Há, obviamente, versões mais baratas. Ares saturados de químicos, recolhidos junto a fábricas, poluídos e estafados, apanhados nos centros das grandes metrópoles, pestilentos e pesados, vindos diretamente das imediações de esgotos a céu aberto das mais sombrias favelas. Cada um paga o que pode. Mas todos pagam.
Há quem só respire de vez em quando, caindo zonzo no chão, de tanto suster a respiração. Há quem trabalhe horas extraordinárias para levar para casa mais um pouco de ar para a família. Há quem ande de mão estendida, mendigando pelo sopro de que precisa para se aguentar. Para os que são realmente miseráveis, inventou-se um sistema subsidiado pelo Estado, que entrega a conta-gotas ar de baixa qualidade. Mas as filas de espera são enormes. De cortar a respiração.
A iniciativa privada, que controla todo o negócio, incluindo a parte que vende aos serviços públicos, a preços inflacionados, também não se esquece dos que mais precisam. Por isso, há eventos de caridade, destinados a angariar fundos para quem não tem como pagar o ar que respira. E uma vez por ano organiza-se um grande sorteio para atribuir ar gratuito vitalício a quem comprar a senha vencedora. Há quem diga que esta lotaria tem levado muitos sonhadores à miséria, gastando o pouco que têm na esperança de serem premiados com ar, mas, como é claro, o problema é o vício do jogo que afeta os mais fracos.
Nos recreios, as discussões deixaram de acabar com a frase: “O ar é de todos.” Já não faz sentido. O ar é de quem pode pagá-lo. E essa é que é uma frase que não tem discussão, porque já ninguém se lembra dos tempos em que pagar para respirar era só uma piada arrevesada. Só os muito antigos têm uma vaga lembrança de que em tempos não era preciso comprar o ar. Mas já só de ouvir contar. E a maioria aposta que a história é uma lenda, daquelas que se contam às crianças, ou talvez o delírio de uma utopia esquecida do passado.
Só os historiadores sabem que tudo começou quando se percebeu que toda a água tinha de ser cobrada. Não só a que saía das torneiras, pura e cristalina, mas também a que jorrava dos céus em dias de tempestade, a que corria por rios e riachos e, claro, a que estava nos lagos, mares e oceanos. Era o que fazia sentido. Era o que era sensato. Que desvario isso de pensar que uma coisa tão valiosa podia só existir sem ser comercializada! Se não pagamos algo, como podemos dar-lhe valor?
Foi assim que começou a combater-se o desperdício. Claro que muitos morreram à sede e milhares foram explorados para ter o que beber. Mas foi o progresso a acontecer. E se milhões caíram numa endividada miséria para ter o que beber e o que respirar, é preciso que se diga que isso os impediu de cair numa indolência acomodada, fê-los sair da sua zona de conforto e permitiu estimular o empreendedorismo. Além disso, floresceram as fortunas antigas, já donas de terrenos onde corriam cursos de água, e capazes de investir nas tecnologias inventadas para garantir a monetização deste recurso.
Isso aumentou a desigualdade? Sem dúvida. Mas esse é o efeito colateral do progresso. Pelo menos, é isso que acham os ricos herdeiros, sentados em cima do seu mérito, vivendo das rendas do ar e da água.
Um dia, houve alguém que encontrou um livro poeirento, esquecido numa velha biblioteca abandonada, que falava de Direitos Humanos e coisas que tinham de ser garantidas a todos. Foi preciso encontrar grandes especialistas para decifrar aquela mensagem bizarra e antiquada, na qual se falava – entre outras excentricidades esdrúxulas – da habitação como um direito. “Como assim?”, perguntou-se quem leu sobre este escrito antigo nas notícias. “O que é um direito?”, questionaram-se alguns, antes de passar à frente para ver os resultados do campeonato de futebol.
Felizmente, ninguém levou a sério aquelas patacoadas, sobreviventes em páginas amarelecidas, escritas num tempo em que uns tolos sonhadores, desconhecedores das maravilhas do pragmatismo realista dos nossos dias, ousaram pensar que podiam existir coisas dadas a quem nada fez para as merecer sem que elas fizessem parte de uma herança. Eram ideias loucas, insensatas. E, por isso, ficaram guardadas no mais recôndito e escuro depósito de um museu, acessíveis apenas a especialistas devidamente habilitados a lidar com tais pensamentos subversivos sem ficarem por eles contaminados.
Agora, falta perceber como é que se pode cobrar pela luz do dia ou pelo céu nas noites estreladas ou nas (obviamente) mais caras noites de lua-cheia. Os cientistas já estão a estudá-lo. E chegarão certamente à melhor fórmula para garantir que nada se desperdiçará. Nada ficará por explorar. E, sobretudo, que ninguém ouse pensar que tem direito a alguma coisa só por existir (a menos, claro, que se trate de alguma coisa herdada da família). É assim que o mundo faz sentido. E nem é possível imaginar que pudesse ser de outra maneira.

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