quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O crime contra Francenildo foi a concretização no varejo do projeto totalitário da súcia

No registro da minha repulsa ao PT, posso ter passado a impressão de que tenho alguma coisa pessoal contra Lula e Dilma. Procuro, com este texto, desfazer essa eventual impressão e esclarecer tudo: tenho, sim, um problema pessoal com Dilma Rousseff e Luís Inácio Lula da Silva. Como ministra, Dilma, a anoréxica devoradora de livros, preferia a leitura de dossiês que miravam as pessoas de Ruth Cardoso e Fernando Henrique. Como candidata, não repudiou a quebra do sigilo fiscal de José Serra (da filha e do genro dele), durante a campanha, porque ele se atrevera a disputar uma eleição com ela. Adversários, para o petismo, são um efeito colateral da democracia burguesa a ser evitado. Presidente, chefiou um governo em que a Polícia Federal assassinava reputações, conforme denunciou Tuma Jr. sem ser desmentido ou processado.

É verdade que o PT não inaugurou torpezas na política nem inventou a corrupção, blablabla que os incuráveis repetem. A organização criminosa que pretendeu substituir a sociedade e fez do governo mero acesso ao Estado para sustentar o partido, só usou e abusou da corrupção e demais canalhices de modo tão inédito que os meios se fundiram aos fins e o partido roubava para continuar no poder para continuar roubando para continuar no poder. Na crônica da sordidez inédita na nossa história, considero um momento especialmente torpe quando Lula presidente acionou a máquina do Estado contra um cidadão que contou o que viu: Francenildo Pereira, o caseiro do todo poderoso ministro Antônio Palocci, lançando luz sobre os subterrâneos da organização criminosa que saqueava nossa grana e a institucionalidade num colossal golpe contra a democracia.

Francenildo, que teve o sigilo bancário violado por Jorge Mattoso à procura de uma movimentação financeira que provasse que o pobre rapaz estava a soldo da oposição, foi moído pelo Leviatã: o caseiro é o verdadeiro trabalhador humilde perseguido na história recente, e não o jeca que anda de jatinho paparicado por alguns dos advogados mais caros do país. Era o Estado policial fascista não mais como projeto, mas aplicado. Assim, assumi a coisa como pessoal e me coloquei no lugar de Francenildo porque eu e qualquer outro cidadão que contrariassem o degenerado Leviatã petista poderíamos estar no lugar de Francenildo, a outra face da mesma cara medonha do projeto petista.

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O STF rejeitou não uma condenação a Palocci, mas a simples abertura de processo, por um placar apertado. Ora, há o relato factual do encontro entre o ex-ministro e o infame Jorge Mattoso presidente da Caixa Federal, onde Francenildo era correntista. Palocci o convocara porque soubera por Tião Viana que o caseiro recebera um vultoso depósito, que se provaria lícito. Passar o caso para o Coaf? Não, nada de instituições, a coisa era entre indivíduos que se apoderaram delas e moeriam os indivíduos deixados à margem. Num segundo encontro, Mattoso levou o extrato a Palocci, consumando a coisa.

E a coisa se abate contra qualquer um de nós e sobre nenhum deles. E a coisa é pessoal porque é o esmagamento da consciência com o indivíduo dentro porque a ele não é atribuído valor, nem a ela: à consciência dos francenildos é atribuído perigo, daí o esmagamento. Daí o crime contra Francenildo ser já a concretização no varejo do projeto totalitário da súcia, a cara desfigurada pelo gozo sujo no modelo caudilhista e fascistoide, que troca leis por um homem – um líder. Este líder jeca que pariu a era da canalhice tem uma dívida pessoal com cada brasileiro.

Dez anos depois, aquela luz tênue refulge e ilumina o caminho do ex-ministro para a cadeia. Pode ser que saia nos próximos dias, mas ele é mais um petista que, uma vez trazido à luz, se desfaz como vampiro de cinema. Quem cacareja hoje o “fora, Temer” não reconhece o golpe obsceno e explícito que vigorou por 13 anos contra a democracia e prefere enxergá-lo na destituição legal, legítima e tardia da parva espertalhona.

Entre tantas analogias possíveis em que o grande enfrenta o pequeno, penso em Antígona, no simbolismo da minha personagem trágica preferida. Como Francenildo, Antígona desafiou o Estado quando este lhe negou direitos de cidadã para enterrar Polinices, o irmão que morrera lutando contra a Tebas governada pelo tirânico Creonte, tio deles. De dentro da caverna onde foi deixada para morrer pela ousadia, ela inaugurou o indivíduo jogando luz sobre o Estado tirânico que ruiria.

Não sei onde anda Francenildo, mas espero que o único homem pobre verdadeiramente perseguido possa contemplar, afinal, aquela luz refulgir para a ruína dos algozes da democracia insuportavelmente longevos.

República de presos


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I

No Brasil da Lavajato,
Disse Mané Capiroto,
Depois de tomar uma cana
E soltar sonoro arroto,
O mais difícil é saber
Quem é que ainda está solto.

II

Todo dia uma canetada,
No café ou no almoço,
Se for às 6 da manhã,
É o maior alvoroço,
Tem gente que sai correndo,
Sentindo o maior sobroço.

III

No sertão da Paraíba,
O Marajá da Pitu,
Quando viu a Federal,
Derrubou a cuia de angu,
Danou-se dentro do mato,
Foi se parar no Jacu.

IV

Um parlamentar passou
Três dias no matagal,
Um ministro se trancou
Numa sala do Mobral,
Outro amanheceu o dia
Na cama do hospital.

V

Lula ontem protestou,
Disse que ia enfrentar.
Falando com Jaquivagui,
Chegou mesmo a comentar,
Diante do quiproquó:
- Com esse dedo cotó,
Não dá nem pra disfarçar...

Jango em Paris, quando ainda tinha esperança de viver

Faz 40 anos, neste setembro da 2016. Em 1976, acabada a Constituinte portuguesa (quando escrevi “Portugal, Um Salto no Escuro”, para a Francisco Alves), com vitória ao Partido Socialista de Mário Soares, iria começar a da Espanha. Viajei pela “IstoÉ” e “Correio Braziliense”. Antes dos comícios da Espanha, fui passar duas semanas em Paris e soube que o ex-presidente João Goulart estava na cidade, cuidando do sofrido e alquebrado coração. Estava hospedado no hotel Claridge (Champs Élysées, 74). Fui lá deixar-lhe um cartão com um abraço brasileiro. Saindo do hotel, encontrei o Carlos Castello Branco, do “Jornal do Brasil”, que fora conversar com ele. Estava preocupado: – O Jango não está bem, muito pálido e inconformado com o exílio.

Deixei um bilhete, com o telefone do hotel onde estava hospedado (o “Argentine”, ao lado do Arco do Triunfo). No dia seguinte, um recado do Presidente. Esperava-me para uma conversa. Conversamos horas. O Castelinho tinha razão. A ditadura militar estava assassinando Jango.


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Talvez eu tenha sido inábil ao lembrar-lhe a história rocambolesca do hotel dele. O “Claridge”, onde tantas vezes me hospedei quando era no máximo de 200 dólares a diária, faz parte da história cultural, política e militar de Paris. Nele viveram artistas, escritores e generais alemães. Colette, a dama das letras, morou lá, como o cantor Maurice Chevalier. Quando Hitler invadiu Paris em 1940, o marechal Von Rundstedt, com seu ajudante de ordem o coronel Paulus, ocupou a suíte central , a mais bonita.

Finda a guerra, o diretor M Machenaud, serviçal e puxa saco, foi preso e executado pelas tropas de De Gaulle. Em agosto de 45 os nazistas derrotados foram substituídos por gente melhor, como Marlene Dietrich e Jean Gabin, a divina Edith Piaf, o automobilista argentino Manoel Fangio, Evita e Juan Perón, Ella Fitzgerald, Scott Fitzgerald, o poeta Ezra Pound, o cantor Ray Charles, a atriz Jane Mansfield, o ator Curt Jurgens, o cineasta Luis Buñuel, de novo Perón em 73, já agora com sua Izabelita.E Pavarotti. Jango espichava a dura perna direita, olhava os móveis e cortinas do bar, bebia mais um uísque, ficava calado e infinitamente triste. Ia morrer.


Voltei ao Brasil lendo a excelente biografia de João Goulart, bem documentada e sobretudo verdadeira, do professor e historiador Jorge Ferreira, da Universidade Federal Fluminense e pesquisador do CNPQ. Não era novidade para quem conhecia suas exemplares e convincentes pesquisas sobre o trabalhismo brasileiro: “O Imaginário Trabalhista – Getulismo, PTB e Cultura Política Popular”, “Prisioneiros do Mito – Cultura e Imaginário Político dos Comunistas no Brasil”, “O Populismo e sua Historia”.

Jango viajara para a Europa para fugir das ameaças que passara a sofrer na Argentina e tomar providências para encontrar uma residência em Paris, onde residiria até o retorno ao Brasil.

