sábado, 27 de junho de 2026

Pensamento do Dia

 



O homem apagado

Não era apenas um objeto. O homem largado sobre a cadeira de rodas era um ser humano. Repleto de sonhos, de frustrações. Quem sabe de amores perdidos ao longo da vida? Talvez por ser uma pessoa em situação de rua, o homem foi apagado aos olhos dos outros. Morreu dentro da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Recanto das Emas, em circunstâncias que estão sendo apuradas. De repente, o homem deixou este mundo. Parou de respirar. O corpo, inerte sobre a cadeira de rodas, somente foi percebido tempos depois por uma mulher, enfermeira, que estava na sala de espera com o marido. Mas era tarde demais.


O homem apagado estava sem sinais vitais. Virou número, estatística, dado que provavelmente será usado para evitar novos apagamentos em unidades de saúde. No dia seguinte, ganhou identidade pelas autoridades: Vilmar da Silva, 49 anos. Antes de morrer, contou a um grupo de religiosos que não se alimentava havia 15 dias. Acredita-se que estivesse ali para se proteger do frio e para aliviar a sede. Dessa vez, parece ter sido ignorado. Até partir.

Outros homens, mulheres e crianças apagados cobram o preço de sua mera existência mundo afora. Os palestinos sofrem apagamento quase diariamente. Bombardeios israelenses arrastaram para a morte dezenas de milhares de moradores da Faixa de Gaza. E o mundo se cala, parece acostumado à política de matança. Dia desses me deparei no Instagram com a história de um palestino assassinado em ataque aéreo enquanto buscava os convites de seu casamento. Quase diariamente, nós, jornalistas, recebemos fotos das agências de notícias em que pais e mães da Palestina se desesperam e se debruçam sobre os corpos dos filhos envoltos em mortalha. Assim como Vilmar, que morreu sobre uma cadeira de rodas na UPA de Recanto das Emas, retiraram-lhes o direito de viver.

Mas não é preciso ir tão longe para ver homens anulados pela sociedade. Muitos de nós estamos presos ao individualismo, ao egoísmo, à busca do enriquecimento e da prosperidade. Nós nos preocupamos tanto conosco e não olhamos para o próximo, para o lado. Quantos filhos abandonam seus pais em asilos e os apagam da própria história? Tantas vezes, quando o fazem, levam meses ou anos sem uma visita. O idoso alimenta aquela esperança, irreal, a cada fim de semana. Do outro lado, muitos encontram silêncio, desprezo e esquecimento em vida. Também quantos pais ignoram a existência de seus filhos e não lhes oferecem o mínimo suporte afetivo e financeiro? Destroem a saúde psicológica de quem deveriam amar.

Perto de nós existem outros como Vilmar. Pessoas com nome e CPF, mas lançadas à margem da sociedade. Estão nos semáforos, nas portas dos supermercados, sob as pontes e os viadutos, lançados na sarjeta. Dependem unicamente da empatia alheia, que quase sempre inexiste. Quando o Estado lhes dá atenção, normalmente é para sepultá-las.

Intervenção assumida

Observamos seu otimismo em relação às próximas eleições de outubro e sua generosa oferta de colocar uma equipe de transição à nossa disposição caso o senhor seja eleito.

Marco Rubio, Secretário de Estado dos Estados Unidos 

Livro XI


I
. Devo considerar o meu vínculo com os homens e que fomos feitos uns para os outros. Sob outra perspectiva, fui concebido para pastorar, como um carneiro que chefia o rebanho ou um touro que conduz a manada. Devo examinar a questão a partir das primeiras convicções: caso não existam somente átomos, a natureza ordena tudo. Assim sendo, as coisas inferiores existem para o benefício das superiores, e essas para o bem umas das outras.

II. Devo avaliar quais tipos de homens são na mesa, na cama e assim por diante. Particularmente, a quais compulsões estão sujeitos devido às suas opiniões e o quanto se orgulham das suas ações.

III. Caso os homens façam o que é certo, não devemos nos descontentar. Caso não, agem por falta de consciência e por ignorância. Nenhuma alma é voluntariamente privada da verdade ou tolhida da aptidão para lidar com os homens conforme seus méritos. Esse é o motivo de se chatearem quando são chamados de injustos, ingratos e gananciosos e, em especial, malfeitores dentre seus vizinhos.

