quinta-feira, 27 de novembro de 2014
'Noblesse oblige'
À honestidade dos explorados corresponde muito de perto a consideração dos seus patrões
A nobreza obriga. Ela demanda do nobre, do dono, do
empresário e, acima de tudo, dos “políticos” — dos que ocupam cargos públicos
temporários e abarrotados de poder —, uma boa porção de deveres. De dívidas e
de responsabilidades para com os subordinados, com os governados e com a
sociedade como um todo. O capitão é o último a abandonar o navio; os ratos são
os primeiros.
Em algumas sociedades tribais, os curadores desleixados e
egoístas são punidos com a morte. O caso mais contundente de noblesse
oblige encontra-se entre os shiluk do antigo Sudão, estudado
magistralmente pelo antropólogo inglês Evans-Pritchard. Lá, o rei não podia
realizar atos impuros e corruptos. Se o fizesse, todo o reino sofria e ele —
como encarnação de Nyikang, o espírito onipresente legitimador e símbolo da
própria sociedade e das suas normas morais — seria assassinado. Tal como na Grécia
e na Roma antigas, rex est mixta persona cum sacerdote (o rei é uma
figura que reúne nobreza e sacerdócio). A despeito de todas as utopias
revolucionárias, as nobrezas têm um lado sacerdotal de origem e, se esse lado é
esquecido ou abusado, com ele se vão a ética e a honra devida ao seu caráter.
Mas o Brasil de hoje passa ao largo de tudo isso. De fato, nestes tempos de
mistificação geral e oficial, a palavra de ordem é justamente esquecer essa
chatice obviamente reacionária do "noblesse oblige".
Essa ética da obrigação (ou da generosidade) incomoda porque
revela o poder visto do ângulo do reprimido dos subordinados, bem como a sua
dimensão interdependente. Ela lembra que os empregados daqueles que por
nascimento, eleição, talento ou sucesso, tornaram-se poderosos, ricos e famosos
devem contar com um mínimo de proteção moral. Podem não ter cofres, capacidade
para decretar, interesses, compromissos pessoais e partidários, mas, se
deixarem de obedecer, de confiar ou de respeitar seus patrões — se suprimirem a
relação com eles —, o sistema (o todo) vai abaixo, como estamos vendo no
aumento da chamada violência neste nosso Brasil sem nenhuma "noblesse
oblige".
O nobre, como o senhor, pode ter a espada, o chicote o
mercado e até mesmo os juízes e a lei, mas o subordinado tem aquilo que alguns
antropólogos antigos — que escreveram quando os animais ainda não discursavam —
chamavam de “poder dos fracos”. O poder de abençoar (ou amaldiçoar) e de serem
honestos e amorosos com os nossos filhinhos e os nossos bens. A rebelião nasce
da maldição e da vingança.
Pois, para esses traidores da democracia e ladrões da riqueza coletiva, a nobreza desobriga! Daí o surto de desânimo, de desconfiança e de apatia dos que silenciam por não terem poder ou dinheiro, mas demandam e têm o direito à honestidade, ao pedido de desculpa e ao reconhecimento dos erros dos poderosos. Ninguém pode ou deve esconder-se por detrás da Bandeira do Brasil. Tentar usar desse expediente é mais do que desfaçatez: é covardia e traição para com o todo que nos une.
Balada do inquilino
Esta vida, não se iluda,
É uma casa alugada.
Haverá um dia em que
Não poderemos pagá-la
E seremos despejados.
Antes, outros perderão
O direito de habitá-la.
Aquele que vive no quarto
Com medo do desfecho
E quem, corajosamente,
Armou sua cama na sala
- todos irão do mesmo jeito.
Este senhorio é implacável.
Um dia não poderemos pagá-lo
E então nos expulsará deste berço
E passaremos a noite ao léu
- fantasma que nada tem de seu,
corpo, roupas ou endereço.
Um dia nos livraremos do aluguel.
Miguel Sanches Neto, "Venho de um país obscuro"
Que é isso, companheiro?
Que Lula fale sobre a Petrobras
Os brasileiros ainda seguem dando um voto de credibilidade ao carismático ex-presidente que transformou esse país dando voz a milhões de pobres
Estão aí as imagens de Lula com as mãos manchadas de óleo,
vestido com o uniforme da Petrobras, lançando uma imagem de ilusão ao país.
