domingo, 8 de fevereiro de 2026
O assassinato de um pet
A morte barbárica do cão Orelha chocou o país. Guardada a distância literária, é tão impactante quanto a morte ficcional da cadela Baleia em "Vidas Secas". Animal é pensamento. Quer dizer, campo de conhecimento onde cada dia se experimenta a afirmação contrastiva da identidade humana. Talvez por isso a tendência ascendente de cuidar de um "pet" (cachorro, gato), hoje em dia, seja o modo mais simples de confirmar para si mesmo a humanidade que se esvai na vida social regida pelas máquinas.
É clichê conhecido: o ser humano aprende a amar ao longo de sua existência, o cachorro já nasce como amor em quatro patas. Orelha amava a comunidade, animal comunitário, diz-se, dócil e receptivo a carinho. Mas jovens cavaleiros do apocalipse entregaram-se a agressões ainda pouco claras, que oscilam nos relatos entre empalar, bater pregos na cabeça, tentar afogar e finalizar com pauladas. No mesmo dia, matou-se atrozmente outro cão, Caramelo. Isso acontece regularmente, há sites de adolescentes especializados em atrocidades com animais. "Schadenfreude" é o nome alemão para o prazer de ver sofrer. "Desumanidade" seria um apodo controverso: não se trata do desumano, mas do humano confortável na lógica do fascismo.
Relatos dessa natureza frequentaram as denúncias de torturas durante o regime militar. Jamais causaram algazarra pública, seja por medo, por conveniência ou porque as vítimas eram comprometidas com uma causa política da qual se quisesse distância. Mas a torpe flagelação de um pet provoca choque imediato por dificultar a distinção, no amplo escopo do conceito de animal, entre o humano e a besta. E faz aflorar a evidência de que homem é o único animal capaz de assassinar, matar por matar. Os outros matam por fome ou por território.
Há uma larga dose de ignorância ou de hipocrisia nesse choque moral quando se deixa de perceber "tudo que a natureza faz em nós, sem nós" (H. Amiel em "Diário Íntimo"). Ou tudo que o meio-ambiente faz despercebido. A morte ficcional de Baleia tem a ver com a secura das vidas sertanejas, na escrita de Graciliano. A morte real de Orelha tem a ver com a aridez de um contexto existencial doentio, imunitário à solidariedade de ações afirmativas, por se vangloriarem elites e dirigentes políticos de que seus habitantes de pele branca são numericamente superiores a qualquer outro estado do país. Também sabem, embora não alardeiem, que é o estado com maior número de células neonazistas.
Para inglês ver, governador e autoridades vociferaram toda a indignação desse mundo, cuidando ao mesmo tempo de proteger as identidades dos perpetradores, filhos de famílias abastadas. Insinuou-se timidamente falha educacional. Mas o catecismo da santimônia não consegue ocultar que todos compartilham a perversa pedagogia pública de ódio (racial e outros) institucionalizado. Não são apenas "menores" que, não conseguindo amar a inocência de um cão, dificilmente amarão a complexidade de um ser humano próximo, mas também seus "maiores", que odeiam a visão de qualquer diversidade no espelho. Toda essa gente matou Orelha.
É clichê conhecido: o ser humano aprende a amar ao longo de sua existência, o cachorro já nasce como amor em quatro patas. Orelha amava a comunidade, animal comunitário, diz-se, dócil e receptivo a carinho. Mas jovens cavaleiros do apocalipse entregaram-se a agressões ainda pouco claras, que oscilam nos relatos entre empalar, bater pregos na cabeça, tentar afogar e finalizar com pauladas. No mesmo dia, matou-se atrozmente outro cão, Caramelo. Isso acontece regularmente, há sites de adolescentes especializados em atrocidades com animais. "Schadenfreude" é o nome alemão para o prazer de ver sofrer. "Desumanidade" seria um apodo controverso: não se trata do desumano, mas do humano confortável na lógica do fascismo.
Relatos dessa natureza frequentaram as denúncias de torturas durante o regime militar. Jamais causaram algazarra pública, seja por medo, por conveniência ou porque as vítimas eram comprometidas com uma causa política da qual se quisesse distância. Mas a torpe flagelação de um pet provoca choque imediato por dificultar a distinção, no amplo escopo do conceito de animal, entre o humano e a besta. E faz aflorar a evidência de que homem é o único animal capaz de assassinar, matar por matar. Os outros matam por fome ou por território.
