Acaso ou coincidência para esta semana arrastada de 2025, outro título da mesma Ackerman — “Uma alquimia da mente” (sem edição no Brasil) — dá o que pensar. À época do lançamento nos Estados Unidos, a autora estava em turnê de promoção da obra quando recebeu a notícia de que o marido sofrera um AVC. Afasia global. Tendo investido quase uma década em pesquisas neurológicas para escrever sobre o funcionamento da mente, ela fechou o foco: conseguiria que o marido voltasse a pronunciar seu nome. Levou anos e conseguiu. Em “Alquimia da Mente”, ela nos convida a ver nosso cérebro de forma pouco científica, amigável para leigos:
— Imagine o cérebro como aquele lustroso monte de vida, um parlamento acinzentado de células, uma fábrica de sonhos, um pequeno tirano dentro de uma bola de osso, aquele amontoado de neurônios comandando todos os lances [...], muitos ‘eus’ entupidos no crânio como roupas demais enfiadas num saco de ginástica. O neocórtex tem cumes, vales e dobras porque o cérebro continua a se remodelar, mesmo no espaço apertado. Consideramos normal o fato, à primeira vista ridículo e ainda assim inegável, de que cada pessoa carrega no alto do corpo um universo completo em que trilhões de sensações, pensamentos e desejos se escoam. Misturam-se em privado, em silêncio, agitam-se em muitos níveis, alguns dos quais nem percebemos — melhor assim.
Em linguagem também não científica, costuma-se descrever o cérebro como o objeto mais complexo de que se tem conhecimento no universo. Ele abriga 86 bilhões de neurônios, todos dissemelhantes, conectados a milhares de outros neurônios que, por sua vez, transmitem sinais uns aos outros através de 100 trilhões de sinapses. Foi o estudo racional desse organismo (sua química, mecânica e estrutura celular) que desembocou, entre outros, na publicação das primeiras sequências do Projeto Genoma Humano e seu inesgotável leque de triunfos para a medicina e a biotecnologia.
Beleza. Mas o ponto, aqui, é outro. Enquanto o cérebro é obra da biologia, é a vida que transforma o cérebro em mente. E lá se vão 5 mil anos desde que poetas e filósofos, doutores de divindade e da medicina se debruçam sobre esse mistério. É na imensa vastidão da mente humana, com sua história, arte, literatura, religião, filosofia, poesia, música, mitos que se construiu a humanidade passada e se formarão nossos pares humanos do futuro.
Ou, como escreveu o saudoso ensaísta americano Lewis H. Lapham: “O trabalho do cérebro consiste em receber presentes; a arte da mente está em desembrulhá-los”. Neste Natal de 2025 há poucos indícios de que soubemos desembrulhar — com o devido zelo — o que nos foi dado de presente: a vida.

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