sábado, 23 de setembro de 2017

O Brasil Velho que legisla em causa própria

Resultado de imagem para isenção de impostos chargesBrasil
Mostra tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim

“Brasil” (Cazuza, George Israel e Nilo Romero)

Há alguns domingos, Marcos Lisboa, que eu tive a honra de ter como chefe nos bons tempos das reformas microeconômicas, escreveu em sua coluna na Folha que no momento atual existe uma divisão política no país, entre o Brasil Velho e um Brasil Novo – “da agenda republicana, com ênfase na melhora do ambiente de negócios, na concorrência e na política social”.

Eu compartilho com a visão do Marcos de que não há saída fora da política e que somente nela devemos negociar perdas e interesses envolvidos com as reformas de que esse Brasil Novo precisa.

O problema é que o Brasil Velho é quem governa. E governa comprometido com interesses estabelecidos e preocupado quase exclusivamente com a autopreservação da espécie.

Tenho procurado escrever neste blog sobre as interações entre as elites política e econômica brasileiras na tramitação das nossas leis. Acredito que esse é um importante prisma para interpretar nosso atraso, nossa desigualdade e as oportunidades perdidas nas últimas décadas.

Mas hoje vou escrever sobre uma peculiaridade desse sistema vicioso: os parlamentares que trabalham não em prol de determinados grupos de interesses, mas que legislam em causa própria. Afinal, existe uma parcela substancial do Congresso que representa a si mesmo – empresários ou dirigentes de empresas que se valem do mandato para dar um empurrãozinho nos próprios negócios.

A ideia que tomei não é original. Julio Wiziack, jornalista da Folha, valeu-se da Lei de Acesso à Informação e obteve da Procuradoria Geral da Fazenda Nacional a relação dos deputados e senadores que eram devedores, corresponsáveis ou exerciam função de sócios, administradores ou dirigentes de empresas inscritas na Dívida Ativa da União. Ele relacionou essas informações com a propositura de emendas na MP do Refis e… bingo!

O problema é que temos atualmente em tramitação não apenas uma, mas três medidas provisórias que tratam de parcelamento de débitos junto à União, além de uma primeira que acabou expirando no início do ano.

O que eu fiz agora foi simplesmente expandir o exercício do Julio para as três MPs em vigor, além da primeira editada neste ano, que acabou expirando. O resultado está no gráfico abaixo:

Como se pode ver acima, com exceção da MP nº 793, que trata da regularização tributária rural, em torno de 50% das emendas apresentadas tiveram a autoria de parlamentares com dívidas junto ao Fisco. Ou seja, metade das propostas para alterar os programas de parcelamento de débitos tributários e não tributários introduzidos pelo Governo Federal partiu de deputados e senadores que tentavam legislar em causa própria, uma vez que seriam diretamente beneficiados por essas modificações.

Esses dados não causam surpresa alguma. Faz tempo que os programas de parcelamento de débitos tributários e não tributários são uma distorção de nosso malfadado regime fiscal – uma espécie de filme que nos aterroriza de tempos em tempos beneficiando os maus pagadores em detrimento da imensa maioria que paga seus tributos na fonte ou de forma indireta, via consumo.

Governos endividados precisam, de quando em vez, fazer caixa para honrar seus compromissos e cumprir a meta. Entre as soluções imaginadas, sempre surge a ideia de lançar um novo sistema de regularização de débitos tributários. Edita-se então uma medida provisória com o novo Refis (os nomes mudam a cada vez, agora é Programa Especial de Regularização Tributária), com uma série de atrativos como parcelamentos, alongamento de prazo e abatimento de multas e juros.

Uma vez editada a MP, abre-se a caixa de Pandora: parlamentares se movimentam e propõem medidas para tornar o sistema ainda mais benéfico, atendendo a interesses de grandes grupos econômicos (você já deve ter ouvido falar de propinas pagas em retribuição a emendas de MPs do Refis nas delações da Lava Jato).

O governo, desesperado por fazer caixa, acaba cedendo em alguma medida e o novo Refis é aprovado. O governo fica feliz. Os devedores ficam felizes.

Mas o uso reiterado do Refis gera uma péssima sinalização para quem deve pagar seus tributos em dia. E quem pode acaba jogando com a perspectiva de que, mais dia menos dia, uma nova crise fiscal virá e o governo lançará um novo Refis com suas benesses. O resultado é que o programa, destinado a regularizar o pagamento das dívidas, acaba estimulando o seu acúmulo.

É para garantir que problemas como o da expansão dos benefícios do Refis sejam resolvidos da melhor forma possível no Congresso que muitas empresas se aproximam dos políticos. E investem em doações de campanhas (não se iluda, o caixa dois não morreu com a Lava Jato), em lobby, em “relações institucionais”.

O jogo é tão benéfico que algumas empresas investem em parlamentares exclusivos, colocando em Brasília o dono, um sócio ou o administrador de seus negócios. Dessa forma eliminam-se os intermediários, como se vê nos números de proposição de emendas acima.

Para avançarmos com a agenda de reformas de que o Brasil Novo tanto necessita, precisamos limitar a forma de atuação do Brasil Velho. O exercício de mandato não pode ser visto como um trabalho de despachante ou de preposto de empresas especializadas em explorar as brechas do sistema, como Refis e medidas provisórias. Caso contrário, a porta continuará aberta à barganha e à corrupção.

Prioridade cega

Dia desses meditava sobre a pauta de julgamentos das câmaras criminais lá do Tribunal de Justiça. Entra ano, sai ano, e o tema nunca varia: quase sempre tráfico de entorpecentes. Por outro lado, não me recordo de ter passado por lá sequer um processo relativo à criminalidade digital! Um único que fosse, ao longo de mais de duas décadas!

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A propósito deste quadro - verdadeiramente mundial, registro - o chefe da Interpol, Khoo Boon Hui, lançou um sério alerta: 80% dos crimes cometidos através da Internet são fruto da ação de quadrilhas poderosas, de amplitude mundial.

Citando um estudo da "London Metropolitan University", acrescentou ele que este tipo de criminalidade tem causado mais prejuízos que o tráfico de cocaína, heroína e maconha somados. Estamos a falar de algo em torno de 750 bilhões de Euros a cada ano - somente na Europa!

Vamos a outro exemplo: vítimas da denominada "criminalidade tradicional", os bancos norte-americanos perdem, a cada ano, US$ 900 milhões - contra US$ 12 bilhões por conta da "cibercriminalidade".

Decidi buscar mais informações. Descobri que a África perdeu, em 2016, US$ 2 bilhões por conta deste delito. Na África do Sul, 70% dos habitantes já foram vítimas da criminalidade digital. Na Alemanha, uma a cada três empresas sofre ataques digitais. Em Israel, são inacreditáveis 1.000 ataques a cada minuto.

Na América Latina, os roubos tradicionais a bancos respondem por apenas 1,5% do problema, contra 98,5% dos praticados pela Internet. O Brasil, segundo levantamento realizado pela empresa Kaspersky, é a vítima maior a nível planetário, com números superiores aos da Rússia e Alemanha, que o seguem.

Recente cálculo da seguradora britânica Lloyd’s demonstrou que um único ataque, se praticado em escala global, pode custar até US$ 121 bilhões de dólares para suas vítimas.

Esta questão adquire contornos ainda mais sérios quando afeta e até mesmo coopta a geração seguinte. Na Austrália, por exemplo, 9.860 crianças foram presas ou processadas por conta de terem aderido a esta forma de crime - isto no já distante ano de 2008.

Enquanto isso ocorre, lá estão nossos melhores policiais e juízes, sufocados pela burocracia regionalizada em um mundo globalizado, combatendo sem êxito um problema que, segundo a ONU, é antes de tudo de saúde pública.

