segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Pensamento do Dia

 


As palavras e as coisas

Não é simples passatempo a atenção que dispensamos às tais “palavras do ano” escolhidas por tradicionais publicações e instituições lexicográficas. E não é por acaso, pois as palavras nos moldam como sujeitos, estruturam nossa percepção do mundo, das pessoas e das coisas. Vagando tantas vezes pelas redes, sentimos o efeito das rage baits, as “iscas” que provocam uma raiva impotente. Sofremos o impacto do slop, o lixo digital que escorre com o furor das tempestades. Suportamos a carga negativa de imaginárias parasocial interactions, em que o interlocutor não é um ser corpóreo, real, e sim uma celebridade que nos ignora por completo ou mesmo um agente virtual qualquer.


Palavras existem também em estado de poemas que costumam ser mais cortantes e, por isso, capazes de deixar uma marca ainda mais profunda. Lembrada em vários artigos ao longo do ano, A Segunda Vinda, do irlandês William Butler Yeats, uma pequena joia literária de mais de um século atrás, ressoa com vigor inesperado. Espelho da sucessão de crises que se seguiram à Guerra de 1914, serve também como um dos espelhos do presente – um presente de outras tantas crises, múltiplas e sobrepostas, a ponto de trazer, tal como então, os traços de um “interregno”, de uma transição enigmática.

“Tudo se desfaz: o centro não sustém” – adverte o poeta. Desculpamo-nos previamente por uma certa redução política da leitura, ainda que, decerto, para nós o “centro” seja bem menos uma posição partidária, supostamente equidistante dos extremos, e muito mais a ideia de que anda nos faltando sistematicamente um chão mais firme, com um mínimo de referências comuns e de sentidos compartilhados. Estamos girando no universo da “pós-verdade”, em que as mediações – os saberes, as formas pedagógicas, as instituições da democracia – estão sob ataque direto e, em alguns casos, foram praticamente dissolvidas. Uma circunstância inédita, na qual, como em Yeats e talvez de forma ainda mais intensa, os melhores carecem de toda convicção e os piores se enchem de paixão intensa.

Esta paixão desmedida, desregrada mesmo, é a que hoje move tiranos, ou aspirantes a tirano, a destruir conquistas civilizatórias tão essenciais, como a tolerância, o mundo ordenado segundo regras, a necessidade de consenso para alterar estas mesmas regras. Algumas das correntes mais profundas da modernidade, como o conservadorismo, o liberalismo e o socialismo, anunciaram a seu modo o caminho possível da unificação do gênero humano – por mais tortuoso e contraditório que ele seja.

As filosofias e as religiões, na sua pluralidade irreprimível e na sua vocação universal, também demarcam este mesmo caminho, dimensões inescapáveis do humano que são. E, em termos profanos, as épocas de globalização econômica dão o fundamento prático de tal unificação, expandindo as trocas, materiais e simbólicas, e aproximando os povos e os confins da Terra.

Bem verdade que os refluxos podem ser poderosos, passando a impressão (real) de que muita coisa subitamente desanda e de que o mundo está irrremediavelmente de ponta-cabeça. Globalizamonos economicamente, mas não conseguimos construir minimamente as instituições políticas à altura deste feito econômico.

Entre as elites internacionalizadas e as populações de cada país, especialmente as parcelas que se sentem marginalizadas cultural ou economicamente, abriram-se brechas aparentemente irreparáveis. E por essas brechas penetraram o discurso e a prática das mais variadas vertentes do nacional-populismo, com a proposição da “primazia das nações” e o fetiche das soberanias, acima e além de valores universalistas, como os direitos humanos e a própria democracia.

No nosso canto “ocidental”, o recuo chega a assustar.

O antigo hegemon norte-americano, que bem ou mal se apresentava como o garante de uma constelação de instituições transnacionais, passou a expressar-se na linguagem bruta dos interesses. Internamente, destrói a plurissecular estrutura de checks and balances, rumo à autocracia; externamente, oscila entre isolacionismo, guerras comerciais e incursões militares. A imagem de mundo que propõe é a de um ajuntamento mecânico de soberanias, sustentadas preferencialmente por populações etnicamente homogêneas e temerosas de sofrer um “apagamento civilizacional”. A agressividade que brota deste patriotismo anacrônico prenuncia, ao mesmo tempo, a perseguição de minorias e a imposição do mais forte.

A Segunda Vinda tem um desfecho catastrófico. O colapso do centro é o sinal de um advento desta vez nada salvífico. No mundo degradado pela carnificina da guerra, uma “fera bruta”, na tradução irretocável de Augusto de Campos, “se arrasta rumo a Belém para nascer”. Os totalitarismos do século 20 ainda iriam acontecer, mas Yeats tinha a premonição do desastre. Quanto a nós, pobres mortais, terminamos 2025 assediados por palavras e coisas nada inocentes. Para impedir o pior, só com a recuperação da bússola da democracia e a obstinada determinação de reunir, respeitadas todas as diferenças, homens e mulheres de boa vontade.

