segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Gente fora do mapa

chuva caindo do ceu - Pesquisa Google

O mal-estar eleitoral

Um dos grandes fatores de incerteza na conjuntura política é a ausência de um projeto de país no debate eleitoral que se inicia. Outro, o fato de que o Estado brasileiro está em crise, com o fracasso das políticas públicas e uma crise de financiamento cuja conta está sendo toda pendurada no sistema de Previdência.

Ao mesmo tempo em que os políticos e seus partidos não oferecem uma alternativa convincente e motivadora para a situação, a Operação Lava-Jato revelou para a sociedade que o financiamento da política — e o enriquecimento pessoal de seus principais operadores — era feito por meio do desvio ilegal de recursos, que deveriam ter ido para escolas, hospitais, estradas, metrôs, etc.

É impossível evitar o enorme mal-estar instalado na sociedade, com o agravante de que isso está sendo potencializado por outros fenômenos que não são uma exclusividade brasileira. No mundo inteiro, o Estado perdeu sua referência. O que era moderno e sólido, organizado, produtor de justiça e provedor da qualidade de vida das pessoas está se desmanchando no ar. Como assinalou o sociólogo polonês Zygmunt Bauman (O mal-estar da pós-modernidade, Zahar), o Estado na pós-modernidade perdeu o poder para o mercado livre, perdeu o propósito de sua existência. Quanto maior, mais atrapalha. O Estado tornou-se uma empresa ineficiente.

Bauman utiliza a metáfora da liquidez para caracterizar a sociedade contemporânea. A crise das ideologias da modernidade — que tinham começo, meio e fim e uma base social estruturada na sociedade industrial — resultou numa cultura fluida, líquida, gasosa, pautada pelas incertezas e pela volatilidade. Tudo parece errado e em movimento. O que seria mais civilizado se revelou uma sociedade mais cruel e embrutecida, mais desigual e injusta. No Brasil, essa sensação de fracasso da sociedade contemporânea por não alcançar a felicidade, fruto da pós-modernidade, é ainda maior por causa da exclusão e da violência, sem falar na corrupção dos políticos. Sem as velhas utopias que fracassaram e com a fragmentação das ideologias, a política se tornou um objetivo em si mesma e um balcão de negócios, perdeu o projeto de Nação.


É nesse ambiente que entramos no ano eleitoral. Os discursos são, no mínimo, regressivos. Uma espécie de pare o mundo, vamos dar marcha à-ré. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, se apresenta como vítima de uma grande injustiça, como se nada tivesse a ver com toda a roubalheira que houve durante seus dois mandatos e o colapso econômico do país no governo Dilma Rousseff, cuja eleição foi sua maior proeza. Quer passar uma borracha no que aconteceu entre 2011 e 2016 e retomar o fio da história lá atrás. Vamos supor que isso fosse possível. Se Lula voltar ao poder para fazer o que vem dizendo, o desastre será ainda maior. Basta olhar para a Venezuela e outros países da América Latina.

Outro player do debate eleitoral é o deputado Jair Bolsonaro (PSL). Depois da eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, acredita que pode falar qualquer bobagem e nada abalará o seu prestígio. As bandeiras conservadoras e retrógradas são agarradas com as duas mãos pelo parlamentar, que faz uma defesa incondicional do golpe militar de 1964 e dos 20 anos de regime autoritário que o país atravessou. Agora flerta com ideias liberais na economia por mera conveniência; sua cabeça é nacionalista e estatizante, como a do ex-presidente Ernesto Geisel, com a diferença que não tem a mesma cultura e experiência administrativa do general que restabeleceu a hierarquia nas Forças Armadas e promoveu a abertura política. Com Bolsonaro no poder e um Congresso que lhe seja hostil, o risco de golpe militar entra em qualquer cenário pós-eleitoral.

Pode-se dizer que o país que queremos comporta essas duas alternativas? As pesquisas mostram que não. A maioria da sociedade ainda defende valores essenciais para a democracia, entre os quais a busca de consensos e a construção de soluções positivas, o respeito à diversidade, à igualdade de oportunidades e à inclusão. Entretanto, o ambiente “líquido” da disputa eleitoral fragmenta ainda mais os interesses da maioria e nenhum nome se apresenta como alternativa ao centro, nem mesmo aqueles que deveriam polarizar o debate eleitoral, como Marina Silva (Rede) e o governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB).

Que país queremos? Quem responder a esse questionamento certamente terá possibilidade de disputar pra valer a Presidência. Sabemos, porém, que as referências dos brasileiros não são os países da América Latina, África ou Ásia; são a Europa e os Estados Unidos. Sabemos também que é preciso fazer um novo pacto entre o Estado e a sociedade e pensar um modelo de desenvolvimento mais sustentável, que aproveite nossos recursos naturais de forma não-predatória e aposte fortemente no conhecimento para que nos tornemos um país melhor para dentro e para fora dos locais de trabalho e de moradia.

O risco de uma crise contratada

O advogado Cristiano Zanin Martins, que defende Lula em processos da Operação Lava Jato, diz esperar “um julgamento isento” quando o Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em Porto Alegre, reunir-se no próximo dia 24 para decidir sobre o caso do tríplex do ex-presidente na praia do Guarujá.

A senadora Gleisi Hoffmann, presidente do PT, diz que “a única solução possível” para o julgamento “do ponto de vista legal é a absolvição”. Uma sentença condenatória simplesmente “não será uma sentença justa”, segundo ela. E por tabela, não deveria ser respeitada por ninguém.

“Se eles fizerem uma coisa dessas, existe a possibilidade de uma rebelião popular”, dispara o senador Lindberg Farias (PT-RJ). Afirma Tarso Genro (PT-RS), ex-ministro da Justiça: “Lula tem a obrigação de submeter-se à soberania popular e contestar as acusações que lhe são feitas”.

Ou seja: “um julgamento isento” e a única solução possível “do ponto de vista legal” seriam aqueles que resultassem na absolvição do ex-presidente. Do contrário, Lula terá a obrigação de disputar as próximas eleições mesmo impedido pela Justiça. E o país correrá o risco de ser palco “de uma rebelião popular”.

Estamos entendidos? Legal e justo para o PT é somente o que o PT aceita como legal e justo – dane-se a Justiça, dane-se o que está escrito nas leis, dane-se o bom senso, e dane-se o que no passado recente disse ou praticou o próprio PT. Ou vai ou racha. Condene-se Lula para ver só uma coisa! (Isso pode, Arnaldo?)

“É preciso derrotar o golpe em todas as suas manifestações e a ofensiva reacionária de parte do Judiciário é uma delas”, conclama nota oficial do PSOL divulgada no último sábado. Curioso! A ser um golpe a possível condenação de Lula, o PT e o ex-presidente não deveriam ter participado dele. Deveriam apenas tê-lo denunciado.

Resultado de imagem para lula e a justiça charge

Mas participaram, sim, e continuarão participando até ficarem roucos de tanto gritar que é um golpe, até se resignarem a concorrer às eleições deste ano com outro nome na impossibilidade de Lula ser candidato. Nessa hipótese, o nome seria o do ex-ministro e ex-governador da Bahia Jaques Wagner.

Dilma reconheceu a legitimidade do processo de impeachment ao se defender das acusações em todas as instâncias da Justiça, ao comparecer ao Congresso para ser interrogada pelos senadores, e, por fim, ao se beneficiar do ato criminoso do Senado – esse, sim, um golpe – que preservou seus direitos políticos.

A Constituição manda que, uma vez cassada, a pessoa perca o direito de se candidatar e de exercer cargos públicos por oito anos. Sabe muito bem disso o ministro Ricardo Lewandowisk, que comandou a fase final do processo de impeachment na condição de presidente do Supremo Tribunal Federal. Ou sabia e esqueceu.

Lula repete o comportamento de Dilma – com uma diferença. É mais agressivo do que ela na contestação ao devido processo legal. Não perde uma única oportunidade de avacalhar a Justiça. E como é popular e Dilma nunca foi, vale-se de sua força eleitoral para atrair parte do povo em sua defesa.

Foi uma parte minúscula do povo que atendeu ao convite e que participou dos comícios de Lula promovidos ao arrepio da lei nos últimos meses. Mas nada impede que essa parte possa crescer a depender da consistência, ou da falta dela, do juízo a ser conhecido dentro de nove dias. Haverá dias turbulentos pela frente. Ou meses.

Cabe a Justiça ser rápida para condenar ou absolver Lula. Do contrário teremos uma crise inédita e contratada desde já: a de um ex-presidente, líder nas pesquisas de intenção de voto, impedido de disputar eleições às vésperas das próximas. Ou pior: em meio a uma campanha oficialmente em curso. Seria o pior dos mundos.

Paisagem brasileira

FUNCHAL GARCIA (1899 - 1979) - No caminho de são Thomé das Letras - MG, óleo s tela, 74 x 100
No caminho de São Thomé das Letras, Funchal Garcia
)

Não só Portugal

Bem quero, mas não consigo alhear-me da comédia democrática que substituiu a tragédia autocrática no palco do país. Só nós! Dá vontade de chorar, ver tanta irreflexão. Não aprendemos nenhuma lição política, por mais eloquente que seja. Cinquenta anos a suspirar sem glória pelo fim de um jugo humilhante, e quando temos a oportunidade de ser verdadeiramente livres escravizamo-nos às nossas obsessões. Ninguém aqui entende outra voz que não seja a dos seus humores.
 
É humoralmente que elegemos, que legislamos, que governamos. E somos uma comunidade de solidões impulsivas a todos os níveis da cidadania. Com oitocentos anos de História, parecemos crianças sociais. Jogamos às escondidas nos corredores das instituições.
Miguel Torga,  "Diário" (1978)

O que é milagre brasileiro

Sempre procuro me sentar ao lado de José de Souza Martins na Academia Paulista de Letras. Porque é um grande conversador, um daqueles que você ouve longamente e até esquece o café, o suco e os pastéis. No último encontro do ano, no almoço que durou horas no restaurante La Casserole, de Marie France, me esgueirei e consegui ficar ao lado do amigo, autor de O Coração da Pauliceia Ainda Bate, um de meus livros de cabeceira, que me ensina a escrever crônicas e me encanta com histórias desta cidade. À certa altura, Martins virou-se para mim: “Sabe o que é o milagre brasileiro?”. E emendou: “Tomar o café da manhã”.

