do Jubileu da Misericórdia, o Papa Francisco instituiu a data como forma de motivar a Igreja para combater a indiferença das pessoas diante das desigualdades do mundo e dos sofrimentos dos mais pobres.Ironicamente, na mesma semana o quadro “Salvador Mundi”,retratando o Cristo com um globo de cristal na mão,atribuído a Leonardo da Vinci, foi arrematado por 380 milhões de euros na casa leilões Christie’s.

Poucos dias antes,um menino de oito anos desmaiou com fome numa escola pública de Brasília, próxima ao Congresso,onde a maioria dos seus ocupantes locupletou-se dos recursos públicos que poderiam evitar essa situação escandalosa.Podemos fingir que não vemos,ou que não reparamos,mas é impossível não ver e denunciar os dois chocantes acontecimentos , revelando que a concentração de riquezas tornou o mundo um local onde os valores humanos fundamentais foram depreciados e predomina o dinheiro,venha de onde vier.

Ao lado do Parlamento,crianças da periferia de Brasília são obrigadas a viajar quilômetros com a barriga vazia para freqüentar precárias escolas públicas.O que não é prerrogativa do Distrito Federal,pois comum em todo o país.Ironicamente,nenhum parlamentar ou dirigente político se deslocou até ao local para ver o que se passava.Foi uma modesta professora, Ana Carolina Costa, com seu minguado salário e dos demais membros da escola ,que organizou uma vaquinha para comprar uma cesta básica para a família da criança,com mais três irmãos esfomeados.

É impossível não se perguntar para que alguém necessita ter um quadro desse valor,ou milhões e milhões de dólares à disposição.A mais simples explicação aponta para o desejo e não para a necessidade.Muitos acreditam que a necessidade é a mãe do crime.Contudo,com poucas exceções,o crime decorre mais do desejo do reconhecimento,da acumulação ,da vaidade, da ganância e da posse de bens materiais que não são necessários para a sobrevivência humana.

Pode ser chover no molhado, mas não custa insistir que as fortunas devem ser divididas para investimento na educação,na cultura e na formação profissional dos mais carentes.Talvez isso tornasse os acumuladores pessoas melhores.Terá sido por essa razão que Bill Gates deixou a presidência da sua bilionária empresa capitalista para se dedicar à filantropia?Quem sabe isso dá mais sentido à sua vida e o torna uma pessoa mais paz na sua relação com o mundo que tanto lhe deu,mas poucos acreditam ou querem imitá-lo.

O governo e as elites brasileiras assistem de braços cruzados ao estado de pobreza em que se encontra a maioria da sua população.A coisa pública está entregue a um bando de ladrões formado por dirigentes políticos e parlamentares para enriquecer cada vez mais.Não existe nenhuma preocupação em garantir um mínimo de justiça e equidade na sociedade,com a adoção de regras que possam abranger todos os cidadãos,sem exceção.E sem elas,não pode haver confiança na classe dirigentes, respeito pelos outros e espírito de colaboração que permitam a coexistência democrática capaz de promover o bem-estar de todos.

Gente fora do mapa

Os inseparáveis poderes

As denúncias contra o presidente Picciani são por atos continuados. Atos que vêm sendo cometidos há muito tempo. As denúncias contra Cabral também. São por atos de muito tempo. Há muito tempo é a inação do Tribunal de Contas do Estado. Igual muito tempo são as denúncias que não vieram do Ministério Público Estadual. E por aí vamos.

No Rio, o tempo tem sido o senhor dos silêncios. Continua, com a decisão da Alerj.

Carlos Drummond tudo explica em sua poesia: “João amava Tereza que amava Raymundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém e ... casou com João Pinto Fernandes que não tinha entrado na história”.

Ou seja, o governador amava a cúpula da Alerj, que amava o governador, ambos amavam um Ministério Público Estadual necessário mas inerte, e um Tribunal de Justiça preocupado com aumentos salariais. Todos amavam o Tribunal de Contas do Estado, que por si próprio inexistia.

Apareceram então Lava-Jato, Ministério Publico Federal e Justiça Federal que não tinham entrado na história. E não amavam nenhum.


Quando os poderes e órgãos de controle do estado são dominados por um mesmo grupo de interesses, inexiste separação de poderes. Ou estado democrático de direito.

