quarta-feira, 21 de julho de 2021
Bom Dia, Coreia do Norte: A TV Brasil nas mãos do bolsonarismo
A TV Brasil foi criada com a promessa de se tornar uma BBC brasileira. Nunca chegou perto disso — e agora virou um arremedo da emissora estatal da Coreia do Norte.
O canal prepara o lançamento de um telejornal só com “boas notícias”. O programa convidará o telespectador a passear num país imaginário, onde não existe fome, pandemia, inflação ou desemprego.
A nova atração ainda não foi ao ar, mas a TV Brasil já opera como um veículo de propaganda do bolsonarismo. Até o Sem Censura, herança da antiga TVE, foi rebaixado à categoria de programa chapa-branca. Deixou de promover debates para amplificar as vozes do regime.
Na segunda-feira, o canal promoveu mais um espetáculo de governismo. Anunciou uma “entrevista exclusiva” com Bolsonaro, mas transmitiu uma peça de campanha paga com dinheiro dos impostos.
Se havia alguma dúvida sobre o programa, ela desapareceu logo na segunda “pergunta”. A apresentadora exaltou as viagens do presidente e emendou: “Eu queria que o senhor falasse um pouco desse contato direto com a população...”.
Bolsonaro teve 35 minutos para fazer proselitismo em rede nacional. Prometeu aumentar o Bolsa Família, asfaltar estradas, distribuir terras e levar internet aos pobres. Ele também usou o palanque eletrônico para mentir sobre a Covid. “A vacina tem dado mostras de que ela não te protege”, disse. Todos os imunizantes aplicados no país foram aprovados pela Anvisa, que atestou sua segurança e eficácia.
Em outra passagem, o presidente voltou a destilar preconceito contra povos indígenas. “Tem índio que quando você conversa ele já está tão evoluído quanto um de nós”, afirmou. Os índios não foram procurados para se defender da comparação.
Numa frase, Bolsonaro escancarou que vê o canal público como instrumento de promoção pessoal: “Eu podia falar todo dia aqui”. No fim da “entrevista”, foi encorajado a deixar “um recado para o pessoal da Amazônia”. Falou sem interrupções durante 14 minutos, uma eternidade para os padrões televisivos.
O canal prepara o lançamento de um telejornal só com “boas notícias”. O programa convidará o telespectador a passear num país imaginário, onde não existe fome, pandemia, inflação ou desemprego.
A nova atração ainda não foi ao ar, mas a TV Brasil já opera como um veículo de propaganda do bolsonarismo. Até o Sem Censura, herança da antiga TVE, foi rebaixado à categoria de programa chapa-branca. Deixou de promover debates para amplificar as vozes do regime.
Na segunda-feira, o canal promoveu mais um espetáculo de governismo. Anunciou uma “entrevista exclusiva” com Bolsonaro, mas transmitiu uma peça de campanha paga com dinheiro dos impostos.
Se havia alguma dúvida sobre o programa, ela desapareceu logo na segunda “pergunta”. A apresentadora exaltou as viagens do presidente e emendou: “Eu queria que o senhor falasse um pouco desse contato direto com a população...”.
Bolsonaro teve 35 minutos para fazer proselitismo em rede nacional. Prometeu aumentar o Bolsa Família, asfaltar estradas, distribuir terras e levar internet aos pobres. Ele também usou o palanque eletrônico para mentir sobre a Covid. “A vacina tem dado mostras de que ela não te protege”, disse. Todos os imunizantes aplicados no país foram aprovados pela Anvisa, que atestou sua segurança e eficácia.
Em outra passagem, o presidente voltou a destilar preconceito contra povos indígenas. “Tem índio que quando você conversa ele já está tão evoluído quanto um de nós”, afirmou. Os índios não foram procurados para se defender da comparação.
Numa frase, Bolsonaro escancarou que vê o canal público como instrumento de promoção pessoal: “Eu podia falar todo dia aqui”. No fim da “entrevista”, foi encorajado a deixar “um recado para o pessoal da Amazônia”. Falou sem interrupções durante 14 minutos, uma eternidade para os padrões televisivos.
O capitão ficou tão à vontade que convidou os telespectadores para sua próxima “motociata”. Se assistisse à TV Brasil, o camarada Kim Jong-un morreria de inveja.
Quem mandou patrocinar?
Uma parte dessa classe (política) tem-nos enxergado como peões — sacrificáveis — no tabuleiro de um jogo de interesses. Não o somos! Sempre estivemos prontos para participar do processo de construção do país, desde que nossos movimentos se alinhassem com o regramento constitucionalOtávio do Rêgo Barros, general da reserva ex-porta-voz da Presidência
No altar da politicagem
O vice-presidente Hamilton Mourão foi a Angola para participar da reunião da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, mas, “por orientação do presidente” Jair Bolsonaro, aproveitou a viagem para tentar intervir num escândalo envolvendo a Igreja Universal do Reino de Deus. Ou seja, usou recursos públicos e sua posição institucional de Estado para cuidar de assuntos exclusivamente privados. Tudo isso a mando do chefe do Executivo.
E não foram assuntos quaisquer. A Universal passa por uma crise em Angola desde 2019, quando integrantes angolanos da igreja se rebelaram contra a direção brasileira da seita naquele país. Eles divulgaram um manifesto em que acusam o comando da Universal de lavagem de dinheiro, sonegação de impostos, associação criminosa e racismo. Em seguida, os angolanos tomaram parte dos templos e assumiram o controle da Universal no país.
Além disso, a TV Record, emissora ligada à Universal, foi forçada a sair do ar em Angola porque, segundo o governo, violou normas que proíbem estrangeiros no comando de TVs locais.
Como consequência do escândalo, o governo angolano começou a deportar missionários brasileiros da Universal, e corre processo na Justiça local contra os antigos comandantes da igreja em Angola.
Os problemas da Universal em Angola só dizem respeito à igreja. O máximo que o governo brasileiro deveria fazer no caso é se assegurar de que os compatriotas sejam bem tratados e que tenham toda a assistência jurídica de que necessitam – o que qualquer diplomata pode fazer.
Mas a Igreja Universal recebe do presidente Bolsonaro um tratamento vip. A iniciativa de enviar o vice-presidente Mourão para conversar com o governo angolano sobre o assunto foi apenas o mais recente de uma série de gestos de Bolsonaro para interceder em favor da Universal.
No final de 2019, o então chanceler, Ernesto Araújo, em visita a Angola, declarou que a Igreja Universal é uma “entidade extremamente importante para o Brasil”. Em julho de 2020, Bolsonaro enviou uma carta ao presidente de Angola, João Lourenço, na qual pediu “proteção” aos integrantes brasileiros da Universal no país. Em maio passado, o chanceler Carlos França convocou o embaixador de Angola, Florêncio Almeida, para pedir-lhe explicações sobre as deportações.
No mesmo mês, em encontro com a bancada evangélica no Itamaraty, o chanceler informou que intercederia junto ao governo angolano para que recebesse uma comitiva de parlamentares e de líderes da Universal.
Em junho, Bolsonaro indicou Marcelo Crivella, bispo licenciado da Universal e sobrinho do dono da igreja, Edir Macedo, para a Embaixada do Brasil na África do Sul, num movimento visto entre diplomatas como destinado a ajudar a igreja. Crivella ainda não pôde assumir o posto porque, como acusado de corrupção durante sua gestão como prefeito do Rio, teve seu passaporte retido.
Todo esse esforço do governo para socorrer a Universal chegou ao ápice agora com a visita do vice-presidente Mourão. Em Angola, ele declarou à agência Lusa que “essa questão da Universal aqui afeta o governo e a sociedade brasileiros, pela penetração que essa igreja tem e pela participação política que ela possui”.
Quando o governo brasileiro dá à Universal uma importância que a seita não tem, diz menos sobre as agruras da igreja do que sobre as aflições de Bolsonaro. Com a popularidade em baixa e acossado por denúncias de corrupção e de inépcia na condução do combate à pandemia, Bolsonaro tenta manter a todo custo o apoio que tem entre evangélicos.
Ou seja, nada sobre esse imbróglio tem a ver com o interesse público. Além dos negócios da Universal, estão em jogo os interesses particulares de Bolsonaro, explorados pelos “aliados” que hoje o mantêm como refém no Congresso – isto é, os partidos do Centrão, entre os quais está o Republicanos, “que representa o pessoal da Igreja Universal”, como bem disse o vice Mourão. Essa genuflexão de Bolsonaro ante a Universal mostra que o presidente não hesita em sacrificar o Estado brasileiro no altar da politicagem em troca de uma vaga promessa de salvação pessoal.
E não foram assuntos quaisquer. A Universal passa por uma crise em Angola desde 2019, quando integrantes angolanos da igreja se rebelaram contra a direção brasileira da seita naquele país. Eles divulgaram um manifesto em que acusam o comando da Universal de lavagem de dinheiro, sonegação de impostos, associação criminosa e racismo. Em seguida, os angolanos tomaram parte dos templos e assumiram o controle da Universal no país.
Além disso, a TV Record, emissora ligada à Universal, foi forçada a sair do ar em Angola porque, segundo o governo, violou normas que proíbem estrangeiros no comando de TVs locais.
Como consequência do escândalo, o governo angolano começou a deportar missionários brasileiros da Universal, e corre processo na Justiça local contra os antigos comandantes da igreja em Angola.
Os problemas da Universal em Angola só dizem respeito à igreja. O máximo que o governo brasileiro deveria fazer no caso é se assegurar de que os compatriotas sejam bem tratados e que tenham toda a assistência jurídica de que necessitam – o que qualquer diplomata pode fazer.
Mas a Igreja Universal recebe do presidente Bolsonaro um tratamento vip. A iniciativa de enviar o vice-presidente Mourão para conversar com o governo angolano sobre o assunto foi apenas o mais recente de uma série de gestos de Bolsonaro para interceder em favor da Universal.
No final de 2019, o então chanceler, Ernesto Araújo, em visita a Angola, declarou que a Igreja Universal é uma “entidade extremamente importante para o Brasil”. Em julho de 2020, Bolsonaro enviou uma carta ao presidente de Angola, João Lourenço, na qual pediu “proteção” aos integrantes brasileiros da Universal no país. Em maio passado, o chanceler Carlos França convocou o embaixador de Angola, Florêncio Almeida, para pedir-lhe explicações sobre as deportações.
No mesmo mês, em encontro com a bancada evangélica no Itamaraty, o chanceler informou que intercederia junto ao governo angolano para que recebesse uma comitiva de parlamentares e de líderes da Universal.
Em junho, Bolsonaro indicou Marcelo Crivella, bispo licenciado da Universal e sobrinho do dono da igreja, Edir Macedo, para a Embaixada do Brasil na África do Sul, num movimento visto entre diplomatas como destinado a ajudar a igreja. Crivella ainda não pôde assumir o posto porque, como acusado de corrupção durante sua gestão como prefeito do Rio, teve seu passaporte retido.
Todo esse esforço do governo para socorrer a Universal chegou ao ápice agora com a visita do vice-presidente Mourão. Em Angola, ele declarou à agência Lusa que “essa questão da Universal aqui afeta o governo e a sociedade brasileiros, pela penetração que essa igreja tem e pela participação política que ela possui”.
Quando o governo brasileiro dá à Universal uma importância que a seita não tem, diz menos sobre as agruras da igreja do que sobre as aflições de Bolsonaro. Com a popularidade em baixa e acossado por denúncias de corrupção e de inépcia na condução do combate à pandemia, Bolsonaro tenta manter a todo custo o apoio que tem entre evangélicos.
Ou seja, nada sobre esse imbróglio tem a ver com o interesse público. Além dos negócios da Universal, estão em jogo os interesses particulares de Bolsonaro, explorados pelos “aliados” que hoje o mantêm como refém no Congresso – isto é, os partidos do Centrão, entre os quais está o Republicanos, “que representa o pessoal da Igreja Universal”, como bem disse o vice Mourão. Essa genuflexão de Bolsonaro ante a Universal mostra que o presidente não hesita em sacrificar o Estado brasileiro no altar da politicagem em troca de uma vaga promessa de salvação pessoal.
Jair Bolsonaro é Centrão; Jair Bolsonaro é Cifrão
A ida de Ciro Nogueira para o Ministério da Casa Civil e a criação do Ministério do Trabalho (esse é o nome verdadeiro da joça, não importa como a chamem), renascido de uma costela da pasta da Economia e chefiado por Onyx Lorenzoni, não é reforma ministerial, mas dique contra a abertura do processo de impeachment de Jair Bolsonaro. O Centrão vem cobrando um preço cada vez mais alto para manter o presidente no cargo, desde que estouraram os escândalos das vacinas e expoentes seus, como o próprio Ciro Nogueira, Arthur Lira e Ricardo Barros viram-se enredados nas negociações nebulosas em torno da compra de vacinas pelo Ministério da Saúde.
Além de citar Ricardo Barros, líder do governo, na conversa em que o deputado Luis Miranda e o seu irmão, Luis Ricardo, denunciaram o esquema em andamento na compra da Covaxin, o presidente da República teria citado Ciro Nogueira e Arthur Lira como supostos envolvidos na maracutaia. Isso tem um preço, e ele agora pode ser verificado com o que vem sendo chamado impropriamente de reforma ministerial.
