terça-feira, 3 de março de 2015

A coisa certa


A desconstrução de um projeto para a nação

Será que vamos, mais uma vez, frustrar as novas gerações do nosso país?
Os primeiros dias do governo mostram que o tema "Pátria Educadora", colocado pela Presidente da República, está sendo literalmente demolido pelas medidas recentemente noticiadas, e que poderão trazer prejuízos incalculáveis para as novas gerações, que não estarão preparadas para as oportunidades de emprego que inexoravelmente surgirão com os avanços da ciência, com a geração de novas tecnologias e com a própria inserção do país no fluxo de comércio internacional, resultado da crescente globalização.

A educação básica, alardeada pelos governantes nos últimos anos como uma prioridade nacional, está a exigir ações concretas e efetivas no plano federal e nos estados e municípios, já que não ainda foi possível definir um rumo que possibilite uma preparação adequada dos nossos jovens para o enfrentamento dos desafios trazidos por um "mercado de trabalho" cada vez mais competitivo, com empregos que exigem novas habilidades e competências.

Embora algumas ações possam ser listadas, das quais destaco a iniciativa do Rio de Janeiro em reformular o seu ensino médio, ainda estamos muito longe dos níveis admissíveis para a nossa economia, que ainda é uma das 8 maiores do mundo.
Leia mais o artigo de Paulo Alcantara Gomes

'Estou me guardando para quando o Carnaval passar'

Os governantes de todos os Estados brasileiros, exceto aqueles que disputaram a própria reeleição, estão ocupados em justificar a inércia de suas administrações, já na entrada do terceiro mês de seus governos, com as mais diversificadas explicações. Alega a maioria deles que seus antecessores deixaram propostos orçamentos não exequíveis, que encontraram caixas vazios, quadros de pessoal inchados, empenhos cancelados, além de amplo leque de mutretas políticas e administrativas destinadas a dificultar as novas gestões. Disso muito é ou poderia ser verdadeiro. O que não é aceitável são as desculpas, quando já entramos no mês de março.

Todos os governadores hoje no poder sabiam com precisão matemática o que iriam encontrar quando chegassem à cadeira que hoje ocupam. Todos. Nem poderia ser diferente porque as campanhas que os levaram aos palácios foram estruturadas na crítica aos modelos, nas medidas e nas opções dos governos sucedidos. Houve em todos eles uma mensagem de renovação, de mudança e de transformação que o eleitor pedia e apoiou nas urnas, com seu voto.

Diferentemente disso, o que se sente em todo país, e Minas infelizmente não é uma exceção, é um paradeiro incômodo, uma falta absoluta de perspectivas, um achatamento brutal de toda esperança de que se serviram os novos governantes para convocar seus eleitores a assistirem a geração de um novo momento.

Dizerem que não há dinheiro para nada, sobretudo para investir em projetos estruturantes e transformadores, é uma incúria e frustra a expectativa que o eleitor lhes confiou com seu voto. Recursos já não existiam, e todos sabiam disso. Esperava-se que tivessem imaginação, prestígio para buscar tais recursos onde estivessem e melhor pudessem ser alcançados. Não se esperava desculpas.

O Brasil está parado e não é apenas por falta de recursos públicos. É por falta de credibilidade, de propostas sérias, de coragem para enfrentar a indigência de caráter de nossas lideranças políticas que hoje formam os Legislativos – municipais, estaduais e em Brasília. Que fazem as câmaras Municipais, as assembleias legislativas e o Congresso Nacional a não ser discutirem se aproveitam ou não das concessões mais espúrias, de verbas disponibilizadas para custear suas fantasias, das passagens aéreas para suas esposas, ou suas amantes, ou seus assessores de nada? Para que um vereador de qualquer cidade brasileira; um deputado de qualquer assembleia legislativa de todo Brasil, qualquer deputado federal ou senador precisa de tanto assessor, de tantas regalias, de tanta verba?

Estamos carentes de trabalho, de programas, de políticos que saibam tirar o país desse buraco que eles mesmos – uns com sua inércia, muitos com sua corrupção, todos com seu desinteresse – colocaram. Ao trabalho, senhores! O Carnaval já passou.

Luiz Tito

O império da idiotice


Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina.
Nelson Rodrigues

O 'fantasma' do impeachment

Apesar de o eminente democrata socialista, Zé Mensalão, cumprindo prisão domiciliar, declarar em 1999, que “dizer que impeachment é golpe é falta de assunto”, ainda assim a palavra continua um terror para uns e outros. Os próprios petistas, que já idolatraram o excelentíssimo ex-ministro, conferem à palavra o sentido de golpe da Direita; grande parte da população pede o afastamento da presidente, mesmo sem saber que isso está na Constituição. E fica-se no blá-blá-blá discutindo-se o direito constitucional, o que convém muito ao estado de beligerância no país e, em particular, ao governo e seus asseclas. Não se deve esquecer a antológica frase de quem brigou para derrubar Collor e hoje avisa com a profecia dos sem caráter como Rui Falcão: “Fiquemos alertas, companheiros, pois o imperialismo tanto se vale da força bruta como recorre às instituições republicanas para depor governos populares”. É discurso rançoso com mais de 50 anos de usado e usurpado.

O que há de tão terrível no impeachment? O Brasil já não passou por um e saudou como um avanço democrático? Agora seria antidemocrático? Mudaram a Constituição e não disseram nada? Ou querem dar um golpe de João Sem Braço?

O Paraguai, em 2012, decretou o impedimento de Fernando Lupo num rápido processo que durou ao infinito de dois dias. O processo foi iniciado a pedido de um deputado do Partido Colorado, motivado por um confronto entre policiais e camponeses, durante a reintegração de posse de uma fazenda em Curugauty, que deixou 17 mortos e 80 feridos. O Paraguai vai bem, obrigado, sem guerra civil, sem nós contra eles e outros lemas marqueteiros. E o Brasil continua matando 50 mil por ano.

Quem não gostou nada do cumprimento da Constituição paraguaia pelos paraguaios foram os companheiros, entre eles, a Venezuela, de Chávez, e o Brasil, de Dilma, sempre muy amigos e leais defensores da tal legalidade à moda da casa. Foram contra a saída, constitucional, do presidente e puniram o país que cumpriu sua Constituição com o afastamento do Mercosul para dar vez à legal Venezuela, que rola na desgraceira.

O que dá em ser contra ou a favor do impeachment? Está na lei e, dentro da lei, cumpra-se. Tanto falatório só dá vez mesmo ao acobertamento das falcatruas que assolam o país. Se tiver que ser feito, faça-se como manda a Constituição e bola pra frente. O que não se pode é gastar tanto palavrório, que joga uma cortina de fumaça sobre a roubalheira e só favorece a turma da corrupção. Vamos acabar embaralhando os conceitos e enfiando os pés pelas mãos sujas.

O que não se pode, nem pensar, é arrumar artifícios novos ou mais do que vetustos para driblar a Justiça, no Brasil, tão maltratada em favor dos poderosos, dos empreiteiros, dos políticos, dos canalhas de toda a espécie. Neste imbróglio, o povo apenas quer Justiça com todas as letras para acabar com as “brincadeirinhas” que só levam ainda mais o país para o poço.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Um pombo: a tormenta

Num buraco da pedra refugiou-se
um pombo, só, sem companhia alguma.
A tarde, até então tranquila e doce,
vestiu-se de relâmpagos e bruma,

e a chuva esvoaçou, como se fosse
feita de voo mas também de pluma,
e na explosão que a trovoada trouxe
desfizeram-se as nuvens, uma a uma,

e caíram nas calhas feitas águas
e a água em saudade se mudou de bica...
Água da infância nos lavou a cara...

E como o estouro de uma grande mágoa
que atrás dos olhos quer ficar, não fica,
vi que o pombo nas águas revoara.

E enfrentava a tormenta cara a cara.

Odylo Costa Filho (1914-1979)

Impeachment, intervenção militar ou deixamos como está?


Um grupo de brasileiros, já há alguns meses, cobra das Forças Armadas, o cumprimento da Constituição Federal. De imediato, são acusados de golpistas por aqueles que assaltam a nação. Sem esclarecer melhor suas intenções, este grupo passa à sociedade em geral a idéia de estar propondo a implantação de nova ditadura. Seus argumentos, no entanto, são de que há necessidade de cumprimento de preceito constitucional, pois a intervenção das Forças Armadas é prevista se houver falência das instituições do país.

