segunda-feira, 2 de março de 2026

Pensamento do Dia

 


Ouçam só o que vos digo

Não confiem nos vossos olhos. A mulher que veem a sorrir para o polícia que a mata está a ameaçá-lo. O homem baleado no chão várias vezes depois de ter sido desarmado era um perigo. Toda a gente sabe que quem não deve não teme. Se os agentes os mataram, a culpa foi deles. Não confiem em quem vos manipula. Duvidem de tudo. Duvidem sempre. Só não duvidem do que vos diz aquele que é a voz do povo.

A voz do povo só tem um intérprete. Um escolhido. Um eleito. Eleito por Deus, primeiro, e pelos vossos votos depois. A ordem é esta. Nunca se esqueçam da ordem. A ordem é uma coisa muito importante. Sem ordem é tudo uma bandalheira. Mas calma. Há coisas que se podem proibir e outras que não. Porque, senão, qualquer dia já não se pode dizer nada. Quem sabe o que se pode dizer e o que não se deve sequer pensar? O eleito, claro. Devemos sempre confiar em quem é eleito, mas nem sempre nas eleições. As eleições são a expressão da voz do povo quando o eleito as conquista, mas não valem nada e são manipuladas quando o eleito as perde. Porque o que conta é ser escolhido por Deus. E por isso é que ele é eleito.

Não confiem nos vossos ouvidos. Se ouviram dizer uma coisa e depois outra, é porque entretanto as coisas mudaram ou uma voz divina guiou o eleito noutra direção. A voz divina é a voz do povo. Por isso, o povo já não precisa de falar. Tem os seus ventríloquos. E pode trabalhar e meter-se na sua vida. Porque a política é uma coisa suja, a não ser que seja feita pelo eleito, claro. Nesse caso, nem se lhe pode bem chamar política. É só fazer o que está certo.

Às vezes, o que está certo causa vítimas. Há uns bandidos que morrem ou uns preguiçosos que perdem o trabalho ou a casa. Isso não muda nada. Toda a gente sabe que Deus escreve direito por linhas tortas. E as linhas do Excel podem ser muito tortas, mesmo que pareçam uma quadrícula perfeita. Se as contas batem certo, que se lixem as pessoas. Toda a gente sabe que só não prospera quem não trabalha, só morre à fome quem se pôs a jeito, só definha por falta de cuidados quem não merece viver. É a seleção natural. A ordem natural das coisas. E a ordem é muito importante.


Não confiem nos vossos instintos. O vizinho de turbante que vos parece simpático e pacífico está a enganar-vos. O cigano que trabalha é uma exceção. O imigrante que foi ajudar nos incêndios ou nas cheias é uma criação de Inteligência Artificial. Tudo falso. Falso como todas as mentiras a que chamam notícias e factos e estatísticas. O que é que valem as estatísticas quando se conhece um caso que as desmonta? O que é que vale a ciência, feita por um bando de vendidos? O que é que interessa que tenha sido o progresso científico a aumentar a esperança de vida? Balelas. Toda a gente tem uma avó que viveu rija que nem um pero até aos 100 sem precisar de nada disso.

E o que é que interessam as crianças que agonizam em Gaza? E as do Sudão? E as da Ucrânia? Há tantos lugares onde as crianças agonizam. Quantos mais houver, menos se liga a cada um deles. E assim é que está bem. Temos de cuidar dos nossos primeiro. Os nossos, sim, os nossos. Os nossos que são tão brancos como nós, apesar de haver uns mais brancos do que nós que nos acham escuros e inferiores, mas isso não vem ao caso.

É preciso salvar as crianças. Não as que morrem da guerra e da fome. As que tomam vacinas e as que vão à escola para serem endoutrinadas. Qualquer dia estão todas a ir às mesmas casas de banho. E já se sabe que é assim que se dá a pedofilia. Sim, em casa usam todas as mesmas casas de banho e os jornais estão cheios de notícias de pais, tios e avôs abusadores. E às vezes até um ou outro eleito. Mas isso são coisas que escrevem para nos distrair dos perigos verdadeiros. Tudo jornalixo feito por vendidos do sistema.