O regime de 1964, por exemplo, resultou de um pacto entre os militares, grandes empresas, setores dos trabalhadores industrializados, que passaram a controlar os três poderes. Acabaram com a democracia.

Poderes constitucionais podem ser formalmente separados, e politicamente inseparáveis. É o que aconteceu e acontece no Rio de Janeiro.

Quem apenas escuta a forma, não vê o batimento do coração.

No Rio, impera ainda o pacto de há muito tempo entre os três poderes do estado, órgãos de controle, empresas fantasmas, grandes empreiteiras, joalherias.

A meta foi o controle do tesouro e cargos do governo. O cimento foi, no setor privado, a substituição da competição empresarial pelo ineficiente compadrio capitalista. A fraude nas licitações.

No setor público, aumentos salarias, adicionais ilegais, cargos desnecessários expandindo as corporações do Executivo, Legislativo, Judiciário e Ministério Público.

Este pacto esconde o pior. Ele resultou, direta ou indiretamente, do voto do eleitor. Será que assim continua em 2018?

O eleitor será apenas o observador da decadência do Rio? Ou seu agente de transformação moral, indispensável para recuperar sua competitividade econômica?

A propósito. O nome da poesia de Drummond é: Quadrilha.

O lugar do caos

A cada fato novo, segue-se uma situação tumultuosa, confrontos, confusão de conceitos, trombadas e agressões às regras vigentes. Quem ainda se importa com esse estado de coisas transita entre a perplexidade e o desalento, indagando aqui e ali, indagando-se, sempre em vão. Quem nunca se importou, ou cansou de se importar, com a apatia dá a mais eficaz contribuição para a continuidade, senão o aumento, do país desgarrado. E não está menos inquieto do que aqueles outros, porque seus olhos e seus ouvidos não estão imunes ao que se passa, no transtorno inquietante e indiscriminado.

Uma decisão do Supremo desprovida de coragem e de reflexão, por exemplo, dá um novo poder ao Senado, com a preservação imprópria da presença de um senador que, assim rearmado, cria uma crise no seu grande partido, racha-o, e abala a composição do governo. Acaba aí? Não. Nem é certo que venha a ter fim em tempo previsível.


 A decisão insatisfatória do Supremo permite, ou requer, a extensão judicial do que deu a Aécio Neves: políticos do Rio presos e acusados de corrupção são libertados pela Assembleia fluminense, em imitação ao decidido no Senado. Desponta novo braço da crise, entre Assembleia, Judiciário fluminense, partidos e o Supremo. Um círculo perfeito.

O governo faz das “reformas” um meio de picaretear apoio de “quem tem dinheiro”, como diz a crueza do neoliberal Gustavo Franco, para o Michel Temer de 3% de aceitação pública, recordista planetário negativo. A legislação do trabalho, nos seus 77 anos, tem o que ser melhorado, para patrões e empregados. Mas o governo amontoa alterações a granel, com a parcialidade esperável, e manda ao Congresso, que apenas remexe a salada.

Ninguém sabe como aplicar aquilo: a inquietação está nos beneficiados e nos prejudicados. O governo emite medida provisória com as correções mais prementes. Piorou: houve troca de erros por erros. Os assalariados continuam sem saber como e quanto perdem, os empregadores sem saber usar seus novos meios de ganhos. E como a população ativa compõe-se dos dois segmentos, a “reforma” é uma imensa perturbação. A idiotia do governo não relaxa.

Há mais de três anos discute-se a delação premiada. Seu uso descriterioso, em numerosos casos, deu ao pagador da extorsão ou do suborno sentença muito mais pesada que a do recebedor, o qual, ainda por cima, deliberou provocar o desvio de centenas de milhões, ou bilhões mesmo, da Petrobras e de outros cofres da riqueza pública.

Os prêmios fixados por procuradores da Lava Jato foram avalizados pelos dois relatores do Supremo, sem dificuldades, até que a imunidade judicial dada aos bilionários Joesley e Wesley Batista causou escândalo. A Procuradoria-Geral da República, ao tempo de Rodrigo Janot, e os ministros Teori Zavascki, Edson Fachin e Cármen Lúcia, pelo Supremo, deram à lei da delação frequente flexibilidade.