Os detentores e exploradores do poder reagem proclamando estar sendo proposto um golpe contra a democracia. Dizem que é tramada a volta de 1964. E para completar, Lula, ex-presidente por dois mandatos, também ajuda a aumentar a confusão, ao conclamar que o “exército de Stédille” saia às ruas para o enfrentamento.

As razões e questões que levam brasileiros a pensar não apenas no impeachment de Dilma Rousseff, mas em ato mais profundo, estão expostas em vários textos escritos nos últimos meses pelos defensores da intervenção militar. Para eles, os substitutos de Dilma não são confiáveis e não possuem mínimas condições de exercer o poder, por estarem tão contaminados quanto ela.

Cinquenta anos após o golpe de 1964, maus brasileiros, falsos democratas, antinacionalistas, indivíduos sem caráter, sem ética, sem princípios, ávidos pelo poder, por riqueza pessoal e acúmulo de bens que não poderão levar ao além-túmulo, tudo fizeram para que aqui chegássemos e continuam empurrando para o lixo o país que deveriam amar e defender.

Minha geração nasceu e viveu em plena revolução de 1964. Atravessamos duas décadas medindo nossas ações, palavras e pensamentos, esperando a oportunidade de retomarmos a plena e responsável democracia.

Agora, passadas apenas três décadas, assistimos ao horror que faz a corrupção a um país e a seu povo. E tudo patrocinado por alguns daqueles que, como eu e você, viveram momentos que gostaríamos tivessem ficado na história, no passado, para servir de exemplo e mostrar que não se deve cometer os mesmos erros.

Quando uma nação é comandada por alguém sem qualidades morais, que desperdiça os recursos produzidos pelo povo, aplicando-os de forma errada, e permite sejam surrupiados; quando um poder legislativo a todo momento comete atos que beiram o deboche, não enxergando e entendendo o que se passa em seu entorno; e, quando o judiciário perde a linha da justiça, da seriedade e não se preocupa mais em defender o estado de direito, o que resta aos cidadãos comuns?

Que Deus não permita, mas tudo indica estarem se avizinhando tempos escuros, sombras e mais perdas para quem já perdeu quase tudo. É duro imaginar que deixaremos este legado às futuras gerações.

Antonio Fallavena

Tenho lido cada uma!


Numa ponta da meada do Petrolão, lideranças de um governo que afunda de nariz empinado falam como se a Petrobras fosse tesouro de quem o encontrou ao pé de promissor arco-íris. E o dia, durante 12 anos, nasceu feliz. Na outra ponta, até quem manteve as mãos distantes do óleo grosso quer transferir culpas. O sujeito cumprimentou cordialmente um jornalista da praça - "Como vai, fulano?", e este revidou: "E o efeagacê? E o efeagacê?". Calma, rapaz, um simples bom-dia basta.

Não lembro de período com tanta sandice no noticiário. Li que o Ministro da Justiça aferrolhou a porta e conversou com o advogado de uma empreiteira que entrou nervoso e saiu tranquilo. Li exaustiva lista relacionando, com ufania, quatro (!) petistas que teriam desentranhado sua contrariedade com a corrupção em curso. A virtude é assim, tão contagiante? Quatro gotinhas tornam potável a água mais impura? Li que na versão marota do "regime de partilha", na qual 3% dos contratos abasteciam os partidos da base (2% para o PT e 1% para o PMDB e o PP) tudo era feito "em nome da governabilidade". Bom, para o país, não? Li que um grupo de 50 "intelectuais" partiu para o ataque afirmando que: 1) a operação Lava Jato põe em risco nossa soberania e a democracia; 2) seus alvos são a Petrobras e o pré-sal; 3) as investigações estão "dizimando" empresas de alta tecnologia; 4) desenha-se um projeto golpista no país. Com intelectuais assim, quem precisa de tolos?

Ouvi Lula em ato para salvar a Petrobras. Falou como quem mata e vai discursar no velório. Disse que os achados da Lava Jato nas águas profundas do governo são tema de quem quer criminalizar a política. Ensinou História, afirmando que tais ações acabam em ditadura (certamente lembrou de seus amigos do Foro de São Paulo prendendo opositores). Ameaçou com o "exército do Stédile" (MST) quem atacasse o governo nas ruas. E ao final, surtou: "O que nós estamos vendo é a criminalização da ascensão social de uma parte do povo brasileiro". Mas o que é isso, Lula?

Li sobre a campanha por Eleições Limpas. E pergunto à CNBB, que mantém união estável com o PT há 35 anos: por que não começou a limpeza dentro de casa, fazendo com que suas Análises de Conjuntura não propagassem as mentiras desse partido sobre a situação nacional? Li no hino da Campanha da Fraternidade: "Os grandes oprimem, exploram o povo". Marxismo de boteco, em pentagrama. E um velho comunista me escreve: por culpa da direita, a Venezuela era um país rico de povo pobre onde o chavismo veio redimir os pobres. Agora, a Venezuela é um país pobre, de povo pobre. Mas a culpa, insiste ele, continua sendo da direita. Vai entender!

Percival Puggina

A coisa mais importante do mundo


Tratar de que o mundo seja digno para todas as vidas humanas, não só para algumas
Entrevista relâmpago com Pablo Neruda feita por Clarice Lispector (1969)

A miséria da política

Será que a lógica do marquetismo eleitoral continuará a guiar os passos da presidente e do seu partido?
Por que a presidente Dilma deu-se ao ridículo de fazer declarações atribuindo a mim a culpa do petrolão? Não sabem ambos que quem está arruinando a Petrobras (espero que passageiramente) é o PT que, no afã de manter o poder, criou tubulações entre os cofres da estatal e sua tesouraria?

Será que a lógica do marquetismo eleitoral continuará a guiar os passos da presidente e de seu partido? Não percebem que a situação nacional requer novos consensos, que não significam adesão ao governo, mas viabilidade para o Brasil não perder suas oportunidades históricas?

Confesso que tenho dúvidas se o sentimento nacional, o interesse popular, serão suficientes para dar maior têmpera e grandeza a tais líderes, mesmo diante das circunstâncias potencialmente dramáticas das quais nos aproximamos. Num momento que exigiria grandeza, o que se vê é a miséria da política.

Leia mais o artigo de Fernando Henrique Cardoso

Para onde vamos, Dilma: fundo do poço ou poço sem fundo?

Um clima de fim de feira varre o país de ponta a ponta apenas dois meses após a posse da presidente Dilma Rousseff para o seu segundo mandato. Feirantes e fregueses estão igualmente insatisfeitos e cabisbaixos, alternando sentimentos de revolta e desesperança.

Esta é a realidade. Não adianta desligar a televisão e deixar de ler jornais nem ficar blasfemando pelas redes sociais. Estamos todos no mesmo barco e temos que continuar remando para pagar nossas contas e botar comida na mesa.

Nunca antes na história da humanidade um governo se desmanchou tão rápido antes mesmo de ter começado. Para onde vamos, Dilma? Cada vez mais gente acha que já chegamos ao fundo do poço, mas tenho minhas dúvidas se este poço tem fundo.

"O que já está ruim sempre pode piorar", escrevi aqui mesmo no dia 5 de fevereiro, uma quinta-feira, às 10 horas da manhã, na abertura do texto "Governo Dilma-2 caminha para a autodestruição".

"Pelo ranger da carruagem desgovernada, a oposição nem precisa perder muito tempo com CPIs e pareceres para detonar o impeachment da presidente da República, que continua recolhida e calada em seus palácios, sem mostrar qualquer reação. O governo Dilma-2 está se acabando sozinho num inimaginável processo de autodestruição".

Pelas bobagens que tem falado nas suas raras aparições públicas, completamente sem noção do que se passa no país, melhor faria a presidente se continuasse em silêncio, já que não tem mais nada para dizer.

Três semanas somente se passaram e os fatos, infelizmente, confirmaram minhas piores previsões. Profetas de boteco ou sabichões acadêmicos, qualquer um poderia prever que a tendência era tudo só piorar ainda mais.

Basta ver algumas manchetes deste último dia de fevereiro para constatar o descalabro econômico em que nos metemos. Cada uma delas já seria preocupante, mas o conjunto da obra chega a ser assustador:

"Dilma sobe tributo em 150% e empresas preveem demissões".

"País elimina 82 mil empregos em janeiro, pior resultado desde 2009".

"Conta da Eletropaulo sobe 40% em março".

"Bloqueio de caminheiros deixa animais sem ração _ Na região sul, aves são sacrificadas em granjas, porcos ficam sem alimento e preço do leite deve subir".

"Indicadores do ano apontam todos para a recessão".

