segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Praga nasce mesmo nos 'melhores' lugares

Somente a ralé e a elite podem ser atraídas pelo ímpeto do totalitarismo, as massas têm que ser conquistadas por meio da propaganda. Sob um governo constitucional e havendo liberdade de opinião os movimentos totalitários que lutam pelo poder podem usar o terror somente até certo ponto, como qualquer outo partido, necessitam granjear aderentes e parecer plausíveis aos olhos de um público que ainda não está rigorosamente isolado de todas as outras fontes de informação.

Hannah Arendt, “Origens do totalitarismo”

De Lima Barreto ao Banco Master

Em "O Triste Fim de Policarpo Quaresma", o personagem Genelício é o arquétipo do barnabé indolente, inepto, e diligente apenas na arte de parecer ocupado. Finge trabalhar enquanto se ocupa obsessivamente de regras obsoletas e protocolos irrelevantes. Dizia dedicar-se à redação de um monumental volume intitulado "Os Tribunais de Contas nos Países Asiáticos" —iniciativa tão inútil quanto o aprendizado do javanês em outro texto cáustico de Lima Barreto. O autor escrevia em 1911. Mais de um século depois, porém, o tema outrora exótico e quase irrelevante dos tribunais de contas converteu-se em questão central da agenda pública na atual conjuntura.


Rui Barbosa, em seu parecer sobre a criação do Tribunal de Contas da União, já advertia para o risco de que a instituição se transformasse em um "ornato aparatoso e inútil", um verdadeiro "Tribunal de Faz-de-Conta". O célebre jurista não poderia imaginar que o perigo seria ainda maior: o de os tribunais de contas se tornarem engrenagens auxiliares de uma trama protetiva de esquemas ilícitos de grande envergadura.

A sensação contemporânea é a de terra arrasada. Até a Polícia Federal, que ainda figurava como baluarte de credibilidade, começa a ser atingida. Praticamente todos os atores institucionais encontram-se sob suspeita. O affair Master abalou profundamente a reputação do Supremo —e não apenas a de dois de seus ministros. A CPI do INSS e os esquemas de blindagem por ela revelados agravaram ainda mais o desgaste do governo e do Legislativo como um todo. O presidente do Senado enfrenta denúncias, o vice-líder do governo foi alvo de busca e apreensão, e as investigações alcançam o círculo familiar do presidente da República. A exposição de milícias digitais em processos envolvendo corrupção tampouco é novidade absoluta —basta lembrar o episódio dos "blogs sujos"—, embora antes sua atuação estivesse mais circunscrita ao terreno político-partidário.

Como chegamos até aqui? A estrutura de incentivos mudou com o vale tudo pós-Lava Jato. Mas nada disso seria exatamente inédito se estivéssemos falando apenas da velha promiscuidade entre Estado e grandes interesses privados. A maior empreiteira do país mantinha um departamento inteiro de "operações estruturadas", dedicado exclusivamente ao pagamento sistemático de propinas a milhares de agentes públicos. A J&F, em escala semelhante, distribuiu cerca de R$ 500 milhões a quase dois mil atores políticos. O manual é conhecido, o roteiro é repetido, os personagens apenas trocam de figurino.

O que é efetivamente novo são dois elementos. Primeiro, as denúncias envolvendo membros das instituições superiores da República, como o STF e os tribunais de contas. Segundo, a crescente conexão desses esquemas com o crime organizado —fenômeno já conhecido no plano subnacional, notadamente no Rio de Janeiro, mas que agora alcança o centro do sistema. Não por acaso, um conselheiro de Tribunal de Contas daquele estado encontra-se hoje atrás das grades.

A sociedade e a imprensa estão fortemente polarizadas, o que cria limitações importantes para o exercício de alguma forma de accountability social. A única reação a este estado de coisas veio da imprensa. Ou mais propriamente de jornalistas individuais. Lima Barreto vive.

Veias abertas

Teotihuacan é o local onde o tempo nasceu. Foi ali que os deuses se reuniram para criar o Quinto Sol. Para os astecas, a Terra havia sofrido quatro criações e destruições anteriores e, graças ao sacrifício dos deuses, o sol que brilhava sobre eles foi criado de novo, precisamente em Teotihuacan.

Hoje, vivemos a criação de um novo sol. Uma nova ordem que parece ter, precisamente na geografia da América Latina, seu primeiro rascunho. A silhueta que ele desenha, porém, nos remete aos dias mais nefastos de nossa história. Uma intervenção armada, o sequestro ilegal de um chefe de Estado e um alerta para toda a região de que sua autonomia será castigada.


