domingo, 4 de janeiro de 2026
A mente humana
A escritora e naturalista americana Diane Ackerman é craque — costuma abordar temas complicadíssimos sem medo de escorregar. Sua obra mais conhecida no Brasil, “O Zoológico de Varsóvia” (2019), relata o cotidiano do diretor da instituição Jan Zabinski, e sua mulher Antonina, ambos poloneses e da resistência. Narrado em ordem cronológica e baseado nos diários dela, se inicia nos primórdios da invasão alemã de 1939. Com a invasão, veio a terra arrasada pelo ar, e, com os bombardeios, também o zoológico virou matadouro. O massacre dos bichos foi ordenado por um zoologista e colecionador alemão (que, antes, separou os espécimes mais raros para si). A execução foi obra das SS hitleristas. Foi tão brutal que Antonina anotou no diário mantido até o final: “Quantos humanos morrerão da mesma forma nos próximos meses?”. Não ficaram parados. Enquanto os nazistas despovoavam o gueto de Varsóvia enviando-o ao extermínio, o casal Zabinski repovoava o zoológico — desta vez, com judeus contrabandeados do gueto. Conseguiram escondê-los nas jaulas esvaziadas, protegeram-nos da deportação e salvaram mais de 300 da morte certa. É uma baita história narrada com notável conhecimento das espécies — humana e animal.
Acaso ou coincidência para esta semana arrastada de 2025, outro título da mesma Ackerman — “Uma alquimia da mente” (sem edição no Brasil) — dá o que pensar. À época do lançamento nos Estados Unidos, a autora estava em turnê de promoção da obra quando recebeu a notícia de que o marido sofrera um AVC. Afasia global. Tendo investido quase uma década em pesquisas neurológicas para escrever sobre o funcionamento da mente, ela fechou o foco: conseguiria que o marido voltasse a pronunciar seu nome. Levou anos e conseguiu. Em “Alquimia da Mente”, ela nos convida a ver nosso cérebro de forma pouco científica, amigável para leigos:
— Imagine o cérebro como aquele lustroso monte de vida, um parlamento acinzentado de células, uma fábrica de sonhos, um pequeno tirano dentro de uma bola de osso, aquele amontoado de neurônios comandando todos os lances [...], muitos ‘eus’ entupidos no crânio como roupas demais enfiadas num saco de ginástica. O neocórtex tem cumes, vales e dobras porque o cérebro continua a se remodelar, mesmo no espaço apertado. Consideramos normal o fato, à primeira vista ridículo e ainda assim inegável, de que cada pessoa carrega no alto do corpo um universo completo em que trilhões de sensações, pensamentos e desejos se escoam. Misturam-se em privado, em silêncio, agitam-se em muitos níveis, alguns dos quais nem percebemos — melhor assim.
Em linguagem também não científica, costuma-se descrever o cérebro como o objeto mais complexo de que se tem conhecimento no universo. Ele abriga 86 bilhões de neurônios, todos dissemelhantes, conectados a milhares de outros neurônios que, por sua vez, transmitem sinais uns aos outros através de 100 trilhões de sinapses. Foi o estudo racional desse organismo (sua química, mecânica e estrutura celular) que desembocou, entre outros, na publicação das primeiras sequências do Projeto Genoma Humano e seu inesgotável leque de triunfos para a medicina e a biotecnologia.
Beleza. Mas o ponto, aqui, é outro. Enquanto o cérebro é obra da biologia, é a vida que transforma o cérebro em mente. E lá se vão 5 mil anos desde que poetas e filósofos, doutores de divindade e da medicina se debruçam sobre esse mistério. É na imensa vastidão da mente humana, com sua história, arte, literatura, religião, filosofia, poesia, música, mitos que se construiu a humanidade passada e se formarão nossos pares humanos do futuro.
Ou, como escreveu o saudoso ensaísta americano Lewis H. Lapham: “O trabalho do cérebro consiste em receber presentes; a arte da mente está em desembrulhá-los”. Neste Natal de 2025 há poucos indícios de que soubemos desembrulhar — com o devido zelo — o que nos foi dado de presente: a vida.