Com Ciro Nogueira na Casa Civil e a criação de uma nova pasta na área econômica, que até então procurava (não muito) resistir à insaciabilidade do Centrão, abrem-se ainda mais as comportas para o fisiologismo que Jair Bolsonaro prometeu exterminar durante a sua campanha. O estelionato eleitoral perpetrado em 2018 fica ainda mais evidente. Para além de ceder ao fisiologismo que lhe garantirá o atual mandato, o presidente da República torna-se ainda mais refém do Centrão para tentar reeleger-se em 2022. Tudo ficará mais fácil com a Casa Civil comandada por Ciro Nogueira e o Ministério do Trabalho chefiado por Onyx Lorenzoni: as articulações com o objetivo de comprar votos por meio do assistencialismo, que é prática sistemática dessa vanguarda do atraso que domina a vida nacional, e a aquisição (o termo é perfeito) dos sindicalistas de resultados, que querem ver as suas mamatas restabelecidas, em troca de apoio político.
Jair Bolsonaro é Centrão. Jair Bolsonaro é Cifrão.
Além de citar Ricardo Barros, líder do governo, na conversa em que o deputado Luis Miranda e o seu irmão, Luis Ricardo, denunciaram o esquema em andamento na compra da Covaxin, o presidente da República teria citado Ciro Nogueira e Arthur Lira como supostos envolvidos na maracutaia. Isso tem um preço, e ele agora pode ser verificado com o que vem sendo chamado impropriamente de reforma ministerial.
Com Ciro Nogueira na Casa Civil e a criação de uma nova pasta na área econômica, que até então procurava (não muito) resistir à insaciabilidade do Centrão, abrem-se ainda mais as comportas para o fisiologismo que Jair Bolsonaro prometeu exterminar durante a sua campanha. O estelionato eleitoral perpetrado em 2018 fica ainda mais evidente. Para além de ceder ao fisiologismo que lhe garantirá o atual mandato, o presidente da República torna-se ainda mais refém do Centrão para tentar reeleger-se em 2022. Tudo ficará mais fácil com a Casa Civil comandada por Ciro Nogueira e o Ministério do Trabalho chefiado por Onyx Lorenzoni: as articulações com o objetivo de comprar votos por meio do assistencialismo, que é prática sistemática dessa vanguarda do atraso que domina a vida nacional, e a aquisição (o termo é perfeito) dos sindicalistas de resultados, que querem ver as suas mamatas restabelecidas, em troca de apoio político.
Jair Bolsonaro é Centrão. Jair Bolsonaro é Cifrão.
Precisamos de proteção climática, e não de turismo espacial
Eu me importo com o futuro, portanto me importo com o clima. Pertenço à vasta maioria dos cidadãos globais que, como demonstram tantas enquetes, está apreensiva com a direção para onde está indo o planeta, e entende a urgência e a natureza existencial da emergência climática iminente. As recentes inundações catastróficas na Europa Central e as temperaturas extremamente elevadas na América do Norte são apenas dois sintomas dessa ameaça.
Então, na minha família, nós fazemos algo a respeito, economizando e apertando o nosso orçamento carbônico: andamos a pé ou de bicicleta, em vez de de carro; comemos drasticamente menos carne do que a família média nos países industrializados; dispensamos aquela viagem transatlântica, mesmo querendo muito; cuidamos para não desperdiçar comida, além de compostarmos nossas sobras.
E aí, um ricaço dá uma volta pelo espaço, só para se divertir. Uma coisa incrivelmente egoísta, ou não? E que realmente desvaloriza, tanto do ponto de vista moral como material, os nossos esforços para proteger o clima.
A motivação para se agir contra a mudança climática definha quando se vê outros fazendo o que lhes dá na telha, sem atentar para as consequências. Para além dessa desmoralização, há a pegada carbônica concreta do turismo espacial.
1 hora e meia no espaço = quase 5 mil km de carro
Vejam só, eu não sou contra viagens espaciais, em princípio. Na verdade, sou até meio nerd da ficção científica, e fico super animada com as possibilidades de explorar o espaço. E sabe-se que todo turismo, mesmo na Terra, resulta em emissões de CO2. Não pretendo dizer que o turismo não deveria existir; mas o problema do turismo espacial é a proporção.
Tomemos como exemplo o voo da Virgin Galactic, de Richard Branson, em 11 de julho. A companhia afirma que as emissões carbônicas dessa volta suborbital de 160 quilômetros correspondem, mais ou menos, às de um passageiro numa viagem transatlântica de jato de ida e volta.
Segundo as informações disponíveis ao público, um voo de Londres a Nova York libera cerca de 1,24 tonelada métrica de CO2. Dito de outra maneira, uma voltinha de uma hora e meia pelo espaço foi o equivalente a dirigir 4.800 quilômetros num automóvel comum.
Se a Virgin Galactic está adicionando toda essa quilometragem de emissões carbônicas por um simples passeio para seis pessoas, isso desvaloriza os esforços de proteção ao clima – tanto do ponto de vista pessoal como da política. O problema pode se tornar especialmente agudo se o turismo espacial disparar, como tudo indica que em breve acontecerá: já foram feitas mais de 200 reservas com a Virgin Galactic, por preços que vão de 200 mil a 250 mil dólares por cabeça.
A empresa de Branson diz que atenta para a sustentabilidade ambiental – embora sem especificar o que isso envolve. Acho essa alegação muito duvidosa, sobretudo perante a pegada carbônica de seus voos.
Pelo menos bilionário Jeff Bezos, da Amazon, não tem só belas palavras para o meio ambiente: os foguetes de sua firma de viagem aeroespacial, a Blue Origin, são movidos a hidrogênio, que não emite dióxido de carbono. Mas não ignoremos o fato de que, embora possa ser produzido usando-se energia renovável, no momento o hidrogênio é gerado basicamente através da queima de – isso mesmo – combustíveis fósseis.
Uma proposta para os cowboys do espaço
É irônico: a imagem do planeta Terra visto a partir de sua órbita – uma joia de vida em meio ao vazio negro do espaço – tem a fama de inspirar o movimento ambiental contemporâneo. E agora a Blue Origin diz que sua visão é fazer o bem à Terra.
Com toda certeza foi essa a motivação para leiloar por 28 milhões de dólares uma passagem em seu voo atual a um super-rico arrematador secreto (o qual depois adiou sua participação para uma viagem futura). É para lá de irônico: eu diria que é cinismo.
Se as companhias de turismo espacial desejam realmente fazer jus às suas alegações verdes, sugiro o seguinte: para cada voo aeroespacial com turistas, que elas invistam uma quantia igual na proteção do clima. Desse modo, ricaços podem ter o barato deles, enquanto nós também tentamos consertar o clima.
O turismo espacial só deveria ser possível em troca de uma megacompensação, que garantisse um futuro nesta cintilante joia azul, verde e marrom. Afinal de contas, ela é a fonte das nossas vidas, e o único planeta capaz de nos manter.
Sonya Diehn
Então, na minha família, nós fazemos algo a respeito, economizando e apertando o nosso orçamento carbônico: andamos a pé ou de bicicleta, em vez de de carro; comemos drasticamente menos carne do que a família média nos países industrializados; dispensamos aquela viagem transatlântica, mesmo querendo muito; cuidamos para não desperdiçar comida, além de compostarmos nossas sobras.
E aí, um ricaço dá uma volta pelo espaço, só para se divertir. Uma coisa incrivelmente egoísta, ou não? E que realmente desvaloriza, tanto do ponto de vista moral como material, os nossos esforços para proteger o clima.
A motivação para se agir contra a mudança climática definha quando se vê outros fazendo o que lhes dá na telha, sem atentar para as consequências. Para além dessa desmoralização, há a pegada carbônica concreta do turismo espacial.
1 hora e meia no espaço = quase 5 mil km de carro
Vejam só, eu não sou contra viagens espaciais, em princípio. Na verdade, sou até meio nerd da ficção científica, e fico super animada com as possibilidades de explorar o espaço. E sabe-se que todo turismo, mesmo na Terra, resulta em emissões de CO2. Não pretendo dizer que o turismo não deveria existir; mas o problema do turismo espacial é a proporção.
Tomemos como exemplo o voo da Virgin Galactic, de Richard Branson, em 11 de julho. A companhia afirma que as emissões carbônicas dessa volta suborbital de 160 quilômetros correspondem, mais ou menos, às de um passageiro numa viagem transatlântica de jato de ida e volta.
Segundo as informações disponíveis ao público, um voo de Londres a Nova York libera cerca de 1,24 tonelada métrica de CO2. Dito de outra maneira, uma voltinha de uma hora e meia pelo espaço foi o equivalente a dirigir 4.800 quilômetros num automóvel comum.
Se a Virgin Galactic está adicionando toda essa quilometragem de emissões carbônicas por um simples passeio para seis pessoas, isso desvaloriza os esforços de proteção ao clima – tanto do ponto de vista pessoal como da política. O problema pode se tornar especialmente agudo se o turismo espacial disparar, como tudo indica que em breve acontecerá: já foram feitas mais de 200 reservas com a Virgin Galactic, por preços que vão de 200 mil a 250 mil dólares por cabeça.
A empresa de Branson diz que atenta para a sustentabilidade ambiental – embora sem especificar o que isso envolve. Acho essa alegação muito duvidosa, sobretudo perante a pegada carbônica de seus voos.
Pelo menos bilionário Jeff Bezos, da Amazon, não tem só belas palavras para o meio ambiente: os foguetes de sua firma de viagem aeroespacial, a Blue Origin, são movidos a hidrogênio, que não emite dióxido de carbono. Mas não ignoremos o fato de que, embora possa ser produzido usando-se energia renovável, no momento o hidrogênio é gerado basicamente através da queima de – isso mesmo – combustíveis fósseis.
Uma proposta para os cowboys do espaço
É irônico: a imagem do planeta Terra visto a partir de sua órbita – uma joia de vida em meio ao vazio negro do espaço – tem a fama de inspirar o movimento ambiental contemporâneo. E agora a Blue Origin diz que sua visão é fazer o bem à Terra.
Com toda certeza foi essa a motivação para leiloar por 28 milhões de dólares uma passagem em seu voo atual a um super-rico arrematador secreto (o qual depois adiou sua participação para uma viagem futura). É para lá de irônico: eu diria que é cinismo.
Se as companhias de turismo espacial desejam realmente fazer jus às suas alegações verdes, sugiro o seguinte: para cada voo aeroespacial com turistas, que elas invistam uma quantia igual na proteção do clima. Desse modo, ricaços podem ter o barato deles, enquanto nós também tentamos consertar o clima.
O turismo espacial só deveria ser possível em troca de uma megacompensação, que garantisse um futuro nesta cintilante joia azul, verde e marrom. Afinal de contas, ela é a fonte das nossas vidas, e o único planeta capaz de nos manter.
Sonya Diehn
Sem pé nem cabeça
A obstrução intestinal do Capitão chama-se Luís Inácio Lula da Silva, CPI da Covid e roubalheira no Ministério da Saúde. Sucessivas pesquisas eleitorais dão vitória a Lula em 2022 e tiram o pouco equilíbrio que um dia restou a Bolsonaro. Lula acua o PR. Juntado à CPI e ao inacreditável fundo eleitoral de R$ 5,7 bilhões, aprovado pelo Congresso, semana passada.
Num país de miseráveis e desempregados, inflação em alta, não há como justificar essa grana para campanhas eleitorais. Não há desculpa. Bolsonaro quis jogar a bomba no colo do Parlamento. Ora, sua base e os filhos Eduardo e Flávio estavam de acordo e votaram a favor do fundo bilionário. Será difícil vetar sem criar nova crise política.
Cada vez mais complicada a vida do PR. Mais uma vez, desencavou a facada de 2018, desfechada durante campanha eleitoral, por um sujeito desequilibrado, em Juiz de Fora (MG). O Capitão e seus filhos cibernéticos não perderam a oportunidade da obstrução intestinal (razão alegada da internação de Bolsonaro, semana passada), para acusar a oposição.
Os Bolsonaro só convencem os seguidores, que mugiram muito na semana passada. Assombrados por Lula, apostam em Adélio Bispo de Oliveira para 2022. Misturam nos twitters PSOL (Adélio foi filiado ao partido, e daí?) e PT para tirar proveito político da facada de 2018. Naquele ano, o gesto insano de Adélio levou o Capitão para o segundo turno. Em 2022, será diferente.
Adélio agiu sozinha, diz a PF. Tem transtorno mental delirante persistente, diz a Justiça. É considerado inimputável. e está internado por tempo indeterminado em instituição psiquiátrica. Acabou aí. O resto é história da carochinha que Bolsonaro bateu e rebateu na sua discutível internação da última semana.
No dia seguinte às “fortes dores” que o levaram ao hospital das Forças Armadas, em Brasilia, e, em seguida, ao Vila Nova Star, em SP, Bolsonaro literalmente passeou pelos corredores do hospital, sem máscara, fazendo selfies e lives, expondo pacientes e profissionais ao coronavírus.
