sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

A neurobiologia do fascismo e da democracia

O bem e o mal, o que é justo e o que é injusto não são aprendizagens: são sensações e perceções de ordem neurobiológica e hormonal.

Sentimo-nos bem ou sentimo-nos mal, desde o início do processo gestacional.

O bebé sente-se bem – descontraído, satisfeito e curioso – num ambiente conhecido, protetor, atentivo e gentil. O bebé sente-se mal – tenso, em estado de alerta, irritado e stressado – quando está sozinho ou num ambiente desconhecido, na presença de pessoas que o ignoram ou que, de qualquer forma, o tratam mal e não o protegem. Estas perceções atuam sobre todo o corpo do bebé.

A perceção de situações agradáveis tais como presenciar algo que nos parece bom e justo, porque não nos fere nem fere o outro, assim como a perceção de situações stressantes – ameaçadoras, maldosas, injustas – invadem continuamente o nosso cérebro, introduzem-se na nossa neurobiologia, no nosso sistema hormonal e modelam-nos.


A nossa neurobiologia e o nosso sistema hormonal, reagem ao que sentimos: a sensação de ver ou de praticar o bem e o que é justo não é a mesma que aquela que temos quando vemos ou praticamos o mal e a injustiça.

Estes processos não são exclusivos dos seres humanos, mas comuns a todos os animais e até às plantas. A semente de uma árvore sente-se bem e desenvolve-se rapidamente e é saudável, quando é bem tratada: preparada antes de ser plantada, plantada no momento adequado, em terra preparada para ela, com luz, calor e humidade cuidadosamente adaptadas às necessidades da semente. A planta é mais resistente e produtiva quando é bem tratada, quando é acarinhada e cuidada. Tal como qualquer animal.

A ditadura e o fascismo são extremadamente desagradáveis: a violência, o desrespeito, a opressão, a manipulação e o medo que incutem, assim como a proibição de pensar e de falar livremente, são perceções extremamente dolorosas e stressantes que se tornam, com o tempo, cada vez mais incapacitantes. A agressão e o medo tiram-nos o prazer da existência, o autorrespeito, a alegria, a criatividade e a produtividade.

A ditadura e o fascismo são comportamentos e estados emocionais doentios, patogénicos, porque assentam e coabitam com a agressão, a violência, a destruição e a morte não natural. O stress, a hiperativação da nossa existência ameaçada agitam e deformam a nossa neurobiologia, o nosso sistema hormonal e anti-inflamatório.

A ditadura e o fascismo não têm possibilidade de coexistir pacificamente com a nossa neurobiologia. A nossa natureza sente-os como uma ameaça e equipara-os a uma infeção. A ditadura e o fascismo são expressões comportamentais de perturbações muito graves da nossa neurobiologia.

A democracia é prazenteira, descontraída e criativa.

A democracia dá-nos satisfação, e alegria, incita-nos a procurar o outro, a perdoar e a amar. A democracia estimula a vida, dá força e saúde ao nosso sistema imunitário e hormonal, ao nosso cérebro: o centro de integração das nossas sensações e emoções.

A má democracia é uma má versão da democracia, é uma má experiência.

Temos forçosamente – mais tarde ou mais cedo – de melhorar a má democracia, por razões de ordem neurobiológica e hormonal.

A direita abusa descaradamente da mentira como estratégia política

Há alguns anos, alertamos sobre o uso e o abuso de mentiras na política pela direita, especialmente pela extrema-direita ( Mentiras como Forma de Ação Política ). Poderíamos compilar uma longa lista de mentiras que foram disseminadas recentemente por representantes da extrema-direita no Brasil e no mundo. De fato, a vertente conservadora radical da direita tem usado mentiras não apenas para enganar cidadãos e eleitores, mas sobretudo para distorcer os fatos, construir uma realidade paralela e desmantelar seus adversários.

