terça-feira, 28 de abril de 2020

Pensamento do Dia


Vem aí a calamidade

De uma coisa os portugueses não se podem queixar, porque é o que querem: normalizar o país, a economia, e o regresso gradual e protegido ao trabalho. Isso tem um preço muito elevado, difícil de pré-avaliar, que não obedece a nenhum algoritmo, ou a projeções inconstantes. E o preço, pesado, muito pesado, é a disseminação e o contágio com o SARS-CoV-2 . Na população em geral. E aí sim, infelizmente, atingiremos o pico que nunca existiu. Em contagiados e mortes. É o estado de calamidade.

Vamos ver se nos entendemos, de uma vez por todas: se só temos pouco mais do que 1% da população infetada, existem, teoricamente, 85 a 90% de pessoas em grande risco de infeção. Os melhores especialistas em infeciologia e epidemia do mundo admitem que, por cada caso confirmado, há mais 10 com o vírus. Aplicando a regra ao nosso país haverá já 240 mil pessoas contagiadas, ainda que assintomáticas, ou numa das várias fases, pouco conhecidas, do caminho que este vírus faz até à Covid-19.


Não estando o país em quarentena, a única medida cientificamente provada como redutora da pandemia, vamos atirar para cima do SNS um risco catastrófico. Apesar de tudo ter começado (só) a 16 de Março, data da primeira morte, e com todo o esforço que foi e está a ser feito, Portugal está muito longe de ter um Serviço Nacional de Saúde plenamente capacitado e pronto para responder a um aumento exponencial de doentes em fase crítica. E também já sabemos que 50% dos internados em Cuidados Intensivos não resistem.

Somam-se mais duas interrogações: não está provada a imunidade de quem já foi contagiado, o que multiplica o risco de transmissão, e a famosa e tenebrosa ideia de imunidade de grupo implicaria que no mínimo 70% dos portugueses teria de se infetar e, obviamente, muitos milhares morreriam.

O Estado de Emergência vai acabar, e o Governo vai decidir pela calamidade (que grande ironia!), esta semana, e fasear a abertura do país. Estará na posse, acreditamos, das mais ponderadas e sensatas recomendações dos especialistas. Nenhuma dúvida. Mas também não haverá nenhuma hesitação, de que cairá sobre ele – Governo, a ministra da Saúde, a DGS, e outras entidades – a culpa máxima por uma decisão mal tomada, apressada, infundada. A existir uma calamidade nacional, o Governo será o responsável único, direto, e sem perdão.

Governo acima de tudo

Este é o momento de a sociedade brasileira, e as instituições republicanas em especial, observarem atentamente os próximos passos, sem admitir retrocessos para além daqueles já promovidos até aqui. Já fomos longe demais
Ilona Szabó de Carvalho, cofundadora e diretora-executiva do Instituto Igarapé

Um gentil ladrão

Batem à porta. Bater é uma maneira de dizer. Moro longe de tudo, só a fome e a guerra me vêm visitar. E agora, na eternidade de mais uma tarde, alguém fuzila com os pés a porta da minha casa. Vou a correr. Correr é uma maneira de dizer. Arrasto os pés, os chinelos rangendo no soalho. Com a minha idade, é tudo o que posso. A gente começa a ficar velho quando olha o chão e vê um abismo.

Abro a porta. É um homem mascarado. Ao notar a minha presença, ele grita – Três metros, fique a três metros!

Se é um assaltante, está com medo. Esse temor inquieta-me. Ladrões medrosos são os mais perigosos. Retira da bolsa uma pistola. Aponta-a na minha direção. É estranha aquela arma: de plástico branco, emitindo um raio de luz verde. Aponta a pistola para o meu rosto e eu fecho os olhos, obediente. É quase uma carícia aquele raio de luz sobre o meu rosto. Morrer assim é um sinal que Deus respondeu às minhas preces.

Susa Monteiro

O mascarado tem uma voz doce, um olhar delicado. Não me deixo enganar: os mais cruéis soldados surgiram-me com modos de anjo. Há tanto, porém, que ninguém me faz companhia, que acabo entrando no jogo.