O Vila Nova Star, com seus lençóis de 400 fios, camas inteligentes, serviço de hotel de luxo, fez nada para impedir as andanças do Capitão, incluindo visitas a pacientes, sempre sem máscara. De propriedade do bilionário amigo Jorge Moll, o hospital serviu de cenário para mais um escarcéu de Bolsonaro e a facada de Adélio. Restaram dúvidas.
De mal a pior, Bolsonaro vai perdendo a razão e a eleição futura. Quase impossível uma reeleição. Duro será esperar até janeiro de 2023 para comemorarmos um novo governo com pé, cabeça e rumo.
Num país de miseráveis e desempregados, inflação em alta, não há como justificar essa grana para campanhas eleitorais. Não há desculpa. Bolsonaro quis jogar a bomba no colo do Parlamento. Ora, sua base e os filhos Eduardo e Flávio estavam de acordo e votaram a favor do fundo bilionário. Será difícil vetar sem criar nova crise política.
Cada vez mais complicada a vida do PR. Mais uma vez, desencavou a facada de 2018, desfechada durante campanha eleitoral, por um sujeito desequilibrado, em Juiz de Fora (MG). O Capitão e seus filhos cibernéticos não perderam a oportunidade da obstrução intestinal (razão alegada da internação de Bolsonaro, semana passada), para acusar a oposição.
Os Bolsonaro só convencem os seguidores, que mugiram muito na semana passada. Assombrados por Lula, apostam em Adélio Bispo de Oliveira para 2022. Misturam nos twitters PSOL (Adélio foi filiado ao partido, e daí?) e PT para tirar proveito político da facada de 2018. Naquele ano, o gesto insano de Adélio levou o Capitão para o segundo turno. Em 2022, será diferente.
Adélio agiu sozinha, diz a PF. Tem transtorno mental delirante persistente, diz a Justiça. É considerado inimputável. e está internado por tempo indeterminado em instituição psiquiátrica. Acabou aí. O resto é história da carochinha que Bolsonaro bateu e rebateu na sua discutível internação da última semana.
No dia seguinte às “fortes dores” que o levaram ao hospital das Forças Armadas, em Brasilia, e, em seguida, ao Vila Nova Star, em SP, Bolsonaro literalmente passeou pelos corredores do hospital, sem máscara, fazendo selfies e lives, expondo pacientes e profissionais ao coronavírus.
O Vila Nova Star, com seus lençóis de 400 fios, camas inteligentes, serviço de hotel de luxo, fez nada para impedir as andanças do Capitão, incluindo visitas a pacientes, sempre sem máscara. De propriedade do bilionário amigo Jorge Moll, o hospital serviu de cenário para mais um escarcéu de Bolsonaro e a facada de Adélio. Restaram dúvidas.
De mal a pior, Bolsonaro vai perdendo a razão e a eleição futura. Quase impossível uma reeleição. Duro será esperar até janeiro de 2023 para comemorarmos um novo governo com pé, cabeça e rumo.
Semipresidencialismo é um velho golpe
O tucanato, responsável pelo envenenamento do regime presidencialista brasileiro ao patrocinar o instituto da reeleição, voltou a namorar com o parlamentarismo. Chamam-no de semipresidencialismo por uma questão de pudor.
De 1989 para cá, o regime democrático brasileiro elegeu cinco presidentes e defenestrou dois: Fernando Collor e Dilma Rousseff. Contudo Dilma 2.0 foi produzida pelo mecanismo da reeleição e pela tibieza de Lula, que não lhe pediu a vaga na chapa no pleito de 2010.
Uma experiência fracassada no século passado e rejeitada em dois plebiscitos não bastou para que um pedaço do andar de cima nacional desistisse da ideia.
Nesse namoro, juntam-se dois blocos. Num, estão os parlamentaristas sinceros; no outro, aqueles que temem uma vitória eleitoral de Lula. Em 1994, quando ele parecia ser uma ameaça, a revisão constitucional encurtou o mandato do presidente de cinco para quatro anos. Numa trapaça da História, Lula acabou beneficiado pelo dispositivo da reeleição que garantiu um segundo mandato a Fernando Henrique Cardoso e, em vez de cinco anos, acabou governando por oito, de 2003 a 2011, sem abalar as instituições ou balançar o coreto do andar de cima. Beneficiado pela mágica tucana, o PT reelegeu não só Lula, mas também Dilma Rousseff.
A ideia de que o semipresidencialismo limitaria os poderes de Jair Bolsonaro num eventual segundo mandato é golpista e pobre. É golpista porque cheira ao truque de 1961, quando foi instituído o parlamentarismo para permitir a posse do vice-presidente João Goulart. É pobre porque um Bolsonaro, uma vez reeleito, mastigaria o regime, como Goulart mastigou-o.
Os defensores do semipresidencialismo dizem que ele amenizaria as crises: em vez de cair o presidente, cairia o primeiro-ministro. Vira e mexe, apresenta-se a matriz do regime francês, criado pelo general Charles de Gaulle. Trata-se de uma falsidade histórica. O que De Gaulle fez na França foi o contrário, reciclou um parlamentarismo que ia de crise em crise, fortalecendo a figura do presidente. Ganha um fim de semana em Brasília quem souber o nome dos três últimos primeiros-ministros franceses. (Jean Castex, Édouard Philippe e Bernard Cazeneuve.)
A maior demonstração de que a proposta é apenas um truque está no fato de o ex-presidente Michel Temer defendê-la, argumentando que a praticou enquanto esteve no cargo. Ele governou olhando para o Congresso, respeitando os adversários e amortecendo crises. Se Jair Bolsonaro faz o contrário, o problema não está no regime, mas nele. Quem não quer vê-lo na cadeira poderá votar noutro candidato no ano que vem. Quem não quer ver Bolsonaro nem Lula terá tempo para achar um terceiro nome. Ciro Gomes e João Doria estão na pista.
De 1989 para cá, o regime democrático brasileiro elegeu cinco presidentes e defenestrou dois: Fernando Collor e Dilma Rousseff. Contudo Dilma 2.0 foi produzida pelo mecanismo da reeleição e pela tibieza de Lula, que não lhe pediu a vaga na chapa no pleito de 2010.
A máquina da política brasileira não rateia por causa do presidencialismo, mas pela possibilidade da reeleição. Ela transforma presidentes, governadores e prefeitos em mandatários que assumem as funções obcecados pela recondução.
Fernando Henrique Cardoso já reconheceu que, historicamente, cometeu um erro. Ele dizia não querê-la e, querendo-a, criou-a. Tanto Lula como Bolsonaro combateram a ideia da reeleição. Sentindo o quentinho da faixa, mudaram de ideia.
A pena de morte política para Bolsonaro
Nos últimos dias, quando o presidente Jair Bolsonaro foi internado com urgência por problemas intestinais, logo houve quem desejasse sua morte, lembrando que hoje ele é acusado de ser responsável por muitas vidas perdidas com sua política negacionista e desastrosa da pandemia.
É uma questão delicada e pessoal desejar a morte de um semelhante, por muitos que sejam os crimes que pesem sobre sua consciência. A pena de morte foi abolida na maior parte dos países civilizados, entre eles o Brasil, porque se considera que a vida deve prevalecer sobre a morte.
A Igreja Católica manteve a pena de morte no pequeno Estado do Vaticano até 1929. Foi abolida pelo papa Paulo VI em 1971, depois do Concílio Vaticano II, e só em 2001 foi excluída definitivamente das leis do Vaticano.
Estima-se que durante a Idade Média, principalmente durante a Inquisição, foram condenadas à morte pela Igreja 1.250 pessoas, segundo o historiador Andrea Del Col. São Tomás de Aquino, Doutor Universal da Igreja, defendia que se pudesse assassinar o tirano, pelo bem da comunidade.
Que Bolsonaro é a favor da tortura e da pena morte, é evidente para todos. Ainda hoje ele lamenta que a ditadura militar não tenha assassinado pelo menos mais 30.000 pessoas. Sua política está impregnada de destruição e morte.
Se hoje a abolição da pena de morte é considerada uma conquista civilizatória, o que não deve ser proibido é o desejo da morte política dos tiranos e ditadores que ameaçam a democracia e os valores fundamentais nos quais se baseia nossa civilização moderna. Eles devem ser condenados nas urnas, essas que o presidente tanto teme.
No Brasil, está claro que o presidente Bolsonaro atenta contra os valores da liberdade e da democracia, como bem revelou o trabalho investigativo “O método Bolsonaro: um assalto à democracia em câmera lenta”, realizado por sete jornalistas deste jornal e publicado no domingo. O estudo revela como o presidente vai minando dia a dia os fundamentos da democracia conquistada com tanto esforço após a ditadura militar.
Nestes casos em que um político coloca em perigo os valores da liberdade e ameaça todos os dias com um golpe militar, desejar sua morte política está mais do que justificado e é até um dever para aqueles que não renunciam a viver em liberdade.
O cenário montado em torno da hospitalização de Bolsonaro em São Paulo por seus problemas de soluço acabou se voltando contra ele. Ficou evidente que se destinou a fortalecer a campanha eleitoral, repetindo a instrumentalização feita com o atentado contra ele durante a campanha que o levou a poder em 2018. Desta vez, a campanha de mau gosto foi um tiro no pé, porque não só não despertou um movimento de compaixão, como também foi objeto de zombarias e piadas de todos os tons.
Segundo as primeiras sondagens, essa instrumentalização serviu, na verdade, para piorar seu declínio político. As redes sociais se divertiram muito produzindo memes e comentários jocosos sobre a montagem armada no hospital de luxo que o acolheu. Houve até comentários sangrentos lembrando que o presidente não só não se comoveu durante a pandemia que já ceifou mais de meio milhão de vidas, como também chegou a imitar o estertor dos doentes que estavam morrendo asfixiados em Manaus por falta de oxigênio, enquanto hoje está sendo descoberta uma suposta rede de corrupção dentro do Ministério da Saúde, à custa dos falecidos.
Desta vez, esse cenário no hospital de luxo de São Paulo foi visto e vivido pela maioria das pessoas mais como um espetáculo de marketing eleitoral do que com compaixão. Nem a entrevista que o presidente concedeu no hospital a uma TV amiga emocionou, obtendo pouca audiência.
Se sua operação após o atentado sofrido durante a campanha presidencial chegou a comover muitas pessoas, que acabaram votando nele por compaixão, e até o transformou em mito, desta vez o espetáculo, além de não convencer, foi objeto de comédia.
Aqueles que aconselham o presidente a fazer esses shows com suas doenças para despertar compaixão e empatia se equivocaram desta vez. Se o objetivo era criar uma vitimização para recuperar o consenso que está se perdendo, eles se enganaram. E o problema é que a partir de agora esse tipo de marketing eleitoral que apela para os sentimentos de compaixão das pessoas começou a se desfazer.
Hoje Bolsonaro é acusado até de genocídio por seu comportamento na pandemia. O presidente ou quem o aconselha poderia ter entendido que transformar seus ataques de soluço em moeda eleitoral, movendo sentimentos de compaixão, poderia se tornar um bumerangue contra ele.
O que fizeram, efetivamente, foi transformar seu mal-estar em chacota. Todos sabemos que a publicidade é hoje a alma do comércio, e até na política os bons marqueteiros são pagos a preço de ouro. Mas quando se tenta fazer essa publicidade explorando a dor e o sofrimento, ela acaba sendo contraproducente.
As pessoas, até as mais simples e sem cultura, podem ser enganadas uma vez, mas não duas. Essa publicidade fracassada das dores abdominais do presidente demonstraram isso. Que seus conselheiros publicitários estejam atentos, sejam seus filhos ou profissionais, porque as pessoas são mais inteligente do que imaginamos e sabem distinguir muito bem um drama verdadeiro de uma pura manobra para tentar ressuscitar o consenso político perdido.
Os brasileiros que sofreram e continuam sofrendo na pandemia as perdas de seus entes queridos dificilmente poderiam, neste momento, comover-se e chorar por ver o presidente padecer uma dor intestinal. E, como se sabe, quando a opinião pública se vê enganada e ludibriada uma vez, é difícil recuperar a confiança perdida.
As próximas manifestações nacionais marcadas para sábado poderão ser um termômetro para medir se roda essa montagem publicitária em torno da nova doença do presidente, que ele disse e repetiu até o cansaço que era consequência da facada recebida de um suposto “filiado ao PSOL, braço esquerdo do PT”, serviu para aumentar ou diminuir o já clássico “Fora Bolsonaro”, que equivale a lhe desejar a pena de morte “política” para que o Brasil possa recuperar sua normalidade democrática, cada dia mais ameaçada por um presidente que insiste em aparecer como um mito e um messias enviado por Deus.
Os mitos, porém, acabam, as mentiras são descobertas, os valores triunfam no final sobre as farsas, e os instintos de vida e anseios de liberdade acabam prevalecendo, cedo ou tarde, contra as fúrias assassinas dos tiranos.
É uma questão delicada e pessoal desejar a morte de um semelhante, por muitos que sejam os crimes que pesem sobre sua consciência. A pena de morte foi abolida na maior parte dos países civilizados, entre eles o Brasil, porque se considera que a vida deve prevalecer sobre a morte.