Como alerta o sociólogo brasileiro Jessé Souza em seu livro Os Pobres de Direita, “a mentira é uma arma de guerra usada não apenas contra o inimigo do momento, mas com o objetivo de minar a sociedade como um todo, levando-a a um estado de guerra latente e, assim, rompendo todos os acordos morais implícitos sobre os quais se baseia a vida social”. Nesse caso, não se trata de um mero recurso marginal, mas de uma técnica sistemática de dominação simbólica.


Quando Trump anunciou o sequestro do presidente Maduro, alegando que ele era um narcoterrorista e líder do cartel de los Soles, a verdade foi tão grosseiramente distorcida que a maioria das pessoas com um mínimo de senso de realidade ficou perturbada ou paralisada por essas mentiras. Mais tarde, o próprio Departamento de Justiça refutou essa versão dos fatos que justificava o sequestro, afirmando que Nicolás Maduro era simplesmente parte de uma cultura de corrupção dentro do regime venezuelano.

O aspirante a tirano global dedicou-se a mentir persistentemente para seus seguidores e para o resto do mundo, a ponto de, durante seu primeiro mandato, o Washington Post ter se dado ao trabalho de contabilizar todas as mentiras disseminadas durante seus quatro anos de governo, chegando ao número alarmante de 25.000 falsidades propagadas por Trump nesse breve período. A constante e progressiva repetição de afirmações falsas por Trump e seus assessores demonstra que o objetivo de distorcer os fatos não é convencer racionalmente, mas sim polarizar, saturar e confundir. Como observou Hannah Arendt, quando tudo parece mentira, nada pode ser refutado.

A extrema-direita global usa mentiras para desacreditar a própria política, especialmente a política que busca canais democráticos como meio de expressar as opiniões e propostas de toda a comunidade. A ideia de que todos os políticos são corruptos é uma fórmula comum explorada por figuras como Jair Bolsonaro, Javier Milei, Juan Antonio Kast e Nayib Bukele, para citar apenas alguns exemplos desta parte do mundo. Suas visões radicais convergem para a ideia de que a democracia é ineficaz para gerir as diferenças existentes nas sociedades e que os direitos humanos acabam por proteger criminosos. Eles se dizem antipolíticos, mas acabam se transformando em líderes autoritários que usam violência e repressão contra aqueles que pensam diferente.

Nesse contexto, eles invariavelmente criam inimigos fictícios, contra os quais dirigem todo o seu ódio e desprezo. Esses inimigos são desumanizados e transformados em uma ameaça à suposta paz e harmonia social. Entre eles, incluem-se migrantes, feministas e sua ideologia de gênero, minorias sexuais, sindicatos, organizações ambientalistas, movimentos indígenas, estudantes, partidos de esquerda, intelectuais críticos ou até mesmo, no caso do Brasil, ministros do Supremo Tribunal Federal.

Eles usam a mídia e as redes sociais para disseminar ataques e construir cenários artificiais. Esse verdadeiro ecossistema de comunicação apela para sentimentos de raiva, impotência e ressentimento para atrair seguidores entre segmentos vulneráveis ​​da sociedade: trabalhadores precários, membros de famílias desestruturadas e indivíduos frustrados pela falta de oportunidades. Invocam slogans fáceis de memorizar, como "Deus, família e pátria", para seduzir públicos carentes de identidade e reconhecimento. Com mensagens emocionais, breves e agressivas, conseguiram atrair massas de eleitores com promessas de realização pessoal, prosperidade e trabalho autônomo que se provaram totalmente vazias, mas que continuam a gerar esperança entre os desesperados.

Eles normalizam mentiras e transformam fenômenos ou situações falsas em verdades. Para isso, baseiam-se em um axioma brevemente enunciado pelo sociólogo americano William I. Thomas, que apontou há quase um século que "se uma situação é definida como real, ela é real em suas consequências". Esse teorema revela o alto potencial que uma crença pode ter para determinar o comportamento das pessoas sem a necessidade de evidências demonstráveis. Dessa forma, as mentiras incansavelmente proferidas são capazes de criar realidades para aqueles que as ouvem, e a tênue linha entre verdade e pós-verdade obscurece os fatos como eles são. A extrema direita dissemina a narrativa de que existem muitas verdades, criando um manto de incerteza e desconfiança generalizada entre os cidadãos. Assim, a verdade deixa de ser um terreno comum e se torna mais um campo de batalha, favorecendo aqueles com maior poder de comunicação e controle da mídia.