Peço ao visitante que baixe a pistola e tome lugar na única cadeira que me resta. Só então reparo que traz uns sacos de plástico envolvendo os sapatos. É óbvia a intenção: não quer deixar pegadas. Peço-lhe para baixar a máscara, asseguro-lhe que pode ter toda a confiança em mim. O homem sorri com tristeza e murmura – Nestes dias não se pode confiar, as pessoas não sabem o que trazem dentro delas. – Entendo a enigmática mensagem, o homem pensa que, sob a minha aparência desvalida, se esconde um valioso tesouro.

Olha em redor e, como não encontra nada para roubar, o homem acaba por se explicar. Diz que vem dos serviços de saúde. E eu sorrio. É um jovem ladrão, não sabe mentir. Diz que os seus chefes estão preocupados com uma doença grave que se espalha rapidamente. Faço de conta que acredito.

Há sessenta anos atrás quase morri de varíola. Alguém me veio visitar? A minha esposa morreu de tuberculose, alguém nos veio ver? A malária roubou-me o meu único filho, fui eu que o enterrei sozinho. Os meus vizinhos morreram de sida, nunca ninguém quis saber. A minha falecida mulher dizia que a culpa era nossa porque escolhemos viver longe dos lugares onde há hospitais. Ela, coitada, não sabia que era o inverso: os hospitais é que se instalam longe dos pobres. É uma mania deles, dos hospitais. Não os culpo. Sou parecido com eles, os hospitais, sou eu que albergo e trato as minhas enfermidades.

O mentiroso assaltante não desiste. Apura os métodos, sempre de modo tosco. Quer justificar-se: a pistola que me apontou era para medir a febre. Diz que estou bem, anuncia com um sorriso tonto. E eu finjo respirar de alívio. Quer saber se tenho tosse. Sorrio, condescendente. Tosse foi coisa que me quase levou à cova, depois de ter vindo das minas há vinte anos. Desde então, as minhas costelas quase não se movem, o meu peito é feito apenas de poeira e pedra. No dia que voltar a tossir, será para pedir licença nas portas de São Pedro.

– Não me parece estar doente – declara o impostor. – Contudo, o senhor pode ser um portador assintomático.

– Portador? – pergunto. – Portador de quê? Por amor de Deus, pode-me revistar a casa, sou um homem sério, quase nunca saio de casa.

O visitante sorri e pergunta se sei ler. Encolho os ombros. E ele coloca sobre a mesa um documento com instruções de higiene e uma caixa com barras de sabão, um frasco com aquilo a que ele chama de “uma solução alcoólica”. Coitado, deve imaginar que, como todos os velhos solitários, ando metido na bebida. À despedida, o intruso diz – Daqui a uma semana passo por aqui a visitá-lo.

Então, me vem à cabeça o nome da doença de que fala o visitante. Conheço bem essa doença. Chama-se indiferença. Era preciso um hospital do tamanho do mundo para tratar essa epidemia.

Contrariando as suas instruções, avanço sobre ele e abraço-o. O homem resiste com vigor e escapa-me dos braços. No carro, despe-se apressadamente. Livra-se da roupa como se despisse as vestes da própria peste. Dessa peste chamada miséria.

Aceno-lhe sorridente. Depois de anos de tormento, reconcilio-me com a humanidade: um ladrão tão desajeitado só pode ser um homem bom. Para a semana, quando ele voltar, vou deixar que roube a velha televisão que tenho no quarto.

Mia Couto

Por quê? Por quê? Por quê?

Não são mais apenas os próprios militares e a Polícia Federal que estranham a canetada do presidente Jair Bolsonaro derrubando três portarias do Exército sobre controle de armas de civis, como destacado na coluna “Fazendo água”, de sexta-feira. Agora, o MP quer explicações e a oposição inclui mais essa decisão do presidente nos pedidos de impeachment que se multiplicam. Bolsonaro vai empilhando, assim, a mesma pergunta: Por quê?

Por que a demissão do diretor-geral da PF agora, em meio ao caos na saúde, na economia, na política? Por que empurrar porta afora o ministro mais popular do governo? Por que bater de frente com o ministro da Saúde até demiti-lo na hora decisiva da pandemia? Por que confrontar a OMS, epidemiologistas e o mundo inteiro com as cenas patéticas e infantis contra o isolamento social? E por que, afinal, o presidente da República foi prestigiar manifestações pedindo golpe militar? Justamente diante do Quartel-General do Exército?