O ministro Ricardo Lewandowski negou-a, relatando agora o acordo de delação do marqueteiro Renato Pereira, do grupo de Sérgio Cabral. Devolveu-o à Procuradoria-Geral, por nele encontrar desacordos com a legislação. É o papel que a lei da delação lhe atribui. O acordo, a despeito das trapaças financeiras que o motivam, concede ao “sentenciado” até o direito de viajar quando quiser. A restrição é só dormir casa durante um ano – se não estiver em viagem.
A devolução do acordo não impede a delação nem prejudica o inquérito, apenas exigindo a correção. Apesar disso, Rodrigo Janot, que encaminhou o acordo, lança suspeita sobre a atitude de Lewandowski:

“Será que as investigações foram para rumos indesejáveis?”. Maldade por maldade, há outra pergunta possível: será que Rodrigo Janot, com sua generosidade de premiador, queria combater ou mostrar que a corrupção vale a pena? Por hora, com o desastre para o país e os prêmios a quem o prejudicou, a melhor resposta é a pior das duas.

Bleque Fraidei

Liquidação! Liquida tudo. Que negocinho chato e intrometido. O que era para ser um dia, na tal sexta fraidei, virou bleque semana, mês e já já teremos o Bleque 2018, que estará mais para Blague 2018, se for mantida essa atual lista de candidatos. Vão liquidar as nossas esperanças em parcelas com juros e juras de mudança.

A cada dia que abrimos a janela para o mundo das informações damos de cara com um espanto. Seja a aparição de um candidato novo – e todos os tipos mais estranhos essa hora aparecem, como o tal Dr. Rey, o melhor exemplo. Na plataforma que o indivíduo do bisturi apresenta vem a promessa de trazer de volta a nossa “sensualidade” e “levantar o Brasil da miséria”, o “free market society”, fazer o Hino Nacional ser tocado todas as manhãs com todos levantando e colocando a mão direita no lado esquerdo do peito.

Ninguém merece. Nós não merecemos. E ele vai ganhando o espaço para as suas bobagens e clínicas que espalha por aí.

Resultado de imagem para black friday charge

No meio da enxurrada de ofertas estapafúrdias que vêm nos soterrando há dias por todos os meios, enchendo todas as caixas postais e nossa paciência, surgem ainda as pesquisas. Pesquisas para saber o que achamos ou não da tal sexta-feira que, essa sim, podia e devia cair em algum dia 13, porque é azar danado acreditar nos tais descontos miraculosos.

Tão miraculosos como são as promessas – algumas quase ameaças para quem tem o espírito livre e deseja um país – que jorram da mente dos que tem aparecido na frente em pesquisas siderais para a Blague 2018. Um carcomido e bravateiro líder ex-operário-trabalhador faz muito tempo e um ex-militar, político de quinta categoria, metido a ditador que quer endurecer tudo, sem ternura, e sem prazer. Dois primeiros de arrepiar, seguidos por outros rojões … Só falta inventarem algum bicho como os tais cavalinhos horrorosos e chatos do futebol, que ficarão correndo no programa de domingo na tevê com suas lamentáveis vozinhas. Sugestões?

Senhor! É como se brincássemos alegremente em um campo tão sério, a forma como vêm sendo levadas as coisas em torno das eleições daqui a menos de um ano. Ano que pode passar rápido ou continuar se arrastando na lama.

Com ofertas de nomes liquidados como na tal invenção importada para vender mais agora perto do Natal, são postos no mercado de apresentadores de tevê a políticos alguns que, se a gente perguntar rápido em qual partido estão, capaz deles errarem tanto que trocaram, tão “firmes” são em suas ideias; os de sempre a musas amazônicas que só saem da toca para pedir voto como aqueles seres da floresta que ninguém vê na hora que mais precisa; de boquirrotos literais cheios de frases feitas ditas com forte sotaque a desconhecidos do grande público e do pequeno também. As novidades até surgem, mas como gordura para ocupar os tracejados, prontos a se jogarem em qualquer panela velha que os convide quando chegar mais perto a hora da fervura.

Toma bleque fraidei pela frente, usado por quem pode.

Quem não pode se sacode. E ficará só aguardando as notícias sobre fraudes e descontos imaginários, entregas não realizadas, protestos, reclamações nos órgãos de defesa do consumidor.

Mas na Blague 2018, marcada para o dia 7 de outubro, com segunda chamada dia 28 de outubro todos, obrigatoriamente, terão de participar e comprar um pacote que incluirá presidente, governador, deputados.

Teremos para quem reclamar depois?