As mentiras levaram a uma simplificação grotesca das complexidades da vida política, econômica, social e cultural em nossos países. O discurso sobre meritocracia tornou-se a grande falácia de nosso tempo, e gurus da extrema direita se dedicaram a disseminar a ideia de que habilidades e competências são distribuídas igualmente entre a humanidade; trata-se simplesmente de querer e se esforçar para ser um vencedor e alcançar o sucesso na vida.

Em última análise, as mentiras servem para ocultar o que muitos não conseguem ver devido à sua maior complexidade: a existência de relações de poder que moldam desigualdades estruturais, as quais não podem ser contornadas sem confrontar diretamente as elites que concentram riqueza e poder, juntamente com as formas de racismo, classismo e opressão patriarcal que sustentam essa hegemonia. Portanto, mentir não é um erro; é uma estratégia para preservar a ordem social.

No Brasil, o bolsonarismo tornou-se um verdadeiro laboratório de mentiras como ferramenta política. Isso foi alcançado não apenas por meio de centenas de notícias falsas, mas principalmente pelo estabelecimento de um caminho sistemático para se tornar uma força dominante, convencendo os eleitores de que a estrutura partidária e o sistema político vigentes levariam inevitavelmente à destruição do país. Assim, uma das principais promessas de campanha do ex-capitão o posicionava como um político anti-establishment que confrontaria a corrupção e a imoralidade da classe política, pondo fim à complacência representada pelos partidos do " Centrão " (centro-direita). Tudo isso foi um engano ao eleitorado. No fim, Bolsonaro foi o melhor cúmplice desse conglomerado e, durante sua presidência, ocorreu a maior transferência de recursos para parlamentares que condicionaram seu apoio a esse governo regressivo. Por meio de uma série de transferências do governo central para legisladores corruptos — o nefasto "orçamento secreto" —, a extrema-direita quase garantiu a reeleição para um segundo mandato.

Anteriormente, Bolsonaro havia se aproveitado da crise sistêmica herdada do governo ilegítimo de Michel Temer para criar a falsa ilusão de que um "antipolítico" poderia tirar o país do atoleiro. E, de fato, ele conseguiu unificar um bloco social heterogêneo que emergiu nos protestos de 2013, canalizando o descontentamento e o cansaço acumulados com expressões de ódio e virulência contra o Estado, a política e os políticos. Eleito no final de outubro de 2018, o (des)governo de Bolsonaro foi uma sucessão interminável de horrores e da destruição de políticas públicas em todas as áreas da vida nacional. Na área da saúde, ele foi o principal instigador do negacionismo em relação à pandemia do Coronavírus, causando dezenas de mortes adicionais ao atrasar a compra das vacinas necessárias para combater esse flagelo. Ele também incentivou o desmatamento ilegal na Amazônia, na Mata Atlântica, no Serrado e em outros ecossistemas, com consequências ambientais devastadoras. Descontinuou ou eliminou programas de combate à fome implementados por governos anteriores, recolocando o Brasil no mapa da fome. Ele aumentou significativamente a pobreza e a extrema pobreza, que haviam sido drasticamente reduzidas durante os governos do Partido dos Trabalhadores. Promoveu a posse de armas entre a população e incentivou o uso excessivo da força pela polícia. No final de seu mandato, questionou a adequação das urnas eletrônicas perante embaixadores de diversos países e, por fim, recusou-se a reconhecer os resultados das eleições de 2022, tentando um golpe de Estado com setores das Forças Armadas, da Polícia e grupos radicais acampados em frente ao Quartel-General do Exército, em Brasília. Por isso, cumpre pena de 27 anos e 3 meses de prisão.