Acaso ou coincidência para esta semana arrastada de 2025, outro título da mesma Ackerman — “Uma alquimia da mente” (sem edição no Brasil) — dá o que pensar. À época do lançamento nos Estados Unidos, a autora estava em turnê de promoção da obra quando recebeu a notícia de que o marido sofrera um AVC. Afasia global. Tendo investido quase uma década em pesquisas neurológicas para escrever sobre o funcionamento da mente, ela fechou o foco: conseguiria que o marido voltasse a pronunciar seu nome. Levou anos e conseguiu. Em “Alquimia da Mente”, ela nos convida a ver nosso cérebro de forma pouco científica, amigável para leigos:
— Imagine o cérebro como aquele lustroso monte de vida, um parlamento acinzentado de células, uma fábrica de sonhos, um pequeno tirano dentro de uma bola de osso, aquele amontoado de neurônios comandando todos os lances [...], muitos ‘eus’ entupidos no crânio como roupas demais enfiadas num saco de ginástica. O neocórtex tem cumes, vales e dobras porque o cérebro continua a se remodelar, mesmo no espaço apertado. Consideramos normal o fato, à primeira vista ridículo e ainda assim inegável, de que cada pessoa carrega no alto do corpo um universo completo em que trilhões de sensações, pensamentos e desejos se escoam. Misturam-se em privado, em silêncio, agitam-se em muitos níveis, alguns dos quais nem percebemos — melhor assim.
Em linguagem também não científica, costuma-se descrever o cérebro como o objeto mais complexo de que se tem conhecimento no universo. Ele abriga 86 bilhões de neurônios, todos dissemelhantes, conectados a milhares de outros neurônios que, por sua vez, transmitem sinais uns aos outros através de 100 trilhões de sinapses. Foi o estudo racional desse organismo (sua química, mecânica e estrutura celular) que desembocou, entre outros, na publicação das primeiras sequências do Projeto Genoma Humano e seu inesgotável leque de triunfos para a medicina e a biotecnologia.
Beleza. Mas o ponto, aqui, é outro. Enquanto o cérebro é obra da biologia, é a vida que transforma o cérebro em mente. E lá se vão 5 mil anos desde que poetas e filósofos, doutores de divindade e da medicina se debruçam sobre esse mistério. É na imensa vastidão da mente humana, com sua história, arte, literatura, religião, filosofia, poesia, música, mitos que se construiu a humanidade passada e se formarão nossos pares humanos do futuro.
Ou, como escreveu o saudoso ensaísta americano Lewis H. Lapham: “O trabalho do cérebro consiste em receber presentes; a arte da mente está em desembrulhá-los”. Neste Natal de 2025 há poucos indícios de que soubemos desembrulhar — com o devido zelo — o que nos foi dado de presente: a vida.
Embriague-se de Natureza em 2026
É preciso estar sempre embriagado. Isso é tudo: é a única questão. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que lhe quebra os ombros e o curva para o chão, é preciso embriagar-se sem perdão. Mas de quê? De vinho. De poesia. Ou de virtude, como quiser. Mas embriague-se.
E se (...) você acorda, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, pergunte ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunte que horas são e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio lhe responderão: “É hora de embriagar-se!”
Esse poema, acima, de Baudelaire (1821-1867), um dos “malditos” franceses, me acompanhou no fim do ano e na entrada de 2026. Escuto uma vez, e de novo, em looping, em francês. Interessante como acordo de ressaca neste primeiro de janeiro. Se bebi duas taças de champagne e duas de vinho, por que desperto assim? Sim, estou embriagada. De Natureza.
Baudelaire foi quem primeiro conceituou o flâneur, o observador urbano que passeia pelas ruas de uma cidade. A cada ano mais, prefiro flanar na Natureza. O mar, o mato, as flores, o vento, os seres que nos habitam e passam despercebidos a tantos de nós. Escrevo esse texto e vejo, à minha frente, um imenso lagarto desfilar calmamente. Três pavões gritando. E um exército de aves. Sou invasora aqui, mas os acolho.
Descobrir um novo hobby a cada ano, que desafie você a sair de sua casca, seu sofá, suas angústias, suas telinhas, seu cinismo e até de seu conforto, talvez seja a melhor lição de resistência. E lucidez. Em 2025, comecei a praticar birdwatching, com binóculos e algum método. Incrível como a observação se torna mais rica quando se decide escutar e enxergar direito as aves.
Ao oferecer frutas variadas na varanda de meu apartamento do Rio, passei a conviver com uma orquestra particular e com visões de aves alaranjadas, azuladas, multicores. Soltas. É uma dádiva. Moro ali há 30 anos. E nunca tinha sido visitada por sanhaços, sabiás-laranjeiras, saíras.
