quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Para que servem as leis


'Noblesse oblige'


À honestidade dos explorados corresponde muito de perto a consideração dos seus patrões
A nobreza obriga. Ela demanda do nobre, do dono, do empresário e, acima de tudo, dos “políticos” — dos que ocupam cargos públicos temporários e abarrotados de poder —, uma boa porção de deveres. De dívidas e de responsabilidades para com os subordinados, com os governados e com a sociedade como um todo. O capitão é o último a abandonar o navio; os ratos são os primeiros.

Em algumas sociedades tribais, os curadores desleixados e egoístas são punidos com a morte. O caso mais contundente de noblesse oblige encontra-se entre os shiluk do antigo Sudão, estudado magistralmente pelo antropólogo inglês Evans-Pritchard. Lá, o rei não podia realizar atos impuros e corruptos. Se o fizesse, todo o reino sofria e ele — como encarnação de Nyikang, o espírito onipresente legitimador e símbolo da própria sociedade e das suas normas morais — seria assassinado. Tal como na Grécia e na Roma antigas, rex est mixta persona cum sacerdote (o rei é uma figura que reúne nobreza e sacerdócio). A despeito de todas as utopias revolucionárias, as nobrezas têm um lado sacerdotal de origem e, se esse lado é esquecido ou abusado, com ele se vão a ética e a honra devida ao seu caráter. Mas o Brasil de hoje passa ao largo de tudo isso. De fato, nestes tempos de mistificação geral e oficial, a palavra de ordem é justamente esquecer essa chatice obviamente reacionária do "noblesse oblige".

Essa ética da obrigação (ou da generosidade) incomoda porque revela o poder visto do ângulo do reprimido dos subordinados, bem como a sua dimensão interdependente. Ela lembra que os empregados daqueles que por nascimento, eleição, talento ou sucesso, tornaram-se poderosos, ricos e famosos devem contar com um mínimo de proteção moral. Podem não ter cofres, capacidade para decretar, interesses, compromissos pessoais e partidários, mas, se deixarem de obedecer, de confiar ou de respeitar seus patrões — se suprimirem a relação com eles —, o sistema (o todo) vai abaixo, como estamos vendo no aumento da chamada violência neste nosso Brasil sem nenhuma "noblesse oblige".

O nobre, como o senhor, pode ter a espada, o chicote o mercado e até mesmo os juízes e a lei, mas o subordinado tem aquilo que alguns antropólogos antigos — que escreveram quando os animais ainda não discursavam — chamavam de “poder dos fracos”. O poder de abençoar (ou amaldiçoar) e de serem honestos e amorosos com os nossos filhinhos e os nossos bens. A rebelião nasce da maldição e da vingança.


Pois, para esses traidores da democracia e ladrões da riqueza coletiva, a nobreza desobriga! Daí o surto de desânimo, de desconfiança e de apatia dos que silenciam por não terem poder ou dinheiro, mas demandam e têm o direito à honestidade, ao pedido de desculpa e ao reconhecimento dos erros dos poderosos. Ninguém pode ou deve esconder-se por detrás da Bandeira do Brasil. Tentar usar desse expediente é mais do que desfaçatez: é covardia e traição para com o todo que nos une.

Balada do inquilino


 Esta vida, não se iluda,
É uma casa alugada.
Haverá um dia em que
Não poderemos pagá-la
E seremos despejados.

Antes, outros perderão
O direito de habitá-la.
Aquele que vive no quarto
Com medo do desfecho
E quem, corajosamente,
Armou sua cama na sala
- todos irão do mesmo jeito.

Este senhorio é implacável.
Um dia não poderemos pagá-lo
E então nos expulsará deste berço
E passaremos a noite ao léu
- fantasma que nada tem de seu,
corpo, roupas ou endereço.

Um dia nos livraremos do aluguel.


Miguel Sanches Neto, "Venho de um país obscuro"

Que é isso, companheiro?


O que é isso? Em que país vivemos? Os bandidos perderam a noção das coisas! Como podem se apropriar desse montante?

Que Lula fale sobre a Petrobras

Os brasileiros ainda seguem dando um voto de credibilidade ao carismático ex-presidente que transformou esse país dando voz a milhões de pobres
 É impossível separar o ex-presidente Lula do caso que sacode a Petrobras e das sequelas que os escândalos estão causando. Como um editorial desse jornal escreveu, Lula havia identificado a Petrobras com o Brasil, com seu futuro de prosperidade, com o orgulho da petrolífera, então invejada pelo resto do mundo.

