sexta-feira, 21 de agosto de 2026

A disputa pelo poder das big techs chega com tudo às eleições

A transformação política do Vale do Silício não pode mais ser vista como simples mudança de comportamento de alguns bilionários ou flerte com a extrema-direita americana. Por trás dessa aproximação existe uma disputa sobre quem terá o poder de definir os limites das empresas que controlam plataformas digitais, mecanismos de busca, publicidade, inteligência artificial e parte crescente da circulação de informação.

Enquanto parte da elite tecnológica defende menor interferência estatal e maior liberdade empresarial, órgãos públicos continuam travando batalhas antitruste contra gigantes do setor. A inteligência artificial ampliou a queda de braços. O controle sobre grandes modelos, chips, centros de processamento e serviços de nuvem determinará quem terá capacidade de desenvolver as próximas gerações tecnológicas. O debate deixou de ser sobre redes sociais e comércio eletrônico apenas. O busílis é a infraestrutura sobre a qual empresas, governos e cidadãos construirão seus sistemas digitais.


Isso tem tudo a ver com a mudança de paradigma d do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na geopolítica mundial. Os Estados Unidos pressionam a União Europeia contra a adoção de regras digitais. A regulação das big techs tornou-se também uma disputa sobre soberania, comércio internacional e poder tecnológico. mÉ disso que trata o livro mais recente do jornalista americano Gil Durán, The Nerd Reich: Silicon Valley Fascism and the War on Democracy, lançado em 18 de agosto passado. A obra investiga a ascensão do autoritarismo tecnológico e a influência de bilionários do Vale do Silício — como Peter Thiel — nas instituições democráticas e na política atual.

Magnatas ou apóstolos modernos do Vale do Silício citados por Durán lideram a extrema-direita tecnológica. O que chama de Nerd Reich é encabeçado por figuras proeminentes da tecnologia, como Peter Thiel (PayPal), Elon Musk (Space X, TeslaX), Marc Andreessen (Andreessen Horowitz e Substack) e Balaji Srinivasan (Network School / Network State e Coinbase). Essas empresas são usadas para financiar campanhas políticas e o conceito de “Network State” (Estado em Rede) de Balaji pretende substituir os países tradicionais.

A tese central de Gil Durán sobre a nova ordem é a seguinte: parte da elite tecnológica americana passou a questionar os limites impostos pela Estado e pretende ir além da democracia liberal,, não se trata mais das velhas disputas entre democratas e republicanos. Qual deve ser o limite do poder privado na democracia representativa quando uma empresa controla a infraestrutura essencial à vida econômica, social e política? Eis a questão.

As plataformas digitais não vendem apenas produtos. Determinam quais conteúdos circulam mais, quais anúncios alcançam determinados públicos e quais informações aparecem primeiro. A tecnologia não precisa escolher um candidato para produzir efeitos políticos. Basta alterar a arquitetura de circulação das mensagens. É justamente aí que o problema passou a ser uma variável das eleições deste ano.

O Brasil chega às eleições de 2026 com experiência acumulada em campanhas digitais, desinformação, disparos em massa, manipulação de imagens e vídeos e uso político das redes sociais. O Tribunal Superior Eleitoral reconhece que o ambiente digital se tornou central para a formação da opinião pública e aprovou novas regras para o pleito, incluindo medidas específicas sobre inteligência artificial, porém não se sabe exatamente o que vai acontecer.

As normas estabelecem restrições à circulação de determinados conteúdos sintéticos e regras para a atuação das plataformas. O TSE também determinou que sistemas de inteligência artificial não devem recomendar candidaturas, para evitar interferência algorítmica na decisão do eleitor. A Corte ampliou ainda acordos com empresas digitais para enfrentar conteúdos falsos, manipulados ou descontextualizados e proteger a integridade eleitoral.