Atualmente, os advogados de Bolsonaro estão mentindo descaradamente ao afirmarem que Bolsonaro jamais tentou contestar os resultados da eleição que perdeu e que as conversas claramente sediciosas ocorridas no apartamento do General Braga Netto não passaram de um bate-papo informal entre amigos em um bar. Além disso, seus defensores argumentam que, se a tentativa de golpe fracassou, dificilmente podem acusar o ex-capitão de liderar uma organização criminosa que supostamente trabalhava para alcançar algo que, no fim, não se concretizou. Em outras palavras, segundo esses profissionais do direito, uma tentativa fracassada não é crime. Trata-se de um argumento absurdamente simplista que, apesar de todas as evidências em contrário, ainda é aceito como verdadeiro por uma parcela significativa da população brasileira.

Mas, no fim, as mentiras desmoronam sob o próprio peso. Basta ver o destino patético de Jair Bolsonaro, aquele personagem que surgiu como o "mito", o macho alfa sempre empunhando um fuzil para confrontar a ameaça vermelha; o presidente que disse que a Covid-19 era apenas uma gripezinha ou um resfriado leve e que seu histórico atlético o tornava imune; o governante sem coração que menosprezou o povo que chorava seus mortos porque ele não era coveiro; o indivíduo grosseiro que afirmou que o Brasil precisava parar de ser um país de maricas, e assim por diante. Bem, esse mesmo ser nefasto agora reclama porque está sob custódia da Polícia Federal com todos os privilégios de um ex-presidente. Ele exige prisão domiciliar porque não consegue dormir, cai da cama e é constantemente atormentado por soluços e azia.

Esse é o verdadeiro Bolsonaro, um covarde disfarçado que nunca assumiu a responsabilidade por suas opiniões, sua natureza despótica, seu comportamento sinistro e sua falta de empatia pelos outros. Neste momento, com tudo o que se sabe, a extrema-direita brasileira continua apoiando Bolsonaro e seu clã, mentindo sobre seu passado como um militar incompetente e sua biografia como um político medíocre. Seu filho, Flávio, assumiu o manto, mas a maioria do país deixou de acreditar no mito fabricado e se depara com o homem real, desprovido de qualidades, a mentira criada por seus propagandistas, o personagem que, em última análise, representa o epítome do charlatão oportunista que se aproveitou da conspiração jurídico-política perpetrada pela extrema-direita contra o atual presidente, Lula da Silva, que suportou com dignidade e sabedoria a injusta sentença que lhe foi imposta.

Palantir e a vigilância algorítmica na ordem internacional

Ninguém permanece soberano diante do excesso de visão. A Palantir escraviza o julgamento sem exigir lealdade, apenas atenção contínua. Aos poucos, o olhar deixa de ser escolha e passa a ser necessidade. E aquele que consulta a Palantir acreditando vigiar é, na verdade, vigiado. Pois, embora muitos a toquem e dela façam uso, a Palantir serve apenas a um senhor – e esse senhor é Sauron, a vontade sem corpo que governa pelo olhar, cuja força não está apenas na mentira, mas na capacidade de transformar o medo visto em destino inevitável.

Em As Duas Torres, segundo volume do Senhor dos Anéis, Pippin encontra Palantir nos escombros de Orthanc, uma das quatro torres de Isengard, após a derrota do corrompido mago Saruman. Incapaz de resistir ao chamado mudo da pedra, o Hobbit a toma nas mãos durante a noite e olha – e ao olhar, ele também é visto. O olhar do Inimigo o atravessa, o interroga, o marca, e quando Gandalf o arranca da pedra, já é tarde o bastante para que Sauron saiba demais.


Fundada no coração do complexo tecnológico-militar norte-americano, a empresa Palantir Technologies se apresenta como provedora de softwares capazes de integrar volumes imensos de dados dispersos, cruzar informações opacas e oferecer aos seus usuários uma visão totalizante da realidade. Governos, forças de segurança, agências de inteligência e grandes corporações recorrem à Palantir para ver melhor: antecipar riscos, mapear comportamentos, identificar padrões ocultos.