O genocídio laboral de toda uma geração

A maior parte dos trabalhadores por conta própria ou de outrem, com carreiras bem sucedidas, e rendimento líquido satisfatório ou bom sonha com a idade da reforma. A reforma configura-se como uma época de ouro na qual poderemos ser livres e realizar os nossos sonhos de leitura, viagens, e fazer aquilo de que realmente gostamos.

E a pergunta impõe-se: passamos as décadas da nossa juventude e vida ativa fazendo aquilo de que não gostamos? Vivemos contrariados para conseguir viver com conforto? Resposta: na maior parte dos casos, sim! Há muito poucos capazes de escapar a esta sina: os que encaram a sua carreira como uma missão ou uma arte: artistas, naturalmente, e professores, médicos e outras profissões carregadas de oportunidades de altruísmo. Interessam-me particularmente os primeiros, por serem um exemplo evidente e reconhecido deste tipo de percurso. A Paula Rego continua a pintar, o Lobo Antunes a escrever, o Leonard Cohen e o Manuel de Oliveira caminharam até ao último suspiro. Os artistas param quando a doença os impede, o que me leva a pensar que não encaram o trabalho como trabalho. Ou seja, o trabalho não existe em oposição à vida. Ele e a vida formam uma amálgama que se funde e completa a cada momento. Para os artistas o lazer faz parte do processo de labor e o momento de trabalho, sendo seriíssimo, é vivido com o prazer do lazer. Uma reforma que correspondesse a uma retirada de atividade corresponderia, para eles, a uma anulação da sua vitalidade, pensamento e criatividade. Ser-lhes-ia insuportável.

Se compararmos o exemplo artístico de envolvimento entre labor e lazer com a nossa própria experiência percebemos que algo está errado com a forma como trabalhamos. Se desejamos que termine porque nos está a destruir, não trabalhamos de forma correta nem saudável. Provavelmente o que está mais profundamente errado no sistema laboral tradicional prende-se com a exigência de elevadíssima produtividade. Esta não é amiga da perfeição porque não respeita o amadurecimento das ideias nem o resultado do processo laboral. Precisamos de trabalhar mais lentamente, com menos pressão, para que o trabalho não nos transforme numa bigorna do mercado.

No outro dia li na Imprensa que dos jovens trabalhadores recentemente entrados para o mercado de trabalho se exige que sejam capazes de trabalhar sob grande pressão, argumentado que esse tipo de exercício desenvolve as capacidades de raciocínio. Esbocei um sorriso cínico e doído. As organizações económicas e sociais sabem produzir os discursos que melhor servem os seus objetivos. Os discursos funcionam porque as ideias muito repetidas tornam-se verdades para quem ouve, sem tempo para pensar nas consequências, quanto mais nas origens, mas uma verdade-falsa nunca passará de uma mentira, por vezes de um crime de genocídio de toda uma geração.
Isabela Figueiredo

A história do leão e da vaca

Tenho um amigo que gosta de contar histórias. Gosta tanto que, às vezes, entusiasma-se e perde a noção de que o que está a contar pode chocar os filhos ainda pequenos. Foi o que aconteceu quando começou a falar-lhes de como as boas intenções de proteção animal nos Estados Unidos da América fizeram disparar a população de leões da montanha. “Os leões começaram a andar à procura de comida e foram-se aproximando cada vez mais das manadas de gado”, contou-lhes, explicando como, depois de várias investidas bem-sucedidas, os felinos começaram a ser cada vez mais ousados. A certa altura, relatava às crianças, os leões estavam tão à vontade que um deles se lançou sobre uma vaca e começou a comê-la ainda viva. “Nem sequer se deu ao trabalho de a matar. Começou a comer o lombo, e a vaca a gritar. Fazia um barulho horrível. Vieram várias pessoas. Mataram a vaca.” Ah, suspirei eu, mataram a vaca. “E mataram o leão.” E foi aí que o filho mais novo começou num pranto. “O leão é o animal preferido dele”, confessou-me depois o pai.


Fiquei a pensar na história do leão e da vaca. O normal é que os predadores matem as suas presas antes de as comerem. Mas este leão da montanha americano, por algum motivo, achou que já nem era preciso matar a vaca. Atirou-se sobre ela de garras lançadas e boca aberta e começou a desfazê-la enquanto ela ainda se debatia e mugia, aflita, produzindo sons lancinantes que fizeram as pessoas em redor vir em seu auxílio para lhe dar o golpe de misericórdia que o seu predador lhe tinha negado, mas também para matar o leão que tinha ficado demasiado à vontade.