Meta, TikTok, Kwai, LinkedIn e outras plataformas firmaram acordos com a Justiça Eleitoral brasileira para ampliar canais de denúncia, cooperação e transparência. No caso da publicidade política, mecanismos permitem acompanhar informações sobre anúncios, anunciantes e gastos. A questão, porém, não está restrita à produção de notícias falsas. Envolve também a capacidade das plataformas de determinar a velocidade, a amplitude e o público de determinadas mensagens.

Hoje, a inteligência artificial pode reduzir drasticamente o custo de uma operação de desinformação. Uma campanha pode produzir milhares de vídeos falsos em poucas horas, adaptando imagens, vozes e narrativas a regiões, grupos sociais e perfis distintos. O risco eleitoral, portanto, não está apenas na mentira tradicional, mas na possibilidade de industrialização da persuasão política.

Quanto maior o poder das plataformas, maior a importância de suas decisões sobre o que circula na sociedade. Uma rede social pode modificar políticas de moderação; uma plataforma de vídeos pode alterar recomendações; um mecanismo de busca pode mudar a apresentação dos resultados; e uma empresa de IA pode estabelecer filtros e restrições para milhões de usuários. São decisões privadas com consequências públicas.

O Brasil possui instituições eleitorais experientes, mas não controla a infraestrutura tecnológica. Grande parte das plataformas utilizadas pelos brasileiros é comandada por empresas estrangeiras, cujos algoritmos, decisões corporativas e políticas podem ser definidas fora do país. A campanha eleitoral, entretanto, acontece dentro dessas plataformas. Esse descompasso cria uma zona de vulnerabilidade.

Isso não significa afirmar que alguma big tech esteja planejando interferir nas eleições brasileiras de 2026 em favor de determinada candidatura. Não há evidência para essa conclusão. Existe, porém, uma preocupação legítima com a possibilidade de influência indevida em eleições nas quais plataformas, inteligência artificial e publicidade segmentada possuem capacidade inédita de alcançar eleitores.

O voto latino-americano: ideológico ou pragmático?

Da direita para a esquerda, e vice-versa, o pêndulo oscila nas eleições latino-americanas , e desta vez de forma marcante . Em contraste com a recente onda rosa de governos progressistas de esquerda, agora é a vez da onda conservadora de direita , que se consolida graças às recentes vitórias no Equador, Chile, Bolívia, Peru e Colômbia.

"É um pêndulo, mas também um pêndulo anti-establishment , porque as antigas receitas que haviam sido dadas já não funcionam para o eleitorado, que busca novas alternativas fora do que está estabelecido", disse à DW Javiera Arce, pesquisadora do Centro de Estudos de Gestão Pública da Universidade de Valparaíso, no Chile.

"Algumas análises mostram que a mudança foi o fator determinante nos votos em muitas das eleições dos últimos anos na América Latina. Às vezes, quando surgem opções autoritárias ou reacionárias, isso tem mais a ver com a busca por mudanças em relação ao que existia antes do que com uma adesão programática à extrema direita", disse Pablo Vommaro, diretor executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO).

Nenhum político tem as respostas, e a direita também não, mas consegue capitalizar em cima do medo, embora a questão da segurança não possa ser resolvida com o aumento da repressão policial ou militar

Na opinião de Arce, os partidos políticos tornaram-se "menos guiados por ideologia e mais pragmáticos, baseados em um consenso centrista". Como resultado, as disputas ideológicas diminuíram e os partidos se concentraram em novas causas. "Eles entram em conflito por questões mais secundárias e demandas mais imediatas, pequenas e específicas", acrescenta o doutor em Ciência Política, que acredita que a conexão do público com os partidos enfraqueceu: "Parece que eles não conseguem mais canalizar os afetos do público de forma eficaz. Portanto, temos visto um ressurgimento de antigas demandas materiais, como segurança cidadã e segurança econômica."