IV. Também erro e sou um homem como qualquer outro. Embora não incorra em certas falhas, ainda estou inclinado a cometê-las — mesmo que a covardia, o apego à reputação ou outras motivações vis me previnam de falhar.

V. Nem sequer sei se os homens estão agindo errado ou não, porque muitas ações são realizadas proporcionalmente às circunstâncias. Um homem precisa saber muito para ser capaz de julgar corretamente as ações do outro.

VI.Caso esteja aborrecido ou aflito, devo ponderar: a vida do homem é um breve instante e logo estaremos todos mortos.

VII. O que nos perturba não são os atos dos homens — pois esses se fundamentam nas suas faculdades hegemônicas —, mas sim nossas próprias opiniões acerca dos atos. Portanto, remova a sua opinião. Pare de julgar um ato como doloroso e sua dor cessará.

“Como, então, remover essas opiniões?”

Basta reconhecer que nenhum ato errôneo sofrido por você é vergonhoso. Afinal de contas, se o que é vergonhoso fosse apenas mau, você cometeria muitos erros, seria um ladrão e tudo mais.

VIII. A dor é causada mais pela cólera e pelo aborrecimento em resposta aos atos do que  pelos atos em si.

IX. Uma boa disposição é invencível quando é genuína—quando o sorriso não é falso ou fingido. Não há nada que o homem mais violento possa fazer caso você continue tratando-o gentilmente, admoestando-o e calmamente corrigindo-o quando tentar prejudicá-lo. Diga a ele: “Não é assim, meu filho. Fomos constituídos por natureza para outro propósito. Você prejudica não a mim, mas a você mesmo.” Mostre-o, com tato e recorrendo a convicções abrangentes, que nem as abelhas nem quaisquer animais gregários agem como ele. Você deve se dirigir a ele de modo afetuoso, sem sarcasmo ou reprimenda e sem guardar rancor na sua alma. Você deve admoestá-lo não como se fosse um professor ou como se pretendesse impressionar espectadores, mas sim como se ele estivesse sozinho — ainda que outros estejam presentes.

Receba essas nove regras como se fossem dádivas das nove Musas.

Comece, enquanto ainda vive, a ser um homem. Evite, na mesma medida, tagarelar e se aborrecer com os outros, porque ambos são comportamentos antissociais e danosos. Quando encolerizado, retenha esta verdade: ser movido pela paixão não é viril. A brandura e a gentileza, por estarem mais em consonância com a natureza humana, são mais viris. Quem possui essas duas qualidades demonstra força, nervos e coragem, diferente do homem sujeito ao ímpeto da paixão e do descontentamento. Ao passo que se liberta das paixões, o homem se fortalece. A raiva é uma característica da fraqueza tanto quanto o sofrimento. Quem cede à ira está tão ferido e rendido quanto quem cede à dor.

Por fim, caso queira, receba uma décima dádiva do líder das Musas:

X. Esperar que homens maus não façam o mal é insanidade, pois significa expectar o impossível. Permitir que se comportem dessa maneira com o outro mas não com você é irracional e tirânico.
Marco Aurélio, "Meditações"

Por que ainda as chamamos de redes sociais?

Certa vez, tive um professor no ensino médio famoso por suas aulas intermináveis. Entre bocejos, ele repetia um aviso que, na época, parecia óbvio: “Nunca se esqueçam de que o que acontece na televisão é ficção, não realidade”. Anos depois, vendo o que as redes sociais se tornaram , esse aviso ressoa com uma relevância inesperada.

O termo “rede social” tornou-se comum em meados dos anos 2000, coincidindo com a ascensão de plataformas como Facebook, Twitter e YouTube. Durante seus primeiros anos, a expressão descrevia com bastante precisão o que acontecia ali: espaços digitais onde as pessoas compartilhavam conteúdo, mantinham contato com amigos e familiares e reconstruíam relacionamentos enfraquecidos pelo tempo ou pela distância. O que importava não era apenas o conteúdo, mas a conexão que ele fomentava: comentar uma foto, responder a uma publicação. Essa dimensão relacional alimentou uma ilusão coletiva sobre o potencial dessas plataformas para fortalecer a solidariedade e democratizar a comunicação.