A Igreja Católica manteve a pena de morte no pequeno Estado do Vaticano até 1929. Foi abolida pelo papa Paulo VI em 1971, depois do Concílio Vaticano II, e só em 2001 foi excluída definitivamente das leis do Vaticano.
Estima-se que durante a Idade Média, principalmente durante a Inquisição, foram condenadas à morte pela Igreja 1.250 pessoas, segundo o historiador Andrea Del Col. São Tomás de Aquino, Doutor Universal da Igreja, defendia que se pudesse assassinar o tirano, pelo bem da comunidade.
Que Bolsonaro é a favor da tortura e da pena morte, é evidente para todos. Ainda hoje ele lamenta que a ditadura militar não tenha assassinado pelo menos mais 30.000 pessoas. Sua política está impregnada de destruição e morte.
Se hoje a abolição da pena de morte é considerada uma conquista civilizatória, o que não deve ser proibido é o desejo da morte política dos tiranos e ditadores que ameaçam a democracia e os valores fundamentais nos quais se baseia nossa civilização moderna. Eles devem ser condenados nas urnas, essas que o presidente tanto teme.
No Brasil, está claro que o presidente Bolsonaro atenta contra os valores da liberdade e da democracia, como bem revelou o trabalho investigativo “O método Bolsonaro: um assalto à democracia em câmera lenta”, realizado por sete jornalistas deste jornal e publicado no domingo. O estudo revela como o presidente vai minando dia a dia os fundamentos da democracia conquistada com tanto esforço após a ditadura militar.
Nestes casos em que um político coloca em perigo os valores da liberdade e ameaça todos os dias com um golpe militar, desejar sua morte política está mais do que justificado e é até um dever para aqueles que não renunciam a viver em liberdade.
O cenário montado em torno da hospitalização de Bolsonaro em São Paulo por seus problemas de soluço acabou se voltando contra ele. Ficou evidente que se destinou a fortalecer a campanha eleitoral, repetindo a instrumentalização feita com o atentado contra ele durante a campanha que o levou a poder em 2018. Desta vez, a campanha de mau gosto foi um tiro no pé, porque não só não despertou um movimento de compaixão, como também foi objeto de zombarias e piadas de todos os tons.
Segundo as primeiras sondagens, essa instrumentalização serviu, na verdade, para piorar seu declínio político. As redes sociais se divertiram muito produzindo memes e comentários jocosos sobre a montagem armada no hospital de luxo que o acolheu. Houve até comentários sangrentos lembrando que o presidente não só não se comoveu durante a pandemia que já ceifou mais de meio milhão de vidas, como também chegou a imitar o estertor dos doentes que estavam morrendo asfixiados em Manaus por falta de oxigênio, enquanto hoje está sendo descoberta uma suposta rede de corrupção dentro do Ministério da Saúde, à custa dos falecidos.
Desta vez, esse cenário no hospital de luxo de São Paulo foi visto e vivido pela maioria das pessoas mais como um espetáculo de marketing eleitoral do que com compaixão. Nem a entrevista que o presidente concedeu no hospital a uma TV amiga emocionou, obtendo pouca audiência.
Se sua operação após o atentado sofrido durante a campanha presidencial chegou a comover muitas pessoas, que acabaram votando nele por compaixão, e até o transformou em mito, desta vez o espetáculo, além de não convencer, foi objeto de comédia.
Aqueles que aconselham o presidente a fazer esses shows com suas doenças para despertar compaixão e empatia se equivocaram desta vez. Se o objetivo era criar uma vitimização para recuperar o consenso que está se perdendo, eles se enganaram. E o problema é que a partir de agora esse tipo de marketing eleitoral que apela para os sentimentos de compaixão das pessoas começou a se desfazer.
Hoje Bolsonaro é acusado até de genocídio por seu comportamento na pandemia. O presidente ou quem o aconselha poderia ter entendido que transformar seus ataques de soluço em moeda eleitoral, movendo sentimentos de compaixão, poderia se tornar um bumerangue contra ele.
O que fizeram, efetivamente, foi transformar seu mal-estar em chacota. Todos sabemos que a publicidade é hoje a alma do comércio, e até na política os bons marqueteiros são pagos a preço de ouro. Mas quando se tenta fazer essa publicidade explorando a dor e o sofrimento, ela acaba sendo contraproducente.
As pessoas, até as mais simples e sem cultura, podem ser enganadas uma vez, mas não duas. Essa publicidade fracassada das dores abdominais do presidente demonstraram isso. Que seus conselheiros publicitários estejam atentos, sejam seus filhos ou profissionais, porque as pessoas são mais inteligente do que imaginamos e sabem distinguir muito bem um drama verdadeiro de uma pura manobra para tentar ressuscitar o consenso político perdido.
Os brasileiros que sofreram e continuam sofrendo na pandemia as perdas de seus entes queridos dificilmente poderiam, neste momento, comover-se e chorar por ver o presidente padecer uma dor intestinal. E, como se sabe, quando a opinião pública se vê enganada e ludibriada uma vez, é difícil recuperar a confiança perdida.
As próximas manifestações nacionais marcadas para sábado poderão ser um termômetro para medir se roda essa montagem publicitária em torno da nova doença do presidente, que ele disse e repetiu até o cansaço que era consequência da facada recebida de um suposto “filiado ao PSOL, braço esquerdo do PT”, serviu para aumentar ou diminuir o já clássico “Fora Bolsonaro”, que equivale a lhe desejar a pena de morte “política” para que o Brasil possa recuperar sua normalidade democrática, cada dia mais ameaçada por um presidente que insiste em aparecer como um mito e um messias enviado por Deus.
Os mitos, porém, acabam, as mentiras são descobertas, os valores triunfam no final sobre as farsas, e os instintos de vida e anseios de liberdade acabam prevalecendo, cedo ou tarde, contra as fúrias assassinas dos tiranos.
terça-feira, 20 de julho de 2021
Supersalários e Fundo Partidário
Os supersalários mensais de todo o funcionalismo foram enquadrados ao limite constitucional de R$ 39.200,00. A Câmara aprovou na terça, dia 14, barreira extinguindo quase todos os artifícios usados para ferir a Constituição e receber salários de 50, 70, 100 mil reais por mês. Economia de alguns bilhões de reais com o fim do privilégio, escandaloso e ilegal.
Depois da terça veio a quinta, dia 16, e o Congresso triplicou os recursos para a campanha eleitoral de 2022. De R$ 2 bilhões em 2020 para R$ 5,7 bilhões ano que vem. Os políticos e os parlamentares conhecem as imensas oportunidades abertas pela era digital para o acesso aos cidadãos a custo praticamente zero, caso queiram divulgar seus nomes e suas ideias.
Para que, então, tantos bilhões? Vão monetizar votos? Não mais acreditam no poder das ideias, da sintonia com os anseios da população? Eleição virou balcão? Porque não destinar a economia com os supersalários para os milhões de brasileiros sem nenhuma renda?
Depois da terça veio a quinta, dia 16, e o Congresso triplicou os recursos para a campanha eleitoral de 2022. De R$ 2 bilhões em 2020 para R$ 5,7 bilhões ano que vem. Os políticos e os parlamentares conhecem as imensas oportunidades abertas pela era digital para o acesso aos cidadãos a custo praticamente zero, caso queiram divulgar seus nomes e suas ideias.
Para que, então, tantos bilhões? Vão monetizar votos? Não mais acreditam no poder das ideias, da sintonia com os anseios da população? Eleição virou balcão? Porque não destinar a economia com os supersalários para os milhões de brasileiros sem nenhuma renda?
São terríveis as notícias sobre o empobrecimento dos brasileiros. Poder de compra da metade da população vai cair 17% este ano. Nesta semana o jornal Valor publicou que 4 em cada 10 pobres são adolescentes e crianças: 20,8 milhões de pessoas. 6,1 milhões são crianças de zero a 5 anos.
Esse contingente de brasileiros enfrenta restrições que vão comprometer suas oportunidades no futuro. O custo para erradicar a pobreza infantil no Brasil é calculado em 50 bilhões por ano. O de queimar outra geração, como estamos fazendo, é incalculável.
Esse contingente de brasileiros enfrenta restrições que vão comprometer suas oportunidades no futuro. O custo para erradicar a pobreza infantil no Brasil é calculado em 50 bilhões por ano. O de queimar outra geração, como estamos fazendo, é incalculável.
O circo e a Justiça
Sempre que surge um novo processo judicial, habituamo-nos a ouvir e a ler que chegou o tempo da Justiça e que, portanto, todos os outros tempos – o da política, o da economia e até o dos interesses nem sempre confessos – devem ser congelados. O silêncio, costuma dizer-se nesses momentos, é crucial para deixar a Justiça funcionar. No entanto, é capaz de já ter chegado a altura de aceitar que a Justiça não tem um só tempo. Por aquilo a que temos assistido, com alguma frequência, será melhor passarmos a considerar que a Justiça em Portugal tem dois tempos: primeiro o do circo e só depois o da Justiça.
O tempo do circo é aquele em que nos tentam passar a ideia de que a Justiça é rápida, eficaz e implacável. É aquele em que acordamos a saber que um conjunto de buscas milimetricamente organizadas conseguiu desmantelar uma cadeia de movimentos suspeitos e que, por isso, a detenção de uns quantos figurões é, naturalmente, o desfecho normal desse processo. É o momento em que o cidadão comum sente que a Justiça está, de facto, a cumprir o seu papel e a ir atrás dos poderosos – aqueles que pareciam viver em clima de impunidade, protegidos por forças ocultas. Essa perceção é alicerçada, quase sempre, em pormenores que se vão libertando da investigação criminal: esquemas “ardilosos”, conversas em código, relações de causa-efeito que ajudam a construir uma narrativa que faz todo o sentido e que, pelos factos expostos, merece ser punida. Nos casos com figuras mais mediáticas, tudo isso é acompanhado por detenções para interrogatório através de justificações muito duvidosas, mas que ajudam ao circo: permitem, por exemplo, que os detidos sejam depois obrigados a deslocarem-se da esquadra ao tribunal, com escolta policial e a cruzar a cidade, ignorando as regras de trânsito, numa emergência despropositada, mas que faz o gáudio dos diretos televisivos – em especial quando já não há o autocarro da Seleção para acompanhar da mesma forma.
Depois temos, então, o tempo da Justiça. Aquele em que já não são as narrativas que contam, mas apenas as provas recolhidas durante as investigações, as buscas e os interrogatórios. E as conclusões do tempo da Justiça nem sempre são coincidentes com as do tempo do circo. No caso dos Vistos Gold, por exemplo, as provas, na era do circo, eram “arrasadoras” acerca do “lamaçal” existente no SEF – de acordo com o que se lia no texto da acusação. Depois, o ex-ministro Miguel Macedo foi absolvido pelo tribunal. Algo semelhante ocorreu no caso Tancos: há poucos dias, em tribunal, o próprio Ministério Púbico pediu a absolvição do também ex-ministro Azeredo Lopes, por não ter, afinal, provas concludentes para o acusar.
O tempo do circo tem sido, isso sim, terreno fértil para lançar acusações sobre o “regime”, alegadamente podre, em que vivemos. A narrativa não é despropositada, convenhamos – mas raramente tem sido sustentada em provas. Deixemos, portanto, o circo e concentremo-nos na Justiça – e no seu tempo.
O tempo do circo é aquele em que nos tentam passar a ideia de que a Justiça é rápida, eficaz e implacável. É aquele em que acordamos a saber que um conjunto de buscas milimetricamente organizadas conseguiu desmantelar uma cadeia de movimentos suspeitos e que, por isso, a detenção de uns quantos figurões é, naturalmente, o desfecho normal desse processo. É o momento em que o cidadão comum sente que a Justiça está, de facto, a cumprir o seu papel e a ir atrás dos poderosos – aqueles que pareciam viver em clima de impunidade, protegidos por forças ocultas. Essa perceção é alicerçada, quase sempre, em pormenores que se vão libertando da investigação criminal: esquemas “ardilosos”, conversas em código, relações de causa-efeito que ajudam a construir uma narrativa que faz todo o sentido e que, pelos factos expostos, merece ser punida. Nos casos com figuras mais mediáticas, tudo isso é acompanhado por detenções para interrogatório através de justificações muito duvidosas, mas que ajudam ao circo: permitem, por exemplo, que os detidos sejam depois obrigados a deslocarem-se da esquadra ao tribunal, com escolta policial e a cruzar a cidade, ignorando as regras de trânsito, numa emergência despropositada, mas que faz o gáudio dos diretos televisivos – em especial quando já não há o autocarro da Seleção para acompanhar da mesma forma.
Depois temos, então, o tempo da Justiça. Aquele em que já não são as narrativas que contam, mas apenas as provas recolhidas durante as investigações, as buscas e os interrogatórios. E as conclusões do tempo da Justiça nem sempre são coincidentes com as do tempo do circo. No caso dos Vistos Gold, por exemplo, as provas, na era do circo, eram “arrasadoras” acerca do “lamaçal” existente no SEF – de acordo com o que se lia no texto da acusação. Depois, o ex-ministro Miguel Macedo foi absolvido pelo tribunal. Algo semelhante ocorreu no caso Tancos: há poucos dias, em tribunal, o próprio Ministério Púbico pediu a absolvição do também ex-ministro Azeredo Lopes, por não ter, afinal, provas concludentes para o acusar.