Há uma larga dose de ignorância ou de hipocrisia nesse choque moral quando se deixa de perceber "tudo que a natureza faz em nós, sem nós" (H. Amiel em "Diário Íntimo"). Ou tudo que o meio-ambiente faz despercebido. A morte ficcional de Baleia tem a ver com a secura das vidas sertanejas, na escrita de Graciliano. A morte real de Orelha tem a ver com a aridez de um contexto existencial doentio, imunitário à solidariedade de ações afirmativas, por se vangloriarem elites e dirigentes políticos de que seus habitantes de pele branca são numericamente superiores a qualquer outro estado do país. Também sabem, embora não alardeiem, que é o estado com maior número de células neonazistas.
Para inglês ver, governador e autoridades vociferaram toda a indignação desse mundo, cuidando ao mesmo tempo de proteger as identidades dos perpetradores, filhos de famílias abastadas. Insinuou-se timidamente falha educacional. Mas o catecismo da santimônia não consegue ocultar que todos compartilham a perversa pedagogia pública de ódio (racial e outros) institucionalizado. Não são apenas "menores" que, não conseguindo amar a inocência de um cão, dificilmente amarão a complexidade de um ser humano próximo, mas também seus "maiores", que odeiam a visão de qualquer diversidade no espelho. Toda essa gente matou Orelha.
É coisa nossa!
Nós estamos com esse problema até hoje. A classe dominante brasileira entende o Estado brasileiro como dela
Fernando Haddad, ministro da Fazenda
O colágeno do futuro não passa pelo abate
A celebração do acordo Mercosul–União Europeia promete ampliar o comércio entre o Brasil e um dos maiores mercados do mundo. Várias portas se abrem, novas possibilidades de comércio, que podem configurar novas oportunidades de trabalho. Como colher os melhores benefícios para a sociedade brasileira? Essa questão é essencial, pois empregos que propiciem mais alta qualidade de vida podem surgir, mas um olhar atento tem chances de potencializar os efeitos positivos e minimizar danos. Nem todo comércio gera ganhos proporcionais para todos os envolvidos; inclusive podem ser gerados danos.
Por exemplo, recentemente a justiça brasileira deu o sinal verde para o abate comercial de jumentos – uma espécie cuja população no Brasil sofreu uma queda de 94% nas últimas três décadas, segundo os poucos dados disponíveis. A exportação de sua pele para países asiáticos é alvo de críticas de ambientalistas, pelo risco de extinção e pelas condições precárias de trabalho, com danos iminentes à saúde humana física e mental. Ainda, a crueldade das práticas com os jumentos, sob um ponto de vista de sofrimento dos animais, é indefensável e inconstitucional.
Atualmente, o comprador da pele do jumento é a China, que a utiliza na fabricação de ejiao – um colágeno tradicionalmente entendido como importante para nutrição, saúde e beleza pelos chineses. Como não há cadeia produtiva de jumentos para abate, este comércio termina quando a população de jumentos acaba em uma determinada região. Foi assim que o mercado de pele de jumento para extração de colágeno chegou ao Brasil, depois de dizimar as populações deles na China e em países africanos. Na China, o rebanho caiu de mais de 11 milhões de animais para menos de 1,5 milhão em 2023. Agora vamos imaginar que houvesse uma outra forma de produzir o colágeno de jumentos, que não envolvesse crueldade e matança dos animais e que não tivesse nenhum limite de capacidade produtiva. Seria bom?
Pois há. A tecnologia em questão é conhecida como fermentação de precisão e consiste na produção de proteínas animais por meio de microrganismos geneticamente modificados. Trata-se de um método consolidado em setores como o farmacêutico e o de alimentos. Quando comemos queijo, na maioria das vezes consumimos um produto que envolveu fermentação de precisão em uma etapa de sua fabricação. A tecnologia também é consolidada na produção da insulina, que somente graças à fermentação de precisão se tornou muito mais abundante, permitindo acesso a um número muito maior de diabéticos que dependem dela todos os dias.