Em Paris, Jango encontrou-se com Abelardo Jurema e José Gomes Talarico, a quem pediu que procurasse Mário Soares para agradecer-lhe o convite para ir a Portugal. Não deveria aceitar, pelo constrangimento que causaria ao líder português, no início do mandato. Mas pedia que ele regularizasse a situação dos exilados brasileiros. Mário Soares manifestara preocupação com Brizola vivendo sob a ditadura uruguaia. E sugeriu que ele fosse para Portugal. Brizola foi.

O médico suíço concluiu que o coração de Jango era frágil como o de um homem de 80 anos, quando, na época, tinha 56. O médico francês disse que sem perder peso e parar de fumar a medicina nada poderia fazer:

-“Monsieur President, si on ne veut pas vivre, on ne vit pas.” (“Senhor Presidente, se não se quer viver, não se vive”)

Negava-se a parar de fumar. Escreveu para Cláudio Braga:

– “Estou concluindo exames com resultados bem razoáveis, especialmente considerando que não me sujeito a prescrições”.

Em dezembro de 76 Jango morria numa fazenda na Argentina. Por mais que fuçassem sua vida, os militares brasileiros e americanos nada encontraram para denunciá-lo. Seus ministros da Fazenda eram Moreira Sales e Santiago Dantas. Não eram o prisioneiro Mantega nem Palocci.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Novas tecnologia, velhos problemas

Estive segunda-feira, 19, em Belo Horizonte para o 7º Fórum Liberdade e Democracia do Instituto de Formação de Líderes. Bom ver empresários investindo tempo, dinheiro e competência não só para melhorar o Ebitda do próximo exercício mas para tornar o meio ambiente intelectual e institucional brasileiro tão acolhedor para o empreendedorismo, a inovação e a criação de empregos e riqueza quanto já foi quando crescíamos mais que o resto do mundo.

Reconfortante reencontrar um Brasil preocupado em “cultivar”, conceito que para além do de plantio embute o de educação para o melhoramento de “sementes” e o bom desenvolvimento delas, depois desses anos todos de usurpação da cena pelo “extrativismo selvagem” desses personagens sinistros da beira da economia privada que encosta na politicalha para assaltar o Estado e submeter a Nação pela corrupção.

Não há outro caminho senão um esforço metódico de reeducação promovido pelo Brasil que presta para reconstruir sua identidade perdida e retomar o protagonismo para reerguer o país do tsunami de amoralidade em que se afogou.


ilustrações de Steve Cutts:
Steve Cutts
Por todo o medo misturado a encantamento que despertam era inevitável que num evento sobre “Liberdade de Escolha na Era da Inovação” as novas tecnologias, neste limiar da conquista da autonomia do seu próprio desenvolvimento futuro com o advento da inteligência artificial predominassem nas apresentações. A “liberdade de escolha” ficou como de fato está no mundo do aqui e agora: no segundo plano a que a relegou a inexorabilidade dessa revolução para a geração “que testemunhará a morte da morte pelo desenvolvimento da medicina e da biogenética em menos de 30 anos” e passará a “viver para sempre” numa ainda indefinível conjuntura da qual estarão ausentes todas as estruturas conhecidas de produção e de trabalho…

…ausentes estas mas com certeza não, é bom não esquecer, a eterna força de corrupção que “O Poder” exerce sobre nossa espécie…
Ha muita confusão no ar. O fato da tecnologia estar provocando a “disrupção” dos poderes do Estado Nacional não é uma notícia tão boa como pode parecer à primeira vista para todos quantos têm bons motivos para festejar a queda dos seus antigos algozes. Esses poderes estão apenas sendo substituídos por outros ainda mais amplos. A tecnologia muda muita coisa mas não muda a natureza humana. E a única que não tem visto qualquer desenvolvimento desde a sua versão “ponto3” que data de 1776 (Atenas, Roma, Inglaterra/EUA) é a que trata de manipular essa natureza para permitir ao homem proteger o homem do homem, dita “democracia”. Nada melhor foi inventado ainda.

Acontece que a liberdade se materializa, dentro das sociedades economicamente orientadas em que nos congregamos, essencialmente nas nossas dimensões de produtores e consumidores. Nada da vasta coleção de “direitos” que se abrigam por baixo do grande chapéu da “cidadania” se transforma em realidade palpável se não houver um grau suficientemente amplo de opções de livre inserção e mobilidade nos universos do trabalho e do consumo.

Isso é ponto pacífico, conforme já ficou provado com rios de lágrimas e sangue, mas não é tudo.


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Tendo assumido a forma que lhe deu a elite intelectual do Iluminismo que emigrou para o “Novo Mundo” em função do “milagre” da disseminação da propriedade da terra em pleno feudalismo europeu que a “descoberta” da América ao norte da nossa proporcionou, a História permite afirmar com segurança que a “democracia.3” foi antes a resultante que a causadora daquele inédito processo de distribuição de riqueza. O processo de reconcentração da propriedade chegou, entretanto, ao auge nos Estados Unidos da virada do século 19 para o 20. Para salvar da morte o capitalismo que a democracia engendrou pela retirada do apoio popular que teve durante a fase de aumento da riqueza coletiva, a legislação antitruste foi adicionada à receita original. Essa reforma estabeleceu, agora formalmente, a preservação das liberdades essenciais de escolher um trabalho e negociar preços justos com uma multidão de fornecedores sem as quais nenhuma outra se estabelece como o “Valor nº 1” do sistema, acima até das conquistas do indivíduo pelo merecimento que definem a revolução americana.

Só que a diluição da “democracia.3” no oceano sem fim da miséria dos egressos do socialismo que a internet derramou da Ásia para os mercados de trabalho e de consumo planetários a partir dos anos 80 do século 20, agora sem leis nem fronteiras, empurrou o que foi o capitalismo democrático de volta para a competição sem limites que tende aos monopólios e quase o matara um século antes.

A sinuca sintetizada na alternativa “crescer ou morrer» é de longe o maior desafio que a causa da liberdade já enfrentou. Se Estados Nacionais desenfreados como o brasileiro têm o poder de dar ou tirar a condição de sobrevivência econômica do indivíduo, as gigantescas entidades globais que as novas ferramentas engendraram e engolem tudo à sua volta em escala planetária e à força de bilhões terão amanhã, como demonstraram muito convincentemente os entusiastas das novas tecnologias no evento de Belo Horizonte, o poder de prover ou negar até a vida eterna a quem lhes interessar possa.

Foi sempre complicada essa história de homens que, por não serem anjos, requerem ser governados por outros homens que não são anjos de que falava James Madison. Agora que é de toda a humanidade que se trata não ficou mais fácil. Mas tanto a doença quanto o remédio continuam sendo os mesmos de sempre. O consolo para os últimos da fila, como nós, é poderem sempre copiar o que já está feito e deu certo como fizeram os japoneses, os coreanos e estão fazendo os chineses, e passar voando por cima dessa anacrônica miséria a que nos deixamos reduzir para nos juntarmos ao resto da humanidade no enfrentamento apenas dos problemas que ainda não se sabe como resolver. Basta quere-lo o bastante.

O exército do 'Fora, Temer'

Eu também quero ser feliz. Fico com inveja dos manifestantes que berram “Fora, Temer”, orgulhosos, iluminados pela certeza de que lutam pelo bem do Brasil. Tenho inveja deles. Nada é mais cobiçado do que a chamada “boa consciência”, a sensação de estar do lado certo da história ou da justiça. Tenho inveja de famosos artistas e intelectuais que aderiram à causa do “Fora, Temer” – se bem que ainda não consegui entender o labirinto ideológico dentro de suas cabeças que desemboca nesses protestos. Fico inquieto, mas logo me tranquilizo, porque eles, pessoas especiais, têm um fino saber e, se tivessem tempo (ou saco), me elucidariam sobre suas profundas razões.

Esforço-me, mas ainda não alcanço essa profundidade. Acho que tenho de me rever, fazer uma autocrítica. Talvez eu seja levado por minha cruel personalidade que, como eles dizem, não deseja o progresso do país. Eu sei que, ai de mim, talvez eu não passe mesmo de um fascista neoliberal, mas também sou um ser humano. Por isso – me entendam – eu quero ser salvo, doutrinado, catequizado pelo saber histórico dos manifestantes.

Peço, por favor, que me ajudem a entender suas teses, para que eu saia das trevas da ignorância. Eu sou um pobre homem alienado, mas quero me atualizar. Por isso, trago algumas perguntas para me livrar dessas dúvidas pequeno-burguesas.

Por exemplo: me expliquem porque a palavra de ordem é “ golpe, golpe”. Como assim? – pensei, na minha treva: se a Suprema Corte, o Congresso, o Ministério Público, a PGR, a Ordem dos Advogados e a Associação dos Magistrados do Brasil levaram nove meses para cumprir o ritual constitucional e legitimaram o impeachment, por quê é golpe? A turma do “Fora, Temer” deve saber. Talvez, alguém da direita tenha envenenado a mente desses juízes, congressistas, advogados e procuradores. Quem, na calada da noite, se reuniu com eles, e juntos planejaram um golpe contra a Dilma? Imagino a cena, tarde da noite num bar de hotel: ministros e juízes bebem e celebram, às gargalhadas, um plano para arrasar o PT. Me expliquem esse mistério, pelo amor de Deus.