Estão aí as imagens de Lula com as mãos manchadas de óleo, vestido com o uniforme da Petrobras, lançando uma imagem de ilusão ao país.

Hoje, tanto Lula como a presidenta Dilma Rousseff estão na boca de todos como os principais responsáveis do bem e do mal da Petrobras. Um magistrado do Supremo chegou a dizer que, comparado com esse novo escândalo, o do mensalão poderia ser objeto de um simples caso das “pequenas causas”.

Dilma já falou. Assegurou que seu governo não colocará obstáculos às investigações judiciais, algo óbvio, porque fazê-lo seria um crime.

Ela assegurou que “não deixará pedra sobre pedra” na busca dos supostos corruptos que atuavam como uma máfia dentro da maior empresa do país, e que se hoje esses “desvios de conduta” são conhecidos, e é melhor chamá-los de crimes contra o patrimônio nacional, é porque nunca a Polícia Federal foi tão atuante na busca pelos culpados.

O problema, entretanto, é que os brasileiros desejariam saber da Presidenta recém eleita nas urnas se ela sabia ou não, quanto sabia e desde quando, do que se tramava em uma empresa da qual ela esteve sempre tão próxima e responsável por conta dos cargos nela exercidos.

Após as últimas denúncias da imprensa de que ela e Lula haviam sido avisados, anos atrás, de que havia algo de podre na Petrobras, que estava sendo saqueada por diretores e gerentes nomeados por ela e Lula, é urgente, que tanto a Presidenta como o ex-presidente, falem com sinceridade à nação, se for necessário para reconhecer culpas e apresentar uma proposta de ajuste.


E sobretudo Lula deveria falar, ele que foi o grande impulsor da petrolífera apresentando-a ao mundo como exemplo de empresa nacional bem sucedida e que deu a Dilma grandes responsabilidades sobre ela.

Redução de variedades de flores mata abelhas

 
Análise de espécimes mostra que declínio tem relação com expansão da agricultura
O quebra-cabeça que é o declínio geral das abelhas fica ainda mais complicado. A abelha europeia (Apis mellifera) e o resto dos insetos antófilos (que amam as flores) já tinham que lutar contra o vírus das asas deformadas, o fungo Nosema ceranae, o parasita Varroa destructor, sofisticados inseticidas neonicotinóides ou o próprio aquecimento global. Agora, um estudo acrescenta mais um inimigo: a redução da diversidade de plantas e árvores florais provocada pela agricultura moderna.

A Holanda é uma das regiões do mundo onde a agricultura mais avançou. Mais de 80% do território que era natural no início do século passado hoje é terra cultivada. Por isso, é um grande cenário real para estudar o impacto que a agricultura moderna está tendo sobre as abelhas. Aliados tradicionais dos agricultores, esses polinizadores estão desaparecendo em um ritmo alarmante, que alarmou os agricultores e os cientistas.

Um grupo de biólogos holandeses descobriu que há uma conexão entre a diminuição da diversidade floral e o declínio das abelhas. O trabalho deles se concentra nas espécies silvestres, mas suas conclusões podem ajudar a desvendar o colapso sofrido por muitas colmeias de abelhas melíferas.

“Os efeitos negativos do varroa, das doenças ou da quantidade de pesticidas pode ser reforçada por uma limitação da disponibilidade de comida”, diz o ecologista da Universidade de Wageningen e coautor do estudo, Jeroen Scheper. “Com as condições pioradas por um cenário de recursos escassos, as abelhas podem ser mais vulneráveis a estas ameaças. E o mecanismo pode funcionar em sentido inverso: os efeitos não-letais dos pesticidas podem afetar negativamente a eficiência forrageira das abelhas operárias, o que poderia ter um impacto maior quando a disponibilidade de recursos florais é baixa“, acrescenta.

As espécies de abelhas silvestres que se alimentam de rosáceas se multiplicaram Scheper e seus colegas coletaram exemplares entre várias coleções de museus e taxidermistas de mais de 50 espécies de polinizadores silvestres. Eles queriam saber de quais flores elas se alimentavam antes que, a partir dos anos cinquenta do século passado, a agricultura se espalhasse por quase todo o território holandês. Mas estavam procurando mais o pólen que o néctar.