Quando Baudelaire recomenda embriaguez, interpreto como intensidade, como rendição aos sentidos. Menos razão, mais emoção. Fujo dos bêbados de virtude, eles são uma fraude. A cada virada de ano, um momento em que sentimos a energia do mundo despejada sobre nós, busco inspirações e pensadores, vivos ou mortos.
E me identifico com o israelense Yuval Noah Harari. “Adeus velho mundo, olá bravo mundo novo. Para criar um futuro melhor, deixe a ansiedade de lado e convoque a sua coragem”. A civilização humana, da religião à política, diz Harari, foi construída com base em palavras. “No entanto, até as palavras ditas por nossas vozes interiores serão moldadas por IA”.
Para permanecer livre, é tempo de não ficar refém das palavras – ou da tecnologia. Harari posta um vídeo caminhando na floresta e observando um lago. Assim me sinto quando me isolo na montanha, e busco a verdade que transcende as palavras. Somos muito pequenos diante do Universo. E podemos ser imensos em nossas atitudes.
Sou Capricórnio e carrego o enorme peso das responsabilidades, constâncias, estabilidades e lealdades. Meu aniversário cai naquele triângulo das bermudas entre Natal e réveillon, e por isso dezembro é tomado por reflexões.
Meu mantra é uma citação da escritora britânica Doris Lessing (1919-2013): “Seja lá o que for que você tem de fazer, faça agora. As condições são sempre impossíveis”.
Feliz 2026, leitores e leitoras. É o ano do Cavalo de Fogo no horóscopo chinês. Promete movimento, escolha e coragem. Vamos votar direito e eleger um Congresso amigo do povo.
E se (...) você acorda, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, pergunte ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunte que horas são e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio lhe responderão: “É hora de embriagar-se!”
Esse poema, acima, de Baudelaire (1821-1867), um dos “malditos” franceses, me acompanhou no fim do ano e na entrada de 2026. Escuto uma vez, e de novo, em looping, em francês. Interessante como acordo de ressaca neste primeiro de janeiro. Se bebi duas taças de champagne e duas de vinho, por que desperto assim? Sim, estou embriagada. De Natureza.
Baudelaire foi quem primeiro conceituou o flâneur, o observador urbano que passeia pelas ruas de uma cidade. A cada ano mais, prefiro flanar na Natureza. O mar, o mato, as flores, o vento, os seres que nos habitam e passam despercebidos a tantos de nós. Escrevo esse texto e vejo, à minha frente, um imenso lagarto desfilar calmamente. Três pavões gritando. E um exército de aves. Sou invasora aqui, mas os acolho.
Descobrir um novo hobby a cada ano, que desafie você a sair de sua casca, seu sofá, suas angústias, suas telinhas, seu cinismo e até de seu conforto, talvez seja a melhor lição de resistência. E lucidez. Em 2025, comecei a praticar birdwatching, com binóculos e algum método. Incrível como a observação se torna mais rica quando se decide escutar e enxergar direito as aves.
Ao oferecer frutas variadas na varanda de meu apartamento do Rio, passei a conviver com uma orquestra particular e com visões de aves alaranjadas, azuladas, multicores. Soltas. É uma dádiva. Moro ali há 30 anos. E nunca tinha sido visitada por sanhaços, sabiás-laranjeiras, saíras.
Quando Baudelaire recomenda embriaguez, interpreto como intensidade, como rendição aos sentidos. Menos razão, mais emoção. Fujo dos bêbados de virtude, eles são uma fraude. A cada virada de ano, um momento em que sentimos a energia do mundo despejada sobre nós, busco inspirações e pensadores, vivos ou mortos.
E me identifico com o israelense Yuval Noah Harari. “Adeus velho mundo, olá bravo mundo novo. Para criar um futuro melhor, deixe a ansiedade de lado e convoque a sua coragem”. A civilização humana, da religião à política, diz Harari, foi construída com base em palavras. “No entanto, até as palavras ditas por nossas vozes interiores serão moldadas por IA”.
Para permanecer livre, é tempo de não ficar refém das palavras – ou da tecnologia. Harari posta um vídeo caminhando na floresta e observando um lago. Assim me sinto quando me isolo na montanha, e busco a verdade que transcende as palavras. Somos muito pequenos diante do Universo. E podemos ser imensos em nossas atitudes.