A fermentação de precisão agora avança no campo das proteínas alimentares, chamadas de proteínas alternativas. São alternativas porque são proteínas de origem animal produzidas por um método alternativo ao uso de animais. Com o DNA do animal inserido em um microrganismo que fará o papel de biofábrica. Por exemplo, pegamos o DNA do colágeno do jumento, de uma célula do jumento mesmo, e colocamos no microrganismo. Assim, ele começa a produzir, junto com suas proteínas, também o colágeno do jumento. Igualzinho porque o código, ou seja, quem manda na produção do colágeno, veio lá do jumento. Daí o processo produtivo é produzir levedura, que nem produzir cerveja… Mas naquele caldo dessa cerveja diferente, tem o colágeno do jumento para a gente extrair e vender, bem puro e pronto para gerar o ejiao.
Desde o ano passado, o Laboratório de Zootecnia Celular da Universidade Federal do Paraná (Zoocel/UFPR) desenvolve uma pesquisa para a produção do colágeno de jumento por fermentação de precisão, com alto grau de pureza, adequado ao uso industrial e capaz de atender às exigências de mercados internacionais que demandam padronização, rastreabilidade e previsibilidade produtiva. Graças a investimentos preliminares do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, por meio de seu Departamento de Proteção, Defesa e Direitos Animais (DPDA), e à Fundação Araucária, SETI, governo do Estado do Paraná, as etapas iniciais mais complexas e inovadoras deste trabalho foram estabelecidas.
Tais etapas envolvem o sequenciamento do DNA do colágeno do jumento e sua inserção em microrganismos capazes de atuar como verdadeiras biofábricas. São etapas desafiadoras sendo vencidas, pois envolvem a fronteira do conhecimento científico. A partir disso, o principal desafio é o escalonamento da produção, que exige investimento em infraestrutura, como biorreatores de maior porte e espaços laboratoriais adequados. O retorno justifica o investimento, pois o processo fica pronto para que possa ser desenvolvido industrialmente.
Essa abordagem contrasta diretamente com o modelo atual de matança dos animais na Bahia, baseado em um processo arriscado sob vários aspectos e naturalmente limitado à quantidade de jumentos ainda disponíveis. Ainda, do ponto de vista social, o Brasil exporta hoje a pele do animal e deixa para outros países justamente a etapa de maior valor agregado: a extração e a purificação do colágeno. A fermentação de precisão opera sob uma lógica oposta. Em um único espaço industrial, equipado com fermentadores e equipamentos adicionais menores, é possível produzir o mesmo colágeno com menor consumo de insumos, maior previsibilidade e constância, com zero risco de doenças zoonóticas, pureza e eficiência significativamente superior.
Ao contrário da captura e matança dos animais, a fermentação de precisão não está condicionada à queda vertiginosa do número de jumentos para o abate. Ao contrário de empregos de baixa qualidade, como capturar animais e os matar, este novo sistema produtivo abre vagas produtores rurais de insumos para compor os ingredientes de alimentação das leveduras ou para manter fermentadores. Melhor rotina de trabalho, exclusão de violência contra animais e participação em treinamentos parecem itens marcantes para melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores.
Mais do que uma solução pontual, a produção de colágeno de jumento por fermentação de precisão também pode abrir portas para o Brasil liderar o mercado global de proteínas alternativas de uma maneira geral. Um bom resultado no caso dos jumentos pode mostrar os benefícios de se investir em proteínas alternativas de uma maneira mais concreta, diminuindo as dúvidas e incertezas dos atuais criadores de animais de fazenda em experimentar novas tecnologias no seu modelo de negócio.
Assim, apostar no colágeno por fermentação combina ganhos de eficiência econômica, empregos dignos, competitividade internacional, redução de impactos ambientais e proteção animal. É também uma oportunidade de transformar pesquisa científica em desenvolvimento industrial e posicionar o país como exportador de insumos estratégicos de alto valor agregado. Que boa oportunidade para entender por que há países investindo fortemente nos novos sistemas alimentares e apostando na agricultura celular. Ótima oportunidade também para se pensar a relevância dos nossos sistemas produtivos para nosso país.
Carla Molento
Por exemplo, recentemente a justiça brasileira deu o sinal verde para o abate comercial de jumentos – uma espécie cuja população no Brasil sofreu uma queda de 94% nas últimas três décadas, segundo os poucos dados disponíveis. A exportação de sua pele para países asiáticos é alvo de críticas de ambientalistas, pelo risco de extinção e pelas condições precárias de trabalho, com danos iminentes à saúde humana física e mental. Ainda, a crueldade das práticas com os jumentos, sob um ponto de vista de sofrimento dos animais, é indefensável e inconstitucional.