Pedro Valls Feu Rosa

Gays e crianças como moeda eleitoral

O fechamento da mostra Queer Museum – Cartografia da Diferença na Arte Brasileira aponta a crescente articulação entre setores da política tradicional e milícias como o Movimento Brasil Livre (MBL). Essa articulação está desenhando o Brasil deste momento – e poderá ter muita influência na eleição de 2018. Nesta coligação não formalizada, velhas táticas ganham aparência de novidade pelo uso das redes sociais, com enorme eficiência de comunicação. É velho e novo ao mesmo tempo. A vítima maior não é a arte ou a liberdade de expressão, mas os mesmos de sempre: os mais frágeis, os primeiros a morrer.

A exposição era exibida desde 15 de agosto, em Porto Alegre, no Santander Cultural. Contava com obras de artistas brasileiros de diversas gerações, como Cândido Portinari, Alfredo Volpi, Ligia Clark, Leonilson e Adriana Varejão. É justamente de Varejão uma das obras mais atacadas: “Cenas do interior 2” tem quatro imagens de atos sexuais, incluindo sexo com um animal. Outra obra demonizada foi a de Bia Leite, que expôs desenhos baseados em frases e imagens do Tumblr “Criança Viada”, que reúne fotos enviadas por internautas deles mesmos na infância. Liderados por milícias como o MBL, pessoas começaram a ofender o público da mostra e a acusar os artistas de promover a “pedofilia”, a “zoofilia” e a “sensualização precoce de crianças”. As milícias também promoveram um boicote ao banco. O Santander recuou, e a exposição, que deveria se estender até outubro, foi encerrada.

O MBL, uma das milícias que lideraram os ataques à exposição, foi um dos principais articuladores das manifestações contra o PT e pelo impeachment de Dilma Rousseff, que levaram às ruas milhões de brasileiros vestidos de amarelo. Na ocasião, sua bandeira era a luta contra a “corrupção”. E propagavam ideias “liberais”. Como bem apontou Pablo Ortellado, em sua coluna na Folha de S. Paulo, o MBL descobriu que “as chamadas ‘guerras culturais’ eram um ótimo instrumento de mobilização e que por meio do discurso punitivista e contrário aos movimentos feminista, negro e LGBTT podiam atrair conservadores morais para a causa liberal”. Passaram então a gritar contra as cotas raciais, o aumento do encarceramento (num país em que a maioria dos presos é composta por negros) e um projeto que espertamente foi batizado de “Escola Sem Partido”.

Mas qual é o contexto e o que o MBL e outras milícias semelhantes defendem? Se este tipo de grupo se formou erguendo a bandeira da “anticorrupção” e não promove nenhuma manifestação nas ruas contra um presidente denunciado duas vezes e um dos governos mais corruptos da história do Brasil, é possível levantar a hipótese bastante óbvia de que a “corrupção” nunca foi o alvo.

Quando são citados na imprensa, MBL e assemelhados são tachados de “conservadores” e “liberais”. Isso os coloca sempre num polo contra outro polo, o que é essencial para este tipo de milícia sobreviver, se replicar e agir em rede. E dá a estas milícias uma consistência que não condiz com a realidade de seu conteúdo. Liberais de fato jamais tentariam fechar uma mostra de arte, para ficar apenas num exemplo. Nem faz sentido dizer que são “conservadores” ou mesmo de “direita”. Eles são o que lhes for conveniente ser.

A dificuldade de nomear o que são, é importante perceber, os favorece. E acabam se beneficiando de rótulos aos quais lhes interessa estar associados num momento ou outro e que lhes emprestam um conteúdo que não possuem, mas do qual sempre podem escapar quando lhes convêm. Neste sentido, apesar de exibirem como imagem um corpo compacto, essas milícias são fluidas. Embora ajam sobre os corpos, não há corpo algum. Isso lhes facilita se moverem, por exemplo, da luta anticorrupção para as bandeiras morais, agora que não lhes interessa mais derrubar o presidente.

Cena de interior II, da artista Adriana Varejão,
no "Queer Museum – Cartografia da Diferença na Arte"
A descoberta de que temas “morais” são uma excelente moeda de barganha não é prerrogativa do MBL e de seus assemelhados. Esta moeda sempre esteve em circulação. Na Nova República, que se seguiu à ditadura civil-militar (1964-1985), ela esteve na primeira eleição presidencial da redemocratização, quando Fernando Collor de Mello, que depois se tornaria o primeiro presidente a sofrer impeachment, usou fartamente contra Lula o fato de que ele tinha uma filha de uma relação anterior ao seu casamento com Marisa Letícia e que teria sugerido um aborto à então namorada.O que se pode afirmar sobre milícias como o MBL é que elas têm um projeto de poder – ou têm um poder que pode servir a determinados projetos de poder. O poder destas milícias está em mostrar que são capazes de se comunicar com as massas e, portanto, de influenciar tanto eleitores quando odiadores, num momento histórico em que estas duas identidades se confundem. E este é um enorme poder, que claramente tem sido colocado a serviço de políticos e de partidos tradicionais. Além e principalmente, claro, de a serviço de seu próprio benefício.

Mas o marco fundador do que vivemos hoje pode ser localizado bem mais tarde, na eleição de 2010. Naquele momento, ao perceber o potencial eleitoral do crescimento dos evangélicos no Brasil, em especial dos neopentecostais, alguns oportunistas perceberam que jogar o tema do aborto no palanque poderia ser conveniente. Tanto para conquistar o voto religioso quanto para derrubar opositores.

No final do primeiro turno de 2010, a internet e as ruas foram tomadas por uma campanha anônima, na qual se afirmava que Dilma Rousseff era “abortista” e “assassina de fetos”. Rousseff começou a perder votos entre os evangélicos e parte dos bispos e padres católicos exortou os fiéis a não votar nela. José Serra (PSDB) empenhou-se em tirar proveito do ataque vindo das catacumbas, determinando o rumo da campanha dali em diante. E Rousseff correu a buscar o apoio de religiosos, acabando por escrever uma carta declarando-se “pessoalmente contra o aborto”. Nela, comprometia-se, em caso de vencer a eleição, a não propor nenhuma medida para alterar a legislação sobre o tema.

Quem peregrinou por templos evangélicos defendendo Rousseff e garantindo que ela era contra o aborto foi justamente Eduardo Cunha (PMDB), que depois lideraria o processo de impeachment da presidente eleita e hoje está preso. Naquele momento, o debate político, que nas eleições anteriores tinha se mantido dentro de certos parâmetros éticos, foi rebaixado. E os oportunistas religiosos e não religiosos farejaram que estes eram o temas com que poderiam garantir vantagens para si mesmos e para seus grupos, traficando-os no balcão de negócios de Brasília. Quando os limites são superados, mesmo aqueles que promoveram a sua superação não são capazes de prever até onde isso pode chegar. Desde então, o corpo de mulheres e de gays, lésbicas, travestis e transexuais tornou-se uma das principais moedas de barganha eleitoral.

As milícias rapidamente compreenderam esse potencial. Seu trunfo é comprovar que podem levar as massas para onde quiserem, o que as torna valiosas para políticos com grandes ambições eleitorais e valiosas para seus líderes com ambições eleitorais. Mas só podem levá-las porque se comunicam com uma população que se sente cada vez mais insegura e desamparada e que é a primeira a sofrer com a crise econômica e a crescente dureza dos dias sem saúde, sem escola, sem serviços básicos, enquanto assiste a um noticiário que é quase todo ele sobre malas de dinheiro da corrupção. Uma população que há anos tem sido treinada por programas policialescos/sensacionalistas na TV que atribuem todas as dificuldades a facínoras à solta, adestrando-a a ver as mazelas da vida cotidiana como culpa de alguém que pode e deve ser eliminado – e não a uma estrutura mais complexa que a mantém cimentada no lugar dos explorados.

