segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

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Sem noção e sem nação

Não chega bem a ser novidade. Desde que a gente se auto desobrigou de fazer sentido, qualquer coisa é possível. A pesquisa só confirmou o que já desconfiávamos ou sabíamos. O Brasil é país onde a realidade não importa.

E isso é grave. Na pesquisa “Perigos da Percepção” (“Perils of Perception 2017”) realizada pela Ipsos Mori, o Brasil foi apontado como o segundo pais em que a percepção da população é mais distante que a realidade.

Também explica muita coisa. Não dá mesmo para esperar que boas decisões fluam de percepções equivocadas. Ignorância não constrói. Sem conhecimento baseado em informação, nada positivo vem. Só o engano é o engodo florescem. O sofrimento é a simples manifestação física da ignorância aparentemente crescente, que continua alargando (ou talvez simplesmente mantendo) a distância oceânica entre realidade e percepção.

Ignorância é poderosa. Enquanto conhecimento demora para ser construído, ignorância destrói rapidamente. A boa notícia é que ignorância é condição, não estado. Tem cura simples. Basta uma boa dose de conhecimento diário, voluntariamente consumida pelo paciente. Todos nascemos ignorantes. Mas permanecer assim é escolha.

A má notícia, é que sua cura depende exclusivamente da vontade do paciente. E este, talvez, não deseje ser curado. Ignorância pode não ser solução, mas as vezes ajuda a dormir. E gera autoconfiança, dispensando a necessidade de reexame de posições e pensamentos. E este talvez seja seu aspecto mais perigoso. Ignorantes estão sempre grávidos de certezas.

Não é por acaso que. de acordo com a pesquisa da Ipsos Mori, países onde a percepção é mais próxima da realidade, tem populações com menos certezas sobre a extensão de seu conhecimento, ou a precisão das informações a sua disposição. Sabem que combater ignorância é exercício diário de reexame de ideias e posições. Sem qualquer coincidência, estas são também as nações mais desenvolvidas.

Por outro lado, países onde a percepção da população é mais distante da realidade, prevalece a certeza. Em outras palavras, a população tem mais convicção em suas informações, ainda que estejam erradas. Não é também por acaso, que estas nações estejam no bloco das menos desenvolvidas.

Acesso a cidadania depende e acesso a informação e disposição a rever posições e evoluir. Estas são as bases para a formação de uma verdadeira nação.

Ignorância não forma cidadania. Apenas gente sem noção. E sem nação.

Paisagem brasileira

Capela do Senhor dos Passos ( século XVIII), Belém

Cinismo dos poderosos

Estamos vivendo num país de podres poderes, como já observou Caetano Veloso do alto de seu eclético saber. Modestamente, acrescento: podres poderes em mãos de poderosos ou parceiros do poder, cujo cinismo constitui hoje galardão de premiadas delações. Delações que, se favorecem o processo judicial, beneficiam antes de tudo os próprios delinquentes, réus confessos de ilícitos penais que já produziram prejuízos aos cofres públicos da ordem de trilhões de reais.

E o cinismo predomina a partir de donatários dos Três Poderes da nossa República, transformados em verdadeiros alcaguetes, delatores de malfeitos de que participaram ativamente mas que, de uma hora para outra, quando se veem encarcerados ou com o risco de ter até seus parentes presos, denunciam com o claro intuito de usufruir de premiação que vai da redução à prescrição de penalidades.


O instituto jurídico da delação premiada, que poderia sim estar sendo usado para o desmantelamento de quadrilhas, está sendo banalizado e servindo para garantir a impunidade de poderosos da política e da economia. Ao que parece, o Estado não consegue êxito nas investigações policiais e do Ministério Público e acaba se aliando aos criminosos para chegar à cúpula das máfias de plantão. O pior é que nem sempre se chega a algum lugar.

Nesse contexto, nem mesmo a magistratura consegue nadar incólume em meio à onda de corrupção que se espalha pelo país. Os juízes que descobrem como e por que condenar são os mesmos que absolvem até mesmo quem já haviam condenado. Seja em primeira ou segunda instância do Judiciário, julgamentos e sentenças contraditórios são uma constante nos tribunais. Não existe lógica nem coerência processuais. O mesmo juízo que condena é aquele que reduz e depois amplia penas já definidas com base em denúncias do Ministério Público.

Juízes, desembargadores e até ministros da alta corte disputam espaços na mídia, mergulhados em enfadonhas discussões que se espalham por membros de poderes igualmente podres ou em estágio de putrefação pelo inevitável contágio pelo vírus da corrupção.

E diante desse quadro atual, como será o amanhã? Será que continuaremos vivendo de espasmos de promessas de reformas salvadoras da pátria? Será que as reformas defendidas com tanta ênfase pelo governo conseguirão anular ou ao menos neutralizar os efeitos deletérios da desigualdade social, cujo ranking tem o Brasil figurando como um dos campeões? Estamos todos em busca de respostas, enquanto se agigantam o caos, a insegurança jurídica e a corrupção.

Gessy Rangel

A razão é filha do diálogo

Noticia que calha bem para essa nossa véspera de eleição em tempos de tribalismo algorítmico e destilações de ódio na internet dada pelo site http://www.books.fr/, que sempre aponta o que de mais interessante vem sendo publicado no mundo dos livros (sim, felizmente eles ainda existem!).

***

Estudos de Dan Sperber e Hugo Mercier, dois pesquisadores de ciências cognitivas, reunidos no livro “O Enigma da Razão” demonstram que a razão humana só funciona realmente bem num sentido dialógico. Simplesmente ela não evoluiu para funcionar com raciocínios abstratos solitários.

“As condições normais de utilização da razão são sociais e, mais especificamente dialógicas. Fora desse contexto não ha garantias de que o ato de raciocinar resulte em benefício para o raciocinador”.

Vários estudos de diferentes especialistas vêm afirmando, nos últimos 50 anos, que a nossa maneira de pensar esta longe de ser tão racional quanto se afirma normalmente. Dan Sperber e Hugo Mercier têm uma abordagem diferente. Eles procuram demonstrar que as fraquezas da razão apontadas nesses estudos são, na verdade, forças da razão, só que desvirtuadas pela utilização em contextos errados.

O ponto é que nossa capacidade de raciocinar é hereditária e, portanto, vem se adaptando segundo as leis da evolução. Nossos ancestrais não tinham de resolver problemas de lógica abstratos, eles tinham sobretudo de encontrar meios de viver e agir coletivamente e convencer seus semelhantes a fazê-lo.

A conclusão geral é, portanto, que para melhorar nossas decisões e produzir pensamentos de qualidade mais alta a natureza exige que dialoguemos uns com os outros.

Moral e política

Moral e política têm sido tão entrelaçadas em nosso país que por vezes se perde uma distinção essencial entre essas duas áreas do conhecimento e da ação. Se, por um lado, é um ganho político e institucional da maior importância moralizar a política, por outro, não se pode tornar essa mesma política uma atividade de cunho moral.

Uma coisa é a sociedade assumir a moralidade pública como bandeira, exigindo que os políticos ajam de acordo com os critérios de honestidade no tratamento da coisa pública – que, justamente por ser pública, não pode ser apropriada privadamente. Trata-se da acepção mesma de República. Outra, muito diferente, consiste em aplicar à política os mesmos critérios que são empregados nos julgamentos de outras ações humanas, visto que a política é o terreno da violência, da intriga e do engano do outro. Trata-se de uma dimensão irrecusável da realidade tal como ela é, devendo ser tratada conforme seus instrumentos específicos.

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Nada impede, por exemplo, que um governo envolvido em questões de imoralidade pública faça reformas necessárias em proveito da coisa pública, do bem-estar de todos. Pretender que a moral e a política coincidam pode produzir a satisfação da alma que se representa como virtuosa, sem que o dado básico da política enquanto atividade caracterizada por relações de força, pela falta de moralidade, sofra alteração alguma.

