quarta-feira, 22 de julho de 2026

Pensamento do Dia

 


A democracia da desconfiança

Há um erro de diagnóstico que se tornou quase consensual no debate público europeu: a convicção de que vivemos uma crise do regime democrático. A expressão repete-se com tanta frequência que raramente é questionada. Mas talvez o problema seja outro.

Portugal não assiste ao colapso das suas instituições democráticas. As eleições realizam-se regularmente, a alternância política permanece assegurada, os tribunais conservam a sua autonomia e as liberdades fundamentais continuam protegidas. O que se deteriora não é a democracia enquanto regime, mas a confiança na sua capacidade para interpretar uma sociedade em rápida transformação.


A distinção é decisiva. Uma democracia pode sobreviver a governos impopulares, parlamentos divididos ou sucessivas crises políticas. O que dificilmente resiste é ao enfraquecimento da convicção de que os representantes compreendem aqueles em nome de quem decidem. A legitimidade democrática nunca dependeu apenas do voto; sempre assentou na perceção de que existe uma relação de reconhecimento entre governantes e governados. É precisamente esse vínculo que hoje se fragiliza.

Durante demasiado tempo, atribuiu-se o crescimento da abstenção, da fragmentação partidária ou do populismo às crises económicas, aos escândalos de corrupção ou ao desgaste natural dos governos. Todos estes fatores contribuíram para o cenário atual, mas nenhum explica um fenómeno que atravessa democracias com desempenhos económicos muito distintos.

Os estudos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) mostram que o apoio à democracia continua elevado, ao mesmo tempo que diminui a confiança na capacidade dos governos para responder de forma eficaz, previsível e transparente. O Eurobarómetro identifica uma tendência semelhante. A crise não é da democracia; é da representação.

Durante grande parte do século XX, os partidos desempenharam uma função que hoje parece distante. Não eram apenas organizações eleitorais. Eram instituições de mediação. Organizavam interesses, agregavam identidades e davam coerência às expectativas da sociedade, convertendo reivindicações dispersas em projetos políticos reconhecíveis. A representação era um vínculo cívico antes de ser um mecanismo institucional.

Esse modelo foi progressivamente desfeito pela globalização, pela integração europeia e pela revolução digital. Os Estados perderam margem para controlar processos económicos decisivos, enquanto a política deixou de deter o monopólio da construção das narrativas públicas. Hoje disputa a atenção dos cidadãos com plataformas digitais, comentadores, influenciadores e algoritmos concebidos para privilegiar a emoção em detrimento da reflexão.

Daí nasce um dos grandes paradoxos do nosso tempo. Nunca foi tão fácil comunicar com os cidadãos; nunca foi tão difícil representá-los. A proximidade tecnológica criou a ilusão da proximidade política. Os responsáveis políticos tornaram-se mais acessíveis, mas não necessariamente mais credíveis. A exposição permanente não reforçou a confiança; tornou apenas mais evidentes os limites da ação política perante problemas cuja escala ultrapassa largamente as fronteiras nacionais.

O Reuters Institute tem demonstrado que a confiança na informação permanece sob pressão em grande parte da Europa. A dificuldade já não resulta da escassez de notícias, mas da crescente dificuldade em distinguir informação, opinião, propaganda e entretenimento. Quando desaparece um espaço comum de factos, torna-se igualmente mais difícil construir consensos duradouros. A quebra de confiança compromete, assim, não apenas a política, mas o próprio fundamento da democracia.

Seria, contudo, um erro atribuir esta transformação exclusivamente às redes sociais. Elas aceleraram um processo que começou muito antes. A questão decisiva reside no crescente desfasamento entre aquilo que os cidadãos esperam dos governos nacionais e aquilo que estes efetivamente conseguem concretizar.

Nunca se exigiu tanto da política quando ela dispõe de tão poucos instrumentos para moldar a realidade.

Os cidadãos continuam a esperar dos governos respostas para desafios que já não conhecem fronteiras. A habitação, a imigração, a produtividade, a transição energética, a inteligência artificial ou a competitividade económica dependem hoje de mercados globais, decisões europeias, inovação tecnológica e tensões geopolíticas que escapam, em larga medida, ao controlo de qualquer executivo.

Ainda assim, é sobre os governos nacionais que recai a responsabilidade política. É deste desencontro entre expectativas e capacidade de ação que nasce a desconfiança.

Portugal constitui um exemplo particularmente elucidativo. A sucessão de governos minoritários, crises parlamentares e eleições antecipadas costuma ser apresentada como a causa da instabilidade. É, sobretudo, a sua manifestação. A dificuldade está na crescente incapacidade de produzir reformas consistentes num ambiente dominado pela urgência permanente. Governar passou a significar responder ao ciclo noticioso quando os desafios estruturais exigem continuidade, previsibilidade e tempo político.