Assim como no pronunciamento de sexta-feira ele não respondeu objetivamente a nenhuma das acusações que o ex-juiz e agora também ex-ministro Sérgio Moro acabara de lhe fazer, Bolsonaro não responde, não explica e não dá o sentido de suas ações mais absurdas. Por isso, ele, seu governo e o País estão envoltos numa nuvem de incertezas.

É aí que entra a decisão voluntariosa e mal (ou não) explicada de suspender – aliás, pelo Twitter – as três portarias do Exército. Além de, cinco dias depois, também como registrado na coluna de sexta-feira, mais do que dobrar as munições de cada arma de civis por mês. Por que derrubar as portarias? E por que aumentar de 200 para 550 as munições?


Bolsonaro e o governo não respondem, mas militares do Exército, policiais federais e assessores do Ministério da Justiça não gostaram, juristas e especialistas em Defesa acharam estranho. E todos eles dizem exatamente, claramente, o “porquê”: porque, na opinião deles, quem saiu no lucro, lépidos e fagueiros, foram o crime organizado e as milícias. Mais armas sem controle de entrada, sem rastreamento, sem fiscalização e com muito, mais muito mais munição legalmente permitida... A quem interessa?

É claro que Bolsonaro nunca escondeu, e até fez disso discurso prioritário de campanha, seu amor e o amor dos filhos pelas armas e que muitos neste país praticam tiro desportivo ou são colecionadores. Mas – e aí vem novamente o por quê? – derrubar as três portarias do Exército foi só para agradá-los? E mais do que dobrar a munição mensal por arma também?

A procuradora Raquel Branquinho alega que o presidente “viola a Constituição” e faz uma referência particular à base da família Bolsonaro. “A cidade do Rio de Janeiro é a face mais visível dessa ausência de efetivo controle no ingresso de armamento no País”, diz ela em ofício ao qual o repórter Patrik Camporez teve acesso e que foi manchete do Estado na segunda-feira, 27.

Pois é... Rio, armas, controle, munição... Isso tudo vai se embolando com a demissão de Valeixo da PF, a queda de Moro e as acusações que o ministro fez ao sair, de que o presidente queria ter acesso direto ao diretor-geral, a superintendentes e a relatórios de inteligência da PF. E ele, o ministro, também citou especificamente o Rio, neste caso, o Estado do Rio.

Moro, Mandetta e Valeixo saem por uma porta do governo e o Centrão entra pela outra, trazendo, entre outros, Roberto Jefferson e Valdemar Costa Neto. Isolado no Supremo e na cúpula do Congresso, perdendo apoios no empresariado e nas finanças e enfrentando uma guerra inglória na internet com Moro, Bolsonaro corre o risco de se apoiar só em dois pilares: os militares e os líderes do Centrão, que não têm nada a ver. Quem diria? Aliás, por quê?

Negócio de família

Jair Bolsonaro confunde a administração pública com um negócio familiar. Trata a Presidência da República como extensão da sua casa na Barra.

No dia da posse, o capitão instalou o filho do meio no Rolls Royce presidencial. Foi o primeiro ato de um mandato marcado pela influência indevida do clã em assuntos de governo.


Os filhos de Bolsonaro já nomearam e demitiram ministros. Ernesto Araújo era um diplomata inexpressivo, que nunca havia chefiado missão no exterior. Virou chanceler por indicação de um filósofo de Facebook e do deputado Eduardo Bolsonaro.

O general Santos Cruz é um militar respeitado, que trazia alguma racionalidade às reuniões no Planalto. Foi derrubado da Secretaria de Governo porque resistiu aos avanços do vereador Carlos Bolsonaro sobre as verbas de publicidade.

Ao pedir demissão, na sexta passada, o ex-ministro Sergio Moro acusou o presidente de tentar interferir na Polícia Federal. Desta vez, o objetivo seria travar as investigações sobre quem financia e controla as milícias virtuais.

A pretexto de se defender, Bolsonaro confirmou parte do relato. Confessou ter recebido um relatório sigiloso e disse que mandou trocar um superintendente da PF por causa das investigações do assassinato de Marielle Franco. “A PF de Sergio Moro mais se preocupou com Marielle do que com seu chefe supremo. Cobrei muito dele isso daí”, contou, confundindo a polícia judiciária como uma guarda presidencial.