Temos de deitar abaixo o sistema. E é por isso que contamos com o apoio dos mais ricos dos mais ricos, que entretanto garantem que ficam ainda mais ricos. É claro que eles estão também contra o sistema. Sim, eles têm dinheiro e poder quase infinito. Mas estão contra os que andam a mamar. Sim, eles acumulam milhões em contratos públicos, subsídios e benefícios fiscais, mas é porque merecem. Só são ricos porque se esforçaram. Podem ter herdado, mas não esbanjaram tudo como aqueles que recebem apoios sociais e passam a tarde a beber minis no café. Podem ser pouco mais de 200 euros, mas é um roubo. Roubam-nos a nós que nos esfalfamos a trabalhar para pagar impostos. Sim, os mais ricos não pagam impostos quase nenhuns, mas é porque são espertos.

É preciso é ser esperto. Somos contra os tachos. Mas se um dos eleitos é apanhado a roubar ou nomear a namorada, a tia e a sobrinha é porque os outros também o fazem. Eles são todos iguais. Escolhemos os eleitos porque estamos fartos de que sejam iguais. Mas aceitamos que sejam iguais, porque essa é a ordem natural das coisas. Já vos disse que a ordem é muito importante?

A ordem é a base de tudo. Mas primeiro é preciso criar a desordem. É preciso que não se saiba no que acreditar, que tudo pareça precário, incerto e inseguro. As ovelhas com medo são as que mais facilmente seguem o pastor. E é tudo pelo nosso bem. Já vos disse que o eleito foi escolhido por Deus.

Deus, Pátria e Família. Deus, porque é preciso haver quem mande. E a quem temer. Sem medo, isto é tudo uma bandalheira. Pátria, porque é preciso fingir que há uma coisa maior que une os mais poderosos dos poderosos aos miseráveis que os seguem alegremente. É preciso ter inimigos e as fronteiras são boas para isso. Há os de cá e os de lá. O que é que interessa que haja uns poucos no topo e milhões espezinhados na base? E a família, claro. Porque é a família que tem de nos cuidar quando precisamos. Não há cá direitos garantidos. Querem ajuda? Peçam à família. E na família manda o pai, claro, ele próprio um eleito à sua pequena escala, com livre passe para descarregar na mulher e nos filhos a frustração acumulada, que isto um homem não é de ferro. E se tudo continua mal, ao menos há futebol e pimba, que já ninguém liga ao fado e Fátima é coisa para mulheres se entreterem e perceberem o seu lugar.

Toda a gente tem um lugar. Há os que são de cá e os que são de fora. Há os que estão em cima e os que estão em baixo. O quê? Isso parece o sistema? Que conversa de comunas! Caladinhos. Vão ver como as coisas lhes mordem quando houver uma limpeza. Acabam-se os disparates, que a conversa do “isto agora não se pode dizer nada” é só quando nos convém. Perdão. Quando convém à ordem. Somos contra o sistema, mas queremos manter tudo como estava desde os tempos do Adão e da Eva. Já vos disse que a ordem é muito importante?

Trump sendo Trump no Discurso do Estado da União

Discursos do Estado da União fazem parte do rito anual de todo presidente dos Estados Unidos. Costumam ser longos e enfadonhos. Servem, em teoria, para o mandatário prestar contas ao Congresso sobre o que fez e pretende fazer. O desempenho de Donald Trump na noite de terça-feira foi um exercício de embevecimento fascista com a própria voz. Durante uma hora e 47 minutos, embaralhou temas e falsas verdades, desconversou sobre os problemas reais da nação de 250 anos e transformou o plenário do Capitólio em claque de auditório.

O Grande Comunicador sabia ter em mãos um trunfo que obliteraria a canseira dos presentes. Dois dias antes, o time masculino de hóquei no gelo derrotara o arqui-inimigo Canadá de forma espetacular em Milão-Cortina. Comemoravam o cobiçado ouro olímpico no vestiário da Arena Santagiulia quando Trump adentrou a festança pelo celular do diretor do FBI, Kash Patel, que atravessara o Atlântico para assistir à final:

— Inacreditável! Fantástico! Teremos o discurso do Estado da União na terça-feira. Posso mandar um avião militar ou qualquer outra coisa, se vocês quiserem. Vai ser a noite mais cool — convidou Trump no viva-voz.

Na gravação que se tornou pública, ouve-se um animado “estamos dentro” de alguém do grupo. O presidente, fiel a seus instintos mais enraizados, ainda acrescentou uma gracinha que deve ter achado espirituosíssima:

— Teremos de trazer também o time feminino, vocês sabem. [Senão] acredito que provavelmente sofrerei impeachment — acrescentou, gerando risos no vestiário em Milão.