Em Gaza, contratos entre o Ministério da Defesa de Israel e a Palantir proveram o governo sionista com a infraestrutura técnica para coordenar vigilância em larga escala, fusão de dados operacionais e tomada de decisão militar em tempo real, transformando território, população e movimento em variáveis calculáveis e acionáveis dentro de uma lógica de guerra permanentemente administrada. Nos EUA, a Palantir firmou um acordo com o famigerado U.S. Immigration and Customs Enforcement – o ICE, integrando bases de dados federais e privados para rastrear viagens, documentos e locais de pessoas em operações no terreno e fornecendo ferramentas como a plataforma ImmigrationOS para fornecer “visibilidade em tempo quase real” sobre indivíduos sob fiscalização e facilitar a priorização e execução de deportações. Finalmente, a OTAN, adquiriu da Palantir o sistema de inteligência artificial Maven Smart System, uma plataforma que pretende integrar dados de batalha, apoiar fusão de inteligência, melhorar consciência situacional e acelerar planejamento e decisões operacionais em múltiplos teatros de conflito, em um dos processos de aquisição mais rápidos de sua história, sinalizando a adoção de tecnologias de IA de guerra em nível internacional.

No legendário de Tolkien, uma Palantir é um orbe cristalino que permite ao seu usuário observar lugares e acontecimentos distantes por toda a Terra-média. São instrumentos de visão, coordenação e poder usados por governantes para administrar reinos espalhados por vastos territórios. Ainda assim, as pedras são traiçoeiras. Uma Palantir não mente, mas enquadra a realidade de forma seletiva. O que ela mostra depende de quem a controla, de quem olha para dentro dela e de quem mais pode estar olhando de volta – e ele, o senhor das trevas, Sauron, está sempre a olhar.

Esse simbolismo não é acidental. O próprio Peter Thiel já reconheceu a referência a Tolkien. A escolha se encaixa com precisão na autoimagem da empresa: ferramentas para soberanos, generais e Estados, não para o consumo de massas. Instrumentos de coordenação, e, acima de tudo, vigilância. E hoje, todos temos uma Palantir em nossos bolsos: nossos próprios smartphones.


Assim como a Palantír, o smartphone é um objeto aparentemente neutro, portátil, íntimo, sempre à mão, que promete acesso irrestrito ao mundo distante. Por meio dele vemos territórios que não pisamos, acompanhamos guerras, deslocamentos, rotinas alheias, decisões de poder – porém, como na pedra de Tolkien, o ato de olhar nunca é unilateral. O smartphone observa enquanto é consultado, registra enquanto informa, aprende enquanto serve seu verdadeiro senhor.

Ele não mente, mas seleciona; não ordena explicitamente, mas orienta o julgamento por meio de notificações, mapas, feeds algoritmicamente curados e alertas. Quem o utiliza acredita exercer controle sobre a informação, quando na verdade opera dentro de um enquadramento definido por infraestruturas técnicas, interesses econômicos e arquiteturas de vigilância que permanecem fora de alcance.

Tal como Pippin diante da Palantir, o usuário moderno olha movido pela curiosidade, e, ao olhar repetidamente, passa a ser visto, classificado, previsto. O poder não está no aparelho em si, mas no enquadramento – ou perfilamento – do usuário. O enquadramento, nesse caso, é a forma como a pessoa é reduzida a um perfil operacional dentro de um sistema que precisa decidir de maneira rápida, à distância, e com pouca margem para dúvida. A vida, assim, vira um conjunto de sinais a serem interpretados pela Palantir: ligações entre pessoas, rotas, horários, padrões de compra, histórico de viagem, documentos, geolocalização, posts, contatos, cruzamentos com bases públicas e privadas. E destes sinais, seus padrões permitem inferir a probabilidade de pertencer a um grupo, de estar ligado a alguém, de repetir um comportamento, de aparecer num lugar, de representar risco.

A socialização humana é, hoje, permeada pelo digital. Do momento que acordamos para ver as notícias e ler as mensagens nos grupos de WhatsApp, até o momento que vamos dormir e rolamos o TikTok para relaxar, algoritmos cujo funcionamento desconhecemos controlam qual conteúdo nos é exposto. Esse processo não é passivo: cada clique, pausa, deslocamento ou interação alimenta sistemas de perfilamento, nos quais indivíduos são continuamente reduzidos a padrões de comportamento, probabilidades e categorias de ação, antecipando condutas, respostas e orientando decisões antes mesmo que elas sejam formuladas conscientemente.