Peguei a deixa, retruquei: “O milagre brasileiro é ter o café, o leite e o pão”.

E ele: “Também milagre é levantar-se de manhã, disposto, sem uma doença, uma dor, um mal-estar, um estresse, uma preocupação”.

Neste momento, Jorge Caldeira chamou Martins, mas continuei sozinho, elucubrando (perdoem-me por tal palavra).

Receba no seu e-mail conteúdo de qualidade

"Milagre é pegar o ônibus de manhã."

"Milagre é o ônibus passar e, se passar, não chegar superlotado."

"Milagre é um jovem no metrô estar sentado no banco de gestante e idoso e levantar-se assim que uma grávida entre."

"Milagre brasileiro é um homem conseguir ficar junto a uma mulher sem encoxá-la, assediá-la."

"Milagre é a pessoa chegar ao trabalho, sentar-se e cumprir sua jornada, sem ter sido demitida logo de manhã."



"Milagre é você não ser demitido no final do expediente de sexta-feira, na véspera do feriado, no dia em que sai de férias."

"É também receber seu salário."

"Aliás, milagre mesmo é ter emprego."

"É também você passear pelo centro ou pela Avenida Paulista e não ter o celular ou a carteira roubados."

"Milagre é entrar nos Correios e ninguém te oferecer um boleto do Baú da Felicidade.”

"Ou em um banco e o caixa não indagar: não quer fazer um título de capitalização? Preciso fechar uma meta."

"Ou numa lotérica e a atendente entregar seu jogo sem perguntar: Não vai levar o bolão da Mega?”

"Estacionar seu carro e nenhuma pessoa surgir do nada perguntando: posso vigiar? Só 20 paus.”

"Milagre é o caixa do supermercado não indagar: o senhor não quer arredondar os centavos em prol de uma instituição?"

"Milagre é o telefone tocar e não haver do outro lado uma voz do telemarketing oferecendo fibras óticas ou tantos megabytes."

"Andar nas ruas e perceber que desde que o gestor Doria entrou pela primeira vez em 12 meses passou um varredor."

"Milagre é andar pela calçada e completar uma quadra sem tropeçar em um buraco, numa pedra solta, um degrau que não se percebe."

"Milagre é você pisar na faixa e os carros que viram na esquina o deixarem atravessar a rua."

“Milagre é você chegar ao estacionamento e perceber que aquele garoto, com um sorriso, permite que você ocupe a sua vaga de idoso."

“Milagre brasileiro é ninguém tentar furar a fila, invocar prioridades inexistentes, aplicando a lei do mais esperto."

"Milagre é você estar sentado na sua poltrona do avião e nenhum outro passageiro bater com a mochila na sua cara, no seu ombro, no peito. Ou atropelá-lo no corredor, querendo sair na frente."

"Milagre é você estar entrando em algum lugar e a pessoa à frente segurar a porta, em lugar de largá-la em sua cara."

"Milagre é seu vizinho entrar no elevador e dar-lhe bom dia. Ou uma pessoa pedir algo dizendo por favor e depois acrescentar muito obrigado."

"Milagre brasileiro dos maiores seria entrarmos em um apartamento e descobrirmos um monte de malas repletas de dinheiro e um cartãozinho avisando: Com o amor de sua mãezinha. Gaste com moderação."

Bom ano para vocês todos. Se for realmente bom será um imenso milagre brasileiro, como jamais se viu em 517 anos.

Ignácio de Loyola Brandão

domingo, 14 de janeiro de 2018

Canção de ninar gente grande em voz de anjo

O encanto da vida

Resultado de imagem para mundo violentoTodas as noites acordado até desoras, à espera da última cena de pancadaria num jogo de futebol, do último insulto num debate parlamentar, do último discurso demagógico num comício eleitoral, da última pirueta dum cabotino entrevistado, da última farsa no palco internacional. Crucificações masoquistas, que a prudência desaconselha e a imprudência impõe. Vou deste mundo farto de o conhecer e faminto de o descobrir.

Mas não há perspicácia, nem constância de atenção capazes de lhe prefigurar os imprevistos. O que acontece hoje excede sempre o que sucedeu ontem. A violência, o facciosismo, a ambição de poder, a crueldade e o exibicionismo não têm limites. Felizmente que a abnegação, a generosidade e o altruísmo também não. E o encanto da vida é precisamente esse: nenhum excesso nela ser previsível. Nem no mal nem no bem. E não me canso de o verificar, de surpresa em surpresa, à luz dos acontecimentos.

Quando julgo que estou devidamente informado sobre o amor, sobre o ódio, sobre a santidade, sobre a perfídia, sobre as virtudes e os defeitos humanos, acabo por concluir que soletro ainda o a-bê-cê da realidade. Cabeçudo como sou, teimo na aprendizagem. Hoje fizeram-me a revelação surpreendente de que um avarento meu conhecido, que durante muitos anos procedeu como tal e, como tal, o tratei sempre de pé atrás, generosa e secretamente subsidiava um asilo de infância desvalida.

Miguel Torga, in "Diário (1993)"

Não sou racista, minha obra prova

Se os rapazes que roubaram a imagem da Globo e a vazaram na internet tivessem me abordado, naquela noite de 8 de novembro de 2016, eu teria dito a eles a mesma coisa que direi agora: "Aquilo foi uma piada —idiota, como disse meu amigo Gil Moura—, sem a menor intenção racista, dita em tom de brincadeira, num momento particular. Desculpem-me pela ofensa; não era minha intenção ofender qualquer pessoa, e aqui estendo sinceramente minha mão."

Sim, existe racismo no Brasil, ao contrário do que alguns pretendem. Sim, em razão da cor da pele, pessoas sofrem discriminações, têm menos oportunidades, são maltratadas e têm de suportar humilhações e perseguições.

Resultado de imagem para racismo brasileiro charge

Durante toda a minha vida, combati intolerância de qualquer tipo —racial, inclusive—, e minha vida profissional e pessoal é prova eloquente disso. Autorizado por ela, faço aqui uso das palavras da jornalista Glória Maria, que foi bastante perseguida por intolerantes em redes sociais por ter dito em público: "Convivi com o William a vida inteira, e ele não é racista. Aquilo foi piada de português."

Não digo quais são meus amigos negros, pois não separo amigos segundo a cor da pele. Assim como não vou dizer quais são meus amigos judeus, ou católicos, ou muçulmanos. Igualmente não os distingo segundo a religião —ou pelo que dizem sobre política.

O episódio que me envolve é a expressão de um fenômeno mais abrangente. Em todo o mundo, na era da revolução digital, as empresas da chamada "mídia tradicional" são permanentemente desafiadas por grupos organizados no interior das redes sociais.

Estes se mobilizam para contestar o papel até então inquestionável dos grupos de comunicação: guardiães dos "fatos objetivos", da "verdade dos fatos" (a expressão vem do termo em inglês "gatekeepers"). Na verdade, é a credibilidade desses guardiães que está sob crescente suspeita.

Entender esse fenômeno parece estar além da capacidade de empresas da dita "mídia tradicional". Julgam que ceder à gritaria dos grupos organizados ajuda a proteger a própria imagem institucional, ignorando que obtêm o resultado inverso (o interesse comercial inerente a essa preocupação me parece legítimo).

Por falta de visão estratégica ou covardia, ou ambas, tornam-se reféns das redes mobilizadas, parte delas alinhada com o que "donos" de outras agendas políticas definem como "correto".

Perversamente, acabam contribuindo para a consolidação da percepção de que atores importantes da "mídia tradicional" se tornaram perpetuadores da miséria e da ignorância no país, pois, assim, obteriam vantagens empresariais.

Abraçados a seu deplorável equívoco, esquecem ainda que a imensa maioria dos brasileiros está cansada do radicalismo obtuso e primitivo que hoje é característica inegável do ambiente virtual.

Por ter vivido e trabalhado durante 21 anos fora do Brasil, gosto de afirmar que não conheço outro povo tão irreverente e brincalhão como o brasileiro. É essa parte do nosso caráter nacional que os canalhas do linchamento —nas palavras, nesta Folha, do filósofo Luiz Felipe Pondé— querem nos tirar.

Prostrar-se diante deles significa não só desperdiçar uma oportunidade de elevar o nível de educação política e do debate, mas, pior ainda, contribui para exacerbar o clima de intolerância e cerceamento às liberdades –nas palavras, a quem tanto agradeço, da ministra Cármen Lúcia, em aula na PUC de Belo Horizonte, ao se referir ao episódio.

Aproveito para agradecer o imenso apoio que recebi de muitas pessoas que, mesmo bravas com a piada que fiz, entenderam que disso apenas se tratava, não de uma manifestação racista.

Admito, sim, que piadas podem ser a manifestação irrefletida de um histórico de discriminação e exclusão. Mas constitui um erro grave tomar um gracejo circunstanciado, ainda que infeliz, como expressão de um pensamento.

Até porque não se poderia tomar um pensamento verdadeiramente racista como uma piada.

Termino com um saber consagrado: um homem se conhece por sua obra, assim como se conhece a árvore por seu fruto. Tenho 48 anos de profissão. Não haverá gritaria organizada e oportunismo covarde capazes de mudar essa história: não sou racista. Tenho como prova a minha obra, os meus frutos. Eles são a minha verdade e a verdade do que produzi até aqui.

William Waack

Imagem do Dia

Outras Paisagens Espetaculares 15

Acabou-se a pouca vergonha

As orações dos bons cidadãos foram atendidas: o Brasil promove amplo combate à pobreza (os pobres estão perdendo por 7x1), o Governo tirou milhões da miséria (milhões devidamente embolsados por cidadãos que já estiveram acima de qualquer suspeita), e acabou-se de uma vez a pouca vergonha em Brasília, pois a pouca vergonha que existia já não existe mais.

O caso da nomeação de Cristiane Brasil para o Ministério do Trabalho é um fim de feira. E não apenas pela escolha para o Trabalho de uma pessoa já condenada duas vezes em processos trabalhistas: o pior é a entrega pública de um Ministério a Roberto Jefferson, proprietário do PTB e pai de Cristiane. Jefferson prestou um serviço inestimável ao Brasil ao revelar o Mensalão. Mas, para se vingar de José Dirceu, a quem acusava de ter-lhe prometido um pixuleco mais gordo que o efetivamente entregue, Jefferson revelou seus próprios e abundantes ilícitos – tantos que, apesar da delação, foi para a cadeia, de onde saiu há pouco tempo. É ele que manda num dos ministérios. E, para agradá-lo, Temer luta na Justiça para nomear sua filha.


