segunda-feira, 20 de julho de 2026
Perdoa, Rei
Meu personagem da semana se chama Edson Arantes do Nascimento.
Na última semana inúmeras heresias foram cometidas contra Edson Arantes. Seu manto real foi profanado, seu nome foi pronunciado em vão, seu trono foi vilipendiado, sua soberania foi questionada.
Perdoa, Rei, porque eles não sabem o que fazem.
Houve hereges brasileiros capazes de ironizar seus vídeos em redes sociais. Para estes podemos oferecer a danação eterna, um chute do Roberto Carlos na região indefesa, quem sabe milho ocasional para o joelho arrependido.
Estudar história é necessário. Houve um, apenas um, que aos 17 anos deu chapéu, matou no peito e fez gol em final de Copa do Mundo. Houve apenas um que ganhou três Copas do Mundo como jogador.
Entendam os amigos argentinos: Messi compete com Maradona – e não sabemos se ganha. Pelé está em outro planeta. Em outra galáxia. Em outra dimensão.
Pelé nunca perdeu uma final da Copa, muito menos duas. Maradona, diga-se, perdeu só uma. Pelé nunca viu seu time ser engolido em final de Copa. Aliás, nas duas finais que disputou, o Brasil ganhou de goleada. Na primeira, o jovem Edson fez o citado gol de almanaque. Na segunda, deu aula de futebol e fez gol mais uma vez. Sua camisa 10 de 1970 deveria estar na entrada da FIFA como uma espécie de santo sudário futebolístico.
Maradona ganhou um título sozinho em 1986. Levou a Argentina nas costas até a final de 1990 – mais ou menos como Messi fez agora. Aquela final em Roma, porém, foi vagamente equilibrada. A partida que vimos ontem em Nova York foi um massacre.
Poucas vezes se viu, numa final de Mundial, domínio tão impressionante. A Argentina só foi finalizar na prorrogação. Parecia um daqueles jogos de Estadual – em que o time grande fica com a bola e o pequeno joga com raça tentando arrumar o gol milagroso num contra-ataque que nunca vem.
Quando o gol espanhol saiu, os argentinos tentaram tirar o improvável coelho da cartola. Messi enfim apareceu no jogo – fazendo duas, três jogadinhas na ponta direita... batendo escanteios perigosos. Houve brio. E pouco mais.
Por um instante me lembrei da musiquinha que ecoou pelos estádios brasileiros em 2014:
- Mil gols, mil gols... só Pelé... só Pelé... Maradona cheirador!
Messi sequer aparecia na canção. Aquela derrota e outras duas em Copa América quase tiraram Messi da seleção argentina. A volta por cima em 2022 foi linda – por mais que ele já não fosse o SuperMessi do Barcelona. Ele já tinha se tornado um Messi estratégico, especialista em encontrar as brechas impossíveis, derivando em campo como um fantasma.
Em 2026, Messi foi ainda mais esse pós-Messi que, não nos enganemos, continua craque, mas longe daquele Messi capaz de destruir qualquer partida a qualquer momento. A vitória em 2022 e essa improvável final alucinaram especialistas e parte da imprensa mundial – que resolveram elegê-lo como o melhor jogador de todos os tempos.
O massacre espanhol talvez desidrate esse descalabro. Messi deve se considerar abençoado pela mera existência da discussão. Mas seu debate é outro – e com outro argentino. Até porque Messi não fez em nenhuma de suas seis Copas o que Maradona fez em 1986. Ou que Garrincha fez em 1962 - para falar de outro gênio.
Então, celebremos o craque infinito, seu currículo, sua história e tudo aquilo que Messi ofereceu ao futebol. Foi um prazer apreciá-lo em campo e é uma pena que não tenhamos mais Copas com ele. Mas não perturbemos o sono real. Deixemos que Edson Arantes descanse em paz na inviolável eternidade de seu trono.
Na última semana inúmeras heresias foram cometidas contra Edson Arantes. Seu manto real foi profanado, seu nome foi pronunciado em vão, seu trono foi vilipendiado, sua soberania foi questionada.
Perdoa, Rei, porque eles não sabem o que fazem.
Houve hereges brasileiros capazes de ironizar seus vídeos em redes sociais. Para estes podemos oferecer a danação eterna, um chute do Roberto Carlos na região indefesa, quem sabe milho ocasional para o joelho arrependido.
Estudar história é necessário. Houve um, apenas um, que aos 17 anos deu chapéu, matou no peito e fez gol em final de Copa do Mundo. Houve apenas um que ganhou três Copas do Mundo como jogador.
Entendam os amigos argentinos: Messi compete com Maradona – e não sabemos se ganha. Pelé está em outro planeta. Em outra galáxia. Em outra dimensão.