"Estudo da indústria calcula impacto de racionamento no PIB _ Queda de 10% no abastecimento de gás, energia e água levaria a perda de R$ 28,8 bi".

As imagens mostram estradas que continuam bloqueadas por caminheiros, depois de mais de uma semana de protestos, agentes da Força Nacional armados até os dentes avançando sobre os manifestantes, produtores despejando nas ruas toneladas de latões de leite que ficaram sem transporte. O que ainda falta?

Enquanto isso, parece que as principais lideranças políticas do país ainda não se deram conta da gravidade do momento que vivemos, com a ameaça de uma ruptura institucional.

De um lado, o ex-presidente Lula, convoca o "exército do Stédile" e é atacado pelo Clube Militar por "incitar o confronto"; de outro, os principais caciques tucanos, FHC à frente, fazem gracinhas e se divertem no Facebook. Estão todos brincando com fogo sentados sobre um barril de pólvora. É difícil saber o que é pior: o governo ou a oposição. Não temos para onde correr.

A esta altura, só os mais celerados oposicionistas defendem o impeachment de Dilma e pregam abertamente o golpe paraguaio, ainda defendido por alguns dos seus aliados na mídia, que teria um final imprevisível.

O governo Dilma-2 está cavando a sua própria cova desde que resolveu esnobar o PMDB, e não adianta Lula ficar pensando em 2018 porque, do jeito que vamos, o país não aguenta até 2018.

Nem Dilma, em seus piores pesadelos, poderia imaginar este cenário de terra arrasada _ ou não teria se candidatado à reeleição, da qual já deve estar profundamente arrependida.

Vida que segue.

Ricardo Kotscho

Cada vez mais difícil

newtonsilva

A liderança do atraso

Gente que sabe cada vez mais sobre cada vez menos, em busca de saber tudo sobre absolutamente nada. Gente que não pensa coisa alguma, e por isso fala qualquer coisa

Desastres podem ter causas acidentais, furtuitas, fora do controle, imprevisíveis. Podem, enfim, acontecer com qualquer um. Fatalidades acontecem.

Desastres fabricados, entretanto, requerem esforço, persistência, quase planejamento. Não acontecem repentinamente. São simplesmente o resultado obvio, previsível e esperado de sequencia de ações. que, combinadas, produzem o efeito que, quando ruim o suficiente, recebe o apelido de desastre.

É injusto dizer que fabricar desastre não requer qualquer coisa de especial. Ao contrario. A tarefa de eficientemente conduzir o bovino ao lamaçal pressupõe grande dose de comprometimento pessoal em fazer o errado no pior momento possível. Bovino que se preza não quer adentrar o brejo. Vai reclamando, engasgando, resistindo, tossindo. Sempre e muito.

Liderar o fracasso requer qualidades especiais. Dificuldades de comunicação ajudam. Descontadas as contribuições ao folclore, tropeçar no idioma esconde o pensamento ou talvez denuncie sua falta. De uma maneira ou de outra, gera confusão.

Liderar atraso é quase ciência. Implica cultuar a ignorância. Promover o desacerto. Festejar a mediocridade. Resistir às evidencia. Mentir. Enganar. E, acima de tudo, pensar exclusivamente no curto prazo. Tudo com persistência. Tudo sem aprender nem esquecer coisa alguma. Sempre comemorando o triunfo de nulidades.

O atraso, afinal de contas, exige lideres descompromissados. Gente que sabe cada vez mais sobre cada vez menos, em busca de saber tudo sobre absolutamente nada. Gente que não pensa coisa alguma, e por isso fala qualquer coisa.

E, na liderança do atraso, carece sempre dominar a arte de perder. Arte que talvez, para os verdadeiros lideres da mediocridade, não seja difícil de aprender. Requer pouca coisa. A arte de perder pede somente a aceitação de que o dia seguinte seja sempre pior que a véspera.

É assim que, hora após hora, dia após dia, o líder do atraso vai ajudando o tempo e a oportunidade a escorrer por entre os dedos. Com a prática, vem à perfeição. E com ela, se aprende a perder mais, mais rápido, mais coisas. Sem, em nenhum momento, notar ou pensar na perda acumulada que vai se somando. E que, um dia, forma as bases de um novo desastre.

WhatsApp e Brasil

O clima de suspeitas instaurado na sociedade brasileira chega até o aplicativo de mensagens. Grito de ‘impeachment’ volta a assombrar a política brasileira
Por causa das manifestações anunciadas para o dia 15 de março contra o Governo da presidenta Dilma Rousseff e contra os escândalos de corrupção da Petrobras, está se criando no Brasil um perigoso clima de suspeitas e caça às bruxas que afeta todos os partidos e instituições.

Um juiz do estado do Rio de Janeiro declarou, sob anonimato, que existe a suspeita, até em ambientes judiciais, de que, sob a decisão de paralisar por um tempo o WhatsApp em todo o Brasil (tomada por seu colega do Piauí, Luiz Moura) possa estar a mão negra do Governo, que pretendia calar a voz desse poderoso instrumento de comunicação cidadã na véspera do protesto. É difícil imaginar tal manobra, mas o caso é um exemplo emblemático da temperatura a que está chegando o mundo das intrigas e que ameaça obscurecer manifestações que já aconteceram em meio mundo: na já mítica Primavera Árabe, para lutar contra velhas e violentas ditaduras, e em outros lugares, como no movimento dos indignados de Madri, para exigir uma democracia mais madura e participativa – da qual nasceu Podemos, que colocou em crise os dois grandes partidos tradicionais (o socialista PSOE e o conservador PP) que estão governando, alternativamente, desde o final da ditadura militar franquista.

O que preocupa vários democratas, sejam do Governo ou da oposição, é que o Brasil ainda está pouco acostumado a que a cidadania tome as ruas para exigir mais democracia e melhor qualidade de vida, sem a tutela de partidos ou sindicatos. Só existiu o parêntese das manifestações de junho de 2013, que a violência acabou desbaratando.

Hoje, o temor é que qualquer tipo de reivindicação popular possa acabar tingida de gestos antidemocráticos e do ambiente das torcidas violentas às quais estamos tristemente acostumados por algumas equipes esportivas.
Leia mais o artigo de Juan Arias

domingo, 1 de março de 2015

'Petrolão vai abalar a consciência do Brasil por anos'


O que está ocorrendo é algo impressionante. Minou-se o campo moral da Petrobras, é uma profunda tristeza. Isso vai abalar a consciência do Brasil durante muito tempo. Como é possível que não se saiba, que saqueiem uma casa como a Petrobras e ninguém saiba nem diga nada. Não é possível. É uma falha moral e do poder presidencial.”

Quanto vai custar recuperar a credibilidade?
Estava acontecendo e estava camuflado, o que nos leva a pensar que sabemos pouco, que só nos deixam saber pedacinhos, partes. É por isso que a imprensa é extraordinária; o Estado mente de forma inconsequente, só deixa que saibamos o que lhe convém.
Nélida Piñon 

Esperando Janot

A estatal brasileira não está ameaçada pelos trustes internacionais nem pelo imperialismo ianque, seus algozes são gente nossa, partidos e prepostos brasileiros que “tascaram” (para usar a linguagem de João Pedro Stédile), um patrimônio nacional que conseguiu sobreviver e prosperar ao longo de 63 anos a despeito das drásticas mudanças de governo.
Esperando Godot é uma vivência pessimista sobre impasses, dolorosas expectativas, desesperança, filha dos horrores da 2ª Guerra Mundial e da pérfida Guerra Fria que a sucedeu.
Esperando Janot pode ser uma aposta no aperfeiçoamento das instituições democráticas. Sobretudo, na nossa capacidade de julgar e punir com isenção.
Alberto Dines

Levy põe PT e oposição no divã

 
Levy não tem compromisso com o projeto de poder de Lula. E, ao que tudo indica, não está disposto ao jogo do vale tudo
Com apenas uma frase - “essa brincadeira da desoneração custa R$ 25 bilhões por ano, não tem criado e nem sequer protegido empregos” –, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, conseguiu fazer o que a oposição nem tentou ousar. Lavrou, de forma inconteste, a incompetência de Dilma Rousseff, e enterrou todos os argumentos que ela e o PT insistem em usar para transferir a outros a responsabilidade dos estragos que fizeram.

Levy tem dito verdades. Algo raro, que não costuma ser tolerado pelo governo.

Mas, ao contrário de qualquer outro auxiliar, ele não toma pito por discordar da presidente. Nem mesmo quando a critica publicamente.