Temer, político experiente, sabe que isso pega mal. Mas quer garantir os votos do PTB para a reforma da Previdência. O problema é que a compra dos votos dos parlamentares mais compreensivos já chegou a tal custo que talvez a reforma da Previdência, economicamente, não valha mais a pena.

Tem mais. Hoje, esta coluna inteira mostra o fim da pouca vergonha.

No Executivo...


O projeto de Orçamento de 2018 enviado pelo Governo ao Congresso prevê R$ 17.818,00 para o Gabinete da Vice-Presidência. Ocorre que o Brasil não tem vice-presidente e não o terá antes de 2019. Verba para que?

O Orçamento prevê também R$ 197,7 milhões para auxílio-moradia da Justiça do Trabalho. O Itamaraty, com 255 postos diplomáticos espalhados pelo mundo, tem menos: R$ 188,534 milhões. Segundo o bem-informado colunista Cláudio Humberto (www.diariodopoder.com.br), de Brasília, a Justiça do Trabalho, sozinha, custa mais do que toda a Justiça americana. A população dos Estados Unidos é 50% maior que a do Brasil.

...no Judiciário...


A Justiça trabalhista se esforça para manter-se à frente. O Tribunal Superior do Trabalho está comprando togas, becas e capas novas para seus dez ministros. São togas de gala, togas de serviço, os dois tipos com nomes bordados na parte interna, dez de cada; dez becas de secretário; 50 capas de serventuários; 30 conjuntos de jabor e punhos (os “punhos de renda”), com formato e comprimento sob medida. Valor da licitação: R$ 40 mil.

...na Justiça Eleitoral...

Coisa fina: a empresa Flextronics foi contratada pelo Tribunal Superior Eleitoral para desenvolver a impressora que, acoplada à urna eletrônica, imprima os votos, dificultando fraudes. Algumas curiosidades: dois centros de excelência de tecnologia avançada, o IME, Instituto Militar de Engenharia, e o ITA, Instituto Tecnológico de Aeronáutica, se colocaram à disposição do TSE para desenvolver o projeto, a preço de custo; o TSE contratou a Flextronics, sem licitação.

A Flextronics investiu no projeto dinheiro do TSE, R$ 7,5 milhões, para depois vender este projeto ao próprio financiador. As urnas serão 30 mil, quando seriam necessárias, por lei, 600 mil. E quem ganhou a licitação para vender as impressoras? Pois é: a Smartmatic, a empresa de origem venezuelana que já fornecia ao Brasil.

...no Congresso...

Diz o artigo 57 da Constituição Federal, a Constituição Cidadã: “O Congresso Nacional reunir-se-á, anualmente, na Capital Federal, de 2 de fevereiro a 17 de julho e de 1º de agosto a 22 de dezembro. Parágrafo 1º: As reuniões marcadas para essas datas serão transferidas para o primeiro dia útil subsequente, quando recaírem em sábados, domingos ou feriados. ” Só que não: 2 de fevereiro cai na sexta, e o retorno dos parlamentares, após as férias de fim de ano, deveria ocorrer no dia 5. Mas dia 13 é terça-feira de Carnaval. Dia 19 é segunda, e trabalhar na segunda é para quem não tem foro privilegiado nem auxílio-moradia. Os primeiros a voltar, portanto, chegarão ao Congresso no dia 20. A maioria volta mesmo é no dia 21.

...e os candidatos?

A equipe de Lula está convencida de que ele não será candidato apenas se não quiser. Se o recurso contra a sentença de primeira instância, que o condenou a nove anos e meio de prisão, for negado, ele cai na Lei da Ficha Limpa e não pode ser candidato; e pode ser preso imediatamente. Mas não é bem assim. O ótimo repórter Gabriel Manzano, no O Estado de S.Paulo, apurou cada uma das hipóteses – inclusive a pior para Lula, ser derrotado por 3x0. Os recursos no tribunal podem levar seis meses; e ainda pode recorrer ao STJ e Supremo. Se disputar a eleição e ganhar, quem o segura?

Quanto a Bolsonaro, disse a uma repórter que usava o auxílio-moradia, tendo casa em Brasília, para comer gente. Perdeu-se na primeira pergunta.

A quinta morte da democracia

Examinando as condições de atraso econômico e assustadora pobreza na virada do século 19 para o 20, Euclides da Cunha escreveu que o Brasil era um país “condenado à civilização”. Não tínhamos como ficar parados, nem como andar devagar. Precisávamos andar rápido e a direção só poderia ser a do progresso e da paciente edificação de instituições.

Adepto da filosofia positivista, à qual não faltava certo viés autoritário, Euclides não percebeu que uma parte do problema já estava encaminhada desde 1824. É mais que óbvio: insistir no absolutismo herdado do período colonial ou resvalar para o caudilhismo hispânico seria o caminho mais curto para recairmos na fragmentação e na desordem. O Estado constitucional e seu corolário, o sistema representativo de governo, amenizavam as tensões e delineavam um futuro – esse a que hoje denominamos democracia. Na última década daquele século, não fora o gênio de Rui Barbosa, é muito possível que tivéssemos sucumbido a um cenário extremamente destrutivo.


Resultado de imagem para democracia charge

Num breve apanhado retrospectivo, podemos dizer que a morte da democracia representativa foi anunciada pelo menos cinco vezes desde o início da República, e apresso-me a esclarecer que os respectivos argumentos ocorreram em muitos países, inclusive no sul da Europa, e que não os subestimo: não é minha intenção caricaturá-los.

A primeira morte foi concebida como um caso de mortalidade infantil. Os mecanismos institucionais da democracia – eleições, partidos, parlamentos – não se conseguiriam “desprender” do poder privado dos fazendeiros, chefes e mestres da política de campanário. A proveniência desse argumento era basicamente protofascista, mas o próprio Sérgio Buarque de Holanda o situou entre as principais “raízes do Brasil”. Para os povos latinos, ele escreveu, é difícil imaginar normas gerais pairando sobre nossa cabeça. A hidra do passado colonial deglutiria as nascentes democracias tão facilmente como uma sucuri deglute um cachorrinho poodle.

O segundo atestado de óbito veio nos anos 30, agora com uma nítida declaração de origem fascista. A democracia liberal, dizia-se, era plausível enquanto se restringia a rusgas entre partidos – que, afinal, não passavam de pequenos grupos de notáveis provincianos – para decidir quem nomeava o agente local dos correios. Naquela quadra, escreveu Francisco Campos, o solitário autor da Constituição ditatorial de 1937, o liberalismo concebeu o mundo político segundo a imagem da esgrima forense. Mas o advento do capitalismo industrial elevou dramaticamente o nível dos conflitos, transformando-os em enfrentamentos mortais entre o capital e o trabalho. Nessa nova sociedade, sentenciou, só haveria lugar para “governos fortes”.

Depois da 2.ª Guerra Mundial, em todo o mundo a palavra-chave passou a ser “desenvolvimento”. O problema com a democracia seria sua incapacidade de cumprir certos “pré-requisitos”. Ela só seria possível em sociedades que previamente se houvessem adiantado economicamente, que contassem com uma população homogênea e altamente escolarizada, e assentadas sobre um robusto consenso nacional. Pior ainda, a democracia seria incompatível com o “planejamento”, a nova panaceia econômica. Hoje é fácil perceber que essa nova elucubração se esquecia de um pequeno detalhe. A democracia não foi inventada para as sociedades desfrutarem condições ideais após haverem superado cabalmente os seus conflitos, mas para que pudessem (e possam) equacioná-los com o mínimo possível de violência, dentro de um marco institucional justo e acessível a todos os grupos relevantes.

A quarta morte da democracia foi atestada no contexto do conflito Leste-Oeste, principalmente pela voz dos ideólogos marxistas. Sua sentença de morte estaria embutida na rápida ascensão e na superioridade tecnológica da economia planificada de tipo soviético. Até Isaac Deutscher, um homem culto, chegou a escrever isso. Antonio Gramsci fez um arranjo dessa peça para soprano ligeiro: o socialismo triunfará no campo da cultura, sem necessidade de recorrer a uma revolução sangrenta.

Mais complicada, até porque ainda se apresenta de uma forma nebulosa, é a quinta morte. O que se diz atualmente é que a democracia representativa é incompatível com a sociedade de hoje, na qual já não se discernem classes sociais, mas sim uma infinidade ameboide de grupos, movimentos, conselhos, etc. O caos passou a ser a norma. Nesse quadro, o representante não sabe a quem representa e a própria noção de representação perde o sentido.

Ou seja, o mundo atual é um caos permanente, indefinível, cujos contornos ninguém se atreve a tentar descrever. Que tipo de governo conseguirá mantê-lo sob controle? O chinês, no qual o Partido Comunista controla com mão de ferro um capitalismo selvagem? A democracia dita direta, reminiscente do anarquismo, em que a bondade humana substitui a “mão invisível” de Adam Smith? Uma Venezuela em escala cósmica? Ou, quem sabe, uma regressão ao pretorianismo romano, como no reinado de Cômodo, no qual mercenários leiloavam seu apoio ao imperador? Claro, com uma pequena diferença: os mercenários de hoje não portariam precárias adagas como as daquele tempo, e sim vistosos AK-47.

Não subestimo nenhuma dessas hipóteses, mas penso que o problema é bem outro. Na história das democracias, o fator preponderante nos retrocessos e rupturas sempre foi a falta de convicção das elites, sua falta do mais elementar bom senso e sua covardia quando o exercício da autoridade governamental se fez necessário. A República de Weimar e o Brasil de 1961-64 são bons exemplos. Por tudo isso, dói constatar que o Brasil ainda não se livrou em definitivo do populismo e de uma classe política virtualmente desprovida de responsabilidade pública.