No caso do governo Temer, por exemplo, temos a velha política sendo utilizada conforme os ditames de uma agenda reformista, transformando o País. Ao assumir, o novo presidente defrontou-se com uma questão estrutural da democracia, atinente aos seus próprios fundamentos: todo presidente governa com o Parlamento que tem à mão. Não é de seu arbítrio escolher a composição do Poder Legislativo. É o jogo próprio das instituições democráticas. Trata-se do exercício da soberania popular. Não nos situamos na esfera da moralidade, mas da política, com seu amoralismo e sua demagogia.

Note-se que a política foi empregada não para contemplar critérios abstratos de moralidade, com suas próprias noções de bem, mas para a realização de outra noção específica do bem, a do bem público, coletivo. Poder-se-ia falar aqui de uma contraposição entre o bem abstrato da moralidade e o bem público da política, por mais que se busque reduzir o alcance dessa diferenciação. Reduzir, porém não anular, pois suas esferas de atuação são diferentes, assim como suas pressuposições e seus critérios.

Nessa perspectiva, o presidente negociou um projeto de reformas, voltado para os fundamentos do Estado e da sociedade, que veicula, por si mesmo, a sua própria noção de bem coletivo e de bem-estar social. O povo clama por moralidade pública, o novo governo não se caracteriza por seguir esses critérios, no entanto, reformas são feitas para tornar possível o bem público, menosprezado pelo governo anterior.

Temos, então, o que pode aparecer como um paradoxo. O presidente da República implementou um moderno projeto de reformas utilizando-se dos velhos instrumentos da política. Poder-se-ia dizer que a “imoralidade” se tornou um instrumento de uma outra conotação ética, a do bem público. O vício prestou serviço à virtude. Ora, o que aparece como um paradoxo desaparece na medida em que os critérios da moralidade abstrata e da política, assim como seus fundamentos e condições, não são os mesmos, seguindo outros parâmetros e pressupostos. O problema só surge quando aplicamos a uma e outra esfera de atuação humana critérios que são, por natureza, distintos.

A política é o terreno do “ser”, da realidade dada, em todas as suas dimensões, incluindo a violência e tudo o que desagrada ao juízo moral. Gostaríamos, certamente, de que as coisas fossem de outro modo, mais eis um dado incontornável de qualquer diagnóstico, análise e juízo. A moral é o terreno do “dever ser”, das construções valorativas, em que entram em jogo critérios do que estimamos que a realidade deveria ser, sem suas fraturas e imperfeições. No mundo real, a ideia de perfeição aparece como sendo algo desejável, um fim inalcançável, porém alguns a estimam como possível, o que transparece nas utopias e nas diferentes formas de messianismo político.

Ora, utopias e messianismo político expressam menosprezo pela realidade, como se esta pudesse ser simplesmente substituída por um movimento de tipo revolucionário que tudo destruiria do existente. Acontece que o mundo do “dever ser” é um mundo inexistente, um mundo de ideias que só encontra sustentação em si mesmo. Cria finalidades e objetivos que têm como fundamento somente a sua própria abstração.

Nesse sentido, o discurso das almas virtuosas pode produzir um efeito retórico para contemplar os amantes da moralidade abstrata, mas é de pouca utilidade quando confrontado com as questões concretas de como governar, conforme as agruras e o cinismo da política. Hegel dizia que a consciência veste aqui a roupagem do que ele chamava de “bela alma”, encantada com sua moralidade pura e sua beleza estética, como se pudesse viver à parte dos assuntos do mundo, onde impera a impureza.

Uma bela alma evita sujar-se com os assuntos do mundo, porém esse segue o seu curso com a sujeira que o constitui. Se permanecer em sua abstração, na subjetividade do lamento, não produzirá maiores consequências políticas, salvo se enveredar para posturas políticas.

No caso brasileiro, temos a especificidade de promotores e juízes que se estimam destinados a uma missão, como se pudessem construir um mundo totalmente novo, partindo do pressuposto de que toda a classe política é “má”, “suja”, a ser destruída e substituída por algo puramente moral. Esse outro, contudo, só existe no terreno das ideias, do “dever ser”. Querer impô-lo pela força de decisões judiciais expressa uma moralidade que se revela sob a forma do messianismo político.

Querer impor um novo mundo por decisões judiciais expressa uma forma de messianismo.

Gente fora do mapa

Quase sempre, quem menos tem é...

Orgulho de ser comum

Existe uma desenfreada busca pelas diferenças entre nós, seres humanos. Aliás, sejamos óbvios desde sempre. Cor de pele sempre foi motivo de discriminação, opressão, humilhação e uma série de preconceitos indizíveis. Assim vale para raça, crença ou gênero. Maiorias subjugam minorias, diferenças que, extremadas, dizimaram nosso pequeno e turbulento planeta em ferozes e inconsequentes conflitos.

Temos um olho clínico crítico e certeiro para apontar e atirar contra os que são diferentes de nós. Estranho, pois, ao mesmo tempo, achamos determinados aspectos diferentes, exóticos bem atraentes. Mas, no geral, formamos grupos que combatem outros que consideramos uma ameaça a nossos estilo, cor, crença, status social ou coisa que valha.

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O problema é que fomos criando uma série de subdivisões no normal, tal qual a medicina foi inventando especialidade dentro de especialidade, e, muitas vezes, perdemos a noção do todo. Ou seja, somos todos seres humanos. Mas, dependendo do lugar a que se vai, parece mais o filme “Guerra nas Estrelas”, cheio de ETs.

A globalização, o universo internáutico, as redes, os multimeios interligaram tribos impensáveis décadas atrás: supremacistas, coprofílicos, fazedores de explosivos, clubes de leitores de línguas mortas e outras excentricidades que, incrivelmente, são universais.

Mas, nestes tempos em que cada um cuida de si e ninguém por todos, respeitando sem entender a hipnose das telas e as cavernas dos quartos, vejo-me observando um artigo raro e que dará muito Ibope lá na frente. Eu me refiro à capacidade de ser comum. É um dom incrível conseguir sê-lo em tempos de tanto tribalismo e de tanta radicalização. Sem esquecer a especialização, é lógico.

Por exemplo: ter coisas em comum com filhos adolescentes, com pessoas de todas as idades, conseguir conversar animadamente com qualquer tipo de pessoa, contar um caso numa festa familiar e ser ouvido pelo avô, pela filha, pelo neto e pelos convidados sem ninguém usar o smartphone, conviver bem com todas as pessoas do trabalho, independentemente da função, da idade, da formação.

Esses desafios só podem ser superados por pessoas incrivelmente comuns! Vejam: comunicação, comunhão de ideias, vida comunitária têm exatamente a palavra comum em sua composição. A receita é tão óbvia que chega a ser constrangedora: respeitar as diferenças e buscar o que temos em comum são o que mais precisamos para resgatar um mínimo de convívio humano. Pois a doença mais comum é afetiva. Somos carentes de alegria, afago, relaxamento, carinho, compreensão, escuta, prazer. Desperte e pratique o jeito comum de ser. O extraordinário deixe para sonhar ou aplaudir.

Gastar para reformar, e não se reformam os gastos

O governo está em plena temporada de fazer mais concessões e renúncias fiscais a grupos empresariais. Uma parte, com o pretexto de aprovar a reforma da Previdência, o que é uma contradição. Outra parte é renúncia fiscal fora de hora e lugar, como as que subsidiam petrolíferas ou a que pode renovar o programa de subsídio às montadoras. O governo quer gastar ou economizar?
Miriam Leitão

20% da população espanhola se afasta da classe media devido ao emprego precário

Mar Cuba decidiu há três anos ser mãe. Ela e o pequeno Leo vivem em Vilagarcía de Arousa, a 30 quilômetros de Pontevedra, no noroeste da Espanha, a distância que Mar tem de cobrir todo dia para ir trabalhar. Leo, enquanto isso, espera por ela na creche. “As mães solteiras estão em uma situação de permanente risco de desemprego. Nossas probabilidades de perder o emprego são maiores: qualquer imprevisto que tenhamos em casa pode nos fazer perder o dia de trabalho e, às vezes, isso pode ser causa de demissão. Se isso ocorre, perde-se toda a economia familiar”.

