segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Resistir ao pessimismo quando tudo está a mudar

O otimismo já conheceu melhores dias. Nos tempos turbulentos e surpreendentes em que vivemos, passou a ser muito difícil encarar o futuro com aquele entusiasmo que, até há bem pouco tempo, associávamos à confiança no progresso, à crença de que o mundo estava sempre a melhorar, e de que o ano seguinte seria obrigatoriamente melhor do que o anterior.

Agora, num clima geral de incerteza económica, de regresso a um estado latente de guerra em regiões que pensávamos pacificadas e perante uma transformação acelerada e imparável da ordem mundial, é natural que tenhamos mais dúvidas do que certezas, quando tentamos antecipar o futuro.

A imprevisibilidade está instalada. A desconfiança sobre tudo e todos é fomentada para criar ainda mais incerteza e insegurança. Com um objetivo claro: fazer-nos ter medo do futuro.



É isso que pretende quem quer fazer-nos regressar aos tempos em que a autoridade se impunha unicamente pela força, independentemente da razão. Quem considera que o mundo deve estar dividido entre esferas de influência ditadas pelos mais fortes e não pelo que desejam as populações de cada nação ou território. Por quem quer perpetuar-se no poder, apenas pela força das armas ou da sua fortuna colossal, como se todos os outros fossem irrelevantes ou obrigados a ser, unicamente, obedientes. Quem, no fundo, nos exige que não pensemos no futuro, porque essa tarefa não nos compete – deve estar, dizem, entregue a quem cria esse medo e que, “generosamente” tratará disso por nós, para todo o sempre e a seu bel-prazer.

É inegável que vivemos uma crise generalizada de confiança – alimentada pelo discurso populista, sempre assente na gritaria e no bota-abaixo, e pela ditadura oculta dos algoritmos que, na era da informação instantânea e omnipresente, nos atira continuamente pólvora para a fogueira de qualquer conflito, só para não perder a nossa atenção. As consequências estão à vista: vivemos em sociedades divididas em bolhas, quase sem pontos de contacto entre elas e que se enfrentam, por qualquer que seja o motivo, com a fúria de quem repele um invasor. Com uma agravante: agora, as armas utilizadas, tanto a nível do discurso como do uso da mentira e da desinformação, já não respeitam as regras da guerra – mesmo as não escritas… – e ultrapassaram já todos os limites da ética e do bom senso.

A situação deteriora-se ainda mais quando aqueles que teriam a responsabilidade de ser os garantes da verdade, do humanismo, da justiça e da mais elementar decência, acabam por se deixar envolver no mesmo jogo da polarização e do extremismo absoluto, contribuindo, dessa forma, para a quebra de confiança nas instituições que representam.

É fácil, por isso, nestes tempos, ceder ao pessimismo e entregar a outros a construção do futuro – àqueles que, mesmo recorrendo à mentira e à manipulação dos factos, conseguem capitalizar o sentimento de revolta a seu favor. E fica ainda mais fácil quando os que teriam a responsabilidade de pugnar pelos seus ideais, princípios e valores, tanto na política como na comunicação social, optam pela ambiguidade estratégica, que acaba por ser aliada dos populistas, dos algoritmos e da lenta destruição da confiança nas instituições.

Há quem condene os otimistas, criticando-os por serem incapazes de prever o desastre que os espera, mesmo à frente. A verdade é que o pessimismo é bem pior e muito mais limitador: impede a ação contra a fatalidade do destino, aceita como inevitável as injustiças, limita a capacidade de revolta ou de indignação.

Talvez seja por isso que, neste mundo atual carregado de pessimismo e de polémicas que minam toda e qualquer esperança, não estejamos a prestar a devida atenção a algumas realidades que, provavelmente, irão marcar de forma decisiva 2026 e os próximos anos. Uma delas é a inesperada eclosão de várias revoltas lideradas pela chamada Geração Z que, em muitos países, já fez derrubar governos e obrigar a mudanças que poucos tinham previsto. Outra é a resposta inorgânica, mas com números impressionantes, de consumidores que decidem penalizar os desvarios de quem se acha dono do mundo: foi o que fizeram os canadianos ao boicotarem os produtos americanos, após as tarifas anunciadas por Trump, e o que revelaram os europeus ao deixarem de comprar automóveis Tesla, em resposta à deriva egocêntrica e autocrática de Elon Musk.

Podemos esperar algo do mesmo género nos próximos tempos. Até em geografias inesperadas. Mas basta ver o cuidado que Pequim teve ao abordar as consequências do recente incêndio num bloco de edifícios em Hong Kong, que se transformou no maior desastre daquele território em décadas, para se perceber que mesmo os regimes mais centralizados e aparentemente poderosos têm de lidar com muita cautela com a força da opinião pública. Aliás, foi graças à pressão popular, com manifestações generalizadas em todo o país, que Xi Jinping foi obrigado a rever a política oficial de confinamentos totais na China, no final da pandemia da Covid-19. E, pelos vistos, aprendeu a lição.

Como a História demonstra à saciedade, o futuro pode ser liderado por indivíduos, mas não se constrói sem os povos – e muito menos contra eles. Se há algo que nos ajuda a ser otimistas nestes tempos é lembrarmo-nos de que os ciclos são todos muito mais rápidos e voláteis. Ou seja: mesmo quando cedemos ao pessimismo e sentimos que tudo vai para o buraco, afinal também depressa se abrem os olhos e se avista um novo horizonte de esperança. Mesmo que insistam na mentira e na desinformação, as narrativas antidemocráticas e dos criadores do caos não vão durar para sempre.

É por isso que, nestes tempos, cada vez é mais importante a resistência de uma informação livre, rigorosa e verdadeiramente independente – baseada em factos e que ajude a pensar, de forma crítica e fundamentada, sobre a realidade.

Neste início de 2026, apesar dos ventos de pessimismo que sopram de tanto lado e das dificuldades por que temos vindo a passar nos últimos meses, na VISÃO não desistimos de olhar para o futuro com otimismo – graças ao apoio inexcedível dos leitores, confiantes no nosso profissionalismo e insistentes nos valores do jornalismo. “O destino destina, mas o resto é comigo”, escreveu Miguel Torga, há muito anos. O destino, na verdade, é connosco – todos!

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