Fiquei a pensar na história do leão e da vaca. O normal é que os predadores matem as suas presas antes de as comerem. Mas este leão da montanha americano, por algum motivo, achou que já nem era preciso matar a vaca. Atirou-se sobre ela de garras lançadas e boca aberta e começou a desfazê-la enquanto ela ainda se debatia e mugia, aflita, produzindo sons lancinantes que fizeram as pessoas em redor vir em seu auxílio para lhe dar o golpe de misericórdia que o seu predador lhe tinha negado, mas também para matar o leão que tinha ficado demasiado à vontade.
O leão tinha-se esquecido das regras milenares que regem as cadeias alimentares. Sendo o mundo animal o reino da lei do mais forte, não deixa de haver algumas regras não escritas que todos cumprem: os que comem e os que são comidos. Começar a comer a vaca sem a matar foi a infração que valeu a morte do leão.
O meu amigo contou-me a história para ilustrar a forma como se perde em pormenores quando se entusiasma a falar, esquecendo-se até de que às vezes a audiência são filhos pequeninos que, por acaso, adoram leões e podem acabar em lágrimas à conta do relato apaixonado (mas insensível) do pai. Mas não foi isso que me fez ficar a pensar nesta história.
O que me fez ficar a pensar no leão e na vaca foi o que aconteceu poucas horas antes do jantar com este meu amigo em Lisboa. Os Estados Unidos da América decidiram montar uma operação para bombardear vários alvos (incluindo infraestruturas civis) em Caracas e sequestrar o Presidente da Venezuela e a sua mulher. Levados à força e feridos, foram exibidos numa carrinha com as portas abertas, enquanto circulavam por Nova Iorque, a cidade onde foram presentes a um juiz. Entretanto, Donald Trump dava uma conferência de imprensa desfazendo as esperanças de quem achou que este golpe podia abrir caminho a eleições livres ou ao regresso da líder da oposição ao país e assumindo abertamente aquilo que moveu esta operação: a vontade de controlar as reservas de petróleo venezuelanas, impedindo a Venezuela de vender o produto a países como a China ou a Rússia e, sobretudo, de o vender em qualquer divisa que não o dólar (um pormenor fundamental que garante aos EUA a possibilidade quase infinita de imprimir moeda para se financiar).
Donald Trump deixou claro que ele é que vai mandar na Venezuela e foi avisando que também precisa da Gronelândia (que faz parte da Dinamarca) e que, na verdade, todo o continente americano é o seu quintal. Trump começou a desfazer a vaca sem sequer se dar ao trabalho de a matar.
Essa ideia ficou ainda mais evidente quando, uns dias mais tarde, vi um vídeo no qual, perante uma plateia de congressistas republicanos, o Presidente dos EUA relatava uma conversa com o Presidente francês. Imitando a voz de Macron, Trump explicou como o vergou em minutos. “100% vai fazer o que eu quero. Vai fazer o que eu quero e vai gostar”, gabava-se de ter dito a Macron. O truque foi fácil: ameaçar com tarifas que tornariam impossivelmente caros produtos como o vinho, o queijo ou o champanhe francês no mercado americano. Para o evitar, Macron aceitou subir os preços dos medicamentos. Trump explica como usou exatamente a mesma fórmula para conseguir o que queria noutras partes do mundo. “Em média, demoraram três minutos e 22 segundos”, diz, alarve, o bully, consciente não só da sua força, mas da cobardia dos outros.
Enquanto na Europa os líderes europeus pareciam baratas desorientadas, pensei que esta situação não era muito diferente daquela em que a queda do Muro de Berlim apanhou alguns. O muro caiu. Este muro, feito de NATO e ONU e primado da lei e de convenções internacionais, ruiu. Estava cheio de brechas e foi ao chão. No meio dos cacos, a maioria dos líderes políticos não sabe o que fazer. Não entende sequer que o mundo mudou. Agarra-se às antigas alianças e finge que nada aconteceu. Resta saber até quando.
Esta semana, almocei com um político brasileiro que estava, ao contrário de muitos dos políticos portugueses, aterrado com a quebra de soberania na Venezuela. “Isto é terrível”, repetia, garantindo que o Brasil não espera nada da China, que “não tem em conta se não os seus próprios interesses”, e que os BRICS, na verdade, estão longe de ter uma unidade que os faça agir em comum. “Índia, China e Rússia não têm os mesmos interesses”, explicava-me enquanto me dizia que lhe parecia que restava ao seu país “navegar nesta conjuntura”. Mas sem qualquer dúvida de que a ideia de soberania na América Latina (tantas vezes ameaçada no passado) está agora por um fio.
No final do almoço, ele disse-me uma frase que me ficou a ecoar na cabeça. “No outro dia, estava falando com a minha mulher e ela me disse: ‘Essa ideia da social-democracia era muito confortável até os ricos ficarem loucos.’” Rimos muito com a blague. Mas talvez tenha sido um riso nervoso. Esta loucura não dá vontade de rir. Há uma oligarquia descontrolada que está a desmantelar a democracia e a impor como lei a pirataria e o terrorismo. E isso não é para rir.
Até porque não sabemos quem poderá vir matar o leão. Será que alguém se atreve?

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