No entanto, as mesmas plataformas que facilitavam a conexão tornaram-se amplificadoras de desinformação, assédio e polarização, enquanto a lógica da viralização recompensa conteúdo extremo ou falso. Mas, além desses problemas amplamente documentados, ocorreu uma transformação mais profunda e menos visível: uma mudança na forma como as pessoas usam as redes sociais. Dados da Pesquisa Global de Consumidores sobre o Uso de Redes Sociais mostram que cada vez mais usuários priorizam o consumo de conteúdo em detrimento da interação. Além disso, a natureza desse conteúdo mudou. As postagens que dominam os feeds não são mais, em sua maioria, espontâneas, mas sim peças cuidadosamente elaboradas com uma intenção clara: capturar a atenção.


Essa evolução decorre de um modelo econômico específico. O ativista Cory Doctorow o descreve da seguinte forma: uma vez que as plataformas conquistam a fidelidade do público oferecendo serviços gratuitos, elas gradualmente priorizam outros interesses, orientando o ambiente primeiro para os anunciantes e depois para a maximização do lucro, mesmo que isso prejudique a experiência do usuário. Nesse processo, a sociabilidade, a força motriz inicial dessas redes, torna-se um recurso explorável: as interações deixam de ser o objetivo final e passam a ser o meio para capturar e manter a atenção, o bem mais disputado no ecossistema midiático atual.

O resultado é um ambiente onde a visibilidade é profundamente hierárquica. Um pequeno grupo de criadores comanda a atenção , enquanto a maioria adota um papel passivo: não se trata mais tanto de conversar com outras pessoas, mas sim de seguir aqueles que estão constantemente produzindo. O que emerge não é uma rede social no sentido original, mas algo mais próximo de um sistema de relações unilaterais. Esse tipo de conexão, em que uma das partes conhece (ou pelo menos acredita conhecer) a outra sem qualquer interação real, é chamado de parassocial. Não é um fenômeno novo: já existia entre o público e as celebridades da televisão ou do rádio. A diferença é que agora se tornou a forma dominante de interação em plataformas que ainda chamamos de sociais.

Nada disso significa que a ficção seja inerentemente negativa; ela pode ser uma fonte de entretenimento e aprendizado. O problema surge quando ela substitui os laços que envolvem reciprocidade e presença mútua. Uma coisa é acompanhar a vida de alguém através de uma tela , e outra bem diferente é fazer parte de uma rede de relacionamentos que pode nos apoiar quando precisamos. A primeira entretém; a segunda constrói o tecido social. Hoje, grande parte do tempo gasto nas redes sociais é dedicada à primeira, ativamente reforçada por algoritmos que priorizam conteúdo que maximiza o tempo gasto online. Como resultado, aqueles que ainda valorizam uma conexão mais autêntica estão se refugiando em espaços mais limitados: grupos de mensagens privadas, comunidades fechadas e ambientes baseados em assinatura, onde a confiança importa mais do que a escala.

Vale, portanto, retornar à questão inicial. Se o que acontece nesses espaços se assemelha cada vez mais a um sistema de consumo de conteúdo do que a uma rede de relacionamentos, ainda faz sentido chamá-los de “redes sociais”? Nomear não é um ato trivial. As palavras que usamos para descrever a realidade condicionam a nossa compreensão dela . Continuar falando em redes sociais pode nos fazer esquecer a transformação pela qual essas plataformas passaram e dificultar a reflexão crítica sobre o seu funcionamento atual. Se a sua natureza mudou, também devem mudar as categorias que usamos para pensar e analisá-las. Não se trata apenas de terminologia: trata-se de reconhecer que o que domina esses espaços hoje não é precisamente a conexão entre iguais.

Aquele professor nos disse para não confundirmos a tela da televisão com a realidade. Hoje, quando a tela cabe no bolso e a levamos para todo lugar, seu aviso já não soa óbvio. Soa urgente.
Marta Fraile

Um país que só existe hoje e até a esquina

Faça um teste com qualquer pessoa das que lhe prestam serviços, em sua casa, no seu prédio ou na rua. Pergunte-lhe se sabe o que aconteceu no Brasil em 1964. Ou sobre qual veio primeiro, se a Segunda Guerra ou a Guerra do Paraguai. Ou em que ano foi proclamada a República, 1822 ou 1889. Não quero antecipar nada, mas temo que as respostas não sejam muito animadoras. Converso com muita gente, de todas as classes e categorias, e sinto nelas um distanciamento crescente entre as premências da vida real e um conhecimento básico do país. É como se, para elas, o Brasil só existisse hoje e até a esquina.