Vejo, com assombro de inocente inútil, que ignorei a estratégia bolivariana quando Dilma declarou em campanha que na economia estávamos bem. Frívolo que sou, achei que Dilma estava mentindo; mas logo lembrei que era “mentira revolucionária” para ser eleita – hoje, entendo que Dilma fez bem em encobrir um rombo de R$ 170 bilhões com dinheiro dos bancos públicos.

Quebrou-se a Petrobras, mas já posso ouvir nossa “intelligentsia”: “Os fins justificam os meios, e, se a Petrobras era do povo, seu dinheiro podia ser expropriado para o bem do povo”. Na mosca. Espantei-me com a visão de mundo que justificou a compra da refinaria de Pasadena por um preço 30 vezes maior; pagamos por uma lata velha US$ 1,5 bilhão. Mas eu, um idiota da objetividade, tenho a convicção de que vocês me revelarão a límpida verdade: Dilma sabia da venda, mas fez vista grossa em nome de nossa salvação. Afinal, o que é US$ 1 bilhão diante do socialismo (ou brizolismo) triunfante que virá?
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Às vezes, em minha hesitante mediocridade, temi que os 50 mil petistas empregados no governo estivessem trabalhando para o PT e não para a sociedade, mas já ouço a voz de grandes artistas explicando-me, com doce benevolência, que a sociedade não é confiável e que os petistas não eram infiltrados, mas vigilantes de sua missão no futuro.

Houve um momento em que achei, ingenuamente, que a nova matriz econômica de Dilma e Mantega era o rumo certo para a catástrofe. Ou para o brejo. Mas sei que os sapientes comunistas dirão que esse será um brejo iluminista que acordará as mentes para a verdade. Assim, respiro aliviado. Entendi-os: “mesmo a ruína poderá ser didática”. Eles dirão, imagino, que um poder popular não podia se ater a normas econômicas neoliberais e tinha de estimular o consumo. Isso criou 12 milhões de desempregados? Sim, mas nossos teóricos rebaterão que, mesmo quebrando o país e provocando inflação, esses 12 milhões sentiram o gostinho das geladeiras e TVs e que isso é a criação de um desejo para o socialismo. Na mosca.

Confesso também que fiquei desanimado com o atraso de todas as obras prometidas, que o PAC não andou, que não devíamos financiar portos e pontes em Venezuela, Angola e Cuba, mas eles me ensinarão que a solidariedade internacional bolivariana é fundamental para a vitória de seu projeto. Quero me penitenciar também por ter me entusiasmado com a Lava Jato, que considerei uma mutação histórica. Depois, lendo os jornais e as explicações de gente lúcida, como a barbie-bolivariana Gleisi Hoffman e Lindenberg Farias, o homem que salvou Nova Iguaçú, voltei atrás e vejo que Moro e seus homens não passam de fascistas que querem impedir o avanço das forças do progresso. A Lava Jato, hoje o sei, é de direita.

Às vezes, reacionários criticam o governo Dilma por gastar muito em publicidade, porque desde o início do governo do PT foram gastos R$ 16 bilhões. Eu achava isso errado, mas sábias palavras me provarão que a população é uma grande “massa atrasada” e que há que lhe ensinar a verdade do capitalismo assassino.

Também achei pouco elegante a difusão pelo mundo da tese de que um golpe terrível tinha se passado no Brasil, achei que uma presidenta não podia espalhar uma difamação sobre o próprio país. Mas artistas e intelectuais vão sorrir com superioridade e me ensinar (já os vejo...) que a adesão internacional é mais importante que velhas fronteiras nacionais.

Por isso, creio que estou pronto para minha reforma mental. Estou pronto para renegar minhas dúvidas pequeno-burguesas. E logo poderei fazer parte daqueles que invejo por seus rostos iluminados de certeza, por sua sabedoria acima da história e do óbvio.

Assim, poderei participar desses protestos, me sentir um revolucionário e gritar, de punho erguido e fronte alta: “Fora, Temer!!”

Chorinho com um trio de ouro


Arthur Moreira Lima (piano), Paulo Moura (clarinete) e Heraldo do Monte (guitarra) se apresentam com "Pedacinhos de céu", de Waldir Azevedo, no Kaiser Bock Winter Festival, em São Paulo (1997)

Sua Excelência, o voto

Poucas vezes se viu uma campanha eleitoral como a que está acontecendo no país, em especial pelo expressivo desinteresse por parte do eleitorado brasileiro. Primeiramente, a partir da maioria dos candidatos aos cargos de vereador e prefeito, que se apresentaram sem propostas ou com propostas requentadas, impraticáveis, inviáveis e medíocres. Há exceções, claro, e candidatos por quem se alimenta desejo de êxito, tal a seriedade do postulante, de seu grupo e de suas iniciativas. Mas são raros.

Quem presta atenção em cartazes e adesivos fixados nos veículos que servem às campanhas não precisa ir muito longe para ver o que se pode esperar de vários eleitos. Candidatos a prefeito que nunca geriram um boteco se apresentam para tomar conta de receitas públicas milionárias e quase sempre insuficientes para atender às reais necessidades das cidades.

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O município brasileiro foi a primeira instância da administração pública a ser alcançada por sucessivos golpes de morte, gestados por um ordenamento tributário que reclama reformas urgentes. Impostos brasileiros viajam e voltam para chegar aonde foram recolhidos; nessa trajetória, dormem e engordam os cofres de bancos até serem destinados ao muitas vezes tardio custeio das responsabilidades públicas. É irônico, para não dizermos lastimável.

E, se a expectativa é sofrível em relação aos prefeitos, o que dizermos de vereadores? A começar pelos nomes que adotam para conquistarem a preferência de seus potenciais eleitores. Da fauna, da flora, dos costumes, há exemplares para todo (mau) gosto e de imponderável ridículo. Sapão, Perereca, Vovô do Funk, Jegue, Pinico, Cebola, Burro Veio, Jumento, Caraka-Meu, Fofão e mais uma infinidade de despropósitos.

“Concedo a palavra ao vereador Perereca, que ocupará a tribuna por cinco minutos”, dirá o presidente da Câmara; “a tribuna está à disposição do senhor vereador Jegue e, logo após, do senhor vereador Jumento, para suas considerações”. E todos, isso, sim, sem exceção, com a autoridade para indicar dezenas de assessores, religiosamente mantidos com os recursos dos impostos que eu, tu, ele, nós todos recolhemos.

Para termos autoridade na cobrança de compromissos e atitudes, as eleições são a única trincheira disponível para lutarmos pelo reencontro com o respeito, com a dignidade, com os verdadeiros propósitos de um vereador: legislar com inteligência, fiscalizar com isenção, propor em favor do interesse coletivo. É do voto que dispomos. Vamos valorizá-lo.

Fora do mundo real

Há 10 dias, procuradores da Lava-Jato acusaram Lula de ter recebido propinas da construtora OAS no valor de R$ 3,7 milhões.

Parte do dinheiro foi gasta na reforma de um triplex na praia do Guarujá, em São Paulo.

A outra parte no armazenamento de pertences de Lula destinados ao triplex e ao sítio de Atibaia, também em São Paulo.

Como o PT reagiu à denúncia, depois aceita pelo juiz Sérgio Moro, que alçou Lula à condição de réu por corrupção e lavagem de dinheiro?

O PT preferiu atacar um gráfico exibido pelos procuradores onde o nome de Lula aparecia no centro ligado a fatos e personagens do maior escândalo de corrupção da história do país.

E para rebater a menção a Lula como “o comandante máximo” de uma organização criminosa, repetiu como se fosse dos procuradores uma frase que eles jamais disseram: que não tinham provas, mas convicção.

Há cinco dias, por ordem do juiz Moro, o ex-ministro da Fazenda dos governos Lula e Dilma, o economista Guido Mantega, foi preso sob a acusação de ter intermediado dinheiro suspeito para o PT.

Como o partido reagiu? Atacou a Polícia Federal por ter prendido Mantega dentro do centro cirúrgico de um hospital de São Paulo, onde a mulher dele, vítima de um câncer, estava sendo operada.

A mulher não estava sendo operada. Iria submeter-se a uma endoscopia. Mantega não foi preso dentro do centro cirúrgico, nem mesmo dentro do hospital, mas fora dele. E liberado cinco horas depois.

Ontem, Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda do governo Lula, ex-chefe da Casa Civil do governo Dilma, foi preso e levado para Curitiba. É acusado de suceder Mantega na arrecadação de propinas para o PT.


Como o partido reagiu? Nada disse sobre a acusação. Preferiu bater no Ministro da Justiça Alexandre Moraes que na última sexta-feira, no interior de São Paulo, vazou a informação de que haveria nesta semana mais uma operação da Lava-Jato.