Atualmente, o comprador da pele do jumento é a China, que a utiliza na fabricação de ejiao – um colágeno tradicionalmente entendido como importante para nutrição, saúde e beleza pelos chineses. Como não há cadeia produtiva de jumentos para abate, este comércio termina quando a população de jumentos acaba em uma determinada região. Foi assim que o mercado de pele de jumento para extração de colágeno chegou ao Brasil, depois de dizimar as populações deles na China e em países africanos. Na China, o rebanho caiu de mais de 11 milhões de animais para menos de 1,5 milhão em 2023. Agora vamos imaginar que houvesse uma outra forma de produzir o colágeno de jumentos, que não envolvesse crueldade e matança dos animais e que não tivesse nenhum limite de capacidade produtiva. Seria bom?
Pois há. A tecnologia em questão é conhecida como fermentação de precisão e consiste na produção de proteínas animais por meio de microrganismos geneticamente modificados. Trata-se de um método consolidado em setores como o farmacêutico e o de alimentos. Quando comemos queijo, na maioria das vezes consumimos um produto que envolveu fermentação de precisão em uma etapa de sua fabricação. A tecnologia também é consolidada na produção da insulina, que somente graças à fermentação de precisão se tornou muito mais abundante, permitindo acesso a um número muito maior de diabéticos que dependem dela todos os dias.
A fermentação de precisão agora avança no campo das proteínas alimentares, chamadas de proteínas alternativas. São alternativas porque são proteínas de origem animal produzidas por um método alternativo ao uso de animais. Com o DNA do animal inserido em um microrganismo que fará o papel de biofábrica. Por exemplo, pegamos o DNA do colágeno do jumento, de uma célula do jumento mesmo, e colocamos no microrganismo. Assim, ele começa a produzir, junto com suas proteínas, também o colágeno do jumento. Igualzinho porque o código, ou seja, quem manda na produção do colágeno, veio lá do jumento. Daí o processo produtivo é produzir levedura, que nem produzir cerveja… Mas naquele caldo dessa cerveja diferente, tem o colágeno do jumento para a gente extrair e vender, bem puro e pronto para gerar o ejiao.
Desde o ano passado, o Laboratório de Zootecnia Celular da Universidade Federal do Paraná (Zoocel/UFPR) desenvolve uma pesquisa para a produção do colágeno de jumento por fermentação de precisão, com alto grau de pureza, adequado ao uso industrial e capaz de atender às exigências de mercados internacionais que demandam padronização, rastreabilidade e previsibilidade produtiva. Graças a investimentos preliminares do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, por meio de seu Departamento de Proteção, Defesa e Direitos Animais (DPDA), e à Fundação Araucária, SETI, governo do Estado do Paraná, as etapas iniciais mais complexas e inovadoras deste trabalho foram estabelecidas.
Tais etapas envolvem o sequenciamento do DNA do colágeno do jumento e sua inserção em microrganismos capazes de atuar como verdadeiras biofábricas. São etapas desafiadoras sendo vencidas, pois envolvem a fronteira do conhecimento científico. A partir disso, o principal desafio é o escalonamento da produção, que exige investimento em infraestrutura, como biorreatores de maior porte e espaços laboratoriais adequados. O retorno justifica o investimento, pois o processo fica pronto para que possa ser desenvolvido industrialmente.
Essa abordagem contrasta diretamente com o modelo atual de matança dos animais na Bahia, baseado em um processo arriscado sob vários aspectos e naturalmente limitado à quantidade de jumentos ainda disponíveis. Ainda, do ponto de vista social, o Brasil exporta hoje a pele do animal e deixa para outros países justamente a etapa de maior valor agregado: a extração e a purificação do colágeno. A fermentação de precisão opera sob uma lógica oposta. Em um único espaço industrial, equipado com fermentadores e equipamentos adicionais menores, é possível produzir o mesmo colágeno com menor consumo de insumos, maior previsibilidade e constância, com zero risco de doenças zoonóticas, pureza e eficiência significativamente superior.