Segundo Hans-Jürgen Burchardt, a duração das oscilações do pêndulo é variável, e não sabemos quanto tempo elas podem durar a médio e longo prazo. "Devemos reconhecer, por um lado, que o centro progressista não cumpriu sua promessa mais importante, que era a redistribuição, não apenas por razões de justiça social, mas também para tornar os países mais produtivos e, por meio disso, melhorar as condições de vida e de trabalho. Isso representou uma grande decepção para esses governos, e a direita, por vezes, aproveitou-se disso", observa o professor de Relações Internacionais da Universidade de Kassel.


Por outro lado, ele cita o exemplo da última eleição no Chile. O debate centrou-se na segurança, um tema muito presente nos meios de comunicação, embora o nível de alarme não corresponda às estatísticas. Tal como a migração, a insegurança é um tema priorizado pela direita, em detrimento de preocupações como a saúde, a educação ou as pensões.

Embora as disputas sobre agendas materiais persistam em alguns países, como trabalho, moradia ou saúde – na eleição de Milei na Argentina, por exemplo, foi a inflação ou o valor do dólar – “a disputa situada no terreno das subjetividades, do afetivo, do emocional e dos gostos ganhou maior importância e mais espaço na definição das disputas eleitorais nos últimos anos”, explica Vommaro.

"Há uma luta em torno do significado, que até mesmo alguns grupos de extrema-direita enquadram como uma guerra cultural", observa o professor e pesquisador da Universidade de Buenos Aires (UBA). Isso influencia a formação da subjetividade dos eleitores e está ligado ao sentimento predominante de descontentamento nesses contextos. Na batalha para influenciar as percepções, o mundo digital e as mídias sociais desempenham um papel significativo, assim como a estratégia de desinformação, notícias falsas e conteúdo gerado por inteligência artificial com base em dados inverídicos.

"Essa situação é agravada pela crescente incerteza em que vivemos, um mundo onde nada parece certo, onde tudo pode ser abalado, de terremotos a pandemias e guerras. A incerteza sobre o futuro é muito forte entre as gerações mais jovens. Ela também contribui para que a dimensão afetiva assuma uma importância maior do que nas décadas anteriores", explica o diretor executivo da CLACSO.

Burchardt, por sua vez, destaca que "nenhum político tem as respostas, e a direita também não, mas consegue capitalizar em cima do medo, embora a questão da segurança não possa ser resolvida com o aumento da repressão policial ou militar. Outras respostas são necessárias."

A este respeito, a diretora do centro de pesquisa Käte Hamburger Kolleg, da Universidade de Kassel, aponta diferenças entre os países: a Argentina é altamente dependente do FMI e de empréstimos, e, diante da ameaça de falta de apoio de Trump , parte da população decidiu votar em Milei. Já no Brasil, Lula assumiu uma postura clara de defesa da autonomia brasileira e ganhou popularidade.

Ao observar os altos e baixos recentes das eleições latino-americanas, parece que os eleitores não são mais fiéis a uma única tendência política, mas sim guiados por outros interesses. "Eles sentem que a política não tem sido fiel a eles e às suas demandas, então ajustam suas preferências, maximizando suas opções", afirma Arce.

Segundo Vommaro, "hoje, o voto é definido menos por ideologia, adesão a um programa ou lealdade partidária, e é decidido mais por condições materiais e subjetivas imediatas. O voto é mais pragmático no sentido de ser mais contingente, menos fiel a certas opções. Há também votos de lealdade, claro, mas eles estão se tornando cada vez mais diluídos."

Ao mesmo tempo, "é mais emocional, afetivo e ligado a outras afinidades que não têm a ver diretamente com uma adesão programática ou ideológica, mas com sensações e percepções, muitas vezes bastante negativas, ou seja, de desconforto, desilusão e desencanto. E então surge uma busca por mudança", afirma o acadêmico da UBA.

"Poderíamos dizer que eles votam contra algo: por exemplo, no Chile, contra o fascismo de Kast em 2021, ou contra o comunismo de Jeannette Jara em 2025, ou recentemente na Colômbia, ou o voto antiperonista com Milei em 2023."