Donald Trump foi transparente: quer o petróleo e o controle do hemisfério. Nem sequer citou a palavra “democracia” ao comentar a incursão militar na Venezuela, durante uma coletiva de imprensa. Apenas confirmou o que Eduardo ­Galeano já havia alertado sobre o fato de o percurso da América Latina ser la historia del despojo de los recursos naturales.

Numa era digital, globalizada e virtual, ao contrário do que poderíamos imaginar, o controle de territórios volta a ser fundamental e estratégico. A inteligência pode ser artificial, mas está no subsolo sua massa cinzenta. E, assim, nossa região deixa de ser irrelevante. Para seu desespero.

É no triângulo entre Chile, Argentina e Bolívia que estão 60% das reservas de lítio do mundo. A Venezuela está erguida sobre um tesouro repleto de ouro e petróleo. O Brasil tem a segunda maior reserva de terras-raras do mundo, atrás apenas da China, principal rival dos EUA. Metade da prata do mundo vem da América Latina, assim como 40% do cobre, 22% do zinco e 10% do níquel. A Amazônia faz parte de qualquer equação que possa determinar o futuro da sobrevivência da espécie humana no planeta. Temos um terço da água doce do mundo.

Marco Rubio, ao explicar a intervenção dos EUA em Caracas, não mediu palavras para alertar que seu governo não vai tolerar que tamanha riqueza seja cobiçada por outras potências. Invertendo a canção, a ideia é de que, sim, podem comprar o sol, podem comprar a chuva.

Antes mesmo de assumir a Presidência, o movimento de ultradireita nos EUA havia já mapeado todos os pontos estratégicos da região que estavam nas mãos de potências estrangeiras, principalmente a China. A conclusão é que tal cenário seria inaceitável para a segurança nacional norte-americana.

Quando a nova estratégia de segurança nacional dos EUA foi publicada, em dezembro, essa conclusão ganhou um componente de política pública: a Casa Branca vai declarar sua ambição e interesses por esses pontos estratégicos do continente, inclusive por meios militares. Uma das instruções foi para que a CIA atuasse diretamente na identificação de áreas de recursos naturais estratégicos aos EUA na América Latina. Tudo isso estava escrito.

Antes, contavam histórias, inventavam narrativas para justificar intervenções. Hoje, sem pudor, abandonam o teatro, apenas para explicitar que tudo não passa de uma ofensiva por instrumentos para garantir um espaço de hegemonia no século 21.

Retomam a ideia de protetorados, inclusive quando não precisam disparar uma só bala e contam com o entreguismo de uma ala da elite latino-americana, ávida por ser recompensada pela traição. No caso brasileiro, a depender do resultado das eleições deste ano, Trump não precisará sequer usar seu arsenal militar ou de sanções. Tudo será devidamente entregue de bandeja. São poucos os países que podem dar-se ao luxo de ter a presença de harpias, o maior predador dos céus e a mais poderosa ave de rapina. Não por acaso, seu nome é inspirado na mitologia grega, símbolo de espíritos malévolos do vento, com rosto humano e corpo de abutre.

Parecem ecoar de novo pelos vales do continente as frases de Galeano. “Ahora América es, para el mundo, nada más que los Estados Unidos: nosotros habitamos, a lo sumo, una sub América, una América de segunda clase, de nebulosa identificación. Es América Latina, la región de las venas abiertas”, alertou.

Não é só o petróleo. O riquíssimo subsolo da região, com grandes jazidas de lítio, cobre, terras-raras e outros minerais estratégicos, despertou o apetite das rapinas do Norte

As veias seguem abertas. Após a queda de Maduro, Trump nem sequer disfarça sua ambição em seguir com sua diplomacia das canhoneiras. Para atender à base mais radical de seu governo, a ofensiva cumpre ainda uma missão ideológica: encerrar com qualquer foco de resistência ao sistema capitalista ou à hegemonia dos EUA.

Cuba, portanto, está na mira, e Havana parece ser destinada a viver mais uma vez um capítulo central na história do continente. A capital da ilha nunca foi apenas mais uma cidade. Seria ingênuo dizer que ela tem uma história. Havana tem uma biografia. Foi protagonista do fim do império espanhol, da construção da superpotência norte-americana. Foi o palco de uma tensão que deixou o planeta sem saber se teríamos um amanhã. Mas também embalou o mundo com suas melodias.

Em cada uma de suas ruelas, é como se o caleidoscópio de Alejo Carpentier penetrasse uma nova imagem no imaginário coletivo latino-americano. Ele dizia que hablar de revoluciones, imaginar revoluciones, situarse mentalmente en el seno de una revolución, es hacerse un poco dueño del mundo.