Mar representa uma das caras da desigualdade. As famílias monoparentais são talvez o grupo que mais evidencia os graves problemas que ainda afligem a Espanha agora que a economia se recupera. Uma armadilha da qual é difícil sair. Mesmo se o desemprego e os níveis de pobreza caem, a desigualdade econômica aumenta. A Comissão Europeia situa a Espanha entre os países cuja população apresenta maiores diferenças de renda. Na média da União Europeia, os 20% que mais ganham recebem cinco vezes mais que os 20% que menos ganham. Na Espanha, essa proporção passa de seis vezes e meia. Esse dado deixa a Espanha entre os últimos da UE, juntamente com Bulgária, Grécia e Lituânia. Será que os cidadãos espanhóis estão tão mal como os desses países? Como isso pode ocorrer, depois de mais de três anos de recuperação econômica?

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A atividade que se perdeu em torno da construção se recuperou graças às exportações e ao turismo. A hotelaria e o comércio geram muito emprego. Mas as exportações não exigem mão de obra intensiva. Isso explica por que se restabeleceram os níveis de riqueza, mas com 1,7 milhão de empregos a menos. Segundo um estudo de Francisco Goerlich, do Instituto Valenciano de Pesquisas Econômicas, o desemprego explica até 80% do aumento da desigualdade durante a crise. Na faixa dos 20% que menos ganham estão muitos desempregados com pouca ou nenhuma renda.

Ou seja, a desigualdade não ocorre por um crescimento desmedido do que os de cima ganham, embora estes tenham sido favorecidos pela recuperação da Bolsa. Segundo os especialistas, a desigualdade ocorre porque há menos horas trabalhadas nos grupos de menor renda, seja pelo desemprego, pela alta rotatividade de contratos ou pelo trabalho temporário não desejado, algumas das consequências da reforma trabalhista produzida no país há cinco anos e que inspirou a brasileira.

Enrique García teve sete contratos temporários consecutivos. O mais longo durou três meses. Enrique é de Madri, tem 55 anos e antes da crise desfrutava de um bom posto de trabalho. “Estive 10 anos no setor comercial de uma empresa grande de software. Tinha um salário fixo de quase 2.000 euros mensais (7.740 reais) e cobriam todos os meus gastos. Fui demitido depois de ter ficado de licença por depressão e me encontrei desempregado às portas da crise.”

Enrique entrou em um negócio que não deu certo e, a partir daí, temporariedade e precariedade. “Trabalhei como vendedor de frutas, frentista, operador de telemarketing, vendedor comissionado onde gastava mais do que me pagavam… fiz de tudo, e tudo com contratos temporários e salários de 700 euros (2.710 reais) ao mês.”

Seu último trabalho foi uma suplência como zelador, com a promessa de que teria um contrato fixo − que jamais chegou. “Com esta idade, é desesperador, porque vejo que tenho capacidade para trabalhar e fazer isso bem, mas é impossível entrar no mercado de trabalho”, lamenta.

O sistema espanhol de recolocação dá uma resposta muito precária a casos como o de Enrique. As agências públicas de emprego são muito boas na gestão do seguro-desemprego. Mas, depois de uma década de crise, continuam falhando na reciclagem e recolocação. Uma vez na armadilha da precariedade, é muito difícil escapar. E o problema mais urgente ocorre entre os que saíram da construção com idades como as de Enrique.

Efraim Medina chegou em 2001 do Peru. Fez isso por meio de um convênio entre a confederação sindical espanhola CCOO e um sindicato peruano que trouxe 50 trabalhadores da construção. “No início, sobrava trabalho”, conta Efraim, de 47 anos. “Depois de poucos meses na Espanha, chamaram-me de outra empresa e me fizeram um contrato fixo. E em seguida de outra, onde melhoraram minhas condições.”

Apesar disso, Efraim tinha consciência da fragilidade de sua situação. “Explicavam-nos que havia um boom da construção e que, a qualquer momento, tudo podia acabar. Por isso sabíamos que, se viesse uma crise, seríamos os primeiros a cair.” E assim foi. A empresa onde Efraim estava começou com atrasos no pagamento dos salários. “Diziam que não tinham dinheiro, que lamentavam, mas não podiam pagar a tempo. Assim, tive de tentar ganhar a vida por outro lado.”

Efraim começou então a alternar a fila do desemprego com trabalhos temporários pagos com um salário de 700 euros ao mês. “Dizem que a economia está se recuperando, mas acho que isto não é uma recuperação. As condições são muito ruins, cada vez piores, as pessoas estão dispostas a trabalhar por qualquer coisa e as empresas se aproveitam disso”, diz.

Muitos de seus amigos e companheiros retornaram ao Peru. “Eles nos telefonam e perguntam como está a Espanha. E nós dizemos: a mesma coisa.”

Imagem do Dia

Oguni shrine, Morimachi, Japan

Parlamentares, façam a sua parte!

O Brasil odeia o Congresso, visto como antro de ladrões, acomodados e aproveitadores regidos a altos salários e mordomias a perder de vista. A alegação corrente de um aparato demasiadamente custoso e ineficaz pesa como nunca sobre aquela casa parlamentar. Uma pesquisa na semana passada mostrou que a imensa maioria rejeita o trabalho feito ali. Para 60% dos entrevistados, o desempenho parlamentar foi considerado ruim ou péssimo. Irrisórios 5% consideraram a atuação aceitável.

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Nem cobrador de impostos é tão impopular. O palhaço e deputado Tiririca, do alto da maior votação alcançada no pleito de 2014, foi à tribuna para dizer que iria desistir de reeleição. Confessou sua frustração com a atividade e, em especial, com a prática corrente entre os seus pares. Tiririca expôs o que está na mente de todo mundo. Muita conversa, muito conchavo e pouco resultado prático são a tônica nos gabinetes, corredores e nas sessões que nada resolvem. A repulsa genuína de Tiririca e de praticamente toda a Nação aborda, é claro, a falta de empenho dos congressistas para levar adiante, votar e aprovar projetos de interesse nacional. A reforma da Previdência, por exemplo, está entre eles e arrasta-se como uma pauta maldita. Como é possível adiar algo tão imprescindível para a sobrevivência do sistema? Alegam os senhores senadores e deputados que esse seria um tema por demais intragável às vésperas de eleição. Tentam mais uma vez, como fizeram sempre, iludir a massa com promessas populistas. Tome-se o comportamento nada dignificante do ex-presidente e líder da tropa petista, Lula, para quem a Previdência não passa de “porcaria”, como disse. Tal padrão de irresponsabilidade está vingando nas rodas de políticos.

Prevaricam com o futuro do País. Os recursos destinados a áreas vitais como educação e saúde estão por um fio por conta da necessidade de se manter as aposentadorias em dia. Logo, logo, nem esse esforço será suficiente. Ultrajante e indecente é a resistência dos congressistas em cumprir com o seu dever. Não passa pela cabeça de mais ninguém com um pingo de juízo a ideia de que a reforma da Previdência possa ser adiada. Essa bomba nuclear via conta dos aposentados foi armada há anos e agora está prestes a estourar. Desarmá-la é a decisão sensata a ser tomada no parlamento. E, ao contrário do que possa ser dito, ela não macula a reputação dos senhores candidatos. Sinaliza, na verdade, um engajamento no esforço conjunto dos brasileiros para a rápida recuperação da economia.