É neste vazio que prosperam os discursos populistas. A sua vantagem não reside necessariamente na qualidade das soluções, mas na clareza da narrativa. Enquanto a democracia liberal é obrigada a reconhecer limites, negociar compromissos e administrar complexidades, o populismo promete devolver uma soberania plena que nenhum governo contemporâneo possui. Simplifica problemas que não admitem soluções simples e transforma a frustração em mobilização política.

Seria, porém, insuficiente reduzir este fenómeno ao confronto entre democracia liberal e populismo. O desafio é mais profundo. Os eleitores continuam a preferir a democracia, mas começam a duvidar da sua aptidão para produzir mudanças percetíveis. Quando a alternância política deixa de produzir alterações reconhecíveis na vida das pessoas, instala-se uma sensação persistente de impotência que desgasta qualquer governo, independentemente da sua orientação ideológica.

É por isso que a confiança se tornou o ativo mais valioso — e também o mais escasso — das democracias europeias. Não se recupera através de campanhas de comunicação nem de estratégias de marketing político. Reconstrói-se pela coerência entre discurso e ação, pela estabilidade das regras, pela transparência das decisões e pela capacidade de explicar não apenas o que é possível fazer, mas também os limites impostos por um mundo em que o poder deixou de estar concentrado exclusivamente nos Estados.

As investigações do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e da Fundação Francisco Manuel dos Santos convergem precisamente neste ponto: a legitimidade democrática constrói-se diariamente. Depende da previsibilidade das instituições, da imparcialidade das regras, da igualdade perante a lei e da convicção de que o poder permanece sujeito ao escrutínio público. Quando essa perceção enfraquece, a confiança não desaparece de forma abrupta; dissolve-se lentamente, até que o cinismo substitui a participação e a suspeita ocupa o lugar da esperança.

Talvez seja este o maior desafio das democracias europeias. Não apenas defender as suas instituições, mas recuperar a capacidade de dar expressão a sociedades cada vez mais diversas, exigentes e fragmentadas. A democracia nunca prometeu eliminar o conflito. A sua força sempre residiu na capacidade de transformar divergências em compromissos reconhecidos como legítimos, mesmo por quem deles discorda.

O futuro da democracia dependerá menos da solidez formal das suas instituições do que da confiança que forem capazes de inspirar. As constituições protegem direitos, organizam poderes e estabelecem regras. Mas nenhuma Constituição consegue preservar, por si só, um regime cujos cidadãos deixaram de acreditar que alguém os compreende antes de decidir, lhes dá voz antes de governar e lhes oferece uma razão credível para continuarem a confiar.

Ato revolucionário

Em uma época em que os algoritmos nos aproximam apenas de quem pensa como nós e nos afastam de quem vive de maneira diferente, permanecer no mesmo espaço é quase um ato revolucionário.
Mariana Caminha

Fome por 'lama'

Uma cena do livro "As Tumbas de Atuan", de Ursula K. Le Guin, circulou online esta semana, na qual jovens famintas tentam convencer um mágico a usar seus poderes para conseguir comida para elas. “Eu posso invocar um coelho e ele virá”, diz ele. “Mas vocês seriam capazes de pegar, esfolar e assar um coelho invocado dessa maneira? Talvez se estivessem morrendo de fome. Mas acho que seria uma quebra de confiança.” As garotas não querem matar ninguém; elas só querem que ele conjure o jantar. O mágico poderia fazer isso, ele lhes diz. “Até mesmo servi-lo em pratos de ouro, se preferirem. Mas isso seria uma ilusão, e quando você se alimenta de ilusões, acaba com mais fome do que antes.”

A metáfora é tão apropriada que parece quase improvisada : os ingredientes sintéticos são concebidos para estimular as papilas gustativas, mas carecem de fibras, vitaminas, proteínas ou aminoácidos essenciais. Quanto mais se come, mais fome se sente. Essa insatisfação, que já deveria ser motivo suficiente para evitar o alimento, é, no entanto, o segredo do seu sucesso. Na década de 1990, um psicólogo chamado Patrick Carnes deu a esse estranho fenômeno um nome: vínculo traumático.


O vínculo traumático explica por que tantas pessoas permanecem presas em relacionamentos exploradores ou abusivos. É difícil de entender porque a explicação desafia o senso comum: elas não agem assim apesar do abuso, mas precisamente por causa dele. Elas retornam ao abusador repetidamente, como alguém que volta a uma máquina caça-níqueis que engole todas as suas moedas, na esperança de que desta vez sua lealdade seja recompensada com um momento de afeto. O aspecto perverso do sistema é que a máquina funciona melhor quando começa a distribuir menos prêmios, e os que distribui são cada vez piores, porque o processo degrada tanto os padrões da pessoa que, quando um alívio temporário chega, ela o recebe com a intensidade mística de uma aparição mariana. Elas transformam um gesto cotidiano, como lembrar um aniversário, em prova de um amor transcendente.