Desde que chegou ao poder com a eleição de Lula em 2002, o PT foi incapaz de admitir seus erros, de penitenciar-se por eles, muito menos de aprender alguma coisa com eles.

O mensalão quase custou o primeiro mandato de Lula. E o que ele e o PT fizeram em seguida? Trocaram o pagamento de propinas a deputados pelo loteamento de cargos na Petrobras e no governo.

Foi mais do mesmo: a corrupção amadora deu lugar à corrupção aparentemente sofisticada. A primeira não resistiu à delação de um deputado. A segunda está sendo dizimada por Moro e seus procuradores.

Ou por Moro e “esses meninos”, como Lula insiste em chamá-los.
Ricardo Noblat

Anos de sangria

O grande foco da defesa do PT é sempre denunciar uma perseguição política contra a candidatura de Lula em 2018. Seria um golpe aos mais necessitados, à inclusão social e outras quimeras que os governos petistas fizeram em bem menor escala do que apregoam.

Nem uma nem outro. A Lava Jato faz o trabalho que lhe cabe de investigação e prisão de meliantes. Se em maior número e na cabeça da organização criminosa estão petistas e companheiros, vão prende e investigar quem? Não podem direcionar os trabalhos contra quem não teve tanta importância na máfia partidária.


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Fica cada vez mais claro que a Polícia Federal e o Ministério Público estão visando os comandantes, o que não se fazia antes. Era facilmente preso até caseiro, mas o poderoso chefão era até inocentado nas cortes superiores dos crimes contra o empregado. Como sempre, a justiça dos ricos contra os pobres, tão "defendidos" pelos petistas, quando não interferem em suas maracutaias.

A História, no Brasil, vai certamente identificar no futuro os anos petistas na Presidência como os de imensa sangria dos cofres públicos em favor de um projeto de governo e de favorecimento ditatorial a um grupelho marginal.

É o que revelam as fases da Lava Jato uma atrás da outra, pegando os sem foro privilegiado. Se o PT quer mesmo uma limpeza geral e os gatunos de outros partidos que pressione as cortes celestes no Planalto, onde estão empoeirando os processos contra aqueles da base aliada de outrora. Será um grande serviço prestado ao país para compensar o desserviço que fizeram instalando a organização criminosa para roubar do povo.
Luiz Gadelha

Receita cobra bilhões dos pequenos e poupa grandes devedores

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A Receita Federal notificou ontem 668.440 microempresas e pequenas empresas a pagarem quase R$ 23,8 bilhões em débitos com impostos, previdência etc, que têm prazo apertado de 30 dias para isso ou serão excluídas do regime tributário Simples. A Receita não informou se vai adotar providências contra dívidas semelhantes, no valor astronômico de R$ 392 bilhões, de apenas 500 grandes empresas brasileiras.

Só a fraude detectada pela Operação Acrônimo no Carf, o Conselho de Administração de Recursos Fiscais, é de mais de R$ 20 bilhões.

O rombo estimado pela Lava Jato na Petrobras é de R$ 23 bilhões, mesmo valor das dívidas das 668.440 empresas que serão esfoladas.

Após os desacertos do governo Dilma, que permanecerão impunes, o rombo no orçamento previsto do governo federal é de R$ 170 bilhões.

Só um diretor da Fiesp deve à Receita, na pessoa física, um terço da dívida das 668 mil empresas no paredão da Receita: R$ 6,9 bilhões.

Imagem do Dia

Entardecer no vale Nubra , na Índia 

O último pescoço

Charge (Foto: Miguel)
A pergunta mais ouvida no país é sobre quando chegará a vez do Lula, agora que até Antônio Palocci acaba de ser preso. Todo o alto comando do PT foi e continua indo para o brejo, feito a vaca. De José Dirceu em diante, todos tomam o rumo da cadeia. Com pequenas variações, a acusação é a mesma: roubalheira no exercício de funções públicas.

Faz tempo que se desencadeou a operação Lava Jato, visando identificar e punir quantos praticaram crimes de tráfico de influência, formação de quadrilha, doação e recebimento de propinas, desvio de recursos públicos, superfaturamento e outros.

O círculo se fecha em torno do Lula e de Dilma, pois são seus ex-ministros e antigos auxiliares que vêm sendo flagrados em associações criminosas com empreiteiros e grupos empresários de toda espécie. Estes também são condenados e até se valem das benesses concedidas para facilitar-lhes delações premiadas que aumentam a ciranda de acusações e punições.
Conseguirá o Lula escapar das tenazes que obviamente se aproximam dele? Impedir sua candidatura à presidência da Republica em 2018 parece objetivo maior de seus adversários, ainda que, em paralelo, combater a corrupção.

Aguardam-se os próximos lances da ação da Polícia Federal, do Ministério Público e da Receita Federal, cumprindo integralmente suas missões. Daqui a pouco não sobrarão pescoços para ser degolados, ficando a guilhotina à espera do último.

Babel brasileira

As palavras, ah, as palavras, as palavras. Elas vêm e vão igual à moda e às ondas do mar. Algumas vivem só por estações ou temporadas, depois ficam esquecidas num canto até que alguém lembre de ir buscá-las para convencer um outro alguém de seus significados

Espero que a palavra gestão, por exemplo, se salve desse destino triste após as eleições. Nunca tinha sido tão usada, e é na verdade tão necessária em seu sentido pleno. Vou torcer para que – depois de ser entendida – encontre outras, como organização, e em causa própria citarei mais uma que anda toda ralada por aí, se prostituindo por pouco: comunicação. A imprensa nacional em crise de identidade, cambaleante, bebendo muito, e em fontes estranhas, perdida atrás de seus leitores e telespectadores.

Penso se as redes sociais não são essa enorme centrífuga de pensamento que domina neste momento, tinhoso, ranheta e rabugento, mas que deu voz a todos, e como em Babel, vozes que não se entendem entre si.
Tower of Babel [by Jeff Konigsberg and Adam Toht]
Jeff Konigsberg e Adam Toht
O problema é que elas já ecoam na Torre completamente embaralhadas, porque nunca vi tanta incompetência em gerir a comunicação como a que está demonstrando esse governo. Eles,primeiramente, fora…, como já de brincadeira se diz e a coisa pegou, nem combinam nada entre si, e saem por aí atirando medidas fortes para o alto, e logo elas caem e se despedaçam sem qualquer sentido.

12 horas de trabalho /dia. Desobrigação de aulas de Educação Física e Artes no ensino médio, e obrigatoriedade apenas de Inglês (!), Português e Matemática. Cortes em programas sociais. Tesouradas agressivas na Previdência, na aposentadoria. Mordidas nos orçamentos de Saúde e Educação. Cada dia um solavanco e uma correria para explicar o inexplicável, negar, dizer que não é bem assim, que tudo ainda está em estudos. E a melhor: que a sociedade ainda vai ser consultada a respeito desses vários temas.

Acho linda essa parte. Quando falam na “sociedade civil”, então, até me arrepio e eriçam-se os pelinhos. Lembra imediatamente a outra horripilante palavra, empoderamento. Há novas rodando alta quilometragem, como coletivo, situação de… (rua, etc.), vai lembrando de outras e me manda – vou começar uma coleção.

Mas voltando à vaca fria, o governo, um diz uma coisa, o outro faz outra. Um explica de um lado, o outro confunde de outro. E, como tudo que é assim, nada acontece, fica parado. E se anda, dançam melhor o bate-cabeça do que muitos metaleiros, os do rock pesado.

Escrevam: nessa toada não vai dar certo. Continuamos em suspensão mesmo depois de meses desse doloroso processo de impedimento e troca de comando. Como se uma espada pairasse todos os dias sobre a cabeça dos escolhidos, alguns muito mal escolhidos, aliás, observe-se, os amigos de num sei quem que vêm sendo apresentados ou se apresentam como salvadores da pátria com planos mirabolantes. Inclusive a promessa de agora, a de resolver a babel brasileira.

Essa espada é que ainda tem muita gente por aí dando com a língua nos dentes.

Prova de fogo

Os políticos estão penando com o fim do financiamento empresarial à brasileira, e dos estragos que ele provoca na democracia, como ficou amplamente provado nas últimas décadas, culminando com o mensalão e o petrolão, estruturas criminosas organizadas para fraudar eleições com propinas e extorsões de empresas.

Mãe de todas as corrupções e pretexto para roubos e falcatruas em nome da luta pelo poder, a doação eleitoral de empresas aqui não representava uma vontade de contribuir para a democracia e para o futuro do país, mas um investimento no mercado futuro. Em países civilizados, esse tipo de doação funciona com limites rígidos e ultracontrolados. Não é o nosso caso.

Na verdade, o financiamento público já existe com os generosos fundos partidários e o valiosíssimo horário gratuito de rádio e TV, além dos inúmeros debates públicos, de ampla cobertura da mídia e da internet. Nenhum candidato pode se queixar de falta de meios para alcançar os eleitores de sua cidade, mas acabou a era das campanhas milionárias, de gênios do marketing decidirem eleições em favor de quem lhes paga, seja quem for.