O tempo do circo tem sido, isso sim, terreno fértil para lançar acusações sobre o “regime”, alegadamente podre, em que vivemos. A narrativa não é despropositada, convenhamos – mas raramente tem sido sustentada em provas. Deixemos, portanto, o circo e concentremo-nos na Justiça – e no seu tempo.
segunda-feira, 19 de julho de 2021
Lições de política no Brasil de Bolsonaro
O Ministério Público está cobrando da Ancine a contratação dos projetos aprovados, há mais de dois anos, pelo Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). A agência tem 120 dias para resolver o problema que ela mesma criou colaborando, através da política de embaraço à produção, com o boicote do governo à cultura do país. Não sei se o presidente, no seu cantinho de hospital, vai tomar conhecimento dessa história. Mas, logo ou depois, vai certamente se aborrecer com o juiz que tenta, no que está a seu alcance, evitar que o Brasil caia numa Idade Média tardia, para onde Bolsonaro nos empurra com entusiasmo.
Jair Bolsonaro era um presidente recente. Embora nunca tivéssemos, nem de longe, pensado em votar nele, ainda não tínhamos descoberto, direitinho e por completo, seu caráter indecoroso e enganador. Ou o estávamos descobrindo, mas faltava completar o desenho de um caráter que iria se revelar de corpo inteiro, sobretudo na pandemia (um genocídio de quase 600 mil cidadãs e cidadãos). Não tínhamos tido um candidato que nos ajudasse a retomar um rumo que Dilma havia interrompido. Fernando Haddad parecia um cara correto, um bom sujeito capaz de fazer uma boa administração do país. Mas desprovido de sonhos e da audácia de que tanto precisávamos para recolocar o Brasil na trilha da poesia.
Desde a faculdade, na agitação do movimento estudantil, sabíamos que Brasília, por exemplo, era uma porra-louquice responsável pela inflação que maltratava a população. Mas não podíamos evitar um friozinho na barriga, um arrepio na nuca cada vez que via a imagem de um daqueles monumentos, belos edifícios e palácios modernos, gloriosamente esculpidos no deserto pelo maior artista plástico de todos os tempos, o criador sem freios Oscar Niemeyer.
Cada um de nós, mesmo que não o declarasse, desejava estar à altura daquela grandeza. O novo Brasil, mesmo que não gostássemos da política socioeconômica vigente, fosse ela qual fosse, tinha que ser construído à semelhança do que tudo aquilo significava. Era aquele destemor, era aquela força de vontade, era aquela a louca mania que nos atraía para a aventura de mudar o mundo. Mudando-o certamente na direção de nosso próprio rumo. O Brasil estava condenado a propor à civilização humana um jeito de viver que nada tinha a ver com a medíocre dualidade da Guerra Fria. A nossa revolução vinha ao mundo com um sorriso de tudo; e muita certeza e confiança visíveis no coração.
Era esse o nosso instrumento de criação. Na arquitetura, como na poesia, na música, na literatura, na pintura, no teatro, no cinema que começávamos a inventar. Na política e nas nossas lições práticas de política, estávamos reproduzindo, em outro espaço, um momento especial na história do país — na passagem do século XVII para o XVIII, uma geração colonial delirante, sem lideranças evidentes, garantia, com sua coragem e sua imaginação, grande parte da vastidão de nossos 8,5 milhões de km², até hoje uma raridade no mundo.
Por falta de ousadia e confiança na democracia, o Brasil está hoje deixando corromper-se a teia de valores que o diferenciava de tantos povos melancólicos pelo mundo afora. Está aceitando a melancolia como fatalidade, com o argumento ignorante de que a Humanidade é assim mesmo. Prefiro voltar a ser como quando a gente preferia agir em vez de assistir (em geral, com muita lamentação). Mesmo que às vezes não nos entendessem, não tínhamos vergonha de não nos sentirmos obrigados a ser o que queriam que fôssemos. É contra essa rendição que temos que nos bater, fazer política diante da Ancine e do que for.
Jair Bolsonaro era um presidente recente. Embora nunca tivéssemos, nem de longe, pensado em votar nele, ainda não tínhamos descoberto, direitinho e por completo, seu caráter indecoroso e enganador. Ou o estávamos descobrindo, mas faltava completar o desenho de um caráter que iria se revelar de corpo inteiro, sobretudo na pandemia (um genocídio de quase 600 mil cidadãs e cidadãos). Não tínhamos tido um candidato que nos ajudasse a retomar um rumo que Dilma havia interrompido. Fernando Haddad parecia um cara correto, um bom sujeito capaz de fazer uma boa administração do país. Mas desprovido de sonhos e da audácia de que tanto precisávamos para recolocar o Brasil na trilha da poesia.
Desde a faculdade, na agitação do movimento estudantil, sabíamos que Brasília, por exemplo, era uma porra-louquice responsável pela inflação que maltratava a população. Mas não podíamos evitar um friozinho na barriga, um arrepio na nuca cada vez que via a imagem de um daqueles monumentos, belos edifícios e palácios modernos, gloriosamente esculpidos no deserto pelo maior artista plástico de todos os tempos, o criador sem freios Oscar Niemeyer.
Cada um de nós, mesmo que não o declarasse, desejava estar à altura daquela grandeza. O novo Brasil, mesmo que não gostássemos da política socioeconômica vigente, fosse ela qual fosse, tinha que ser construído à semelhança do que tudo aquilo significava. Era aquele destemor, era aquela força de vontade, era aquela a louca mania que nos atraía para a aventura de mudar o mundo. Mudando-o certamente na direção de nosso próprio rumo. O Brasil estava condenado a propor à civilização humana um jeito de viver que nada tinha a ver com a medíocre dualidade da Guerra Fria. A nossa revolução vinha ao mundo com um sorriso de tudo; e muita certeza e confiança visíveis no coração.
Era esse o nosso instrumento de criação. Na arquitetura, como na poesia, na música, na literatura, na pintura, no teatro, no cinema que começávamos a inventar. Na política e nas nossas lições práticas de política, estávamos reproduzindo, em outro espaço, um momento especial na história do país — na passagem do século XVII para o XVIII, uma geração colonial delirante, sem lideranças evidentes, garantia, com sua coragem e sua imaginação, grande parte da vastidão de nossos 8,5 milhões de km², até hoje uma raridade no mundo.
Por falta de ousadia e confiança na democracia, o Brasil está hoje deixando corromper-se a teia de valores que o diferenciava de tantos povos melancólicos pelo mundo afora. Está aceitando a melancolia como fatalidade, com o argumento ignorante de que a Humanidade é assim mesmo. Prefiro voltar a ser como quando a gente preferia agir em vez de assistir (em geral, com muita lamentação). Mesmo que às vezes não nos entendessem, não tínhamos vergonha de não nos sentirmos obrigados a ser o que queriam que fôssemos. É contra essa rendição que temos que nos bater, fazer política diante da Ancine e do que for.
Uma colisão em câmera lenta
Faz parte de nosso imaginário de catástrofes aquelas cenas de acidentes automobilísticos em câmera lenta, feitas com manequins no lugar de seres humanos. Você observa o carro lentamente bater contra um muro para, em uma singular mistura de tragédia e assepsia, tornar-se o espectador transcendente do choque frontal quebrando os vidros, prensando a lataria e arremessando os corpos de plástico para fora. A função desses espetáculos pedagógicos é pretensamente nos acordar para o perigo de nossas condutas automobilísticas enquanto ainda há tempo, enquanto ainda não ocupamos o lugar daqueles manequins impessoais, produzidos para passivamente serem destruídos. Mas eles acabavam por alimentar um certo fascínio pela destruição que parecia a espreita de cada pisada mais funda no acelerador.
A história brasileira recente pode ser descrita dessa forma: como uma colisão em câmera lenta. Vivemos em uma espécie de expectativa difusa de explosão, que alguns lutam por dissipar o mais rápido possível fazendo gestos e ações próprios de uma “vida normal” cuja realidade é da ordem da lembrança. A cada dia que passa é mais evidente que a única questão realmente relevante é quando vamos colidir.
Alguns percebem o Brasil atual como uma forma de pesadelo. Esses pedem aos céus para acordarmos e voltarmos à realidade. Mas talvez fosse mais correto dizer que não estamos em pesadelo algum. Nós simplesmente acordamos. Esse é o Brasil real e deveria ser a régua para entendermos nossos verdadeiros problemas. Antes, o que havia era um sonho para poucos e um pesadelo infernal para a grande maioria. Ou, se quisermos, poderíamos dizer que, antes, alguns estavam dormindo enquanto a grande maioria não conseguia dormir.
Pois seria o caso de insistir agora como o Brasil inovou nas últimas décadas criando uma espécie de democracia geograficamente limitada. Nas regiões onde vive a classe média e alta, tal democracia parecia existir, com sua garantia elementar da integridade dos corpos. Mas bastavam alguns quilômetros em direção às periferias para entrarmos em uma terra na qual policiais invadem casas sem mandado, pessoas desaparecem pelas mãos de milícias, crianças morrem por balas perdidas, sujeitos não podem registrar uma ocorrência em uma delegacia sem temer alguma forma de retaliação vinda das próprias pessoas que deveriam protegê-las. Ou seja, nessas áreas a “democracia” nunca existiu, e nenhum governo viu como tarefa sua modificar tal partilha. Quando se fala que o Brasil está a perder sua democracia, deveríamos começar por lembrar do fato de ser impossível perder o que você nunca teve.
Nesse sentido, ao menos agora a classe política poderia nos poupar de vender mais uma rodada de ilusões a respeito da necessidade de nos livrarmos de uma extrema-direita incontrolável para voltarmos ao respeito aos limites mínimos de uma “pacto democrático” que teria existido por esses terras no período pós-ditadura militar. Uma das patologias nacionais é essa crença de que um escândalo, uma eleição, um pacto pelo alto irá nos tirar da rota da colisão, irá recolocar as coisas nos trilhos e nos fazer voltar a sonhar e cantar. Talvez fosse o caso de dizer: dessa vez, isso provavelmente não vai ocorrer.
É possível dizer isto porque, depois de um certo tempo, dá para adivinhar a lógica de Jair Bolsonaro e de seus fieis. Ela se resume a algumas ações básicas. A primeira delas é sua incrível capacidade de, diante de uma crise, sempre dobrar a aposta e correr para frente. Como já se disse antes, pode parecer loucura, mas tem método. Ele sabe que, caso perca as eleições do ano que vem, provavelmente a diferença não será grande. E nesse cenário, uma confusão à la Trump já está no script.
Bolsonaro provavelmente tem razão. Ele conta com um repique da economia devido à retomada de demandas globais por matérias-primas depois do desconfinamento geral. Ele sabe que se sobreviver os próximos meses, poderá contar com uma economia em melhores condições. Depois, é contar com a secular tendência dos “liberais” latino-americanos a abraçar governos autoritários quando vem o povo batendo as portas do poder. Poderíamos chamar isso de “complexo de Vargas-Llosa”. Algo que, diga-se de passagem, não tem nada de muito complexo.
Um liberal latino-americano é alguém que pode até aprender a escrever e ganhar um prêmio Nobel, alguém que pode até fazer palestras mundo afora para falar das riqueza de seu povo mas que, em situações onde as clássicas partilhas de poder e riqueza são questionadas, sabe muito bem qual é seu lado. Normalmente, é o lado da filha do ditador ou do coronel que “fala mais que devia” mas que entrega tudo o que promete (“reforma” trabalhista, previdenciária, fiscal etc.). Um liberal latino-americano conhece bem sua classe de origem e se tem algo que ele desconhece é raiva em relação a sua própria classe e meio. Quem confia em frente ampla devia ler um pouco mais Vargas-Llosa.
Já a segunda ação típica desse governo é colocar as Forças Armadas cada vez mais dentro do cenário político nacional. Pergunto-me por quanto tempo ainda vão nos vender a narrativa do governo sempre às voltas com conflitos entre as Forças Armadas e o presidente. Essa narrativa faz parte da estratégia de preservação das Forças Armadas. Mas, para além da narrativa, a verdadeira face fardada foi mostrada semana passada, com a nota ameaçando a CPI e o poder legislativo. Nada muito diferente do senhor Villas-Boas mandando tuítes com ameaças contra o STF anos atrás. De toda forma, quem acredita que as Forças Armadas entregarão os 7.000 cargos que ocupam caso percam a eleição deveria lembrar o que significa situações nas quais um setor do poder constitui um Estado dentro do Estado.
Ou seja, é claro que há duas saídas para a oposição. A primeira é deixar de ser oposição, ou seja, ser apenas oposição à pessoa de Jair Bolsonaro e não aos interesses que ele defende tão bem. Em nome da “governabilidade” possível seremos obrigados a nos contentar com um horizonte ainda mais miseravelmente rebaixado de expectativas. Então teremos um governo que não reverá nenhuma derrota da classe trabalhadora, nem tocará na natureza “moderadora” do poder militar.