As milícias compreendem o potencial desse medo e desse ódio. E sabem se comunicar com esse medo e esse ódio. Encontraram o canal, o ponto a ser tocado. Encontrado o canal, o inimigo pode ser mudado conforme a conveniência. Se agora não interessa derrubar o presidente denunciado por corrupção, há que se encontrar um outro alvo para canalizar esse ódio e esse medo e manter o número de seguidores cativos e, de preferência, crescendo, atingindo públicos mais amplos. E, principalmente, manter o valor de mercado das milícias em alta, em especial às vésperas de uma campanha eleitoral das mais imprevisíveis

Leia mais o artigo de Eliane Brum
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sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Corda em casa de enforcado

Como será o trabalho de Raquel Dodge? Eis uma pergunta que ainda não se pode responder. Quase todos se revelam – e às vezes se transformam – no curso dos acontecimentos.

A imprensa registrou a omissão da Lava Jato no discurso de posse de Dodge. De fato, ignorou algo de repercussão internacional. Mas talvez, diante de três componentes da mesa investigados pela Lava Jato, Dodge tenha preferido, como se dizia na infância, não falar de corda em casa de enforcado.

No momento atual, deve fazer correções nos acordos de delação premiada dos donos da JBS. E a decisão de Janot em denunciar Temer de novo deve ocupar o centro da cena. As previsões são quase unânimes de que Temer escapará na Câmara.


O Brasil continuará sendo dirigido por um homem acusado de dirigir uma organização criminosa, com o respaldo da Câmara. E não vejo grandes reações a isso no horizonte. A leitura da denúncia de Janot me dá uma pista para entender a passividade popular diante de mais uma denúncia rejeitada.

A denúncia afirma que o Brasil era dirigido por uma organização criminosa, no governo PT, e que a passagem do poder, pós-impeachment, mudou o comando do processo de corrupção. Em suma, houve uma troca de quadrilhas no topo do poder.

Imagino que as pessoas se perguntem: se o impeachment provocou apenas uma troca de quadrilhas, por que a queda de Temer não traria outra quadrilha ao governo? A sociedade tornou-se refém de um sistema político partidário fracassado.

Temer, segundo as pesquisas, está com 3,4% de aprovação. Alguns membros da quadrilha, Cunha, Henrique Alves e Geddel, além do operador Lúcio Funaro, estão presos. Os restantes, Padilha e Moreira Franco, foram denunciados. Sua expectativa é a estabilidade econômica e algum crescimento. Ele acha que com isso responde aos problemas específicos colocados pelo seu desgaste. Curioso como se aproxima do PT na supervalorização do crescimento material, uma espécie de cura para todos os crimes denunciados.

É um modo de pensar que exclui os valores democráticos e reduz as pessoas ao universo do consumo. A suposição é de que elas aceitam tudo, desde que estejam ganhando um pouco mais.

A denúncia será julgada naquele clima que conhecemos e avaliada de acordo com as orientações políticas de cada um. No entanto, o volume de informações existentes, a prisão de vários componentes do grupo, o realismo fantástico daquelas malas cheias de dinheiro de Geddel... Tudo isso não sai da memória tão cedo. Como não saiu o deputado Rocha Loures correndo com a mala da pizzaria. A cena foi repetida tantas vezes que, no final, eu mesmo dizia: lá vai o Rocha Loures com sua mala a caminho do táxi.

Mesmo sendo leigo em Direito Penal, a gente ouve falar em quadrilha, vê tanta mala cheia de dinheiro, pensa em quadrilha. E até hoje não há explicação para elas, uma fortuna familiar, um novo modo de entregar pizzas. As malas são concretas, as contas no exterior, apenas dados bancários.

Muita gente pensa que a rejeição da denúncia passará em branco talvez porque espere demonstrações de rua. Hoje o descontentamento é crônico e às vezes aparece pontualmente, em palcos, gritos de “fora Temer”. Daqui a pouco, os 3% vão-se embora, ficam 0,4%.

Até as forças de oposição parecem contentar-se com Temer sangrando. E alguns analistas chegam a prever uma vitória da corrupção, com mudanças na Lava Jato. Nem todos os dados estão lançados. A descoberta dos R$ 51 milhões com a impressão dos dedos de Geddel, isso ainda vai ser explicado. Não é possível que se apreenda tanto dinheiro, um recorde histórico, e não se explique sua origem.

De todas as maneiras, creio, o Brasil vai tentar se livrar desse gigantesco esquema de corrupção que domina o País e foi revelado, na maioria de seus lances, com muita competência pelas investigações.

O The Guardian reproduziu esta semana uma matéria portuguesa falando dos empreiteiros envolvidos na Lava Jato que compraram imóveis para garantir um visto de residência definitiva por lá. Está dentro da lei portuguesa que estimula o investimento imobiliário no país.

Mas as manchetes revelam o interesse internacional pela Lava Jato, mesmo fora da América Latina, onde, com dinheiro do BNDES, a Odebrecht fez um estrago. Recentemente, os bancos suíços admitiram, no pós-Lava Jato, uma mudança de regras no sentido de tornar mais difícil o fluxo de dinheiro da corrupção. Um ganho planetário, uma vez que os brasileiros não descobriram o caminho nem foram os únicos a usar bancos suíços.

Além do apoio popular, são muitas as razões para achar a Lava Jato irreversível. Colocaram o bode na sala e simplesmente será impossível ignorá-lo.

Não sei como o País reagiria se fosse golpeado em sua expectativa de julgamento dessas quadrilhas. Muitos políticos continuam contando com a paciência popular. Não percebem que, ultrapassados certos limites, eles próprios podem pôr-se num risco maior que a prisão.

Supor que ainda possam prevalecer diante da Lava Jato e a pressão popular imaginar o País derrotado por um sistema político-partidário arruinado moralmente é lembrar o pior dos mundos. O triunfo do agonizante sobre uma sociedade cada vez mais informada.

Estou consciente de que minha calma se baseia numa análise mais ampla. Peripécias podem acontecer. Como a delação da JBS, que se mostrou um erro, apesar das provas colhidas.

Todos foram informados de que o Brasil foi dirigido por quadrilhas. É importante encontrar um desfecho legal e pacífico para essa descoberta. A teimosia dos políticos em combater a Lava Jato pode levar não só a reações violentas, como também estimular discursos de intervenção militar, muito presentes nas redes sociais.

Apesar da confiança no rumo geral, há esta inquietação tática: quanto tempo os políticos vão levar para compreender que o jogo acabou?

Mais alto é o tombo

Os fatos e os atos decorrentes deles mostram que está absolutamente caduco o uso do condicional em relação à alegada candidatura de Lula da Silva à Presidência em 2018, uma vez que resta demonstrada a impossibilidade real da volta dele à chefia da nação que seu partido saqueou e deixou que aliados saqueassem.

Nenhuma das costumeiras condicionantes (caso não seja ficha-suja, não esteja preso e ainda lidere as pesquisas de opinião quando estas refletirem de fato intenção de voto e não mais a exposição midiática do personagem) vale coisa alguma diante da seguinte realidade: o cavalo já não passará mais selado diante de um Lula que perdeu densidade, credibilidade, popularidade, capacidade de atrair aliados. Perdeu principalmente a condição de mobilizar recursos desde que a Lava-Jato começou a lhe retirar oxigênio político e cortar os dutos financeiros do PT.

Nenhum texto alternativo automático disponível.

O processo tem sido lento, mas constante. No ano passado, a condução coercitiva provocou comoção, e o organograma do Ministério Público desenhando sua posição de chefe do esquema corrupto de sustentação de poder virou motivo de chacota. Já o primeiro depoimento a Sergio Moro movimentou bem menos emoções, e o segundo, no último dia 13, exibiu um homem ciente de seu destino: nervoso, arrogante, insolente e desrespeitoso. Provocou, sem sucesso, o juiz como quem dissesse: perdido por um, perdido por mil, na tentativa de colher de Sergio Moro reação que pudesse ser apontada como “prova” de que é alvo de ódio e, portanto, de perseguição, insidiosa parcialidade.

Se nada mais fornecesse mostras da trajetória de ilicitudes percorrida pelo PT, duas evidências produzidas pelo próprio partido serviriam de perfeita ilustração. A primeira, a pindaíba em que anda o partido, desprovido de recursos lícitos e impossibilitado de se utilizar de ilícitos eventualmente ainda ocultos devido ao olho vivo da polícia e do Ministério Público, aos processos, bloqueio de contas e prisões.