Pelé nunca perdeu uma final da Copa, muito menos duas. Maradona, diga-se, perdeu só uma. Pelé nunca viu seu time ser engolido em final de Copa. Aliás, nas duas finais que disputou, o Brasil ganhou de goleada. Na primeira, o jovem Edson fez o citado gol de almanaque. Na segunda, deu aula de futebol e fez gol mais uma vez. Sua camisa 10 de 1970 deveria estar na entrada da FIFA como uma espécie de santo sudário futebolístico.
Maradona ganhou um título sozinho em 1986. Levou a Argentina nas costas até a final de 1990 – mais ou menos como Messi fez agora. Aquela final em Roma, porém, foi vagamente equilibrada. A partida que vimos ontem em Nova York foi um massacre.
Poucas vezes se viu, numa final de Mundial, domínio tão impressionante. A Argentina só foi finalizar na prorrogação. Parecia um daqueles jogos de Estadual – em que o time grande fica com a bola e o pequeno joga com raça tentando arrumar o gol milagroso num contra-ataque que nunca vem.
Quando o gol espanhol saiu, os argentinos tentaram tirar o improvável coelho da cartola. Messi enfim apareceu no jogo – fazendo duas, três jogadinhas na ponta direita... batendo escanteios perigosos. Houve brio. E pouco mais.
Por um instante me lembrei da musiquinha que ecoou pelos estádios brasileiros em 2014:
- Mil gols, mil gols... só Pelé... só Pelé... Maradona cheirador!
Messi sequer aparecia na canção. Aquela derrota e outras duas em Copa América quase tiraram Messi da seleção argentina. A volta por cima em 2022 foi linda – por mais que ele já não fosse o SuperMessi do Barcelona. Ele já tinha se tornado um Messi estratégico, especialista em encontrar as brechas impossíveis, derivando em campo como um fantasma.
Em 2026, Messi foi ainda mais esse pós-Messi que, não nos enganemos, continua craque, mas longe daquele Messi capaz de destruir qualquer partida a qualquer momento. A vitória em 2022 e essa improvável final alucinaram especialistas e parte da imprensa mundial – que resolveram elegê-lo como o melhor jogador de todos os tempos.
O massacre espanhol talvez desidrate esse descalabro. Messi deve se considerar abençoado pela mera existência da discussão. Mas seu debate é outro – e com outro argentino. Até porque Messi não fez em nenhuma de suas seis Copas o que Maradona fez em 1986. Ou que Garrincha fez em 1962 - para falar de outro gênio.
Então, celebremos o craque infinito, seu currículo, sua história e tudo aquilo que Messi ofereceu ao futebol. Foi um prazer apreciá-lo em campo e é uma pena que não tenhamos mais Copas com ele. Mas não perturbemos o sono real. Deixemos que Edson Arantes descanse em paz na inviolável eternidade de seu trono.
Mundo de pastelão
O mundo está assim, uniformizado, massificado. E a uniformidade é o fim. As cadeias de lojas e o urbanismo também. É uma arquitetura do desastre, da repetição, dos caixotes com vidro fumê que eu critico tanto nos meus romances.
É a massificação do capitalismo, o fim das aristocracias todas, das elites pensantes. Não estou lamentando isso, só estou constatando, porque também não sou nostálgico de nada disso. Acho que é uma crise mesmo, é para onde caminha o capitalismo tentacular, tudo vai se parecer, todas as cidades vão ser mais ou menos iguais,
É a massificação do capitalismo, o fim das aristocracias todas, das elites pensantes. Não estou lamentando isso, só estou constatando, porque também não sou nostálgico de nada disso. Acho que é uma crise mesmo, é para onde caminha o capitalismo tentacular, tudo vai se parecer, todas as cidades vão ser mais ou menos iguais,
Trump quer o Brasil
Donald Trump quer, sim, as terras raras do Brasil. Quer regalias para as suas bigtechs e seu etanol, quer o fim do Pix, cujo pecado é ser gratuito. Mas a nova taxação de 25% a produtos brasileiros não se limita a quereres pontuais. Trump quer o Brasil. Quer porque quer esta terra rebelde que não se curvou à sua “química”, insistindo em impedir que ele se torne dono das Américas, plano que imaginava próximo.
Primeiro, Trump jogou com os vizinhos México e Canadá, os dois maiores exportadores e importadores de produtos norteamericanos. A grita interna foi tamanha que ele refluiu parcialmente nas tarifas mexicanas e abandonou a ideia inescrupulosa de transformar o Canadá em 51º estado. Mas mantém ambos sob constante ameaça.
Com algum êxito, avançou na América Central, obrigando a revisão de contratos com chineses na operação do Canal do Panamá, que, para Trump, deveria pertencer aos Estados Unidos. Esmagou a indigesta Cuba, pobre e incapaz de provocar qualquer dano.