Hoje, tanto Lula como a presidenta Dilma Rousseff estão na
boca de todos como os principais responsáveis do bem e do mal da Petrobras. Um
magistrado do Supremo chegou a dizer que, comparado com esse novo escândalo, o
do mensalão poderia ser objeto de um simples caso das “pequenas causas”.
Dilma já falou. Assegurou que seu governo não colocará
obstáculos às investigações judiciais, algo óbvio, porque fazê-lo seria um
crime.
Ela assegurou que “não deixará pedra sobre pedra” na busca
dos supostos corruptos que atuavam como uma máfia dentro da maior empresa do
país, e que se hoje esses “desvios de conduta” são conhecidos, e é melhor
chamá-los de crimes contra o patrimônio nacional, é porque nunca a Polícia
Federal foi tão atuante na busca pelos culpados.
O problema, entretanto, é que os brasileiros desejariam
saber da Presidenta recém eleita nas urnas se ela sabia ou não, quanto sabia e
desde quando, do que se tramava em uma empresa da qual ela esteve sempre tão
próxima e responsável por conta dos cargos nela exercidos.
Após as últimas denúncias da imprensa de que ela e Lula
haviam sido avisados, anos atrás, de que havia algo de podre na Petrobras, que
estava sendo saqueada por diretores e gerentes nomeados por ela e Lula, é
urgente, que tanto a Presidenta como o ex-presidente, falem com sinceridade à nação,
se for necessário para reconhecer culpas e apresentar uma proposta de ajuste.
E sobretudo Lula deveria falar, ele que foi o grande
impulsor da petrolífera apresentando-a ao mundo como exemplo de empresa
nacional bem sucedida e que deu a Dilma grandes responsabilidades sobre ela.
Redução de variedades de flores mata abelhas
Análise de espécimes mostra que declínio tem relação com expansão da agricultura
O quebra-cabeça que é o declínio geral das abelhas fica
ainda mais complicado. A abelha europeia (Apis mellifera) e o resto dos insetos
antófilos (que amam as flores) já tinham que lutar contra o vírus das asas
deformadas, o fungo Nosema ceranae, o parasita Varroa destructor, sofisticados
inseticidas neonicotinóides ou o próprio aquecimento global. Agora, um estudo
acrescenta mais um inimigo: a redução da diversidade de plantas e árvores florais
provocada pela agricultura moderna.
A Holanda é uma das regiões do mundo onde a agricultura mais
avançou. Mais de 80% do território que era natural no início do século passado
hoje é terra cultivada. Por isso, é um grande cenário real para estudar o
impacto que a agricultura moderna está tendo sobre as abelhas. Aliados
tradicionais dos agricultores, esses polinizadores estão desaparecendo em um
ritmo alarmante, que alarmou os agricultores e os cientistas.
Um grupo de biólogos holandeses descobriu que há uma conexão
entre a diminuição da diversidade floral e o declínio das abelhas. O trabalho
deles se concentra nas espécies silvestres, mas suas conclusões podem ajudar a
desvendar o colapso sofrido por muitas colmeias de abelhas melíferas.
“Os efeitos negativos do varroa, das doenças ou da
quantidade de pesticidas pode ser reforçada por uma limitação da
disponibilidade de comida”, diz o ecologista da Universidade de Wageningen e
coautor do estudo, Jeroen Scheper. “Com as condições pioradas por um cenário de
recursos escassos, as abelhas podem ser mais vulneráveis a estas ameaças. E o
mecanismo pode funcionar em sentido inverso: os efeitos não-letais dos
pesticidas podem afetar negativamente a eficiência forrageira das abelhas
operárias, o que poderia ter um impacto maior quando a disponibilidade de
recursos florais é baixa“, acrescenta.
As espécies de abelhas silvestres que se alimentam de
rosáceas se multiplicaram Scheper e seus colegas coletaram exemplares entre várias
coleções de museus e taxidermistas de mais de 50 espécies de polinizadores
silvestres. Eles queriam saber de quais flores elas se alimentavam antes que, a
partir dos anos cinquenta do século passado, a agricultura se espalhasse por
quase todo o território holandês. Mas estavam procurando mais o pólen que o
néctar.
“O pólen é um recurso alimentício crítico para as larvas das
abelhas, mas elas não se desenvolvem com o pólen de todas as espécies de
plantas. Algumas espécies de abelhas só crescem com o pólen de um único gênero
ou família, enquanto outras espécies coletam de uma grande variedade vegetal.