Gente fora do mapa

Village Well - Thar Desert, India ♡ ✦ ❤️ ●❥❥●* ❤️ ॐ ☀️☀️☀️ ✿⊱✦★ ♥ ♡༺✿ ☾♡ ♥ ♫ La-la-la Bonne vie ♪ ♥❀ ♢♦ ♡ ❊ ** Have a Nice Day! ** ❊ ღ‿ ❀♥ ~ Thur 27th Aug 2015 ~ ❤♡༻ ☆༺❀ .•` ✿⊱ ♡༻ ღ☀ᴀ ρᴇᴀcᴇғυʟ ρᴀʀᴀᴅısᴇ¸.•` ✿⊱╮

Corrupção, sistema de governo

Os estrangeiros ficam abismados quando ouvem as notícias sobre a corrupção no Brasil. Seria também para ao menos indignar os daqui. No entanto há a naturalidade da complacência de milhões ainda acreditando na fatalidade brasileira de ser corrupto no DNA. Tudo muito bem regado pelas insistentes teses de que corrupção é um produto autenticamente nacional com selo do Innetro.

Não é. Corruptos, somos todos desde Adão, mas há limite quando se tem moral ou, no máximo, justiça com maiúscula. Sem um pingo de vergonha, o Brasil criou sua institucionalização e exportação, em particular para os vizinhos e até para Cingapura, um dos países com menor índice desse crime. Fez da corrupção moeda nacional com que principalmente governos, políticos e instituições negociam a própria sobrevivência com dinheiro público. Em suma, tornou a criminalidade privilegiada um sistema governamental, o que deixa todo o mundo lá fora de boca aberta. 

Resultado de imagem para brazil cartoon corruption

Os níveis da corrupção nacional extrapolaram. Em nenhum país há tanta enraizada principalmente nas instituições públicas. Entra pela portaria e sobe até o gabinete do ministro; frequenta até porão palaciano sob nome falso. E incrivelmente apenas deixa todos atordoados, mas sem reação. 

Não é à toa que em recentes manifestações contra o governo de Macri, em Buenos Aires, foram vistos cartazes com dizeres de "Aqui não é o Brasil". Uma verdade indiscutível que aqui não provocou nenhuma repercussão, ou se aconteceu foi ínfima. Os argentinos não se acomodam, como praticamente todos os outros sul-americanos. Apenas o brasileiro, tão bonzinho, se curva e toca a vida como se roubar o que lhe toca não é motivo para sair no tapa ou no mínimo berrar nas esquinas. E isso põe estrangeiro arrepiado de não ver o Brasil mostrar que é um Estado, mas apenas um amontoado sob a égide criminosa.
Luiz Gadelha

A nova Inquisição

Lectura Animada. Ilustración de Robert Neubecker.
Vejo surgir um clima de inquisição, em que cada um vigia seu vizinho, como acontecia nos regimes soviéticos, e depois o denuncia nas redes sociais. Todos os cantos da sociedade estão sob vigilância, incluindo nossa esfera íntima
Catherine Millet, autora de 'A Vida Sexual de Catherine M."

Pelo em ovo, procura-se. Para fugir do tema principal

São diálogos surdos, discussões estéreis. Beiram o ridículo porque não há argumentos, só contrapontos de ataques. Entendi. O que se quer é brigar. Não é resolver nada, nem conversar civilizadamente. Cada um puxa a sardinha para o que melhor lhe convém. Antigamente chamávamos isso de tirar uma sardinha…

Mais especificamente “tirar a sardinha com a mão do gato” – tentar obter vantagem com o esforço de outra pessoa. Juro, nunca vi tanta gente entendida em feminismo, assédio, violência contra a mulher, etc. etc. Quem dera fosse verdade e houvesse mesmo tantos homens e mulheres preocupados com o assunto, tão claramente exposto para quem quiser enxergar. Chega de abusos, chega de assédio. Exigimos respeito. #timesup. Acabou esse tempo. Faz tempo, embora pareça que isso aconteceu só por esses dias. A luta é antiga.

E assédio é assédio – “insistência impertinente, perseguição, sugestão ou pretensão constantes em relação a alguém”. Assédio não é paquera. Assédio não é sedução. Há uma enorme distância entre as coisas. Aqui, na França, nos EUA, na Cochinchina. Todo mundo sabe disso, sempre soube. Então porque essa chatice, esse desvio de debate? Sobrou até para o fiu-fiu dos operários nas construções, como se eles fossem grandes produtores e diretores de cinema, grandes empresários fazendo contratações; sobrou para todo mundo foi uma enorme confusão.

Que loucura. Com lances de guerra diplomática entre mulheres americanas e francesas, quando ambos os lados obviamente expõem o problema de forma absolutamente clara, complementar, mulheres importantes, vestidas de negro ou não, negras ou não, belas ou feias, estrelas ou não. Estão fazendo o que melhor podem e sabem fazer: dando publicidade a um assunto muito doloroso, do qual pouco se falava publicamente, e que muito mais do que a metade da população já sofreu. Ou vocês pensam que são só as mulheres que enfrentam assédio? Homens, não? Não sabem o que ocorre, por exemplo, no meio gay? Sabem sim, só não querem é tratar com seriedade.

Querem brigar. Opinar nas redes sociais, que ficam cada dia mais chatas por causa dessas coisas. Acham bonitinho ser do contra. Chamar de feminazi as mulheres que denunciam, que vêm a público, que abrem as cortinas sobre o que antes era apenas velado, apoiado como “normal”, “acontece no meio artístico”: o teste do sofá, as promessas, os convites, o aproveitamento de momentos frágeis, a imposição do silêncio. A concorrência entre as pessoas usando o sexo como arma.

Estou vendo mulheres que até considerava interessantes caindo nessa esparrela. Passei a vida até agora aguentando aquela frase bobagem – sou feminina, não feminista – dita com a boca cheia de um orgulho ignorante de ambas as coisas.

Agora chega. Quero ver o assunto ser, sim, discutido, mas seriamente.

E seriamente quer dizer com providências. Em cima da terrível realidade. Contra o absurdo e crescente assassinato de mulheres, violência dentro de casa, falta de proteção do Estado que cria leis, mas não as cumpre. Pela proteção e assistência real às vítimas de estupro, contra a prostituição infantil, por informação e conscientização que chegue às mulheres de todas as classes sociais, para que possam, inclusive, proteger as suas crianças.

Cartas na mesa. O mundo real está aí diante de nossos olhos. Não venham com absurdos como o daquele grupo teatral de Florença, na Itália, que teve a audácia de vangloriar mudar o final da consagrada ópera Carmen, de Georges Bizet. Na versão deles, para “não aplaudir a violência contra a mulher”, a cigana Carmen que nos fascina há mais de 140 anos não é morta pelo seu ciumento José. Mas será ela que irá matá-lo. Resolveram a questão?

Não pode ser séria essa gente. Isso é tirar sardinha. Teatral, hein? Mudar no papel, no roteiro, parece fácil. Queremos ver é mudar a realidade.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Imagem do Dia

Meteora, Grécia
Meteora (Grécia)

A permanente precariedade das escolas brasileiras

Sebastião Nunes escreveu, em 2006, neste jornal, sobre a educação brasileira, citando Johann Jakob von Tschudi para analisar nossas escolas, que chocam quem se preocupa com a qualidade do ensino e suas implicações sociais.

Esse naturalista suíço manifestou, em meados do século XIX, preconceito sobre os habitantes deste país, mas registrou admiração quanto às proposições do Império, pois a Constituição de 1824 determinava, no inciso XXXII do artigo 179, que o ensino primário gratuito seria oferecido a todas as crianças. Era um avanço para aquela época, mesmo diante dos países europeus. Não tínhamos, entretanto, um sistema educacional consolidado, porque os portugueses não propiciavam acesso à instrução para preservar sua colônia mais importante. Mesmo assim, uma lei de 15 de outubro de 1827 exigia a criação de escola em qualquer cidade, vila e povoado para que o futuro fosse promissor para todos os súditos.

Resultado de imagem para escolas precárias no brasil

A tradição cartorial falou mais alto, nos anos seguintes, pois aquela prescrição compunha as seis Cartas subsequentes, mas o Estado não se mobilizou para universalizar o ensino até os anos 1960. Ele apenas iniciou a expansão das vagas escolares, sem oferecer, todavia, os recursos humanos e materiais correspondentes. Isso implicou perda na qualidade da educação, exceto pelo esforço fugaz de poucas prefeituras e alguns Estados. Colhemos, então, atualmente, os frutos desse descalabro, que aumentou com a ampliação da rede particular do ensino decorrente da equivocada política educacional de um expoente da intelectualidade brasileira, o presidente Fernando Henrique Cardoso, e com o acesso às universidades públicas pelo sistema de cotas para minorias sociais.

Há muitas evidências de que concluintes do ensino médio não interpretam nem redigem com propriedade, não dominam as operações matemáticas básicas e desconhecem conceitos básicos de geografia, história e ciências. Essas carências têm exigido que professores universitários criem cursos de nivelamento no ensino superior para desenvolver os programas do currículo mínimo; mesmo assim, muitos graduados saem da faculdade sem a preparação adequada ao mercado de trabalho. Há, a cada geração, uma “progressão para trás”, pois as mais importantes universidades têm recebido candidatos ao mestrado e ao doutorado que não se expressam com propriedade em sua área de conhecimento. Assim, muitos diplomados escancaram nossa tradição cartorial quanto à importância de certificados sem a correspondente qualificação de seus portadores, que não se mantêm em seu ofício, indo para ocupações inferiores.

Enquanto isso, as autoridades fazem discursos sobre seu compromisso com a educação e adquirem equipamentos ao gosto de fornecedores. Não tomam providências, entretanto, para que as escolas melhorem, mesmo quando têm notícias dos avanços obtidos pela Coreia do Sul, Finlândia e Irlanda. São os exemplos mais recentes de crescimento espetacular na economia e na qualidade de vida da coletividade.

O povo que não chora

Charge O Tempo 13/01/2018

Começava Patrocínio a ser hostilizado pelos propagandistas da República, que o acusavam de haver abandonado as suas fileiras, lisonjeado pelo beijo que a Princesa dera no seu filho pequeno, quando, num "meeting", o grande abolicionista tentou falar.

- O Brasil... - ia começando, quando se deteve.

Atribuindo aquela pausa a um estado de decadência, a multidão começou a rir. Patrocínio olhou-a, do alto, e continuou:

- O Brasil... que somos nós?

Silêncio absoluto.

- Sim; que somos nós? - tornou.