Sob alegação nunca comprovada de combater o tráfico de drogas, bombardeou embarcações no Mar do Caribe, operação encerrada logo depois da bem sucedida incursão na Venezuela. Prendeu Nicolás Maduro e domesticou a vice Delcy Rodrigues. Seis meses depois, Trump se vangloria de sorver o petróleo, cujo lucro os venezuelanos não viram.
No Sul, nem foi necessário muito trabalho. Bastaram algumas migalhas aqui e ali em prol de postulantes de direita ou de franco-atiradores para garantir apoio consistente de nada menos de oito dos 12 países da região. Restaram à esquerda apenas o pequeno e desenvolvido Uruguai, a Guiana e o Suriname. E o Brasil – esse estraga prazeres.
Sem o Brasil, décima economia do mundo, que, sozinho, responde por 47,5% do PIB da parte Sul, não há como Trump dominar as Américas.
Depois do desacerto da primeira rodada de tarifas e sanções impostas no ano passado com o claro objetivo de tentar reverter a condenação do ex Jair Bolsonaro, Trump imaginou que avançaria suas garras no Brasil adulando o presidente Lula. Fez caras e bocas, elogios, ofereceu almoço na Casa Branca, paparicou.
Paralelamente, as equipes de negociação dos dois lados não conseguiam avançar. Não por falta de empenho ou de competência dos brasileiros. Mas porque as hipóteses de acordo, desde sempre, eram de mentirinha. O que Trump buscava era a submissão.
Como bobos da corte, o deputado cassado Eduardo, autoexilado no Texas, chegou a comemorar sanções contra o Brasil, e, mais recentemente, defender que o Pix operasse como o sistema americano Zelle, similar, mas sem gratuidade. Seu irmão Flávio, pré-candidato à Presidência pelo PL, foi ainda mais patético ao sugerir não a suspensão, mas o adiamento do tarifaço para depois das eleições, porque sua imposição agora beneficiaria Lula. Fez isso oficialmente por escrito, e presencialmente na audiência pública do Escritório do Representante do Comércio dos Estados Unidos (USTR).
Agora, Flávio faz malabarismos para se desvencilhar da encrenca. Ele e os seus tentam jogar em Lula a culpa por não haver acordo, o qual os Estados Unidos de Trump, e não o Brasil de Lula, nunca desejou. Isso está estampado com todas as letras em um documento divulgado pelo jornalista Jamil Chade com absurdas exigências de submissão do Brasil, que, se sabia de antemão, eram inaceitáveis.
Mesmo se tratando de Trump, que adora desanunciar no dia seguinte o que anunciou no anterior, dificilmente haverá mudança de rota no tarifaço aos produtos brasileiros. Politicamente, será custoso para ele: lança o Brasil na corrida para outros mercados, ampliando a dependência do país à China, seu maior rival; e dá mais vigor à campanha de Lula, até mesmo junto a parcela significativa do empresariado que torce o nariz para o petista.
Não será a primeira vez que Trump ajuda o lado contrário. Aconteceu no Canadá e na Hungria. De alguma forma também no Brasil de Bolsonaro, quando ambos atacaram as vacinas e defenderam com unhas e dentes o uso da cloroquina para tratar a Covid-19. Safo, Trump se vacinou em segredo, mas entupiu o Brasil com dois milhões de doses do remédio ineficaz. O descaso com a Covid, a postura antivacina e a crença em medicamentos milagrosos contribuíram seriamente para a derrota de Bolsonaro em 2022.
Isso foi no primeiro mandato de Trump, quando sua megalomania chegava, no máximo, a patacoadas como a dita ao então presidente Michel Temer, sugerindo que ele invadisse a Venezuela.
Hoje, Trump parece mais tresloucado. Mas ele tem método. E quer porque quer o Brasil, a pedra que ele não consegue tirar do sapato e que o impede de conquistar as Américas.
Primeiro, Trump jogou com os vizinhos México e Canadá, os dois maiores exportadores e importadores de produtos norteamericanos. A grita interna foi tamanha que ele refluiu parcialmente nas tarifas mexicanas e abandonou a ideia inescrupulosa de transformar o Canadá em 51º estado. Mas mantém ambos sob constante ameaça.
Com algum êxito, avançou na América Central, obrigando a revisão de contratos com chineses na operação do Canal do Panamá, que, para Trump, deveria pertencer aos Estados Unidos. Esmagou a indigesta Cuba, pobre e incapaz de provocar qualquer dano.