O leão tinha-se esquecido das regras milenares que regem as cadeias alimentares. Sendo o mundo animal o reino da lei do mais forte, não deixa de haver algumas regras não escritas que todos cumprem: os que comem e os que são comidos. Começar a comer a vaca sem a matar foi a infração que valeu a morte do leão.


O meu amigo contou-me a história para ilustrar a forma como se perde em pormenores quando se entusiasma a falar, esquecendo-se até de que às vezes a audiência são filhos pequeninos que, por acaso, adoram leões e podem acabar em lágrimas à conta do relato apaixonado (mas insensível) do pai. Mas não foi isso que me fez ficar a pensar nesta história.

O que me fez ficar a pensar no leão e na vaca foi o que aconteceu poucas horas antes do jantar com este meu amigo em Lisboa. Os Estados Unidos da América decidiram montar uma operação para bombardear vários alvos (incluindo infraestruturas civis) em Caracas e sequestrar o Presidente da Venezuela e a sua mulher. Levados à força e feridos, foram exibidos numa carrinha com as portas abertas, enquanto circulavam por Nova Iorque, a cidade onde foram presentes a um juiz. Entretanto, Donald Trump dava uma conferência de imprensa desfazendo as esperanças de quem achou que este golpe podia abrir caminho a eleições livres ou ao regresso da líder da oposição ao país e assumindo abertamente aquilo que moveu esta operação: a vontade de controlar as reservas de petróleo venezuelanas, impedindo a Venezuela de vender o produto a países como a China ou a Rússia e, sobretudo, de o vender em qualquer divisa que não o dólar (um pormenor fundamental que garante aos EUA a possibilidade quase infinita de imprimir moeda para se financiar).

Donald Trump deixou claro que ele é que vai mandar na Venezuela e foi avisando que também precisa da Gronelândia (que faz parte da Dinamarca) e que, na verdade, todo o continente americano é o seu quintal. Trump começou a desfazer a vaca sem sequer se dar ao trabalho de a matar.

Essa ideia ficou ainda mais evidente quando, uns dias mais tarde, vi um vídeo no qual, perante uma plateia de congressistas republicanos, o Presidente dos EUA relatava uma conversa com o Presidente francês. Imitando a voz de Macron, Trump explicou como o vergou em minutos. “100% vai fazer o que eu quero. Vai fazer o que eu quero e vai gostar”, gabava-se de ter dito a Macron. O truque foi fácil: ameaçar com tarifas que tornariam impossivelmente caros produtos como o vinho, o queijo ou o champanhe francês no mercado americano. Para o evitar, Macron aceitou subir os preços dos medicamentos. Trump explica como usou exatamente a mesma fórmula para conseguir o que queria noutras partes do mundo. “Em média, demoraram três minutos e 22 segundos”, diz, alarve, o bully, consciente não só da sua força, mas da cobardia dos outros.

Enquanto na Europa os líderes europeus pareciam baratas desorientadas, pensei que esta situação não era muito diferente daquela em que a queda do Muro de Berlim apanhou alguns. O muro caiu. Este muro, feito de NATO e ONU e primado da lei e de convenções internacionais, ruiu. Estava cheio de brechas e foi ao chão. No meio dos cacos, a maioria dos líderes políticos não sabe o que fazer. Não entende sequer que o mundo mudou. Agarra-se às antigas alianças e finge que nada aconteceu. Resta saber até quando.

Esta semana, almocei com um político brasileiro que estava, ao contrário de muitos dos políticos portugueses, aterrado com a quebra de soberania na Venezuela. “Isto é terrível”, repetia, garantindo que o Brasil não espera nada da China, que “não tem em conta se não os seus próprios interesses”, e que os BRICS, na verdade, estão longe de ter uma unidade que os faça agir em comum. “Índia, China e Rússia não têm os mesmos interesses”, explicava-me enquanto me dizia que lhe parecia que restava ao seu país “navegar nesta conjuntura”. Mas sem qualquer dúvida de que a ideia de soberania na América Latina (tantas vezes ameaçada no passado) está agora por um fio.

No final do almoço, ele disse-me uma frase que me ficou a ecoar na cabeça. “No outro dia, estava falando com a minha mulher e ela me disse: ‘Essa ideia da social-democracia era muito confortável até os ricos ficarem loucos.’” Rimos muito com a blague. Mas talvez tenha sido um riso nervoso. Esta loucura não dá vontade de rir. Há uma oligarquia descontrolada que está a desmantelar a democracia e a impor como lei a pirataria e o terrorismo. E isso não é para rir.

Até porque não sabemos quem poderá vir matar o leão. Será que alguém se atreve? 