Agora, Havana pode voltar a ocupar esse lugar. O modelo, esgotado e sem o petróleo venezuelano, está ameaçado. No Malecón, qualificado como o divã mais eloquente do mundo em desenvolvimento, basta chegar mais perto de onde as ondas quebram para descobrir que, ali, o ar tem outro gosto. Ali, a espuma, a água e a luz explodem em sete cores. Hoje, aqueles que circulam pelo local, em algum lugar de suas almas, sabem que as ondas parecem trazer, sem negociação, uma ameaça irresistível.

A ofensiva ainda ocorre num momento em que o projeto de integração regional está enterrado. No domingo, a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) nem sequer conseguiu chegar a um consenso sobre o maior ato de agressão à América Latina em décadas. O Mercosul mantém-se em silêncio e, na terça-feira 6, a Organização dos Estados Americanos (OEA) transformou-se em uma plataforma de acusações mútuas, com a extrema-direita regional agindo para proteger Trump.

Maduro é, em muitos aspectos, indefensável. Mas a história não é sobre ele. Nesta semana, o trágico caminho do continente ganha mais um capítulo infausto, como se quisessem tentar nos provar, teimosamente, que somos um hemisfério condenado. “Não temos tido sequer um minuto de sossego”, diria Gabriel García Márquez, ao receber, em 1982, o Prêmio Nobel de Literatura, em um discurso no qual ele percorre a história de fantasias e dramas da região.

As veias abertas da América Latina continuam sangrando. A esperança, ainda assim, é de que elas também resistam, como diria Galeano.

'Ah, mas você tem um Iphone'

Uma foto usada pelo canal francês Arte 7 ilustra a matéria A escravidão moderna. Nela, vê-se um imigrante africano, operário da construção civil na França, que perdeu parte dos dedos após um bloco de concreto cair sobre sua mão. Sem equipamentos de segurança, ele passou dois anos trabalhando nessas condições, recebendo apenas metade do salário e dormindo em um quarto cedido pela empresa. Caso deixasse o emprego, perderia também o lugar para morar. Como ele, a maioria dos trabalhadores do mundo vive sob condições semelhantes. Isso é o capitalismo, ofuscado pelo brilho das parafernálias que nos seduzem, encantam e alienam. 


* As marcas francesas Lancôme (do grupo L’Oréal) e Aerin Beauty (do grupo Estée Lauder) foram citadas em uma investigação da BBC como envolvidas indiretamente na extração de jasmim no Egito, onde há uso de trabalho infantil e exploração de mulheres na colheita. 

* O tênis da Nike é produzido em países asiáticos como Vietnã, Indonésia, China, Coreia do Sul e Taiwan, em fábricas terceirizadas. As condições de trabalho nesses locais já foram alvo de denúncias de baixos salários, jornadas longas e ambientes insalubres. 

* A boneca Barbie é produzida na China por mulheres submetidas a jornadas exaustivas, com mãos queimadas pela cola quente, onde até mesmo as luvas são negadas às trabalhadoras, que recebem um salário de fome. 

* Nos canaviais brasileiros, os trabalhadores cortam, em média, mais de dezoito toneladas de cana diariamente. Para atingir essa meta, passam de 10 a 12 horas em atividade contínua, sob sol forte e em ambiente insalubre. 

* A grande farmacêutica Purdue Pharma, fabricante do OxyContin, é uma das responsáveis por viciar a população em opioides nos EUA, pagando médicos para receitar os próprios remédios. Outras empresas também foram implicadas, como Johnson & Johnson, Teva Pharmaceuticals, Endo International, Mallinckrodt e distribuidoras como McKesson, Cardinal Health e AmerisourceBergen. 

* O cobalto, matéria-prima essencial para a fabricação do iPhone e do computador da Apple, é extraído principalmente no Congo. A jornada de trabalho envolve crianças, falta de equipamentos de segurança. Além disso, grandes empresas armam “rebeldes” para apropriar-se das minas e “protegê-las”, financiando o sequestro de homens e meninos para este trabalho. 

* Nas fazendas do agronegócio, trabalhadores dormem em currais, enquanto o grupo Veneta e seu proprietário é dono da marca de grife Brooksfield. 

* Marcas como Victoria’s Secret usam mão de obra das prisões estadunidenses. Os presos são obrigados a trabalhar de graça. Para manter a produção, as cadeias precisam estar sempre cheias. 

* Todos os países da OTAN são obrigados a gastar, no mínimo, 1% do PIB com armas, para movimentar a indústria bélica. Nunca vimos a cara de um empresário do ramo. 

* A Itália comprou aviões F5, de bilhões de euros, enquanto o sul do país não tem médicos – tiveram que levar os de Cuba. 

* Grandes construtoras como MRV, OAS e Odebrecht também apareceram em listas de trabalho análogo à escravidão no Brasil.