No fim de semana, Bolsonaro apontou seus favoritos para os cargos que vagaram. Para o Ministério da Justiça, convidou Jorge Oliveira, atual secretário-geral da Presidência. Para a direção da PF, indicou Alexandre Ramagem, hoje no comando da Abin.

Oliveira é um ilustre desconhecido no meio jurídico. Seu currículo ostenta passagens como major da PM e assessor parlamentar. Ele ganhou espaço no governo porque é filho de um velho amigo do presidente. No ano passado, foi padrinho de casamento do Zero Três. Ramagem também deve o prestígio às ligações pessoais com o clã. Chefiou os seguranças de Jair na campanha e virou amigo de infância do Zero Dois.

Ontem, diante das reações negativas, Bolsonaro deu sinais que pode rever as escolhas. Melhor assim, mas nada indica que ele deixará de usar o cargo para proteger os filhos. O presidente está mais empenhado na blindagem da prole do que no combate ao coronavírus. Com o andar das investigações no Supremo, seus temores só tendem a aumentar.

Brasil chapliniano


O bolsonarismo está nu

O bolsonarismo raiz, fanatizado, sempre tentou esconder seu verdadeiro rosto. Essa gente que tem aversão a pobres, exala ódio, ignorância, racismo, misoginia, homofobia, xenofobia, autoritarismo e um sem-fim de ignomínias sabia que não podia sair ao sol com sua pavorosa face sem algum manto de cobertura.

Com isso, pilantras os mais variados, que não pensariam duas vezes em embolsar o troco a mais no caixa de supermercado, passaram a propagar a sua arenga anticorrupção.


Todos de braços dados no conhecido último refúgio dos canalhas, em uma orgia verde e amarela de uma devoção tão incontida à pátria que só lhes faltava deitar ao chão e enfiar torrões de terra goela adentro. E, nesse teatro, os canastrões da própria vida buscavam convencer o mundo e a si mesmos da sua nobreza de sentimentos.

Mas agora a pornografia está explícita. Bolsonaro está nu. E o bolsonarismo terá que defender seu asqueroso modo de pensar a vida sem a desculpa esfarrapada de que quer um Brasil livre de corrupção.

A mamata acabou. Não necessariamente pela saída de Sergio Moro. O xerife da Lava Jato tem sérias contas a prestar com a história por ter pulado na nau bolsonarista logo após a eleição, quando nenhum adulto com mais de três neurônios poderia alegar inocência sobre quem era Jair Bolsonaro e o que ele representava.

Refiro-me especialmente a dois outros fatores: o primeiro, a aliança que o capitão busca agora com o centrão, que há anos ele tratou como coisa mais suja do que pão que o diabo amassou com o rabo. Velha política corrupta. Agora querem ser um só. Saem os bonecões infláveis de Moro super-homem e entram os de Roberto Jefferson, o vingador. O segundo, a escancarada tentativa de manietar a Polícia Federal em nome de interesses inconfessáveis.

Outra vez recorro a João Montanaro e sua charge em que Scooby-Doo e sua turma revelam a real face do presidente. Sob a máscara de Jair Bolsonaro sempre esteve Jair Bolsonaro. Todos sabiam disso.

Estrategista da morte ambulante

Em alguns lugares, o isolamento dá resultado. Em outros lugares, não deu tanto resultado. Em alguns lugares, o vírus chegou. Em outros, não chegou. Não podemos falar de Brasil com a simplicidade que eu tenho visto.
Quando o problema migrar para outro lugar, vai-se para outro lugar. E assim
mantemos o país funcionando e trabalhando e produzindo

General Eduardo Pazuello, secretário-executivo do Ministério da Saúde

Como o novo coronavírus acentua as desigualdades no Brasil

O novo coronavírus chegou ao Brasil trazido por pessoas da classe alta, que fizeram viagens internacionais e se contaminaram no exterior. Um dos primeiros casos no país foi o de um homem de 61 anos, morador de São Paulo, que passou duas semanas na Itália em fevereiro. Internado no hospital Albert Einstein, teve o diagnóstico confirmado em 26 de fevereiro e se curou da doença duas semanas depois.

