terça-feira, 21 de julho de 2026

Grande Guerra

Podes-me roubar o pão!
A Fome, não.
A boca, sim: come, ou não come
Porém, como roubar a inextinguível Fome?

Inextinguível, porque pede
Um pão que nos excede:
Um pão que ninguém dá
Nem tirará.

Podes furtar-me todos os proveitos,
Expropriar-me , até, dos meus direitos!
Aos ventos darei eu meus gritos e canções,
E os ventos lhes farão mil edições.

Podes calar-me com mordaças,
Tu, que és mortal...e passas.
Passas, ao passo que o meu grito
Percute ao longo do Infinito...

Podes acorrentar-me às rochas das montanhas,
Pôr abutres roendo as entranhas!
Como das flores espalha o pólen,
O vento espalhará o sémen do Homem...

Podes cobrir-me o nome de impropérios;
Tu , que és o senhor dos impérios,
Negar ao pobre o seu só bem: a fama.
Não brilha o sol na própria lama?

Podes tirar-me paz, saúde , e a própria vida.
Ai pedra sepulcral assaz fendida!
que ao Cristo lhas tiraram.
Perderam-se e O ressuscitaram.

Podes, às minhas cinzas, recobri-las
De terra e pedras; difundi-las
Pelos desertos sem oásis!
Não sabes que é mortal tudo que fazes?

És sempre o mesmo, tu, cujas razões supremas
São mordaças, grilhões, vendas. algemas.
Mártir, rebelde, poeta, - também eu
Sou sempre o mesmo Um que não morreu.

Porquê? Porque ao morrer, dos céus,
Lhe diz o próprio Deus:
" Filho , vem até mim!
" A História principia onde eles põem : fim."

José Régio, "A Chaga do Lado "

O que que eu não sei (e gosto assim)

Tenho 34 anos de vida, dos quais, cerca de 20 anos, foram vividos junto das redes sociais. Essa maioridade deveria ser suficiente para que eu tivesse aprendido algumas coisas. Por exemplo, não ler comentários em páginas de notícias; ou até mesmo não ler comentários na publicação de um meme qualquer. Ler comentários nas redes sociais é mergulhar no pântano da estupidez humana, é o que eu já deveria saber. Na verdade, eu sei. Ainda assim, não consigo evitar.

Entre a Europa e o continente americano, entre Brasil e Portugal, já houve caminho suficiente, leitura suficiente, indignação suficiente, medo suficiente, para saber que não se deve ler comentários. Sobretudo quando a ultradireita, asquerosa e fascista (é preciso dar nome aos bois), galopa entre os dois continentes já há vários anos. E, ainda assim, eu leio.


Há alguns anos, enquanto fazia meu doutorado, costumava conversar com uma colega que estudava comentários de redes sociais no contexto da famigerada “ideologia de gênero” que explodiu no Brasil, com seus delírios de “mamadeira de piroca”, “kit-gay” e “boneca trans”. Ou seja, tenho até mesmo uma relativa proximidade com uma discussão científica sobre como essa exposição de comentários funciona, seus métodos, seus pânicos morais, suas falsas rebeldias, sua lógica de guerra, seus conflitos binários. E, ainda assim, eu leio.

Quando, no Instagram, vejo uma chamada para ler uma notícia sobre imigração no site do PÚBLICO, por exemplo, não consigo evitar de ler os comentários. E o meu sentimento, como imigrante, é sempre o mesmo: estou cercado de inimigos que querem a minha cabeça. É uma atração sádica pelo perigo. É uma sensação de inchaço emocional que apenas confirma algo que eu já sabia, ao mesmo tempo em que me deparo com a minha própria dificuldade em acreditar que alguns expressem, desavergonhadamente, tanta maldade, ignorância e preconceito.

