quinta-feira, 20 de agosto de 2026

É agora que o clima vai voltar a ser urgente?

Durante anos, demasiados anos, falar sobre alterações climáticas na Europa era falar sobre um futuro distante, quase sempre associado a lugares remotos, quantas vezes do lado de lá do mundo em que habitamos.

Subida do nível da água do mar? Isso era um problema para Tuvalu, Kiribati, Vanuatu e outras ilhas que aprendemos a decorar o nome por essa razão e sobre as quais se publicavam reportagens com fotos que anunciavam, geralmente de forma tranquila, a catástrofe que viria daqui a muitos anos. Aumento das secas extremas? Essa era uma desgraça que sabíamos, há muito tempo, que atingia a Etiópia, o Sudão, bem como uma série de outros países em África, há muito condenados à pobreza. Tempestades mais intensas? Não parecia nada connosco, pois quem devia preocupar-se eram aqueles países e zonas costeiras onde costumam entrar os furacões ou tufões, em especial na Ásia ou na América Central e do Norte. Rios sem água e em risco de desaparecer? Mais uma realidade que associávamos a locais com nomes esquisitos na Ásia Central ou noutras regiões remotas de África – para nós, o problema maior dos rios continuava a ser o risco de inundações e, mesmo assim, apenas em invernos invulgares e rigorosos.


Esses foram também os anos em que continuávamos a olhar para os grandes e descontrolados incêndios florestais apenas como resultado da incúria, culpando, liminarmente, quem não tinha sabido acionar a tempo os meios aéreos – e que quantidade de polémicas isso gerou em Portugal, só comparáveis, mais tarde, com as causadas por quem passou a atribuir a culpa de tudo ao SIRESP e à falta de comunicação. E, depois da pandemia, foram também os anos em que todos estes temas começaram a desaparecer do espaço público, como se já tivessem “passado de moda” ou fossem considerados demasiado pessimistas para uma sociedade a precisar de novos alentos de esperança.

Por aquilo que temos visto, este ano de 2026 pode vir a ser, no final, o do novo alarme de despertar para a necessidade de enfrentar o desafio climático. Por razões tão simples quanto cruas: agora, as mudanças de clima deixaram de ser um problema de regiões pobres para passarem a ser uma emergência dos países ricos, com a sucessão de ondas de calor em toda a Europa Ocidental, a eclosão de incêndios de grandes dimensões em países que vão muito para lá da bacia mediterrânica, a culminar, nas últimas semanas, com a falta de água nos rios que, durante séculos, definiram o comércio e a vida no chamado Velho Continente.

Já é mais ou menos consensual que estamos a viver, na Europa, o verão mais quente de sempre. E as consequências desse facto já não se limitam aos países do Sul. Muito pelo contrário: estão a ser muito mais gravosas nos países ricos do Centro e do Norte, que pareciam imunes a este flagelo das ondas de calor, dos incêndios e da falta de água. É por isso que estão a ouvir-se, com mais intensidade, os alarmes. Até porque as consequências disto tudo, não tenhamos dúvidas, estão a chegar ao ponto onde a dor é maior: ao dinheiro. Ou melhor: à economia, com os reflexos normais não só nos resultados das empresas como, logo a seguir, no custo de vida, na inflação e nas poupanças das famílias.

O verão de 2026 na Europa tem tudo para ser um ponto de viragem, assim saibam ler-se os sinais. Se calhar, este é o momento em que passámos a perceber que a eclosão de uma meia dúzia de ondas de calor pode ter o mesmo efeito económico que o aumento do preço do barril de petróleo.

Segundo o Financial Times, que ouviu especialistas de algumas das instituições financeiras mais respeitadas, a atual seca deste ano na Europa deverá causar um impacto económico de curto prazo entre os 50 e os 180 mil milhões de euros. Um relatório da Moody’s alerta para as consequências que esta nova realidade já está a ter nas seguradoras e, logo a seguir, nos consumidores. Preparemo-nos, portanto, para aquele momento que, na verdade, nunca pensámos que fosse possível: as ondas de calor, as secas e as tempestades passarem a ter influência direta no custo de vida, forçando os bancos centrais a manter as taxas de juro elevadas por mais tempo. É este, se calhar, o novo normal – aqui, na Europa, e já não em Kiribati ou em Tuvalu, e sem as imagens poéticas de populações com a água pelos joelhos. Infelizmente é bem pior… e mais caro.

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