Sou Capricórnio e carrego o enorme peso das responsabilidades, constâncias, estabilidades e lealdades. Meu aniversário cai naquele triângulo das bermudas entre Natal e réveillon, e por isso dezembro é tomado por reflexões.
Meu mantra é uma citação da escritora britânica Doris Lessing (1919-2013): “Seja lá o que for que você tem de fazer, faça agora. As condições são sempre impossíveis”.
Feliz 2026, leitores e leitoras. É o ano do Cavalo de Fogo no horóscopo chinês. Promete movimento, escolha e coragem. Vamos votar direito e eleger um Congresso amigo do povo.
Precursores do desmantelamento
O segundo mandato de Trump trouxe o que já havia sido anunciado no documento programático da Heritage Foundation: o desmantelamento, agora praticamente irreversível, do mais antigo regime liberal-democrático, seguindo um padrão que nós, na Europa, já conhecíamos pelo exemplo da Hungria e de outros países..
Aparentemente, esses novos tipos de regimes autoritários não podem ser atribuídos às circunstâncias particulares de uma transição fracassada das formas de governo pós-soviéticas.
Provavelmente, são mais como precursores do desmantelamento, democraticamente legitimado, da democracia mais antiga da Terra e da rápida construção e expansão de uma forma de governo libertário-capitalista, administrada tecnocraticamente. O que estamos observando nos EUA é a mesma transição de um “sistema” para outro — nem mesmo particularmente gradual, mas sim discreta diante de uma oposição mais ou menos paralisada: a última ou penúltima eleição democrática foi o início, há muito anunciado, de uma rápida expansão arbitrária e autocrática de um poder executivo que foi simultaneamente reduzido e expurgado.
Trump está abusando desse poder sem levar em consideração as objeções de um sistema jurídico que agora se encontra em um vácuo e vem sendo gradualmente esvaziado de cima para baixo. O presidente primeiro usurpou poderes legislativos do Congresso com sua rigorosa política tarifária e está tentando restringir gradualmente a independência da imprensa e do sistema universitário. Em seguida, intimidou a oposição por meio do envio não solicitado da Guarda Nacional para grandes cidades como Los Angeles, Washington e Chicago. A mera presença deles sinaliza a disposição do governo de usar o exército — já subjugado em seus altos escalões — contra seus próprios cidadãos, se necessário.
Jürgen Habermas, palestra na Fundação Siemens em 19 de novembro de 2025
Aparentemente, esses novos tipos de regimes autoritários não podem ser atribuídos às circunstâncias particulares de uma transição fracassada das formas de governo pós-soviéticas.
Provavelmente, são mais como precursores do desmantelamento, democraticamente legitimado, da democracia mais antiga da Terra e da rápida construção e expansão de uma forma de governo libertário-capitalista, administrada tecnocraticamente. O que estamos observando nos EUA é a mesma transição de um “sistema” para outro — nem mesmo particularmente gradual, mas sim discreta diante de uma oposição mais ou menos paralisada: a última ou penúltima eleição democrática foi o início, há muito anunciado, de uma rápida expansão arbitrária e autocrática de um poder executivo que foi simultaneamente reduzido e expurgado.
Trump está abusando desse poder sem levar em consideração as objeções de um sistema jurídico que agora se encontra em um vácuo e vem sendo gradualmente esvaziado de cima para baixo. O presidente primeiro usurpou poderes legislativos do Congresso com sua rigorosa política tarifária e está tentando restringir gradualmente a independência da imprensa e do sistema universitário. Em seguida, intimidou a oposição por meio do envio não solicitado da Guarda Nacional para grandes cidades como Los Angeles, Washington e Chicago. A mera presença deles sinaliza a disposição do governo de usar o exército — já subjugado em seus altos escalões — contra seus próprios cidadãos, se necessário.
Jürgen Habermas, palestra na Fundação Siemens em 19 de novembro de 2025
Refletir sobre o futuro aos 104 anos
”A ignorância é a mãe de todos os vícios”, afirmou Machado de Assis, em uma crônica de 1889. É incomum citarmos “sabedoria” entre os votos para o ano novo, junto com “saúde, amor e prosperidade”. Em se tratando de 2026, quando teremos palpitantes eleições no Brasil, deveríamos acrescentar “serenidade e tolerância”.
Mas, raramente, mencionamos mais “conhecimento” ou “saber”. Uma falha a se repensar em tempos velozes, de comunicação instantânea, progressos tecnológicos e científico, proliferação de guerras, quando sabedoria, muitas vezes, implica desacelerar e refletir.