Mesmo neste caso, no entanto, as abelhas têm preferências por determinados
táxons e se desenvolvem menos com as variedades que atraem menos”, explica
Scheper. “Pelo contrário, as abelhas são menos exigentes com o néctar, ou seja,
as espécies que coletam o pólen de uma única variedade de planta também
recolhem néctar de muitas outras variedades vegetais”, acrescenta.
quarta-feira, 26 de novembro de 2014
Inútil
O Brasil inteiro assiste o intenso momento dos tantos in. E
o que impressiona é a inoperância diante do fenômeno, como se fosse tudo
normal, intrínseco ao nosso tempo.
A indiferença para com o próximo é descortinada nas calçadas
das grandes cidades o tempo inteiro, sem que cause a mais pálida inquietação.
Uma crescente onda de intolerância foi tomando conta das
redes sociais, insidiosa e ferina, maculando amizades outrora íntimas. Tornando
o trato indecente.
Outro infortúnio comum ao cidadão é a incompetência das
instituições em se mostrar inconciliáveis com a corrupção. Incrível:
honestidade se tornou atributo incomum.
Incalculáveis desvios de conduta são vistos com indolência
pelas autoridades constituídas e, pior, com incógnitos interesses ao sabor de
desejos indefensáveis. Algo inacreditável.
Basta um pouco de dinheiro ou poder para alguém se tornar
intocável. Enquanto isso, no inaceitável subsolo social, a menor indisciplina
incha nossas indignas prisões.
Dos protestos explícitos aos recados indiretos, nada parece
incitar reações. A incongruência está incrustrada na sociedade. Pouco pode o
indivíduo diante do insolúvel.
Sob a influência das intrigas, das inverdades ou das
invenções, até intelectuais são manipulados. Que dirá os incultos… Faltam
intérpretes confiáveis para indicar as (in)verdades.
Mas, o que esse insipiente cronista estaria insinuando?
Quais interesses estariam interferindo na insólita prosa? Mera inquietação, ou
intrigante conluio?
Quem quiser, que investigue minha obra, inquira-me nas ruas,
invente motivos para este involuntário desabafo. Pouco adianta inverterem a
responsabilidade.
Ao fim e ao cabo, pareço mero intrometido. Inoportuno
incendiário que não vê inquestionáveis avanços nos últimos 20, 30 anos.
Estarmos todos atrás de grades, por exemplo, é detalhe inócuo.
Certos mesmo estavam os rapazes do Ultraje a Rigor quando,
intensamente, repetiam: “inútil, a gente somos inútil!”.
Os pobres pagarão
![]() |
| Ilustração do fotógrafo português Miguel Castello |
“A prosperidade
de poucos amaldiçoa todos os outros”
Eduardo Galeano
O Brasil está doente. Nunca tão poucos conseguiram fazer uma
lambança gigante que afeta milhões - tanto os que acreditaram piamente nas
mentiras, como os que sempre suspeitaram que havia truta no governo. O país é
hoje um navio de vento em popa para o redemoinho político, fenômeno não climático,
mas de alta destruição. No torvelinho, todos os poderes serão envolvidos,
instituições, governos, entidades.
A dimensão do que se prevê nem pode ser dimensionada. Os
estragos, no entanto, desde já são visíveis em cada cidadão crente ou descrente
no governo de hoje que prometeu mudar.
São os doentes do corpo, da alma e do bolso que perambulam
por todo canto. Estamos enfastiados da corrupção, do descaso dos políticos, das
armações de companheiros, das obras que seriam para o progresso mas só fizxeram
progredir as contas bancários de políticos, agentes governamentais e
empreiteiros.
Na alma, se carrega a revolta, que nem adianta procurar uma
UPA para sanar o mal. O sistema de saúde tá no fundo do poço e é uma outra
caixa preta, voraz em mais provocar a doença do que curar.
Tudo o bolso limpo terá que pagar. Do bolso principalmente
do pobre, tão defendido por esses canastrões, sairá o rico dinheiro para saldar
a conta que nunca fizeram e custa-lhe os olhos da cara, a saúde, a vida.
No curto prazo, nada pode ser feito pela seca
Para o mineiro Léo Heller, futuro relator das Nações Unidas para o Direito à Água e ao Saneamento Básico, crise hídrica não tem solução imediata a não ser chuva e redução do consumo.
A crise hídrica no sudeste não tem solução a curto prazo a
não ser chuva e redução do consumo, afirma Léo Heller, futuro relator das
Nações Unidas para o Direito à Água e ao Saneamento Básico. A partir de 1º de
dezembro, o pesquisador e professor da Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG) vai substituir a portuguesa Catarina de Albuquerque na ONU. O mandato
dura três anos e pode ser renovado pelo mesmo período.