E formidável:

- Somos um povo que ri, quando devia chorar!
Coelho Neto, Discurso na Academia Brasileira de Letras

O ano das grandes mentiras

Prepare-se, caro leitor: estamos prestes a entrar em um disputado campeonato de mentiras. No plano político, naturalmente. Não bastassem os caudalosos esquemas de enganação com desvios bilionários, na surdina, do dinheiro público que foi parar no bolso de corjas de larápios partidários. Não fossem suficientes as promessas de campanha de 2014, jamais cumpridas e edulcoradas por filmes que mostravam o paraíso para depois entregar o inferno. Não sobrassem demonstrações de que alguns malfeitores do passado tentarão tudo de novo. Teremos agora talvez a maior e mais perigosa temporada eleitoral movida a “fake news” da história do País. A notícia falsa será desta vez uma arma letal, sem dúvida, e talvez determinante. Tal qual ocorreram nos EUA que produziram Trump e no Brexit da Inglaterra. Espalhar falsas informações para colher simpatizantes não é exatamente um expediente inédito. Mas deverá assumir proporções gigantescas e assustadoras nesta que já é chamada de “A era da pós-verdade”. Com o agravante de que, por aqui, ainda não entrou em vigor qualquer marco legal para coibir diretamente o fenômeno – verificado com maior frequência nas redes sociais. As fake news viraram uma praga.

Resultado de imagem para promessas políticas charge

Autoridades tentam controlar a moléstia a qualquer custo. Na Alemanha passou a valer, desde o início do ano, uma lei que obriga mídias digitais a retirarem imediatamente de seu ambiente conteúdos que pregam o ódio e trazem falsas informações, sob pena de multas pesadas. A França quer ir além. O presidente Emmanuel Macron fala inclusive em prisão daqueles que difundirem as chamadas fake news. Projeto de lei nesse sentido entrou no Parlamento e almeja também maior agilidade e eficiência no julgamento dos casos. No Brasil o faroeste da lorota segue em franca expansão. O ministro Luiz Fux, que assume o Tribunal Superior Eleitoral no mês que vem, tenta colocar ordem na casa. É favorável ao bloqueio de bens e a detenção dos infratores que propagam inverdades para angariar vantagens nas urnas. Medida que prevê cadeia por mais de dois anos aos autores de fake news chegou ao Congresso, mas ali se arrasta, sem votação, por motivo óbvio: falta disposição parlamentar para legislar contra o próprio interesse. Seria “prejudicial” a muitas campanhas dos políticos nativos um controle firme das fake news.

A despeito da resistência, a Polícia Federal arma uma força-tarefa com esse intuito. Já mobilizou um grupo comandado por três delegados e um perito que vai atrás de quem sucumbir ao crime. A erradicação total do problema só deverá ocorrer, de verdade, quando cada um dos internautas se precaver. Mudar hábitos. Para começar, é preciso ficar atento à cartilha de procedimentos: não aceitar e não disseminar a primeira notícia que lhe chegar às mãos de origem duvidosa. Mesmo que ela atenda a seus interesses ou desejos. Não se faz valer uma ideia dessa maneira, ludibriando. No plano da desinformação só existem equívocos. Erros que cobrarão seu preço lá na frente. No geral, diferentes pontos de vista não podem significar diferentes fatos. Viram versões. Evoluem para deturpações. É preciso consultar. Fazer checagem. Buscar fontes seguras. Tais cuidados teram de se tornar rotina. Do contrário iremos assistir mais e mais vítimas caindo no grande conto do vigário. Inclusive você. Nunca é demais lembrar que as eleições americanas ficaram seriamente comprometidas quando mais de 100 sites a favor de Trump foram criados na Macedônia, de onde eram disparados diariamente vídeos e notícias inventadas para dar corpo a sua candidatura. Na mais célebre das mentiras plantadas ali, veiculou-se que o Papa Francisco e o Vaticano apoiavam Trump. Foi o bastante para que uma penca de republicanos conservadores ainda hesitantes logo tomasse partido a favor do empresário. Deu no que deu. As fake news estão no ar e todo o cuidado é pouco.

Gente fora do mapa

Brasil: a imperfeita separação dos poderes

O grande autor austríaco Stefan Zweig, que se refugiou no Brasil — onde se suicidou — escreveu um belíssimo romance intitulado A Confusão dos Sentimentos em que conta a história de um rapaz desorientado que se sente atraído, ao mesmo tempo, por seu professor de literatura e por sua jovem mulher. O romance trata admiravelmente da ambiguidade do relacionamento nesse ménage à trois, e das alternâncias nas relações de dominação que os ligam.

A analogia do romance de Zweig com a situação no Brasil pode parecer um pouco forçada, pelo contexto, pelas diferenças entre situações individuais e situações coletivas, pelas consequências. Mas a semelhança, parece-me, não é tão absurda tendo em vista que, em ambos os casos, instaura-se o caos. No caso do romance de Zweig, trata-se de caos na vida e na alma de três pessoas, levando-as a extremo sofrimento. No caso do Brasil, o caos político, judiciário e econômico leva igualmente a extremo sofrimento, só que não mais para um único indivíduo, mas para toda uma sociedade.

Resultado de imagem para separação dos poderes charge

A extrema “confusão” ora prevalecente no Brasil não deixa de vir também dos sentimentos. É, entre outros, fruto do total desrespeito ao princípio fundamental em que se apoiam as democracias, ou seja, o da separação dos três poderes. Por mais simbólica que seja a praça de Brasília que leva esse nome, rodeada que é pelo Palácio do Planalto, sede do Executivo, pelo Congresso, onde se deveria legislar, e pelo templo da justiça, o Supremo Tribunal Federal, é apenas um símbolo. Em nosso país, vivemos uma situação na qual o Judiciário legisla, o Executivo julga e o Legislativo executa. E onde, da mesma forma, o Executivo entra em choque com o Legislativo, que por sua vez, se acha competente para desfazer sentenças judiciais.

Há vários exemplos recentes dessa confusão. O que mais chamou a atenção talvez tenha sido o decreto de indulto que saiu do Palácio de Planalto às vésperas do Natal. Menos daninho porque menos abrangente, mas igualmente escandaloso, foi a interferência do legislativo carioca na ordem de prisão do seu presidente e de dois de seus comparsas. Há ainda o caso, desta vez dentro do mesmo poder mas em instâncias diferentes, do ministro do Supremo que manda soltar um amigo seu condenado em 1ª instância. Esses exemplos não esgotam os casos ocorridos. São apenas os que mais chamaram a atenção por sua ousadia e pelo descaso com a opinião pública.

Recorro ao pensador francês Charles de Montesquieu, cuja obra De l’Esprit des Lois (O Espírito das Leis) permanece, passados mais de 250 anos, o grande clássico sobre a separação dos poderes. O fundamento de sua ideia relativa aos três poderes, é o de que a separação é indispensável porque, se o legislador se confunde com o executor, está aberta a porta aos nepotismos, favoritismos e à corrupção, já que existe sério risco de que o legislador formule e aplique leis que lhe sejam mais favoráveis. Se o executivo se confunde com o juiz, como controlar as decisões que dele emanam?

Acredito que se Montesquieu pudesse ver o que está-se passando no Brasil do século XXI, felicitar-se-ia pela sua clarividência. Nossa situação é a prova contrario sensu da absoluta necessidade de se respeitar a separação e a independência dos três poderes. Nos Estados Unidos, exemplo de democracia por excelência, ora testada inclusive pelo atual governo que quer livrar-se dos constrangimentos da Constituição, observa-se rigorosamente o princípio da separação dos poderes, mas existe, para evitar os abusos de poder de cada setor, o mecanismo dos checks and balances, através do qual os poderes podem controlar-se uns aos outros, dentro de suas competências. É assim que o Judiciário pode e deve controlar a constitucionalidade das leis e das ações do Executivo, que o Executivo pode vetar leis (sendo que o Congresso pode cancelar o veto por uma maioria de dois terços) e que o Congresso é competente para decidir sobre o impeachment do Executivo e sobre a alocação de recursos proposta por ele. Longe de entrar em contradição com o princípio de Montesquieu, esses checks and balances asseguram a fiel observância do papel de cada um, sob pena de advertências e sanções.

Atualmente no Brasil, a separação dos poderes se dilui na prática: o controle de um sobre as ações de outro é relativo. Há vários casos, como o da nomeação de uma ministra do Trabalho condenada em ações trabalhistas e de um diretor do Detran que perdeu a carteira por repetidas infrações às leis do tráfego. Justificativas absurdas como, por um lado, que é constitucional que o presidente nomeie quem quiser, ou, por outro, dizer que um diretor de Detran não precisa ter carteira de motorista válida, demonstram a absoluta falta de decoro e de compostura dos nossos governantes.

Nos EUA, há uma prática denominada vetting, que bem poderia ser implantada no Brasil. Antes de anunciar nomes para altos cargos do Governo, o indivíduo é investigado para que se comprove que não está envolvido em situações duvidosas. Uma espécie de “atestado de bons antecedentes”. Só depois de receber uma avaliação positiva é que o presidente ou o ministro procede à nomeação. Esse mecanismo evita os constrangimentos que estamos testemunhando agora.

Infelizmente, enquanto imperarem no Brasil, como motores da vida política, os interesses particulares, a ganância, a corrupção; enquanto não se instaurar uma austeridade absolutamente necessária para evitar que realizações inúteis e mirabolantes, mas que oferecem oportunidades políticas e de enriquecimento ilícito, se sobreponham a projetos destinados a melhorar as condições de vida no país, como são os ligados a educação e saúde, enquanto, enfim, confundam-se meios e fins, e as ações de cada poder sejam guiadas exclusivamente pelos interesses de seus integrantes e não pelo interesse público, não há como mostrar-se otimista quanto a nosso futuro institucional.

Stefan Zweig é muito conhecido no Brasil pela autoria de um livro, ao que tudo indica subsidiado pela administração Vargas, denominado Brasil, País do Futuro. A julgar pelo andar da carruagem, sempre será.