É uma esperança para a minoria de candidatos com espirito público e uma limitação para a grande maioria que faz politica como profissão. Até agora o policiamento das doações parece eficiente. São muitos os desvios flagrados, os doadores “profissionais” estão mais receosos, mas no desespero da reta final é que vamos ver se as novas leis funcionam na prática ou não.

Em duas semanas vamos saber os seus efeitos na qualidade dos eleitos no primeiro turno, justo num momento em que, por todos os motivos, os políticos e os partidos nunca estiveram tão desacreditados. Por pior que seja o momento do país, ou justamente por isso, estamos vivendo esse cara a cara com a democracia real, uma prova de fogo para uma mudança de atitude dos candidatos e do eleitorado.

É triste votar no “menos pior”, que provoca tantas desgraças políticas, mas não participar favorece aos candidatos “profissionais”. Agora não vamos eleger só prefeitos e vereadores, vamos expressar uma vontade de mudança de padrão na escolha dos nossos representantes.

A esquerda vai às compras

Muitos jovens russos leem Trotski, Marx e Engels e veem Stalin como uma figura a ser imitada. Ainda são inaugurados museus em sua memória. Está na moda.
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Por trás disso se esconde o fato de que existe muita gente que se sente derrotada e idealiza o passado. Querem que se mantenha a liberdade de poder viajar pelo mundo e que as lojas estejam cheias de produtos, mas, ao mesmo tempo, desejam um socialismo igualitário
Svetlana Alexiévich, bielorrussa ganhadora do Nobel e cronista do declínio da União Soviética

O alarme do populismo

No ano passado, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, dedicou sua eloquência aos migrantes. Neste ano, na cúpula de Bratislava, onde os 27 países do bloco se reuniram na sexta-feira, foi sobre outro perigo que Juncker disparou o alarme: o populismo.

Populismo, claro, não é novidade. Já havia populistas na Roma republicana. Na Renascença eles também estiveram ativos, por exemplo, em Florença. Mas hoje não é só em alguns países que se encontram populistas. Eles estão nos 27 países-membros da União Europeia, sem falar nos Estados Unidos, que têm muito a se preocupar com Donald Trump.

Almir Quites: Populismo selvagem
A essência do populismo está em não conseguirmos defini-lo. Ele tem o dom da ubiquidade. Adora mudar de rosto. Tem todo tipo de roupa no armário. Geralmente o encontramos sob os trajes da direita (Marine Le Pen, Nigel Farage, o húngaro, Viktor Orbán, o movimento Pegida, da Alemanha, etc.). Mas o populismo também veste de bom grado os trapos da esquerda: na Grécia, o Syriza; na Espanha, o Podemos; na França, a Frente de Esquerda, o Mélenchon, o Partido Comunista.

Por que o populismo prospera mais em certas épocas? Pode-se citar razões imediatas, como a crise, os migrantes, etc. Mas, fundamentalmente, o populismo ilustra a eterna guerra entre “as elites” e “o povo”.

Em seus discursos, líricos e apocalípticos, os populistas exploram sejam os baixos instintos (Hitler), seja qualquer tipo de emoção. Não apelam muito à racionalidade, à teoria. Não falam em revolução, mas em revolta. Karl Marx não era populista. Na Revolução Francesa, os sans-culotte se contentavam em pilhar os aristocratas, enquanto os revolucionários – Robespierre, Danton –, que eram burgueses muito cultos, sonhavam com uma sociedade “racional”.

Essa característica – a emoção antes da razão – é muito forte nos populismos europeus. No drama dos migrantes há elementos objetivos que deveriam ser abordados racionalmente, mas na cabeça dos populistas esses elementos são cobertos por uma camada espessa, pegajosa, de emoção, de imaginação, de fantasmagoria: “O árabe vai invadir a Europa aos milhões e violentar todas as mulheres”.

A mesma emotividade se faz notar nos programas econômicos. Quando um partido populista chega ao poder, lança imediatamente um vasto plano de políticas públicas. A economia, então, logo ganha força, mas, após um ano, a mecânica emperra e vem uma hiperinflação. Hoje, nos países dominados pelo flagelo populista, a compra de ouro cresce rapidamente.

As alas populistas são chegadas a uma teoria da conspiração – por trás de todo grande acontecimento existem fatos subterrâneos, bastidores tenebrosos nos quais forças diabólicas agem em segredo, a favor das elites, dos poderosos, dos ricos. Putin é marionete de Obama, ou Obama seria marionete de Putin. Todos são cúmplices, todos são podres. Hillary Clinton tem uma sósia. Os aviões do 11 de Setembro eram uma farsa.

Essa sociedade quase imaginária na qual vivem os populistas é sempre sombria, pessimista: os velhos bons tempos não voltam mais; os filhos não valem o que valiam os pais e os pais não valem o que valiam os avós; o mundo está numa longa decadência, caminhando para o fim; todos os dirigentes e as elites só querem encher os bolsos – são corruptos, dormem com montes de garotas, mas são homossexuais. Depois deles, o dilúvio! São esses os fantasmas que pululam por trás da ideologia populista.

As causas imediatas do populismo variam conforme a época. Hoje, são duas as principais. A primeira é a crise de 2009, que ampliou vertiginosamente, vergonhosamente, a desigualdade entre “povo” e “elite”. A arrogância obscena dos ricos foi solo fértil para o populismo. A segunda causa, no que se refere à Europa, é a invasão de migrantes, esses milhões de infelizes expulsos da Síria, Afeganistão, Somália, Líbia, de todos os lugares em que os Estados Unidos tentaram impor sua ordem.

Não surpreende que, na Europa, o lugar favorito dos populistas seja o leste: Polônia, Hungria, República Checa, Eslováquia – países economicamente frágeis que, de quebra, se encontram na rota dos pobres migrantes. A reação de Budapeste, Varsóvia, Praga, Bratislava é típica do populismo: restabelecer as fronteiras e fechar-se atrás de muros e arame farpado para impedir a infiltração de “micróbios”.

Entende-se, neste ponto, que entre as causas que favoreceram a epidemia de populismo estão em primeiro plano as grandes realizações que as “elites” impuseram ao “povo”: a globalização americana e, no Velho Continente, essa Europa comunitária dos intelectuais e dos ricos, tudo longe das massas.

Uma última observação: nem é preciso dizer que os agricultores europeus, golpeados pela crise, afastados das elites e vivendo em seu ambiente arcaico, apesar da modernização do campo, continuam muito ligados à mitologia dos ancestrais e constituindo grandes batalhões para o populismo de extrema direita. Marine Le Pen, quando vai aos campos devastados do norte da França, faz a festa.

Uma reconstituição do clima dos dois últimos milhões de anos

A capacidade de prever a evolução do clima terrestre no futuro depende em boa medida da informação acumulada sobre o passado. Até agora, as reconstituições de temperaturas médias globais só haviam sido feitas para períodos isolados, como os últimos 20.000 anos, mas vinha sendo difícil realizar esse tipo de relatório para períodos ininterruptos, criando um mapa contínuo das temperaturas da Terra que fosse além das eras glaciais.

Esta semana, a pesquisadora da Universidade Stanford Carolyn Snyder publicou na revista Nature uma reconstituição de temperaturas médias globais dos últimos dois milhões de anos. Este trabalho é a maior reconstituição contínua de temperaturas até o momento, e dele se depreendem algumas conclusões preocupantes para o futuro do planeta.


Snyder acumulou milhares de reconstituições de temperatura dos últimos dois milhões de anos em intervalos de mil anos com base em 59 registros de sedimentos do oceano. Com essas informações, observou que as temperaturas do planeta foram decaindo até 12 milhões de anos atrás. A partir desse momento, essa tendência de esfriamento se deteve. Isso ajudaria a entender o que aconteceu nesse período conhecido como a transição do Pleistoceno Médio, quando, sem uma mudança na órbita terrestre que explique isso, o planeta passou de períodos glaciais de uns 41.000 anos a outros de 100.000. Embora a maior parte das hipóteses que tentam explicar essa mudança sugira que ocorreu como fruto de um período de esfriamento no longo prazo, possivelmente favorecido por uma queda na concentração de dióxido de carbono na atmosfera, os dados de Snyder indicam que essa pode não ser a única causa.

Como conclusão, a pesquisadora de Stanford avalia que a reconstituição climática dos dois últimos milhões de anos combinada com os registros de concentração de CO2 na atmosfera sugere que as temperaturas médias da superfície terrestre poderiam elevar-se entre 3 e 7 graus no próximo milênio, mesmo se os níveis de dióxido de carbono parassem de subir.
Fonte: El País (com vídeo)

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Chatos

De certo, somente que viramos um povo chato. Ou talvez sempre tenhamos sido. Que talvez por desenho, destino ou desejo, optamos por abandonar o verniz de tolerância que a gente (pelo menos tentava) exibir por ai. Abraçamos a intolerância. E ponto.

Nada de tentar parecer cordial, hospitaleiro, tolerante. Isso é passado. E, tudo indica, distante. Todos apaixonados pela própria voz. Muita voz. Poucos ouvidos. Inteligência, nenhuma.