Todos recebemos com satisfação os dados do recente levantamento do IBGE, que registrou a queda do analfabetismo para, pela primeira vez, abaixo de 5% da população. É uma vitória –há cerca de 100 anos, a taxa era de monstruosos 80%. Um fator fundamental para a escalada da alfabetização foi a transferência da população rural para as cidades nas décadas de 1960 e 1970. Mais da metade dos 4,9% atuais que não sabem ler nem escrever tem acima de 60 anos, o que confere com o dado anterior. São os brasileiros que ficaram para trás, e os governos não foram até a eles para alfabetizá-los.

Mas, para mim, o chocante são os 29% da população entre 15 e 60 anos, hoje, que sabem identificar as palavras e os números, mas não conseguem entender textos pouco além da cartilha nem multiplicar 3 vezes 9 ou dividir 12 por 4. Chama-se a isso analfabetismo funcional e atinge até quem está nas faculdades. Pode-se aceitar que 12% dos atuais matriculados no ensino superior sejam analfabetos funcionais? Serão esses os nossos profissionais do futuro?

Dos 16 anos que se exigem de alguém para se educar (nove no ensino fundamental, três no médio e quatro no superior), o brasileiro passa só dez anos na escola. O americano, 14. Sim, temos bolhas de alta realização –sempre as tivemos. Só que todos os países também as têm e, na média, mais do que nós.

Mas chega de pessimismo. Neste momento, há um livro vendendo aos milhões no país: o álbum de figurinhas da Copa.

Ameaças que pairam sobre nós

No dia 3 de janeiro deste ano, Nicolás Maduro e sua esposa foram sequestrados pelas Forças Armadas dos Estados Unidos, em uma ação militar espetacular que quebrou todas as resistências e retirou de seu país o presidente da Venezuela, sem nenhuma baixa norte-americana.

No dia 15 de janeiro, Lula convocou uma reunião emergencial com os chefes das Forças Armadas e perguntou se temos como nos defender de uma ação similar no Brasil. A resposta é frágil, e volta à tona a falta de investimentos em modernização e armamento.

A questão da defesa do país já se colocava em razão dos atritos com os Estados Unidos ocorridos em 2025. Em 3 de novembro de 2025, depois da aprovação do PL pelo Senado, a Câmara dos Deputados aprovou o repasse de R$ 30 bilhões para reaparelhar e modernizar Exército, Marinha e Aeronáutica. Dinheiro extra, fora das regras do arcabouço fiscal.

A Marinha encomendou oito fragatas da classe Tamandaré, equipadas para guerra antiaérea, antissubmarino e de superfície, e reforçou seu programa do submarino nuclear. A Aeronáutica impulsiona a construção no Brasil dos caças Gripen, comprados da Suécia e com uma linha de montagem no Brasil. O Exército impulsiona a fabricação de carros de combate blindados e sistemas de inteligência. Todas as Forças compram munições e encomendam drones e mísseis. A indústria bélica brasileira ganha impulso.


Na avaliação do governo, há um risco crescente de conflitos militares com os Estados Unidos e os demais países que constituíram recentemente o Escudo das Américas, em uma reunião no dia 7 de março de 2026. Eles formam uma coalizão política e militar comandada pelos Estados Unidos, com a participação de outros 17 países latino-americanos. A Doutrina Donroe (“As Américas para os norte-americanos”) se propõe a combater toda forma de expressão de autonomia ou soberania nacional diante das imposições dos Estados Unidos.

Em 10 de março deste ano, o Congresso do Paraguai aprovou um acordo com os Estados Unidos que permite a presença de militares norte-americanos e de membros do Departamento de Defesa no país. O mesmo tratado permite a livre circulação de aeronaves, barcos e veículos operados pelo Departamento de Defesa. Fica acordado que os Estados Unidos terão uma base militar no país.

A Argentina fez acordo por cinco anos com a Quarta Frota do Comando Sul dos Estados Unidos para cooperação militar no patrulhamento do Atlântico Sul. Do acordo constam transferência de tecnologia, treinamento e interferência direta norte-americana contra eventuais “ameaças”. Em construção, uma base militar norte-americana na Patagônia argentina. No momento, a base militar de Ushuaia permite a presença de forças especiais navais norte-americanas, por força de um decreto administrativo do governo Milei.

No Equador, os Estados Unidos já atuam na luta contra o “terrorismo”.