O episódio diz montes sobre o que o ocupante da Casa Branca realmente pensa das duas condenações de impeachment que sofreu no primeiro mandato, mas foram rejeitadas pelo Senado. E abre um flanco a mais na baixa aprovação junto ao eleitorado feminino e ao voto independente. Três dias antes do ouro masculino, a equipe olímpica feminina dos Estados Unidos já havia eletrizado o país vencendo de virada, também na prorrogação, a sempre campeoníssima equipe do Canadá. Na ocasião, não recebeu convite de Trump. Quando finalmente recebeu, declinou polidamente.

Em entrevista à ESPN americana, Hilary Knight, capitã da equipe vitoriosa, deu uma aula de civilidade. Com dois ouros e três pratas olímpicas na gaveta, foi serena e classuda nas respostas. Alertou sobre a situação difícil da equipe masculina diante da “vergonhosa piada” de Trump, sem minimizar o “momentâneo lapso de julgamento” dos colegas olímpicos:

— É uma pena que essa história ofusque a conexão e apoio mútuo que (as duas equipes) sempre mantiveram — disse a camisa 21.

Declarou-se orgulhosa da vitória masculina e lamentou as duas equipes não celebrarem em conjunto. De quebra, confirmou com alegria seu noivado com a patinadora de velocidade Brittany Bowe (mais de uma dezena de vezes medalhista em mundiais) e informou que a comemoração pela medalha terá local e data decididos pela equipe.

Da presença de Patel, ela certamente não sentiu falta em Milão. O vídeo que vazou do diretor do FBI na euforia do vestiário masculino — garrafa de cerveja numa mão e esmurrando a mesa com a outra — foi a versão real do que parece ser uma fantasia trumpista. Na rasteira do ouro de domingo, a página oficial de Trump publicou um meme dele dando as tacadas finais contra o Canadá e, ao final, esmurrando um dos jogadores adversários. O ideal olímpico da turma é MMA. Segundo explicações fornecidas a posteriori, Patel estava em missão ao embarcar para Milão num jato da Força Aérea: avaliar o papel do FBI na segurança dos atletas, reunir-se com seus pares italianos e ouvir o embaixador americano na Itália. Beleza. Só que chegou ao país faltando apenas três dias para o encerramento dos Jogos.

Não que lhe faltassem problemas agudos em casa. Na mesma semana de sua escapadela, um homem armado tentara invadir o resort de Trump em Mar-a-Lago e fora morto por agentes do Serviço Secreto; o Departamento de Estado emitira um alerta a cidadãos americanos para a onda de violência desencadeada no México pelos cartéis; o país acompanhava avidamente o misterioso sequestro da mãe de uma apresentadora de televisão, com o FBI tateando às cegas havia mais de três semanas. Sem falar no estado de combustão permanente implementado pelos agentes do ICE no país.

Em seu discurso no Congresso, Trump adotou um tom francamente mussoliniano ao anunciar a entrada da equipe olímpica:

— As pessoas me dizem o tempo todo, por favor, por favor, por favor, não aguentamos mais vencer todas; até o senhor chegar à Presidência, perdíamos todas... Então eu digo: “não, não, não”. Vamos continuar ganhando grande, vamos ganhar tudo. Estamos ganhando tanto que não sabemos mais o que fazer com tudo isso... e, para provar meu ponto, temos aqui esta noite o time que dá orgulho à nação toda.

A ala republicana se pôs de pé e, entre aplausos estrondosos, entoou “U-S-A, U-S-A”. Aos democratas, restou o silêncio envergonhado de não ter contido antes o Grande Comunicador.