Sob alegação nunca comprovada de combater o tráfico de drogas, bombardeou embarcações no Mar do Caribe, operação encerrada logo depois da bem sucedida incursão na Venezuela. Prendeu Nicolás Maduro e domesticou a vice Delcy Rodrigues. Seis meses depois, Trump se vangloria de sorver o petróleo, cujo lucro os venezuelanos não viram.
No Sul, nem foi necessário muito trabalho. Bastaram algumas migalhas aqui e ali em prol de postulantes de direita ou de franco-atiradores para garantir apoio consistente de nada menos de oito dos 12 países da região. Restaram à esquerda apenas o pequeno e desenvolvido Uruguai, a Guiana e o Suriname. E o Brasil – esse estraga prazeres.
Sem o Brasil, décima economia do mundo, que, sozinho, responde por 47,5% do PIB da parte Sul, não há como Trump dominar as Américas.
Depois do desacerto da primeira rodada de tarifas e sanções impostas no ano passado com o claro objetivo de tentar reverter a condenação do ex Jair Bolsonaro, Trump imaginou que avançaria suas garras no Brasil adulando o presidente Lula. Fez caras e bocas, elogios, ofereceu almoço na Casa Branca, paparicou.
Paralelamente, as equipes de negociação dos dois lados não conseguiam avançar. Não por falta de empenho ou de competência dos brasileiros. Mas porque as hipóteses de acordo, desde sempre, eram de mentirinha. O que Trump buscava era a submissão.
Como bobos da corte, o deputado cassado Eduardo, autoexilado no Texas, chegou a comemorar sanções contra o Brasil, e, mais recentemente, defender que o Pix operasse como o sistema americano Zelle, similar, mas sem gratuidade. Seu irmão Flávio, pré-candidato à Presidência pelo PL, foi ainda mais patético ao sugerir não a suspensão, mas o adiamento do tarifaço para depois das eleições, porque sua imposição agora beneficiaria Lula. Fez isso oficialmente por escrito, e presencialmente na audiência pública do Escritório do Representante do Comércio dos Estados Unidos (USTR).
Agora, Flávio faz malabarismos para se desvencilhar da encrenca. Ele e os seus tentam jogar em Lula a culpa por não haver acordo, o qual os Estados Unidos de Trump, e não o Brasil de Lula, nunca desejou. Isso está estampado com todas as letras em um documento divulgado pelo jornalista Jamil Chade com absurdas exigências de submissão do Brasil, que, se sabia de antemão, eram inaceitáveis.
Mesmo se tratando de Trump, que adora desanunciar no dia seguinte o que anunciou no anterior, dificilmente haverá mudança de rota no tarifaço aos produtos brasileiros. Politicamente, será custoso para ele: lança o Brasil na corrida para outros mercados, ampliando a dependência do país à China, seu maior rival; e dá mais vigor à campanha de Lula, até mesmo junto a parcela significativa do empresariado que torce o nariz para o petista.
Não será a primeira vez que Trump ajuda o lado contrário. Aconteceu no Canadá e na Hungria. De alguma forma também no Brasil de Bolsonaro, quando ambos atacaram as vacinas e defenderam com unhas e dentes o uso da cloroquina para tratar a Covid-19. Safo, Trump se vacinou em segredo, mas entupiu o Brasil com dois milhões de doses do remédio ineficaz. O descaso com a Covid, a postura antivacina e a crença em medicamentos milagrosos contribuíram seriamente para a derrota de Bolsonaro em 2022.
Isso foi no primeiro mandato de Trump, quando sua megalomania chegava, no máximo, a patacoadas como a dita ao então presidente Michel Temer, sugerindo que ele invadisse a Venezuela.
Hoje, Trump parece mais tresloucado. Mas ele tem método. E quer porque quer o Brasil, a pedra que ele não consegue tirar do sapato e que o impede de conquistar as Américas.
Polícia não pode ser responsável por tudo
Imagine uma ocorrência de embriaguez e desordem em um sábado à noite. A polícia chega para conter a confusão e encontra uma mulher agredida, crianças vivendo em um ambiente de violência e uma família abandonada pelo poder público. Quando a ocorrência termina e todos chegam à delegacia, aparece uma das grandes distorções do nosso sistema. O homem que provocou a violência passa a responder também como vítima, alegando lesão corporal, invasão de domicílio ou prisão ilegal. A mulher e os filhos, que precisavam da intervenção do Estado para interromper o ciclo de violência, tornam-se testemunhas. E o policial chamado para proteger a família passa a ocupar o banco dos réus. Não discuto a responsabilização de abusos policiais quando eles existem. O que essa situação revela é outra coisa: a ausência das demais políticas públicas empurra a polícia para resolver, sozinha, problemas que nunca foram só policiais.