Responsabilidade com as contas públicas não tira voto de ninguém. São necessárias medidas austeras para salvaguardar o direito de todos. O grande trunfo da reforma da Previdência está justamente no combate aos privilégios. Igualar a conta dos servidores públicos e privados já será, por si só, um imenso avanço. Acochambrar o projeto, como tentou o PSDB para posar de bonzinho, é retrocesso punido inclusive com a desconfiança do mercado e de investidores. Na semana passada o dólar chegou a ter uma valorização espetacular devido ao temor de que a reforma não passasse. É isso que almejam os parlamentares? Um País economicamente instável e arriscado aos olhos do mundo? Eis um objetivo que só atende aos aventureiros de plantão e aos pseudos salvadores da pátria, vendedores de mentiras em proveito próprio.

Politicagem criminosa não cabe mais no assunto Previdência. Não está mais em jogo ser contra ou a favor do governo, ser aliado dessa ou daquela patota. O tema vai além de uma agenda meramente ideológica. A operação segue para a inviabilidade caso as mudanças não ocorram. A conta definitivamente não fecha. O presidente Temer, de sua parte, vem tentando o possível, no limite da negociação, para fazer vingar o projeto. Mas como disse, a questão cabe e interessa a todos os brasileiros. Se a maioria não se importa em travar a Previdência, eliminando as aposentadorias no médio prazo – porque é o que vai acontecer caso nada seja feito – paciência. O bom senso precisa prevalecer na discussão e os parlamentares, sem populismos baratos, realizarem a sua parte votando o que é devido. É o papel que lhes cabe. Vai da consciência de cada um exercê-lo. Mais cedo ou mais tarde, os brasileiros vão cobrar esse compromisso.

As grandes teles dos EUA se movem para dominar conteúdo e distribuição

Nestes dias, algumas das maiores empresas do planeta estão indo às compras. O que as move não é o espírito natalino, e sim o objetivo de se preparar para aproveitar certas tendências que estão mudando o mundo. E mais: estão dispostas a pagar por outras empresas os preços mais altos da história.

Mas em que será que elas apostam? Uma das transações em andamento aposta que nosso apetite por estar “conectados” é crescente e insaciável. Outra, que a forma como consumimos entretenimento e informação está mudando drástica e irreversivelmente.

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Você já tinha ouvido falar da Broadcom? Não? Eu também não. Entre as centenas de produtos que ela vende está o muito celebrado 16nm Nx56G PAM-4 PHY, que, como se sabe, é usado na infraestrutura de redes de Internet (ou algo assim). A empresa define seu negócio como a venda das “tecnologias que conectam o mundo”. Se você usa celular ou Internet, é muito provável que seus aparelhos contenham produtos da Broadcom. Esta empresa quer comprar a Qualcomm, outra gigantesca fabricante de semicondutores e produtos para telefonia móvel, telecomunicações e Internet. Ofereceu mais de 103 bilhões de dólares (338 bilhões de reais), o que seria o maior preço pago por uma empresa de tecnologia na história. A Qualcomm está resistindo bravamente, mas, se a aquisição for concretizada, quase todos os smartphones do mundo teriam um produto ou tecnologia da empresa resultante, cujas vendas superariam os 200 bilhões de dólares (657 bilhões de reais) ao ano (para ter uma ideia: essa quantia equivale às exportações anuais da Arábia Saudita).

Esse apetite voraz por empresas cujas receitas dependem de tecnologias que facilitam a “conectividade” e “mobilidade” das pessoas se deve ao fato de que a demanda por seus produtos cresce numa velocidade vertiginosa, e tudo indica que continuará crescendo aceleradamente. Não só porque aumenta a população mundial, como também porque cresce muito o número de usuários da Internet e dos produtos que ela torna possíveis. Também é esperada uma explosão da Internet das Coisas, ou seja, da conexão entre diferentes aparelhos que se coordenam entre si. Por exemplo: seu celular acorda você de manhã, liga a cafeteira, consulta em sua agenda os compromissos que você tem nesse dia e comunica ao navegador de seu carro para onde você vai, para que ele apresente as rotas mais convenientes. As aplicações industriais da Internet das Coisas são ainda maiores.

Não sabemos se a Broadcom conseguirá comprar a Qualcomm. Mas, certamente, sua intenção revela características interessantes do futuro.

Estas mudanças tecnológicas também têm alterado a forma como nos divertimos e nos informamos. A televisão “com encontro marcado” já é coisa do passado. A necessidade de que para ver seu programa favorito você tenha de “ter um encontro” com a TV no dia e na hora decididos pela emissora começou a desaparecer com o apogeu dos aparelhos de videocassete. E agora, graças à tecnologia de streaming pela Internet, proliferam empresas, como a Netflix, cujo negócio se baseia em que o usuário é que decida quando e onde ver o programa que lhe interessa.

Na indústria de comunicação vinha ocorrendo um intenso debate sobre o que é mais importante (e lucrativo): controlar a produção de conteúdo ou controlar os canais pelos quais esse conteúdo chega ao consumidor? As maiores empresas de comunicação do mundo decidiram que esse debate não é para elas: vão controlar tanto o conteúdo como a distribuição. E têm o dinheiro necessário para fazer isso.

A AT&T, a maior das empresas de telecomunicações (e, portanto, de distribuição de conteúdo), está tentando comprar a emblemática Time Warner, a terceira maior empresa de entretenimento (e de produção de conteúdo). A segunda maior, The Walt Disney Company, está interessada, por sua vez, em comprar uma parte importante da 21st Century Fox, propriedade do magnata Rupert Murdoch e de sua família. Murdoch ficaria basicamente com a Fox News, a super-rentável e polêmica rede de notícias. Essa negociação tem provocado muitas especulações. Uma delas é a de que o filho de Rupert Murdoch, James, o atual chefe da 21st Century Fox, substituiria Bob Iger como principal executivo da Disney. A outra é a de que Iger está estudando seriamente a possibilidade de ser candidato à presidência dos EUA nas eleições de 2020.

Nada de tudo que foi citado acima é definitivo, e certamente haverá surpresas. Embora as negociações com a Disney estejam muito adiantadas, tanto a Comcast como a Verizon manifestaram seu interesse em comprar a 21st Century Fox − e poderiam entrar na disputa oferecendo quantias ainda maiores que os 60 bilhões de dólares (197 bilhões de reais) que a Disney pagaria. E mesmo que a Disney seja a compradora, nada garante que seu conselho de administração nomeie James Murdoch como executivo (nem que o flerte de Iger com a política vá se concretizar). Talvez a maior incerteza seja se as autoridades antitruste autorizarão a enorme concentração empresarial causada por essas aquisições gigantescas, impulsionadas, em sua essência, pela profunda mudança tecnológica que, por sua vez, tem alterado radicalmente os hábitos do consumidor.

Do que não resta dúvida é que, independentemente do resultado dessas negociações, a televisão, como nossos pais a conheceram, deixará de existir muito em breve.

Dívida pública está travando crescimento nacional, mas candidatos silenciam

Não há dúvida de que o país está de cabeça para baixo – ou de ponta cabeça, como dizem os paulistas. A nação de maior potencial de crescimento sustentado está absolutamente travada, sem perspectivas. Esse problema começou a se agravar a partir do irresponsável governo de Fernando Henrique Cardoso, que passou a acumular uma dívida interna suicida, e hoje o Brasil está com seu desenvolvimento socioeconômico bloqueado, devido ao descontrole dos gastos públicos e à exploração financeira movida pelos investidores nacionais e internacionais.

A dívida pública bruta (governos federal, estaduais e municipais) já passa de R$ 4,7 trilhões, mais de 73% do PIB. Quem é otimista alega que no Japão, em Singapura, nos EUA, na China e em outros países esta relação entre dívida e PIB é até maior, mas os realistas logo explicam, à moda do marqueteiro americano James Carville: “Lá os juros são menores, estúpido!”

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Como todos sabem, aqui no Brasil a liberdade de imprensa tem limites e jamais são contrariados o interesse dos banqueiros e dos investidores. Por isso, hoje somente se fala em reforma da Previdência, não há um debate aberto sobre o maior problema nacional, que é justamente o descontrole da dívida.