Thiel despreza abertamente a democracia, e já afirmou que, como não conseguiria vencer eleições ou convencer maiorias, talvez fosse possível “mudar o mundo unilateralmente, sem ter de constantemente convencer as pessoas, por meios tecnológicos”, substituindo o espaço de deliberação e consenso democrático por arquiteturas técnicas capazes de produzir efeitos diretos sobre o comportamento social. E, nisso, o debate público cede lugar ao cálculo, e a política é reconfigurada como gestão silenciosa de probabilidade, num regime onde não somos convencidos, mas ajustados através da exposição a conteúdos que ressoem com os nossos valores percebidos.

E é aí que o enquadramento se torna político pois o perfil do usuário é em verdade categoria de ação para tomadores de decisões, definindo quem merece atenção, quem entra numa lista, quem é priorizado, vigiado, abordado, bloqueado, deportado, exterminado, ou simplesmente marcado como interessante. Profiling, ou perfilamento, em português, é isso: transformar existência em hipótese através de indicadores em comportamento online, e hipótese em decisão.

A Palantir é, sem sombra de dúvidas, uma das empresas mais importantes para a Geopolítica Internacional ao extrapolar a infraestrutura dura que conhecemos bem (datacenters, matrizes energéticas, etc.) para a infraestrutura de Software e sistemas operacionais que possibilitem o domínio Meta-Trumpista. O poder já não reside apenas na posse de território, de armamentos ou de infraestrutura física, como já é mais óbvio, mas na capacidade de organizar a realidade em algo legível, comparável e acionável à distância. O software não ocupa espaço, não faz ruído, não aparece em imagens de satélite, mas antecede o gesto e orienta a escolha, e ao operar nesse plano, a Palantir se torna a arquiteta do poder, mediando a forma como Estados enxergam e administram populações, conflitos, fronteiras e riscos.

É por isso que falar da Palantir não é falar de sua inegável eficiência, inovação ou técnica, mas de uma empresa que se insere deliberadamente no coração dos processos decisórios mais violentos do sistema internacional, oferecendo meios para tornar a coerção mais rápida, a vigilância mais profunda e a violência mais administrável. Quando a guerra vira dashboard, quando a deportação vira fluxo, quando vidas se tornam variáveis ajustáveis, o mal já não precisa se esconder atrás da mentira: ele opera à luz fria do cálculo. O que está em jogo não é apenas uma empresa ou um conflito específico, mas a consolidação de um modelo de governo algorítmico que reconfigura a soberania, a guerra e a administração da vida na ordem internacional contemporânea.

A Palantir é, nesse sentido, a Palantir sem metáfora. Como a orbe de Orthanc, ela não exige juramento nem fidelidade declarada; basta tocá-la. Não pede crença, apenas dados. Não impõe ordens diretas, apenas oferece visão, e, ao fazê-lo, captura quem olha. Cada uso a fortalece, cada consulta a insere mais fundo no processo decisório, até que o mundo passe a ser organizado segundo a lógica daquele que enxerga mais longe, decide antes e permanece invisível.

Tal como na obra de Tolkien, não se trata de corrupção acidental ou abuso pontual, mas de um artefato cuja função é inseparável de seus efeitos: ampliar o poder de um único olhar enquanto subordina todos os outros àquilo que lhes é permitido ver.

Quem vota? A influência da IA e do algoritmo

As campanhas presidenciais em curso, com eleições marcadas para 18 de janeiro, estão a revelar algo que vai muito além da disputa entre candidatos. Revelam uma transformação silenciosa — e inquietante — da política democrática: a substituição progressiva do debate político por métricas, gráficos e reações instantâneas. Nunca se mediu tanto a opinião pública. Nunca se falou tão pouco do que realmente importa.