Essa cena ajuda a entender por que o debate sobre segurança pública no Brasil costuma começar no lugar errado. Transformamos problemas de saúde, assistência social, álcool e drogas, educação, urbanismo e proteção à infância em ocorrências policiais. Depois, discutimos apenas a atuação da polícia, enquanto as causas da violência permanecem praticamente intocadas.
Durante décadas criamos falsas escolhas, como se o país tivesse de optar entre mais polícia ou mais políticas sociais. Também se difundiu a ideia de que endurecer penas, prender mais pessoas ou reduzir a maioridade penal bastaria para conter a violência. O Brasil já possui uma das maiores populações prisionais do mundo e continua convivendo com índices elevados de criminalidade. Se o encarceramento resolvesse o problema, nossa realidade seria
O próprio sistema penitenciário, marcado por superlotação, condições degradantes e baixa capacidade de recuperação, acabou fortalecendo as facções criminosas. Organizações que nasceram nos presídios encontraram ali as condições para se estruturar, recrutar integrantes e se expandir pelo país.
Também é uma injustiça com os profissionais da segurança. O Estado permanece anos ausente de um território. Faltam escolas, saúde, cultura, esporte, oportunidades de trabalho, urbanização e atendimento às famílias. Depois retorna apenas por meio da polícia e espera que ela resolva, sozinha, problemas acumulados por décadas. Nenhuma profissão conseguiria cumprir essa missão.
Foi sobre esse tema que conversei recentemente com Rodrigo Pimentel no podcast Papo de Elite. Nossas trajetórias são diferentes e continuamos divergindo em vários pontos, o que tornou o diálogo mais rico. Não se tratava de convencer um ao outro, mas de colocar experiências distintas em diálogo. Quem conhece o território enxerga aspectos que nem sempre aparecem nos relatórios. Quem vive a segurança pública revela desafios pouco visíveis para quem está fora dela.
Segurança não pode continuar como responsabilidade quase exclusiva das polícias. Ela depende da articulação entre educação, saúde, assistência social, desenvolvimento econômico, urbanismo, cultura, esporte e um sistema penitenciário capaz de recuperar pessoas, em vez de fortalecer organizações criminosas. Recuperar territórios exige recuperar a presença do Estado por inteiro. Enquanto insistirmos em cobrar da polícia respostas para problemas produzidos pela ausência das demais políticas públicas, continuaremos administrando consequências quando deveríamos enfrentar as causas.
Essa cena ajuda a entender por que o debate sobre segurança pública no Brasil costuma começar no lugar errado. Transformamos problemas de saúde, assistência social, álcool e drogas, educação, urbanismo e proteção à infância em ocorrências policiais. Depois, discutimos apenas a atuação da polícia, enquanto as causas da violência permanecem praticamente intocadas.
Durante décadas criamos falsas escolhas, como se o país tivesse de optar entre mais polícia ou mais políticas sociais. Também se difundiu a ideia de que endurecer penas, prender mais pessoas ou reduzir a maioridade penal bastaria para conter a violência. O Brasil já possui uma das maiores populações prisionais do mundo e continua convivendo com índices elevados de criminalidade. Se o encarceramento resolvesse o problema, nossa realidade seria
O próprio sistema penitenciário, marcado por superlotação, condições degradantes e baixa capacidade de recuperação, acabou fortalecendo as facções criminosas. Organizações que nasceram nos presídios encontraram ali as condições para se estruturar, recrutar integrantes e se expandir pelo país.
Também é uma injustiça com os profissionais da segurança. O Estado permanece anos ausente de um território. Faltam escolas, saúde, cultura, esporte, oportunidades de trabalho, urbanização e atendimento às famílias. Depois retorna apenas por meio da polícia e espera que ela resolva, sozinha, problemas acumulados por décadas. Nenhuma profissão conseguiria cumprir essa missão.
Foi sobre esse tema que conversei recentemente com Rodrigo Pimentel no podcast Papo de Elite. Nossas trajetórias são diferentes e continuamos divergindo em vários pontos, o que tornou o diálogo mais rico. Não se tratava de convencer um ao outro, mas de colocar experiências distintas em diálogo. Quem conhece o território enxerga aspectos que nem sempre aparecem nos relatórios. Quem vive a segurança pública revela desafios pouco visíveis para quem está fora dela.
Segurança não pode continuar como responsabilidade quase exclusiva das polícias. Ela depende da articulação entre educação, saúde, assistência social, desenvolvimento econômico, urbanismo, cultura, esporte e um sistema penitenciário capaz de recuperar pessoas, em vez de fortalecer organizações criminosas. Recuperar territórios exige recuperar a presença do Estado por inteiro. Enquanto insistirmos em cobrar da polícia respostas para problemas produzidos pela ausência das demais políticas públicas, continuaremos administrando consequências quando deveríamos enfrentar as causas.