Faz tempo que a gente não conversa para entender. Cada som, cada palavra, cada ato, é somente para convencer. Ou melhor, converter. E, para aqueles que estão do outro lado da conversa, resta somente a rendição. Ou o combate sem tréguas.

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John Kenn 

Controlar chatos nunca foi ciência exata. Sempre foi arte. Mas já foi mais fácil. Chatos e chatice estavam quase restritos a contatos sociais que, por escolha, poderiam ser ocasionais. Bastava evitar ou sofrer um pouco com a presença desta gente que aos outros encurralava nas festas, ou nas mesas de bar. Era ruim, mas passara. E, melhor de tudo, dava para evitar.

Não é mais assim. Graças à mídia social. Agora, acabou a distancia entre o pensamento e a publicação. Protegidos às vezes pelo anonimato, mas sempre pela frieza da tela, abusa-se do privilégio de falar. Talvez porque não ser compreendido tenha deixado de ser importante. E foi assim que os chatos venceram. E a chatice invadiu tudo.

Agora, todos falam o que desejam sem prestar atenção àquilo que não sabem. Ideias dissonantes são rapidamente combatidas. Aqueles que discordam, rotulados. Com rótulos de todo tipo, desde que seja depreciativo. Ou que sirva para denegrir e destruir reputações e credibilidade. E, se os rótulos não funcionam, vale a ofensa. Nada como violência verbal para destruir comunicação. Funciona mesmo. E, por funcionar, é utilizada a exaustão.

Preferimos perder amigos, brigar com a família, destruir relações a dar o braço a torcer. Impor as próprias ideias é tudo o que importa. Em qualquer circunstancia e ao arrepio dos fatos. Realidade, afinal, não tem mais valor. Apenas o gogó conta. E haja gogó.

Passo a passo, fomos abraçando a chatice. Brigamos com a vida. Ensurdecemos. Embrutecemos. Convivemos com a ignorância. Desaprendemos a sorrir. Quando rimos, é da destraça alheia. Acima de tudo, chatos.

Um país onde a justiça varia não pode ser considerado democrático

Aquela foi uma semana marcada por importantes acontecimentos. Começou com a cassação do mandato de Eduardo Cunha por um escore arrasador, seguiu-se a posse de Cármen Lúcia na presidência do Supremo Tribunal Federal, depois as acusações contra Lula por procuradores da operação Lava Jato e finalmente a resposta do ex-presidente negando fundamento às acusações.

A maneira como aquelas acusações foram feitas não pegou bem, e pior é que, como este jornal divulgou, elas se apoiam numa delação que foi cancelada.

Quero me ater, no entanto, à significação que tem para o país a presença da ministra Cármen Lúcia na presidência do STF, conforme constatamos nas mais diversas manifestações de apoio e otimismo pelo acontecimento. E, se ele já valeu por si só, cabe ressaltar a significação da cerimônia de posse em si mesma.

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Essa cerimônia se caracterizou pela presença de políticos de diversos partidos, além de personalidades como os ex-presidentes José Sarney e Luiz Inácio Lula da Silva, bem como intelectuais, advogados e artistas. Isso indicava, por um lado, o prestígio pessoal da nova presidente do STF, mas também o que significa essa instituição, no momento particularmente crítico da vida política nacional, o que ficou evidente nos discursos proferidos durante a cerimônia, expondo implicitamente essa realidade.

Nesse particular, deve-se ressaltar o discurso da ministra Cármen Lúcia que, não por acaso, fez questão de mostrar que as diversas instituições que expressam o poder do Estado brasileiro, a exemplo do Judiciário, são, de fato, instrumentos da manifestação do verdadeiro poder que emana do povo e em seu nome deve ser exercido. Foi quando ela disse:

"Inicio quebrando um pouco o protocolo ou, pelo menos, interpretando a norma protocolar diferente de como vem sendo interpretada e aplicada: determina se comecem os cumprimentos pela mais elevada autoridade presente. E e justo que assim seja. Principio, pois, meus cumprimentos dirigindo-me ao cidadão brasileiro, princípio e fim do Estado, senhor do poder da sociedade democrática, autoridade suprema sobre nós, servidores públicos, em função do qual se há de labutar cada um dos ocupantes dos cargos estatais".

Por isso mesmo, como diria ela, adiante, irá informar-se de todos os dados relativos aos gastos institucionais e trazê-los ao conhecimento da população, com toda a transparência, para deixar clara a posição que adotaria em face disso. Essa questão envolve o discutido aumento salarial para os ministros do Supremo, que, por sua vez, desencadearia aumentos salariais nos vários setores judiciais, agravando a situação financeira do país.

Outro ponto importante de seu discurso diz respeito à modernização e ao aperfeiçoamento do Judiciário brasileiro, que não atende às necessidades da população, particularmente dos mais pobres que constituem a maioria.

De fato, um país onde a aplicação da Justiça varia de acordo com a classe social a que pertence o cidadão não pode ser considerado efetivamente democrático.

Se o discurso da presidente Cármen Lúcia foi essencialmente institucional, o do ministro Celso de Mello, decano do STF, tocou o cerne do problema que hoje atinge, de maneira alarmante, a vida política nacional.

Para o constrangimento de alguns políticos e autoridades ali presentes, que são investigados pela Operação Lava Jato, ele se referiu aos "marginais da República" que, "por intermédio de organizações criminosas" obtêm "inadmissíveis vantagens e [...] benefícios de ordem pessoal, ou de caráter empresarial, ou, ainda, de natureza político-partidária".

Também o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, abordou o tema da corrupção, destacando a atuação do Ministério Público, que tem desempenhado um papel altamente positivo no combate à ação criminosa de políticos, empresários e altos funcionários de empresas estatais.

A posse da ministra Cármen Lúcia, se teve o significado que teve, deveu-se particularmente ao papel que a Justiça passou a desempenhar publicamente na vida nacional. E a razão disso não é outra senão o alastramento da corrupção exercida, como disse o ministro Celso de Mello, pelos "marginais da República".

Alimentar o mundo

Este mês marca o aniversário de 50 anos do discurso do presidente John F. Kennedy sobre o fim da fome mundial, mas a situação continua ruim. Quase um bilhão de pessoas passam fome no mundo. Faz tempo que produzimos calorias suficientes, cerca de 2,7 mil por dia por pessoa, mais do que o bastante para suprir as necessidades de uma população de 9 bilhões, projetada pela ONU para 2050. Há pessoas passando fome porque nem todas as calorias são para o consumo humano - um terço serve para alimentar animais, 5% são usados na produção de biocombustíveis e um terço é desperdiçado ao longo da cadeia alimentar.

O sistema é insustentável, pois depende de combustíveis fósseis e resulta em danos ambientais. Seu funcionamento é orientado para permitir que a metade do planeta com dinheiro coma bem, enquanto os demais procurem uma maneira de se alimentar gastando o mínimo possível. Paradoxalmente, conforme um número cada vez maior de pessoas pode arcar com o custo de se alimentar bem, a comida vai se tornar mais escassa para os pobres, pois a demanda por produtos animais aumentará, exigindo mais recursos como grãos. Calcula-se que um aumento inferior a 30% na população mundial dobre a demanda por produtos animais. No entanto, não existe terra, água nem fertilizante para que o mundo inteiro consuma carne nos níveis ocidentais.

Pawel Kuczynski-Pawel Kuczynski is a Polish artist that specializes in satirical illustration. Born in 1976 in Szczecin, Poland, he graduated with a graphics degree from the Fine Arts Academy in Poznan. Pawel has been focusing on satire since 2004 and has garnered nearly a hundred prizes and distinctions since then. Much of his artwork deals with serious themes such as poverty, greed, politics and mortality. While his subject matter is stark, his illustrative style is whimsical and cartoonis...:
Pawel Kuczynski
Se quisermos garantir que os pobres comam melhor, precisamos parar de supor que o modelo industrial de produção de alimentos e a dieta que o acompanha, responsável por numerosas doenças, seja desejável e inevitável. É hora de admitir que há dois sistemas alimentares: o industrial e o dos pequenos proprietários, que é mais eficiente. Para o ETC Group, organização de pesquisa de Ottawa, a cadeia alimentar industrial consome 70% dos recursos agrícolas para produzir 30% do alimento mundial, enquanto a "rede alimentar camponesa" produz os 70% restantes usando apenas 30% dos recursos.

Variedades de alto rendimento de qualquer uma das principais espécies de monocultura comercial proporcionarão uma produtividade superior à de variedades dessa mesma espécie cultivadas por camponeses. Mas, ao diversificar o cultivo, misturar plantas e animais e plantar árvores, os pequenos proprietários podem produzir mais comida. Usarão menos recursos e arcarão com um custo mais baixo no transporte, ao mesmo tempo, oferecendo mais segurança alimentar, conservando a biodiversidade e compreendendo melhor os efeitos da mudança climática.