No entanto, é difícil não lembrar aqui de um filme de Sophia Coppola chamado Maria Antonieta. Como o título indica, é um filme sobre a rainha Maria Antonieta, aquela dos brioches. Durante todo o filme, acompanhamos Maria em suas festas ao som de Siouxsie and the Banshees, sua liberação sexual, sua afirmação de si, até o momento em que algo que não deveria estar lá aparece e muda tudo. Mas aparece não como um personagem. Na verdade, aparece como um poder de decomposição, como uma força sem figura que tudo desaba. Era o povo de famintos, de empobrecidos, de enlutados, cuja única presença no filme é como o som emudecedor que Maria deve ouvir da sacada do Palácio de Versalhes. Bem, imaginar que esse povo que já demonstrou sua força na Colômbia, no Chile, não aparecerá por aqui pode ser um cálculo muito ruim. Mas se a oposição política tentar colocar-se a seu lado, ela perderá seus novos amigos da Frente Ampla. Amigos que, podem apostar dois vinténs, irão abraçar novamente Jair Bolsonaro nessa situação. Isso talvez explique por que o Brasil tem uma oposição que, no fundo, reza para que nada ocorra. Mas como aprendemos nesses filmes de acidentes automobilísticos, no final o carro bate.
Nessas circunstâncias, melhor seria admitir de vez que o carro baterá e que não há como salvá-lo. O Brasil que conhecemos acabou. Forças efetivas de oposição estariam a fazer de sua bandeira uma profunda refundação institucional do país, assim como formas de desmonte da estrutura necropolítica de seu estado e luta real contra as classes responsáveis pela concentração econômica e espoliação geral. Essas mesmas classes que enriqueceram com a pandemia e que sonham em fazer turismo espacial nas novas naves de Robert Bransom ou Jeff Bezos.
A história brasileira recente pode ser descrita dessa forma: como uma colisão em câmera lenta. Vivemos em uma espécie de expectativa difusa de explosão, que alguns lutam por dissipar o mais rápido possível fazendo gestos e ações próprios de uma “vida normal” cuja realidade é da ordem da lembrança. A cada dia que passa é mais evidente que a única questão realmente relevante é quando vamos colidir.
Alguns percebem o Brasil atual como uma forma de pesadelo. Esses pedem aos céus para acordarmos e voltarmos à realidade. Mas talvez fosse mais correto dizer que não estamos em pesadelo algum. Nós simplesmente acordamos. Esse é o Brasil real e deveria ser a régua para entendermos nossos verdadeiros problemas. Antes, o que havia era um sonho para poucos e um pesadelo infernal para a grande maioria. Ou, se quisermos, poderíamos dizer que, antes, alguns estavam dormindo enquanto a grande maioria não conseguia dormir.
Pois seria o caso de insistir agora como o Brasil inovou nas últimas décadas criando uma espécie de democracia geograficamente limitada. Nas regiões onde vive a classe média e alta, tal democracia parecia existir, com sua garantia elementar da integridade dos corpos. Mas bastavam alguns quilômetros em direção às periferias para entrarmos em uma terra na qual policiais invadem casas sem mandado, pessoas desaparecem pelas mãos de milícias, crianças morrem por balas perdidas, sujeitos não podem registrar uma ocorrência em uma delegacia sem temer alguma forma de retaliação vinda das próprias pessoas que deveriam protegê-las. Ou seja, nessas áreas a “democracia” nunca existiu, e nenhum governo viu como tarefa sua modificar tal partilha. Quando se fala que o Brasil está a perder sua democracia, deveríamos começar por lembrar do fato de ser impossível perder o que você nunca teve.
Nesse sentido, ao menos agora a classe política poderia nos poupar de vender mais uma rodada de ilusões a respeito da necessidade de nos livrarmos de uma extrema-direita incontrolável para voltarmos ao respeito aos limites mínimos de uma “pacto democrático” que teria existido por esses terras no período pós-ditadura militar. Uma das patologias nacionais é essa crença de que um escândalo, uma eleição, um pacto pelo alto irá nos tirar da rota da colisão, irá recolocar as coisas nos trilhos e nos fazer voltar a sonhar e cantar. Talvez fosse o caso de dizer: dessa vez, isso provavelmente não vai ocorrer.
É possível dizer isto porque, depois de um certo tempo, dá para adivinhar a lógica de Jair Bolsonaro e de seus fieis. Ela se resume a algumas ações básicas. A primeira delas é sua incrível capacidade de, diante de uma crise, sempre dobrar a aposta e correr para frente. Como já se disse antes, pode parecer loucura, mas tem método. Ele sabe que, caso perca as eleições do ano que vem, provavelmente a diferença não será grande. E nesse cenário, uma confusão à la Trump já está no script.
Bolsonaro provavelmente tem razão. Ele conta com um repique da economia devido à retomada de demandas globais por matérias-primas depois do desconfinamento geral. Ele sabe que se sobreviver os próximos meses, poderá contar com uma economia em melhores condições. Depois, é contar com a secular tendência dos “liberais” latino-americanos a abraçar governos autoritários quando vem o povo batendo as portas do poder. Poderíamos chamar isso de “complexo de Vargas-Llosa”. Algo que, diga-se de passagem, não tem nada de muito complexo.
Um liberal latino-americano é alguém que pode até aprender a escrever e ganhar um prêmio Nobel, alguém que pode até fazer palestras mundo afora para falar das riqueza de seu povo mas que, em situações onde as clássicas partilhas de poder e riqueza são questionadas, sabe muito bem qual é seu lado. Normalmente, é o lado da filha do ditador ou do coronel que “fala mais que devia” mas que entrega tudo o que promete (“reforma” trabalhista, previdenciária, fiscal etc.). Um liberal latino-americano conhece bem sua classe de origem e se tem algo que ele desconhece é raiva em relação a sua própria classe e meio. Quem confia em frente ampla devia ler um pouco mais Vargas-Llosa.
Já a segunda ação típica desse governo é colocar as Forças Armadas cada vez mais dentro do cenário político nacional. Pergunto-me por quanto tempo ainda vão nos vender a narrativa do governo sempre às voltas com conflitos entre as Forças Armadas e o presidente. Essa narrativa faz parte da estratégia de preservação das Forças Armadas. Mas, para além da narrativa, a verdadeira face fardada foi mostrada semana passada, com a nota ameaçando a CPI e o poder legislativo. Nada muito diferente do senhor Villas-Boas mandando tuítes com ameaças contra o STF anos atrás. De toda forma, quem acredita que as Forças Armadas entregarão os 7.000 cargos que ocupam caso percam a eleição deveria lembrar o que significa situações nas quais um setor do poder constitui um Estado dentro do Estado.
Ou seja, é claro que há duas saídas para a oposição. A primeira é deixar de ser oposição, ou seja, ser apenas oposição à pessoa de Jair Bolsonaro e não aos interesses que ele defende tão bem. Em nome da “governabilidade” possível seremos obrigados a nos contentar com um horizonte ainda mais miseravelmente rebaixado de expectativas. Então teremos um governo que não reverá nenhuma derrota da classe trabalhadora, nem tocará na natureza “moderadora” do poder militar.
No entanto, é difícil não lembrar aqui de um filme de Sophia Coppola chamado Maria Antonieta. Como o título indica, é um filme sobre a rainha Maria Antonieta, aquela dos brioches. Durante todo o filme, acompanhamos Maria em suas festas ao som de Siouxsie and the Banshees, sua liberação sexual, sua afirmação de si, até o momento em que algo que não deveria estar lá aparece e muda tudo. Mas aparece não como um personagem. Na verdade, aparece como um poder de decomposição, como uma força sem figura que tudo desaba. Era o povo de famintos, de empobrecidos, de enlutados, cuja única presença no filme é como o som emudecedor que Maria deve ouvir da sacada do Palácio de Versalhes. Bem, imaginar que esse povo que já demonstrou sua força na Colômbia, no Chile, não aparecerá por aqui pode ser um cálculo muito ruim. Mas se a oposição política tentar colocar-se a seu lado, ela perderá seus novos amigos da Frente Ampla. Amigos que, podem apostar dois vinténs, irão abraçar novamente Jair Bolsonaro nessa situação. Isso talvez explique por que o Brasil tem uma oposição que, no fundo, reza para que nada ocorra. Mas como aprendemos nesses filmes de acidentes automobilísticos, no final o carro bate.
Nessas circunstâncias, melhor seria admitir de vez que o carro baterá e que não há como salvá-lo. O Brasil que conhecemos acabou. Forças efetivas de oposição estariam a fazer de sua bandeira uma profunda refundação institucional do país, assim como formas de desmonte da estrutura necropolítica de seu estado e luta real contra as classes responsáveis pela concentração econômica e espoliação geral. Essas mesmas classes que enriqueceram com a pandemia e que sonham em fazer turismo espacial nas novas naves de Robert Bransom ou Jeff Bezos.
'Por minha Pátria eu morro. E também mato e faço coisas que não vou listar aqui'
A ascensão do general da reserva Ridauto Fernandes ao comando da diretoria de logística do Ministério da Saúde deu aos militares uma vitória na batalha pelo cargo, que a CPI da Covid mostrou ser alvo de disputa entre os fardados ligados a Eduardo Pazuello e o Centrão. Mas não só. Deu também ao presidente Jair Bolsonaro o conforto de ter num cargo tão sensível um seguidor fiel.
Em novembro passado, no auge da briga pelas vacinas, ele protestou numa dessas listas contra um artigo que o jornalista Fernando Gabeira publicou em O GLOBO, intitulado "O perigoso esporte de humilhar generais".
Indignado com a afirmação de que Bolsonaro rebaixava as Forças Armadas ao desautorizar Pazuello em negociações de vacinas, Ridauto escreveu: "Por alguns valores, um militar passa (facilmente) por cima de muita coisa. Desculpem os que se sentirem ofendidos, mas por minha Pátria em morro. E também mato e faço coisas que não vou listar aqui, para não provocar chiliques."
Egresso das Forças Especiais, assim como vários outros membros do governo, o Ridauto formou-se na turma da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman) em 1981. Chegou a general de Brigada em 2017, mas deixou as forças logo depois para trabalhar em consultorias.
Na mensagem enviada em novembro a uma lista de WhatsApp da qual participam oficiais militares e PMs, o general não explicou que coisas ele faz que não poderia listar. Mas deixou claro que não estava brincando.
Consultado por mim sobre a mensagem, o general diz que ela expressa seu pensamento desde sempre e que tem orgulho disso. "Destaco que, na data em que o expressei, não integrava qualquer órgão de governo e, portanto, falava somente por mim, com a liberdade que a lei me garantia".
Militares de carreira são escravos de seus valores. Isso é o que a sociedade não entende. E, como seres humanos, são diferentes uns dos outros. Inclusive quanto à escala de valores, que varia de um para o outro. De um modo geral, varia pouco. O que quero dizer com isso, em relação ao tema abordado pelo ex-MR-8 Gabeira, é que, por alguns valores, um militar passa (facilmente) por cima de muita coisa. Desculpem os que se sentirem ofendidos, mas por minha Pátria em morro. E também mato e faço coisas que não vou listar aqui, para não provocar chiliques. Se eu achar que minha Pátria estiver precisando, aceito de cabeça erguida humilhações e cusparadas. E, se achar que minha Pátria estiver precisando, providenciarei para que aquele que a esteja agredindo seja neutralizado. Adoro essa palavra, neutralizado. Que ideia essa, Gabeira. Pensar que a imagem do Exército e das Forças Armadas será arranhada, triscada sequer, porque o Presidente da República mandou um de seus ministros, que também é militar, fazer algo com que não concorda e o ministro, DISCIPLINADO, aceitou. Que ideia, Gabeira. Essa convivência próxima que vc mesmo diz que teve com certas lideranças militares não lhe ensinou nada? Mas não sou ingênuo de achar que vc apenas se enganou. Ah, não. Cada palavra sua é medida e pensada. E visa colocar integrantes das Forças Armadas, os menos experientes e menos preparados, contra seus Chefes. Tem coisa bem mais perigosa que humilhar generais, posso te assegurar. Quando vc diz que derrotará Bolsonaro e quantos militares estiverem a seu lado, estou imaginando que será pelo voto e pela via legal. É isso? Porque, se a ideia for outra forma QUALQUER, confesso que teria um grande prazer em estar ao lado do Presidente. Nem sempre cumprir o dever é algo sacrificante. Acha que o Exército mudou em 50 anos? Adoraria mostrar que não mudou. Gen Ridauto.
O general, que chegou a defender a decretação de estado de sítio em maio de 2020, no auge da crise entre Bolsonaro e o Supremo Tribunal Federal, faz poucas postagens em redes sociais. Mas continua manifestando apoio a Pazuello e Bolsonaro em listas fechadas de WhatsApp.
Em novembro passado, no auge da briga pelas vacinas, ele protestou numa dessas listas contra um artigo que o jornalista Fernando Gabeira publicou em O GLOBO, intitulado "O perigoso esporte de humilhar generais".
Indignado com a afirmação de que Bolsonaro rebaixava as Forças Armadas ao desautorizar Pazuello em negociações de vacinas, Ridauto escreveu: "Por alguns valores, um militar passa (facilmente) por cima de muita coisa. Desculpem os que se sentirem ofendidos, mas por minha Pátria em morro. E também mato e faço coisas que não vou listar aqui, para não provocar chiliques."