Em 2019, publiquei um livro que começava descrevendo o mesmo fenômeno, mas com foco nas redes sociais, não na IA . Naquela época, a máquina ainda distribuía prêmios. Havia algumas coisas muito interessantes que só existiam no Twitter, Instagram ou TikTok, mas o padrão de abuso já era evidente. Sabíamos que seus algoritmos opacos eram projetados para explorar a privacidade dos usuários, maximizando o tempo de interação. À medida que as plataformas se tornaram monetizadas, dois tipos de conteúdo floresceram: aqueles capazes de gerar o máximo de interação com o mínimo de orçamento e aqueles criados por agentes oportunistas para manipular a população.

A mediocridade é o resultado final desse processo: conteúdo curto, repetitivo, derivado e fragmentado, produzido em larga escala, otimizado para viralizar em questão de horas e, nos piores casos, explorar a instabilidade política e se aproveitar da nossa vulnerabilidade emocional. E isso corrói nossa capacidade de apreciar outras coisas que exigem investimento financeiro e esforço, como jornalismo ou literatura. Relacionamentos saudáveis são tediosos e demandam algo mais difícil do que submissão.

Como disse Jung, aquilo que permanece inconsciente tende a nos guiar, por isso vale a pena entender seu estranho mecanismo: não nos captura apesar de sua estupidez, mas precisamente por causa dela. Nos deixa tão famintos que nos força a comer mais. E essa dieta nos degrada até que não saibamos mais como comer outra coisa. É por isso que se chama degeneração cerebral.

Um presidente de mãos atadas governará o Brasil

Acabou a Copa do Mundo; agora, nosso tema comum é a eleição. É preciso afirmar algo tão inconveniente agora quanto foi dizer que, com aquele time, o Brasil não ia longe, apesar da fanfarra comercial do “rumo ao hexa”.

Depois de muito debate e emoção, o presidente que escolhermos chegará ao poder de mãos quase atadas. Ele simplesmente não terá dinheiro para executar suas promessas. A causa disso é muito simples: o Congresso sequestrou parte do Orçamento. Ele gasta cerca de R$ 61 bilhões por ano só em emendas parlamentares. Sobra pouco para o governo.

Orçamento é um tema muito chato. É uma quantidade abstrata de recursos, que a gente costuma pensar como o dinheiro do governo. No fundo, todos sabemos que governo não tem dinheiro, exceto o que recebe de todos nós. Já temos tanta dor de cabeça com as contas do nosso dia a dia. Por que se preocupar com o que gasta o governo?


Há coisas, no entanto, que precisam ser conhecidas. Nas democracias ocidentais, todo o dinheiro arrecadado com impostos é usado pelos governos eleitos. Deputados e senadores apenas fiscalizam.

No Brasil, o Congresso abocanhou uma grande parte desse dinheiro. O resultado é uma irracionalidade nos gastos. Cada deputado gasta de acordo com suas necessidades eleitorais. Há muita redundância e corrupção.

Os deputados queriam que esse dinheiro que gastam fosse secreto. Daí o surgimento do famoso orçamento secreto, que o STF combate até hoje. Dinheiro público precisa de transparência.

Apesar de muita interferência legal, ainda agora soubemos que R$ 1,3 bilhão foi destinado sem que se soubessem os autores. São emendas de comissão. As comissões são uma réplica dos ministérios: Comissão de Educação, Saúde, Transporte. Por que gastam dinheiro de uma forma diferente dos ministérios? Por que não racionalizar?

O Congresso não abre mão desse poder. O resultado não é só dispersão e irracionalidade. Há coisas do arco da velha, como dizíamos no passado. Foi descoberto agora que pessoas que não são deputados manipulam algumas verbas. Valdemar Costa Neto destinou R$ 119 milhões; Eduardo Cunha, R$ 6 milhões.

A expressão “não deputados” é muito vaga. Não se trata da vizinha aposentada ou de um arcebispo. Ambos não são deputados. Costa Neto e Cunha foram presos, em momentos diferentes, por corrupção.

Por aí, é possível ver a seriedade com que o Congresso trata o Orçamento sequestrado. É tão grande o problema que a PF só consegue investigar alguns casos, pois não tem capacidade de fiscalizar quase 600 pessoas distribuindo ou embolsando dinheiro pelo país. Há casos fantásticos de cidades em que quase todo mundo arrancou os dentes ou fraturou os dedos. O Tribunal de Contas da União chegou a investigar cem casos e encontrou irregularidades em 82 deles.

O país que terá um novo presidente terá de se resignar com a falta de dinheiro. Só nas eleições, os partidos vão gastar R$ 5 bilhões. Os argumentos afirmam que são gastos com a democracia. Na verdade, a parte do leão são gastos antidemocráticos.

Encarar essa realidade ou se resignar? Até o momento, apesar de os jornais noticiarem e a PF trabalhar, existe certa passividade em torno do sangramento contínuo do dinheiro público, isto é, sempre lembrando, do dinheiro do nosso bolso.

De que adianta apenas escolher um candidato a presidente, sem equacionar esse problema?