Nesse sentido, Burchardt observa que na Argentina "o último governo de Alberto Fernández foi uma decepção para grande parte da população. Não só gerou alta inflação, como também aumentou o desemprego entre os jovens, que se sentiram mais desiludidos com o governo progressista do que com as próprias ideias e objetivos da direita."

Nesse panorama, a questão é se a era das ideologias já passou. Arce esclarece: "Eu não falaria em pós-ideologia. Esses movimentos de direita que temos são extremamente ideológicos. Estamos vivenciando uma luta brutal por ideologia, e é um tipo de ideologia completamente diferente."

Por sua vez, Burchardt acredita que isso aconteceu "até certo ponto". "Se estivermos falando da esquerda ou dos partidos progressistas, eles carecem de uma narrativa que prometa um futuro melhor, e se os políticos não têm nada a oferecer, significa que estamos diante de uma desideologização, não como um processo de nova política, mas sim como uma incapacidade de criar uma narrativa." Ele também acredita que a direita tem a capacidade de "canalizar e capitalizar o medo do público, e é isso que ela faz ao vencer eleições, mesmo sem ter respostas para nada. E isso não é ideologização."

“Não sei se a ideologia se tornou coisa do passado, porque mesmo dentro dos discursos dominantes, a ideologia ressurge quando as pessoas são rotuladas de ‘comunistas’ ou ‘socialistas’, ou, há alguns anos, de ‘castroístas’ ou ‘chavistas’, ou quando certos países, como Cuba ou Venezuela, são apresentados como exemplos negativos, ‘bicho-papão’ e a causa de todos os males. Esses discursos são fortemente ideológicos”, alerta Vommaro. No entanto, ele reitera que as ideologias e as lealdades programáticas perderam peso específico na arena política, enquanto as lealdades afetivas, emocionais e mais subjetivas estão crescendo.

Flávio silencia sobre R$ 61 milhões e desvia foco para Lulinha

Não perguntem a Flávio Bolsonaro sobre quando ele dará as explicações prometidas sobre onde foram parar os 61 milhões de reais doados, a seu pedido, por Daniel Vorcaro, ex-dono do extinto Banco Master, para o financiamento do filme de exaltação ao seu pai. Também não perguntem sobre a data de estreia do filme, a princípio marcada para o próximo dia 11 de setembro. A data foi adiada. Coincidiria com a passagem de mais um aniversário dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos, mas não foi por isso.

Está prestes a completar 100 dias a promessa feita por Flávio de explicar, num prazo de 30 dias, o destino dado ao dinheiro. Ontem, em São Paulo, perguntado a respeito, ele respondeu que o assunto “é página virada” e sugeriu aos jornalistas que fossem indagar a Lula sobre a ligação do seu filho Fábio Luiz Lula da Silva, o Lulinha, com a lobista Roberta Luchsinger, suspeita de tentar fazer negócios espúrios com o governo.


Curioso é que até aqui não se comprovou o fechamento de qualquer negócio investigado pela Polícia Federal (PF). Por sinal, a Procuradoria-Geral da República, em manifestação enviada ao Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou que a atuação da lobista Roberta e de Lulinha para favorecer os interesses de Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, não resultou em fechamento de negócios com o poder público.

“Embora tenham sido identificados pagamentos feitos por Camilo Antunes a Roberta Luchsinger, a representação [da PF] não menciona a conclusão de nenhum negócio entre o empresário e o Poder Público, que pudesse sugerir o efetivo atendimento às pretensões que o grupo se propôs a agenciar”, afirma o texto da PGR.