Rapidamente, o vírus desceu na hierarquia social e agora se espalha pelas classes baixas. Em grandes centros urbanos, a covid-19, doença provocada pelo novo coronavírus, já mata mais na periferia do que no centro. Na cidade de São Paulo, entre os bairros onde moravam mais vítimas estão Brasilândia, Sapopemba, São Mateus e Cidade Tiradentes, todos na periferia. O mesmo ocorre em outras capitais. Em Fortaleza, os bairros em situação mais crítica são Barra do Ceará e José Walter, ambos na periferia.

A contaminação é facilitada pela distribuição desigual da renda. Nas periferias, as condições para cumprir o isolamento social são piores: há mais moradores por domicílio, o acesso a água encanada, vital para a higienização, às vezes não existe ou é intermitente, e a insegurança econômica estimula muitos a saírem de casa para obter algum dinheiro.


Quando alguém é infectado e adoece, o sistema público de saúde é a única alternativa, e em algumas cidades ele já está saturado para tratar casos graves. O ponto de partida já é desigual: o número de leitos de UTIs na rede pública, por 10 mil habitantes, é quase cinco vezes inferior ao da rede privada.

A tendência é que a crise provocada pela covid-19 acentue a desigualdade no Brasil, que já é um dos países mais desiguais do mundo, afirma Fernando Burgos, professor da FGV-EAESP e especialista em políticas sociais e desigualdade.

"Quando começou a pandemia, muitas pessoas diziam que a covid-19 iria igualar os desiguais, pois todos iriam ficar doentes, precisar de respiradores, etc. Isso era uma bobagem. A doença afeta desigualmente os desiguais, e será cada vez mais dura com os mais pobres", diz.



A primeira interação visível entre a pandemia e a desigualdade se dá nas condições para evitar a contaminação. Antônio Augusto Moura da Silva, professor de epidemiologia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), afirma que o alto número de óbitos nas periferias de regiões metropolitanas é uma consequência da condição de vida nesses locais.

"Nas periferias é mais difícil manter o distanciamento social, e a transmissão deve estar ocorrendo a uma maior velocidade", diz. Segundo ele, a situação nesses bairros irá se agravar nas próximas semanas e, com o sistema de saúde saturado, "pessoas vão começar a morrer em casa".

Não é só o ritmo de contaminação que prejudica as classes baixas. A população pobre também tem uma probabilidade maior de ter doenças pré-existentes, como diabetes, hipertensão, doença pulmonar e cardíaca ou insuficiência renal, que tornam uma infecção pelo coronavírus mais perigosa. Na província de Hubei, na China, a taxa de hospitalização foi 1,8 vez maior para os contaminados pelo coronavírus que tinham alguma comorbidade, e 2,6 vezes maior para os com duas ou mais comorbidades.

Um estudo publicado em 6 de abril pelas economistas Luiza Nassif Pires, do Bard College, nos Estados Unidos, e Laura Carvalho, da USP, e pela médica e pesquisadora Laura de Lima Xavier, da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, com base na Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE de 2013, mostra como as classes mais baixas têm, proporcionalmente, mais comorbidades.

Segundo o trabalho, entre os brasileiros que frequentaram apenas o ensino fundamental, 42% têm uma ou mais doenças crônicas associadas aos casos mais graves da covid-19, enquanto na média da população essa taxa é de 33%. "A base da pirâmide tem maior probabilidade de precisar de internação no caso de contaminação pelo coronavírus", afirmam as autoras.

Além da saúde, a pandemia também atinge o bolso das diferentes classes sociais de forma distinta. Uma pesquisa realizada pelo DataPoder360 de 13 a 15 de abril mostrou que, quanto mais pobre, maior o impacto da covid-19 na renda dos brasileiros.

O levantamento perguntou aos entrevistados se o coronavírus prejudicou sua renda ou emprego. Entre os desempregados ou sem renda fixa, 77% responderam que sim. O percentual cai para 57% entre os que ganham até dois salários mínimos, e para 26% entre os que recebem mais de dez salários mínimos.