Dilma apenas finge que não é com ela e, devidamente instruída pela propaganda palaciana a manter as cores do discurso de campanha, repete a cantilena de que tudo que faz é em nome dos pobres, em favor do emprego e de “mais crescimento”.

Dane-se se a conta de luz vai ficar três vezes mais alta do que era antes da redução da tarifa que ela inventou em 2013. Se a inflação alcançou 1,33% em fevereiro, 7,36% em 12 meses, quase 1% acima do teto da meta, ou se o crescimento da população desocupada foi de 22,5% no mês passado. Que a indústria tem crescimento negativo e a economia estagnou.

Na fala de Dilma e do PT, todos os males são externos – culpa de FHC ou da mídia. Sem tergiversar, para Levy o problema vem de dentro mesmo. Cordial, chama de “derrapadas” ou de alternativas “grosseiras” o que foi feito no mandato anterior.

Vê-se no governo a bipolaridade cultivada pelo petismo. Diante dos percalços que cria para si, o PT ora se deprime, com o mea-culpa de alguns, ora se excita e chama todos para a batalha nas ruas, como fez o ex Lula ao convocar o “exército do Stédile”.

Ainda que doentia, a lógica bipolar tem funcionado para o PT. Talvez porque, acima de qualquer outra coisa, Lula sempre se beneficiou dela.

Agora não há consenso. Aguentar o neoliberal Levy e defender ajustes que privilegiam o equilíbrio das contas, cortam privilégios e benefícios, é preço alto demais para o petismo. Difícil de defender nas centrais sindicais, nas frentes de batalha. E em nome de quê? De Dilma?

O PT sabe que é preciso salvar o mandato depauperado da presidente. A pupila de Lula não pode atrapalhar a campanha de 2018.

O eldorado da pegadinha do Lula virou pó

O Brasil acreditou na propaganda do PT. Milhares de incautos caíram na pegadinha do ex-presidente Lula. Nove anos depois do anúncio de que Itaboraí seria a terra prometida, escolhida para sediar o Comperj, maior polo petroquímico do país, assistimos estarrecidos ao sonho virar pesadelo.


De polo petroquímico, o Comperj virou refinaria. O que inicialmente deveria terminar em 2013, agora só em 2017. Vieram as greves dos trabalhadores, primeiro sinal de que alguma coisa ia mal. Na sequência, o escândalo do petrolão e a queda do preço do barril de petróleo para menos da metade do que valia há dez anos, ameaçando seriamente inviabilizar o pré-sal e a própria Petrobras.

Não será surpresa se a nossa refinaria virar em breve um posto de gasolina.

Desde que foi feito o anúncio, em 2006, pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o melhor vendedor de ilusões que a história recente já produziu, de que Itaboraí era a terra prometida, escolhida para sediar o empreendimento da Petrobras, a cidade nunca mais foi a mesma.

Até então, éramos um município de pouco mais de 180 mil habitantes, onde as pessoas se cumprimentavam pelo nome e dormiam de janelas abertas. Uma cidade dormitório, mais conhecida por suas laranjas, cerâmica e quebra- molas do que pelo fato de ter abrigado um dos portos mais importantes do Império, o Porto das Caixas. Sim, o IDH era baixo, mas as expectativas também.

A partir daquele dia, o Fusca virou Ferrari. A cidade acelerou de zero para 200 km. A população cresceu rapidamente, com a chegada de trabalhadores e suas famílias, pressionando por serviços públicos que já não eram lá um modelo de eficiência. Juntos, vieram a inflação e a especulação imobiliária que deixaram os aluguéis cobrados em Itaboraí em meados de 2012 comparáveis aos do Leblon, Zona Sul do Rio.

Os moradores mais antigos se assustaram com tamanha confusão e com tantas caras novas que chegaram à cidade; já os mais jovens se encheram de esperança. Era mesmo excitante viver numa cidade tão próspera que assistia à chegada de hotéis de grandes redes, centros comerciais, prédios de luxo e shopping centers, entre outras novidades.

Hoje, a realidade é outra. O cenário é de desolação: os trabalhadores que vieram atrás do Eldorado agora estão desempregados, e vagam sem rumo pelas ruas da cidade sem poder retornar para casa; os aluguéis reduzem e a violência grassa na mesma velocidade em que a economia despenca. Recentemente, uma grande rede hoteleira anunciou a suspensão da construção da segunda unidade no município. Há investidores que sequer vieram buscar as chaves dos imóveis que compraram.

Os cofres públicos sofrem o impacto. A arrecadação de ISS, que já foi de R$ 30 milhões/mês, está em R$ 18 milhões e deverá cair em breve para menos da metade. Como atender à demanda por serviços públicos de uma população que cresceu, segundo o IBGE, mais de 20% em tão pouco tempo? A matemática não fecha. O Brasil acreditou na propaganda do PT. Milhares de incautos caíram na pegadinha do ex-presidente Lula. Agora é preciso responder: quem arca com tamanho prejuízo?

Mãos dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.
Carlos Drummond de Andrade

Apenas humor

O esforço do PT para liquidar o socialismo

Já houve um tempo em que se julgava que o PT fosse socialista, que seu programa realmente objetivasse a justiça social, a melhoria da qualidade de vida e a busca do oferecimento de oportunidades iguais aos jovens. Quando chegou ao Poder, porém, essa imagem socialista acabou se diluindo e o Partido dos Trabalhadores se transformou num representante dele próprio, na busca desenfreada de seus dirigentes pelo enriquecimento ilícito.

A justificativa para mergulhar na corrupção era de que o PT precisava de um forte esquema de sustentação financeira para conseguir continuar no Poder e acabar com a exploração dos trabalhadores brasileiros. Foi assim que surgiu a criminosa arrecadação de recursos públicos por via da corrupção, inicialmente comprovada pelo Mensalão, agora pelo Petrolão e mais tarde pelos esquemas a ser desbaratados nos Fundos de Pensão, na Eletrobrás e outras estatais, no BNDES e no chamado Sistema S, integrado por Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai); Serviço Social do Comércio (Sesc); Serviço Social da Indústria (Sesi); e Serviço Nacional de Aprendizagem do Comércio (Senac), entre outras instituições.

O Sistema S faz a festa de petistas, como o sindicalista Jair Meneguelli, que recebe mais de R$ 60 mil mensais no Sesi, onde deu guarita e belo salário a uma das noras de Lula, Marlene Araújo Lula da Silva, e também a Márcia Regina Cunha, mulher do mensaleiro João Paulo Cunha, que ganha R$ 25 mensais. E tanto Márcia como Marlene não costumam comparecer aos supostos locais de trabalho: uma em São Bernardo; a outra, em Brasília.

Julgava-se que o PT faria uma revolução social no Brasil, impondo um modelo político humano e despojado, como os exercidos por Nelson Mandela na África do Sul e por Pepe Mujica no Uruguai. Mas foi apenas um sonho. Está mais do que demonstrado que não há socialismo no PT, cuja principal ideologia tem sido o alpinismo social, movido por uma corrupção desenfreada, do tipo ampla, geral e irrestrita, como se dizia na época da anistia.


Lula, Dirceu, Palocci, Meneguelli, Genoino, Delubio, Vaccari e praticamente todos os expoentes petistas hoje são novos ricos e se comportam como tal, com poucas exceções, como o deputado mineiro Nilmário Miranda e outros raros idealistas, que ainda não debandaram, procuram se manter íntegros e, por isso mesmo, não mais ocupam cargos de destaque no partido.

Muito falam que o socialismo morreu, mas é um engano. O socialismo evoluiu muito, passou a conviver com o capitalismo. Hoje, o socialismo democrático está cada vez mais vivo e mostra sua absoluta viabilidade como modelo político nos países nórdicos, que já conseguiram chegar a índices satisfatórios de justiça social, qualidade de vida e oportunidades de ascensão para as camadas menos privilegiadas. Esta é uma realidade que ninguém pode contestar.

No Brasil, o mínimo que se esperava do PT seria o básico – uma educação pública que possibilitasse a formação adequada às novas gerações, uma saúde pública que pudesse garantir o direito à vida e uma segurança pública que assegurasse o direito de ir e vir.

Na verdade, o desenvolvimento do país necessita apenas do fortalecimento deste tripé que representa as bases do socialismo moderno – educação, saúde e segurança. Apenas isso. O capitalismo não precisa ser abolido. Pelo contrário, é fundamental para o fortalecimento da economia no socialismo democrático.