A escravidão do êxtase
Ando há uns dias a pensar em escalar. Quero escalar o Mont Blank. O K2. O Shishapangma. Sim, quero. Li agora mesmo que registam as taxas de mortalidade mais altas do mundo. É lá que os alpinistas morrem e há em mim algo que precisa de morte.
Posso ficar-me pela crista do Shishapangma, sim, apesar de ser apenas a décima quarta montanha mais elevada do mundo. Eu morreria a trepar o muro da casa da minha avó e a descer o escorrega vermelho do parque infantil a trezentos metros do meu apartamento. Nunca escalei e o meu cu não caberia naquele escorrega elegante. Mas, seguindo com a escalada, confesso-vos que ando a pensar em subir montanhas por causa de algo que não sabia que tinha nome, mas descobri esta semana: adaptação hedónica.
Ora, estas duas palavras, juntas, basicamente querem dizer que o humano sabe adaptar-se a tudo, por isso, aquilo que é êxtase num momento, logo deixa de o ser. É como fazer sexo sempre com o mesmo parceiro. No fundo, precisamos de novo parceiro, desculpem, novo êxtase, e assim sucessivamente até andarmos de gatas e língua no chão, quem sabe a lamber mijo de rato.
Trata-se de uma espécie de “Ambrósio, apetece-me algo”, só que mais complexo, porque agora apetece-nos algo a toda a hora, e bem mais bizarro que um bombom com picos. Apetece-nos algo ao ponto de não nos apetecer quase nada pela fadiga que é apetecer-nos quase tudo, e tudo extenuantemente excêntrico.
E o que é excentricidade ou sentir êxtase? Por exemplo, pode passar por comprar um peido engarrafado da Stephanie Matto no Only Fans ou virar um eremita que se maquilha para milhares de seguidores no Instagram, no mato grosso da imbecilidade da sua solidão, para falar de livros que nunca leu.
E quem sabe esta seja a maior tragédia da contemporaneidade: a adaptação hedónica, ou como dizia o visionário Santo Agostinho, “o desejo não tem descanso”.
Eu, por exemplo, estou tão cheia de êxtases que começaram a sair pelas bordas. Mas, porque também estou cheia de buracos, dei por mim vazia-vazia-vazia. Sem gota. Então, sim, o Shishapangma é perfeito. Depois, também é preciso morrer com estilo para ter alguma dignidade na posteridade do post, porque é preciso chamar a atenção no scroll. E Shishapangma é nome exótico. Já estou a ver a minha lápide. Que pintarola! Já agora, que cor fica bem a um morto? Convém saber o que vestir.
Mas esperem, ou ide, que eu não saio daqui tão cedo. Estou agora para aqui a pensar se o meu desejo de escalada e o tamanho do meu cu não terão vindo do streaming. Terá sido isso? De querer o êxtase de outros? Gostei tanto de ver aquele filme… Como se chamava? Apex! Sim! A magra da Charlize Theron, linda, a esfolar os joelhos na pedra… Oh!, mas eu queria era o papel do Taron Egerton, o de predador canibal.
Pensando melhor, não, não estou certa se ando com vontades de morrer ou antes de matar. Preciso sentir-me perigosa. Quero! Não fazer mal a ninguém dá má reputação. Quem sabe não compre uma arma de plástico, e faça aqueles guinchinhos do Taron num reel. Quem sabe… quem sabe… foda-se!
Tenho de aprender a sair do sofá onde me deitei estafada de êxtases.
Oh!, o que eu gostava dos tempos em que jogar à bisca, bastava. O que eu gostava do Tito, o espinhoso. Onde andam os espinhosos? Os feios. As velhas. As gordas. Os que não visitaram o mundo em fast forward e não mandam mensagens feitas pelo ChatGPT enquanto incham o bíceps e tiram um doutoramento em engenharia aeroespacial, remotamente.
Agora mesmo, vejo uma aparição: José Tolentino Mendonça no meu telemóvel, dizendo: “Os computadores não choram”. José, eu tenho a certeza que não, verti as lágrimas todas e nenhuma veio do ecrã.
Quando é que esta escravidão por nós armada acaba?
Posso ficar-me pela crista do Shishapangma, sim, apesar de ser apenas a décima quarta montanha mais elevada do mundo. Eu morreria a trepar o muro da casa da minha avó e a descer o escorrega vermelho do parque infantil a trezentos metros do meu apartamento. Nunca escalei e o meu cu não caberia naquele escorrega elegante. Mas, seguindo com a escalada, confesso-vos que ando a pensar em subir montanhas por causa de algo que não sabia que tinha nome, mas descobri esta semana: adaptação hedónica.