A lição de um dos mais respeitados filósofos contemporâneos é de que em uma realidade de inteligência artificial, células-tronco, trans-humanismo, o mais urgente seria resgatar valores. “Fica claro que o verdadeiro progresso de que a humanidade necessita seria o da compreensão humana, da benevolência, da solidariedade, da amizade, sendo que nesse campo só houve avanços parciais e provisórios, num contexto de retrocesso generalizado”.
A receita é do intelectual francês Edgar Morin, que em 2025, na plenitude de seus 104 anos, lançou mais um livro: “Lições da História”, publicado no Brasil pela L&PM. Ele enumera 16 lições que os fatos históricos deixam para a humanidade, como a força do improvável, o papel dos mitos, heróis e santos, a contradição entre progresso e moralidade, o poder devastador das guerras. Centenário, ele afirma que vida é metamorfose: [a História] “nos lembra que a humanidade sempre esteve e sempre estará em transformação”.
A história de Morin é inspiradora. Graduou-se em direito, história e geografia, mas sempre se declarou autodidata. Visionário, já na década de 70 escrevia sobre os riscos para o planeta e para o ser humano da degradação ambiental. Doutor Honoris Causa de mais de 40 universidades, é reconhecido pelo ambicioso “O Método”, publicado entre 1977 e 2004, obra de seis volumes sobre transdisciplinaridade e o pensamento complexo.
Em “Lições da História”, ele adverte que, em 2025, a humanidade estava “sendo arrastada para um grande retrocesso por um conjunto de crises ecológicas, políticas, econômicas; deixando-se de lado a afetividade, a felicidade, a infelicidade, a alegria, a tristeza, ou seja, realidades humanas essenciais”.
Ele enxerga o retrocesso ao lado do progresso. “É incontestável que avanços científicos e tecnológicos não param, como mostram as manipulações do DNA e de células-tronco na biologia ou os desenvolvimentos exponenciais das ciências do digital”, reconhece. “Enquanto o planeta está entregue a processos regressivos que parecem implacáveis, com a hegemonia do lucro, as degradações ecológicas, as guerras e as múltiplas crises interligadas numa policrise”, lamentou.
Morin reflete que essa ideologia promete “a imortalidade, uma sociedade perfeita regulada por inteligência artificial e a continuação da aventura humana em planetas colonizados, a começar pela Lua e por Marte: o trans-humanismo torna-se pós-humanismo”. Contudo, critica a “ausência de qualquer progresso moral no progresso científico-técnico-econômico”, e retrocessos morais nas crises e guerras, insistindo que o verdadeiro progresso seria a “compreensão humana”.
O debate que envolve avanços científicos, longevidade e imortalidade está no radar dos líderes mundiais. Em outubro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, em evento com empresários na Malásia, que tem “compromisso com Deus para viver até 120 anos de idade”, o que não seria muito “no mundo de hoje”.
O repórter Assis Moreira, do Valor, lembrou que, recentemente, uma transmissão ao vivo capturou os líderes da Rússia, Vladimir Putin, e da China, Xi Jinping, tratando do tema. “Órgãos humanos podem ser transplantados continuamente. Quanto mais você vive, mais jovem se torna - e pode até mesmo alcançar a imortalidade”, disse Putin. “Alguns preveem que, neste século, os humanos poderão viver até 150 anos”, completou Xi.
Para além da empreitada de viver 100 anos, e mais um pouco, o verdadeiro debate deveria ser em que condições chegar nesse estágio, e o que fazer com essa vivência. É onde entra a sabedoria. Lúcido, Morin caminha para os 105 anos estudando e publicando livros.
Nesta semana, a revista The Economist argumentou que Lula não deveria disputar a reeleição aos 80 anos - embora não mencionasse o americano Donald Trump, que tem a mesma idade e o mesmo desejo do brasileiro. Como tem afirmado, se estiver saudável e lúcido, Lula tem o direito de concorrer. O que ele precisará deixar claro é o que mais terá a oferecer ao país e aos brasileiros em eventual quarto governo.
Segundo Morin, outra lição da História é “fazer entender que o poder revela a natureza humana e permite a realização das piores e das melhores potencialidades”. Que venha um 2026 com saúde, prosperidade e sabedoria para todos nós.
