Na defesa dos seus interesses económicos, as big tech comportam-se como a EIC. Arregimentam o apoio do governo americano, que pressiona a Europa a rever a sua legislação sobre redes sociais e Inteligência Artificial, sob a ameaça de tarifas e a retirada de apoio militar (na Ucrânia, mas de forma mais geral minando a confiança de que os Estados Unidos da América serão solidários, caso um país da NATO seja alvo de ataque). Potenciam a divisão, seja via algoritmos que promovem a difusão de posições extremistas nas redes sociais, e cujas configurações recusam alterar, seja apoiando, de forma clara, políticos e partidos antidemocráticos. Fazem-no com campanhas de propaganda, com apoio financeiro, com a promoção de desinformação que causa a perda de confiança no Estado e nos representantes eleitos. Recusam participar nos custos de infraestrutura necessários ao seu próprio negócio – seja estruturas de fornecimento de água e luz necessárias à laboração dos data centers, seja cabos de fibra e antenas que permitem que, no computador e no telemóvel, os conteúdos que difundem possam ser acedidos. Roubam propriedade intelectual para treinar LLM. Resistem a uma tributação efetiva dos lucros gerados na União Europeia.
A Europa é a nova colónia do século XXI, e nós − os utilizadores das redes sociais e dos motores de busca e resposta − somos as novas minas de ouro, cujos dados pessoais são extraídos e tratados para fins comerciais. Em troca, recebemos redes sociais que nos entretêm até à morte e chats (GPT ou outros) com quem optamos por conversar, porque é mais simples do que cultivar relações humanas verdadeiras, mas por vezes complicadas.
Mas se sabemos isto tudo, porque não reagimos? Porque tardamos em proibir o scrolling, o feed, as notificações automáticas, o botão do like, o autoplay? Porque não responsabilizamos penalmente os donos das plataformas pelos conteúdos maliciosos e ilegais que promovem via feeds automáticos? Não seria censura, pois não se trata de impedir ninguém de divulgar os seus pensamentos e posições, mas apenas de aplicar às big tech as mesmas regras que aplicamos aos dirigentes de televisões e de jornais. Até o fazermos, medidas como o bloqueio das redes sociais a crianças podem ajudar, mas não protegem a saúde mental de adultos, nem a sociedade democrática, cuja construção tantas vidas custou.

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