Ora, estas duas palavras, juntas, basicamente querem dizer que o humano sabe adaptar-se a tudo, por isso, aquilo que é êxtase num momento, logo deixa de o ser. É como fazer sexo sempre com o mesmo parceiro. No fundo, precisamos de novo parceiro, desculpem, novo êxtase, e assim sucessivamente até andarmos de gatas e língua no chão, quem sabe a lamber mijo de rato.
Trata-se de uma espécie de “Ambrósio, apetece-me algo”, só que mais complexo, porque agora apetece-nos algo a toda a hora, e bem mais bizarro que um bombom com picos. Apetece-nos algo ao ponto de não nos apetecer quase nada pela fadiga que é apetecer-nos quase tudo, e tudo extenuantemente excêntrico.
E o que é excentricidade ou sentir êxtase? Por exemplo, pode passar por comprar um peido engarrafado da Stephanie Matto no Only Fans ou virar um eremita que se maquilha para milhares de seguidores no Instagram, no mato grosso da imbecilidade da sua solidão, para falar de livros que nunca leu.
E quem sabe esta seja a maior tragédia da contemporaneidade: a adaptação hedónica, ou como dizia o visionário Santo Agostinho, “o desejo não tem descanso”.
Eu, por exemplo, estou tão cheia de êxtases que começaram a sair pelas bordas. Mas, porque também estou cheia de buracos, dei por mim vazia-vazia-vazia. Sem gota. Então, sim, o Shishapangma é perfeito. Depois, também é preciso morrer com estilo para ter alguma dignidade na posteridade do post, porque é preciso chamar a atenção no scroll. E Shishapangma é nome exótico. Já estou a ver a minha lápide. Que pintarola! Já agora, que cor fica bem a um morto? Convém saber o que vestir.
Mas esperem, ou ide, que eu não saio daqui tão cedo. Estou agora para aqui a pensar se o meu desejo de escalada e o tamanho do meu cu não terão vindo do streaming. Terá sido isso? De querer o êxtase de outros? Gostei tanto de ver aquele filme… Como se chamava? Apex! Sim! A magra da Charlize Theron, linda, a esfolar os joelhos na pedra… Oh!, mas eu queria era o papel do Taron Egerton, o de predador canibal.
Pensando melhor, não, não estou certa se ando com vontades de morrer ou antes de matar. Preciso sentir-me perigosa. Quero! Não fazer mal a ninguém dá má reputação. Quem sabe não compre uma arma de plástico, e faça aqueles guinchinhos do Taron num reel. Quem sabe… quem sabe… foda-se!
Tenho de aprender a sair do sofá onde me deitei estafada de êxtases.
Oh!, o que eu gostava dos tempos em que jogar à bisca, bastava. O que eu gostava do Tito, o espinhoso. Onde andam os espinhosos? Os feios. As velhas. As gordas. Os que não visitaram o mundo em fast forward e não mandam mensagens feitas pelo ChatGPT enquanto incham o bíceps e tiram um doutoramento em engenharia aeroespacial, remotamente.
Agora mesmo, vejo uma aparição: José Tolentino Mendonça no meu telemóvel, dizendo: “Os computadores não choram”. José, eu tenho a certeza que não, verti as lágrimas todas e nenhuma veio do ecrã.
Quando é que esta escravidão por nós armada acaba?
O vento sopra para Lula e um vídeo assombra a candidatura de Flávio
Embora só tenha confessado a poucos amigos, Lula acha que poderá se eleger no primeiro turno e trabalha intensamente para isso. Seria algo inédito em sua história e um fecho de ouro para sua biografia.
Na primeira eleição presidencial que disputou, em 1989, acabou sendo derrotado no segundo turno por Fernando Collor de Mello, hoje condenado por corrupção e em prisão domiciliar em Maceió. Na segunda (1994) e na terceira (1998), perdeu para Fernando Henrique Cardoso em turno único. Das vezes em que se elegeu (2002, 2006 e 2022), o sucesso só veio no segundo turno.
A velha guarda do PT não acredita que Lula se elegerá no primeiro turno. A nova guarda e os aliados de ocasião acreditam que sim. Em um eventual segundo turno, contudo, a direita deverá se unir contra ele.
Na eleição passada, Lula escolheu Jair Bolsonaro como adversário, desprezando os outros. Feliz de quem pode escolher seu oponente preferencial e acerta ao fazê-lo, embora, por pouco, Bolsonaro não tenha se elegido.
Ninguém mais do que Lula torce para que a candidatura de Flávio vá até o fim e sem definhar, a ponto de ser ultrapassada por qualquer uma das outras que, por ora, não a ameaçam e apenas patinam. Lula respirou aliviado quando Jair, no Natal de 2025, anunciou em carta que Flávio o substituiria como candidato e herdeiro de seus votos. Enfrentar Tarcísio de Freitas seria mais difícil.