“O pólen é um recurso alimentício crítico para as larvas das abelhas, mas elas não se desenvolvem com o pólen de todas as espécies de plantas. Algumas espécies de abelhas só crescem com o pólen de um único gênero ou família, enquanto outras espécies coletam de uma grande variedade vegetal. Mesmo neste caso, no entanto, as abelhas têm preferências por determinados táxons e se desenvolvem menos com as variedades que atraem menos”, explica Scheper. “Pelo contrário, as abelhas são menos exigentes com o néctar, ou seja, as espécies que coletam o pólen de uma única variedade de planta também recolhem néctar de muitas outras variedades vegetais”, acrescenta.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Na falta de emprego


Inútil


O Brasil inteiro assiste o intenso momento dos tantos in. E o que impressiona é a inoperância diante do fenômeno, como se fosse tudo normal, intrínseco ao nosso tempo.

A indiferença para com o próximo é descortinada nas calçadas das grandes cidades o tempo inteiro, sem que cause a mais pálida inquietação.

Uma crescente onda de intolerância foi tomando conta das redes sociais, insidiosa e ferina, maculando amizades outrora íntimas. Tornando o trato indecente.

Outro infortúnio comum ao cidadão é a incompetência das instituições em se mostrar inconciliáveis com a corrupção. Incrível: honestidade se tornou atributo incomum.

Incalculáveis desvios de conduta são vistos com ­indolência pelas autoridades constituídas e, pior, com incógnitos interesses ao sabor de desejos indefensáveis. Algo inacreditável.

Basta um pouco de dinheiro ou poder para alguém se tornar intocável. Enquanto isso, no inaceitável subsolo social, a menor indisciplina incha nossas indignas prisões.

Dos protestos explícitos aos recados indiretos, nada parece incitar reações. A incongruência está incrustrada na sociedade. Pouco pode o indivíduo diante do insolúvel.

Sob a influência das intrigas, das inverdades ou das invenções, até intelectuais são manipulados. Que dirá os incultos… Faltam intérpretes confiáveis para indicar as (in)verdades.

Mas, o que esse insipiente cronista estaria insinuando? Quais interesses estariam interferindo na insólita prosa? Mera inquietação, ou intrigante conluio?

Quem quiser, que investigue minha obra, inquira-me nas ruas, invente motivos para este involuntário desabafo. Pouco adianta inverterem a responsabilidade.

Ao fim e ao cabo, pareço mero intrometido. Inoportuno incendiário que não vê inquestionáveis avanços nos últimos 20, 30 anos. Estarmos todos atrás de grades, por exemplo, é detalhe inócuo.


Certos mesmo estavam os rapazes do Ultraje a Rigor quando, intensamente, repetiam: “inútil, a gente somos inútil!”.

Os pobres pagarão

Ilustração do fotógrafo português Miguel Castello

“A prosperidade de poucos amaldiçoa todos os outros”
Eduardo Galeano

O Brasil está doente. Nunca tão poucos conseguiram fazer uma lambança gigante que afeta milhões - tanto os que acreditaram piamente nas mentiras, como os que sempre suspeitaram que havia truta no governo. O país é hoje um navio de vento em popa para o redemoinho político, fenômeno não climático, mas de alta destruição. No torvelinho, todos os poderes serão envolvidos, instituições, governos, entidades.

A dimensão do que se prevê nem pode ser dimensionada. Os estragos, no entanto, desde já são visíveis em cada cidadão crente ou descrente no governo de hoje que prometeu mudar.

São os doentes do corpo, da alma e do bolso que perambulam por todo canto. Estamos enfastiados da corrupção, do descaso dos políticos, das armações de companheiros, das obras que seriam para o progresso mas só fizxeram progredir as contas bancários de políticos, agentes governamentais e empreiteiros.

Na alma, se carrega a revolta, que nem adianta procurar uma UPA para sanar o mal. O sistema de saúde tá no fundo do poço e é uma outra caixa preta, voraz em mais provocar a doença do que curar.


Tudo o bolso limpo terá que pagar. Do bolso principalmente do pobre, tão defendido por esses canastrões, sairá o rico dinheiro para saldar a conta que nunca fizeram e custa-lhe os olhos da cara, a saúde, a vida. 

Paisagens Brasileiras

José Pancetti, Ponta da Areia (Niterói) 

No curto prazo, nada pode ser feito pela seca


Para o mineiro Léo Heller, futuro relator das Nações Unidas para o Direito à Água e ao Saneamento Básico, crise hídrica não tem solução imediata a não ser chuva e redução do consumo. 
 A crise hídrica no sudeste não tem solução a curto prazo a não ser chuva e redução do consumo, afirma Léo Heller, futuro relator das Nações Unidas para o Direito à Água e ao Saneamento Básico. A partir de 1º de dezembro, o pesquisador e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) vai substituir a portuguesa Catarina de Albuquerque na ONU. O mandato dura três anos e pode ser renovado pelo mesmo período.