Se dependesse da Procuradoria, a quem cabe oferecer denúncia, o inquérito aberto pela PF deveria ser enviado à primeira instância da Justiça, uma vez que não há ninguém com foro privilegiado envolvido no caso. Isso não justifica sua permanência no STF sob a relatoria do ministro “terrivelmente evangélico” André Mendonça, nomeado para o tribunal pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

Mas imagine só se Mendonça concordará com isso. Nem morto. Nas mãos dele está o inquérito e ali ficará até quando o ministro quiser. As eleições ocorrerão à sombra de um inquérito que corre sob segredo de Justiça. Nem os advogados dos suspeitos podem acessá-lo.

Coronelismo, emenda e voto

Em 1949, Victor Nunes Leal publicou uma obra fundamental da ciência política brasileira: Coronelismo, enxada e voto.O livro tornou-se referência para compreender o poder na República Velha e as relações entre Estado, elites rurais e eleitorado. Passadas mais de sete décadas, sua atualidade decorre da sobrevivência da lógica de apropriação do poder que descreveu. A enxada perdeu protagonismo; as emendas parlamentares ganharam posição estratégica. Viveria o Brasil um novo ciclo de neocoronelismo, emenda e voto?

Victor Nunes Leal demonstrou que o coronelismo era uma rede de reciprocidades entre o poder local e o poder central. Os coronéis entregavam votos e sustentação política; em troca, recebiam prestígio, favores administrativos, influência e autonomia para controlar seus redutos. O eleitor, frequentemente dependente do chefe político, ocupava posição subordinada. O traço essencial daquele sistema era a confusão entre a res publica e a res privada.

A urbanização, o sufrágio e a Constituição de 1988 desmontaram esse universo rural. O velho coronel perdeu espaço, mas a intermediação política não desapareceu. Apenas se transformou.


O novo personagem já não precisa controlar grandes fazendas. Seu domínio é predominantemente urbano, e seu poder decorre da capacidade de influenciar a destinação de recursos públicos, organizar redes políticas e distribuir benefícios por meio da máquina estatal. Se antes o instrumento de poder era a propriedade da terra, hoje ele pode ser o controle de parcelas expressivas do orçamento público.

As emendas parlamentares são instrumentos legítimos do Legislativo. Em milhares de municípios, elas financiam hospitais, ambulâncias, escolas, pavimentação e outras demandas. Podem fortalecer o federalismo, reduzir desigualdades e aproximar o Estado da população. O problema não está em sua existência, mas na forma como elas são utilizadas.

Quando a emenda deixa de obedecer a prioridades públicas e se converte em mecanismo de construção de bases eleitorais, instala-se uma nova relação de dependência. A obra deixa de ser percebida como resultado dos impostos e da ação institucional do Estado, passando a ser apresentada como dádiva do parlamentar. O Orçamento transforma-se em patrimônio político: capital eleitoral financiado com dinheiro público.

Nesse ponto, a analogia com Victor Nunes Leal ganha força. O coronel de ontem distribuía favores e proteção; o neocoronel distribui recursos orçamentários. Mudam os instrumentos, mas permanece a tentativa de construir vínculos duradouros de lealdade política.

Assim, a antiga fórmula Coronelismo, enxada e voto encontra correspondência em neocoronelismo, emenda e voto. A enxada foi substituída pelo Orçamento; a propriedade rural, pelo domínio sobre verbas públicas. O velho curral eleitoral reaparece sob formas mais sofisticadas, articulando parlamentares, prefeitos, vereadores, lideranças de bairros, organizações sociais e estruturas partidárias. Forma-se uma cadeia de reciprocidades na qual recursos descem e votos sobem.

Esse fenômeno revela uma constante da cultura política brasileira: a tensão entre o interesse público e os interesses privados. O Orçamento, que deveria refletir critérios técnicos, planejamento e necessidades coletivas, pode converter-se em instrumento de fortalecimento de projetos individuais. A obra necessária cede lugar à obra eleitoralmente rentável.