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Imagem do Dia

Adeus aos salvadores da Pátria

De passagem pelo Brasil, um dirigente espanhol do Podemos, Rafael Mayoral, afirmou que a esquerda não vai salvar as pessoas e o essencial é fortalecer a sociedade para que ela possa controlar qualquer governo no poder. Não vi o restante do seu discurso. Mas até onde li, concordo. De certa forma, tenho usado esse argumento com novos grupos que querem a mudança no Brasil.

Muitos deles estão legitimamente preocupados com a falta de alternativas na eleição presidencial. Mas, ainda assim, afirmo que a descoberta de um nome não é tão importante quanto fortalecer a sociedade para que possa monitorar ativamente o governo.

No fundo, o objetivo maior deve ser a construção de um controle social tão preciso, diria até tão virtuoso que possa tornar mais amena a constatação de que não elegemos anjos, mas pessoas de carne e osso. Isso é válido para qualquer sociedade, mas no Brasil parece que somos mais intensamente de carne e osso.

Resultado de imagem para salvadores da pátria charge

De certo modo, já exercemos algum controle sobre o governo Temer. Duas medidas foram revertidas por pressão social: a abertura de uma área de mineração na Amazônia e o abrandamento da lei que pune o trabalho em condições análogas ao de escravo. Mas esse esforço de controle só tem surgido em grandes temas. Estamos tratando como normais e cotidianas várias aberrações que nos transformam num país virado de cabeça para baixo.

Um exemplo que me espantou foi o pedido oficial de Geddel Vieira Lima para saber o nome e o telefone de quem o denunciou. No apartamento ligado a Geddel foram encontradas as malas com R$ 51 milhões. Até agora não sabemos, e creio que a polícia também não, de onde veio o dinheiro atribuído a Geddel. Mas ele quer saber quem o denunciou. Se a polícia desse o nome e o telefone de quem denunciou, Geddel iniciaria uma prática internacionalmente nova: quebrar o anonimato dos informantes, para serem devidamente assassinados.

Raquel Dodge negou o pedido de Geddel. Mas o fato de ter existido e circulado como uma notícia normal revela como o País, no cotidiano, foi posto de cabeça pra baixo.

No caótico Estado do Rio de Janeiro, outra dessas barbaridades que quase passam em branco: o governador Pezão indicou um deputado para o Tribunal de Contas do Estado (TCE), o mesmo cujos membros foram presos. Questionado na Justiça, Pezão chamou o procurador Leonardo Espíndola para defendê-lo. Impossível, disse o procurador, sua decisão é inconstitucional. Ato contínuo, Pezão demitiu Espíndola. Felizmente, o indicado por Pezão caiu nas garras da Polícia Federal antes de tomar posse no TCE. É acusado de corrupção, ao lado do presidente da Assembleia Legislativa, deputado Jorge Picciani.

São só dois fatos cotidianos. Há algo comum em sua origem. Nascem de políticos do PMDB envolvidos em corrupção. Um quer o nome de quem o denunciou, o outro considera defender a Constituição algo incompatível com o serviço público.

E a vida continua. Engolindo alguns sapinhos no cotidiano, nosso estômago é preparado para os grandes sapos de fim de mandato.

Um deles, que está sendo preparado nos bastidores, é a derrubada da prisão em segunda instância. As articulações correm no Congresso e no próprio Supremo Tribunal Federal (STF). Tanto ministros do Supremo como parlamentares veem nisso uma saída para neutralizar não só a Lava Jato, como todas as operações que envolvam políticos corruptos.

Enunciado apenas como uma tese jurídica, o fim da prisão em segunda instância é palatável. Todos são inocentes até que a sentença seja confirmada pelo STF. Na prática, resultará em impunidade geral. Todos terão direito a uma trajetória semelhante à de Paulo Maluf, que de recurso em recurso vai tocando sua vida, exercendo seus mandatos e até defendendo outros acusados de corrupção, como Michel Temer.

No momento em que as aberrações se acumulam, a tendência é criar um País monstruoso. Algo que já tentei definir num discurso, no alto de um caminhão, em protesto de rua: um País onde os bandidos fazem a lei.

Enquanto essas coisas acontecem, o debate entre os que querem a mudança tende a concentrar-se no perfil do líder que nos vai salvar. Em que rua, em que esquina vamos encontrá-lo? No Acre, em Alcácer Quibir?