"Já estão adotando todas as medidas necessárias e usando o volume morto do reservatório. No curto prazo, é muito difícil pensar em outras soluções", afirmou Heller, em entrevista à DW Brasil.
Caso não chova nos próximos meses, alerta o engenheiro, a situação pode ficar "dramática".

Ele considera que o volume de água desperdiçada ao longo do sistema de abastecimento brasileiro "não é admissível". "Ao invés de buscar novos mananciais, é mais ético trabalhar na redução dessas perdas."

Heller é cauteloso ao falar do tratamento do esgoto para transformação em água de reúso. Recentemente, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, anunciou a construção de uma estação que irá empregar a técnica, com o objetivo de aumentar a oferta de água.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

A grande pergunta


Faltam pontes para governo do PT mudar métodos


Em outubro, os discursos dos candidatos não estiveram à altura do que o povo gritou em junho de 2013. Os eleitores não encontraram nas urnas os desejos de mudanças que pediram nas ruas. É como se houvesse um divórcio entre a vontade dos pés caminhando e as pontas dos dedos votando. A campanha, especialmente no segundo turno, foi sobre o passado de cada candidato, não sobre o futuro que eles ofereciam ao país. Os discursos e as publicidades eram de louvação aos próprios candidatos ou de críticas e difamações sobre os opositores.

Uma das ilusões da democracia é que o povo escolhe seus dirigentes. Na verdade, o povo vota entre candidatos apresentados por seus partidos. Não é difícil perceber que, por isso, muitos escolheram Dilma com medo de Aécio, e muitos votaram em Aécio porque não queriam a continuidade de Dilma. A opção estava em continuar com os mesmos dirigentes ou quebrar os vícios dos últimos dez anos mudando os quadros no poder. E isso faria diferença, mesmo sem significar mudança estrutural, porque uma das qualidades da democracia é o constante recomeço do casamento entre os novos eleitos com os eleitores, a cada quatro anos.

Depois de anos de corrupção, esgotamento das ginásticas econômicas e desmoralização da contabilidade criativa, insuficiência das medidas sociais, caos e descrédito na prática política e da volta da inflação, o novo governo Dilma começa velho, como um casamento em crise. Junte-se a isso a necessidade de enfrentar a herança maldita – que seu governo criou e sua campanha escondeu –, tomando medidas que até dias antes acusava os opositores de planejar contra os interesses do povo e do país, e o resultado é um governo que se inicia sob desconfiança. Desta vez, a democracia não conseguiu fazer a tradicional lua de mel posterior às eleições para troca de governo.

Esta é a realidade com a qual o Brasil vai ter de conviver pelos próximos quatro anos, porque pior do que um governo sob desconfiança seria o rompimento com um governo constitucionalmente estabelecido. Por isso, é necessário o diálogo que a eleita propôs, mas para o qual a presidente ainda não fez qualquer gesto.

Os desgastes do processo eleitoral – irresponsavelmente manobrado por marqueteiros desejosos dos votos no dia da eleição, independentemente das consequências para o futuro do país – exigem pontes, que não foram usadas no primeiro mandato e foram destruídas no período eleitoral.

O Congresso Nacional, dividido em dezenas de minúsculos clubes eleitorais, viciados em acordos barganhados, objetivando o poder pelo poder, comprando ou vendendo apoio para o imediato, sem compromissos para mudar o futuro, não construiu pontes com as ruas. E o novo governo começa cansado, sem pontes nem terreno onde construí-las, passando a ideia de não querer mudar seus propósitos nem sua prática, e falando em diálogo como uma promessa atrasada de campanha.

Cinismo e reação tardia


A Polícia Federal, independente e eficiente, não é um departamento subordinado aos interesses, caprichos e ordens da doutora Dilma Rousseff
 No seu primeiro pronunciamento desde a prisão de dirigentes de empreiteiras no escândalo da Petrobrás, a presidente Dilma Rousseff exaltou o mérito do governo de estar investigando a corrupção “pela primeira vez na História do Brasil.” Fantástico!

Em primeiro lugar, amigo leitor, o governo não está apurando nada. Ao contrário. Está sendo investigado. O juiz federal Sergio Moro não é um contínuo do Palácio do Planalto. É representante de outro poder da República.

