terça-feira, 21 de julho de 2026

Os chineses encostaram nos americanos na corrida da IA

Na última sexta-feira, o líder chinês Xi Jinping discursou em uma conferência de IA, realizada em Xangai. Ao público, atacou indiretamente os Estados Unidos.

— O desenvolvimento da inteligência artificial não pode depender da performance solitária de um único país — afirmou.

Defendeu que as IAs sejam distribuídas livremente para todos. Gratuitas. Na quinta-feira, apenas um dia antes, uma empresa chinesa chamada Moonshot AI publicou o modelo Kimi K3. Em performance, encostou no GPT 5.6 Sol e está a um fio de distância do Claude Fable 5. Pois é. Custou uma fração do preço que os americanos pagam para treinar os seus.


Hoje, três quartos do poder de processamento voltado para inteligência artificial estão nas mãos dos Estados Unidos. A China, em segundo lugar, tem 14%. Em 2022, tinha quase 40%. Mudou muito, e mudou rápido, a partir do momento em que o governo americano proibiu a exportação de chips de primeira linha da Nvidia. São justamente esses os chips que os laboratórios americanos, como OpenAI (GPT) e Anthropic (Claude), usam. Os chineses trataram de se adaptar. A Moonshot treinou seu Kimi com chips menos capazes da mesma Nvidia. Outros laboratórios começaram a utilizar chips de IA produzidos pela Huawei. Não são equivalentes ao topo de linha. Ainda.

O Kimi K3 estar em terceiro no ranking das melhores IAs não quer dizer apenas que está na frente de Google (com seu Gemini), xAI (Grok) e outros tantos. Quer dizer, também, que é um modelo melhor do que o Claude Opus 4.8, que apenas dois meses atrás estava no topo do ranking. Os chineses estão chegando muito rápido a um nível máximo de competitividade e gastam bastante menos dinheiro para construir seus modelos.

Para isso, desenvolveram seus truques de treinamento. Um deles é a técnica MoE, sigla em inglês para “mistura de especialistas”. Em essência, quando o sistema vai processar uma quantidade colossal de textos para construir o modelo, a análise de cada pedaço de informação não é feita por todos os circuitos treinadores. Só aqueles específicos, que extrairão mais conhecimento, são empregados. Enquanto os americanos passam cada informação nova por um processo imenso, os chineses separam antes, são precisos com que parte do sistema lê que pedaço do volume de textos. Em essência, isso diminui a necessidade de poder computacional. Que, ora, é justamente o que lhes falta. A economia não é pequena, nem em uso de máquina, nem em dinheiro.

Kimi é muito mais barato de construir, mas a empresa escolheu posicioná-lo no mesmo preço dos concorrentes americanos. A assinatura mensal de entrada é US$ 19, tem dois níveis intermediários a US$ 39 e US$ 99 e, no topo, US$ 199. ChatGPT ou Claude saem por essencialmente o mesmo. Preço é posicionamento. Querem dizer ao mundo que são equivalentes — e são, mesmo. Para algumas funções específicas, como escrever o código de páginas web, os chineses estão em primeiro. E, ainda assim, há outra vantagem nada irrelevante. Nas próximas semanas, prometem lançar uma versão em pesos abertos. Para download. Quem quiser, baixa e instala. Não roda em computador pessoal, mas nuvem é fácil e barato de contratar. O presidente Xi não lançou a cartada da distribuição gratuita à toa.

A diferença é a seguinte: a China sabe que o mundo desconfia dela. IA só é útil a uma empresa se ela coloca todo o peso de seus dados internos mais secretos para estudo. Nessa hora, confia-se muito mais no contrato firmado com uma empresa americana do que uma chinesa. Há medo de pirataria. Mas isso muda por completo para quem baixa um modelo gratuitamente e instala num data center próprio. É preciso pagar a nuvem, não sai sem custo. Ainda assim, o ambiente pode ser totalmente controlado. Os dados corporativos estarão seguros.

Hoje, empresas como a alemã Siemens ou a americaníssima Airbnb já estão mergulhadas nas IAs chinesas. E chegamos a um ponto no qual OpenAI e Anthropic precisarão reavaliar suas estratégias. É perfeitamente possível que, até o fim do ano, alguma empresa chinesa apareça com um modelo que lidere o ranking. Nesse ritmo, o custo americano de treinar IAs se tornará inviável.

Os planos da Anthropic eram de tirar Claude Fable 5 da assinatura para pessoas físicas. Deixar só para empresas. Agora, durante o fim de semana, desistiram. Está lá para todo mundo que paga.

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