A merreca do candidato

Resultado de imagem para bolsonaro charge
O Brasil, com 14 milhões de desempregados, roubalheira bilionária, a Petrobras afundada, vocês vêm me encher o saco por causa de um auxílio-moradia de R$ 3 mil!?
Jair Bolsonaro (PSC-RJ

O par dialético

A esquerda brasileira tem uma forte tradição nacionalista, resultado da convergência de velhas concepções nacional-libertadoras e do populismo. Até o golpe de 1964, a luta contra o imperialismo era considerada mais importante do que a defesa da democracia. No governo João Goulart, por exemplo, a aliança entre comunistas, petebistas e pessedistas que levou Juscelino Kubitschek à Presidência foi rompida. A esquerda considerava um retrocesso político sua volta ao poder nas eleições marcadas para 1965, devido à sua “conciliação” com os Estados Unidos. Enquanto o líder petebista Leonel Brizola se lançava candidato a presidente (“cunhado não é parente”), o líder comunista Luís Carlos Prestes articulava a reeleição de João Goulart. A divisão do campo democrático por causa das ideias nacionalistas jogou os liberais nos braços dos setores conservadores liderados por Carlos Lacerda e Magalhães Pinto, que articulavam o golpe de Estado. Entre eles estavam, por exemplo, o próprio Juscelino e aquele que viria a liderar a campanha das Diretas Já, Ulysses Guimarães.

Resultado de imagem para desenvolvimento brasileiro charge

Com a deposição de Goulart, o então presidente da Câmara dos Deputados Ranieri Mazzilli assumiu interinamente a Presidência da República, mas a junta militar (general Artur da Costa e Silva, brigadeiro Francisco de Assis Correia de Melo e o almirante Augusto Rademaker), autodenominada “Comando Supremo da Revolução”, exigiu plenos poderes do Congresso para fazer cassações de mandatos e demitir servidores públicos. O historiador Hélio Silva conta que, em 8 de abril de 1964, um grupo de parlamentares, do qual fazia parte Ulysses, redigiu o ato constitucional a ser votado pelo Congresso para delegar esses poderes. No dia 9, porém, os militares editaram o Ato Institucional nº 1 (AI-1), que conferia poderes extraordinários ao Executivo e estipulava a eleição de um novo presidente e de um vice-presidente no prazo de dois dias. Em 11 de abril, foram eleitos indiretamente para a Presidência da República o general Humberto de Alencar Castelo Branco e, para a vice-presidência, José Maria Alkmin, indicado pela maioria do Congresso. Quatro dias depois, tomaram posse. Ulysses e outros pessedistas que apoiaram o golpe de 1964 logo romperam com os militares, sendo seguidos por políticos da antiga UDN. Juscelino e Lacerda foram cassados.

Uma parte da esquerda aprendeu a lição do golpe e passou a defender a democracia, mas outra optou pela luta armada, numa perspectiva de que a tomada de poder coincidiria com uma revolução, nos moldes da cubana. Tendo a guerra fria como pano de fundo, demorou para que os setores moderados da esquerda, como os antigos PCB, PTB e PSB, na ilegalidade, conseguissem convencer os demais de que o caminho da luta pela redemocratização do país passava pela disputa eleitoral e pelo apoio ao partido de oposição criado pelo próprio regime, o MDB, já então liderado pelo deputado Ulysses Guimarães e outros caciques pessedistas, como Amaral Peixoto e Tancredo Neves. Essa experiência de luta contra o regime militar levou a esquerda, na redemocratização, a inverter o chamado “par dialético”: a luta passou a ser democrática e nacional. Trocando em miúdos, subordinou-se o nacionalismo à defesa da democracia.

Quando a esquerda chegou ao poder no Brasil, o mundo já não era o mesmo da guerra fria. O velho colonialismo havia acabado, logo se viu o Muro de Berlim ser derrubado e a antiga União Soviética se desintegrar, enquanto a China fazia as pazes com o capitalismo. Entretanto, o nacional desenvolvimentismo continuou sendo o eixo de sua doutrina econômica, principalmente porque a nossa industrialização fora protagonizada pala presença do Estado na atividade produtiva, num acelerado processo de substituição de importações. Era uma economia autárquica, que entrou em colapso após a crise do petróleo dos anos 1970. O Estado perdeu a capacidade de financiamento e o país passou por um longo ciclo de crises e baixo crescimento, com hiperinflação no governo Sarney e recessão no governo Dilma. Somente agora a economia voltou a crescer, mas a crise de financiamento do Estado continua impondo um “voo de galinha”. Por trás da crise, há uma mudança de cenário na economia mundial, na qual o velho desenvolvimentismo não tem vez.

No governo de Fernando Henrique Cardoso, o permanente choque entre desenvolvimentistas e social-liberais na equipe econômica já havia mostrado a resiliência das ideias nacionalistas; mas foi nos governos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de Dilma Rousseff que elas dominaram a cena e demonstraram seu anacronismo em relação à globalização e às mudança tecnológicas que ocorrem no mundo. Quem acredita que o impeachment de Dilma Rousseff sepultou essas ideias está muito enganado. A recente entrevista do professor Luiz Gonzaga Beluzzo sobre a conjuntura política e econômica do país mostra bem isso. Entretanto, o nacionalismo é a bandeira das forças mais conservadoras e retrógradas da Europa e dos Estados Unidos. Aqui não é muito diferente: a aposta na democracia e na integração do Brasil à economia mundial corre perigo nas eleições de 2018.

Paisagem brasileira

Ilha Grande (RJ)

Medida de gente

No início de 2017, em uma das mais requintadas capitais da Europa, uma rica dama hospedou-se com o filho - ainda criança - e um senhor, definido como "amigo da família", em um luxuoso hotel.

Segundo consta, esta vetusta senhora atravessou toda a noite ingerindo bebidas alcoólicas - foi esta a conclusão dos funcionários do hotel, ao vê-la cambaleando pela portaria às 10h30 da manhã seguinte.

Preocupado com a segurança da criança que a acompanhava, o gerente do estabelecimento decidiu chamar a polícia. Tão logo chegaram, os agentes da lei foram exaustivamente desacatados após terem afirmado, à vista do bafo da distinta senhora, ainda trôpega, e das diversas taças de vinho vazias sobre a mesa, estar ela embriagada.

Chamada às falas em uma delegacia, ela confessou seu estado lamentável - fruto do seu inconformismo diante da notícia de que seu ex-parceiro engravidara sua melhor amiga. Disse ter ingerido nada menos que três garrafas de vinho, na companhia do amigo com o qual se hospedara.

Em função desta conduta deplorável, que expôs a risco uma inocente criança, esta rica senhora viu-se condenada por um juiz ao pagamento de uma multa em torno de R$ 2 mil. Inconformada, decidiu recorrer.

Diante de um tribunal, sustentou ter sido forçada a confessar uma embriaguez que jamais existira - afinal, não havia ingerido três garrafas de vinho, mas apenas duas taças. Esclareceu que seu andar trôpego, naquela ocasião, devia-se a um problema de contração muscular nos pés que, volta e meia, faz com que seu passo seja irregular.

Aclarou, ainda, que sua desorientação, com toda a certeza, era fruto da combinação daquelas duas taças de vinho com medicamentos antibióticos que havia ingerido. Finalmente, reforçou que seu forte bafo, digo, hálito intenso, devia-se apenas às duas taças de vinho - que a conduziram suavemente para a cama às 11 horas da noite. Seria impossível, assim, que tivesse sido surpreendida embriagada às 10h30 da manhã seguinte no saguão do hotel.

Diante de tão convincentes esclarecimentos, esta impoluta senhora foi absolvida das acusações que lhe foram imputadas - o tribunal deu-lhe razão e cancelou a pena de multa imposta.

Convicto de que o nível de uma civilização pode ser medido pelo que seus juízes decidem, fico a pensar sobre a quantas anda o da nossa.

Pedro Valls Feu Rosa

César, Lula e o Rubicão

Janeiro parece monótono. Parece, mas não é. E não será. Não gosto de abordar assuntos políticos, mas talvez se faça necessário este textinho, para alargar um pouco nosso pobre horizonte de povo com tão pobres escolhas.

O ex-presidente Lula vai atravessar o Rubicão em Porto Alegre (RS) no dia 24 de janeiro de 2018? Se sua condenação for confirmada pelo TRF4, estará proibido de concorrer?

Lula

Janeiro foi decisivo também para Júlio César. Em 49 a.C., portanto cinco anos antes de ser assassinado por seus inimigos do Senado, o famoso comandante militar e estadista romano voltava da campanha vitoriosa na Gália, mas estava proibido de atravessar o rio Rubicão, às portas de Roma.

Teve uma noite atormentada na véspera, dormiu pouco ou quase nada — a falta de sono lhe foi devastadora, ainda mais por ser epiléptico — perdeu-se à noite e no amanhecer do dia 11 viu que, seguindo um flautista que tocava uma linda música, alguns de seus homens já tinham atravessado o rio atrás do rapaz.

Num lance que definiu sua vida e a dos romanos, César reuniu suas tropas e atravessou o Rubicão citando em latim um verso de Menandro que ele tinha lido em grego: “Alea jacta est” (a sorte foi lançada). César gostava de resumir coisas complicadas a uma sentença. Na Gália dissera: “veni, vidi, vici” (vim, vi, venci). Era também muito supersticioso e viu no buliçoso movimento dos soldados um aviso para que rompesse a proibição e seguisse para conquistar o poder. Assim o fez.

Lula também o fará? Ele não lê nada e proclama não ser necessário ler nada. Mas tem uma formidável intuição, que raramente falha, como sabem aqueles que ele já derrotou. Mas inveja os saberes de FHC, que o derrotou duas vezes para a presidência da República. Entretanto FHC desejou a vitória de Lula, a quem passou a faixa, e não a de José Serra.

Deonísio da Silva:

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

A política rarefaz o ar da economia no Brasil

Meses de festas e férias, e o mormaço do verão. A vida assume outro ritmo e a política tende a ser acomodar à modorra de dezembros e janeiros. Em tese, tudo para. Só que não. A comichão se espalha e, nos bastidores, a articulações se aceleram. É ano de eleição. Num tempo normal, a perspectiva das urnas esquenta tudo, naturalmente. Numa quadra histórica como a que se vive desde 2016, mais ainda a chapa ferve, com risco de derreter. O fato é: não há férias para o desassossego; a vertigem nacional tem fluxo contínuo.

O governo vive de aflição em aflição, sabe bem que seu fim pode estar logo ali, no descontrole das contas públicas e na frustração com o crescimento. Já é tão pouco o que mantém Michel Temer vivo politicamente que qualquer desatenção pode fazer desmoronar o barranco em que se escora. O downgrade de agências de risco não surpreende, mas agrava a situação.

As lentes coloridas dos membros da equipe econômica, sempre positivas, querem enxergar algo de bom em tudo. É do seu papel. Acreditam, diz a fonte em uma notícia qualquer, que o rebaixamento será alvissareiro, pressionará deputados. Será? Pode ser também que não: aliviado pelo mal que já ocorreu — o rebaixamento veio e nada será imediatamente revertido — porque deputados teriam pressa, depois que Inês morreu? Tudo pode, então, ficar para depois, não?