Ao contrário da captura e matança dos animais, a fermentação de precisão não está condicionada à queda vertiginosa do número de jumentos para o abate. Ao contrário de empregos de baixa qualidade, como capturar animais e os matar, este novo sistema produtivo abre vagas produtores rurais de insumos para compor os ingredientes de alimentação das leveduras ou para manter fermentadores. Melhor rotina de trabalho, exclusão de violência contra animais e participação em treinamentos parecem itens marcantes para melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores.
Mais do que uma solução pontual, a produção de colágeno de jumento por fermentação de precisão também pode abrir portas para o Brasil liderar o mercado global de proteínas alternativas de uma maneira geral. Um bom resultado no caso dos jumentos pode mostrar os benefícios de se investir em proteínas alternativas de uma maneira mais concreta, diminuindo as dúvidas e incertezas dos atuais criadores de animais de fazenda em experimentar novas tecnologias no seu modelo de negócio.
Assim, apostar no colágeno por fermentação combina ganhos de eficiência econômica, empregos dignos, competitividade internacional, redução de impactos ambientais e proteção animal. É também uma oportunidade de transformar pesquisa científica em desenvolvimento industrial e posicionar o país como exportador de insumos estratégicos de alto valor agregado. Que boa oportunidade para entender por que há países investindo fortemente nos novos sistemas alimentares e apostando na agricultura celular. Ótima oportunidade também para se pensar a relevância dos nossos sistemas produtivos para nosso país.
Carla Molento
A escuridão que paira sobre um grande jornal americano
Adotado pelo Washington Post em fevereiro de 2017 como mote oficial, o dístico “Democracy Dies in Darkness” (a democracia morre na escuridão) soa lindo e continua a ornar as capas das edições digitais e impressas do jornal. A frase fora cunhada ainda nos anos 1960 pelo juiz negro Damon Keith, defensor dos direitos civis, e popularizada já neste milênio pelo veterano Bob Woodward a propósito da obsessão de sigilo (“escuridão”) por parte de governantes. Era a primeira vez em 140 anos de existência que o venerável matutino da capital dos Estados Unidos adotava um lema oficial. A mensagem também era clara: um jornalismo que fiscaliza o poder, cobra responsabilidades de autoridades e instituições e promove transparência pública é essencial para a prevenção de malfeitos subterrâneos dos donos do poder — sobretudo, para a preservação da democracia.
Naquele início de 2017, o mundo vivia o choque de Donald Trump ter sido recém-entronizado na Casa Branca pelo voto popular. Jeff Bezos, o então já bilionário fundador da Amazon, adotara o lema para fincar posição: o Washington Post, pelo qual pagara US$ 250 milhões, continuaria a honrar a marca de bom jornalismo e independência deixada por Kay Graham. À época, foi saudado como mecenas pelo alto investimento feito na redação. Talvez tenha até abrigado a ambição de competir com o New York Times como jornal de referência.
Não mais. Bezos simplesmente se cansou de um “negócio” tão pouco rentável como o jornalismo independente, sistematicamente atacado, processado, perseguido e ridicularizado por um Trump cada vez mais vingativo. Melhor cortejar a Casa Branca, ampliando outros negócios (entre 2013 e 2026, seu patrimônio pulou de US$ 25 bilhões para estimados US$ 250 bilhões). Na semana passada, a notícia do corte seco de 300 profissionais do Post, decapitando um terço dos 800 e tantos postos da redação, foi impiedosa. Foram limadas seções inteiras como a resenha de livros e Esportes (em pleno ano de Copa do Mundo, Olimpíada de Inverno e pré-Olimpíada de 2028), valiosas sucursais em todo o Oriente Médio foram fechadas; inúmeros correspondentes mundo afora, dizimados por e-mail.
Coube ao diretor de redação do jornal, Matt Murray, nomeado por Bezos em 2024, conduzir o “megapassaralho”, como se diz na gíria jornalística. Seu estilo lembrou Elon Musk durante os 130 dias em que esteve à frente do defunto Departamento de Eficiência Governamental, quando 260 mil funcionários federais foram cortados ou aceitaram acordos de rescisão.
Murray definiu os cortes como “reset estratégico”. Não citou o cancelamento de milhares de assinaturas sofridas pelo jornal em 2024, quando suspendeu, à última hora, o endosso à candidatura da democrata Kamala Harris contra Trump para um segundo mandato. Tampouco mencionou que a decisão de limitar a seção de opinião a temas como liberdades individuais e livre-mercado, em detrimento de qualquer sinal de diversidade, afugentou outros 75 mil assinantes. Em compensação, no “reset estratégico” de Bezos, coube o desembolso de US$ 75 milhões pela Amazon para produzir, distribuir e divulgar mundialmente o documentário “Melania”, narrado pela própria primeira-dama.