Guerras do ópio na era das big tech

Um detalhe histórico para os ocidentais, um evento marcante para os chineses. No século XIX, o volume das exportações para a Europa de chá, seda e porcelana assegurava à China um balanço comercial positivo. A empresa inglesa East India Company (EIC) – à data, a maior empresa do mundo, com o seu próprio Exército – dedicou-se à produção de ópio no subcontinente indiano, que vendia aos chineses. O consumo de ópio tornou-se um problema social relevante e um custo económico significativo. Sucessivos imperadores chineses proibiram o comércio, mas o contrabando e o consumo continuaram a aumentar. Quando, em 1839, o imperador chinês ordenou a destruição de uma carga de ópio, o responsável máximo da EIC, Charles Elliot, apelou ao governo inglês e Inglaterra respondeu com uma força armada, que rapidamente impôs uma derrota militar aos chineses. A Primeira Guerra do Ópio terminou com um acordo que impunha à China o pagamento de reparações, a cedência da ilha de Hong Kong e a eliminação de tarifas sobre os produtos ingleses (incluindo o ópio, que se tornou legal). Nas escolas chinesas, o período entre o final da Primeira Guerra do Ópio e o final da II Guerra Mundial é denominado “Século de Humilhação”, e ainda hoje condiciona a perceção e a postura da China face ao mundo ocidental.


Na defesa dos seus interesses económicos, as big tech comportam-se como a EIC. Arregimentam o apoio do governo americano, que pressiona a Europa a rever a sua legislação sobre redes sociais e Inteligência Artificial, sob a ameaça de tarifas e a retirada de apoio militar (na Ucrânia, mas de forma mais geral minando a confiança de que os Estados Unidos da América serão solidários, caso um país da NATO seja alvo de ataque). Potenciam a divisão, seja via algoritmos que promovem a difusão de posições extremistas nas redes sociais, e cujas configurações recusam alterar, seja apoiando, de forma clara, políticos e partidos antidemocráticos. Fazem-no com campanhas de propaganda, com apoio financeiro, com a promoção de desinformação que causa a perda de confiança no Estado e nos representantes eleitos. Recusam participar nos custos de infraestrutura necessários ao seu próprio negócio – seja estruturas de fornecimento de água e luz necessárias à laboração dos data centers, seja cabos de fibra e antenas que permitem que, no computador e no telemóvel, os conteúdos que difundem possam ser acedidos. Roubam propriedade intelectual para treinar LLM. Resistem a uma tributação efetiva dos lucros gerados na União Europeia.

A Europa é a nova colónia do século XXI, e nós − os utilizadores das redes sociais e dos motores de busca e resposta − somos as novas minas de ouro, cujos dados pessoais são extraídos e tratados para fins comerciais. Em troca, recebemos redes sociais que nos entretêm até à morte e chats (GPT ou outros) com quem optamos por conversar, porque é mais simples do que cultivar relações humanas verdadeiras, mas por vezes complicadas.

Mas se sabemos isto tudo, porque não reagimos? Porque tardamos em proibir o scrolling, o feed, as notificações automáticas, o botão do like, o autoplay? Porque não responsabilizamos penalmente os donos das plataformas pelos conteúdos maliciosos e ilegais que promovem via feeds automáticos? Não seria censura, pois não se trata de impedir ninguém de divulgar os seus pensamentos e posições, mas apenas de aplicar às big tech as mesmas regras que aplicamos aos dirigentes de televisões e de jornais. Até o fazermos, medidas como o bloqueio das redes sociais a crianças podem ajudar, mas não protegem a saúde mental de adultos, nem a sociedade democrática, cuja construção tantas vidas custou. 

Vaga-lumes e iluminação pública

Luminárias antigas sempre me encantaram. Se são eficientes? Hoje em dia, talvez não mais, mas com certeza, trazem um toque de charme à paisagem urbana. O que se sabe é que, ao longo da história, a noite sempre foi vista com temor e reservas. Aliás, é fácil imaginar como seriam as cidades na Idade Média, com ruas estreitas, escuras e desertas, enquanto vigílias noturnas, quando existiam, patrulhavam as ruas. Quem quisesse sair à noite deveria usar tochas ou esperar a noite de lua cheia. Nada de bom poderia advir desse mundo de trevas, certo? A literatura é rica em detalhes sobre os cantos sombrios, assustadores e perigosos dos núcleos urbanos de então.

Sabe-se que, nos séculos XV e XVI, houve várias tentativas de melhor iluminar as ruas das cidades europeias. Um exemplo foi a emissão de decretos cobrando a instalação de lanternas estendidas por uma barra de ferro para reduzir a escuridão das vias públicas. Mas foi só com a iluminação pública, à base de lampiões a óleo, que tudo começou a mudar. Devagar, é certo, mas começou. Se, para nós, habitantes do século XXI, as cidades já eram escuras com os lampiões, imagine sem eles, só com aquelas lanternas…

Nesse quesito, a Grã-Bretanha também foi pioneira: o The Mall, em Londres, em 1807, foi a primeira área urbana a ser iluminada com gás. Entre as décadas de 1870 e 1880, outras capitais europeias instalaram lâmpadas de arco, o primeiro tipo de luz elétrica prático, ao longo de algumas das suas principais ruas comerciais.