O segundo destaque é a decisão do PT de expulsar Antonio Palocci em razão das acusações feitas a Lula, enquanto não viu nada de mais no fato de o ex-ministro estar preso há um ano e desde junho condenado a doze anos por corrupção e lavagem de dinheiro. Astucioso dissimulado (inteligente, não necessariamente esperto, ao contrário de Lula), Palocci fez um relato em que figura como homem correto, sempre atento aos ditames da lei.

No depoimento a Moro, ele estava no direito de não produzir provas nem indícios contra si. Situação diferente dar-se-á quando, e se, sua delação premiada vier a ser aceita pelo MP e homologada pelo Supremo Tribunal Federal. Nessa ocasião, caso venha a ocorrer, o ato de assumir os crimes para revelar como os cometeu em parceria ou sob as ordens do(s) parceiro(s) é parte indispensável do processo de tentar a obtenção de benefícios. Aí ficará mais difícil, para não dizer impossível, Lula da Silva escapar do destino que construiu. Com a desvantagem de, na condição de ocupante do topo da cadeia alimentar da corrupção, não contar com a possibilidade da delação para fazer jus a benefícios.

Paisagem brasileira

Paisagem com árvore, Torquato Bassi

Os coxinhas LGBT

O Brasil tinha 200 milhões de técnicos de futebol, mas eles mudaram de emprego. Agora são 200 milhões de fiscais ideológicos. Todos prontos para dar carteiradas solenes a cada esquina do espectro esquerda x direita – ou seja, no mundo da lua. O circo sangrento está animado (a guerra é de ketchup, mas impressiona) e o caso da exposição do Santander espirrou sangue cenográfico por todo lado. Naturalmente, como sempre ocorre por aqui, a polêmica soterrou o que interessa.

A decisão dos organizadores de suspender o evento em Porto Alegre, após protestos contra uma suposta catequese homossexual no universo infantil (ou algo assim, tanto faz), virou festa para moralistas e demagogos – que foram feitos uns para os outros. Um falso profeta da liberdade de expressão reza todos os dias para topar com um plantonista decrépito da moralidade familiar, e vice-versa. Quando se dá essa conjunção mágica, ambos sacam radiantes seus estandartes e panfletos, capricham na coreografia para delírio dos respectivos fiéis e voltam para suas tocas de barriga cheia. É bom para todo mundo.

essa mercantilização de causas sexuais, raciais e sociais virou uma praga – um tsunami de butique altamente lucrativo nos balcões eleitorais

Menos para o pessoal do outro mundo – um que fica bem abaixo da lua. Esse aí não está achando a menor graça no debate do caso Santander, porque sabe que direita x esquerda é um dilema mentiroso, feito para esconder a covardia intelectual sob etiquetas sem nada dentro. Claro que quem quiser detestar e boicotar tem todo o direito de fazê-lo, assim como quem quiser expor e adorar a bizarrice que seja, chamando ou não de arte, também tem. E chega de perder tempo com lições primárias. O papo é outro.

O que interessa da reação à exposição Queermuseu é a crítica ao arrastão mercadológico das pautas politicamente corretas. Minoria defendia sua avó. O movimento gay eclodiu em San Francisco há meio século. Qualquer ativista sério da causa homossexual nos dias de hoje acha ridículo quem usa orgulho gay para se fantasiar de vanguarda. Estes são os coxinhas LGBT. E essa mercantilização de causas sexuais, raciais e sociais virou uma praga – um tsunami de butique altamente lucrativo nos balcões eleitorais, comerciais, de marketing e de reputações, invariavelmente atrapalhando a defesa da própria causa original.

Aí vem o outro batendo no peito e dizendo que era um grande banco realizando a exposição com dinheiro público, “o meu dinheiro” etc. Ok, companheiro, mas a má notícia é que nessa pornografia o buraco é mais embaixo: fique à vontade para reclamar, de boca cheia (com todo o respeito), do uso do dinheiro privado também. Traduzindo: a praga politicamente correta dominou as oportunidades de mercado, produzindo uma fenomenal hegemonia da burrice.

Do autor de telenovela ao dono da emissora, do patrocinador esportivo ao pesquisador universitário, passando pelo vereador e pelo camelô da esquina, todos sabem que projeto com proselitismo coitado é vendedor. O enésimo recital de pieguice racial ou sexual, que pelo teor demagógico já é em si uma afronta à própria vítima que finge defender, está fadado ao sucesso. Não tem erro. Sim, é assustador – assustadoramente real. O pobre coitado do marketing do Santander não tinha dúvidas de que convidar crianças recém-alfabetizadas para uma imersão estética pansexual era o melhor que ele fazia por seu emprego.

O tiro saiu pela culatra – e é claro que oportunistas dos dois lados estão na sua guerra sangrenta de ketchup discutindo se foi censura ou se foi uma ofensa à família brasileira. Mas o banco e o mercado, que nada têm a ver com a dicotomia dos lunáticos, estão convidados a entender esse boicote agressivo e surpreendente como o que ele de fato foi, acima de tudo: uma reação de saturação a uma doutrinação idiota, que finge afirmar valores nobres para vender seu peixe.

É a mesma malandragem que queria retocar a obra de Monteiro Lobato por suposta luta contra o racismo – o que os libertários de porta de assembleia não viram como censura, claro, mas como libertação. O truque ficou velho, companheiros, e cada vez mais gente perceberá que seu falso heroísmo não ajuda em nada os negros, os gays e quem mais vocês pasteurizam.

O grande ato de respeito à diferença que se espera do Brasil no momento é quebrar a espinha do totalitarismo politicamente correto.

Camelô de pesquisa acha que o Brasil é um viveiro de idiotas

Gilberto Carvalho, o ex-seminarista que jamais decorou a segunda parte do Salve Rainha e virou coroinha de missa negra, é a caixa-preta que esconde, entre outros pecados mortais, os cometidos pelo PT em Santo André. Pois o guardião dos segredos que envolvem o assassinato do prefeito Celso Daniel tem mais chances de virar papa do que tem Lula de continuar em liberdade. Mesmo assim, os armazéns de secos, molhados e pesquisas eleitorais continuam tratando Lula como candidato a presidente, acima e à margem das leis. Começando pela Lei da Ficha Limpa.

É mais fácil um José Dirceu arrepender-se do que fez e pretende fazer, e chorar lágrimas de esguicho sentado no meio-fio como na imagem esplêndida de Nelson Rodrigues, do que um corrupto condenado a 9 anos e meio de cadeia (por enquanto) sobreviver ao tiroteio de uma campanha presidencial, municiado por cataratas de revelações ainda sigilosas. Antonio Palocci já mostrou seu poder destrutivo com uma pequena amostra das tenebrosas transações em que Lula se meteu. Mesmo assim, os camelôs de porcentagens fazem de conta que o demagogo agonizante lidera sem sobressaltos a corrida que só terminará em novembro de 2018.

Nenhum texto alternativo automático disponível.

Um candidato rejeitado por mais de 50% do eleitorado tem tantas chances de vencer uma disputa eleitoral quanto tem Dilma Rousseff de fabricar uma frase com começo, meio e fim ─ e sem assassinar o erre final do verbo no infinitivo. Mas os feirantes que oferecem estatísticas ao gosto do freguês camuflam em gráficos miúdos a informação essencial: ultrapassa metade do total a demasia de eleitores que não votarão em Lula de jeito nenhum.

O combate à corrupção tem catacumbas mais urgentes a sanear. Mas não vai demorar o dia em que o Brasil decente terá o prazer de acompanhar, de camarote, a devassa dos institutos de pesquisa que tratam os brasileiros como se fôssemos um bando de idiotas.