— Tenho ouvido que a ênfase maior daqui para a frente será em inteligência artificial — disse em entrevista à Vanity Fair o respeitado Marty Baron, que chefiou o Post por oito anos até 2021, amealhou dez Prêmios Pulitzer para o jornal e consolidou a instituição como força independente às invectivas de Trump. — Devem estar se iludindo com o que a IA pode realmente fazer. Não sei como a IA cultivará fontes ou apurará o que acontece no mundo.
Ele sustenta que, mesmo sendo uma ferramenta poderosa que deve ser usada, a IA não consegue substituir um repórter. Nem um bom chefe de redação. Em livro publicado dois anos atrás (“Collision of Power”) sobre o primeiro mandato de Trump, Baron relata embates de que Bezos deveria se orgulhar até hoje. Não mais.
— O caso atual deveria ser estudado como a destruição autoinfligida de uma marca — diz Baron.
Lá atrás, Alexis de Tocqueville especulou sobre o futuro da democracia nos Estados Unidos, as possíveis armadilhas e perigos que ela enfrentaria. Incluiu em suas divagações a suspeita de que ela poderia degenerar num “despotismo brando”. Nada em Trump é brando. Ao divulgar em seu site oficial do Truth Social (11 milhões de usuários) um vídeo — depois retirado do ar — contendo um meme que retrata o ex-presidente Barack Obama e a ex-primeira-dama Michelle Obama como primatas, ele convida seu eleitorado supremacista a um gozo racista. Que ninguém se engane: com o Post morrendo, não na escuridão, mas à luz do dia, a democracia americana e o jornalismo que a sustenta encolhem um pouco mais.
Naquele início de 2017, o mundo vivia o choque de Donald Trump ter sido recém-entronizado na Casa Branca pelo voto popular. Jeff Bezos, o então já bilionário fundador da Amazon, adotara o lema para fincar posição: o Washington Post, pelo qual pagara US$ 250 milhões, continuaria a honrar a marca de bom jornalismo e independência deixada por Kay Graham. À época, foi saudado como mecenas pelo alto investimento feito na redação. Talvez tenha até abrigado a ambição de competir com o New York Times como jornal de referência.
Não mais. Bezos simplesmente se cansou de um “negócio” tão pouco rentável como o jornalismo independente, sistematicamente atacado, processado, perseguido e ridicularizado por um Trump cada vez mais vingativo. Melhor cortejar a Casa Branca, ampliando outros negócios (entre 2013 e 2026, seu patrimônio pulou de US$ 25 bilhões para estimados US$ 250 bilhões). Na semana passada, a notícia do corte seco de 300 profissionais do Post, decapitando um terço dos 800 e tantos postos da redação, foi impiedosa. Foram limadas seções inteiras como a resenha de livros e Esportes (em pleno ano de Copa do Mundo, Olimpíada de Inverno e pré-Olimpíada de 2028), valiosas sucursais em todo o Oriente Médio foram fechadas; inúmeros correspondentes mundo afora, dizimados por e-mail.
Coube ao diretor de redação do jornal, Matt Murray, nomeado por Bezos em 2024, conduzir o “megapassaralho”, como se diz na gíria jornalística. Seu estilo lembrou Elon Musk durante os 130 dias em que esteve à frente do defunto Departamento de Eficiência Governamental, quando 260 mil funcionários federais foram cortados ou aceitaram acordos de rescisão.
Murray definiu os cortes como “reset estratégico”. Não citou o cancelamento de milhares de assinaturas sofridas pelo jornal em 2024, quando suspendeu, à última hora, o endosso à candidatura da democrata Kamala Harris contra Trump para um segundo mandato. Tampouco mencionou que a decisão de limitar a seção de opinião a temas como liberdades individuais e livre-mercado, em detrimento de qualquer sinal de diversidade, afugentou outros 75 mil assinantes. Em compensação, no “reset estratégico” de Bezos, coube o desembolso de US$ 75 milhões pela Amazon para produzir, distribuir e divulgar mundialmente o documentário “Melania”, narrado pela própria primeira-dama.