No Brasil, o Rio de Janeiro, então Capital Federal, instalou os primeiros lampiões a óleo (de mamona, de peixe ou de baleia), no final do século XVIII. Depois do óleo, gás de hulha e querosene alimentaram os lampiões.

Na segunda metade do século XIX, em 1869, a The San Paulo Gas Company Ltd, fundada em Londres, passou a ser responsável pela exploração dos serviços de iluminação pública a gás, em São Paulo. Em 1870, a Várzea do Carmo, no Brás, foi escolhida como o local ideal para a construção da fábrica de gás de carvão, o Gasômetro. O edifício que se tornaria a Casa das Retortas, típico exemplo da arquitetura fabril inglesa, é hoje tombado pelos órgãos de patrimônio do estado e da cidade. Em tempo, retorta é o nome dos grandes recipientes que recebiam o carvão para a produção de gás.


Para quem não se lembra, a Casa das Retornas foi desativada em 1972, restaurada em 1978, com projeto de Paulo Mendes da Rocha e, durante alguns anos, abrigou o Departamento de Informação e Documentação Artísticas (IDART) e o Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. Mais tarde, uma proposta, do início dos anos 2000, de abrigar o Museu da História de São Paulo acabou não se concretizando e, em 2023, decidiu-se que o local seria um centro gastronômico e de moda. O prazo para conclusão das obras venceu em 2015. E como estará hoje aquele belo exemplo de arquitetura fabril?

Voltando aos lampiões a gás. Eram acesos diariamente ao anoitecer; ao nascer do sol, eram apagados, os vidros eram limpos e as lamparinas, reabastecidas. Quem cuidava desse serviço eram os acendedores de lampiões, conhecidos como “vaga-lumes”. Se você perguntar a uma criança hoje, ela não vai saber o que era um lampião e, muito menos, o que os tais acendedores acendiam. Talvez ela nem saiba o que é um vaga-lume de verdade… E graças aos lampiões e aos denominados “vaga-lumes”, as ruas, até então desertas à noite, passaram a ser utilizadas. Foi uma grande ocasião para as cidades, ainda que, num primeiro momento, só para as maiores.

Depois dos lampiões, só após a famosa invenção (lâmpada elétrica) de Thomas Alva Edison (1847-1931) é que veio a iluminação elétrica. Nova York foi a primeira cidade a ter iluminação pública elétrica, em 1882. No Brasil, Campos dos Goytacazes (RJ), em 1883, e depois o Rio de Janeiro. Mesmo assim, o sistema a gás e o elétrico coexistiram por décadas. Aqui, as primeiras experiências foram feitas no Rio de Janeiro (1879), mas foi só a partir de 1906 que essa tecnologia se expandiu pelas nossas cidades. Os últimos lampiões a gás ainda conviveram com os elétricos até o final da década de 1920, mas foram apagados definitivamente em 1933, no Rio, e em 1938, em São Paulo.

Data dessa época a instalação de diversos modelos de postes na capital paulista, sendo que inúmeros resistem até hoje. A maioria era de ferro fundido, tornando-se uma marca dos novos tempos, a transição entre a cidade provinciana e a modernidade. Esses postes marcaram época e até foram tema para vários poetas, como Oswald de Andrade, com o seu “Postes da Light”.

Aos poucos, a eletricidade substituiu de vez o sistema a gás e, com o tempo, a tecnologia foi mudando na busca por cidades mais claras, mais seguras e com equipamentos de menor impacto ambiental. Depois das incandescentes, surgiram as lâmpadas fluorescentes, as de vapor de mercúrio (brancas), as de sódio (amarelas) e, finalmente, as de LED.

Hoje, como antigamente, o design das luminárias é um elemento essencial no planejamento e no desenho urbanos, mas, convenhamos, o charme dos antigos postes e luminárias é imbatível.pos, a transição entre a cidade provinciana e a modernidade. Esses postes marcaram época e até foram tema para vários poetas, como Oswald de Andrade, com o seu “Postes da Light”.