Egresso das Forças Especiais, assim como vários outros membros do governo, o Ridauto formou-se na turma da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman) em 1981. Chegou a general de Brigada em 2017, mas deixou as forças logo depois para trabalhar em consultorias.
Na mensagem enviada em novembro a uma lista de WhatsApp da qual participam oficiais militares e PMs, o general não explicou que coisas ele faz que não poderia listar. Mas deixou claro que não estava brincando.
"Se eu achar que minha Pátria estiver precisando, aceito de cabeça erguida humilhações e cusparadas. E, se achar que minha Pátria estiver precisando, providenciarei para que aquele que a esteja agredindo seja neutralizado. Adoro essa palavra, neutralizado", completou.
Ao fechar a postagem indignada com Gabeira, dizendo que teria um "grande prazer de estar ao lado do presidente" caso fosse preciso defendê-lo de alguma iniciativa ilegal para derrotá-lo, Ridauto afirmou: "Nem sempre cumprir o dever é algo sacrificante. Acha que o Exército mudou em 50 anos? Adoraria mostrar que não mudou".
Ao fechar a postagem indignada com Gabeira, dizendo que teria um "grande prazer de estar ao lado do presidente" caso fosse preciso defendê-lo de alguma iniciativa ilegal para derrotá-lo, Ridauto afirmou: "Nem sempre cumprir o dever é algo sacrificante. Acha que o Exército mudou em 50 anos? Adoraria mostrar que não mudou".
Consultado por mim sobre a mensagem, o general diz que ela expressa seu pensamento desde sempre e que tem orgulho disso. "Destaco que, na data em que o expressei, não integrava qualquer órgão de governo e, portanto, falava somente por mim, com a liberdade que a lei me garantia".
Se o general é bom de logística não se sabe, mas não há dúvidas de que pode ser o escudo de que Bolsonaro e Pazuello precisam para blindar a diretoria mais radioativa do ministério da Saúde contras as investidas da CPI da Covid.
A íntegra mensagem de Ridauto Fernandes à lista de oficiais e PMs
Além da corrupção, o roubo oficial
Pode ser pixulé, propina, comissionamento ou até recursos não contabilizados, como dizia Delúbio Soares, tesoureiro do PT pego pelo mensalão. O apelido não importa. As tenebrosas transações do Ministério da Saúde para compra de vacinas superfaturadas têm um só nome: corrupção. A ela somam-se criativas fórmulas de ladroagem, o roubo oficial, prática cada vez mais corriqueira no governo do presidente Jair Bolsonaro.
Foi-se o tempo em que Bolsonaro garantia não existir corrupção em seu governo, e das juras de combatê-la. Nada fez. Ao contrário, desmontou ciosamente o aparato que auxiliava na corrida contra o crime, em nome do seu clã, embolado nas rachadinhas, e de aliados que se metem em “rolos”.
Bolsonaro, que usou e abusou da ojeriza popular à corrupção – que ele vendia como sendo produto exclusivo do PT -, sabe o peso que a prática carrega na cabeça do eleitor. Mas cada vez fica mais difícil arrumar versões – já foram quatro até aqui, todas esfarrapadas – para escapar das acusações que pesam sobre ele e os militares de seu círculo de poder, incluindo o ex-ministro e dileto amigo Eduardo Pazuello, general da ativa.
Pazuello, que de titular da Saúde passou a sentar-se ao lado direito do presidente no Planalto, foi exibido ao país em vídeo negociando com um misterioso John a CoronaVac que Bolsonaro o proibiu de comprar porque a vacina tinha como origem a China e, claro, o governo de João Doria. Uma cena patética em que o ex-ministro e o vendedor, mascarados como manda o protocolo odiado por Bolsonaro, trocam gentilezas, falam de “portas abertas” para “vacinas futuras”. Só faltou dizer “mesmo que tenham preço quase três vezes maior” do que as doses do Butantan, representante oficial da chinesa Sinovac no Brasil. Em espantoso descaramento, agora Pazuello nega tudo. Quer convencer que ninguém viu o que viu.
Afanar dinheiro público na compra de vacinas contra um vírus que já matou mais de 540 mil brasileiros é mais do que abominável, é cruel, assassino. Mas o Brasil convive com corrupção há tanto tempo que se chega ao cúmulo de comparar valores de um roubo e outro para favorecer quem garfou menos, versão corrente de governistas fiéis para tentar blindar Bolsonaro.
O mensalão, envolvendo praticamente a mesma turma que hoje apoia Bolsonaro, foi menor do que o milionário petrolão. O escândalo PC Farias, que detonou o ex-presidente Collor de Mello, seria muito menos grave do que a dinheirama do Banestado. A máfia dos sanguessugas, que em 2006 lucrou com ambulâncias, teria roubado menos do que os anões do orçamento. E por aí vai.
Parte da desfaçatez de medir corrupção pela contabilidade do surrupio se escora na frequência da roubalheira e na quantidade apurada, confundindo o freguês. Os 6 milhões de reais de Collor viraram pó perto dos 30 milhões do Banestado, dos 105 milhões do mensalão ou 48 bilhões do petrolão. Pior: a maioria dos criminosos está livre, leve e solta, beneficiada por recursos infindos e prescrição. Prende-se com estardalhaço, solta-se por tecnicismos.
Lula, condenado pela Lava-jato, foi solto não por inocência, mas por um entendimento tardio do STF de que o foro de suas ações não seria Curitiba e sim Brasília (por que não São Paulo?), e por suspeição do juiz Sérgio Moro, que havia tido suas sentenças sobre o ex confirmadas em instâncias superiores por 11 vezes, incluindo o próprio Supremo. Delúbio é outro exemplo: acaba de ter seus processos encerrados por prescrição.
Como se não bastasse, o país convive com o “roubo por dentro”, absurdos legalizados que sugam o dinheiro dos contribuintes, tal como a portaria de Bolsonaro que autoriza o fura-teto salarial para militares aposentados que prestam serviço ao governo e para outras natas do funcionalismo público federal.
No Congresso, o pagador de impostos é extorquido de outras formas. Na compra escancarada de apoio de parlamentares feita pelo presidente para impedir um processo de impeachment, materializada nas dádivas do orçamento secreto – essa peça de legalidade para lá de duvidosa mas que está pronta para se repetir -, e com a mais aviltante das excrescências: 5,7 bilhões aprovados para o fundo eleitoral de 2022. Outro roubo oficial.
À corrupção adita-se o assalto que vira lei.
Foi-se o tempo em que Bolsonaro garantia não existir corrupção em seu governo, e das juras de combatê-la. Nada fez. Ao contrário, desmontou ciosamente o aparato que auxiliava na corrida contra o crime, em nome do seu clã, embolado nas rachadinhas, e de aliados que se metem em “rolos”.
Bolsonaro, que usou e abusou da ojeriza popular à corrupção – que ele vendia como sendo produto exclusivo do PT -, sabe o peso que a prática carrega na cabeça do eleitor. Mas cada vez fica mais difícil arrumar versões – já foram quatro até aqui, todas esfarrapadas – para escapar das acusações que pesam sobre ele e os militares de seu círculo de poder, incluindo o ex-ministro e dileto amigo Eduardo Pazuello, general da ativa.
Pazuello, que de titular da Saúde passou a sentar-se ao lado direito do presidente no Planalto, foi exibido ao país em vídeo negociando com um misterioso John a CoronaVac que Bolsonaro o proibiu de comprar porque a vacina tinha como origem a China e, claro, o governo de João Doria. Uma cena patética em que o ex-ministro e o vendedor, mascarados como manda o protocolo odiado por Bolsonaro, trocam gentilezas, falam de “portas abertas” para “vacinas futuras”. Só faltou dizer “mesmo que tenham preço quase três vezes maior” do que as doses do Butantan, representante oficial da chinesa Sinovac no Brasil. Em espantoso descaramento, agora Pazuello nega tudo. Quer convencer que ninguém viu o que viu.
Afanar dinheiro público na compra de vacinas contra um vírus que já matou mais de 540 mil brasileiros é mais do que abominável, é cruel, assassino. Mas o Brasil convive com corrupção há tanto tempo que se chega ao cúmulo de comparar valores de um roubo e outro para favorecer quem garfou menos, versão corrente de governistas fiéis para tentar blindar Bolsonaro.
O mensalão, envolvendo praticamente a mesma turma que hoje apoia Bolsonaro, foi menor do que o milionário petrolão. O escândalo PC Farias, que detonou o ex-presidente Collor de Mello, seria muito menos grave do que a dinheirama do Banestado. A máfia dos sanguessugas, que em 2006 lucrou com ambulâncias, teria roubado menos do que os anões do orçamento. E por aí vai.
Parte da desfaçatez de medir corrupção pela contabilidade do surrupio se escora na frequência da roubalheira e na quantidade apurada, confundindo o freguês. Os 6 milhões de reais de Collor viraram pó perto dos 30 milhões do Banestado, dos 105 milhões do mensalão ou 48 bilhões do petrolão. Pior: a maioria dos criminosos está livre, leve e solta, beneficiada por recursos infindos e prescrição. Prende-se com estardalhaço, solta-se por tecnicismos.
Lula, condenado pela Lava-jato, foi solto não por inocência, mas por um entendimento tardio do STF de que o foro de suas ações não seria Curitiba e sim Brasília (por que não São Paulo?), e por suspeição do juiz Sérgio Moro, que havia tido suas sentenças sobre o ex confirmadas em instâncias superiores por 11 vezes, incluindo o próprio Supremo. Delúbio é outro exemplo: acaba de ter seus processos encerrados por prescrição.
Como se não bastasse, o país convive com o “roubo por dentro”, absurdos legalizados que sugam o dinheiro dos contribuintes, tal como a portaria de Bolsonaro que autoriza o fura-teto salarial para militares aposentados que prestam serviço ao governo e para outras natas do funcionalismo público federal.
No Congresso, o pagador de impostos é extorquido de outras formas. Na compra escancarada de apoio de parlamentares feita pelo presidente para impedir um processo de impeachment, materializada nas dádivas do orçamento secreto – essa peça de legalidade para lá de duvidosa mas que está pronta para se repetir -, e com a mais aviltante das excrescências: 5,7 bilhões aprovados para o fundo eleitoral de 2022. Outro roubo oficial.
À corrupção adita-se o assalto que vira lei.
Pesadelos de Caserna
Muito ruim essa coisa dos fantasmas dos militares voltarem a assombrar nossas vidas agora. Pode ser desespero do governo, pode ser um cadáver mal sepultado, pode ser a eterna paranoia que temos de não podermos ser felizes, enfim, pode ser tudo, mas o que importa é que eles ainda assustamMiguel Paiva
Militares no poder
É beabá de qualquer gerenciamento de crise não mentir. A mentira falseia a realidade, escamoteia responsabilidades e, para prosperar, precisa de cúmplices. Por isso, acaba desnudada, como acontece agora com o general de divisão da ativa do Exército Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde responsável pelo desastre sanitário que vivemos, em coautoria com o presidente Jair Bolsonaro. Em seu depoimento na CPI da Saúde, Pazuello mentiu; agora, está no sal, porque um vídeo gravado em seu gabinete revela que negociou diretamente a compra de vacinas com empresários que faziam, diga- mos, “intermediações onerosas” com o governo. Dos 12 inves- tigados na CPI até agora, por envolvimento em negociações suspeitas, seis são militares.
Pazuello tratou da possibilidade de compra de 30 milhões de doses de CoronaVac sem envolvimento do Instituto Butantan, mesmo sabendo que o governo federal tinha um acordo com o laboratório do governo paulista para o fornecimento de até 100 milhões de unidades da vacina desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac. O vídeo obtido pela CPI da Covid foi gravado em 11 de março. Nele, Pazuello explica que o grupo fora tratar da possibilidade de adquirir as vacinas “numa compra direta com o governo chinês”.
Os intermediadores da compra representariam a empresa World Brands Distribuidora, com sede em Itajaí (SC). Pazuello teria recebido a comitiva fora da agenda oficial. Ofereceram 30 milhões de doses por US$ 28 cada uma, com depósito de metade do valor total até 2 dias depois da assinatura do contrato. Ao Butantan, o Ministério da Saúde pagou US$ 10 por dose, quase 2/3 a menos que a suposta oferta feita pelos empresários em março. Ao depor na CPI da Covid, em 20 de maio, Pazuello disse que não participava de negociações com empresas.