Se definirmos "produtividade" não em termos de quilos por hectare, mas pelo número de pessoas alimentadas pela produção dessa mesma área, veremos que os EUA estão atrás de China e Índia (e também da média global), num patamar equivalente ao de Bangladesh, pois parte daquilo que é produzido é destinado aos animais e biocombustíveis.

Obviamente, nem todos os pobres conseguem se alimentar direito, pois carecem de recursos essenciais: terra, água, energia e nutrientes. Com frequência, isso é resultado de ditaduras, guerras, deslocamentos, calamidades naturais ou da apropriação de terras e de recursos hídricos.

O resultado é uma fuga rumo às cidades, onde os camponeses se convertem em trabalhadores mal remunerados e se alimentam mal. Ao chegar a esse ponto, deixam de ser "camponeses" e viram , os pobres trabalhadores dos EUA. É uma fórmula que produz fome e obesidade. Primeiro é removida a capacidade de produzir comida. Em seguida, a capacidade de pagar pela comida, substituindo-a por uma única alternativa: o alimento ruim. 

Mark Bittman (O Estado de S.Paulo - The New York Times)

Imagem do Dia

Casa na Sérvia

A história do homem empalhado e exibido como um animal

No início do século 19, era "moda" entre os europeus recolher animais de vários lugares do mundo, levá-los para casa e colocá-los em exposição. Um comerciante francês, porém, foi além e trouxe para casa o corpo de um guerreiro africano.

O escritor holandês Frank Westerman descobriu o homem em um museu espanhol há 30 anos e decidiu investigar a história por trás dele. 
Leia, a seguir, o seu relato:

AVISO: Algumas imagens ao longo deste texto podem ser consideradas ofensivas

"Uma cerca de arame decorativa nas cores nacionais - azul, branco e preto - marca a sepultura de um dos mais famosos - e menos invejados - filhos de Botswana: "El Negro".

Seu local de descanso em um parque público na cidade de Gaborone, sob um tronco de árvore e algumas pedras, faz lembrar o túmulo de um soldado desconhecido.

Uma placa de metal diz:
El Negro
Morreu em 1830
Filho da África
Trazido para a Europa morto
Levado de volta a solo africano


Sua fama vem de suas viagens póstumas - que duraram até 170 anos - como as para exibições em museus na França e na Espanha. Gerações de europeus ficaram boquiabertos com o corpo seminu, que havia sido empalhado por um taxidermista. Ali ele ficou, sem nome, exibido como um troféu.

De volta a 1983, como estudante universitário na Holanda, eu acidentalmente acabei "cruzando" com ele em uma viagem de carona para a Espanha. Eu havia passado uma noite na região de Banyoles, uma hora ao norte de Barcelona. A entrada do Museu Nacional de História de Darder era coincidentemente na porta ao lado.

"Ele é real, você sabia?", uma garota de colégio gritou para mim.

"Quem é real?"

"El Negro!", a voz dela ecoou pela praça, acompanhada de roncos e risadas de seus amigos.

No instante seguinte, uma senhora apareceu saindo de um salão com um casaco sobre os ombros. Ela abriu o museu, me vendeu um ingresso e apontou na direção da Sala de Répteis.

"É ali", ordenou. "Aí vá passando pelas salas no sentido horário".

Cartão Postal vendido no Museu Darder, na Espanha
Quando eu estava no caminho para o Quarto Humano, um anexo do Quarto dos Mamíferos, passei uma parede de escalada com macacos e esqueletos de gorilas - e, de repente, comecei a tremer. Estava ali, o Negro de Banyoles, empalhado. Uma lança na mão direita, um escudo na esquerda. Curvando-se devagar, ombros levantados. Seminu, apenas com uma tanga laranja.

El Negro era um homem adulto, pele e ossos que mal chegavam a um cotovelo. Ele estava mantido em um recipiente de vidro no meio do carpete.

Ele era um ser humano, mas sendo exibido como qualquer outra amostra de animais selvagens. A história ditou que o taxidermista era um europeu branco e, seu objeto, um negro africano.

O reverso era inimaginável.

Ao ver essa cena, meu rosto corou e senti as raízes do meu cabelo formigarem - simplesmente por causa de uma sensação difusa de vergonha.

Senhora Lola não tinha uma explicação. Ela nem tinha um catálogo ou um livro com a história daquele homem. Me deu um cartão postal que dizia apenas "El Negro" e que trazia atrás "Museu Darder - Banyoles. Bechuana".

"Bechuana?", eu questionei.

Senhora Lola continuou olhando para mim. "Os cartões custam 40 pesetas cada", ela disse.

Comprei dois.

Vinte anos depois, decidi escrever um livro sobre a extraordinária jornada de El Negro de Botswana (Bechuana) até Banyoles e de volta de novo.

Tchau, PT!

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O maior partido de massas que a esquerda já construiu na América Latina está em liquidação
Ricardo Noblat

Extravagâncias

As biografias e os atos dos atuais indicados para o alto escalão do Ministério da Saúde são, por assim dizer, na falta de melhor expressão, invulgares. O ministro é engenheiro, empresário, deputado federal do Paraná, filho, irmão, esposo e pai de políticos. Em dezembro de 2015, como integrante da bancada do Partido Progressista, votou contra a continuidade do processo de denúncias referentes a Eduardo Cunha. E não ficou com as mãos abanando. Indicado para a Saúde pelo Partido Progressista, compôs uma equipe de declarados especialistas em negócios. O segundo cargo mais importante da área da Saúde, de um órgão que concentra 70% do total dos gastos federais (quase equivalente à dotação para o Ministério da Defesa), foi entregue a um administrador de empresas de Minas Gerais, com mais de 20 anos de autodeclarada experiência no desenvolvimento e criação de relações entre o público e o privado.

O nomeado para a função de coordenar as atividades de ciência, tecnologia e inovação também exibe credenciais de gestão de empresas privadas nos setores de agroindústria, imobiliário e entretenimento, bem como de administração pública de políticas de infraestrutura de Alagoas. O time ficou completo com a posse para a área de recursos humanos do SUS de outro engenheiro e administrador de empresas. Este último atuou no ramo de automotores, logística e atividades agrícolas e na Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), vinculada ao Ministério da Agricultura. Declarações do ministro, seguidas por desmentidos, sobre o exagerado tamanho do SUS e o uso excessivo de serviços de saúde pela população, especialmente pelas mulheres, tiveram efeito bumerangue. Exorbitante é querer diminuir as proporções das necessidades de atenção e do SUS, quando todas as pesquisas de opinião indicam a saúde como o principal problema para a população.

Em meio às polêmicas ruidosas, boatos sobre cai, não cai, a esquadra de especialistas em outras áreas pôs em marcha os trâmites para a comercialização de planos baratos. Convocaram um grupo de trabalho composto por órgãos governamentais e pela entidade que representa as operadoras e encomendaram um parecer sobre mudanças nas regras do ressarcimento ao SUS. As duas peças encaixadas redesenham o sistema de saúde, o SUS encolhe e empresta para os planos sua rede pública. Com a oficialização da dupla porta, o atendimento para clientes de planos baratos fica com cara de privado e corpo público. Se contar, ninguém acredita, porém, a desmedida, tornar o SUS um ativo a ser transferido para empresas privadas, foi anunciada como “solução única” para a saída da crise. Se não têm emprego, nem renda, comprem plano privado de saúde, para ao fim e ao cabo ficar no SUS, mas garantir e aumentar receitas das operadoras. O estilo Maria Antonieta chocou a galera, mas agradou a setores empresariais.

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A alta empregabilidade do perfil empresário-político ou empresário-indicado por políticos, na saúde, é incomum. Mas, possivelmente, passará para a história apenas como excentricidade de um sistema político que instalou no centro da política social partidos políticos, nada ou pouco afeitos ao cumprimento das normas que transformam impostos em direitos de cidadania. Concordar com o SUS universal não é obrigatório, exceto para quem exerce cargos executivos e deve cumprir a Constituição. Debater o conteúdo, forma e grau da intervenção governamental nas atividades de saúde é uma tarefa permanente. Quando interesses empresariais e as decisões sobre as regras para uso dos recursos públicos são jogados dentro do mesmo saco, as polêmicas democráticas definham. A agenda de privatização da saúde é a expressão de um enclave econômico forte, sai das reuniões de fóruns patronais-governamentais no Planalto, para divulgação, por meio de consultorias e assessorias de comunicação. Contudo, não chega à planície. Não se veem manifestações nas ruas com faixas “Queremos planos privados de saúde”.

Do lado de fora das salas fechadas, nas eleições em cidades às voltas com problemas muito concretos para a obtenção de assistência de qualidade no SUS, que afetam pobres, remediados e ricos, não se promete plano privado barato. Os candidatos defendem programas invariavelmente voltados a melhorar e ampliar o SUS. Retrocesso, a perda dos insuficientes, mas essenciais, avanços de acesso à saúde não consta da dieta de quem precisa de voto. A solicitação de sacrifícios de reputação para aprovação de restrições adicionais de recursos para a Saúde e a Educação, o ajuste radical, previsto pela PEC 241, tem sido sutilmente rejeitada por parlamentares. A personificação do descrédito na saúde pública em uma autoridade governamental, completamente aderida aos empresários e caótica nas presunções sobre relação aos riscos e agravos e doenças, esquenta a chapa do sofrimento social. Um ministro da Saúde pública, porta-voz de planos privados, parece condensar em si o maior dos exageros. O SUS está de bom tamanho, cabe no Brasil do presente e precisa crescer no futuro. Desproporcional é a terceirização de um ministro para o setor privado.

