sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

A neurobiologia do fascismo e da democracia

O bem e o mal, o que é justo e o que é injusto não são aprendizagens: são sensações e perceções de ordem neurobiológica e hormonal.

Sentimo-nos bem ou sentimo-nos mal, desde o início do processo gestacional.

O bebé sente-se bem – descontraído, satisfeito e curioso – num ambiente conhecido, protetor, atentivo e gentil. O bebé sente-se mal – tenso, em estado de alerta, irritado e stressado – quando está sozinho ou num ambiente desconhecido, na presença de pessoas que o ignoram ou que, de qualquer forma, o tratam mal e não o protegem. Estas perceções atuam sobre todo o corpo do bebé.

A perceção de situações agradáveis tais como presenciar algo que nos parece bom e justo, porque não nos fere nem fere o outro, assim como a perceção de situações stressantes – ameaçadoras, maldosas, injustas – invadem continuamente o nosso cérebro, introduzem-se na nossa neurobiologia, no nosso sistema hormonal e modelam-nos.


A nossa neurobiologia e o nosso sistema hormonal, reagem ao que sentimos: a sensação de ver ou de praticar o bem e o que é justo não é a mesma que aquela que temos quando vemos ou praticamos o mal e a injustiça.

Estes processos não são exclusivos dos seres humanos, mas comuns a todos os animais e até às plantas. A semente de uma árvore sente-se bem e desenvolve-se rapidamente e é saudável, quando é bem tratada: preparada antes de ser plantada, plantada no momento adequado, em terra preparada para ela, com luz, calor e humidade cuidadosamente adaptadas às necessidades da semente. A planta é mais resistente e produtiva quando é bem tratada, quando é acarinhada e cuidada. Tal como qualquer animal.

A ditadura e o fascismo são extremadamente desagradáveis: a violência, o desrespeito, a opressão, a manipulação e o medo que incutem, assim como a proibição de pensar e de falar livremente, são perceções extremamente dolorosas e stressantes que se tornam, com o tempo, cada vez mais incapacitantes. A agressão e o medo tiram-nos o prazer da existência, o autorrespeito, a alegria, a criatividade e a produtividade.

A ditadura e o fascismo são comportamentos e estados emocionais doentios, patogénicos, porque assentam e coabitam com a agressão, a violência, a destruição e a morte não natural. O stress, a hiperativação da nossa existência ameaçada agitam e deformam a nossa neurobiologia, o nosso sistema hormonal e anti-inflamatório.

A ditadura e o fascismo não têm possibilidade de coexistir pacificamente com a nossa neurobiologia. A nossa natureza sente-os como uma ameaça e equipara-os a uma infeção. A ditadura e o fascismo são expressões comportamentais de perturbações muito graves da nossa neurobiologia.

A democracia é prazenteira, descontraída e criativa.

A democracia dá-nos satisfação, e alegria, incita-nos a procurar o outro, a perdoar e a amar. A democracia estimula a vida, dá força e saúde ao nosso sistema imunitário e hormonal, ao nosso cérebro: o centro de integração das nossas sensações e emoções.

A má democracia é uma má versão da democracia, é uma má experiência.

Temos forçosamente – mais tarde ou mais cedo – de melhorar a má democracia, por razões de ordem neurobiológica e hormonal.

Nenhum comentário:

Postar um comentário