A democracia brasileira é hoje muito mais plural do que aquela estudada por Victor Nunes Leal. As eleições são competitivas, a imprensa fiscaliza, os órgãos de controle ampliaram sua atuação e a sociedade civil dispõe de novos instrumentos. Ainda assim, persistem incentivos para transformar recursos públicos em ativos eleitorais.

Os coronéis da República Velha distinguiam-se pelo domínio da terra. Os novos destacam-se pela capacidade de comandar fluxos orçamentários, influenciar investimentos e consolidar redes de clientelismo. A força da terra foi substituída pela força do Orçamento. O coronelismo não acabou; metamorfoseouse e adaptou-se às cidades, à democracia e ao moderno sistema orçamentário.

O grande desafio do Brasil é impedir que instrumentos legítimos da representação política sejam capturados pela lógica patrimonialista. Sempre que parcelas do Estado forem tratadas como propriedade de grupos que temporariamente o controlam, renascerá a velha confusão entre o interesse público e os interesses privados.

Victor Nunes Leal ensinou que o coronelismo era menos uma figura histórica do que um modo de exercer o poder. A tarefa do século 21 é impedir que novas formas de concentração política convertam novamente a res publica em extensão da res privata. Neocoronelismo, emenda e voto oferece uma chave para interpretar tensões da democracia brasileira e reforça a necessidade de transparência, planejamento e compromisso com o interesse coletivo.

Os Bolsonaros são diferentes, você sabe

Flávio Bolsonaro disse em Copacabana, no domingo, que o Brasil "olha com nojo para Brasília". O que Brasília terá achado disso? Ele estava se referindo aos políticos. Os Bolsonaros são diferentes, você sabe. Não são políticos. O sistema é "podre". Eles são "antissistema". Mas vejamos o que cada um fez ou faz na vida.

1 - Jair Bolsonaro. Sete mandatos como deputado federal (1990, 94, 98, 2002, 06, 10 e 14). Presidente eleito em 2018, derrotado em 2022. Atual presidiário condenado a 27 anos por tentativa de golpe de Estado. 

2 - Flávio Bolsonaro. Filho 01 de Bolsonaro. Quatro mandatos como deputado estadual pelo Rio (2002, 06, 10 e 14). Atual senador e candidato à Presidência da República.

3 - Carlos Bolsonaro. Filho 02. Sete mandatos como vereador pelo Rio (2000, 04, 08, 12, 16, 20 e 24). No primeiro, concorreu contra a própria mãe e a derrotou. Chamado de "vereador federal" por passar mais tempo em Brasília do que no Rio. Candidato a senador por Santa Catarina, para onde se mudou em 2025 a fim de conseguir domicílio eleitoral. 


4 - Eduardo Bolsonaro. Filho 03. Três mandatos como deputado federal por São Paulo (2016, 20 e 24). Cassado por abandono do cargo e condenado a quatro anos de prisão por coação judicial. Foragido nos EUA, dedica-se a pregar medidas econômicas contra o Brasil.

5 - Jair Renan Bolsonaro. Filho 04. Vereador desde 2024 por Balneário Camboriú (SC). 

6 - Michelle Bolsonaro. Terceira mulher de Bolsonaro. Líder partidária e candidata a senadora pelo Distrito Federal. 

7 - Rogéria Bolsonaro. Primeira mulher de Bolsonaro, mãe de Flávio, Carlos e Eduardo. Vereadora pelo Rio em 1992 e 96. Candidata a deputada federal. 

8 - Renato Bolsonaro. Irmão de Bolsonaro. Foi candidato a vereador e a prefeito de Registro (SP) e Miracatu (SP) em 1996, 98, 2000, 04, 08, 12, 16 e 24. Perdeu todas. 

9 - Percy Bolsonaro. Pai de Bolsonaro. Filiado nos anos 1960 ao MDB de Eldorado (SP), partido contra a ditadura militar, e monitorado pelo extinto SNI (Serviço Nacional de Informações) por exercício ilegal da medicina.

Não falei que os Bolsonaros eram diferentes?