Em nota técnica publicada pela Rede de Políticas Públicas e Sociedade, os pesquisadores Rogério Barbosa, do Centro de Estudos da Metrópole, e Ian Prates, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, estimaram o número de trabalhadores afetados no Brasil pela covid-19, e concluíram que 81% da força de trabalho (75,5 milhões de pessoas) experimentam algum tipo de vulnerabilidade em função da pandemia. Os mais vulneráveis, com empregos menos estáveis em setores não essenciais, como serviços domésticos, cabeleireiros, comércio de vestuário e manutenção de veículos, somam 23,8 milhões de pessoas, ou 25,5% da população.

"Muitas pessoas que já tinham vínculos frágeis no mercado de trabalho vão perdê-los, e será difícil restabelecê-los", diz Burgos, da FGV-EAESP. Em crises como essa, o sistema de proteção social do país deveria reagir, mas está respondendo de forma frágil.

Ele afirma que as iniciativas da Renda Básica de Emergência, que pagará 600 reais por mês por três meses a trabalhadores informais de baixa renda, e a expansão do Bolsa Família demoraram para ser anunciadas e ainda enfrentam problemas de implementação.

"Tínhamos três semanas de antecedência em relação a outros países e já podíamos ter botado dinheiro na mão dessas pessoas mais vulneráveis, mas temos um governo que não acredita na pandemia", diz Burgos, lembrando que muitas pessoas que teriam direito ao benefício ainda não conseguiram recebê-lo.

Moura da Silva, da UFMA, realça que a covid-19 deve atingir também de forma mais aguda os pretos e pardos, que predominam entre a população de baixa renda. "A taxa de mortalidade será maior nesse grupo do que entre os brancos", afirma.

Outra área em que a covid-19 impacta de forma distinta as classes baixas e altas é a educação. Enquanto os alunos de boas escolas privadas migraram para o ensino online e seguem ativos e apoiados por uma boa estrutura em casa durante o isolamento social, em muitas cidades os estudantes da rede pública sofrem com a ausência ou precariedade de sistemas de ensino à distância e não têm espaço ou conexão à internet adequados em casa.

"O esforço de muitos professores é gigantesco, mas as escolas públicas têm piores condições, e isso vai gerar mais desigualdade. O aluno do terceiro ano do Ensino Médio, que já tinha menos chance de ter uma boa nota no Enem [Exame Nacional do Ensino Médio], estará em piores condições para competir", diz Burgos.

Mesmo que a rede pública migre para o ensino online, como é o caso de São Paulo, as condições de estudo em casa variam. Ele cita o próprio caso da FGV-EAESP, que tem alunos bolsistas que moram em favelas.

"Você vê a condição da pessoa assistindo à aula em casa, e é muito diferente. Enquanto alguns [de classes altas] estão no quarto, em seu computador, com alguém preparando almoço para ele, outros [de classe baixa] estão na cozinha, assistindo com o irmão menor ao lado, dividindo o computador, com internet ruim. Ambos terão a mesma condição? Óbvio que não", afirma.

Os dois professores consultados pela DW Brasil estimam que os efeitos da covid-19 na desigualdade brasileira serão percebidos com maior nitidez nas próximas semanas.

Burgos afirma que as redes de solidariedade formadas para doação de alimentos, importantes neste primeiro momento, podem se esgotar e se mostrar insuficientes para manter um padrão de vida mínimo para a população mais pobre.

"Não adianta só dar feijão e arroz, se não der botijão de gás para eles cozinharem. E os empresários vão ficar doando por quanto tempo? Tenho dúvidas se essa solidariedade será permanente", diz.

Ele diz que o país está presenciando atualmente a primeira onda de vulnerabilidade provocada pela pandemia. A segunda onda virá em cerca de um mês, quando ficará mais claro o impacto nas pessoas que foram demitidas ou que não estão conseguindo manter uma renda de subsistência. "A desigualdade é um projeto nacional no Brasil, e a pandemia veio para agravar esse projeto", diz.

A chegada da covid-19 aos municípios menores também deve adicionar pressão às classes baixas desses locais, diz Moura da Silva, da UFMA. "Muitas cidades brasileiras não dispõem de UTI, e uma parcela dos contaminados vai precisar ser internada. Isso pode gerar uma situação bastante dramática na rede pública", afirma.