Para “solucionar” o problema, o criativo ministro-banqueiro Henrique Meirelles inventou o teto de gastos, que é um programa do tipo “de volta para o futuro”, porque a dívida só estará sob controle daqui a 20 anos, e se tudo der certo. Mas até lá Inês é morta, diria o D. Pedro português. Aliás, a longo prazo todos estaremos mortos, como ensinava Lord Keynes, ao prescrever sempre medidas econômicas capazes de surtir efeito imediato.

E acontece que o tal “teto dos gastos” de Temer/Meirelles não deu certo, o déficit primário aumenta cada vez mais e o governo federal já está elevando o limite das despesas a serem feitas pelos Estados, depois será a vez dos municípios, e la nave va, cada vez mais fellinianamente…
 Há outros países, porém, que se acautelam do capitalismo financeiro. A Suécia e a Dinamarca se orgulham de terem dívida pública de menos da metade da média na zona do euro. O fundo de riqueza soberana de US$ 820 bilhões da Noruega significa que o governo não tem dívida líquida. Nessas nações que mesclam o capitalismo e o socialismo, o problema é a dívida dos consumidores e o aquecimento artificial do mercado imobiliário, ou seja, nada que a “mão invisível do mercado” não venha a resolver, como dizia Adam Smith.

Mas aqui debaixo do Equador decidiram transformar o Brasil no piloto de provas do capitalismo sem risco que o pensador Karl Marx tanto temia, a ponto de criar o neologismo “rentista” e prever que haveria essa nova forma de exploração do homem pelo homem, através da exploração dos países pelos detentores do capital.

Há poucos meses a importante revista britânica “The Economist” chamou atenção para o acerto da previsão de Marx, ao antever essa etapa do humanidade, em wur há predomínio do capitalismo financeiro, aquele que nada produz, não cria empregos nem distribui riquezas, é como o orgulho, que se alimenta de si mesmo.
É fundamental que os candidatos a Presidência da República exponham com clareza o que pretendem fazer em relação à dívida, sem essa embromação de aguardar a solução para daqui a duas décadas, já tendo fracassado logo no primeiro ano. Mas ninguém toca no assunto.

A questão financeira é tão grave e peculiar que no Brasil os bancos continuam cobrando de 400% a 500% ao ano em prosaicas dívidas de cartão de crédito, diante de uma inflação anual que o governo diz ser de apenas 3%. Isso não acontece em nenhum outro país do mundo civilizado, digamos assim. No entanto, nenhum candidato fala sobre isso. E também não se manifestam como vão reduzir os gastos públicos excessivos, as mordomias, os penduricalhos. Nada, nada.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Gente fora do mapa

India

Juventude estraçalhada

Com 726.712 detentos, o Brasil é o terceiro país com mais presos no planeta. Em números absolutos só perde para os Estados Unidos, cuja população bate em 323 milhões, e para China e seus 1,6 bilhão de habitantes.

Além da quantidade de pessoas atrás das grades, quase metade ainda aguardando julgamento, e da desumana superlotação das penitenciárias, os dados divulgados pelo Departamento Penitenciário Nacional do Ministério da Justiça escancaram uma calamidade ainda maior: 30% dos presos são jovens entre 18 e 24 anos, percentual que atinge pornográficos 55% se estendido aos 29 anos de idade.

Em todas as áreas as estatísticas sobre os brasileiros jovens são alarmantes. Pior ainda se forem pretos e pobres.

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Mais de 1,3 milhão de adolescentes entre 15 e 17 anos abandonam a escola antes de concluir o ensino fundamental. Dos 23,6 milhões de jovens na faixa de 18 a 24 anos, 47% não frequentam o ensino médio. Nada menos de 6,6 milhões compõem a categoria nem-nem, que não estudam e não trabalham.

São recordistas na morte brutal. Dados do Mapa da Violência 2017, elaborado pelo Ipea e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, apontam que 52% das vítimas de homicídios não chegaram aos 30 anos de idade.

Jovens estraçalhados dentro de um país que negligencia a juventude.

O PT, que se autoproclama a voz do povo e, claro, dos jovens, dirá que cuidou desse grupamento ao ampliar o acesso à universidade. Mérito que se perdeu no tamanho do rombo do Fies - para a União e para os estudantes -, e na baixa qualidade do ensino oferecido na irresponsável proliferação de faculdades país afora.

Acrescenta-se aqui um dado incongruente e cruel: enquanto se gabavam de oferecer mais vagas no “Universidade para todos”, os governos petistas amargaram evasão crescente no ensino médio, sem o qual não se chega ao terceiro grau.

Mas o discurso vazio sobre políticas dirigidas aos jovens não se restringe ao PT.

Com presença ostensiva nas redes sociais, o deputado Jair Bolsonaro tem arregimentado jovens – 30% dos que pretendem votar nele têm menos de 24 anos e 60% não chegou aos 35, segundo o Datafolha. Mas nunca apresentou uma única ideia para inverter a tragédia que dia após dia abate a juventude. Ao contrário, fala em armá-los.

O mesmo ocorre com Marina Silva, da Rede, que trafega bem entre os mais cultos e descolados de até 34 anos de idade, e com Lula, que não tem o mesmo apelo de outrora, mas ainda arregimenta parcela da preferência desse público. Os demais pré-candidatos passam longe da juventude.

Jovens são charmosos em campanha. Provocam comoção no eleitor, assim como crianças e velhos, especialmente quando expostos com precisão marqueteira.

Na campanha não vão faltar colos e beijos em crianças, sorrisos de velhos e jovens poderosos. As cenas das jornadas de junho de 2013 serão lembradas independentemente do matiz partidário. Mas as questões que realmente importariam aos jovens possivelmente estarão, mais uma vez, em segundo, terceiro, enésimo plano.

A análise pragmática do colégio de votantes talvez explique tal descaso: o Brasil não é mais um país de jovens. Eles são minoria e votam cada vez menos.

Em 2016, dos 144 milhões aptos a votar, o número de jovens até 24 anos foi de 23,2 milhões, inferior aos 25,8 milhões dos eleitores acima dos 60 anos. Entre os que gozam do voto facultativo, observou-se 1,5 milhão de eleitores de 16 e 17 anos cadastrados e 4 milhões acima de 79 anos.

A faixa etária decisiva se concentra entre os 35 e 44 anos, público em idade produtiva, que, pelo menos em tese, está mais desconfiado e menos sujeito ao engodo da oferta de paraísos impalpáveis.

Essa maioria sustenta os governos, carece de melhores serviços públicos, e quer que seus filhos consigam pelo menos ultrapassar a idade da juventude. Sem violência, cadeia, bala perdida, homicídio.

Ganhará a fatura quem conseguir convencê-la. Dada a descrença geral, os indicativos são de que desta vez os candidatos vão precisar mais do que palavras ao vento para fazê-lo.

Lula, um líder vazio a bordo de um teco-teco

Lula perdeu a grande chance de ficar em casa esperando abrir a temporada oficial das eleições para se apresentar como candidato a presidente. Ao sair pelo Brasil afora foi achincalhado, insultado, ofendido e ameaçado por onde passou. O mito saiu arranhado. Viu, com surpresa, sua rejeição pular da casa dos 50%. E pelo que mostram as estatísticas, candidato com esse índice jamais chega a lugar nenhum.

A caravana lulista tentou repetir o que ocorreu há vinte anos atrás. Naquela época o ex-presidente se apresentava como uma opção ética para o país. Tinha a segui-lo centenas de jornalistas. Era abraçado efusivamente pelo povo em sua Caravana da Cidadania, denominada de Viagem ao Brasil real”, que tinha o objetivo de refazer o caminho que ele fez ao deixar Garanhuns aos sete anos com destino a São Paulo.

Nenhum texto alternativo automático disponível.

Agora, a coisa é diferente. A cúpula do seu partido tem hospedagem permanente nos presídios, o próprio Lula foi condenado a mais de nove anos de prisão, a Dilma foi chutada da presidência e os sindicalistas já não têm a mesma mobilidade para arregimentar gente com uns trocados para ouvi-lo. Além disso, o que as pessoas receberam no interior foi um ex-sindicalista com discurso cansado, envelhecido e retrógrado sem o mesmo carisma e o poder do outrora líder de massa. Na ditadura, chamava-se isso de “general de pijama”.