A Polícia Federal, independente e eficiente, não é um departamento subordinado aos interesses, caprichos e ordens da doutora Dilma Rousseff. O pronunciamento da presidente da República só pode ter duas explicações: cinismo ou preocupante desligamento da realidade.

A Operação Lava-Jato vai compondo um quadro de corrupção que arranhou gravemente a história, a saúde financeira, a marca e o futuro de um ícone do Brasil: a Petrobrás.  A atual presidente da República não é uma espectadora passiva da tragédia. O escândalo permeou os mandatos de Lula e estourou com força no atual governo. Dilma foi ministra de Minas e Energia, chefe da Casa Civil e presidente do Conselho de Administração da Petrobrás no governo Lula. A presidente da República, conhecida por seu perfil centralizador e autoritário, não pode fazer de conta de que está em outro planeta. Ela está, queira ou não, no olho do furacão.

Chegou a hora verdade para governantes e políticos. A sociedade está cansada da empulhação. Os culpados pela esbórnia com dinheiro público, independentemente da posição que ocupem na cadeia corruptora, devem ser exemplarmente punidos. E isso não significa, nem de longe, ruptura do processo democrático, golpismo ou incitamento à radicalização.

Primado do roubo


É doloroso ver que a luta contra a fome é
prejudicada pelo primado do lucro
Papa Francisco

Paúra no 'clube' dos políticos


Em pane, os políticos desse nefasto clube, acostumados a criar as regras, espreitam da várzea. Fazem de conta que não são os donos da primeira divisão. Dilma, inclusive.

Ainda que pelo avesso, Dilma Rousseff acertou uma. Depois da prisão de alguns dos donos do dinheiro – grandes empreiteiros que pagaram propinas a operadores da Petrobras –, o Brasil definitivamente não será o mesmo.

Embora não façam cessar a corrupção, as grades têm o poder de inibi-la e de ampliar a delação. Mais ainda depois da síndrome da bailarina, referência a Kátia Rabello, do Banco Rural, que, assim como os demais empresários condenados no mensalão, continua na cadeia enquanto os políticos, exceto o delator, cumprem suas penas no aconchego do lar.

Rompida a crença do silêncio como garantia de proteção, corruptos e corruptores perderam o constrangimento de dedurar. Falam, entregam provas, devolvem dinheiro roubado. Algo - é verdade, Dilma - nunca antes visto neste país.

A delação atemoriza, apavora. A paúra é geral.

Quanto mais a Polícia Federal, o Ministério Público e a Justiça Federal do Paraná desvendam segredos do “clube” dos empreiteiros, mais o “clube” dos políticos arrepia. Afinal, um clube não existe sem o outro. E vice-versa.

Fala-se de 60 ou 70 políticos do PT, PMDB e PP. Nominalmente, já se aponta para o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto (SP).  Mas ninguém arrisca um palpite de até onde isso vai.

Teme-se, em especial, pelos VIPs. Assim como nem todos os empreiteiros participariam da elite do “clube”, entre os políticos não é diferente. Há poder de mando, hierarquia. Maiores e menores beneficiários de cada centavo desviado. Seja para o projeto político, seja para o próprio bolso.

Maná para a máfia


Num país em que, em plena seca, chove bilhões dos cofres públicos como maná em propinas e pagamentos ao comissariado, estamos caindo na rotina de aceitar a corrupção como regra, não como exceção, por mero enfado.

Com todos os esforços policiais e jurídicos das instituições, ainda há muito blábláblá com que se tenta blindar os poderosos envolvidos. Há batalhões de aliados, a bom preço, dispostos a por a mão no fogo e a cabeça a prêmio para defender os bandidos do alto escalão.

Farsas não faltam. A penalização dos condenados políticos com uma peninha vergonhosa, que mostra bem a cara brasileira de se defender os poderosos a qualquer custo. Os mensaleiros conseguiram abater das penas “tempo de trabalho e tempo de estudo” na cadeia, o que não acontece com os meros mortais com penas ainda menores, e agora até estão viajando pelo país como qualquer cidadão de ficha zerada.

Se a famosa soprano Montserrat Caballé, de 81 anos, foi condenada a pagar de 508 mil euros, quase R$ 1,5 milhão, por sonegação em imposto de 2010, e o ex-primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates, foi detido para depor e deve ser condenado por corrupção, há uma grande festa na bandidagem brasileira. As figuras de proa, com grande blindagem, pairam como ninfas no lago da impunidade.