Andrea Jubé
Mas, raramente, mencionamos mais “conhecimento” ou “saber”. Uma falha a se repensar em tempos velozes, de comunicação instantânea, progressos tecnológicos e científico, proliferação de guerras, quando sabedoria, muitas vezes, implica desacelerar e refletir.
A lição de um dos mais respeitados filósofos contemporâneos é de que em uma realidade de inteligência artificial, células-tronco, trans-humanismo, o mais urgente seria resgatar valores. “Fica claro que o verdadeiro progresso de que a humanidade necessita seria o da compreensão humana, da benevolência, da solidariedade, da amizade, sendo que nesse campo só houve avanços parciais e provisórios, num contexto de retrocesso generalizado”.
A receita é do intelectual francês Edgar Morin, que em 2025, na plenitude de seus 104 anos, lançou mais um livro: “Lições da História”, publicado no Brasil pela L&PM. Ele enumera 16 lições que os fatos históricos deixam para a humanidade, como a força do improvável, o papel dos mitos, heróis e santos, a contradição entre progresso e moralidade, o poder devastador das guerras. Centenário, ele afirma que vida é metamorfose: [a História] “nos lembra que a humanidade sempre esteve e sempre estará em transformação”.
A história de Morin é inspiradora. Graduou-se em direito, história e geografia, mas sempre se declarou autodidata. Visionário, já na década de 70 escrevia sobre os riscos para o planeta e para o ser humano da degradação ambiental. Doutor Honoris Causa de mais de 40 universidades, é reconhecido pelo ambicioso “O Método”, publicado entre 1977 e 2004, obra de seis volumes sobre transdisciplinaridade e o pensamento complexo.
Em “Lições da História”, ele adverte que, em 2025, a humanidade estava “sendo arrastada para um grande retrocesso por um conjunto de crises ecológicas, políticas, econômicas; deixando-se de lado a afetividade, a felicidade, a infelicidade, a alegria, a tristeza, ou seja, realidades humanas essenciais”.
Ele enxerga o retrocesso ao lado do progresso. “É incontestável que avanços científicos e tecnológicos não param, como mostram as manipulações do DNA e de células-tronco na biologia ou os desenvolvimentos exponenciais das ciências do digital”, reconhece. “Enquanto o planeta está entregue a processos regressivos que parecem implacáveis, com a hegemonia do lucro, as degradações ecológicas, as guerras e as múltiplas crises interligadas numa policrise”, lamentou.
Morin reflete que essa ideologia promete “a imortalidade, uma sociedade perfeita regulada por inteligência artificial e a continuação da aventura humana em planetas colonizados, a começar pela Lua e por Marte: o trans-humanismo torna-se pós-humanismo”. Contudo, critica a “ausência de qualquer progresso moral no progresso científico-técnico-econômico”, e retrocessos morais nas crises e guerras, insistindo que o verdadeiro progresso seria a “compreensão humana”.
O debate que envolve avanços científicos, longevidade e imortalidade está no radar dos líderes mundiais. Em outubro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, em evento com empresários na Malásia, que tem “compromisso com Deus para viver até 120 anos de idade”, o que não seria muito “no mundo de hoje”.
O repórter Assis Moreira, do Valor, lembrou que, recentemente, uma transmissão ao vivo capturou os líderes da Rússia, Vladimir Putin, e da China, Xi Jinping, tratando do tema. “Órgãos humanos podem ser transplantados continuamente. Quanto mais você vive, mais jovem se torna - e pode até mesmo alcançar a imortalidade”, disse Putin. “Alguns preveem que, neste século, os humanos poderão viver até 150 anos”, completou Xi.
Para além da empreitada de viver 100 anos, e mais um pouco, o verdadeiro debate deveria ser em que condições chegar nesse estágio, e o que fazer com essa vivência. É onde entra a sabedoria. Lúcido, Morin caminha para os 105 anos estudando e publicando livros.
Nesta semana, a revista The Economist argumentou que Lula não deveria disputar a reeleição aos 80 anos - embora não mencionasse o americano Donald Trump, que tem a mesma idade e o mesmo desejo do brasileiro. Como tem afirmado, se estiver saudável e lúcido, Lula tem o direito de concorrer. O que ele precisará deixar claro é o que mais terá a oferecer ao país e aos brasileiros em eventual quarto governo.
Segundo Morin, outra lição da História é “fazer entender que o poder revela a natureza humana e permite a realização das piores e das melhores potencialidades”. Que venha um 2026 com saúde, prosperidade e sabedoria para todos nós.
Andrea Jubé
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