Em casa, se tivesse optado, ainda estaria preservado. Não seria avacalhado pelo povo e poderia, dessa forma, reaparecer depois com uma nova roupagem e com um discurso condizente com o Brasil de hoje, que mesmo sendo dilapidado por políticos corruptos, renova-se e moderniza-se. Lula, espertamente, não foi em busca apenas de votos nos redutos onde ele já os tem. Ele, na verdade, quer se consolidar como candidato a presidente para pressionar os desembargadores que ratificarão – ou não – a sentença do juiz Sérgio Moro.

Não faz muito tempo, antes de ser condenado, ele também saiu por aí como um boquirroto. Ameaçava botar o “Exército Vermelho”, os sem-terra do Stédeli, nas ruas se a Dilma fosse expurgada do poder por incompetência administrativa e inaptidão para o cargo. Ela foi para casa e o líder borocohô, para seu desespero, viu o país seguir seu rumo democraticamente.

Os seguidores de Lula, com exceção de alguns fanáticos, já não se movimentam sobre as ordens do Grande Chefe que vê os sindicatos escapulirem do seu controle. A semana passada, por exemplo, as centrais abortaram uma greve contra as reformas por divergências internas. Temiam, alguns dirigentes, um fracasso retumbante nas ruas. E assim o Lula vai se diluindo, se despersonalizando e vendo a estrela apagar enquanto ele dá o último suspiro para tentar se reerguer e sair da UTI política.

Lula ainda mantém pouco mais de 30% nas pesquisas porque é candidato único declarado a presidente da república. Resultado de um recall que se mantém na cabeça do eleitorado mais pobre e menos instruído porque, na verdade, nesses grotões onde estão esses votos, nem se sabe que em 2018 terá eleição presidencial.

A partir do início do próximo ano, as peças do xadrez começam a se movimentar. E o PT do Lula será o mais sacrificado pois não conta mais com o apoio dos empresários, dos seus marqueteiro e tesoureiros presos, com as empresas públicas e nem com as alianças políticas que lhe permitia a hegemonia no horário eleitoral. O PMDB certamente vai apresentar candidato (Henrique Meirelles é forte se a economia respirar sem aparelhos no próximo ano) e os partidos nanicos – como é da tradição – vão leiloar suas legendas na base do quem der mais. E assim, para o PT, só sobra o bagaço.

Lula, se não for condenado em segunda instância e recolhido ao presídio, vai amargar uma campanha sem recursos, sem gente qualificada e sem alianças. O mais fiel dos seus aliados, o PCdoB, já se movimenta nos bastidores para sobreviver. Como a sua maior base é São Paulo, já flerta com o PSB, que governará o estado com a saída do Alckmin, para onde já migrou o ex-ministro Aldo Rebelo, titular de várias pastas na administração petista.

É assim que o Lula vai tentar atravessar a tempestade que se aproxima. Não mais com aquele boeing poderoso que ele comprou com o nosso dinheiro para fazer tour ao exterior. Mas a bordo de um teco-teco levando pelo menos duas pessoas na apertada cabine: a carismática Dilma e um padre bom de reza para garantir o destino final de cada viagem da modesta aeronave.

A verdadeira história dos super-ricos

Jeff Bezos é o homem mais rico do mundo. No final da semana passada, a fortuna do fundador da Amazon superou a barreira dos 100 bilhões de dólares (330 bilhões de reais) e, nos últimos anos, os negócios da sua empresa não pararam de crescer. Faz tempo que a amazonização aterroriza muitas companhias, e o poder de Bezos aumenta à medida que sua riqueza também cresce. No entanto, também faz tempo que a verdadeira fortuna do empresário deixou de ser tão astronomicamente grande quanto pensamos ao ouvir a cifra.

Isso porque o poder do dinheiro é medido segundo a quantidade riqueza disponível no conjunto da economia. Os Estados Unidos, país em que Bezos construiu seu patrimônio, é uma economia gigantesca. A julgar por seu tamanho, até os bilhões do fundador da Amazon parecem pouco. Toda a fortuna deste empreendedor de 53 anos representa apenas 0,5% da soma dos bens e serviços produzidos nos EUA em um ano.

O mesmo acontece com Bill Gates, fundador da Microsoft, e seus 89 bilhões de dólares (294 bilhões de reais) que, somados, equivalem somente a uma pequena parte do que se produz no país. Esse fato não muda nem quando levamos em conta os ocupantes do quarto e do quinto lugares da lista dos norte-americanos mais ricos: Mark Zuckerberg, diretor do Facebook, com 75 bilhões de dólares (248 bilhões de reais), e Larry Ellison, fundador da Oracle, com 54 bilhões de dólares (178 bilhões de reais). Juntos, os cinco homens mais abastados dos EUA alcançam a considerável quantia de 394 bilhões de dólares (1,3 trilhão de reais), mas até mesmo essa cifra não é mais do que 2,1% do PIB nacional. Nos EUA, portanto, não se pode falar de uma acumulação nociva da riqueza. Em outras economias, contudo, as coisas são bem diferentes.
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Existem países onde as cinco pessoas mais ricas têm tanto dinheiro que poderiam comprar 25%, ou inclusive 33%, dos bens e serviços produzidos em um ano. Lá, os ricaços são muito mais influentes que nos EUA. Suas fortunas se traduzem em poder econômico e, com frequência, poder político. A verdadeira lista dos ricos revela essa influência; nela, as grandes fortunas são definidas em relação ao produto da atividade econômica. O jornal dominical alemão Welt am Sonntag a elaborou com base em dados do serviço financeiro da Bloomberg, que não apenas fornece informações sobre os patrimônios relativos, mas também permite tirar conclusões sobre as sociedades de onde vêm os ricos e sobre as quais estes exercem sua influência. As respectivas concentrações de riqueza mostram até que ponto as economias são dominadas pelos "oligarcas". Inclusive é possível determinar o grau de oligarquização de cada país. Quanto mais riqueza as cinco pessoas mais ricas concentram, maior é o risco de que elas possam intervir além da conta no Estado e na sociedade. É justamente assim que se define o termo oligarquia (governo de poucos): um grupo reduzido de pessoas que usa suas influências e, como regra geral, aproveita para acumular fortunas aos seus integrantes.

Normalmente, o grau de oligarquização nos países pequenos é maior do que nos grandes. O valor mais alto é registrado em duas antigas colônias britânicas: Hong Kong e Chipre. Na cidade-Estado chinesa, as fortunas das cinco pessoas mais ricas representam 33% da economia. Li Ka-shing, seu cidadão mais endinheirado, possui 34 bilhões de dólares (112 bilhões de reais), equivalentes a 10,5% do PIB. Conhecido como Superman nos meios de comunicação locais, o empresário de 89 anos governa a Hutchinson, seu grupo de empresas, como um império. Para não chegar nunca tarde, ele usa um relógio 20 minutos adiantado.

Somente Chipre apresenta uma concentração de riqueza ainda mais extrema. Lá, uma única pessoa, John Fredriksen, possui o equivalente a mais de 52% do PIB. A fortuna desse norueguês, que se fez sozinho e que em 2006 se nacionalizou cipriota por motivos fiscais, é estimada em mais de 10 bilhões de dólares (33 bilhões de reais). Além da indústria naval, o empresário tem participações no negócio petroleiro. Mas Frederiksen não é o único magnata da ilha mediterrânea. Os seguintes quatro cipriotas com grandes abastanças somam 28% do PIB.