Mãos sujas

Destina-se a produzir espuma e mais nada a segunda denúncia por corrupção contra o presidente Michel Temer remetida, ontem, à Câmara dos Deputados pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Não que se trate de uma denúncia vazia. Não é. E assim o demonstrou fartamente o voto do ministro Luís Roberto Barroso, na linha do voto do relator do caso, o ministro Edson Fachin.

Haveria razões de sobra para que fosse aprovada na Câmara. Ao STF, depois, caberia examiná-la e decidir por seu acolhimento ou não. Uma vez acolhida, Temer responderia a processo.


Falta à Câmara, porém, sensatez, espírito público e compromisso com a busca da verdade. Sobra medo. Preferirá pela segunda vez a solução de deixar no poder um presidente sob suspeita.

O que seria pior? Permitir que a Justiça investigasse um presidente alvo de tão graves acusações? Ou condenar o país à incerteza sobre se permanecerá sendo governado por um criminoso ou inocente?

A escolha da Câmara já foi feita. Não haverá, ali, os 342 votos necessários para a aprovação da denúncia. Temer, de fato, é refém do Congresso. Mas o Congresso é também refém dele.

Sem uma larga maioria de votos no Congresso nenhum presidente governa. Mas nenhum Congresso integrado por tantos pecadores como este é capaz de salvar-se sem um aliado na presidência.

Um presidente pode muito – e mesmo sem apoio popular, Temer tem demonstrado que pode. Uma mão, portanto, lavará a outra. Ao fim e ao cabo, as duas continuarão sujas.

Imagem do Dia

A una hora en coche desde San Sebastián, la línea de tierra y el mar se entrelazan en la playa de Sakoneta, que luce su mayor esplendor con la marea baja. La erosión ha labrado en el suelo y las paredes de este acantilado curiosas formaciones de patrón continuo y vertical, denominadas flysch, integradas dentro Geoparque de la Costa Vasca (geoparkea.com).
Praia de Sakoneta, em Gipuzkoa (Espanha)

Moralismo e autoritarismo

Uma série de decisões absurdas tomadas nos últimos dias pela Justiça vem, infelizmente, corroborar a ideia de que a sociedade brasileira está padecendo de uma gravíssima enfermidade. Não bastasse andarmos assolados pela corrupção, pela violência urbana, pelo caos do sistema de saúde, pela mediocridade do ensino, vamos sendo asfixiados por um moralismo fundamentalista inimaginável até alguns anos atrás, que pouco a pouco pavimenta a estrada para a entronização do autoritarismo político. Pois, senão, vejamos.

No dia 20 de janeiro de 2016, ao descobrir que a filha de 13 anos havia perdido a virgindade, o pai espancou-a com um cabo elétrico, causando oito lesões de 22 centímetros nas costas, e ainda humilhou-a, cortando seus cabelos com uma tesoura. Na semana passada, o réu foi inocentado pelo juiz Leandro Jorge Bittencourt Cano, do Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Guarulhos (SP), que afirmou em sua sentença que o pai buscou apenas corrigir a garota. “O agente aplicou moderadamente uma correção física contra a sua filha, gerando uma lesão de natureza leve”. Ele também disse que caso tivesse uma filha e ela cometesse o mesmo ato, tomaria idêntica atitude. “Quanto ao corte dos cabelos, ao que tudo indica, a finalidade do réu não era de humilhar a filha. A intenção dele era que a filha não saísse de casa”, concluiu o condescendente juiz...

Já Waldemar Cláudio de Carvalho, juiz federal da 14ª Vara do Distrito Federal, concedeu liminar ao pedido da psicóloga Rozângela Alves Justino, em processo contra o Conselho Federal de Psicologia (CFP), que lhe havia aplicado censura por oferecer uma terapia de reversão sexual a seus pacientes, conhecida como cura gay. Segundo o juiz, não deve o psicólogo deixar “de estudar ou atender àqueles que voluntariamente venham em busca de orientação acerca de sua sexualidade, sem qualquer forma de censura". Rozângela é membro do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos e uma das fundadoras do Exodus Brasil, organização cristã interdenominacional, subordinada ao Exodus Global Alliance, que tem como objetivo “unificar e equipar cristãos para ministrar o poder transformador de Jesus Cristo àqueles de alguma maneira envolvidos na homossexualidade”...

Em Jundiaí (SP), o juiz Luiz Antônio de Campos Júnior, da 1ª Vara Cível, decidiu impedir a exibição da peça de teatro O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu,que estava em cartaz na unidade local do Serviço Social do Comércio (Sesc). A obra, criada pela dramaturga escocesa transexual Jo Clifford, mostra Jesus Cristo nos dias atuais, encarnado na pele de uma mulher transexual. Segundo o juiz, a peça é “atentatória à dignidade da fé cristã, na qual Jesus Cristo não é uma imagem e muito menos um objeto de adoração apenas, mas sim o filho de Deus”...

Sem precisar recorrer à Justiça, o Movimento Brasil Livre (MBL) conseguiu acabar com a exposição “Queermuseu – Cartografias da diferença na arte brasileira”, que estava no Santander Cultural, em Porto Alegre (RS). A mostra, que propunha uma reflexão sobre gênero e diversidade sexual, reunia 273 obras de 90 artistas brasileiros, entre os quais Ligia Clark, Candido Portinari, Alfredo Volpi e Adriana Varejão. Segundo a Arquidiocese de Porto Alegre, a exposição utilizava “de forma desrespeitosa símbolos, elementos e imagens, caricaturando a fé católica e a concepção de moral que enleva o corpo humano e a sexualidade como dom de Deus”...

Moralismo fundamentalista e autoritarismo político sempre andam de mãos dadas. Por isso, não é surpreendente que essas decisões judiciais – três exemplos entre muitos – ocorram no momento mesmo em que um general do Exército, Antônio Hamilton Martins Mourão, violando a hierarquia, afirma claramente que as Forças Armadas estão preparadas para intervir militarmente, caso o Judiciário não consiga resolver “o problema político”, referindo-se à corrupção que grassa no país. A fala do insubordinado general contou com o aplauso compreensivo do ex-capitão do Exército e pré-candidato à Presidência da República, deputado Jair Bolsonaro, que argumentou: “O general falou como um brasileiro qualquer que está indignado com esse estado de putrefação da política brasileira”...

Em São Paulo, os 18 jovens presos no ano passado, por participar de um protesto contra o presidente não eleito Michel Temer, acusados de associação criminosa e corrupção de menores, terão sua primeira audiência no dia 22. O Ministério Público Estadual justifica sua acusação por terem sido apreendidos com o grupo frascos de vinagre, materiais de primeiros socorros, um disco de metal e uma câmera fotográfica, além de uma barra de ferro, que, segundo os jovens, teria sido “plantada” por policiais.

Na época, o grupo contava com a participação entusiasmada de um certo Balta Nunes, que veio, no dia da prisão, revelar-se um agente infiltrado do Exército, o capitão Willian Pina Botelho. Excelente reportagem do EL PAÍS, publicada no dia 23 de outubro de 2016, assinada por Marina Rossi, mostrava a estranha e obscura ligação de Botelho com o general de brigada, Manuel Morata de Almeida, que participou do DOI-CODI nos fins dos anos 1970 e início dos 1980. Após o êxito de sua ação, Botelho foi promovido a major, “por merecimento”...

Civilização contra mediocridade

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O processo civilizatório existe para reprimir o mal e potencializar o bem. O sistema político brasileiro faz exatamente o contrário. Portanto, é preciso que o bem, o patriotismo e o idealismo sejam capazes de derrotar a corrupção, a mediocridade e o egoísmo
Ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal

Corrupção vira atração turística em Brasília

O placar foi esmagador. Por 10 votos a 1, o Supremo Tribunal Federal enviou à Câmara a segunda denúncia da Procuradoria contra Temer. O presidente é acusado agora de compor uma organização criminosa e de obstruir a tentativa da Justiça de desbaratar essa quadrilha. Em qualquer outro pedaço do planeta, um caso assim paralisaria um país. No Brasil, isso não significa nada. Todos sabem que esse processo, natimorto, será abortado na Câmara.