Quando houver esta base sólida de educação, saúde e segurança, tudo se resolverá. Mas o PT não se interessa mais por isso. Não tem projeto político, nunca teve programa de governo e hoje abriga hoje apenas projetos pessoais e familiares.

Ao invés de lutar pela evolução da saúde pública, Lula prefere apoiar o empresário José Seripieri Junior, dono da Qualicorp, que controla os planos de saúde no Brasil. Foi na mansão de Seripieri em Angra dos Reis que a família de novos ricos Lula da Silva passou os dois últimos réveillons, não é preciso dizer mais nada.

O PT desprezou o socialismo democrático, transformou-se num pastiche de si mesmo, um partido sem honra e sem destino. Está caminhando para ter o fim que merece. Mas o socialismo democrático não morrerá por causa dos erros do PT. Como dizem os árabes, “mactub” (assim está escrito).

Carlos Newton

O corte mágico de Dilma


Pra valer, o governo até agora só conseguiu cortar os quilinhos a mais da presidente, o bolso dos trabalhadores, a bolsa dos estudantes, a educação e os sonhos do Brasil Melhor. Para compensar o prejuízo, aumenta os impostos e prenuncia a criação de outros ou a ressurreição de velhos.

Corte na multidão do comissariado nem pensar, pois deles deve depender o futuro do país ou, quiçá, é um gesto social sustentar cambada de vagabundos.

Na mágica contabilidade do Congresso, com o mesmo orçamento, se aumenta vencimentos de parlamentares, dá viagem gratuita às(os) acompanhantes dos mesmos, se fala em novas construções, patati-patatá. Nunca se viu sair tanto dinheiro de uma mesma quantia. É a magia que se consegue eliminando umas coisinhas. Mas que coisinhas?

Os governos estaduais e municipais, que saíram propalando crise e anunciando cortes, já calaram a boca. Se arrumaram no boleto do "são dois pra lá e dois pra cá". Acabaram com secretarias, deram-lhe outro nome ou fizeram a dança da cadeira. Quem sai daqui vai pra lá.

A DJ Dilma, em sua louca dança para o país entrar no regime, faz a população se agitar em ritmo louco na dieta do impacto. Do Planalto, em seu vestido de burro quando foge, não quer saber de parar para pensar que a velocidade da música cansa os dançarinos, ainda mais que são poucos e já estão quase nus e famintos. Essa dança macabra pode acabar mal apesar de que quem tem garantia em paraíso fiscal não se importar que os outros dancem por eles.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

O vestido de Dilma

Dilma vestido que muda de cor levy diz nao adianta presidenta nao muda nada a situcao preta

O mal das `zelites`



Falou-me recentemente outro amigo diante das invectivas de Lula, por razões erradas, às “zelite” brasileiras : 

“Que mal existe, Percival, na existência de uma elite? Que mal há na atividade dessa elite a que o Lula dedica palavras tão ásperas? Esse mesmo senhor quer ver seu Corinthians na elite do futebol brasileiro. Doente, procura a elite médica do país. Com o prestígio em declínio, procura a elite dos publicitários”. Aduzi eu: e para negócios, procura a elite dos vigaristas nacionais.

Leia mais o artigo de Percival Puggina

O governo na defesa dos gatos gordos

A retórica do Planalto, do ministro da Justiça e da AGU embute uma ajuda às empreiteiras, driblando o MP
Quando o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, trata das malfeitorias das empreiteiras e diz que “é preciso separar as pessoas das empresas”, pressupõe que milhões de dólares rolavam porque “pessoas” delinquiam. Ele acrescenta: “Temos que ter cuidado para não atentar contra a economia, contra o emprego e contra o bem-estar da sociedade.”

É a Doutrina Engevix. Em novembro, quando a Lava-Jato começou a cercar as empreiteiras, um de seus maganos anotou: “Janot e Teori sabem que não podem tomar a decisão. Pode parar o país.” Ou seja, o procurador-geral Rodrigo Janot e o ministro Teori Zavascki travariam o processo. Não travaram. Essa doutrina ecoa a tolerância com o tráfico de escravos no século XIX. A lei o proibia, mas, se fosse cumprida, as fazendas de café quebrariam. Com uma diferença: Dom Pedro II não recebia doações de negreiros.



Como o pulo do sapo de Guimarães Rosa, a balbúrdia de leis e siglas brasileira não é produto da boniteza, mas da precisão. Elas tecem uma rede de atalhos úteis para o andar de cima, inacessíveis ao andar de baixo


Trazendo a Doutrina Engevix para a vida real, o advogado-geral da União, Luis Inácio Adams, defendeu a tese segundo a qual as empreiteiras podem negociar acordos de leniência com a Controladoria-Geral da União, um órgão do aparelho do Executivo. Sua argumentação parte da constatação de que há no Brasil uma “especifidade”, a “sobreposição” de órgãos e leis. De fato, para caçar larápios, há uma sopa de letras (CGU, TCU, CVM, Cade, MP) e de números de leis (2.864, 8.429, 8.433). Deu no que deu.

Na sua exposição, Adams ofendeu os fatos. Disse o seguinte: “No caso americano, quem faz os acordos é a SEC, que é o nosso correspondente à Comissão de Valores Imobiliários.” Nem pensar. Os acordos que a SEC faz, como os da CVM, são pontuais, quando não há processo penal. O ex-diretor financeiro da Petrobras fechou sete acordos com a CVM, no valor de R$ 1,75 milhão, desembolsados pela seguradora da empresa. Num deles estava o “amigo Paulinho”. Deu no que deu.

Leia mais o artigo de Elio Gaspari

O trajeto da lista de bandidos

Maragogipe: Chanchada do PT na terra de Zé Trindade

Estaleiro Paraguaçu, em Maragogipe encerra atividades neste sábado (Foto: Divulgação)
Estaleiro Paraguaçu, em Maragogipe encerra atividades neste sábado
Uma chanchada eleitoral com todos os ingredientes para terminar em clamoroso desastre social
Neste sábado, 28, fim de fevereiro para não esquecer, o Consórcio Estaleiros Paraguaçu(CEP) - formado pelas empreiteiras OAS, UTC e Odebrecht - confirma o triste desenlace de um engodo anunciado: o encerramento das atividades na obra monumental de engenharia naval em Mararagogipe, coração do Recôncavo Baiano. Prometia empregar 5 mil pessoas na fase de construção e mais 6 mil em seguida à inauguração, anunciada para o ano eleitoral de 2014.

O megaempreendimento de infraestrutura nacional, realizado na Bahia, foi vendido pelo governo federal, desde o lançamento da pedra fundamental em julho de 2012, como sonho dourado no Nordeste. Atravessou assim a campanha que reelegeu presidente da República a petista Dilma Rousseff. De quebra, fez de Rui Costa (empurrado pelo muque do então ocupante do Palácio de Ondina e atual ministro da Defesa, Jaques Wagner) governador do estado já no primeiro turno.

A miragem de R$ 2 bilhões prometida com pompa e circunstância, em badalação sem tamanho no lançamento da pedra fundamental, foi um festival de guisos e euforia. Presentes Dilma, Wagner, Rui, Graça Foster, Gabrielli e a nata do poder no governo petista. Todos ao lado de poderosos empresários nacionais e estrangeiros, acatados executivos de empresas (antes da Lava Jato), prefeitos, parlamentares e a gente humilde e trabalhadora do lugar.

Tudo, ou quase, desmorona agora em meio ao silêncio quase completo. De omissão ou cumplicidade.

Propagava-se o ressurgimento da indústria pesada Off-Shore na Bahia (plataformas e equipamentos para exploração, transporte e distribuição de petróleo). Tudo antes de explodir a Lava Jato, que arrola corruptos e corruptores no maior escândalo da história brasileira e tem como pano de fundo a Petrobras, empresa do coração de todos. Executivos das empresas brasileiras do Consórcio estão presos, há meses, na carceragem da PF em Curitiba. Dilma, então, disse em seu discurso sobre a construção do estaleiro, "ser esse o jeito - diferentemente dos europeus - do governo brasileiro enfrentar a crise econômica: criando mais emprego e promovendo desenvolvimento". Uma peça histórica de retórica e enganação, que está na Internet e merece consulta.

Leia mais artigo de Vitor Hugo Soares

Estado petista garante teúdas e manteúdas

A mulher de R$ 2,7 milhões do BB
O Brasil já foi de um conservadorismo provinciano. Os casos de teúdas e manteúdas ficavam lá pelos sertões, garantidas pelos coronéis com os ganhos de suas expensas dos latifúndios. Gasto pequeno. Não davam escândalo. Eram prato para fofoqueiras, únicas realmente atingidas pela falta de vergonha. Como dizia na época Ibrahim Sued, tudo se sabe em sociedade e, portanto, amante era um extra, fora do trabalho.

