A voz do povo só tem um intérprete. Um escolhido. Um eleito. Eleito por Deus, primeiro, e pelos vossos votos depois. A ordem é esta. Nunca se esqueçam da ordem. A ordem é uma coisa muito importante. Sem ordem é tudo uma bandalheira. Mas calma. Há coisas que se podem proibir e outras que não. Porque, senão, qualquer dia já não se pode dizer nada. Quem sabe o que se pode dizer e o que não se deve sequer pensar? O eleito, claro. Devemos sempre confiar em quem é eleito, mas nem sempre nas eleições. As eleições são a expressão da voz do povo quando o eleito as conquista, mas não valem nada e são manipuladas quando o eleito as perde. Porque o que conta é ser escolhido por Deus. E por isso é que ele é eleito.
Não confiem nos vossos ouvidos. Se ouviram dizer uma coisa e depois outra, é porque entretanto as coisas mudaram ou uma voz divina guiou o eleito noutra direção. A voz divina é a voz do povo. Por isso, o povo já não precisa de falar. Tem os seus ventríloquos. E pode trabalhar e meter-se na sua vida. Porque a política é uma coisa suja, a não ser que seja feita pelo eleito, claro. Nesse caso, nem se lhe pode bem chamar política. É só fazer o que está certo.
Às vezes, o que está certo causa vítimas. Há uns bandidos que morrem ou uns preguiçosos que perdem o trabalho ou a casa. Isso não muda nada. Toda a gente sabe que Deus escreve direito por linhas tortas. E as linhas do Excel podem ser muito tortas, mesmo que pareçam uma quadrícula perfeita. Se as contas batem certo, que se lixem as pessoas. Toda a gente sabe que só não prospera quem não trabalha, só morre à fome quem se pôs a jeito, só definha por falta de cuidados quem não merece viver. É a seleção natural. A ordem natural das coisas. E a ordem é muito importante.
Não confiem nos vossos instintos. O vizinho de turbante que vos parece simpático e pacífico está a enganar-vos. O cigano que trabalha é uma exceção. O imigrante que foi ajudar nos incêndios ou nas cheias é uma criação de Inteligência Artificial. Tudo falso. Falso como todas as mentiras a que chamam notícias e factos e estatísticas. O que é que valem as estatísticas quando se conhece um caso que as desmonta? O que é que vale a ciência, feita por um bando de vendidos? O que é que interessa que tenha sido o progresso científico a aumentar a esperança de vida? Balelas. Toda a gente tem uma avó que viveu rija que nem um pero até aos 100 sem precisar de nada disso.
E o que é que interessam as crianças que agonizam em Gaza? E as do Sudão? E as da Ucrânia? Há tantos lugares onde as crianças agonizam. Quantos mais houver, menos se liga a cada um deles. E assim é que está bem. Temos de cuidar dos nossos primeiro. Os nossos, sim, os nossos. Os nossos que são tão brancos como nós, apesar de haver uns mais brancos do que nós que nos acham escuros e inferiores, mas isso não vem ao caso.
É preciso salvar as crianças. Não as que morrem da guerra e da fome. As que tomam vacinas e as que vão à escola para serem endoutrinadas. Qualquer dia estão todas a ir às mesmas casas de banho. E já se sabe que é assim que se dá a pedofilia. Sim, em casa usam todas as mesmas casas de banho e os jornais estão cheios de notícias de pais, tios e avôs abusadores. E às vezes até um ou outro eleito. Mas isso são coisas que escrevem para nos distrair dos perigos verdadeiros. Tudo jornalixo feito por vendidos do sistema.
Temos de deitar abaixo o sistema. E é por isso que contamos com o apoio dos mais ricos dos mais ricos, que entretanto garantem que ficam ainda mais ricos. É claro que eles estão também contra o sistema. Sim, eles têm dinheiro e poder quase infinito. Mas estão contra os que andam a mamar. Sim, eles acumulam milhões em contratos públicos, subsídios e benefícios fiscais, mas é porque merecem. Só são ricos porque se esforçaram. Podem ter herdado, mas não esbanjaram tudo como aqueles que recebem apoios sociais e passam a tarde a beber minis no café. Podem ser pouco mais de 200 euros, mas é um roubo. Roubam-nos a nós que nos esfalfamos a trabalhar para pagar impostos. Sim, os mais ricos não pagam impostos quase nenhuns, mas é porque são espertos.
É preciso é ser esperto. Somos contra os tachos. Mas se um dos eleitos é apanhado a roubar ou nomear a namorada, a tia e a sobrinha é porque os outros também o fazem. Eles são todos iguais. Escolhemos os eleitos porque estamos fartos de que sejam iguais. Mas aceitamos que sejam iguais, porque essa é a ordem natural das coisas. Já vos disse que a ordem é muito importante?
A ordem é a base de tudo. Mas primeiro é preciso criar a desordem. É preciso que não se saiba no que acreditar, que tudo pareça precário, incerto e inseguro. As ovelhas com medo são as que mais facilmente seguem o pastor. E é tudo pelo nosso bem. Já vos disse que o eleito foi escolhido por Deus.
Deus, Pátria e Família. Deus, porque é preciso haver quem mande. E a quem temer. Sem medo, isto é tudo uma bandalheira. Pátria, porque é preciso fingir que há uma coisa maior que une os mais poderosos dos poderosos aos miseráveis que os seguem alegremente. É preciso ter inimigos e as fronteiras são boas para isso. Há os de cá e os de lá. O que é que interessa que haja uns poucos no topo e milhões espezinhados na base? E a família, claro. Porque é a família que tem de nos cuidar quando precisamos. Não há cá direitos garantidos. Querem ajuda? Peçam à família. E na família manda o pai, claro, ele próprio um eleito à sua pequena escala, com livre passe para descarregar na mulher e nos filhos a frustração acumulada, que isto um homem não é de ferro. E se tudo continua mal, ao menos há futebol e pimba, que já ninguém liga ao fado e Fátima é coisa para mulheres se entreterem e perceberem o seu lugar.
Toda a gente tem um lugar. Há os que são de cá e os que são de fora. Há os que estão em cima e os que estão em baixo. O quê? Isso parece o sistema? Que conversa de comunas! Caladinhos. Vão ver como as coisas lhes mordem quando houver uma limpeza. Acabam-se os disparates, que a conversa do “isto agora não se pode dizer nada” é só quando nos convém. Perdão. Quando convém à ordem. Somos contra o sistema, mas queremos manter tudo como estava desde os tempos do Adão e da Eva. Já vos disse que a ordem é muito importante?

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