— Tenho ouvido que a ênfase maior daqui para a frente será em inteligência artificial — disse em entrevista à Vanity Fair o respeitado Marty Baron, que chefiou o Post por oito anos até 2021, amealhou dez Prêmios Pulitzer para o jornal e consolidou a instituição como força independente às invectivas de Trump. — Devem estar se iludindo com o que a IA pode realmente fazer. Não sei como a IA cultivará fontes ou apurará o que acontece no mundo.
Ele sustenta que, mesmo sendo uma ferramenta poderosa que deve ser usada, a IA não consegue substituir um repórter. Nem um bom chefe de redação. Em livro publicado dois anos atrás (“Collision of Power”) sobre o primeiro mandato de Trump, Baron relata embates de que Bezos deveria se orgulhar até hoje. Não mais.
— O caso atual deveria ser estudado como a destruição autoinfligida de uma marca — diz Baron.
Lá atrás, Alexis de Tocqueville especulou sobre o futuro da democracia nos Estados Unidos, as possíveis armadilhas e perigos que ela enfrentaria. Incluiu em suas divagações a suspeita de que ela poderia degenerar num “despotismo brando”. Nada em Trump é brando. Ao divulgar em seu site oficial do Truth Social (11 milhões de usuários) um vídeo — depois retirado do ar — contendo um meme que retrata o ex-presidente Barack Obama e a ex-primeira-dama Michelle Obama como primatas, ele convida seu eleitorado supremacista a um gozo racista. Que ninguém se engane: com o Post morrendo, não na escuridão, mas à luz do dia, a democracia americana e o jornalismo que a sustenta encolhem um pouco mais.
Contra a indignação seletiva
Estou no Brasil onde um assunto muito debatido nas últimas semanas foi o espancamento do cãozinho Orelha, em Santa Catarina. Não quis me aprofundar nos detalhes, nem li reportagens sobre o assunto. É horrível ver que adolescentes achem que não há problema em agredir um animal inocente até deixá-lo à beira morte. Mais terrível ainda é saber que existem estímulos vindos da internet para essas sessões de sadismo, e jovens idiotas o suficiente para segui-los.
É uma tristeza imensa pensar que existem pessoas no mundo que não se preocupam com o sofrimento alheio, nem dos humanos e muito menos dos animais. Mas o que mais me assusta é o que chamo de indignação seletiva. Fiquei muito chocada com a morte de Orelha e ao tomar conhecimento dessas comunidades que estimulam o assassinato de animais. No entanto, em um mundo que acha normal torturar e matar mais de 80 bilhões de seres todos os anos (se somarmos os peixes e outras criaturas marinhas, esse número pode facilmente chegar a casa do trilhão), por que a morte de Orelha nos causa tanta revolta?
Algumas pessoas dizem que animais de companhia são diferentes de animais de “corte”. Por que fazemos diferença se são todos seres vivos, que sentem dor, solidão, fome e medo? Por que devemos tratar alguns, por exemplo, cachorros e gatos, melhor do que os outros? E por que a maioria das pessoas não se indigna com o teste doloroso de cosméticos em cães da raça beagle (que são conhecidos por sua doçura) ou em coelhos e macacos a ponto de deixar de comprar cosméticos que são testados em animais, e sofremos com a morte de Orelha? Juro que me escapa o mecanismo que nos faz ignorar o sofrimento de uns e gritar com a dor dos outros.
Por que ignoramos o sofrimento da vaquinha Mimosa, que durante toda a sua vida será estuprada e dará à luz a seus filhotes só para vê-los arrancados de seu convívio e assassinados como dejetos da indústria do leite? Por que a galinha Cocó, que mal consegue ficar de pé porque é estimulada a botar mais ovos do que sua estrutura óssea é capaz de suportar, não é alvo de abaixo assinados que impeçam seu sofrimento e o de seus filhotes que, se nascerem machos, serão triturados ou queimados vivos?
Ignoramos também o sofrimento de animais que não são mortos pela carne, mas passam a vida a sofrer por nossa causa. As ovelhas e alpacas, por exemplo, sentem dor e pavor não apenas na hora da tosquia, quando as máquinas cortam suas peles junto com a lã, mas também quando são imersas em tanques com produtos químicos destinados a prevenir parasitas. Mas não vejo muita gente protestando para impedir que isso aconteça em locais com criação desumana.