Quem diria que esse conservadorismo seria posto de vez na lata de lixo? Bastou o PT tomar o governo e até amante virou órgão do Estado, com direito a regalias, blindagem partidária e mesada com dinheiro público.

Rosemary Noronha, a toda poderosa secretária amiguinha de “Deus”, está incólume, envolvida em um processo que não dá um passo em sua condenação. É a mãozinha de “Deus”, salvando da punição a secretária que viajava como integrante do governo por todo o mundo e ainda “vendia” sua convivência diária com o soberano?

Agora o país convive com o caso de mais uma teúda e manteúda com dinheiro público. Val Marchiori (Valdirene Aparecida Marchiori, 40 anos) não só obteve empréstimo ilegal de R$ 2,7 milhões do Banco do Brasil, via BNDES, como ainda viajou com o “padrinho” Aldemir Bendine, então presidente do BB e atual presidente da Petrobras, em 2010, às custas do dinheiro público. Até em viagem oficial e mesmo hotel a socialite acompanhou o presidente.

Mais ainda Bendine até teria patrocinado programa de televisão para Val. Com dinheiro do Banco do Brasil? Não deveriam ser dele os R$ 350 mil, uma vez que tinha a chave dos cofres do banco por todo o país.

As “extras” estão pipocando com as revelações da cretinice com que os administradores públicos, indicados por partidos, cuidam do dinheiro do povo. E não se vê um movimento para acabar com a falta de vergonha, o desvio de dinheiro público para agradar as “senhoritas”.

Era 1961 o caso Profumo chocava toda gente, inclusive políticos com rabo preso aqui. Entre os britânicos a coisa ficou feia. A breve ligação sexual entre John Profumo, secretário da Guerra no governo conservador de Harold Macmillan, e Christine Keeler, uma futura modelo de 19 anos ocupou os jornais ingleses. Apesar das explicações no Parlamento, Profumo caiu e provocou a demissão do próprio primeiro-ministro, alegando problemas de saúde, em 1963. O escândalo ainda afetou o partido conservador nas eleições seguintes.

Isso aconteceu há 60 anos e derrubou um ministro inglês! Logicamente não derruba aqui nem sequer presidente de estatal no paraíso petista, nem a secretária poderosa. Neste Éden, abençoado por “Deus”, que se descobre enfim que é brasileiro e tem até carteira de identidade, tudo é muito melhor. Na administração pública, amante dos coronéis petistas ganhou status de coisa pública, mantida às custas do trabalho do contribuinte.

Da série 'Carga Pesada'

CAMINHONEIRO

Versos e reversos

Quem resiste à realidade passa a vida berrando sem poder mudá-la ou influenciá-la
Corre um boato aqui onde eu moro que nenhum dos nossos males traz novidade. Que o sofrimento marcado no rosto do povo nada tem nada novo. Diz que a gente mastiga, desde sempre, a injustiça e iniquidade sem memória ou aprendizado.

Que a gente aceita, mais do que poderia sem nem mesmo considerar se deveria. Que a gente não aprende nem a lembrar de nem a esquecer. Que a gente parece povo destinado a repetir, em círculos, o percurso do desastre.



Amigo meu que envelheceu lutando, diz que esquecendo e não vendo, até daria para ser feliz. Que quem resiste à realidade passa a vida berrando sem poder muda-la ou influenciá-la. Que se o que não tem remédio, remediado fica. Que enxergar, é somente procurar ser infeliz.

Por isso parece que a gente sempre abraça a repetição da história. Sempre uma farsa. Frequentemente como tragédia. Nunca como memoria. Em destino sem jeito. Em luta sempre desprovida de vitória.

E a gente segue cometendo os mesmos erros. Acreditando nas mesmas ilusões. Sem novidade. Com as ideias envelhecidas apodrecendo comprometendo o futuro e piorando o presente. Sem projeto ou objetivos.

Contemplando deserto cuja travessia parece eterna. Onde a areia cobre sem muita preocupação de esconder, um cemitério sem fim de oportunidades perdidas. Envoltos em silêncio que não vem do respeito, mas da ausência de ideias.

E é assim, que no verso e no reverso da vida inteirinha, a gente mata o futuro, corrói a esperança. Acolhe, acomoda e incentiva a mediocridade. Abraça a ignorância. E transforma sonhos em arrependimentos.

Elton Simões

Lula, Lênin e a Petrobras

Não se sabe se Lula conhece a palavra de ordem com que Lênin impulsionava sua militância: “Acuse-os do que você faz, xingue-os do que você é”
Até aqui, quando se aborda o escândalo da Petrobras, pergunta-se quem a roubou, quanto e como o fez. A resposta é parcialmente conhecida: o achaque teve o PT no comando, coadjuvado por seus aliados PMDB e PP, e a quantia chegou à estratosférica casa das dezenas de bilhões.

Conhecem-se alguns operadores, empresários cúmplices e os nomes de agentes públicos (parlamentares, governadores, ministros etc.) citados nas delações premiadas. A lista oficial, a ser divulgada pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, está sendo aguardada para os próximos dias.

Não se sabe se virá como denúncia ou pedido de abertura de inquérito, o que fará toda a diferença. Se denúncia ao STF e STJ (para o caso de governadores), os citados viram réus; se inquérito, o rito pode ser longo e diluir-se no tempo.

O prejuízo, no balanço não auditado da empresa, tem cifras oficiais: R$ 88,6 bilhões. A ex-presidente Graça Foster disse que foi o que se pôde apurar, mas, aprofundando-se as investigações, “certamente é mais”. Alguns argumentam: mas nem tudo aí é roubo; há também o fator incompetência, incluso na mesma rubrica. Tudo bem. Digamos, então, num raciocínio pra lá de moderado, que o fator roubo seja um quarto daquele valor: R$ 22,1 bilhões. Ainda assim, é dinheiro demais, que excede enormemente ambições pessoais e necessidades partidárias.

E aí entra em cena a pergunta que ainda não se fez, mas que inevitavelmente se fará: para onde foi essa grana? Escondê-la é impossível; fragmentá-la de modo a diluir sua rota parece além do talento mesmo de doleiros experimentados.

Outra coisa: como recuperá-la? O ex-gerente Pedro Barusco se dispôs a devolver a parte que lhe coube: US$ 100 milhões (R$ 280,8 milhões ao câmbio de hoje). Considerando-se o seu grau hierárquico, é possível especular quanto coube aos de cima.

E quem são os de cima? Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento – que detalhou os percentuais que cada partido da base recebia -, disse que se situava no nível médio. E que respondia a gente bem mais graúda. Alberto Youssef garantiu que Lula e Dilma eram os graúdos maiores: sabiam de tudo.

Lula e Dilma negaram a acusação, mas, por ato falho, já a confirmaram. Dilma, ao comentar o rebaixamento da empresa pela consultoria Moody’s, considerou-a “desinformada”, o que sugere que ela, presidente – e ex-ministra das Minas e Energia, ex-presidente do Conselho Administrativo e ex-chefe da Casa Civil -, tem informações que aqueles consultores não têm. Lula, no espantoso ato de “defesa da Petrobras”, na sede da ABI, no Rio, na terça passada, se disse informadíssimo, o que ninguém duvida.

Palavras suas: “Fui o presidente que mais visitou a Petrobras; tenho mais camisas da Petrobras que o mais velho funcionário da empresa. Fui o presidente que mais inaugurou plataformas”. Ora, com tamanha intimidade com a estatal, e tendo nomeado toda a sua diretoria, seria surpreendente que não estivesse a par de tudo o que lá se passava. Tudo.

Leia mais o artigo de Ruy Fabiano

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Não vê quem é idiota

Gostaria de tecer uma pequena colcha com os retalhos que podemos ler por aqui mesmo e que abundam no território da blogosfera:
Empreiteiros reclamam que o governo aproveita o Petrolão para não pagar ninguém, apostando na desordem institucional.

Ministros tentam melar o Petrolão na surdina. Ninguém sabe ao certo até agora quem são os políticos envolvidos na lambança, embora os capitalistões continuem presos preventivamente, obrigados a evacuar em reuniões constrangedoras, na frente uns dos outros.

Lula ainda é considerado “presidente” por boa parte da imprensa acocorada. Ainda não perdeu a majestade torpe nem a corte que o acompanha na vigarice.