Na região Norte, o Exército brasileiro já deslocou efetivos e reforçou sua presença na fronteira com a Venezuela, hoje um protetorado norte-americano. Além disso, seguindo a proposta da Política de Transformações (modernização e maior eficiência), o Exército determinou que 20% de seu efetivo esteja em elevado grau de prontidão para cenários de defesa e de resposta rápida, e designou cinco brigadas para essa condição – ao todo, são cerca de 25 mil soldados.6

Mesmo com todo esse esforço, nossa vulnerabilidade é enorme. E podemos ter problemas caso se efetive o pedido de Flavio Bolsonaro para que Trump classifique o PCC e o CV como organizações terroristas, uma vez que a legislação americana permite a intromissão em outros países para combater o terrorismo.

A realidade é que a América do Sul se militariza, e o que antes era um território de paz hoje se converte em um território de disputas no qual os Estados Unidos já praticam uma guerra híbrida, isto é, um conflito que combina táticas militares com ações não convencionais para derrotar um adversário sem necessidade de um confronto bélico. Combinam-se ações de manipulação de notícias e fake news, roubo de dados, ciberguerra, pressão econômica, financiamento das oposições, influência em processos eleitorais, lawfare (guerra jurídica). Mas o confronto bélico sempre está no horizonte, como forma de pressão.

Não tenhamos dúvidas de que o Brasil está sendo atacado. Trump não aceita nossa defesa da soberania, nosso esforço de defesa do multilateralismo para sair de sua dependência, nosso esforço de industrialização, nosso esforço de integração latino-americana e com o Brics.

Os Estados Unidos, associados às plataformas digitais, vão tentar interferir em nossas eleições, como já ameaçou Elon Musk, que teve sua empresa X suspensa temporariamente de operar no Brasil em 2024 por recusar-se a obedecer à legislação brasileira.

Também é preciso levar em conta que o bolsonarismo pede o apoio de Trump em sua campanha eleitoral, chegando a desfraldar a bandeira norte-americana em manifestações de rua. Parte do empresariado se coloca contra o governo petista e em apoio a Flavio Bolsonaro.

A disputa eleitoral será renhida, e do resultado depende a sobrevivência da democracia ou seu fim.

A diplomacia da vassalagem: Flávio Bolsonaro e a submissão aos EUA

Faltam exatos 99 dias para 4 de outubro de 2026, data em que será realizado o primeiro turno das eleições. E, justo neste momento, a política externa da extrema-direita brasileira, liderada por Flávio Bolsonaro, rende mais um capítulo vergonhoso de submissão aos interesses econômicos dos Estados Unidos.

Revelada por Paulo Figueiredo — neto do último ditador do Brasil, o general João Baptista de Oliveira Figueiredo, e assessor do ex-deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro —, uma carta de Marco Rubio, secretário do Departamento de Estado dos Estados Unidos, volta a deixar Flávio em maus lençóis. Nela, Rubio registra a “generosa oferta” que teria sido feita por Flávio para “colocar uma equipe de transição” à disposição do governo americano, caso este se eleja presidente da República.


Ocorre que, pela legislação brasileira, a equipe de transição funciona unicamente para facilitar a passagem do governo que sai para o governo que entra. Regulamentada em 2002 por decreto do então presidente Fernando Henrique Cardoso, a lei prevê a criação de até 50 cargos comissionados para recolher dados junto a órgãos da administração pública federal, com o objetivo de preparar os primeiros atos do futuro governo.

Flávio recebeu a carta de Rubio no último dia 23. No mesmo dia, enviou ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) um pedido para participar da audiência pública sobre as tarifas propostas pelo governo Donald Trump contra o Brasil, marcada para 6 de julho. O novo tarifaço foi anunciado dois dias depois da última reunião de Flávio com Trump na Casa Branca.

Tarifaço ou “Tariflávio”, tanto faz. Flávio jura que nada tem a ver com a imposição de tarifas a produtos brasileiros. Diz que só pediu a Trump para declarar como organizações terroristas, de acordo com a legislação americana, as facções criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC). Foi atendido de imediato.

Quando do primeiro tarifaço, em março do ano passado, Flávio o apoiou, assim como fizeram seu irmão Eduardo e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Além disso, quando Trump começou a bombardear barcos com drogas no Caribe, Flávio sugeriu que fizesse o mesmo com embarcações que navegam na Baía de Guanabara.

Cópias encardidas do pai, Flávio e Eduardo se comportam como vassalos de Trump. É o que de fato são.