Hoje, a campanha presidencial é conduzida por sondagens permanentes, tracking polls quase diárias e leituras algorítmicas do comportamento eleitoral. Estes instrumentos, que deveriam servir para compreender a sociedade, passaram a ditar a estratégia política. Não se trata apenas de saber o que os eleitores pensam; trata-se de decidir o que pode ou não ser dito, quando deve ser dito e — sobretudo — o que deve ser evitado.


É a agenda do algoritmo a marcar a agenda política e, sobretudo a influenciar a agenda da opinião pública o que se traduz numa clara influência do sentido de voto de cada um.

É neste cenário que a campanha de António José Seguro se tornou, para mim, politicamente relevante. Não porque ignore os dados — ninguém o faz hoje — mas porque parece recusar submeter totalmente o discurso presidencial à lógica da reação permanente aos números. Num ambiente onde cada décima percentual gera ansiedade estratégica, essa opção não é trivial: é uma escolha política.

A obsessão pelas sondagens transformou as campanhas num exercício de contenção. As tracking polls funcionam como um eletrocardiograma eleitoral: qualquer flutuação provoca correções imediatas, silêncios estratégicos, mudanças de tom ou campanhas de ataque pessoal ao adversário. A consequência é uma política cada vez mais reativa, defensiva e pobre em visão. Governa-se — ou faz-se campanha — com medo de errar no gráfico seguinte e em função do lugar que se ocupa na última tracking poll.

Esta lógica é reforçada pelo algoritmo. As redes sociais não são neutras: premiam o ataque, a simplificação e a emoção rápida e penalizam a reflexão e o pensamento estratégico. Não é por acaso que a campanha se degradou, em vários momentos, em ataques pessoais, insinuações e leituras maliciosas do passado. O ataque tornou-se uma ferramenta eficaz porque o algoritmo o amplifica.

Também aqui a campanha de António José Seguro se destaca, não por estar acima da crítica, mas por não fazer do ataque pessoal o seu motor político.

Num tempo em que a agressividade rende visibilidade, esta contenção parece quase um anacronismo. Mas talvez seja precisamente isso que nos deve fazer pensar. A eleição presidencial não deveria ser um concurso de desgaste pessoal, mas uma escolha sobre autoridade institucional, independência e sentido de Estado.

O problema maior é que esta combinação — números e ataques — tem um efeito devastador: afasta do debate os grandes temas estruturantes. Enquanto se discute quem sobe ou desce nas sondagens e quem atacou quem, uma reflexão séria sobre o papel de Portugal no mundo que está a emergir, permanece, praticamente, ausente

Vivemos uma transição global profunda. A ordem internacional está a tornar-se multipolar. África assume uma centralidade demográfica, económica e geopolítica crescente. E, ainda assim, a campanha presidencial portuguesa quase ignora esta realidade.

É particularmente sintomático o silêncio em torno da CPLP. Portugal dispõe aqui de um ativo estratégico raro: uma comunidade política e linguística que o liga profundamente a África num momento decisivo da história global.

Pensar a CPLP como plataforma de cooperação política, diplomática e económica — e Portugal como ponte entre a Europa e África — deveria ser uma questão central numa campanha presidencial. O facto de surgir apenas de forma marginal diz muito sobre o empobrecimento do debate e sobre o receio de sair da zona de conforto eleitoral.

Ao tentar recentrar o discurso em valores institucionais, visão de longo prazo e responsabilidade histórica — mesmo quando isso não rende pontos imediatos — a campanha de António José Seguro acaba por cumprir uma função que ultrapassa a sua própria ambição eleitoral: expõe os limites da política governada pelo algoritmo.

As eleições de 18 de janeiro decidirão quem ocupará o Palácio de Belém. Mas decidirão também se aceitamos definitivamente uma Presidência moldada por sondagens, tracking polls e métricas digitais, ou se ainda valorizamos a coragem de contrariar os números quando o interesse do País o exige.

Num tempo em que os dados parecem mandar mais do que as ideias, talvez esta seja a verdadeira clivagem desta eleição. E talvez seja isso — mais do que qualquer ataque ou tendência — que merecia estar no centro da campanha.