Ligia Bahia

O pano verde das delações premiadas

Em palestra na Academia Brasileira de Letras, Fernando Henrique Cardoso, após examinar as deficiências da democracia representativa, fez um apelo, sugerindo uma reavaliação do processo eleitoral tal como vem sendo aplicado no Brasil e em outros países, afastando, a priori, qualquer tentativa de ditadura e corrupção.

Impossível que, depois de séculos que tentaram organizar a sociedade, não surgissem alternativas para a democracia representativa, que se transformou numa roleta econômica em que o dinheiro e o suborno prevalecem. A cada pleito eleitoral, independentemente da situação política e econômica que o país atravessa, o que termina definindo a nova ordem social, o que prevalece são os interesses do poder e do dinheiro. As alianças são pensadas e medidas na base das campanhas, que cada vez custam mais caro.

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Com as delações premiadas, ninguém fica livre de suspeitas e tramoias que determinarão programas e conchavos para saciar os apetites políticos e seus derivados. Nenhum seguimento nacional tem cacife suficiente para bancar uma eleição representativa. A solução é apelar para empresas interessadas em influir decisivamente na vida nacional.

Por menor que sejam, os partidos penduram-se nas contribuições das elites econômicas, com a finalidade de abocanhar um naco do poder, na esperança de conquistar uma hegemonia tal como o PT pretende.

FHC convocou a classe dirigente do país a repensar a democracia representativa tal como ela se apresenta. Impossível que não haja no Brasil um grupo de pensadores que possa não somente eliminar o pano verde em que os pleitos eleitorais se desenvolvem, mas criar alternativas que acabem com os escândalos que, pouco a pouco, estão colocando na cadeia alguns líderes, sem excetuar as vestais que vendem o que não têm e cobram o que pretendem ter.

Egoísmo S/A

Estamos a construir uma sociedade de egoístas. Se a ti te dizem que o que importa é o que compras, e segundo o que compras têm mais ou menos consideração por ti, então convertes-te num ser que não pensa senão em satisfazer os seus gostos, os seus desejos e nada mais. Não existe em nenhuma faculdade uma disciplina do egoísmo, mas não é preciso, é a própria experiência social que nos vai fazendo assim.
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Ao longo da História as igrejas e as catedrais eram os lugares onde se procurava um valor espiritual determinado. Agora os valores adquirem-se nos centros comerciais. São as catedrais do nosso tempo 
José Saramago 

Lula, Dilma, os aviões de carreira e os jatinhos

Quem nunca disse bobagem que atire a primeira pedra. Por prudência, e em benefício das minhas, só me disponho a fazê-lo quando as bobagens passam a ser insistentemente repetidas, tais como o petismo parece prescrever a seus discípulos. É nessa toada de repetir frases sem nexo com a realidade, em busca de um efeito político, que Lula conseguiu a proeza de dizer e repetir três tolices numa única e bem conhecida frase. Ei-las: 1ª) graças aos governos petistas, pobres viajam de avião, 2ª) os ricos a bordo não gostam dessa companhia e 3ª) por coisas assim, os ricos são contra o PT.

Quem dera fosse verdadeira a afirmação de que pobres viajam de avião! Nossas companhias aéreas seriam blue ships na bolsa de valores, beneficiadas pelo ingresso, em seu mercado, de 60% da população nacional! Chega a ser cruel essa afirmação num país em que os pobres têm dificuldades para custear a tarifa dos ônibus. Quem viaja de avião comprando o próprio bilhete não pode ser considerado pobre. Essa possibilidade é ainda menor se levarmos em conta os autoindulgentes parâmetros socioeconômicos desenvolvidos pelo marketing petista que criou uma classe média a partir de R$ 300. Pobre, então, seria alguém com renda inferior a essa.

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Por outro lado, a ideia de que a presença de pobres a bordo das aeronaves comerciais seja incômoda aos outros passageiros é um agravo gratuito tanto a uns quanto a outros. Na minha experiência, a bordo só são incômodos os bêbados, os mal-educados e os malcheirosos. Lula, então, estaria confundindo pobreza com isso e riqueza com esnobismo. Finalmente, afirmar que a suposta ascensão social dos miseráveis teria sido a causa do antagonismo que o PT enfrenta é a maior das três leviandades contidas na tal frase. A ascensão social de todos a todos beneficiaria, ora essa!

Com três tolices em uma única afirmação, Lula e aqueles que as repetem expressam a patologia ideológica que os faz necessitar do conflito (no caso, do conflito de classes) tanto quanto um intelecto livre necessita da verdade. E sobre a relação de Lula com a verdade ninguém pode falar com mais conhecimento de caso e causa do que dona Marisa Letícia.

Aliás, se há transporte do mundo onde pobre não embarca é nesses jatinhos a que Lula e Dilma se afreguesaram. Imagino que há mais de uma década ambos não enfrentam as filas, os apertos e os pacotinhos de bolacha dos aviões de carreira. Essas viagens seriam muito valiosas para aferirem sua popularidade.

Percival Puggina

Carta aberta aos pessimistas em geral

From The Ashes  by graham franciose:
Graham Franciose
Caros pessimistas e negativistas, confesso que relutei em escrever esta missiva. O fiz escondido, pois sinto que estou cercado de pessimistas de todos os lados. Até na família há certo ar de crítica quando deixo escapar um discreto “prevejo uma melhora em médio prazo...”

Sim, é certo que as más notícias dão um baita ibope. Adoramos uma tragédia, nem que seja para soltar o inevitável “coitadinho!”. Mas o que gostaria de conversar com vocês, pessimistas queridos, é sobre esse clima de fim de festa, algo apocalíptico. E o que é pior (ou seria melhor ?) é que estou cheio de notícias boas e temo retransmiti-las e ser vítima de bullying ou cair no descrédito. O clima está tão pesado para nós, otimistas, que quem falar um “bom dia” entusiasmado, em alto e bom som, no elevador, em plena segunda-feira, periga levar vaia ou ouvir “não vai ter golpe!” E olha que estudos mostram que o sorriso em público é altamente terapêutico. Tenho diletos amigos que se ofendem quando alerto para essa visão distorcida, para o negativo, o sombrio, o pessimismo. Eles me olham de forma quase hostil e dizem “sou realista, e você, um romântico platônico”. Meus queridos, pensar o pior é optar por mau humor, revolta, ressentimentos e mágoas. Reclamar adoece, afasta, envelhece.

Algo como acelerar em ponto morto: gasta energia sem sair do lugar. Imagina um dia calorento, abafado, você em um ponto de ônibus e alguém dizendo “que calor, ô vida de cão, só falta atrasar e chegar lotado”. Sem dúvida a sensação de calor aumentará uns 10°C, e, além de tudo, o engarrafamento será do cão! Palavra tem poder...

Mas, se te escrevo, é porque tenho esperança de te encontrar sereno o suficiente para que me dê um minuto do seu tempo. Pessimismo tem cura!

Não é nada de autoajuda nem milagres de aplicativos de internet ou pega bobo de marketing de rede. Nem coisa de otimista inveterado ou cristão deslumbrado.

É avanço da ciência. Larga teu ceticismo e acompanhe o raciocínio: há uma imensa novidade no entendimento do cérebro. Ao contrário do que sempre se pensou, esse complexo e divino órgão, gestor de todas as funções físicas e psíquicas, não é rígido nem inflexível. É ágil, moldável; enfim, plástico. A cada segundo, se constrói e reconstrói. Muda, adapta, se reinventa. Tanto para uma função psicomotora quanto para um novo conceito, que pode mudar sua consciência e, assim, seu comportamento e forma de viver e conviver consigo e com o mundo que o cerca. Fantástico, não acha?!

OK, não acredita, não entendeu ou não quer nem saber. Prefere achar o mundo uma desgraça, o trabalho uma lástima, a família um tormento, a vida uma cruz. Ah! Meu amigo pessimista, até seu negativismo é perfeitamente explicado por essas novas descobertas: você é um viciado em “pensar errado”! Ah, se pudesse fazer um exame, como tomografia funcional, talvez percebesse neurônios e seus terminais em um nó cego, nos seus pre-conceitos, centro de culpa, de punição, desprazer.

Eu te entendo, seu arbítrio é sofrer, você quer ser reconhecido como vítima, masoquista, eterno insatisfeito. Te compreendo, mas não concordo com você. Como te amo e a todos os negativistas que me cercam, doarei sempre o meu sorriso, os meus “bons dias” e a eterna esperança de que, um dia, a paz de espírito, a serenidade, a alegria e o amor morem em teu coração.

Com carinho, seu otimista de plantão.