* Países ricos (Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, França, Japão e Austrália) frequentemente exportam seus lixos – como plásticos, eletrônicos velhos e até resíduos tóxicos – para países mais pobres, especialmente na África, Ásia e América Latina. 

* Empresas como Coca-Cola, Nestlé e Danone participam de fóruns globais sobre água, defendendo a ideia de que a gestão deve ser feita pela iniciativa privada. A Coca-Cola já possui concessões de exploração de fontes de água em diversos países, inclusive no Brasil, para produção de refrigerantes e águas engarrafadas. 

* A empresa holandesa Braskem, responsável pela extração de sal-gema em Alagoas, provocou um dos maiores desastres socioambientais urbanos do Brasil. A mineração subterrânea em Maceió levou ao afundamento do solo em vários bairros, forçando a retirada de mais de 60 mil pessoas de suas casas e deixando áreas inteiras da capital em risco permanente. 

* A Vale é responsável por alguns dos maiores crimes ambientais da história recente do Brasil, principalmente os rompimentos das barragens de Mariana (2015) e Brumadinho (2019), que causaram centenas de mortes, destruição de comunidades inteiras e contaminação de rios. 

* As empresas produtoras de carne bovina, soja, papel e celulose, óleo de palma e mineração estão envolvidas com desmatamento de florestas. Entre elas estão Marfrig, JBS, Minerva, Amaggi, Cargill, Cosan, Citrosuco, além de multinacionais que compram insumos dessas cadeias, como Nestlé, Unilever e PepsiCo. 

* A Toyota fabricou e ocultou falhas em veículos, especialmente nos casos de recalls massivos entre 2009 e 2014. Os carros causaram acidentes fatais. E, o Ministério dos Transportes do Japão descobriu que a Toyota, junto com outras montadoras (Honda, Suzuki, Mazda e Yamaha), havia burlado testes de certificação. 

* As Ilhas Cayman, Bermudas, Luxemburgo, Suíça, Singapura, Hong Kong, Panamá, Ilhas Virgens Britânicas, Ilha de Man, Mônaco e Vaticano, são usados como paraísos fiscais. Esses locais oferecem tributação muito baixa ou inexistente, sigilo bancário e estruturas jurídicas que facilitam a evasão fiscal e a lavagem de dinheiro.

Aí, qualquer crítica ao Capitalismo tem como resposta: “Ah, mas você tem iPhone e está reclamando do quê?”

Resistir ao pessimismo quando tudo está a mudar

O otimismo já conheceu melhores dias. Nos tempos turbulentos e surpreendentes em que vivemos, passou a ser muito difícil encarar o futuro com aquele entusiasmo que, até há bem pouco tempo, associávamos à confiança no progresso, à crença de que o mundo estava sempre a melhorar, e de que o ano seguinte seria obrigatoriamente melhor do que o anterior.

Agora, num clima geral de incerteza económica, de regresso a um estado latente de guerra em regiões que pensávamos pacificadas e perante uma transformação acelerada e imparável da ordem mundial, é natural que tenhamos mais dúvidas do que certezas, quando tentamos antecipar o futuro.

A imprevisibilidade está instalada. A desconfiança sobre tudo e todos é fomentada para criar ainda mais incerteza e insegurança. Com um objetivo claro: fazer-nos ter medo do futuro.



É isso que pretende quem quer fazer-nos regressar aos tempos em que a autoridade se impunha unicamente pela força, independentemente da razão. Quem considera que o mundo deve estar dividido entre esferas de influência ditadas pelos mais fortes e não pelo que desejam as populações de cada nação ou território. Por quem quer perpetuar-se no poder, apenas pela força das armas ou da sua fortuna colossal, como se todos os outros fossem irrelevantes ou obrigados a ser, unicamente, obedientes. Quem, no fundo, nos exige que não pensemos no futuro, porque essa tarefa não nos compete – deve estar, dizem, entregue a quem cria esse medo e que, “generosamente” tratará disso por nós, para todo o sempre e a seu bel-prazer.

É inegável que vivemos uma crise generalizada de confiança – alimentada pelo discurso populista, sempre assente na gritaria e no bota-abaixo, e pela ditadura oculta dos algoritmos que, na era da informação instantânea e omnipresente, nos atira continuamente pólvora para a fogueira de qualquer conflito, só para não perder a nossa atenção. As consequências estão à vista: vivemos em sociedades divididas em bolhas, quase sem pontos de contacto entre elas e que se enfrentam, por qualquer que seja o motivo, com a fúria de quem repele um invasor. Com uma agravante: agora, as armas utilizadas, tanto a nível do discurso como do uso da mentira e da desinformação, já não respeitam as regras da guerra – mesmo as não escritas… – e ultrapassaram já todos os limites da ética e do bom senso.