***

Resultado de imagem para rebaixamento com temer charge
Temer foi alçado ao poder somente porque se comprometeu com entregáveis contratados, na economia: desarmar a bomba da ''Nova Matriz'', realizar o ajuste, retomar atividade e boas perspectivas. Implica em, pelo menos, remediar a Previdência Social, desculpa para todos os rombos. Se o presidente não serve para isto, para o que mais serviria? Ele não veio ao mundo para sanear o sistema político, instaurar a moralidade; veio só para isto.

Temer é antes o resultado do sistema; um articulador de pequenos interesses e interesses pequenos. Seu papel é conduzir o clero baixo, tanto quanto possível, para mitigar a aflição econômica de modo que, assim, a economia fizesse a paz da política, pelo menos da Lava Jato.

Para os que o apoiaram, nos mercados, a economia é uma exigência. Mas, para o governo, um imperativo, questão de sobrevivência. Contudo, nada é mesmo simples e a doença há casos em que não há remédio, além do deixar sangrar e do tempo.

O presidente se desdobra mesmo que a saúde física lhe cobre juros. Mas, a verdade é que não tem de onde tirar nada melhor do que aquilo que dispõe: a precariedade de quadros políticos em sua base — e no Brasil atual — é assustadora, de onde pode retirar recursos humanos para operar a recuperação?

Escolheu Carlos Marun como ministro da Secretaria de Governo. Deputado de um único mandato, num ambiente cheio de vícios, Marun se destacou rapidamente em razão da virtude de seus defeitos, com o perdão do paradoxo.

Crê-se que seja o quadro adequado para lidar com os recalcitrantes do governismo, temerosos em votar a reforma e ampliar o fosso com os eleitores. Por falar a língua objetiva da base, calculou Temer que melhor que os bons modos de Imbassahy seriam os maus modos de Marun. Faz sentido, mas após escorregar em rede nacional — admitir a pressão sobre governadores –, Marun recolheu-se aos bastidores, de onde, menos forte, articula as esperanças do governo.

Aliados começaram a abandonar o barco antes do que se supunha. No afã de manter a base, o governo recorreu ao apoio de Roberto Jefferson — uma espécie de Carlos Marun, dos tempos de Fernando Collor — para que indicasse o ministro do trabalho, e apertasse os nós do vínculo de seu PTB com o governo. Jefferson pariu Cristiane Brasil.

Deputada articulada e aguerrida como o pai — o próprio Jefferson — padece da mesma precariedade da base — difícil encontrar alguém sem ''poréns''. Mas, não é papel do Judiciário definir quem o Executivo pode ou não pode nomear ministro. Parece uma interferência indevida, quase um troco, uma desforra.

Todavia, renegar dívidas trabalhistas, já julgadas em última instância, pega mal para um ministro do Trabalho. Ser acusado por gente simples, motoristas e domésticas, arranha tanto a reputação quanto a de um dentista com cárie e banguela. Argumentos em sua defesa, como os do deputado Beto Mansur — ''se for assim, o ministro da Saúde não pode fumar, o dos Transportes, não pode ter multa''— , são, sinceramente, patéticos.

***

Enquanto o governo fica assim nessa água malparada, esperando fevereiro chegar, a fragmentação eleitoral corrói a base e aprofunda a desinteligência. Já há pelo menos três candidatos que se reivindicam da autodenominado ''centro democrático'' em que o governo diz estar; disputas se acirram e, assim, se desvia o governo de sua pauta.

Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles e Rodrigo Maia se preparam para consumirem-se mutuamente. Buscam demonstrar que são capazes de reunir melhores times que os demais; já insinuam formar ministérios. Faz sentido, procuram atrair setores da elite e do empresariado, no primeiro momento. O diabo, porém, será conquistar a massa — no momento seguinte.

Pelo menos para Alckmin e para Meirelles, o caminho pode não ter volta: para ambos, a eleição de 2018 será a última oportunidade de realizar o sonho da Presidência, que acalentam há anos. Não é fácil renunciar a sonhos. Já para Maia, pode se tratar de cavalo que passa encilhado, como descartar? O deputado percebeu que em política, o poder é destino; há de virar o rosto se a sorte lhe sorri?

Quem abriria mão em nome de quem? Em 1989, Ulysses Guimarães, Aureliano Chaves e Mário Covas não chegaram a qualquer acordo; fragmentaram o centro, abriram espaços para Collor, Lula e Brizola. Nenhum deles conseguiu atrair o outro, tornar-se ponto de confluência de múltiplas forças políticas. E, note-se, eram quadros mais vividos, mais respeitados politica e intelectualmente, mais sagazes e credíveis que os atuais.

A saída para aglutinar o campo governista seria mesmo a natural atração que um governo bem resolvido e bem-sucedido, naturalmente, possui. Mas, esse não parece ser o caso. Voltamos às agruras de janeiro e fevereiro, mencionadas acima. E se fosse o caso — ou improvavelmente vier a ser — porque seria um deles e não o próprio Temer o candidato?

Vive-se, então, certo impasse e assim será pelo menos até abril, até que aos poucos tudo se defina (ou não), já a partir de 24 de janeiro, quando o ex-presidente Lula será julgado pelo TRF da 4a. Região. Enquanto isso, no mormaço de verão, o sol arde, a chuva cai. As cidades param por entre carros engarrafados ou sob águas que brotam dos bueiros. Não há brisa, a febre amarela reaparece. O bafo suspeito do futuro rarefaz o ar.

Carlos Melo

As brumas de janeiro

Viajaram todos no réveillon, fiquei só em casa, com uma delicada missão: acalmar os quatro gatos durante os 17 minutos dos fogos em Copacabana. No fim, deu certo. Vieram todos para a minha cama, redobrei a atenção com uma delas que tem o hábito de fazer xixi fora do lugar, quando contrariada. Nessa breve semana de férias, constatei que em 2018 vou trabalhar mais ainda. São as circunstâncias. Minha pergunta é esta: que tipo de qualidade necessito para encarar as novas tarefas?

Para fazer mais e melhor, destaco sempre uma delas, que nem sempre me acompanha, na trajetória agitada: concentração. Costumo levar na mochila um velho livro do sexto patriarca da Escola do Sul: Hui Neng, um sábio budista. Volta e meia, bate na tecla da concentração. No seu universo, a concentração é indispensável ao caminho espiritual. Mas nada impede que seja também um instrumento valioso na nossa vida cotidiana.


Definidos objetivo e método, nada melhor que usar os restantes momentos de férias para me dispersar. Ou, pelo menos, sentir a força avassaladora das múltiplas atrações que disputam nossa atenção. Dentro de casa, com livro, tevê e internet, é possível se perder completamente, em romances, ensaios, biografias, perfis, curtas, debates inteligentes e bobagens engraçadas.

Vi um perfil de Francis Bacon, cujos quadros sempre me impressionaram e a quem só conhecia de um livro de entrevistas. Fiquei triste com seu cotidiano pontilhado de crises, suicídio de um de seus amantes no momento de sua grande consagração internacional: a exposição no Grand Palais, em Paris. Lembrei-me de Van Gogh, pobre, dando sua própria orelha para uma prostituta. É como se fosse uma lenda: não me comove tanto. E pensei: as dores dos contemporâneos parecem ser as nossas dores.

Vi os episódios de série “Black mirror”, especialmente “Arkangel” me fez divagar de novo. A mãe decide implantar um dispositivo no cérebro da filha. Através dele, pode localizá-la e até mesmo ver e ouvir o que a menina Sarah vê e ouve. Na sua telinha, a mãe acompanha a cena de sua filha fazendo amor com o namorado. Ela vê o namorado de baixo, com os olhos de Sarah. E ouve a menina dizer frases pornográficas. Numa cena anterior, Sarah aparecia vendo no recreio da escola um filme pornográfico.

É apenas um detalhe em toda a história. No entanto, acionou uma conexão na minha cabeça: andei lendo um pouco sobre um debate acerca do tema nos EUA. Uma das críticas enfatizava que o imaginário sexual da juventude estava sendo colonizado pelos roteiristas de filmes pornográficos. Isso alterava o vocabulário e os próprios sentimentos. “Arkangel” me provoca a voltar ao tema.

Passados os momentos de dispersão, ainda fico intrigado como sou atraído por eles. Como se concentrar num mundo em que milhares de focos disputam sua atenção?

Na estrada, às vezes com pobre conexão, isso é possível. O chamado fluxo de trabalho é também uma âncora no presente. Ainda assim, os fatos seguem acontecendo e não se pode descuidar deles. No entanto, é preciso fazer uma espécie de barreira sanitária. Em outras palavras, o volume de informações que nos orgulhamos de consumir e produzir também pode se voltar contra nós, sobretudo em doses cavalares.

De volta ao futuro imediato, está diante de todos nós um ano desafiador. Acompanhar as eleições, tentar extrair delas a maior mudança possível nas relações entre sociedade e governo é uma tarefa inescapável. O primeiro grande traço do ano eleitoral será desenhado no dia 24 de janeiro em Porto Alegre: o julgamento do recurso de Lula pelo TR4. Teoricamente, o Tribunal pode confirmar, rejeitar, reduzir ou ampliar a pena de Lula. Em qualquer hipótese, tudo terá de ser equacionado de novo, a partir dessa decisão.

Pelo que vi em Curitiba, quando Lula foi depor, as tensões que surgem nesses momentos podem ser superadas com serenidade e algum planejamento para evitar a violência.

Protestos, abaixo assinados, todos fazem parte do jogo político. Mas servem mais como um consolo para Lula do que propriamente uma visão apontando para o futuro. Em caso de confirmação da pena, como conduzir uma candidatura que se choca com a Lei da Ficha Limpa?

Não posso prever em detalhes esse primeiro grande momento do ano eleitoral. Na verdade, ainda o encaro como um incidente do passado. Lula resolveu se candidatar para fugir da Lava-Jato pelos melífluos caminhos da política.

Baixando essa poeira de janeiro, será possível discutir um pouco mais amplamente uma agenda para a mudança. Entre o destino de um condenado e as tarefas de reconstrução do país há uma considerável mudança de foco.