Nos países nórdicos, que defendem justamente o equilíbrio social, a concentração de riqueza é surpreendente. Na Dinamarca, o fator de oligarquização é de 11%; na Suécia, 19%. Isso não tem a ver somente com o fato de que, aos 81 anos, Ingvar Kamprad seja uma das pessoas mais ricas da Europa, com cerca de 48 bilhões de dólares (158 bilhões de reais), quase 10% do PIB sueco. Outros compatriotas também acumularam enormes patrimônios. É o caso de Stefan Persson, dono de grande parte das ações da grife de roupas H&M, que além de outras propriedades possui 8.700 hectares de terras na Grã-Bretanha.

Apesar dessa concentração de renda, os países escandinavos não têm fama de plutocracias governadas pelo dinheiro. Talvez isso tenha a ver com sua longa tradição de sociedades burguesas com uma economia de mercado. A situação é diferente nos países que introduziram o capitalismo há pouco tempo, e sobretudo nos do antigo bloco soviético. Na República Checa, por exemplo, o fator de oligarquização é de nada menos que 12%. Andrej Babiš, um dos bilionários do país, acaba de conseguir maioria parlamentar com o movimento populista que fundou. Na verdade, sua fortuna chega a "somente" 4,1 bilhões de dólares (13,5 bilhões de reais), mas a soma equivale a mais de 2,1% da economia checa. Em comparação, a influência econômica do presidente Donald Trump parece extremamente modesta. Com seus 2,9 bilhões de dólares (9,6 bilhões de reais), segundo os cálculos da Bloomberg, Trump responde por um ínfimo 0,016% da economia de seu país.

Babiš nem sequer é o homem mais rico da República Checa. A lista dos magnatas é encabeçada pelo investidor financeiro Petr Kellner. Sua fortuna de 12,3 bilhões de dólares (40,6 bilhões de reais) equivale a 6,3% da produção de seu país em um ano. Assim como alguns russos, os oligarcas checos também se beneficiaram com a queda do Muro. Graças aos seus contatos no mundo da política, durante as privatizações eles conseguiram abocanhar uma boa fatia da economia nacional. Babiš é um exemplo de como a prosperidade econômica pode ser transformada em poder político. Em 2011, ele fundou o movimento Aliança de Cidadãos Insatisfeitos (ANO), espécie de receptáculo para os checos indignados.

Na Rússia, mãe-pátria da oligarquia, a concentração da riqueza é importante. Os cinco russos mais ricos possuem quase 7% do conjunto da produção do país. À primeira vista pode parecer pouco, mas, numa economia tão grande, representa um valor assustadoramente alto. Até 1990, também na Rússia a riqueza era repartida de modo mais ou menos igualitário. A acumulação ocorreu nos anos imediatamente posteriores. Hoje, tanto a Rússia como a República Checa apresentam os problemas da concentração extrema da riqueza, embora de diferentes maneiras. Uma característica é a tendência ao chamado capitalismo clientelista, em que um grupo reduzido de adinheirados se aproveita de seu poder, com cumplicidades, para defender seus privilégios. Relegam ao segundo plano os recém-chegados ao mundo empresarial ou os desanimam desde o início, o que prejudica o dinamismo e a capacidade de inovação da economia. Não é à toa que, após a separação, a Republica Checa ficou para trás em relação à Eslováquia, cujo fator de oligarquização é de apenas 1,3%.

A Rússia, com seu sistema de bilionários, tampouco foi tão bem-sucedida. Há 30 anos o país vive um relativo declínio. Em particular, o Kremlin não se sai muito bem na comparação com a China. Embora oficialmente comunista, a República Popular também tem muitos multimilionários e bilionários. No entanto, com seus 48 bilhões de dólares (158 bilhões de reais), Jack Mu, seu cidadão mais rico, só alcança um fator de oligarquização de 0,4%. Já Alexej Mordaschow, o russo mais rico, representa 1,5%.

No extremo oposto do planeta, chamam a atenção sobretudo o Estado petroleiro da Colômbia, com 12,5% e o México, com 10%. O bilionário Carlos Slim – barão da Telmex no México e ex-líder do ranking das pessoas mais ricas do mundo – representa sozinho 6,1% do conjunto da economia do país. Em 2018 haverá eleições no México, e lá também um populista poderia chegar ao poder.

Na Europa, raramente ocorre uma concentração de riqueza tão extrema quanto a da América Latina. Entre as grandes economias ocidentais, a França se destaca com um nível de concentração da riqueza de 6,7% –semelhante ao da Rússia. Na segunda economia da zona do euro, as famílias fundadoras de grandes marcas de luxo, como a L'Oréal, construíram fabulosas fortunas apesar de todas as guerras e mudanças políticas. Em muitos casos, as bases que permitiram essa acumulação foram lançadas já na época napoleônica.

A Alemanha, por sua vez, quase não está oligarquizada. É certo que nesse país também existem enormes fortunas familiares, como a de Dieter Schwarz, estimada em 22,9 bilhões de dólares (9,6 bilhões de reais). Mas mesmo o patrimônio do dono das redes de supermercado Lidl e Kaufland só atinge um fator de 0,66%. Ainda assim, Schwarz é um "oligarca" maior que Jeff Bezos nos EUA. Em termos estritamente percentuais.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Afogamento e fuga

Em 1995, nasceram 3,1 milhões de crianças no Brasil. Em 2017, 30 mil delas continuam analfabetas por não terem entrado ou terem abandonado a escola antes de aprender a ler. Cerca de 2,6 milhões concluíram o ensino fundamental.

Apenas dois milhões terminaram o ensino médio e dessas, não mais do que 600 mil adquiriram conhecimento suficiente para enfrentar os desafios da sociedade do conhecimento onde viverão, falando línguas estrangeiras, dominando Matemática, Informática, Geografia, História, Literatura, Filosofia.

Pouco mais de 720 mil (49%) estão no ensino superior e, considerando a atual taxa de evasão/abandono nesse nível educativo, não chegará a 355 mil (11,5%) o número daquelas 3,1 milhões de crianças que, até o ano de 2022, concluirão o ensino superior.


As avaliações mostram que a qualificação profissional desses graduados deixa muito a desejar. O aumento no número de vagas não teve correspondência no aumento do número e da qualidade do ensino médio.

Apenas 17 mil (0,55%), no máximo, farão cursos de pós-graduação e terão condições de serem alguns dos raros cientistas de que o Brasil tanto carece. Destes nascidos em 1995, o Brasil não terá mil como cientistas de nível internacional trabalhando com ciência.

A perversidade dessa pirâmide é suficiente para mostrar o despreparo do Brasil para ingressarmos com eficiência no século XXI, com a economia global baseada no conhecimento. Ainda pior, boa parte dos nossos raros talentos científicos estão emigrando para países onde poderão desenvolver melhor suas atividades profissionais e terão melhores condições de vida para si e para suas famílias.

Entre o nascimento e a vida adulta, o Brasil afoga milhões de seus cérebros na infância e adolescência, e está provocando a fuga dos poucos que conseguem avançar até o último nível do conhecimento formal e do exercício da atividade científica.

A dificuldade criada por estes dois fatos, afogamento e fuga de cérebros, mostra uma sociedade imediatista nos propósitos e sem vocação para o desenvolvimento intelectual.

Os brasileiros se revoltariam se tomassem conhecimento de que nossos governos estão omissos diante da destruição de parte de nossas minas e deixando que países estrangeiros levem uma parte de nossos minérios. Entretanto, nenhuma indignação é manifestada, e nada é feito para impedir essa realidade.

Assistimos passivamente ao afogamento e fuga, sem ao menos percebermos que estamos perdendo nosso ouro do século XXI: o conhecimento, a ciência, a tecnologia e a cultura que nossos cérebros poderiam criar.

Permitimos que levem a verdadeira e permanente riqueza: a inteligência de nossas crianças que deixamos de desenvolver e a inteligência de nossos doutores que partem para o exterior.

Não teremos futuro se não formos capazes de aproveitar os cérebros de todas as nossas crianças, de mantê-los aqui em plena atividade profissional e de trazer de volta os nossos cientistas que emigraram para outros países, dando-lhes todas as condições de trabalho.