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A Constituição foi sábia ao condicionar um processo penal contra o presidente da República ao aval da Câmara. A ideia básica é injetar povo no processo. E quem representa o povo no Congresso, em tese, é a Câmara. No nosso sistema legislativo bicameral, o Senado representa os Estados da federação. O diabo é que o sistema faliu. A maioria dos deputados, com códigos de barras na lapela, representam o próprio bolso, não os eleitores.

A corrupção pode ganhar um novo proveito em Brasília: virou atração turística, como os monumentos de Niemeyer. Temer falou em Nova York que é culpado por associação. Disse o presidente: “Você encontra pessoas que tiram fotos com você, convivem com você, e aí praticam um ilícito qualquer. E você também vira delituoso.” Faz sentido.

Temer faz pose na companhia de ministros denunciados junto com ele como se posasse ao lado da cratera do Vesúvio, onde o perigo é apenas presumido. O problema é se os amigos presos do presidente, como Geddel Vieira Lima, resolverem entrar em erupção.

As vacas dos excrementos de ouro

Em meados da década de 1990, Wildpoldsried era uma cidade de criadores de gado e trabalhadores administrativos como qualquer outra do sul da Alemanha. Quase não havia trabalho, e os jovens migravam para os centros urbanos. Preocupados, seus habitantes se uniram e escreveram uma longa lista das necessidades mais prementes da cidade, que acabou sendo uma carta ao Papai Noel. Queriam uma piscina, um teatro, um consultório médico... Calcularam que levariam duas ou três gerações para conseguir tudo. Dez anos depois, todos os sonhos se tornaram realidade.

As vacas dos excrementos de ouro

Wildpoldsried protagonizou uma revolução energética que enriqueceu seus moradores e desperta a admiração de meio mundo. Esta cidade alemã, próxima da Áustria, é famosa por produzir sete vezes mais eletricidade do que consome investindo em energias renováveis. Conseguiram o feito graças a leis que favorecem as energias limpas e permitem que pequenos produtores vendam seus excedentes para a rede por um bom preço. A Alemanha se propôs a reduzir a dependência dos combustíveis fósseis estimulando o uso de energias renováveis e se tornou referência global em políticas climáticas. A produção de energias limpas disparou, mas teve um impacto limitado na redução de emissões poluentes. A política energética endividou as elétricas e fez com que as tarifas de energia disparassem.

“Estou fascinado com a ideia de que, do vento ou do excremento da vaca, possa sair energia. Se você pode cuidar do meio ambiente e ao mesmo tempo ganhar dinheiro, tanto melhor”, diz o pecuarista Wendelin Einsiedler

Mas a política, ou pelo menos os partidos, não tiveram nada a ver com o milagre de Wildpoldsried. Por isso, esta fábula verídica e excepcional ilustra até que ponto a proteção ambiental já é parte do DNA de muitos alemães, independentemente das preferências políticas. Reciclar o lixo, deslocar-se de bicicleta, comer alimentos orgânicos ou ser contra usinas nucleares há muito tempo deixou de ser patrimônio exclusivo dos ecologistas na Alemanha. E isso explica por que o então poderoso Partido Verde enfrenta baixa popularidade, vítima de um sucesso adverso. Suas ideias triunfaram e agora são adotadas por praticamente todos os partidos e, talvez por isso, os eleitores sentem que podem viver sem eles, como refletem as pesquisas. Apesar da queda – as pesquisas apontam que o partido tem cerca de 7% das intenções de voto –, os Verdes poderiam acabar sendo aliados do Governo no bloco conservador da primeira-ministra Angela Merkel, graças à aritmética das coalizões.

Os pecuaristas de Wildpoldsried produzem um famoso queijo de montanha dos Alpes da Allgäu, que ganha cada vez mais espaço nos mercados europeus. Graças às energias renováveis, muitos têm uma segunda renda, essencial para sua subsistência. Para Wendelin Einsiedler, a energia desprendida dos excrementos fermentados de suas queridas vacas, junto com os moinhos de vento e os painéis solares, equivale a 80% de sua renda. Suas 70 vacas produzem quantidades industriais de excrementos que alimentam a maior usina de biogás da cidade. Pouco mais da metade são excrementos de vacas, seguidos por capim, maçãs podres, batatas e biomassa em geral. Em um megadepósito, uma pasta de 800 toneladas de resíduos borbulha ao ritmo da fermentação.

Com camisa xadrez, barba e sorriso de orelha a orelha, o fazendeiro desce de seu trator abafado em um lindo dia ensolarado. Aos 61 anos, Einsiedler é pura cordialidade. “Estou fascinado com a ideia de que, do vento ou do excremento da vaca, possa sair energia. Se você pode cuidar do meio ambiente e ao mesmo tempo ganhar dinheiro, tanto melhor.” Einsiedler foi o pioneiro, o primeiro na cidade que decidiu investir em renováveis. Deu certo, e os outros o seguiram. “Este é o meu seguro para a velhice. O vento e o sol continuarão a me dar lucro, e acima de tudo com a consciência tranquila.”

No hotel ecológico da cidade, Günter Mögele, vice-prefeito de Wildpoldsried, conta que, quando a lista para o Papai Noel foi escrita e as finanças da cidade foram analisadas, os moradores perceberam que uma grande parte das despesas correspondia ao consumo de eletricidade. “Então pensamos: por que não produzimos nossa própria energia?”. Instalar um sistema de aquecimento central na cidade e livrar-se do óleo diesel foi um dos primeiros projetos. Hoje, 90% da energia de aquecimento vem do biogás de fazendas como a de Einsiedler. No total, 120 apartamentos e quatro empresas estão conectadas à rede.

 A solar e a eólica completam o coquetel energético que enriquece os vizinhos através de uma cooperativa da qual apenas os 2.600 habitantes do povoado podem ser sócios. O ginásio, a escola e a creche produzem mais do que consomem. A energia restante é vendida às companhias elétricas, graças à lei das energias renováveis (EEG, na sigla em alemão) do ano 2000, já copiada em dezenas de países, que garante um preço mínimo para o quilowatt de energia limpa. Os moradores de Wildpoldsried dizem ter recebido seis milhões de euros (22,4 milhões de reais) no ano passado com a venda da energia excedente. Boa parte desse dinheiro foi destinado a pagar a dívida que eles contraíram para montar a infraestrutura. O resto é embolsado.

O porão da turbina é um emaranhado de tubulações que transportam água quente. Num mapa pendurado ali podem ser vistos os quatro quilômetros da rede. Os moradores contam que, ao verem a turbina girar, pensam: “Aí vêm minhas próximas férias”.
Ana Carbajosa

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

A negação como método

É necessário ignorar e negar para viver. Mas alguns estudos revelam que, em muitas sociedades, ignorar é uma arte e negar, um método.

No Brasil, a negação é um método de demonstrar superioridade. “O que vem de baixo não me atinge”, falamos diante de um desafeto. As pedras (ou flechas) atiradas pelos inimigos não nos afetam. Pelo contrário, podem — como bumerangues — cair nos que ousaram nos atacar. Descobrir que isso tem mudado é um dos trabalhos da crise.

Anular o outro distingue sistemas aristocráticos imobilizados por posições sociais fixas das democracias marcadas pela mobilidade. O privilégio marca certos cargos e categorias sociais nas aristocracias. Nelas, uma mesma ação é crime se for feita por um indivíduo sem “eira ou beira” (sem relações), mas vira crise política se o seu praticante for “gente grande”.

A resistência extremada à igualdade perante a lei é o cerne da crise. Nela, as chamadas imunidades atreladas a certos cargos impedem qualquer processo. Seria absurdo sugerir que esse oceano de privilégios seria uma projeção da matriz aristocrática e escravocrata que vigorou de 1500 até 1889, no contexto republicano?
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Na monarquia, nobres, clero e povo tinham os seus códigos. Numa República proclamada a partir deste contexto (sem esquecer a escravidão), capitulou-se cuidadosamente os privilégios dos seus funcionários. Altas patentes, hoje chamados de assessores ou aspones — esses recebedores de mochilas, malas e caixas cheias de dinheiro sujo — são muito mais do que governantes. Eles passaram a ter foro privilegiado e, mais obsceno que isso, prescrição para seus crimes que têm o colarinho mais branco do que o de suas camisas.