A situação deteriora-se ainda mais quando aqueles que teriam a responsabilidade de ser os garantes da verdade, do humanismo, da justiça e da mais elementar decência, acabam por se deixar envolver no mesmo jogo da polarização e do extremismo absoluto, contribuindo, dessa forma, para a quebra de confiança nas instituições que representam.

É fácil, por isso, nestes tempos, ceder ao pessimismo e entregar a outros a construção do futuro – àqueles que, mesmo recorrendo à mentira e à manipulação dos factos, conseguem capitalizar o sentimento de revolta a seu favor. E fica ainda mais fácil quando os que teriam a responsabilidade de pugnar pelos seus ideais, princípios e valores, tanto na política como na comunicação social, optam pela ambiguidade estratégica, que acaba por ser aliada dos populistas, dos algoritmos e da lenta destruição da confiança nas instituições.

Há quem condene os otimistas, criticando-os por serem incapazes de prever o desastre que os espera, mesmo à frente. A verdade é que o pessimismo é bem pior e muito mais limitador: impede a ação contra a fatalidade do destino, aceita como inevitável as injustiças, limita a capacidade de revolta ou de indignação.

Talvez seja por isso que, neste mundo atual carregado de pessimismo e de polémicas que minam toda e qualquer esperança, não estejamos a prestar a devida atenção a algumas realidades que, provavelmente, irão marcar de forma decisiva 2026 e os próximos anos. Uma delas é a inesperada eclosão de várias revoltas lideradas pela chamada Geração Z que, em muitos países, já fez derrubar governos e obrigar a mudanças que poucos tinham previsto. Outra é a resposta inorgânica, mas com números impressionantes, de consumidores que decidem penalizar os desvarios de quem se acha dono do mundo: foi o que fizeram os canadianos ao boicotarem os produtos americanos, após as tarifas anunciadas por Trump, e o que revelaram os europeus ao deixarem de comprar automóveis Tesla, em resposta à deriva egocêntrica e autocrática de Elon Musk.

Podemos esperar algo do mesmo género nos próximos tempos. Até em geografias inesperadas. Mas basta ver o cuidado que Pequim teve ao abordar as consequências do recente incêndio num bloco de edifícios em Hong Kong, que se transformou no maior desastre daquele território em décadas, para se perceber que mesmo os regimes mais centralizados e aparentemente poderosos têm de lidar com muita cautela com a força da opinião pública. Aliás, foi graças à pressão popular, com manifestações generalizadas em todo o país, que Xi Jinping foi obrigado a rever a política oficial de confinamentos totais na China, no final da pandemia da Covid-19. E, pelos vistos, aprendeu a lição.

Como a História demonstra à saciedade, o futuro pode ser liderado por indivíduos, mas não se constrói sem os povos – e muito menos contra eles. Se há algo que nos ajuda a ser otimistas nestes tempos é lembrarmo-nos de que os ciclos são todos muito mais rápidos e voláteis. Ou seja: mesmo quando cedemos ao pessimismo e sentimos que tudo vai para o buraco, afinal também depressa se abrem os olhos e se avista um novo horizonte de esperança. Mesmo que insistam na mentira e na desinformação, as narrativas antidemocráticas e dos criadores do caos não vão durar para sempre.

É por isso que, nestes tempos, cada vez é mais importante a resistência de uma informação livre, rigorosa e verdadeiramente independente – baseada em factos e que ajude a pensar, de forma crítica e fundamentada, sobre a realidade.

Neste início de 2026, apesar dos ventos de pessimismo que sopram de tanto lado e das dificuldades por que temos vindo a passar nos últimos meses, na VISÃO não desistimos de olhar para o futuro com otimismo – graças ao apoio inexcedível dos leitores, confiantes no nosso profissionalismo e insistentes nos valores do jornalismo. “O destino destina, mas o resto é comigo”, escreveu Miguel Torga, há muito anos. O destino, na verdade, é connosco – todos!

Kast, Maduro, chacina do Alemão, política de segurança de Trump e o algoritmo

Sempre tive um interesse particular pelo tema da criminalidade na América Latina, especialmente no que diz respeito aos crimes midiáticos e às organizações criminosas. Desde o lançamento do filme Cidade de Deus, quando eu ainda era criança, compreender a relação persistente entre pobreza, proibicionismo, tráfico de drogas, corrupção, política e organizações criminosas tornou-se um hobby – especialmente no que diz respeito ao meu consumo de mídia em vídeo. Tropa de Elite foi um dos meus filmes preferidos por algum tempo, até a segunda parte, Tropa de Elite 2.