Aos poucos, a eletricidade substituiu de vez o sistema a gás e, com o tempo, a tecnologia foi mudando na busca por cidades mais claras, mais seguras e com equipamentos de menor impacto ambiental. Depois das incandescentes, surgiram as lâmpadas fluorescentes, as de vapor de mercúrio (brancas), as de sódio (amarelas) e, finalmente, as de LED.

Hoje, como antigamente, o design das luminárias é um elemento essencial no planejamento e no desenho urbanos, mas, convenhamos, o charme dos antigos postes e luminárias é imbatível.

Não é o Irã que ameaça a paz no mundo. É Trump que ameaça

Pau que bate em Chico também bate em Francisco. Está ok?

Não está. Depende de quem maneja o pau. E de quem seja Chico ou Francisco. Se Chico é forte e Francisco não, Francisco é quem apanha. Chico escapa ileso ou com pequenas escoriações.

Aplique-se o ensinamento ao que ocorre desde tempos imemoriais no Oriente Médio. Ou pelo menos desde a criação do Estado de Israel em terras que pertenciam aos palestinos.


A criação de Israel, em maio de 1948, se deu no rastro do Holocausto de 6 milhões de judeus e de outras minorias promovido pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

À época, as maiores potências ocidentais prometeram criar um estado para os palestinos chamarem de seu. A promessa não saiu do papel. E não há sinais de que sairá um dia.

Israel, hoje, controla de 78% a 97% da Palestina histórica, dependendo se o cálculo inclui a ocupação da Cisjordânia, a administração de Jerusalém Oriental e áreas da Faixa de Gaza.

E funciona como um braço armado dos Estados Unidos. O ex-presidente Joe Biden já disse que Israel é o maior porta-aviões dos Estados Unidos estacionado no Oriente Médio. E assim é.

O pau está comendo nas costas do Francisco da vez – no caso, o Irã, coração do antigo Império Persa, um dos maiores da história. O motivo: o Irã é uma ameaça à segurança do Ocidente.

Em 1953, a CIA e a inteligência britânica (MI6) derrubaram o primeiro-ministro democraticamente eleito do Irã para proteger os interesses petrolíferos ocidentais, e instalaram o Xá.

Mohammad Rezā Shāh Pahlavi, o Xá, governou o Irã de 16 de setembro de 1941 até à sua deposição pela Revolução Iraniana, em de fevereiro de 1979. Comportou-se como um ditador sanguinário.

Seu regime era escandalosamente corrupto e violento. Sua polícia secreta torturava e matava dissidentes com o conhecimento e o apoio financeiro dos Estados Unidos e de outros países.

Já sob o jugo cruel do aiatolá Ruhollah Musavi Khomeini, que sucedeu ao Xá, o Irã foi invadido pelo Iraque do ditador Saddam Hussein. Os Estados Unidos apoiaram a invasão. Mas não só.

Os Estados Unidos fecharam os olhos enquanto Saddam usava armas químicas contra os iranianos. Morreram até um milhão deles. As leis da guerra proíbem o uso de armas químicas.

Tanto que, a pretexto de que Saddam acumulava armas de destruição em massa, os Estados Unidos, em 2003, invadiram o Iraque, capturaram Saddam e o mataram. Não havia armas.

Por décadas, os Estados Unidos esmagaram os iranianos comuns com sanções que destruíram sua economia, enquanto o regime dos aiatolás permanecia intocado. Tudo pelo petróleo. Sempre foi.

Em 2015, a diplomacia deu esperança aos iranianos. O acordo nuclear assinado por eles com os Estados Unidos ia bem. As sanções diminuíram. Até que em 2018, Trump o desmantelou.

E agora bombardeia o país. É o que o povo iraniano vê quando olha para os EUA. “Setenta anos de promessas quebradas, traição e destruição”, segundo a blogueira americana Heather Reese.

A Constituição americana é explícita, como observa Reese. O Artigo I, Seção 8, concede ao Congresso, e somente ao Congresso, o poder de declarar guerra. Trump sequer consultou o Congresso.

A Resolução sobre Poderes de Guerra, de 1973, permite que o presidente mobilize forças militares sem a aprovação do Congresso apenas quando houver uma ameaça iminente ao país.

Trump não apresentou provas sobre ameaça iminente. Porque não as tem. Porque não há nenhuma. Porque o Irã não representa ameaça. Quem tem bombas atômicas é Israel, seu aliado.

Trump é quem ameaça a paz no mundo.