Às vezes, penso: depois de todos estes anos, surpreender-se com estes comentários cruéis, para além da minha própria estupidez em lê-los, talvez não seja um sintoma de algo tão ruim assim. A ensaísta Susan Sontag uma vez escreveu que, diante do sofrimento dos outros exibido à exaustão em vídeos e fotografias que circulam pelo mundo, nos tornamos imunes ou indiferentes à dor alheia.

Este argumento de Sontag é útil para pensar a respeito de quando alguns de nós nos espantamos, longe da indiferença, com os comentários em redes sociais. Pois ainda conseguir espantar-se com a banalidade incalculável de tanta violência, boçalidade e intolerância indica a capacidade de ainda estranhar a desumanidade no outro – e, por consequência, a desumanidade em si mesmo.

Pois não se engane: a teatralidade de bom samaritano indignado é dispensável. O espanto deve transformar-se em consciência de cumplicidade ou responsabilidade política. Comecemos por nos perguntar: como nosso modo de vida, ou como nossas escolhas de governantes, estão ligados, direta ou indiretamente, à desavergonhada vontade de destruição de imigrantes, refugiados ou pessoas LGBT+ nas redes sociais?

Eu não quero mero entretenimento mórbido ou simples choques visuais ao ler comentários boçais. Por isso, além de manter, na maior parte do tempo, as redes sociais desinstaladas do meu telefone móvel, como imigrante e gay, eu preciso saber o que ainda não sei. Eu já sei que, aos olhos do atual Governo português e de parte da população portuguesa, a vida de imigrantes e refugiados não tem valor; que em vários países, como Brasil e Estados Unidos, pessoas LGBT+ são menosprezadas, quando não são ativamente odiadas e mortas. Já sei que, diante dos vídeos das guerras no Oriente Médio e na Europa, muitas pessoas, sobretudo brasileiros e brasileiras, fazem comentários como se estivessem acompanhando uma partida de futebol.

Se estou certo de todas essas coisas, o que sei, então, que já não sabia? Esta pergunta é uma paráfrase de uma escritora norte-americana que gosto muito, Eve Sedgwick, falecida nos anos 2000. Lembrei-me desta pergunta quando, semana passada, no miradouro São Pedro de Alcântara, vi o céu de Lisboa tingido de violeta na boca da noite, enquanto eu e meu namorado assistíamos a um tributo a António Variações. Estávamos longe das redes sociais.

Longe das redes sociais eu posso saber o que ainda não sabia. Não sabia que Pedro, o português da drogaria, com simpatia e paciência, me explicaria como faço para trocar a fechadura da porta da nossa sacada; que Lena, minha vizinha portuguesa, apareceria na porta da nossa casa com um prato de comida e um vaso de flores.

Quando cheguei a Lisboa, não sabia que Giulia, uma colega italiana, gentilmente me convidaria para tomar um café depois de perceber o meu nervosismo ao chegar em uma universidade, cheia de colegas portugueses, para trabalhar. Não sabia que Bruno, outro colega português, também abriria a porta para mim, antes mesmo de chegar a Lisboa. Dias atrás, não sabia que o funcionário português da Livraria da Travessa conhecia tão bem a literatura brasileira.

Longe dos comentários boçais das redes sociais, os quais não representam a totalidade do mundo, nada disso eu sabia. Há muitas outras pequenas coisas que eu ainda não sei; e gosto assim.

Os chineses encostaram nos americanos na corrida da IA

Na última sexta-feira, o líder chinês Xi Jinping discursou em uma conferência de IA, realizada em Xangai. Ao público, atacou indiretamente os Estados Unidos.

— O desenvolvimento da inteligência artificial não pode depender da performance solitária de um único país — afirmou.

Defendeu que as IAs sejam distribuídas livremente para todos. Gratuitas. Na quinta-feira, apenas um dia antes, uma empresa chinesa chamada Moonshot AI publicou o modelo Kimi K3. Em performance, encostou no GPT 5.6 Sol e está a um fio de distância do Claude Fable 5. Pois é. Custou uma fração do preço que os americanos pagam para treinar os seus.