O fato é que o tema da violência me engajou, e, na era dos streamings, meu algoritmo entendeu isso rápido. Narcos México é a minha série de streaming favorita, seguido da versão colombiana que, assim como Tropa de Elite, é protagonizada por Wagner Moura – desta vez no papel de traficante. Mas não são as únicas séries que me engajaram na fase adulta: Impuros, Arcanjo Renegado, Donos do Jogo, Cidade de Deus (a série), O Jogo que Mudou a História, Todos contra Um, A Divisão etc. E todas estas chegaram até mim por meio dos meus algoritmos. Os sistemas de recomendação não têm dúvidas de que o tema da violência urbana é um dos meus favoritos. Eu não sou uma exceção. Muito longe disso. Sou apenas um homem médio latino-americano. Eu ouso dizer que o tema da violência é, para o homem médio latino-americano, um dos mais engajantes da história recente.

Crescemos em sociedades marcadas pela violência. Quando temos o privilégio de crescer longe das comunidades mais pobres, tomadas por guerras diárias, pelo tráfico e pelas milícias, a violência nos encontra nos telejornais, nas notícias, nos jornais policiais do meio-dia e, sobretudo, no medo. O medo de andar nas ruas escuras, o medo de encontrar “dois caras numa moto”, de parar num sinal à noite, de ter o celular roubado, o cartão clonado, e, especialmente para as mulheres, a integridade física e psicológica destroçada.

Com isto introduzo alguns comentários sobre fatos políticos recentes. Começando por uma das vitórias eleitorais mais marcantes para a América Latina em 2025: a de José Antonio Kast, eleito presidente do Chile. Apelidado pela mídia tradicional de “Bolsonaro Chileno”, o político de extrema-direita se utilizou de um discurso forte contra o crime e a imigração e foi o presidente mais votado da história do Chile. Segundo o doutor em sociologia Eugenio Tironi, em entrevista à BBC, o medo da criminalidade, comumente associada à imigração irregular, especialmente de venezuelanos, foi um dos fatores preponderantes para a vitória de Kast – que tem um discurso “linha dura” de combater violência com violência.

Kast não foi o primeiro nem será o último a conquistar popularidade ao mobilizar um discurso de combate ao crime organizado, com violência e firmeza. Mas, por vezes, o discurso se transmuta em prática e o resultado pode até ser mais eficiente. Após a operação mais sanguinária da história das polícias civis e militares do Brasil, que deixou 121 mortos nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, a popularidade do governador Cláudio Castro alcançou o seu ponto mais alto desde 2022. Figura política de ascensão recente e pouco expressa no âmbito popular, Cláudio Castro teve seu rosto conhecido em todo o Brasil. O subsecretário de inteligência da Polícia Militar do Rio de Janeiro, Daniel Ferreira de Souza, afirmou no Senado que a megaoperação na cidade teve resultado “ínfimo” para desmontar a estrutura do Comando Vermelho. Mas, na mesma entrevista, disse que a operação foi importante em “nível simbólico”.


Este efeito simbólico da violência, como de costume, se traduziu nos meus algoritmos, especialmente no Instagram e no YouTube. Reels do Instagram e Shorts do YouTube, na minha navegação de ócios diários, foram quase monopolizados por imagens da operação policial. Além de imagens das câmeras dos PMs, de jornalistas “de guerra”, também apareciam policiais dando entrevistas em podcasts explicando as razões da polícia ter que ser violenta, o próprio Cláudio Castro dando entrevistas elogiosas à operação e bolsonaristas diversos que eu nunca assisti voluntariamente (fora dos sistemas de recomendação) afirmando que o governador do RJ estava “fazendo o que o PT não fez”. O ocorrido acelerou o debate sobre a criação de um projeto de lei visando endurecer o combate ao crime organizado no Brasil, com a extrema-direita insistindo em equiparar o crime organizado a organizações terroristas.Ato em frente ao Consulado dos Estados Unidos contra a invasão na Venezuela.

É o que me leva a tratar agora do terceiro tema: a nova doutrina de segurança nacional de Donald Trump. Gostaria de chamar a atenção para três características desta doutrina:


* O reavivamento da Doutrina Monroe, definindo, de forma radical, que as “Américas”, especialmente os países da América Latina, devem ser campo de influência inquestionável dos EUA.

* A intenção de apoiar “governos amigos” na América Latina no combate ao narcotráfico e à influência de rivais geopolíticos, como a China e a Rússia.

* O foco no combate ao narcotráfico, equiparando as organizações criminosas que operam no tráfico internacional de drogas a terroristas (exatamente como a extrema-direita brasileira tentou fazer).

