A celebração do acordo Mercosul–União Europeia promete ampliar o comércio entre o Brasil e um dos maiores mercados do mundo. Várias portas se abrem, novas possibilidades de comércio, que podem configurar novas oportunidades de trabalho. Como colher os melhores benefícios para a sociedade brasileira? Essa questão é essencial, pois empregos que propiciem mais alta qualidade de vida podem surgir, mas um olhar atento tem chances de potencializar os efeitos positivos e minimizar danos. Nem todo comércio gera ganhos proporcionais para todos os envolvidos; inclusive podem ser gerados danos.
Por exemplo, recentemente a justiça brasileira deu o sinal verde para o abate comercial de jumentos – uma espécie cuja população no Brasil sofreu uma queda de 94% nas últimas três décadas, segundo os poucos dados disponíveis. A exportação de sua pele para países asiáticos é alvo de críticas de ambientalistas, pelo risco de extinção e pelas condições precárias de trabalho, com danos iminentes à saúde humana física e mental. Ainda, a crueldade das práticas com os jumentos, sob um ponto de vista de sofrimento dos animais, é indefensável e inconstitucional.
Atualmente, o comprador da pele do jumento é a China, que a utiliza na fabricação de ejiao – um colágeno tradicionalmente entendido como importante para nutrição, saúde e beleza pelos chineses. Como não há cadeia produtiva de jumentos para abate, este comércio termina quando a população de jumentos acaba em uma determinada região. Foi assim que o mercado de pele de jumento para extração de colágeno chegou ao Brasil, depois de dizimar as populações deles na China e em países africanos. Na China, o rebanho caiu de mais de 11 milhões de animais para menos de 1,5 milhão em 2023. Agora vamos imaginar que houvesse uma outra forma de produzir o colágeno de jumentos, que não envolvesse crueldade e matança dos animais e que não tivesse nenhum limite de capacidade produtiva. Seria bom?
Pois há. A tecnologia em questão é conhecida como fermentação de precisão e consiste na produção de proteínas animais por meio de microrganismos geneticamente modificados. Trata-se de um método consolidado em setores como o farmacêutico e o de alimentos. Quando comemos queijo, na maioria das vezes consumimos um produto que envolveu fermentação de precisão em uma etapa de sua fabricação. A tecnologia também é consolidada na produção da insulina, que somente graças à fermentação de precisão se tornou muito mais abundante, permitindo acesso a um número muito maior de diabéticos que dependem dela todos os dias.
A fermentação de precisão agora avança no campo das proteínas alimentares, chamadas de proteínas alternativas. São alternativas porque são proteínas de origem animal produzidas por um método alternativo ao uso de animais. Com o DNA do animal inserido em um microrganismo que fará o papel de biofábrica. Por exemplo, pegamos o DNA do colágeno do jumento, de uma célula do jumento mesmo, e colocamos no microrganismo. Assim, ele começa a produzir, junto com suas proteínas, também o colágeno do jumento. Igualzinho porque o código, ou seja, quem manda na produção do colágeno, veio lá do jumento. Daí o processo produtivo é produzir levedura, que nem produzir cerveja… Mas naquele caldo dessa cerveja diferente, tem o colágeno do jumento para a gente extrair e vender, bem puro e pronto para gerar o ejiao.
Desde o ano passado, o Laboratório de Zootecnia Celular da Universidade Federal do Paraná (Zoocel/UFPR) desenvolve uma pesquisa para a produção do colágeno de jumento por fermentação de precisão, com alto grau de pureza, adequado ao uso industrial e capaz de atender às exigências de mercados internacionais que demandam padronização, rastreabilidade e previsibilidade produtiva. Graças a investimentos preliminares do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, por meio de seu Departamento de Proteção, Defesa e Direitos Animais (DPDA), e à Fundação Araucária, SETI, governo do Estado do Paraná, as etapas iniciais mais complexas e inovadoras deste trabalho foram estabelecidas.
Tais etapas envolvem o sequenciamento do DNA do colágeno do jumento e sua inserção em microrganismos capazes de atuar como verdadeiras biofábricas. São etapas desafiadoras sendo vencidas, pois envolvem a fronteira do conhecimento científico. A partir disso, o principal desafio é o escalonamento da produção, que exige investimento em infraestrutura, como biorreatores de maior porte e espaços laboratoriais adequados. O retorno justifica o investimento, pois o processo fica pronto para que possa ser desenvolvido industrialmente.
Essa abordagem contrasta diretamente com o modelo atual de matança dos animais na Bahia, baseado em um processo arriscado sob vários aspectos e naturalmente limitado à quantidade de jumentos ainda disponíveis. Ainda, do ponto de vista social, o Brasil exporta hoje a pele do animal e deixa para outros países justamente a etapa de maior valor agregado: a extração e a purificação do colágeno. A fermentação de precisão opera sob uma lógica oposta. Em um único espaço industrial, equipado com fermentadores e equipamentos adicionais menores, é possível produzir o mesmo colágeno com menor consumo de insumos, maior previsibilidade e constância, com zero risco de doenças zoonóticas, pureza e eficiência significativamente superior.
Ao contrário da captura e matança dos animais, a fermentação de precisão não está condicionada à queda vertiginosa do número de jumentos para o abate. Ao contrário de empregos de baixa qualidade, como capturar animais e os matar, este novo sistema produtivo abre vagas produtores rurais de insumos para compor os ingredientes de alimentação das leveduras ou para manter fermentadores. Melhor rotina de trabalho, exclusão de violência contra animais e participação em treinamentos parecem itens marcantes para melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores.
Mais do que uma solução pontual, a produção de colágeno de jumento por fermentação de precisão também pode abrir portas para o Brasil liderar o mercado global de proteínas alternativas de uma maneira geral. Um bom resultado no caso dos jumentos pode mostrar os benefícios de se investir em proteínas alternativas de uma maneira mais concreta, diminuindo as dúvidas e incertezas dos atuais criadores de animais de fazenda em experimentar novas tecnologias no seu modelo de negócio.
Assim, apostar no colágeno por fermentação combina ganhos de eficiência econômica, empregos dignos, competitividade internacional, redução de impactos ambientais e proteção animal. É também uma oportunidade de transformar pesquisa científica em desenvolvimento industrial e posicionar o país como exportador de insumos estratégicos de alto valor agregado. Que boa oportunidade para entender por que há países investindo fortemente nos novos sistemas alimentares e apostando na agricultura celular. Ótima oportunidade também para se pensar a relevância dos nossos sistemas produtivos para nosso país.
Carla Molento
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