domingo, 4 de janeiro de 2026

Embriague-se de Natureza em 2026

É preciso estar sempre embriagado. Isso é tudo: é a única questão. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que lhe quebra os ombros e o curva para o chão, é preciso embriagar-se sem perdão. Mas de quê? De vinho. De poesia. Ou de virtude, como quiser. Mas embriague-se.

E se (...) você acorda, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, pergunte ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunte que horas são e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio lhe responderão: “É hora de embriagar-se!”

Esse poema, acima, de Baudelaire (1821-1867), um dos “malditos” franceses, me acompanhou no fim do ano e na entrada de 2026. Escuto uma vez, e de novo, em looping, em francês. Interessante como acordo de ressaca neste primeiro de janeiro. Se bebi duas taças de champagne e duas de vinho, por que desperto assim? Sim, estou embriagada. De Natureza.

Baudelaire foi quem primeiro conceituou o flâneur, o observador urbano que passeia pelas ruas de uma cidade. A cada ano mais, prefiro flanar na Natureza. O mar, o mato, as flores, o vento, os seres que nos habitam e passam despercebidos a tantos de nós. Escrevo esse texto e vejo, à minha frente, um imenso lagarto desfilar calmamente. Três pavões gritando. E um exército de aves. Sou invasora aqui, mas os acolho.

Descobrir um novo hobby a cada ano, que desafie você a sair de sua casca, seu sofá, suas angústias, suas telinhas, seu cinismo e até de seu conforto, talvez seja a melhor lição de resistência. E lucidez. Em 2025, comecei a praticar birdwatching, com binóculos e algum método. Incrível como a observação se torna mais rica quando se decide escutar e enxergar direito as aves.

Ao oferecer frutas variadas na varanda de meu apartamento do Rio, passei a conviver com uma orquestra particular e com visões de aves alaranjadas, azuladas, multicores. Soltas. É uma dádiva. Moro ali há 30 anos. E nunca tinha sido visitada por sanhaços, sabiás-laranjeiras, saíras.

Quando Baudelaire recomenda embriaguez, interpreto como intensidade, como rendição aos sentidos. Menos razão, mais emoção. Fujo dos bêbados de virtude, eles são uma fraude. A cada virada de ano, um momento em que sentimos a energia do mundo despejada sobre nós, busco inspirações e pensadores, vivos ou mortos.

E me identifico com o israelense Yuval Noah Harari. “Adeus velho mundo, olá bravo mundo novo. Para criar um futuro melhor, deixe a ansiedade de lado e convoque a sua coragem”. A civilização humana, da religião à política, diz Harari, foi construída com base em palavras. “No entanto, até as palavras ditas por nossas vozes interiores serão moldadas por IA”.

Para permanecer livre, é tempo de não ficar refém das palavras – ou da tecnologia. Harari posta um vídeo caminhando na floresta e observando um lago. Assim me sinto quando me isolo na montanha, e busco a verdade que transcende as palavras. Somos muito pequenos diante do Universo. E podemos ser imensos em nossas atitudes.

Sou Capricórnio e carrego o enorme peso das responsabilidades, constâncias, estabilidades e lealdades. Meu aniversário cai naquele triângulo das bermudas entre Natal e réveillon, e por isso dezembro é tomado por reflexões.

Meu mantra é uma citação da escritora britânica Doris Lessing (1919-2013): “Seja lá o que for que você tem de fazer, faça agora. As condições são sempre impossíveis”.

Feliz 2026, leitores e leitoras. É o ano do Cavalo de Fogo no horóscopo chinês. Promete movimento, escolha e coragem. Vamos votar direito e eleger um Congresso amigo do povo.

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