Aí entendemos que um “governo amigo” de Trump no Brasil, sem dúvidas, seria composto por aqueles reproduzindo a narrativa de que narcotráfico é terrorismo: o que justificaria inclusive intervenções militares dos EUA em território nacional, confirmando a radicalidade já demonstrada por Trump no reavivamento da Doutrina Monroe. Já se fala em “corolário Trump à doutrina Monroe”, que levou à invasão da Venezuela e ao sequestro do presidente Nicolás Maduro para ser preso e julgado nos EUA. Porém, Maduro não foi preso nem será julgado por ser um ditador, mas sim por ser, alegadamente, um “narcoterrorista”. O combate ao narcotráfico e ao narcoterrorismo é a narrativa prioritária de Trump para justificar sua intervenção. Esta intervenção teve um efeito midiático natural que também foi impulsionado e alimentado pelo próprio Donald Trump, ao postar uma foto de Maduro sendo transportado para os EUA, algemado e vendado. A foto é digna de abertura da série sobre o narcotráfico, até mesmo em sua estética.

E o que os algoritmos têm a ver com isso? Não é novidade a relação íntima entre Donald Trump e as grandes corporações de tecnologia dos EUA, especialmente as redes sociais, assunto que foi tema de artigo meu publicado no site do Lab 404 e no Le Monde Diplomatique. Desde janeiro, a META, controladora do Instagram e do Facebook, já tinha expressamente prometido se aliar a Trump contra países que visam regular as redes sociais. O que leva à reflexão sobre as capacidades dessa aliança e sobre o papel do tema do combate à violência para fortalecê-la.

No artigo científico intitulado “Opinião Pública Algorítmica”, pesquisadores italianos tratam de como os algoritmos das redes sociais contribuem para direcionar, facilitar ou dificultar a formação da opinião pública nas sociedades. Segundo eles, os algoritmos desempenham um papel decisivo na determinação de quais questões de interesse público importam mais e quais notícias são selecionadas e amplificadas. Eles explicam que, nas redes sociais, a opinião pública se materializa como produto das interações entre usuários e conteúdos organizados por algoritmos, o que impõe aos usuários navegar e negociar sua capacidade de ação como parte de um ecossistema sociotécnico mais amplo. Nestes sistemas, ao mesmo tempo em que o algoritmo molda o que o público recebe, é moldado pela reação do mesmo público às informações. Mas a relação não é apenas entre algoritmos e usuários, pois as tecnologias não são neutras: fazem parte de redes mais amplas de interesses políticos, geopolíticos, corporativos, econômicos etc.

Não foi por isso que o governo Trump obrigou a ByteDance, controladora do TikTok, a deixar que o algoritmo de sua operação nos EUA fosse controlado por atores norte-americanos? Fiz questão de introduzir esse texto, tratando do meu interesse pelo tema da violência, que precede a ascensão dos algoritmos como mediadores de conteúdo, para agora dizer que, nas redes sociais, os usuários não são meros receptores da personalização: eles interagem com uma estrutura maleável e constantemente moldada por acontecimentos tão diversos e dispersos no tempo e espaço que podem incluir na mesma rede: o medo diário da violência urbana, a decisão do STF de responsabilizar plataformas digitais, a fala de Lula sobre “traficantes serem vítima” e a forma de fazer política internacional de Donald Trump. Vai muito além da interação entre o algoritmo e o usuário. O algorítmico intensifica interesses prévios para aumentar sua capacidade de captar a atenção. E quanto mais captura a atenção, mais influência exerce. E esta influência faz parte de uma rede mais ampla de afetos, economias corporativas, disputas geopolíticas, disputas de classe etc. Em resumo: o algoritmo nos leva a fazer coisas e tomar decisões, mas também é levado a fazer coisas. Ele “produz a” e é “produzido pela” realidade social em que funciona.

Os índices de violência que geraram a sensação de medo entre os chilenos e foram capitalizados politicamente por Kast não chegam nem perto dos brasileiros. Mas, embora apresente índices de criminalidade inferiores aos dos países vizinhos, a insegurança dominou o debate eleitoral no Chile. Segundo a Ipsos, 63% dos chilenos colocam crime e violência como sua maior preocupação – percentual superior ao de México, Colômbia e Brasil. Apesar de ter taxas de homicídio muito menores, o Chile se tornou o segundo país mais preocupado com a violência entre 30 nações pesquisadas. É de se esperar que a extrema-direita brasileira adote a mesma estratégia. Isso onde o governo Trump está expressamente disposto a ajudar políticos amigos ao mesmo tempo em que aumenta sua influência na América Latina inclusive com intervenções militares; a META está expressamente disposta a combater governos que querem regular as redes; e o Brasil avança no debate regulatório com a proeminência da ação política de atores progressistas e da Suprema Corte.