Enfrentar Michelle, a ex-primeira-dama, também seria. Mas Jair, além de abertamente misógino, não confia nela. Confiáveis são os filhos. Flávio é o “Zero Um”, daí sua preferência por ele. De resto, Eduardo, o “Zero Três”, migrara para os Estados Unidos a pretexto de convencer Donald Trump a tentar salvar seu pai da condenação. Já para Carlos, o “Zero Dois”, a política não é sua praia.
No modo de Lula ver as coisas, os ventos sopram a seu favor. Em São Paulo, Fernando Haddad poderá superar o desempenho que teve há quatro anos como candidato ao governo estadual. No Rio de Janeiro, com a ajuda de Eduardo Paes — líder de todas as pesquisas de intenção de voto até aqui para governador —, Lula considera que poderá bater Flávio com razoável folga.
Em Minas Gerais, o terceiro maior colégio eleitoral do país, será Lula quem empurrará para o alto Patrus Ananias, seu ex-ministro, e não o contrário. Ali, a montagem do palanque de Flávio segue complicada.
Quanto a participar de debates no rádio e na televisão com os demais candidatos, Lula ainda não decidiu. Todos irão para cima dele. No primeiro turno da eleição de 2006, por exemplo, ele não foi a nenhum. Talvez vá ao da Rede Bandeirantes de Televisão, marcado para 16 de agosto, por ser o primeiro. E certamente irá ao último, no dia 1º de outubro, promovido pela Rede Globo, que detém a maior audiência.
Por fim, está para vir à luz a qualquer momento um vídeo que causará sérios embaraços para a candidatura de Flávio. Se dependesse de Lula, a gravação não surgiria tão cedo.
Na primeira eleição presidencial que disputou, em 1989, acabou sendo derrotado no segundo turno por Fernando Collor de Mello, hoje condenado por corrupção e em prisão domiciliar em Maceió. Na segunda (1994) e na terceira (1998), perdeu para Fernando Henrique Cardoso em turno único. Das vezes em que se elegeu (2002, 2006 e 2022), o sucesso só veio no segundo turno.
A velha guarda do PT não acredita que Lula se elegerá no primeiro turno. A nova guarda e os aliados de ocasião acreditam que sim. Em um eventual segundo turno, contudo, a direita deverá se unir contra ele.
Na eleição passada, Lula escolheu Jair Bolsonaro como adversário, desprezando os outros. Feliz de quem pode escolher seu oponente preferencial e acerta ao fazê-lo, embora, por pouco, Bolsonaro não tenha se elegido.
Ninguém mais do que Lula torce para que a candidatura de Flávio vá até o fim e sem definhar, a ponto de ser ultrapassada por qualquer uma das outras que, por ora, não a ameaçam e apenas patinam. Lula respirou aliviado quando Jair, no Natal de 2025, anunciou em carta que Flávio o substituiria como candidato e herdeiro de seus votos. Enfrentar Tarcísio de Freitas seria mais difícil.
Enfrentar Michelle, a ex-primeira-dama, também seria. Mas Jair, além de abertamente misógino, não confia nela. Confiáveis são os filhos. Flávio é o “Zero Um”, daí sua preferência por ele. De resto, Eduardo, o “Zero Três”, migrara para os Estados Unidos a pretexto de convencer Donald Trump a tentar salvar seu pai da condenação. Já para Carlos, o “Zero Dois”, a política não é sua praia.
No modo de Lula ver as coisas, os ventos sopram a seu favor. Em São Paulo, Fernando Haddad poderá superar o desempenho que teve há quatro anos como candidato ao governo estadual. No Rio de Janeiro, com a ajuda de Eduardo Paes — líder de todas as pesquisas de intenção de voto até aqui para governador —, Lula considera que poderá bater Flávio com razoável folga.
Em Minas Gerais, o terceiro maior colégio eleitoral do país, será Lula quem empurrará para o alto Patrus Ananias, seu ex-ministro, e não o contrário. Ali, a montagem do palanque de Flávio segue complicada.
Quanto a participar de debates no rádio e na televisão com os demais candidatos, Lula ainda não decidiu. Todos irão para cima dele. No primeiro turno da eleição de 2006, por exemplo, ele não foi a nenhum. Talvez vá ao da Rede Bandeirantes de Televisão, marcado para 16 de agosto, por ser o primeiro. E certamente irá ao último, no dia 1º de outubro, promovido pela Rede Globo, que detém a maior audiência.
Por fim, está para vir à luz a qualquer momento um vídeo que causará sérios embaraços para a candidatura de Flávio. Se dependesse de Lula, a gravação não surgiria tão cedo.
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