"Já estão adotando todas as medidas necessárias e
usando o volume morto do reservatório. No curto prazo, é muito difícil pensar
em outras soluções", afirmou Heller, em entrevista à DW Brasil.
Caso não chova nos próximos meses, alerta o engenheiro, a
situação pode ficar "dramática".
Ele considera que o volume de água desperdiçada ao longo do
sistema de abastecimento brasileiro "não é admissível". "Ao
invés de buscar novos mananciais, é mais ético trabalhar na redução dessas
perdas."
Heller é cauteloso ao falar do tratamento do esgoto para
transformação em água de reúso. Recentemente, o governador de São Paulo,
Geraldo Alckmin, anunciou a construção de uma estação que irá empregar a
técnica, com o objetivo de aumentar a oferta de água.
terça-feira, 25 de novembro de 2014
Faltam pontes para governo do PT mudar métodos
Em outubro, os discursos dos candidatos não estiveram à
altura do que o povo gritou em junho de 2013. Os eleitores não encontraram nas
urnas os desejos de mudanças que pediram nas ruas. É como se houvesse um
divórcio entre a vontade dos pés caminhando e as pontas dos dedos votando. A
campanha, especialmente no segundo turno, foi sobre o passado de cada
candidato, não sobre o futuro que eles ofereciam ao país. Os discursos e as
publicidades eram de louvação aos próprios candidatos ou de críticas e
difamações sobre os opositores.
Uma das ilusões da democracia é que o povo escolhe seus
dirigentes. Na verdade, o povo vota entre candidatos apresentados por seus
partidos. Não é difícil perceber que, por isso, muitos escolheram Dilma com
medo de Aécio, e muitos votaram em Aécio porque não queriam a continuidade de
Dilma. A opção estava em continuar com os mesmos dirigentes ou quebrar os
vícios dos últimos dez anos mudando os quadros no poder. E isso faria
diferença, mesmo sem significar mudança estrutural, porque uma das qualidades
da democracia é o constante recomeço do casamento entre os novos eleitos com os
eleitores, a cada quatro anos.
Depois de anos de corrupção, esgotamento das ginásticas
econômicas e desmoralização da contabilidade criativa, insuficiência das
medidas sociais, caos e descrédito na prática política e da volta da inflação,
o novo governo Dilma começa velho, como um casamento em crise. Junte-se a isso
a necessidade de enfrentar a herança maldita – que seu governo criou e sua
campanha escondeu –, tomando medidas que até dias antes acusava os opositores
de planejar contra os interesses do povo e do país, e o resultado é um governo
que se inicia sob desconfiança. Desta vez, a democracia não conseguiu fazer a
tradicional lua de mel posterior às eleições para troca de governo.
Esta é a realidade com a qual o Brasil vai ter de conviver
pelos próximos quatro anos, porque pior do que um governo sob desconfiança
seria o rompimento com um governo constitucionalmente estabelecido. Por isso, é
necessário o diálogo que a eleita propôs, mas para o qual a presidente ainda
não fez qualquer gesto.
Os desgastes do processo eleitoral – irresponsavelmente manobrado
por marqueteiros desejosos dos votos no dia da eleição, independentemente das
consequências para o futuro do país – exigem pontes, que não foram usadas no
primeiro mandato e foram destruídas no período eleitoral.
O Congresso Nacional, dividido em dezenas de minúsculos
clubes eleitorais, viciados em acordos barganhados, objetivando o poder pelo
poder, comprando ou vendendo apoio para o imediato, sem compromissos para mudar
o futuro, não construiu pontes com as ruas. E o novo governo começa cansado,
sem pontes nem terreno onde construí-las, passando a ideia de não querer mudar
seus propósitos nem sua prática, e falando em diálogo como uma promessa
atrasada de campanha.
Cinismo e reação tardia
A Polícia Federal, independente e eficiente, não é um departamento subordinado aos interesses, caprichos e ordens da doutora Dilma Rousseff
Em primeiro lugar, amigo leitor, o governo não está apurando
nada. Ao contrário. Está sendo investigado. O juiz federal Sergio Moro não é um
contínuo do Palácio do Planalto. É representante de outro poder da República.
A Polícia Federal, independente e eficiente, não é um
departamento subordinado aos interesses, caprichos e ordens da doutora Dilma
Rousseff. O pronunciamento da presidente da República só pode ter duas
explicações: cinismo ou preocupante desligamento da realidade.