A maioria das pessoas que conheço nem ao menos deseja conhecer a realidade sobre o assunto da criação de animais para o abate e outros usos humanos, porque o considera muito indigesto. Com certeza o tema é mesmo bastante horrível. Mas temos que encarar os efeitos de nossas ações e de nossa falta de ação. A ignorância conveniente nada mais é do que uma forma de complacência.
Eu entendo que não querer saber é muito mais fácil do que mudar hábitos tão enraizados quanto a alimentação ou a maneira como nos vestimos e os produtos que usamos. Eu também sinto essa dificuldade em um mundo que ignora a dor dos animais. O que tento fazer é diminuir os danos, evito comer qualquer coisa que venha dos animais e comprar roupas e produtos que possam ser fruto de sofrimento. E vejo, com esperança, que algumas pessoas estão aos poucos caminhando nessa direção.
Imagino que seja nossa responsabilidade como sociedade cuidar de todos, não só do pobre Orelha. Até para evitar que adolescentes e adultos continuem a achar normal matar – humanos ou animais.
É uma tristeza imensa pensar que existem pessoas no mundo que não se preocupam com o sofrimento alheio, nem dos humanos e muito menos dos animais. Mas o que mais me assusta é o que chamo de indignação seletiva. Fiquei muito chocada com a morte de Orelha e ao tomar conhecimento dessas comunidades que estimulam o assassinato de animais. No entanto, em um mundo que acha normal torturar e matar mais de 80 bilhões de seres todos os anos (se somarmos os peixes e outras criaturas marinhas, esse número pode facilmente chegar a casa do trilhão), por que a morte de Orelha nos causa tanta revolta?
Algumas pessoas dizem que animais de companhia são diferentes de animais de “corte”. Por que fazemos diferença se são todos seres vivos, que sentem dor, solidão, fome e medo? Por que devemos tratar alguns, por exemplo, cachorros e gatos, melhor do que os outros? E por que a maioria das pessoas não se indigna com o teste doloroso de cosméticos em cães da raça beagle (que são conhecidos por sua doçura) ou em coelhos e macacos a ponto de deixar de comprar cosméticos que são testados em animais, e sofremos com a morte de Orelha? Juro que me escapa o mecanismo que nos faz ignorar o sofrimento de uns e gritar com a dor dos outros.
Por que ignoramos o sofrimento da vaquinha Mimosa, que durante toda a sua vida será estuprada e dará à luz a seus filhotes só para vê-los arrancados de seu convívio e assassinados como dejetos da indústria do leite? Por que a galinha Cocó, que mal consegue ficar de pé porque é estimulada a botar mais ovos do que sua estrutura óssea é capaz de suportar, não é alvo de abaixo assinados que impeçam seu sofrimento e o de seus filhotes que, se nascerem machos, serão triturados ou queimados vivos?
Ignoramos também o sofrimento de animais que não são mortos pela carne, mas passam a vida a sofrer por nossa causa. As ovelhas e alpacas, por exemplo, sentem dor e pavor não apenas na hora da tosquia, quando as máquinas cortam suas peles junto com a lã, mas também quando são imersas em tanques com produtos químicos destinados a prevenir parasitas. Mas não vejo muita gente protestando para impedir que isso aconteça em locais com criação desumana.
A maioria das pessoas que conheço nem ao menos deseja conhecer a realidade sobre o assunto da criação de animais para o abate e outros usos humanos, porque o considera muito indigesto. Com certeza o tema é mesmo bastante horrível. Mas temos que encarar os efeitos de nossas ações e de nossa falta de ação. A ignorância conveniente nada mais é do que uma forma de complacência.
Eu entendo que não querer saber é muito mais fácil do que mudar hábitos tão enraizados quanto a alimentação ou a maneira como nos vestimos e os produtos que usamos. Eu também sinto essa dificuldade em um mundo que ignora a dor dos animais. O que tento fazer é diminuir os danos, evito comer qualquer coisa que venha dos animais e comprar roupas e produtos que possam ser fruto de sofrimento. E vejo, com esperança, que algumas pessoas estão aos poucos caminhando nessa direção.
Imagino que seja nossa responsabilidade como sociedade cuidar de todos, não só do pobre Orelha. Até para evitar que adolescentes e adultos continuem a achar normal matar – humanos ou animais.
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