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O viés aristocrático da burocracia republicana é um brasileirismo. A surpresa de Pedro II diante da maluquice republicana é significativa. Pois a maluquice é imaginar que se pode sair de uma monarquia para uma república sem crises e tumultos. As perenes crises republicanas — todas, aliás, muito semelhantes — resultam de uma revolução: a de tentar governar por meio do mérito individual uma sociedade de credo escravocrata e patriarcal. Republicanismo num contexto sócio-histórico patriarcal e escravocrata é muito mais revolucionário do que se pode imaginar. E as crises são o testemunho disso. Elas são chamadas de políticas mas, de fato, são crises sociais e de valores promovidas na sua totalidade por racionalidades opostas ou muito diferenciadas. Imaginar que a transição seria sem crise ou que a crise é defeito nosso é tão absurdo quanto pensar que os responsáveis por empresas estatais sejam indicados por suas capacidades e trabalhem para o bem do país, e não para os seus partidos e famílias.
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A passagem por golpe de uma monarquia a uma república não é algo trivial. Esse é o ponto.
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Somente no Brasil se pode imaginar que o trânsito de uma reciprocidade maussiana do dar para receber para os labirintos contratuais hobbesianos seria como tomar um sorvete ou ir ao cinema. Não é de graça que se substitui a mão visível do amigo preocupado em providenciar a propina, pela mão invisível de Mr. Adam Smith. Tal transformação é profunda, e a ausência dessa percepção engendra todo tipo de mal-entendidos. Um deles é fantasiar que o Estado deve “corrigir” ou “curar” a sociedade.

Não se pode negar o papel de impulsionar do Estado, mas isso não é igual a ele atribuir uma onipotência que em todo lugar resultou em totalitarismo e, no Brasil hodierno, nesta vasta roubalheira.
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Estou dizendo que a República foi um erro ou que ela é historicamente impossível no Brasil? De modo algum. Só os imbecis negam o que foi feito. Mas como não apontar que a crise brasileira é sistêmica e que ela tem um elo profundo com a tentativa largamente inconsciente de operar com valores opostos sem discuti-los.
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O que espanta na construção da democracia à brasileira é a inocência cultural relativa ao seu funcionamento. Inocência da qual os malandros se aproveitam.
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A “corrupção” é o resultado na intrusão do passado no presente. Um anacronismo que reproduz no novo regime as práticas recorrentes dos tempos do rei e dos déspotas porque sua força simbólica sempre foi subestimada. E o poder da política como uma engenharia sem consequências sociais sempre foi superestimada.
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A negação como narrativa — ninguém cometeu nenhum crime, tudo foi inventado, MAS... ninguém é de ferro — nada mais é do que a consequência da descoberta da democracia. Hoje sabemos que ela não é uma utopia; que ela é alérgica a privilégios e tem como ideal a igualdade. Essa igualdade que é, de longe, o maior problema brasileiro.
Roberto DaMatta

Simples e complexo

Em que pese o desgosto com o momento, percebe-se relativo aumento do interesse pela política. Não se trata ainda de mobilização; como uma onda, o envolvimento começa pequeno, ainda que no seio das elites. Aqui e acolá, grupos se reúnem com preocupações que raramente se expressavam no passado: mais profundamente, quer-se compreender o que se passa; lentamente, se entende que não basta trocar as moscas.

O país, de fato, tem carecido de discussão de melhor nível; reflexões, que não se alimentem de rancor, podem gerar mobilização de melhor qualidade, libertada do senso comum e do preconceito. A participação da elite, em qualquer país, é sempre importante — se souber se abrir para o mundo que a cerca e se desvencilhar do senso comum. Fugir do simplismo, conciliar o simples e o complexo.

O discurso a respeito da ''gestão'', por exemplo, precisa de urgente qualificação. Gestão (de qualidade) é, obviamente, necessária. A política sem gestão é voluntarismo; ineficiência que resultará no caos. Contudo, os problemas da sociedade são sempre mais complexos do que dizem os manuais e os gerentes e nem tudo se limita a estabelecer uma boa rotina operacional.

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Há uma infinidade de questões impossíveis de serem quantificadas; idiossincrasias, choque de valores, disputas de poder, manutenção de privilégios. Nem a meritocracia é capaz de se sustentar quando não há, antes, igualdade de condições. As regras e normas ajudam, princípios também. Mas nem sempre dão conta da amplitude do mundo real. Gerir a política não é tão simples quanto gerir uma empresa.

A começar pelo fato de o governante não ser um patrão e, tampouco, os agentes políticos e cidadãos são seus funcionários. Há que distinguir a natureza das coisas: gestão é técnica, conhecimento é ciência; política é arte. É necessário casar os três elementos.

Um governante pode dar ordens, é claro. Mas, nada garante que serão atendidas. Numa sociedade democrática, pouco depende apenas de vontade ou hierarquia. A obediência reside, antes, na lei. E, ainda assim, a lei só será assimilada pela íntima adesão individual e pelos pactos sociais. Apenas em última instância, pela força.

Winston Churchill teria, evidentemente, algo a aprender com Akio Morita ou Jack Welch, mas muito mais haveria o que pudesse lhes ensinar. A visão de futuro é essencial, a capacidade de comunicar, persuadir e envolver são valiosas. O estatuto, o regulamento e a possibilidade de coerção, a partir do salário, contam muito pouco.

Um governante pode ter o controle de uma máquina pública, mas dará à sociedade o que ela quer e necessita? Saberá convencer a maioria os porquês de sua ação e o sentido de suas prioridades? Conseguirá juntar vontades e formar consensos, consolidar crenças e mobilizar?

Difícil acreditar na gestão sem política. Grandes CEOs, de verdade, compreendem isso e, num âmbito menor, percebem que desempenham habilidades políticas. Não se trata apenas de foco, mas também de sensibilidade; não se trata apenas de carisma, mas também de justificativas racionais aceitas por todos ou, pelo menos, pela maioria.

Esta é a primeira questão para a elite econômica que pretende se voltar para a política: entender que algumas ideias são palavras soltas; às vezes, palavras gastas. Uma ideia de todo tola, se estiver solteira do mundo real. Como uma imagem de Picasso, a realidade é, ao mesmo tempo, simples e complexa. Democracia não é força; é jeito. O poder nem sempre pode tudo.

Carlos Melo

Gente fora do mapa

Rohingya
Campo de refugiados de Balukhali (Bangladesh), Allison HJoyce

Para que a existência valha a pena

Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos — para não morrermos soterrados na poeira da banalidade, embora pareça que ainda estamos vivos.

Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido.

Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo.

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Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero me tornar ou já fui. Muita inquietação por baixo das águas do cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: “Parar pra pensar, nem pensar!”

O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na frente da tevê ou do computador. Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação.

Sem ter programado, a gente pára pra pensar.

Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas. Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se.

Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto.

Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado no urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida.

Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar.

Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo.

Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos. Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem.

Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.

Parece fácil: “escrever a respeito das coisas é fácil”, já me disseram. Eu sei. Mas não é preciso realizar nada de espetacular, nem desejar nada excepcional. Não é preciso nem mesmo ser brilhante, importante, admirado.

Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança.

Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade. Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for.

E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.

Desonestidade diplomada

O sistema partidário hoje no Brasil, triste como seja, é a institucionalização da desonestidade
Ministro Luís Roberto Barroso, do STF

O paradoxo Temer

Estranho país, este. Estranhíssimo. Contrariando as leis universais da política, à medida que Michel Temer perde apoio popular crescem suas chances de completar o mandato que herdou da ex-presidente Dilma Rousseff. Por suposto, deveria ser o contrário. Mas não aqui.