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Colorado (EUA)

País tem 290 mil presos sem sentença e Supremo cogita liberar larápios VIPs

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O Ministério da Justiça divulgou dados atualizados sobre a população carcerária. Um detalhe chama especial atenção: há no Brasil cerca de 290 mil presos sem julgamento. Isso corresponde a 40% do total de encarcerados: 726 mil pessoas. É contra esse pano de fundo que o Supremo Tribunal Federal analisa a hipótese de abrir as portas das celas para os endinheirados e poderosos condenados duas vezes.

Repetindo: num país em que 290 mil cidadãos pobres mofam atrás das grades sem julgamento, a Suprema Corte cogita rever a regra que prevê a prisão de larápios VIPs condenados um par de vezes, na primeira e na segunda instância.

Para a casta superior, o direito de recorrer em liberdade. Se possível, até a prescrição dos crimes. Às favas com a dupla condenação! São inocentes até prova em contrário. Quanto aos miseráveis, são culpados até prova em contrário. Se possível, vão em cana como prova em contrário. Assim, não é que o crime não compensa. É que no Brasil, quando compensa, ele tem outro nome. Chama-se impunidade.

Lula deve desculpas ao Rio

O palanque aceita quase tudo, mas Lula está abusando. Em caravana pelo Rio de Janeiro, o ex-presidente passou a culpar a Lava Jato pela falência do Estado. Na quarta-feira, ele disse que o povo fluminense “não merece o que está passando”. Isso é uma obviedade, o problema veio na frase seguinte. “A Lava Jato não podia fazer o que está fazendo com o Rio”, afirmou.

O ex-presidente sustentou que a investigação dos desvios na Petrobras seria responsável pela crise na estatal. “Por causa de meia dúzia que eles dizem que roubaram e ainda não provaram, não podem causar o prejuízo que estão causando”, disse.

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Se a tese fosse verdadeira, seria melhor deixar que a turma continuasse roubando à vontade. Além de interromper a pilhagem, a Lava Jato já devolveu R$ 1,4 bilhão à empresa.

Nesta quinta-feira, Lula lamentou as prisões de Sérgio Cabral e Anthony Garotinho. “O Rio não merece ter governadores presos porque roubaram”, afirmou. Mais uma vez, o problema veio depois. “Eu nem sei se isso é verdade, porque não acredito em tudo o que a imprensa fala”, disse.

A esta altura, é mais fácil encontrar um torcedor do São Cristóvão Futebol e Regatas do que um carioca que acredite na inocência de Cabral. O peemedebista já foi condenado três vezes por corrupção, e suas penas somam 72 anos de cadeia.
Quando a Polícia Federal transferiu Cabral do Leblon para Bangu, houve foguetório nas ruas. No mês passado, servidores com salários atrasados distribuíram bolo e salgadinho para festejar o aniversário da prisão.

Lula disputou cinco eleições presidenciais e venceu quatro delas no Rio. Antes de começar a sexta, ele deveria pedir desculpas por ter feito campanha para Garotinho e Cabral.

No ano passado, o PT foi praticamente dizimado no Estado. O partido governava dez municípios e só conseguiu vencer em Maricá, onde Lula esteve na quarta-feira. Antes do comício, a prefeitura recrutou funcionários para ajudar a encher a praça.

Saudosos

Não faz muito, um som antigo andou pelo céu da pátria por um instante: o som da insatisfação nos meios militares. Foi a manifestação isolada de um general na forma de advertência sobre uma possível intervenção armada, caso a degringolada geral no país continuasse, e que ganhou importância porque o general só recebeu uma reprimenda branda.

O som antigo trouxe de volta toda uma época, como uma velha canção esquecida. Nos lembrou de como éramos anos atrás, provocou sorrisos e suspiros. E medo.

Quem ainda não era vivo ou consciente na época evocada talvez não entenda estas reações, principalmente o medo, mas houve um tempo no Brasil, crianças, em que “insatisfação nos meios militares” era uma frase cheia de presságios. Não um ruído passageiro, mas um som agourento, como o de trovoadas.

Instalada a ditadura, as ordens do dia lidas nos quartéis passaram a ser matéria de capa nos jornais. As estudávamos como se nossas vidas dependessem delas, e em muito casos dependiam.


Militares continuaram manifestando sua opinião, com todo o direito, mas progredimos. A frase não é mais prenúncio de nada. O medo não se justifica. Não vem tempestade. Ou pelo menos se espera que não venha.

Aumenta o número de nostálgicos pelos velhos tempos, como prova o número de pessoas que votariam no Bolsonaro nas próximas eleições presidenciais. Hoje, temos mais a temer da nostalgia do que de manifestos militares. Da nostalgia ou da ignorância.

A nostalgia é por um tempo de ordem e probidade que nunca existiu. Havia corrupção como agora, com um coronel à frente de cada estatal, com a diferença que não era permitido investigá-la.

A verdadeira história da ditadura ocorria nos porões em que presos políticos eram torturados e assassinados e nos jornais censurados para que nada disso fosse revelado. E tem gente com saudade desse tempo.

O Ministério da Defesa, uma herança bem intencionada do governo Fernando Henrique, tem sido, até agora, uma ficção. A sua missão histórica, diante da possibilidade de se multiplicarem as manifestações pela volta aos velhos tempos como a do general, é de prevenir o saudosismo nos quartéis.

Paisagem brasileira

Cachoeira do Funil (GO)

Nunca na nossa sala

Há dias, escrevi aqui que, pelo que vemos e ouvimos na TV, o nível dos nossos senadores e deputados era de amargar. “Muitos mal sabem ler”, arrisquei — e devo ter acertado, porque ninguém se apresentou para defender a si próprio ou aos colegas. E não estava me referindo ao fato de que, ao ler extensos relatórios, suas excelências fazem isso em tom monocórdio, engolindo consoantes e sem tirar os olhos do papel — estes são os doutores entre eles. Referia-me aos que leem mal mesmo, por falta de cartilha na infância.


Por razões profissionais, ando mergulhado no Brasil da República Velha e convivendo com os grandes nomes da política da época. Muitos chegaram até nós como nomes de ruas, hospitais e até presídios, e, quando os ouvimos hoje, temos de fazer um exercício intelectual para nos lembrarmos de que, em seu tempo, eles discursavam na tribuna, tomavam cafezinho, comiam pastéis, andavam de bonde etc. — enfim, existiam como pessoas. Eles nos fazem pensar sobre a constituição dos governos do passado.
A República Velha (1889-1930), com todos os seus fabulosos defeitos, teve como ministros de Estado homens como o Barão do Rio Branco, Quintino Bocaiúva, Rui Barbosa, Joaquim Murtinho, Lauro Muller, Oswaldo Cruz, Afrânio de Melo Franco, apenas entre os mais facilmente reconhecíveis pela posteridade. O próprio primeiro período de Getulio Vargas (1930-1945) podia se gabar de ter Oswaldo Aranha a seu lado. E, em tempos mais recentes, não foi por falta de cabeças que João Goulart (1961-1964) caiu — com ele estiveram Celso Furtado, Darcy Ribeiro, Hermes Lima, Evandro Lins e Silva, San Tiago Dantas, Walther Moreira Salles.

Por que deixamos a política contemporânea nas mãos de certos fulanos que nunca admitiríamos na nossa sala?

Mas o Congresso é a nossa sala.

O monstro tá aí

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Vimos avanços em questões como feminismo, direitos dos gays e luta contra o racismo. Fomos testemunhas disso e chegamos a conclusões felizes. Mas desde a queda do Muro de Berlim contemplamos como oportunidades foram sendo perdidas – especialmente depois da guerra do Iraque e dos escândalos econômicos e a crise de 2008 –, e agora vemos proliferar ideologias de ultradireita e nacionalismos tribais. Ou um racismo em sua forma tradicional, envolvido em versões de marketing. O monstro enterrado acordou
Kazuo Ishiguro, Nobel de literatura em 2017