Ninguém consegue que Luís Inácio Lula da Silva, como qualquer cidadão, seja encontrado e intimado para depor sobre o caso do Mensalão, como também João Vaccari Neto, tesoureiro do PT, não vai para o xadrez mesmo denunciado criminalmente pelo Ministério Público por um rombo de R$ 100 milhões na Bancoop, sem contar que está envolvido até o pescoço por falcatruas também no Petrolão, área hidrelétrica e fundos de pensão. 


Se no passado, os bandidos nos filmes de Hollywood sempre se refugiavam no Brasil, agora nem precisam vir mais, porque os nativos já dão conta do recado e tomam todos os postos da elite. Vivem como nababos, festejados mesmo nos jornalões, protagonizando festas e viagens hollywoodianas sem precisar temer a Justiça, cega, surda e muda, quando não conivente. 

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Vem chegando a onda


Formiga de ouro


O escracho com que são tratadas as obras públicas chegou ao cúmulo de até formiga servir de motivo para a extorsão nos cofres públicos, no caso da Petrobras. A descoberta de formigas ameaçadas de extinção da espécie Atta robusta, mais conhecida como saúva-preta, em área de uma obra da Petrobras, rendeu R$ 64,3 milhões em “dificuldades geradas por motivos de ordem ambiental” para a Mendes Júnior Engenharia, investigada no Lava-Jato. A empresa cobrou os ressarcimentos depois que o contrato já estava encerrado, por meio de transação extrajudicial sem que fosse preciso apresentar provas.
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Um projeto de extorsão contra a patuleia


A tese é engenhosa. Pressupõe que empresas angelicais que fazem negócios com a Petrobras tornaram-se vítimas de dois demônios.

Dois diretores de empreiteiras disseram à Justiça que foram extorquidos pelo ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e seu operador financeiro, Alberto Youssef. Se não pagassem, teriam seus contratos prejudicados ou até mesmo cancelados.

A tese é engenhosa. Pressupõe que empresas angelicais que fazem negócios com a Petrobras tornaram-se vítimas de dois demônios. Para que a pizza fosse ao forno, faltaria só o orégano.

A primeira denúncia da extorsão veio de Sérgio Mendes, vice-presidente e herdeiro da tradicional Mendes Junior, fundada em 1953 por seu avô. Ele contou que em 2011, a mando de Paulinho, pagou R$ 8 milhões a Youssef. Se não fizesse isso, estariam fechadas as portas e os guichês da Petrobras.

A Mendes Junior opera com o governo brasileiro há três gerações e com a Petrobras há pelo menos duas. Teve negócios bilionários (em dólares) com a cleptocracia de Saddam Hussein no Iraque. Admita-se que jamais molhou mãos alheias. Tendo sido obrigada, em 2011, não denunciou o malfeito. Seria tudo coisa do Paulinho e do Youssef.

A segunda denúncia de extorsão veio do diretor de Óleo e Gás da Galvão Engenharia, doutor Erton Medeiros. Seu advogado, José Luis de Oliveira Lima, explicou por que a Galvão ficou calada: “Se ele denunciasse o que estava acontecendo, era ameaçado de perder os contratos. Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef estão longe de serem Madres Teresas de Calcutá”.

Bingo! Paulinho e Youssef são delinquentes, mas colaboram com a Viúva. Madres Teresas seriam a Galvão Engenharia e suas colegas. Segundo o doutor Erton, na origem de tudo estaria o deputado José Janene (morto um ano antes), e o dinheiro do achaque iria para o Partido Progressista. Bingo de novo, e surge mais uma Madre Teresa: o PT.

Durante a última campanha eleitoral, a Galvão Engenharia deu R$ 1,4 milhão ao Diretório Nacional do PT, partido da doutora Dilma. Portanto, a empresa foi achacada por dois delinquentes, não se queixou, e fez uma bela doação ao partido que, governando o país, nomeou Paulinho para uma diretoria da Petrobras. Entre 2006 e 2012, as grandes petroempreiteiras torraram R$ 856 milhões em doações para campanhas eleitorais. O PT ficou com R$ 266 milhões.

Nessa batida, a coisa fica assim: os dois delinquentes que estão colaborando com a Viúva achacavam empresas, e uma delas entrou na dança levada por um deputado que morreu, em benefício de um partido subsidiário. Tudo o mais seria golpismo, terceiro turno, e coisa de uma elite contrariada. Já a elite lubrificada, à qual ascendeu o comissariado petista, vai bem, obrigado.