Nobel fajuto para Trump causa vergonha alheia

Somente um paspalho vaidoso e inseguro em relação à própria estatura pensaria em chantagear alguém para receber um Nobel de segunda mão, resumiu Paul Krugman, ganhador de um Nobel de Economia legítimo em 2008. A cena da semana passada, que teve a Casa Branca por testemunha, é quase o registro histórico de um apogeu — a era do cinismo político agudo, desmesurado, sem vestígio de culpa ou vergonha. Na foto que rodou mundo, vê-se o presidente americano Donald Trump, sorridente, agarrado à imensa moldura dourada que, entre placas de agradecimento, continha a cobiçada medalha-símbolo do Nobel da Paz de 2025. A seu lado, sorriso também fixo, a líder oposicionista venezuelana María Corina Machado, sacramentando o inédito revezamento da honraria que recebera do Instituto Nobel em Oslo no mês passado. Sobre o bolão de 11 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 6,1 milhões) que acompanharam a outorga do prêmio, nada se ouviu. À época a agraciada o dedicou ao povo venezuelano,

— Que gesto maravilhoso de respeito mútuo. Obrigado, María — postou Trump, sem corar, no dia seguinte.


Duas semanas antes, ele descartara apoiar a mesma “María” como futura presidente da Venezuela pós-sequestro de Nicolás Maduro, porque “ela é uma mulher muito simpática, mas não tem o apoio ou o respeito dentro do país”. Balela. Trump sabe que o partido da oposicionista proibida de participar da vida nacional obteve maioria ampla em 2024, e o resultado foi atropelado por imposição de Maduro. Trump queria dizer, e não disse, que Machado não conta nem com o apoio, ainda menos com o respeito, das Forças Armadas forjadas no chavismo, até agora leais a Maduro. Sem esse apoio, os planos atuais da Casa Branca para a Venezuela sob sua tutela teriam menos chances de fluir. Preferiu aliar-se à força decapitada da presidente interina Delcy Rodríguez, militante raiz do regime, com décadas de serviços prestados ao chavismo. A incongruência é explicável. Trump entende melhor cabeças e regimes autoritários, por congenialidade. Reserva seu colossal desprezo aos meandros e complexidades do pensamento democrático, para o qual se sabe despreparado. Mas é justo na esfera democrática, e só ali, que se consegue um Nobel não fajuto.

María Corina Machado, por seu lado, jogou pela janela um sólido currículo de combate às práticas ditatoriais do regime Maduro. Dedicou boa parte de sua vida pública, que incluiu um ano na clandestinidade, à defesa de liberdades fundamentais. Até revelar-se trumpista a ponto de aplaudir o golpe de força militar dos Estados Unidos contra seu país. Também silenciou sobre os bombardeios em série ordenados por Trump contra embarcações em águas internacionais e compactuou com a versão criada na Casa Branca de que Maduro era o chefe de uma gangue de narcotraficantes. Dedicou a Trump a medalhinha de 200 gramas de ouro de 18 quilates “em reconhecimento por seu compromisso único com nossa liberdade” e nada ganhou em troca. Vida que segue.

Anos atrás o historiador italiano Carlo Ginzburg publicou um ensaio sobre a vergonha — coletiva e individual —, já citado em coluna anterior. Ginzburg sustenta que sabemos a que país pertencemos não pelo amor que a ele dedicamos, mas pelo sentimento de vergonha que ele é capaz de gerar em nós. Também esclarece que não sentimos vergonha por opção ou escolha:

— Ela recai sobre nós, invade nossos corpos, sentimentos, pensamentos como uma doença súbita.

São muitos os pensadores que diferenciam a vergonha, como trauma relacional, da culpa, como agência moral. Primo Levi, em “Os afogados e os sobreviventes”, descreve a vergonha dos sobreviventes de Auschwitz não por atos cometidos, mas por pertencerem a uma espécie cujos membros cometeram atos atrozes — uma culpa difusa pela humanidade compartilhada. Annie Ernaux, em “A vergonha”, explora o conceito como marca social de classe e falha familiar, um peso público que isola o indivíduo, enquanto James Baldwin, em “Da próxima vez, o fogo” trata da vergonha como fardo racial e social imposto ao oprimido.

Quando canalizada em energia transformadora, ou até mesmo revolucionária, como sustenta o filósofo Frédéric Gros, professor de pensamento político na Sciences Po de Paris, a vergonha é sinal inconfundível de nossa responsabilidade em relação ao mundo que habitamos. Compartilhada, ela serve de tábua de transformação e ação. Quando vivenciada de forma solitária, é capaz de paralisar personalidades das mais fortes, garante Gros.

Na cena da medalhinha, nem Donald Trump nem María Corina Machado parecem alcançáveis por qualquer vergonha. Recai sobre nós senti-la.