A Operação Lava-Jato vai compondo um quadro de corrupção que
arranhou gravemente a história, a saúde financeira, a marca e o futuro de um
ícone do Brasil: a Petrobrás. A atual
presidente da República não é uma espectadora passiva da tragédia. O escândalo
permeou os mandatos de Lula e estourou com força no atual governo. Dilma foi ministra
de Minas e Energia, chefe da Casa Civil e presidente do Conselho de
Administração da Petrobrás no governo Lula. A presidente da República,
conhecida por seu perfil centralizador e autoritário, não pode fazer de conta
de que está em outro planeta. Ela está, queira ou não, no olho do furacão.
Chegou a hora verdade para governantes e políticos. A
sociedade está cansada da empulhação. Os culpados pela esbórnia com dinheiro
público, independentemente da posição que ocupem na cadeia corruptora, devem
ser exemplarmente punidos. E isso não significa, nem de longe, ruptura do
processo democrático, golpismo ou incitamento à radicalização.
Paúra no 'clube' dos políticos
Em pane, os políticos desse nefasto clube, acostumados a
criar as regras, espreitam da várzea. Fazem de conta que não são os donos da
primeira divisão. Dilma, inclusive.
Ainda que pelo avesso, Dilma Rousseff acertou uma. Depois da
prisão de alguns dos donos do dinheiro – grandes empreiteiros que pagaram
propinas a operadores da Petrobras –, o Brasil definitivamente não será o
mesmo.
Embora não façam cessar a corrupção, as grades têm o poder
de inibi-la e de ampliar a delação. Mais ainda depois da síndrome da bailarina,
referência a Kátia Rabello, do Banco Rural, que, assim como os demais
empresários condenados no mensalão, continua na cadeia enquanto os políticos,
exceto o delator, cumprem suas penas no aconchego do lar.
Rompida a crença do silêncio como garantia de proteção,
corruptos e corruptores perderam o constrangimento de dedurar. Falam, entregam
provas, devolvem dinheiro roubado. Algo - é verdade, Dilma - nunca antes visto
neste país.
A delação atemoriza, apavora. A paúra é geral.
Quanto mais a Polícia Federal, o Ministério Público e a
Justiça Federal do Paraná desvendam segredos do “clube” dos empreiteiros, mais
o “clube” dos políticos arrepia. Afinal, um clube não existe sem o outro. E
vice-versa.
Fala-se de 60 ou 70 políticos do PT, PMDB e PP.
Nominalmente, já se aponta para o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto
(SP). Mas ninguém arrisca um palpite de
até onde isso vai.
Teme-se, em especial, pelos VIPs. Assim como nem todos os
empreiteiros participariam da elite do “clube”, entre os políticos não é
diferente. Há poder de mando, hierarquia. Maiores e menores beneficiários de
cada centavo desviado. Seja para o projeto político, seja para o próprio bolso.
Maná para a máfia
Num país em que, em plena seca, chove bilhões dos cofres
públicos como maná em propinas e pagamentos ao comissariado, estamos caindo na
rotina de aceitar a corrupção como regra, não como exceção, por mero enfado.
Com todos os esforços policiais e jurídicos das instituições,
ainda há muito blábláblá com que se tenta blindar os poderosos envolvidos. Há
batalhões de aliados, a bom preço, dispostos a por a mão no fogo e a cabeça a
prêmio para defender os bandidos do alto escalão.
Farsas não faltam. A penalização dos condenados políticos
com uma peninha vergonhosa, que mostra bem a cara brasileira de se defender os
poderosos a qualquer custo. Os mensaleiros conseguiram abater das penas “tempo
de trabalho e tempo de estudo” na cadeia, o que não acontece com os meros
mortais com penas ainda menores, e agora até estão viajando pelo país como
qualquer cidadão de ficha zerada.
Se a famosa soprano Montserrat Caballé, de 81 anos, foi
condenada a pagar de 508 mil euros, quase R$ 1,5 milhão, por sonegação em
imposto de 2010, e o ex-primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates, foi
detido para depor e deve ser condenado por corrupção, há uma grande festa na
bandidagem brasileira. As figuras de proa, com grande blindagem, pairam como
ninfas no lago da impunidade.