O grande cretino faz um ato em defesa da roubalheira e pede que seus “exércitos” o defendam nas ruas. João Pedro Stedile é nomeado general da banda podre dessa comarca.

O celerado evoca seu irmãozinho ditador Saddam Hussein como exemplo de governante a ser seguido para um buraco na decência. O problema é que não temos do outro lado o exército dos Estados Unidos para defender nossa democracia desse ditadorzinho de araque.

Nós, da tribo dos idiotas, achamos tudo isso muito exótico e engraçadinho. Não é. O que se desenha no horizonte é a vontade declarada de implodir nossas instituições e partir para o confronto armado, exatamente como estampado nas cartilhas gramscianas dos Foros de São Paulo e afins. Eles querem tomar o poder e torná-lo absoluto, evacuando em público e andando para os verdadeiros foros democráticos que não se mexem por aqui. Eles sabem que não terão outra chance de tornar a tal “Pátria Grande” um projeto hegemônico de poder e querem receber a polícia à bala, em suas casamatas e posições de defesa.

Enquanto as “oposições” que a nada se opõem dizem o que deve e o que não deve ser escrito nos cartazes das manifestações de 15 de março, apostando na capitulação antes mesmo do começo da briga por nossos direitos, a turba da mortadela se arma como pode. E dizem que isto aqui é uma república democrática. FHC foi feito refém de surpresa. Único político com um tênue discurso oposicionista, não sobra muita coisa na política brasileira para pisotear e enfrentar com porradaria e truculência.

Eles querem o confronto; ninguém entendeu ainda? Quem não enxerga nisso o desenho de um golpe de estado ou é imbecil ou é cretino; escolham um lado para ficar, meus caros leitores. Essa gente está flertando com o perigo. Com a desordem institucional. Apostam que tomarão o poder de assalto e não ofereceremos resistência, pois continuamos a confiar numa oposiçãozinha ridícula, acanhada, com suas cabeças de aves raras enfiadas na lama até o talo.

O piano de cauda

Que semana confusa! Notícias não faltaram. Difícil escolher quais mencionar...
Você prestou atenção nas palavras de Lula no inacreditável encontro petista com o objetivo insidioso de salvar a Petrobras: “A nossa companheira Dilma Rousseff tem que deixar o negócio da Petrobrás para a Petrobrás, a corrupção para o ministro da Justiça ou para a Polícia Federal. A Dilma tem que levantar a cabeça e dizer eu ganhei as eleições.”?

Ganhar as eleições, para Lula, é um passaporte para tudo, é o mesmo que uma escritura de posse. Importante, nessa defesa de fancaria, era enfatizar para a companheira Dilma que ela precisa tomar verdadeiramente posse e segurar quentinha a cadeira até 2018.

O dono do partido que fez da Petrobras um celeiro de malfeitos, arregimentou companheiros para, segundo disse, defender e salvar a empresa! Defender de quem? Salvar de quem? Da Imprensa. E onde ele disse isso: na sede da Associação Brasileira de Imprensa!

Mas Lula não contava com a paixão de dona Dilma pelo poder. Apaixonou-se de tal forma que reencarnou Luís XIV e sai por aí dando a entender que ela é o Estado. Como agora em Feira de Santana onde ela fez uma declaração muito definidora de como se acha poderosa. A Agência Moody’s, segundo a sabe-tudo dona Dilma, rebaixou a nota da Petrobrás por falta de conhecimento correto do que está acontecendo na empresa. “Não tenho dúvida que a Petrobrás vai ser uma empresa com grande capacidade de recuperar isso”. Isso? É. Isso. Ilustração difícil

Leia mais o artigo de Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa

A fala do poderoso chefão


Voz do Brasil

O ofício intelectual não combina bem com manifestos. Dos intelectuais, espera-se o pensamento criativo, a crítica do consenso, a dissonância — não o chavão

Eu sabia que eles assinariam um manifesto. Ingênuo, imaginei que, desta vez, seria um texto contra o pacote fiscal de Dilma Rousseff (culpando, bem entendido, o mordomo, que se chama Joaquim).

Contudo, eles desistiram de fingir: o inevitável manifesto, intitulado “O que está em jogo agora”, é tão oficialista como “A voz do Brasil” dos velhos tempos. Num lance vulgar de prestidigitação, o texto dos “intelectuais de esquerda”, assinado por figuras como Marilena Chaui, Celso Amorim, Emir Sader, Fabio Comparato, Leonardo Boff, Maria da Conceição Tavares e Samuel Pinheiro Guimarães, apresenta-se como uma defesa da Petrobras — mas, de fato, é outra coisa.

O ofício intelectual não combina bem com manifestos. Dos intelectuais, espera-se o pensamento criativo, a crítica do consenso, a dissonância — não o chavão, a palavra de ordem ou o grito coletivo. Por isso, eles deveriam produzir manifestos apenas em circunstâncias excepcionais.

Os “intelectuais de esquerda”, porém, cultivam o estranho hábito de assinar manifestos. Vale tudo: crismar um crítico literário como inimigo da humanidade, condenar a palavra equivocada no editorial de um jornal, tomar o partido de algum ditador antiamericano, denunciar a opinião desviante de um parlamentar. O manifesto sobre a Petrobras é parte da série — mas, num sentido preciso, distingue-se negativamente dos demais.

A fabricação em série de manifestos é um negócio inscrito na lógica do marketing. De fato, pouco importa a substância do texto, desde que ele ganhe suficiente publicidade, promovendo a circulação do nome dos signatários.

Como os demais, o manifesto da Petrobras é uma iniciativa em proveito próprio. Mas, nesse caso, o proveito tem dupla face: além do marketing da marca, busca-se ocultar o fracasso de uma ideologia. Por isso — e só por isso! — ele merece a crítica de quem não quer contribuir, involuntariamente, com a operação mercantil dos “intelectuais de esquerda”.

Segundo o manifesto, a Operação Lava-Jato desencadeou uma campanha da mídia malvada para entregar a Petrobras, junto com nosso petróleo verde-amarelo, aos ambiciosos imperialistas.

A meta imediata da conspiração dos agentes estrangeiros infiltrados seria restabelecer o regime de concessão. Sua meta final seria remeter-nos “uma vez mais a uma condição subalterna e colonial”. A fábula, dirigida a mentes infantis, esbarra numa dificuldade óbvia: sem o aval do governo, é impossível alterar o regime de partilha.

A Petrobras não foi derrubada à lona pelo escândalo revelado por meio da Lava-Jato, que apenas acelerou o nocaute. Os golpes decisivos foram assestados ao longo de anos, pela política conduzida nos governos lulopetistas, sob os aplausos extasiados dos “intelectuais de esquerda”.

No desesperador cenário atual, a direção da Petrobras anuncia uma redução brutal de investimentos na prospecção e extração, precisamente os setores em que a estatal opera com eficiência. O regime de partilha obriga a empresa a investir em todos os campos do pré-sal.

A troca pelo regime de concessão será, provavelmente, a saída adotada pelo governo Dilma. Os “intelectuais de esquerda”, móveis e utensílios do Planalto, escreveram o manifesto para, preventivamente, atribuir a mudança de rumo aos “conspiradores da mídia”. Por meio dessa trapaça, conciliam a fidelidade ao “governo popular” com seus discursos ideológicos anacrônicos. Ficam com o pirulito e a roupa limpa.

Há uma diferença de escala, de zeros à direita, entre as perdas decorrentes da corrupção e as geradas pelo neonacionalismo reacionário. A Petrobras é vítima, antes de tudo, do investimento excessivo movido a dívida, da diversificação ineficiente e do controle de preços de combustíveis.

Numa vida inteira de falcatruas, Paulo Roberto Costa, o “Paulinho”, e Renato Duque, o “My Way”, seriam incapazes de causar danos remotamente comparáveis aos provocados pelos devaneios ideológicos do lulopetismo — que são os dos signatários do manifesto.

Leia mais o artigo de Demétrio Magnoli

De onde vem a destruição


Justiça mal educada na Pátria Educadora

As ações políticas, engendradas pelo governo, para livrar de punição as empresas envolvidas no Petrolão e atenuar as penas de corruptos e corruptores não são apenas um acinte à Justiça. São um crime contra o direito de todos serem iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza (art 5º da Constituição). Já mais do que remendada, novamente é estuprada a "Cidadã" dentro do próprio Palácio, onde deveria ser protegida e respeitada.