O ex-ministro da Saúde faz parte de um grupo de militares que se formou no Comando Militar do Leste, com sede no Rio de Janeiro, à época sob comando do ex-ministro da Defesa Fernando de Azevedo e Silva, demitido do cargo por divergir da politização e manipulação das Forças Armadas por Bolsonaro. Seu chefe de estado-maior era o atual ministro da Defesa, general Braga Netto, que foi interventor na segurança do Rio de Janeiro no governo Michel Temer e manteve absoluto sigilo sobre as investigações que apontaram o envolvimento das milícias com o assassinato da vereadora Marielle Franco, cuja revelação po- deria atrapalhar a eleição de Bolsonaro. O comandante da Vila Militar, a maior unidade do Exército, era o atual secretário-geral da Presidência, general Luiz Eduardo Ramos. Pazuello comandava a Brigada de Paraquedistas. Hoje, o grupo manda no Palácio do Planalto, na Esplanada dos Ministérios e nas Forças Armadas, como uma espécie de guarda pretoriana de Bolsonaro
Premido pela necessidade de quadros e visando seus propósitos autoritários, Bolsonaro formou um governo de viés bonapartista, com grande número de militares. Hoje, estima-se que sejam em torno de 6,2 mil oficiais nos altos escalões, ocupando funções civis, segundo a pesquisa Militarização da Administração Pública no Brasil: Projeto de Nação ou Projeto de Poder?, de William Nozaki, do Fórum Nacional das Carreiras Públicas de Estado (Fonacate). Como muitos são da ativa, como Pazuello, por exemplo, isso subverte a hierarquia militar e ameaça a democracia, ao envolver as Forças Armadas diretamente na política. Sem falar no desgaste de imagem causado pelo envolvimento de alguns elementos em negócios suspeitos e outras não-conformidades.
Alguém já disse que os homens fazem sua própria história, mas não como querem; não escolhem as circunstâncias, elas lhe foram legadas. Militares são patriotas com aptidões que podem ser muito úteis nas atividades civis, mas não têm a competência dos técnicos e gestores públicos de carreira, formados nos centros de excelência da administração direta e indireta, que são tão patriotas quanto. Afora isso, são pessoas como outras quaisquer, cuja integridade e honradez independem das suas patentes e que podem, sim, na reserva, prestar grande colaboração à administração pública, nas funções para as quais têm formação compatível.
Entretanto, são neófitos ou refratários à política propriamente dita, que não está apenas nas esferas de decisão do governo, mas em todo lugar. É aí que a panelinha de militares que hoje manda e desmanda no país está perdendo a batalha para os senadores da CPI da Covid, que formam um grupo heterogêneo, mas sintonizado com a opinião pública e a maioria da sociedade. A República democrática é um regime de partidos políticos, representativo da sociedade, formado por políticos por vocação; a tutela militar sobre a República é a gênese do autoritarismo corporativista, um regime de casta, incompatível com a Constituição de 1988 e que leva ao fascismo.
Pazuello tratou da possibilidade de compra de 30 milhões de doses de CoronaVac sem envolvimento do Instituto Butantan, mesmo sabendo que o governo federal tinha um acordo com o laboratório do governo paulista para o fornecimento de até 100 milhões de unidades da vacina desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac. O vídeo obtido pela CPI da Covid foi gravado em 11 de março. Nele, Pazuello explica que o grupo fora tratar da possibilidade de adquirir as vacinas “numa compra direta com o governo chinês”.
Os intermediadores da compra representariam a empresa World Brands Distribuidora, com sede em Itajaí (SC). Pazuello teria recebido a comitiva fora da agenda oficial. Ofereceram 30 milhões de doses por US$ 28 cada uma, com depósito de metade do valor total até 2 dias depois da assinatura do contrato. Ao Butantan, o Ministério da Saúde pagou US$ 10 por dose, quase 2/3 a menos que a suposta oferta feita pelos empresários em março. Ao depor na CPI da Covid, em 20 de maio, Pazuello disse que não participava de negociações com empresas.
O ex-ministro da Saúde faz parte de um grupo de militares que se formou no Comando Militar do Leste, com sede no Rio de Janeiro, à época sob comando do ex-ministro da Defesa Fernando de Azevedo e Silva, demitido do cargo por divergir da politização e manipulação das Forças Armadas por Bolsonaro. Seu chefe de estado-maior era o atual ministro da Defesa, general Braga Netto, que foi interventor na segurança do Rio de Janeiro no governo Michel Temer e manteve absoluto sigilo sobre as investigações que apontaram o envolvimento das milícias com o assassinato da vereadora Marielle Franco, cuja revelação po- deria atrapalhar a eleição de Bolsonaro. O comandante da Vila Militar, a maior unidade do Exército, era o atual secretário-geral da Presidência, general Luiz Eduardo Ramos. Pazuello comandava a Brigada de Paraquedistas. Hoje, o grupo manda no Palácio do Planalto, na Esplanada dos Ministérios e nas Forças Armadas, como uma espécie de guarda pretoriana de Bolsonaro
Premido pela necessidade de quadros e visando seus propósitos autoritários, Bolsonaro formou um governo de viés bonapartista, com grande número de militares. Hoje, estima-se que sejam em torno de 6,2 mil oficiais nos altos escalões, ocupando funções civis, segundo a pesquisa Militarização da Administração Pública no Brasil: Projeto de Nação ou Projeto de Poder?, de William Nozaki, do Fórum Nacional das Carreiras Públicas de Estado (Fonacate). Como muitos são da ativa, como Pazuello, por exemplo, isso subverte a hierarquia militar e ameaça a democracia, ao envolver as Forças Armadas diretamente na política. Sem falar no desgaste de imagem causado pelo envolvimento de alguns elementos em negócios suspeitos e outras não-conformidades.
Alguém já disse que os homens fazem sua própria história, mas não como querem; não escolhem as circunstâncias, elas lhe foram legadas. Militares são patriotas com aptidões que podem ser muito úteis nas atividades civis, mas não têm a competência dos técnicos e gestores públicos de carreira, formados nos centros de excelência da administração direta e indireta, que são tão patriotas quanto. Afora isso, são pessoas como outras quaisquer, cuja integridade e honradez independem das suas patentes e que podem, sim, na reserva, prestar grande colaboração à administração pública, nas funções para as quais têm formação compatível.
Entretanto, são neófitos ou refratários à política propriamente dita, que não está apenas nas esferas de decisão do governo, mas em todo lugar. É aí que a panelinha de militares que hoje manda e desmanda no país está perdendo a batalha para os senadores da CPI da Covid, que formam um grupo heterogêneo, mas sintonizado com a opinião pública e a maioria da sociedade. A República democrática é um regime de partidos políticos, representativo da sociedade, formado por políticos por vocação; a tutela militar sobre a República é a gênese do autoritarismo corporativista, um regime de casta, incompatível com a Constituição de 1988 e que leva ao fascismo.
Saqueadores na pandemia
De novo na estrada. Depois de quase um ano e meio de quarentena, sinto-me como um jogador que se ausentou longamente dos campos: um pouco fora de forma.
A grande diferença agora é que não posso acompanhar as notícias no seu fluxo. É preciso esperar o fim do dia de trabalho para saber o que está acontecendo. É de estarrecer.
Ao fim da primeira jornada, descobri que os deputados votaram um fundo eleitoral de R$ 5,7 bilhões em plena pandemia.
No momento em que nos debatemos com um governo que, pela incompetência, e possivelmente corrupção, cuidou muito mal do povo brasileiro, contribuindo para milhares de mortes, surgem os deputados saqueando os cofres públicos.
Os deputados parecem sentir a fragilidade de Bolsonaro e resolveram aprofundar a exploração das pessoas que trabalham. No passado, as eleições foram contaminadas pela relação com empresários que compravam candidatos. A ideia de um fundo eleitoral era destinada a corrigir isso, com eleições modestas e debate de programas, sobretudo agora com novas plataformas.
Parece que resolveram virar as costas para nós. Quando menciono a fragilidade de Bolsonaro, não quero me referir a sua doença, que deve ser curada nos próximos dias. A fragilidade é determinada pela existência de mais de uma centena de pedidos de impeachment. O preço que ele paga é alto e, naturalmente, a fatura deve ser distribuída por toda a sociedade.
Seria interessante lembrar os idos de 2013. As pessoas saíram às ruas e protestaram com vigor. Foi uma advertência ao próprio processo de redemocratização, que as subestimou precisamente porque os líderes estavam mais preocupados em financiar suas campanhas.
Foi no curso desse declínio de legitimidade que surgiu Bolsonaro, de forma oportunística, desafiando o que ele chamava de todo o sistema. Hoje sabemos bem que Bolsonaro não participava do grande esquema de corrupção porque criou o seu, artesanal e familiar, materializado nas rachadinhas.
No interior do Brasil, por onde ando, não há grandes manifestações. Parece que esperam pelas metrópoles, onde há mais facilidade em mobilizar e todo o aparato de divulgação está concentrado.
Isso não significa, entretanto, que as pessoas não estejam atentas a todos os golpes como esse do fundo eleitoral e a todas as desastradas atitudes de Bolsonaro, cujo prestígio se derrete.
Não creio que o processo de 2013 se repita, nos mesmos termos, como aliás nada se repete exatamente na História. Se a degradação do sistema político possibilitou a aventura de Bolsonaro e sua extrema-direita, o que mais pode acontecer se o sistema continua a se degradar?
Tenho pensado muito nas condições que possam neutralizar a extrema-direita no Brasil, para que nunca mais volte ao poder, depois de tantas mortes e tanta devastação ambiental.
Chegamos a uma situação, segundo um recente estudo, em que a Amazônia hoje emite mais gás carbônico do que retém em suas matas. A longo prazo, estão contribuindo para inviabilizar a própria humanidade.
E, no curto prazo, estão inviabilizando o que ainda podemos chamar de civilização brasileira. Bolsonaro, desmatadores, incendiários, deputados vorazes — todos parecem unidos na tarefa de devastar a esperança de construir um país decente.
O autointitulado salvador da pátria já foi para o espaço e não volta em 22. Mas o sistema político continua de costas para a sociedade.
Sem perceber essa armadilha, sem reformar o sistema político, estaremos condenados a uma sucessão de nostalgias a que chamamos generosamente de futuro. Mas, na verdade, serão apenas simulacros cavando abismos entre representantes e a sociedade.
A grande diferença agora é que não posso acompanhar as notícias no seu fluxo. É preciso esperar o fim do dia de trabalho para saber o que está acontecendo. É de estarrecer.
Ao fim da primeira jornada, descobri que os deputados votaram um fundo eleitoral de R$ 5,7 bilhões em plena pandemia.
No momento em que nos debatemos com um governo que, pela incompetência, e possivelmente corrupção, cuidou muito mal do povo brasileiro, contribuindo para milhares de mortes, surgem os deputados saqueando os cofres públicos.
Para onde quer que olhemos, o panorama é desolador. Felizmente, foi apresentada a emenda constitucional que barra a presença de militares da ativa no governo. Cinco ex-ministros da Defesa se manifestaram a favor da ideia.
Os deputados parecem sentir a fragilidade de Bolsonaro e resolveram aprofundar a exploração das pessoas que trabalham. No passado, as eleições foram contaminadas pela relação com empresários que compravam candidatos. A ideia de um fundo eleitoral era destinada a corrigir isso, com eleições modestas e debate de programas, sobretudo agora com novas plataformas.
Parece que resolveram virar as costas para nós. Quando menciono a fragilidade de Bolsonaro, não quero me referir a sua doença, que deve ser curada nos próximos dias. A fragilidade é determinada pela existência de mais de uma centena de pedidos de impeachment. O preço que ele paga é alto e, naturalmente, a fatura deve ser distribuída por toda a sociedade.
Seria interessante lembrar os idos de 2013. As pessoas saíram às ruas e protestaram com vigor. Foi uma advertência ao próprio processo de redemocratização, que as subestimou precisamente porque os líderes estavam mais preocupados em financiar suas campanhas.
Foi no curso desse declínio de legitimidade que surgiu Bolsonaro, de forma oportunística, desafiando o que ele chamava de todo o sistema. Hoje sabemos bem que Bolsonaro não participava do grande esquema de corrupção porque criou o seu, artesanal e familiar, materializado nas rachadinhas.
No interior do Brasil, por onde ando, não há grandes manifestações. Parece que esperam pelas metrópoles, onde há mais facilidade em mobilizar e todo o aparato de divulgação está concentrado.
Isso não significa, entretanto, que as pessoas não estejam atentas a todos os golpes como esse do fundo eleitoral e a todas as desastradas atitudes de Bolsonaro, cujo prestígio se derrete.
Não creio que o processo de 2013 se repita, nos mesmos termos, como aliás nada se repete exatamente na História. Se a degradação do sistema político possibilitou a aventura de Bolsonaro e sua extrema-direita, o que mais pode acontecer se o sistema continua a se degradar?
Tenho pensado muito nas condições que possam neutralizar a extrema-direita no Brasil, para que nunca mais volte ao poder, depois de tantas mortes e tanta devastação ambiental.
Chegamos a uma situação, segundo um recente estudo, em que a Amazônia hoje emite mais gás carbônico do que retém em suas matas. A longo prazo, estão contribuindo para inviabilizar a própria humanidade.
E, no curto prazo, estão inviabilizando o que ainda podemos chamar de civilização brasileira. Bolsonaro, desmatadores, incendiários, deputados vorazes — todos parecem unidos na tarefa de devastar a esperança de construir um país decente.
O autointitulado salvador da pátria já foi para o espaço e não volta em 22. Mas o sistema político continua de costas para a sociedade.
Sem perceber essa armadilha, sem reformar o sistema político, estaremos condenados a uma sucessão de nostalgias a que chamamos generosamente de futuro. Mas, na verdade, serão apenas simulacros cavando abismos entre representantes e a sociedade.
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