Ninguém consegue que Luís Inácio Lula da Silva, como
qualquer cidadão, seja encontrado e intimado para depor sobre o caso do
Mensalão, como também João Vaccari Neto, tesoureiro do PT, não vai para o
xadrez mesmo denunciado criminalmente pelo Ministério Público por um rombo de
R$ 100 milhões na Bancoop, sem contar que está envolvido até o pescoço por
falcatruas também no Petrolão, área hidrelétrica e fundos de pensão.
Se no passado, os bandidos nos filmes de Hollywood sempre se
refugiavam no Brasil, agora nem precisam vir mais, porque os nativos já dão
conta do recado e tomam todos os postos da elite. Vivem como nababos,
festejados mesmo nos jornalões, protagonizando festas e viagens hollywoodianas
sem precisar temer a Justiça, cega, surda e muda, quando não conivente.
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
Formiga de ouro
O escracho com que são tratadas as obras públicas chegou ao
cúmulo de até formiga servir de motivo para a extorsão nos cofres públicos, no
caso da Petrobras. A descoberta de formigas ameaçadas de extinção da espécie Atta
robusta, mais conhecida como saúva-preta, em área de uma obra da Petrobras, rendeu
R$ 64,3 milhões em “dificuldades geradas por motivos de ordem ambiental” para a
Mendes Júnior Engenharia, investigada no Lava-Jato. A empresa cobrou os
ressarcimentos depois que o contrato já estava encerrado, por meio de transação
extrajudicial sem que fosse preciso apresentar provas.
Leia mais
Um projeto de extorsão contra a patuleia
A tese é engenhosa. Pressupõe que empresas angelicais que fazem negócios com a Petrobras tornaram-se vítimas de dois demônios.
Dois diretores de empreiteiras disseram à Justiça que foram
extorquidos pelo ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e seu operador
financeiro, Alberto Youssef. Se não pagassem, teriam seus contratos
prejudicados ou até mesmo cancelados.
A tese é engenhosa. Pressupõe que empresas angelicais que
fazem negócios com a Petrobras tornaram-se vítimas de dois demônios. Para que a
pizza fosse ao forno, faltaria só o orégano.
A primeira denúncia da extorsão veio de Sérgio Mendes,
vice-presidente e herdeiro da tradicional Mendes Junior, fundada em 1953 por
seu avô. Ele contou que em 2011, a mando de Paulinho, pagou R$ 8 milhões a
Youssef. Se não fizesse isso, estariam fechadas as portas e os guichês da
Petrobras.
A Mendes Junior opera com o governo brasileiro há três
gerações e com a Petrobras há pelo menos duas. Teve negócios bilionários (em
dólares) com a cleptocracia de Saddam Hussein no Iraque. Admita-se que jamais
molhou mãos alheias. Tendo sido obrigada, em 2011, não denunciou o malfeito.
Seria tudo coisa do Paulinho e do Youssef.
A segunda denúncia de extorsão veio do diretor de Óleo e Gás
da Galvão Engenharia, doutor Erton Medeiros. Seu advogado, José Luis de
Oliveira Lima, explicou por que a Galvão ficou calada: “Se ele denunciasse o
que estava acontecendo, era ameaçado de perder os contratos. Paulo Roberto
Costa e Alberto Youssef estão longe de serem Madres Teresas de Calcutá”.
Bingo! Paulinho e Youssef são delinquentes, mas colaboram
com a Viúva. Madres Teresas seriam a Galvão Engenharia e suas colegas. Segundo
o doutor Erton, na origem de tudo estaria o deputado José Janene (morto um ano
antes), e o dinheiro do achaque iria para o Partido Progressista. Bingo de
novo, e surge mais uma Madre Teresa: o PT.
Durante a última campanha eleitoral, a Galvão Engenharia deu
R$ 1,4 milhão ao Diretório Nacional do PT, partido da doutora Dilma. Portanto,
a empresa foi achacada por dois delinquentes, não se queixou, e fez uma bela
doação ao partido que, governando o país, nomeou Paulinho para uma diretoria da
Petrobras. Entre 2006 e 2012, as grandes petroempreiteiras torraram R$ 856
milhões em doações para campanhas eleitorais. O PT ficou com R$ 266 milhões.
Nessa batida, a coisa fica assim: os dois delinquentes que
estão colaborando com a Viúva achacavam empresas, e uma delas entrou na dança
levada por um deputado que morreu, em benefício de um partido subsidiário. Tudo
o mais seria golpismo, terceiro turno, e coisa de uma elite contrariada. Já a
elite lubrificada, à qual ascendeu o comissariado petista, vai bem, obrigado.
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