O governo Temer tem a pior avaliação da série histórica da pesquisa feita pelo Instituto MDA e divulgada desde 1998. Na mais recente, que ouviu 2.002 pessoas de todas as regiões do país entre os últimos dias 13 e 16, a aprovação do governo reduziu-se a 3,4%. Era de 10% em fevereiro.


O que houve de fevereiro para cá? A delação dos executivos do Grupo JBS. O presidente do grupo, o empresário Joesley Batista, hoje preso, gravou Temer no porão do Palácio do Jaburu. Em seguida, a Procuradoria Geral da República denunciou Temer por corrupção passiva.

A desaprovação do governo passou de 44% em fevereiro para os atuais 75%. Os que consideram o desempenho do governo apenas regular são 18% contra 39% em fevereiro. A avaliação negativa do desempenho pessoal de Temer subiu de 62% para 84%. É um desastre!

Nem por isso a situação de Temer inspira maiores cuidados. Quase 70% dos entrevistados disseram que não pretendem ir às ruas pedir a saída dele do cargo. A razão? Para 50% dos entrevistados, as pessoas perderam a esperança nos políticos que temos.

Quer dizer: à falta de quem preste, fica Temer. Vida que segue. É por faltarem 12 meses e poucos dias para a eleição do novo residente que a Câmara dos Deputados rejeitará a segunda denúncia contra Temer por obstrução de justiça e organização criminosa.

A agenda de reformas do governo foi para o espaço. A economia dá sinais de recuperação simplesmente porque havia batido no fundo do poço. O mercado financeiro não quer saber de marolas. Uma eventual queda de Temer provocaria um tsunami nos negócios. Bola pra frente.

Vestal em casa de tolerância

Nenhum texto alternativo automático disponível.
Lula nunca soube o que se passava na Petrobras do Petrolão ou no Congresso do Mensalão, tampouco tomou conhecimento de atos de corrupção realizados por membros graduados do partido do qual é criador, presidente de honra – título que embute certa ironia – e mandatário perpétuo. Sequer foi informado do que ocorria nos gabinetes e corredores de estatais e ministérios comandados por gente de sua confiança, nomeada por ele e que, supostamente, estava ali para cumprir suas diretrizes e lhe prestar contas.

Trata-se de uma vestal em casa de tolerância, a donzela recém-chegada dos grotões que vai parar em um bordel acreditando estar em uma inocente casa de shows. Lula, fundador da agremiação que usa o número 13 e prestou depoimento no último dia 13, esteve no poder por 13 anos – outra ironia involuntária do destino –, pessoalmente ou por meio do poste avançado Dilma Rousseff, mas nunca participou da roubalheira que corria solta sob sua barba. Comporta-se como a mocinha que resistiu ao bordel sem ter a inocência subtraída e nem mesmo percebeu que aquelas mulheres excessivamente maquiadas protagonizavam ações capazes de ruborizar a mais experiente cafetina.

O assombroso, longevo e desmedido assalto aos cofres públicos transformou o Brasil num imenso lupanar explorado por incontáveis corruptos. Agora, para se livrarem de uma cana mais dura, eles acusam a mocinha do interior de tê-los comandado, enquanto ela continua acreditando que aquela era apenas uma casa de shows.

Paisagem brasileira

Postes na pista em trecho da rodovia MA-272 entre Barra do Corda e Fernando Falcão (MA)

Temer na ONU é a insustentável leveza do nada

O Nada escalou a tribuna da Assembleia Geral da ONU na manhã desta terça-feira. Chama-se Michel Temer. Alguns dos presentes talvez tenham tentado enxergá-lo. Perceberam que era inútil. O olhar atravessava o Nada e ia bater no mármore ao fundo. Discursos como o que foi lido pelo presidente são redigidos no Itamaraty. O ghost writer escalado pela diplomacia esforçou-se para dar a Temer a aparência de um orador invisível, que não causasse problemas a si mesmo. Exagerou.

Cenho imponente, o Nada soou taxativo sobre temas em relação aos quais sua opinião não tem a mais remota relevância: “Os recentes testes nucleares e missilísticos na Península Coreana constituem grave ameaça…”. E silenciou sobre uma questão que, por intrigante, os brasileiros e os líderes mundiais gostariam de ver respondida: por que diabos o Brasil abdicou do progresso para se consolidar como uma cleptocracia clássica?

Desdobando-se para realçar a inutilidade da fala que o redator-fantasma do Itamaraty acomodou-lhe nos lábios, Temer discorreu sobre armas nucleares —“Reiteramos nosso chamado a que as potências assumam compromissos adicionais de desarmamento”—, falou sobre Oriente Médio —“Amigo de palestinos e israelenses, o Brasil segue favorecendo a solução de dois Estados convivendo em paz e segurança”—, realçou a encrenca da Síria —“A solução que se deve buscar é essencialmente política” —, sem esquecer todos os demais conflitos que inquietam o planeta —“No Afeganistão, na Líbia, no Iêmen, no Mali ou na República Centro-Africana, as guerras causam sofrimentos intoleráveis.”

O Nada sugeriu à plateia um passeio incômodo: “Percorramos os campos de refugiados e deslocados no Iraque, na Jordânia, no Líbano, no Quênia. Ouçamos as histórias dos que perderam pais, mães, filhos, filhas. São famílias que foram tragadas pela irracionalidade de disputas que não parecem conhecer limites. De disputas que, com frequência inaceitável, se materializam ao arrepio do direito humanitário.”

O “mal do terrorismo”, o “crime transnacional”, as “violações dos direitos humanos em todo o mundo”, o “racismo, a xenofobia e todas as formas de discriminação”, os “refugiados da Venezuela”… O redator do Itamaraty fez do Nada um personagem capaz de falar de tudo, exceto da moralidade e da ética que seu governo sonega aos brasileiros. Sobre o Brasil, a propósito, Temer realçou dois temas: ecologia e economia. Disse meias-verdades sobre ambos, privilegiando a metade que é mentirosa.

“O Brasil orgulha-se de ter a maior cobertura de florestas tropicais do planeta”, realçou o redator do Itamaraty, antes de anunciar “a boa notícia de que os primeiros dados disponíveis para o último ano já indicam diminuição de mais de 20% do desmatamento naquela região.” Nenhuma palavra sobre o decreto que Temer editou, reescreveu, revogou e planeja reeditar para assegurar a exploração mineral numa área de reserva na Amazônia, a Renca. O vaivém sobre a matéria provocou gritaria local e internacional. Só por isso o lero-lero ambiental frequentou as preocupações do redator do Itamaraty.

“O Brasil atravessa momento de transformações decisivas”, declarou, de repente, o Nada. “Com reformas estruturais, estamos superando uma crise econômica sem precedentes. Estamos resgatando o equilíbrio fiscal”, acrescentou, alheio à recentíssima conversão da meta fiscal brasileira de rombo em cratera. “O novo Brasil que está surgindo das reformas é um país mais aberto ao mundo”, prosseguiu o Nada, sem se dar conta de que, voltando a Brasília, terá de negligenciar novamente a reforma da Previdência para priorizar a recompra na Câmara dos votos que garantirão o enterro da nova denúncia da Procuradoria.

Tomado pela densidade, o discurso de Temer na ONU pode ser definido como a insustentável leveza do nada. Observada pela utilidade, a fala do presidente brasileiro foi dinheiro do contribuinte desperdiçado numa viagem dispensável. Considerando-se a importância que o mundo atribuiu às palavras do redator do Itamaraty, o Nada conseguiu, finalmente, unir os brasileiros. Ateou em todos o mais profundo sentimento de vergonha. O vexame só não é insuperável porque Temer deve retornar à ONU em 2018.

Às vezes acontece...

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Não é muita gente que nasce com essa incômoda glândula chamada consciência, que impede de dormir a sono solto e sem outra atrapalhação que não os mosquitos de verão, mas às vezes acontece
Eduardo Galeano