Os anos pertencem a uma teia maior do tempo. Nunca são totalmente novos. Como todos nós, trazem consigo a carga do passado. Até os motins nas cadeias são planejados na véspera do réveillon. Esperemos pois, com paciência, 2018 surgir nas brumas de janeiro.

Jazz em Nova Orleans

Um governo de 'notáveis'

Mesmo uma experiente colunista, como Eliane Catanhêde, pode derrapar e se dar mal diante do vocabulário bizarro dos políticos em Brasília.

Na sexta-feira da semana passada, comentando a indicação de Cristiane Brasil, filha do ex-deputado e presidente do PTB (aquele do mensalão petista) Roberto Jefferson, para dirigir o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), ela escreveu neste jornal que estranhava que se tivesse dito que Temer iria fazer um “governo de notáveis”. Faltariam à moça requisitos de expertise em Trabalho...

Tome tento, d. Eliane, e não confunda o sentido corriqueiro das palavras com as muito estranhas práticas políticas da Brasília real: fui secretária executiva do MTE no primeiro governo Lula e sei muito bem do que estou a escrever. Cristiane Brasil é uma notável – na inteira expressão do termo, tal qual ele é usado pelos entendidos na capital federal. Seu pai é sem dúvida nenhuma um expert (e como!!!) nas questões vinculadas ao ministério que a filha agora passa a presidir. Temer não faria nenhuma melhor escolha do que entregar o galinheiro para as raposas tomarem conta.

Quando Lula tomou posse, já fizéramos uma primeira avaliação do papel do MTE sob o ângulo do que ele representara ao longo dos anos anteriores e sobre o que deveríamos mudar. Sabíamos com certeza onde estávamos pisando, e a mim, como a principal administradora, caberia viabilizar uma série de providências para tocar o ministério, sobretudo para enfrentar os cruciais “primeiros cem dias”.

Em síntese, por causa de dois fundos dos trabalhadores, o FAT e o FGTS, gerenciados por ele, o MTE fora, nos governos anteriores, o provedor-mor de grana para todo tipo de iniciativa da máquina governamental. Quanto ao FAT, este operava com o BNDES para a realização das operações especiais, sem nenhum controle, e havia dinheiro para ser desperdiçado pelas entidades sindicais e até religiosas, que diziam fazer requalificação profissional, desnudadas por auditorias feitas por nós. O Codefat era um condomínio entre patrões, empregados e representantes governamentais, e nele ONGs iam buscar fundos para prestar “benefícios” destinados a melhorar a vida dos pobres trabalhadores. Além do mais, o Codefat gerenciava também, em parceria com a Caixa Econômica Federal, o Programa do Seguro-Desemprego, fonte de não sei quantas maracutaias. Quanto ao FGTS, este, embora recolhido pelo MTE, na realidade seria entregue ao novo ministério criado por Lula, o das Cidades.

Em toda essa parafernália anterior (FAT, FGTS e Seguro-Desemprego com a CEF), reinavam exatamente o sr. Roberto Jefferson e o ex-ministro do Trabalho, ambos do Rio e ambos representantes do autointitulado legítimo partido dos trabalhadores, o PTB de d. Cristiane Brasil. Dou um exemplo: o MTE não conseguia nunca fazer inspeção na Petrobras porque esses senhores não deixavam.

Como, então, doutora Eliane, a moça não está apta a tomar posse?

A menos que a liminar contra isso realize o que chamam de “judicialização da política”...

Passado vive

Nenhum texto alternativo automático disponível. 
Foi há muito tempo, mas descobri que não é verdade o que dizem a respeito do passado, essa história de que podemos enterrá-lo. Porque, de um jeito ou de outro, ele sempre consegue escapar
Khaled Hosseini, "O Caçador de Pipas"

Refém por gosto ou fraqueza

Uma vez que por fraqueza, falta de sabedoria ou temperamento não se rebelou em outras ocasiões, nada de diferente deve-se esperar do presidente Michel Temer no caso da nomeação suspensa da deputada Cristiane Brasil para ministra do Trabalho. Inerte ele está. Permanecerá inerte.

Atribui-se ao ex-presidente José Sarney o axioma de que 50% dos problemas não têm solução. Os outros 50% se resolveriam sozinhos. Jamais restou comprovado que Sarney pense ou tenha dito isso. Há, de fato, problemas que acabam resolvidos sem a interferência direta do governante. O tempo encarrega-se deles.


Mas outros, talvez a maioria, cobram do governante, sim, algum tipo de atitude. Temer optou conscientemente por arcar com o desgaste de recuar da indicação do deputado Pedro Fernandes (PTB-MA) para o Ministério do Trabalho. Preferiu acatar o veto de Sarney, adversário político de Fernandes no Maranhão.

Procedeu assim porque quis. “Devo muito a Sarney, sabe?” -, justificou-se. A Cristiane, nada deve. Ao pai dela, o ex-deputado Roberto Jefferson, deve pouco. Jefferson lhe foi fiel até aqui, mas ao preço de benefícios obtidos para si e seus companheiros de partido. Não é por receio de magoá-lo que Temer está inerte. É por fraqueza.

Talvez seja também por ter-se acostumado à condição de refém de terceiros. Cercou-se de amigos para governar e quando alguns se meteram em encrencas, tornou-se refém deles. Sem coragem para mostrar logo de saída as reais dimensões da herança maldita deixada por Dilma, dela tornou-se refém e corresponsável.

Sabe que a política de ceder às piores vontades dos partidos aliados só serve para degradar sua imagem e a do governo, mas é incapaz de revisá-la. A essa altura, prisioneiro dos seus interesses, é um presidente conformado, à espera tão somente de que o tempo passe e esgote seus dias de mandato.

Nada mais ridículo do que teimar em obter uma decisão judicial que garanta a posse de Cristiane depois de três decisões contrárias. Poderá conseguir. Mas não estancará a sangria da deputada, nem a sua por tabela. Aberto o baú das revelações sobre os desacertos de Cristiane, ele seguirá aberto até que outro assunto se imponha.

Vai pagar para ver, Temer?

A democracia como problema

Todo regime democrático tem problemas e prova mais clara desse ponto é a crise presidencial da primeira democracia de massa do planeta, a americana. Qualquer investigação vai demonstrar que o regime democrático moderno não pode ser reduzido às suas dimensões econômicas, mas deve ser lido, como ensinou Marcel Mauss, como um “fato social total” - a democracia é um estilo de vida que afeta todos os espaços de nossas vidas. Ele produz tanto um Roosevelt e um Obama quanto a KKK e um Trump.

Motivada, como compreenderam Marx e Polanyi, pelo desejo desabrido (e legitimado como virtude e talento) de ganhos e empoderamentos infinitos, ofertados num mercado ou palco, a dinâmica democrática seria sempre sujeita a crises ou vista como burla.

Para tanto, basta lembrar que a democracia liberal é o único regime aberto a proposta de sua destituição, conforme vimos na Europa dos socialismos de esquerda e de direita. Tais desvios são o resultado de um paradoxo: a democracia liberal é o único regime explicitamente aberto a autocorreção.

Resultado de imagem para democracia à brasileira

No caso do Brasil, o experimento democrático tem promovido um permanente clamor contra a desordem, a roubalheira e o aumento da desigualdade - questões a serem sanadas pela retorno da boçalidade dos salvadores da pátria. Ou seja: restabelecendo privilégios, impedindo acabar com a consciência de inferioridade, com a aristocratização por meio do Estado, com um sistema educacional destinado a garantir a desigualdade, e, como faz a elite, malandramente mantendo um sistema político alinhavado por semi-ideologias e abençoado por amizades instrumentais. Tudo isso produziu uma estratificação social impecável na qual todos têm um lugar e todos sabem do seu lugar. Para o nosso lado mais atrasado, o ideal seria o de não ter mais que lembrar aos inferiores (que pensam ser nossos iguais) com quem eles estão falando!

Como dar liberdade aos seus inimigos, dizem os reacionários de direita; e como, dizem os de esquerda, ter essa liberdade que rompe tabus e leva a desigualdades?

Sofremos a nostalgia do império e dos regimes ditatoriais que o imitaram. Neles não havia bate-boca, imprensa livre, denúncias negociadas, juízes e procuradores independentes e a crise cujo incômodo maior é a constatação da corrupção estrutural e contraditória dos eleitos.

Nos impérios, governa-se por “direito divino”. Deus abençoava o governante de sangue azul cujo poder transcendia as forças deste mundo. Pensar que os grandes impérios tenham tido como base dimensões fora deste mundo permite uma visão mais clara da revolução republicana, a qual abriu o sistema de poder a todos os seus membros que não são mais acólitos ou súditos de ninguém, exceto de si mesmos. Nela, a família imperial não é mais a dona o Brasil ou a personificação da civilização europeia depauperada nos tristes trópicos. Agora - eis o desafio insuportável - somos administradores de nós mesmos. A chamada “coisa pública” pertence a todos e não pode ser apropriada nem abandonada por ninguém. O traço distintivo das democracias não é uma casta, classe, partido, família ou casa, mas consciências individualizadas e livres.

A passagem de um todo abençoado por Deus para sua parte mais insignificante e mortal - o ser humano individualizado, republicanamente visto como um cidadão detentor de direitos inerentes a sua condição - é um feito de extraordinária coragem e um projeto capaz de desafiar não somente reis e ditadores, mas os deuses!

Não é por acaso que as democracias são muito mais predispostas a terem problemas do que a preveni-los. Não é também por acaso que elas são odiadas por partidos totalitários e por boçais que não suportam dúvidas.

*

A globalização inventou sua ideologia. Ela põe em foco o planeta como um sujeito do individualismo. Se não há mais limites transcendentais, há o limite planetário que é a nossa totalidade - o nosso palco.

O Brasil vive num oceano de crise, mas o que fazer com o nacionalismo isolacionista de Donald Trump cuja fúria pode destruir o planeta e cuja proposta de censurar um livro que o critica como presidente perturba a mais estável experiência democrática do mundo?

O retorno do proibir como um direito dos que um dia foram proibidos é bem conhecido entre nós. Bem como a convivência com uma pervertida e insuportável contradição entre atores e papéis. Não nos surpreenderia descobrir um santo que jamais acreditou em si mesmo porque sabe de sua salafragem.

O globalismo é tão bipolar quanto as múltiplas éticas brasileiras. A América vai ficando mais parecida conosco e - queiram as fadas - nós com ela, mas não em tudo...