Hoje, três quartos do poder de processamento voltado para inteligência artificial estão nas mãos dos Estados Unidos. A China, em segundo lugar, tem 14%. Em 2022, tinha quase 40%. Mudou muito, e mudou rápido, a partir do momento em que o governo americano proibiu a exportação de chips de primeira linha da Nvidia. São justamente esses os chips que os laboratórios americanos, como OpenAI (GPT) e Anthropic (Claude), usam. Os chineses trataram de se adaptar. A Moonshot treinou seu Kimi com chips menos capazes da mesma Nvidia. Outros laboratórios começaram a utilizar chips de IA produzidos pela Huawei. Não são equivalentes ao topo de linha. Ainda.

O Kimi K3 estar em terceiro no ranking das melhores IAs não quer dizer apenas que está na frente de Google (com seu Gemini), xAI (Grok) e outros tantos. Quer dizer, também, que é um modelo melhor do que o Claude Opus 4.8, que apenas dois meses atrás estava no topo do ranking. Os chineses estão chegando muito rápido a um nível máximo de competitividade e gastam bastante menos dinheiro para construir seus modelos.

Para isso, desenvolveram seus truques de treinamento. Um deles é a técnica MoE, sigla em inglês para “mistura de especialistas”. Em essência, quando o sistema vai processar uma quantidade colossal de textos para construir o modelo, a análise de cada pedaço de informação não é feita por todos os circuitos treinadores. Só aqueles específicos, que extrairão mais conhecimento, são empregados. Enquanto os americanos passam cada informação nova por um processo imenso, os chineses separam antes, são precisos com que parte do sistema lê que pedaço do volume de textos. Em essência, isso diminui a necessidade de poder computacional. Que, ora, é justamente o que lhes falta. A economia não é pequena, nem em uso de máquina, nem em dinheiro.

Kimi é muito mais barato de construir, mas a empresa escolheu posicioná-lo no mesmo preço dos concorrentes americanos. A assinatura mensal de entrada é US$ 19, tem dois níveis intermediários a US$ 39 e US$ 99 e, no topo, US$ 199. ChatGPT ou Claude saem por essencialmente o mesmo. Preço é posicionamento. Querem dizer ao mundo que são equivalentes — e são, mesmo. Para algumas funções específicas, como escrever o código de páginas web, os chineses estão em primeiro. E, ainda assim, há outra vantagem nada irrelevante. Nas próximas semanas, prometem lançar uma versão em pesos abertos. Para download. Quem quiser, baixa e instala. Não roda em computador pessoal, mas nuvem é fácil e barato de contratar. O presidente Xi não lançou a cartada da distribuição gratuita à toa.

A diferença é a seguinte: a China sabe que o mundo desconfia dela. IA só é útil a uma empresa se ela coloca todo o peso de seus dados internos mais secretos para estudo. Nessa hora, confia-se muito mais no contrato firmado com uma empresa americana do que uma chinesa. Há medo de pirataria. Mas isso muda por completo para quem baixa um modelo gratuitamente e instala num data center próprio. É preciso pagar a nuvem, não sai sem custo. Ainda assim, o ambiente pode ser totalmente controlado. Os dados corporativos estarão seguros.

Hoje, empresas como a alemã Siemens ou a americaníssima Airbnb já estão mergulhadas nas IAs chinesas. E chegamos a um ponto no qual OpenAI e Anthropic precisarão reavaliar suas estratégias. É perfeitamente possível que, até o fim do ano, alguma empresa chinesa apareça com um modelo que lidere o ranking. Nesse ritmo, o custo americano de treinar IAs se tornará inviável.

Os planos da Anthropic eram de tirar Claude Fable 5 da assinatura para pessoas físicas. Deixar só para empresas. Agora, durante o fim de semana, desistiram. Está lá para todo mundo que paga.