Deutsche Welle

Quem não respeita seus mortos, não respeita nada

Sempre fui fascinada pelos vários ritos funerários que o ser humano criou ao longo da história. A morte é algo tão grande e tão incontrolável, sobretudo para nós que ficamos aqui e temos que lidar com o inaudito desaparecimento de um ente querido, que somos forçados a buscar truques defensivos. E, como a morte não se deixa domesticar por meio de palavras (a verdadeira dor nos emudece), recorremos às cerimônias coletivas para encontrar consolo.

Barcos flamejantes que adentram o mar para os vikings, pirâmides e mumificações para os egípcios, cremações sagradas para os budistas, cemitérios tão monumentais que acabam sendo verdadeiras cidades da morte. E, então, as manias peculiares de cada cultura: os muçulmanos devem ser enterrados sem caixão, de lado e olhando para Meca; Os aborígines da Austrália colocam o corpo em uma plataforma, cobrem-no com folhas e o deixam apodrecer ao ar livre; no vilarejo de Sagada, nas Filipinas, os caixões são pendurados nos penhascos, porque assim ficam bem perto do céu (que lindo); e os pársis de Mumbai usam as impressionantes Torres do Silêncio, construções de pedra onde os cadáveres são depositados para que os urubus os devorem, o que, pensando bem, possui uma beleza selvagem e ecológica.


Sim, temos que fazer algo com a morte, temos que aprisioná-la com ritos precisamente para salvar a vida. É por isso que desde sempre uma das medidas mais claras da devastação causada por uma catástrofe é o fato de nos roubar essa liturgia final. Acontece nas guerras, com os mortos desaparecidos em combate; acontece nas explosões que evaporam corpos, como os acidentes de avião ou as das Torres Gêmeas. E acontece nas pandemias. Quando os cronistas das várias pestes sofridas pela humanidade queriam destacar o horror supremo do que estavam vivendo, falavam disso: dos milhares de mortos sem enterrar porque "aqueles que cavavam já não davam conta", como dizia Procópio de Cesareia na peste de 541; ou o que escreveu durante a Grande Peste de 1348 Agnolo di Tura, um morador de Siena, onde metade da população havia morrido: “Enterrei com minhas próprias mãos cinco filhos em uma única sepultura. Não houve sinos. Nem lágrimas. Isto é o fim do mundo”. Não, não houve sinos, não houve ritual, não houve uma despedida apropriada e, portanto, não houve salvação.

E isto é o mais duro, o mais devastador que está acontecendo agora com o coronavírus. Todas essas mortes, todas elas sem o consolo do velório e muitas, além disso, sem a mera possibilidade de lhes terem dito adeus. E todos esses parentes trancados na solidão de suas casas, necessitados de lágrimas amigas para molhar seus ombros e contemplando como seus mortos se convertem em um simples número no meio de uma lista. Temos que fazer algo com essa dor enorme. E isso tem que ser feito já. Quando a situação melhorar, assim que pudermos nos permitir, é preciso organizar funerais de Estado e cerimônias coletivas como os três minutos de silêncio que fizeram na China. Mas, enquanto esse momento não chega, podemos honrar os mortos de alguma maneira, fazer pequenos gestos. Pois, então, por que não colocar, por exemplo, um pequeno laço preto em nossas sacadas? Seria solidário compartilhar a dor de nossos vizinhos. E também, é claro, a esperança. Quando este artigo sair, 15 dias depois de escrevê-lo, pode ser que haja alguma iniciativa desse tipo.

Já dizia a Ilíada, esse livro de quase 3.000 anos que hoje continua a nos falar com eloquência. Quando Aquiles, envenenado pela raiva, mata em combate o nobre príncipe Héctor, comete assim a maior e mais inconcebível das iniquidades: amarra o cadáver pelos tornozelos a seu carro de guerra e a arrasta e o mantém à intempérie durante 12 dias. Uma noite, o velho rei Príamo, disfarçado, tem que ir ao seu acampamento e suplicar de joelhos ao feroz Aquiles para que lhe devolva o cadáver do filho (o que ele consegue, aliás). A Ilíada é cheia de brutalidades e degolas, mas a profanação do cadáver de Héctor é a mais atroz, é o clímax do livro. Porque quem não respeita seus mortos, não respeita nada. Nem sequer a si mesmo.