É de se esperar, no Brasil, algo como o que ocorreu na Venezuela? Muito improvável, apesar de o “improvável” estar acontecendo na era geopolítica que se inaugura. É de se esperar que haja mais operações policiais cinematográficas para agendar o debate público? Talvez. O que dá para ter certeza é que não estamos livres de intervenções externas em nosso processo democrático no ano corrente. E um dos meus palpites é que é de se esperar que o algoritmo do brasileiro médio, assim como o meu, trabalhe para trazer o tema da violência urbana (especialmente o tráfico de drogas e as organizações criminosas) ao centro do debate eleitoral.

Trump arromba a porta das leis

Começa assim o conto “Diante da lei”, que Franz Kafka publicou ainda em vida (1915) e foi postumamente incorporado à história de Josef K. no célebre romance “O processo”, do mesmo autor:

— Diante da lei, encontra-se um porteiro. A esse porteiro chega um homem do campo que pede para entrar na lei. Mas o porteiro diz que não pode conceder-lhe entrada naquele momento. O homem então pergunta se poderá entrar mais tarde. “É possível”, diz o porteiro, “mas não agora”.

Na parábola citada, o portão da lei parece estar sempre aberto, e o recém-chegado se inclina para espiar o que há lá dentro. O porteiro percebe e ri.

— Se a tentação é tão grande, tente entrar apesar da minha proibição. Saiba que tenho poder, mas sou apenas o porteiro do escalão mais baixo.


Para além dele, haveria mais salas, cada uma com um guardião mais poderoso que o da sala anterior. O homem do campo não esperava tais dificuldades. A lei deveria ser sempre acessível a todos, pensa ele; mas, ao observar com mais atenção o porteiro em seu casaco de pele, seu nariz grande e pontudo e sua longa e fina barba tártara negra, decide que seria melhor esperar até obter permissão para entrar. O porteiro lhe oferece um banquinho e permite que se sente, do lado de fora do portão. Ali o homem permanece sentado por dias e anos. Faz inúmeras tentativas para ser admitido e cansa o guardião com seus reiterados pedidos de acesso.

O porteiro frequentemente o interroga pró-forma, questionando-o sobre sua terra natal e muitas outras coisas, mas são perguntas lançadas com indiferença. Ao final, sempre repete que ainda não pode deixá-lo entrar. Para conquistar o almejado acesso à lei, o homem vai lhe oferecendo o que levava consigo de mais valor. Este aceita tudo, e ao aceitar, diz:

— Estou levando isto apenas para que você não pense que falhou em nada.

Assim passam meses, anos, muitos anos. Nada muda. O homem observa o porteiro quase continuamente. Esquece os outros porteiros, pois o primeiro lhe parece ser o único, senão o maior obstáculo. E amaldiçoa a infeliz circunstância da situação — em voz alta nos primeiros anos de espera, como murmúrio para si mesmo à medida do envelhecer. Vai se tornando infantil. De tanto estudar o porteiro, ele passa a conhecer até as pulgas que frequentam sua gola de pele, chegando a pedir-lhes que o ajudem a persuadi-lo. Sua visão enfraquece, e ele não sabe se as coisas a seu redor se tornaram realmente mais escuras ou se é enganado pelos próprios olhos. Restando-lhe pouco tempo de vida, tem uma iluminação ao repassar o que vivera e consegue formular a única pergunta que ainda não fizera ao porteiro. Este tem de se curvar bastante para ouvir e falar, pois a grande diferença de altura mudou as coisas em desvantagem para o homem.

— Então, o que você ainda quer saber?

— Todos se esforçam para cumprir a lei. — diz o homem — Então como, em todos estes anos, ninguém além de mim pediu para entrar?

O porteiro vê que o homem está morrendo. Para se fazer ouvir, berra a resposta:

— Aqui ninguém mais pode entrar, já que esta entrada foi designada apenas para você. Vou fechá-la agora.

Fim da parábola.

Existe uma versão de 1962 desse conto, narrada por Orson Welles.

Por que revisitar esse texto centenário, tantas vezes dissecado por pensadores de várias correntes? Porque 2026 começou com o mundo parado à porta da Casa Branca, com o guardião-mor destruindo até mesmo leis que funcionavam mal. Kafka, que estudara Direito em Praga (uma das poucas profissões ainda permitidas a judeus no Império Austro-Húngaro), conhecia o poder destruidor de uma Justiça fugidia e de uma verdade inalcançável.

— Cada pessoa tem seu portão, e ele está aberto. Mas não sabemos que está — escreveu, sobre “Diante da lei”, o filósofo austro-israelense Martin Buber (1878-1965).

Pois é tempo de saber.