O Brasil assiste, pasmo, ao conluio de poderes e poderosos bandidos (outro nome não lhes cabe) articulando a derrubada de toda Justiça para não serem molestados no bolso e na liberdade. Uma dessas ações é a demora em se indicar o substituto de Joaquim Barbosa, no Supremo Tribunal Federal, que já recebeu críticas dos decanos do tribunal. Com a proximidade de haver julgamento de implicados no Petrolão, a falta do juiz só vai favorecer aos indiciados contra a Justiça.

O julgamento do mensalão foi apenas um tropeço deles e uma lição, que agora bem aprendida está sendo usada para os livrar das penas no Petrolão. Como imbecis e espertos malandros, acreditam ainda que a Justiça é para punir. Daí armarem de todo o jeito maracutaias para embolar o meio de campo, que permita uma vitória da bandidagem sobre o cidadão.

Justiça é também Educação. Sem ela, como se viveria num mundo de selvageria entre tantos contrários? A Justiça é quem nos educa nessa relação e pode nos reger na democracia. Só tiranos e marginais adoram passar a perna no que é justo, porque é ético e moral. As jogadas petistas armadas nos bastidores pelos políticos e governo são o verdadeiro atentado à democracia. Anunciam um golpe da Oposição, mas na verdade estão armando o golpe e parte dele inclui o esvaziamento do Poder jurídico. É a falta de educação da maioria dos integrantes desse alcunhado partido.

Como na Pátria Educadora do PT, pode-se dar um rabo de arraia na educação? A "educação" petista será formar uma sociedade da bandidagem, do desrespeito às leis, do descaso com o direito mais essencial de Liberdade, que não se faz sem Justiça.

A esperteza do comissariado, do Comando Vermelho e dos aproveitadores de sempre põe em risco mais do que os preceitos jurídicos. O risco é fragilizar ainda mais as já frágeis liberdade e democracia no país.

Um novo julgamento cortando apenas umas cabecinhas e livrando dezenas de outras para que não sejam atingidos governantes, principalmente Dilma e Lula, pode ser um desastre irrecuperável por muitos anos.

As futuras gerações podem sofrer mais do que se pensa com uma sociedade alicerçada na bandidagem livre dos poderosos, ou cumpliciados com os governos, em detrimento de uma Justiça que não vê partido, bolso nem diploma do TER como acontece nas verdadeiras democracias .

Brasil na lama


Mais uma vez o Brasil será capa da britânica "The Economist", desta vez da edição da revista para a América Latina. Se a primeira delas foi positiva e trazia o Cristo Redentor "decolando" do Corcovado, a segunda mostrava o monumento em um voo "desordenado". Agora, a edição que chegará às bancas da América Latina trará outra representação negativa do país. A reportagem diz que, durante a campanha pela reeleição, a presidente Dilma "pintou" um Brasil bem melhor do que o da realidade. O texto afirma ainda que, passados dois meses do novo mandato, os brasileiros começam a notar que acreditaram em palavras "falsas".

Que elites, que esquerda?

A cada instante e cada vez mais, somos alvejados por milhares de informações de todos os tipos, muitas delas procurando, como consequência final, alterar nosso comportamento, seja para pormos fé nas lorotas pseudoestatísticas e conceituais que nos pregam os fabricantes de remédios, pastas de dentes e produtos de farmácia em geral, seja para acreditarmos que determinado partido político, ao pedir com fervor nossa adesão, realmente tem alguma identidade que não seja a que lhes emprestam seus tão frequentemente volúveis caciques. Aparentemente, nossos cérebros se defendem de ser entulhados com essa tralha e grande parte dela é esquecida.

Mas em algum lugar da mente ela permanece e afeta talvez até nossa maneira de ver o mundo. Se prestarmos atenção aos comerciais de tevê e fizermos um esforçozinho de abstração, veremos que temos plena ciência de que quase todos eles, ou mesmo todos, se apoiam em pelo menos uma mentira ou distorção. O xampu não produz cabelos como aqueles, a empresa não dá o atendimento ao cliente que apregoa, o plano de saúde falha na hora da necessidade, a velocidade da banda larga não chega nem à metade do que contrata, o sistema de saúde que descrevem como o nosso parece gozação com o pessoal que estrebucha em macas no hospital, o banco professa carinho e oferece gravações telefônicas diabólicas, o lançamento imobiliário mente sobre as vantagens do bairro e a segurança da construtora, a moça não é bonita como aparece, o sinal da operadora não é confiável, a prestação sem juros é enganação, a garantia do carro não vale nada para a concessionária. Tudo, praticamente, é mentira e sabemos disso. Mas, mistérios desta vida, agimos como se não soubéssemos, numa postura acrítica e já meio abestalhada.

Em relação à política, talvez nossa situação possa ser até descrita em termos mais drásticos. As afirmações mais estapafúrdias são divulgadas e ninguém se preocupa em examiná-las. Não me refiro a chutes que prostituem a estatística e fazem dela, como já se disse, a arte de mentir com precisão. Os números nos intimidam desde a escola primária e qualquer embusteiro se aproveita disso para declarar que 8.36% (quanto mais decimais, melhor) de alguma coisa são isso ou aquilo e ver esta assertiva ser recebida reverentemente, como se não fosse possível desconfiar de tudo, da coleta dos dados, às categorias empregadas e os cálculos feitos. Média, então, é uma festa e eu sempre penso em convidar o dr. Bill Gates para morar em Itaparica e me transformar em nativo do município de maior renda média do Brasil, cuíca do mundo.

Não, não me refiro a números, mas a alegações estranhas. Por exemplo, esse negócio de o governo ser de esquerda. Só se querem dizer que a maior parte do nosso cada vez mais populoso bando ministerial é constituído de canhotos. O presidente Lula, que não quis ser presidente emérito e prefere continuar sendo presidente perpétuo mesmo, já disse ? e creio que com sinceridade ? que não é, nem nunca foi, de esquerda e que não usa mais nem a palavra “burguesia”. E que é que o governo fez que caracterize uma posição de esquerda? Apoiar Chávez com beijos e abraços, ao tempo em que respalda os bilhões de dólares de negócios brasileiros na Venezuela? Manter boas relações com Cuba, o que não quer dizer nada em matéria de objetivo político? Ser da antiga turma que combatia o governo, no regime militar? E já perguntei aqui, mas pergunto de novo: o PMDB é de esquerda? Quem é esquerda, nesse balaio todo? Furtar, desviar, subornar, corromper são de esquerda? Zelar por valores éticos e morais é de direita?

É gritaria da direita reclamar (e pouca gente reclama) do descalabro inacreditável em que se tornaram as trombeteadas obras do rio São Francisco, hoje uma vasta extensão de ruínas e destroços, tudo abandonado ao deus-dará, em pior estado do que cidades bombardeadas na Segunda Guerra? Ou o que está acontecendo com a Petrobras, que, da segunda posição entre as petrolíferas, despencou para a oitava e pode despencar mais, acrescida a circunstância de que ninguém explica direito qual é mesmo a situação do hoje já não tão radioso pré-sal? E combater a miséria nunca foi de esquerda ou direita. Ter altos índices de popularidade tampouco.

Também se diz que as elites dominantes querem derrubar o governo. Que elites dominantes? A elite política, que se saiba, é a que exerce o poder político. O Poder Executivo é exercido pelo governo que está aí e que, presumivelmente, não atua contra si mesmo. O Poder Legislativo está sob o controle da base do governo. E o Judiciário, por mais que isso seja desagradável aos outros governantes, não pode associar-se à ação política no sentido estrito. Já as elites econômicas não parecem empenhadas em subverter uma situação em que os bancos têm lucros nunca vistos, conforme o próprio presidente perpétuo já frisou, e as empreiteiras estão muito felizes e, convocadas pela presidente adjunta, prometeram fazer novos investimentos. Qual é a elite conservadora que está descontente e faz oposição ao governo? É justamente o contrário.

Finalmente, temos a imprensa golpista. Que imprensa golpista? Que editorial ou comentário pediu golpe? Comportamento golpista é o de quem acusa o Judiciário de ser agente de armações politiqueiras, quem chega a esboçar desobediência a ordens judiciais, quem se diz vítima de linchamento, quando foi condenado em processo legítimo e incontestável. A imprensa sempre se manifesta contra o desrespeito à Constituição e a desmoralização das instituições democráticas e tem denunciado um rosário sem fim de ações lesivas ao interesse público. Golpista é quem busca silenciá-la ou controlá-la, não importa que explicações se fabriquem e que eufemismos inventem.

(Artigo de João Ubaldo Ribeiro publicado em 17 de mar de 2013)