Enquanto não aparece, creio ser necessário fortalecer as organizações que trabalham com a transparência. Estão surgindo de vários pontos. Hoje se investiga como os partidos gastam seu dinheiro. Há um grupo que cuida exclusivamente de despesas de parlamentares. A intensa busca da transparência fortalece a sociedade. Da mesma maneira, ela ficará mais forte se todos os grupos que buscam a mudança se unirem num esforço comum.

Nem todos pensam da mesma maneira, estamos cansados de saber. Mas é preciso um mínimo de maturidade, na situação dramática do País, para encontrar pontos de convergência.

Não importa tanto se um grande líder vai emergir dos escombros. Mesmo se aparecer, não será um anjo. Não elegeremos anjos em 2018. Nunca o faremos, creio eu.

A fronteira do pessimismo não nos deve desesperar. Há algumas instituições funcionando, há grupos trabalhando na busca da transparência, há a possibilidade real de que todos os que querem mudança encontrem pontos de contato, um denominador comum.

Como o poeta que fabrica um elefante de seus poucos recursos, a sociedade brasileira terá de construir seu sistema de defesa. Alguns móveis velhos, algodão, cola, a busca de amigos num mundo enfastiado que duvida de tudo – o elefante de Drummond é inspirador.

Quem sabe, como em Portugal, conseguiremos construir nossa própria geringonça? Prefiro essa visão modesta e realista a esperar dom Sebastião. Curado de sua megalomania, talvez o Brasil aceite, finalmente, tornar-se um grande Portugal.

Quem sabe essa é a nossa chance?

Em 11 de julho de 2008 assinei aqui neste Blog um artigo sobre o Rio que, entre outras coisas, dizia o seguinte:

“Só não vê quem não quer: ruas sujas, esgoto a céu aberto, um cheiro de urina entranhado até nas esquinas do centro financeiro da cidade, que dirá em bairros afastados.

Ambulantes vendendo de comida a animais. Cartomantes e curandeiros. Pregões que incomodam, anunciando coisas do arco da velha. Moradores de rua fazendo tudo que as pessoas fazem em seu dia a dia, mas a céu aberto.

Carros abandonados e carcomidos pelo tempo. Casas desmoronando, sem telhado, pondo em risco os passantes. Animais zanzando, famélicos e imundos. Brigas, tumultos, bandidos à solta. Sexo, de todos os tipos, sendo vendido à luz do sol. Crianças dormindo nas ruas, sozinhas ou em bandos. Assaltos, rotina, não são exceção. A violência explode. (...)

Muitos não vêm isso que acabo de descrever. Ou porque não querem ver, ou porque vivem em ilhas da fantasia. Mansões cercadas por muros e grades, vigias armados, alarmes, holofotes. Quando têm que sair do castelo por motivo de força maior, vão em carros blindados, ou helicópteros, que ninguém é tonto. Não duvido que em breve inaugurem um condomínio com pontes levadiças.”

Mudou alguma coisa nesses últimos nove anos?

Mudou, sim!

Estamos tendo a oportunidade de corrigir tudo que está errado.

Como?

Cadeia Nova, em Benfica
Muito simples: os palácios governamentais estão vazios. Em compensação, as cadeias começam a ficar lotadas. A Cadeia Nova, graças à Operação Cadeia Velha, começa a nos livrar do pesado fardo que há muito carregamos!

Na Cadeia Nova estão o ex governador do Rio de Janeiro, e desde ontem a cúpula da Alerj, os Picciani e Cia Ltda lá estão a lhe fazer companhia.

Governador, vice-governador, secretários, todos calados. Diria mais, mudos!

Strictu Sensu, estamos à deriva, já que sem comando. Mas será que é permitido discordar?

Espero que sim, porque discordo. Não estamos à deriva. Estamos vivendo uma oportunidade de ouro: Pela primeira vez, desde que os índios tamoios comandavam este pedaço do Céu, podemos mandar em nossa cidade!

Não sei por quanto tempo essa situação ideal irá se prolongar. Espero que dê tempo para uma limpeza em regra e para que os cariocas retomem sua cidade e reorganizem sua vida. Espero que a Justiça fique mais lenta que de hábito para que o tempo corra a nosso favor!

Desculpem, esqueci de mencionar o Prefeito. Não foi por implicância, foi apenas porque não encontrei nenhuma nota sobre seu paradeiro, ontem, 16 de novembro.