sexta-feira, 2 de abril de 2021

Vacinados conra o golpe

Enquanto os líderes mundiais lançavam um comunicado considerando a pandemia o maior problema da humanidade desde a 2.ª Guerra, aqui, no Brasil, Bolsonaro quis dar um golpe para evitar o combate eficaz contra o coronavírus. Esta é a leitura que faço dos episódios da semana.

Bolsonaro pressionou o ministro da Defesa, Fernando Azevedo, não apenas para demitir o comandante do Exército, mas para ter condições de neutralizar pela força as medidas restritivas que os governadores impuseram em seus Estados para salvar vidas.

Com a demissão do ministro, os comandantes das três Armas renunciaram em protesto contra Bolsonaro. E ficou evidente ali que o Exército não se lançaria na aventura de Bolsonaro, que, em nome da economia, tinha o potencial de matar mais ainda uma população já devastada pelo coronavírus.

A divergência entre a visão do Exército e a de Bolsonaro sobre a pandemia ficou evidente na véspera da demissão do ministro Fernando Azevedo, que ao sair se limitou a dizer que manteve a instituição militar como força do Estado, e não de um governo.

Em entrevista ao Correio Brasiliense, o general Paulo Sérgio, diretor do Departamento de Pessoal do Exército, mostrou como a instituição atravessou a pandemia, obedecendo os mais estritos protocolos de segurança. Previdente, como, aliás, o são todos os governos do mundo, o Exército já se preparava para uma terceira onda. O saldo do combate, na proteção de 700 mil pessoas sob sua influência, foi muito positivo. Basta comparar o índice de mortalidade na Força, que foi de 0,13%, com o do Brasil, 2,5%.


Apesar de ter processado milhares de comprimidos de hidroxicloroquina em seus laboratórios, por influência de Bolsonaro, o Exército internamente comportou-se como grande parte da humanidade, tentando seguir protocolos de segurança. Houve também a passagem desastrosa do general Pazuello pelo Ministério da Saúde. Mas no seu pronunciamento o comandante Edson Pujol ressaltou que a ida de militares para o governo era uma escolha pessoal.

A posição de Pujol a respeito da pandemia pareceu inequívoca no seu documentado encontro com Bolsonaro em Porto Alegre. Bolsonaro estendeu a mão, Pujol ofereceu o cotovelo, que é o tipo de saudação recomendado pela OMS.

Lembro-me, naquele momento, de que escrevi sobre as ligações originárias das Forças Armadas com o positivismo, o que deve ter despertado nos militares não só um respeito, mas também uma disposição de associar seu trabalho à ciência.

Felizmente, a tentativa de envolver os militares na aventura macabra de sabotar pela força as medidas contra a pandemia fracassou. Mas Bolsonaro tinha um plano B.

Ele sabe que a instituição é mais sólida do que as PMs e logo em seguida pôs o plano em prática. Por intermédio de um deputado, tentou aprovar com urgência um projeto de mobilização nacional, que lhe daria controle de todas as PMs do Brasil. Tudo indica que ele busca desesperadamente uma força militar para impor suas ideias acerca da pandemia, uma força de intimidação dos adversários ancorados no bom senso.

Fora essa tentativa desastrada de dar um golpe para aplicar sua política de morte, Bolsonaro fez uma minirreforma ministerial, que apenas colocou o Centrão dentro do palácio, com a chave do cofre, e renovou algumas indicações familiares para cargos decisivos, como, por exemplo, o Ministério das Relações Exteriores. Poucos se lembram de que o início da crise era a pressão do Senado para derrubar o pior chanceler da nossa História, Ernesto Araújo.

Araújo apenas teorizava as ideias toscas de Bolsonaro com tintas de Steve Bannon, Olavo de Carvalho e da própria Alt Right americana. O foco do nosso isolamento internacional, diria mesmo de nossa vergonha, é o comportamento do presidente Bolsonaro, que fez do Brasil uma ameaça internacional, pela destruição ambiental e pela tragédia sanitária.

Ao escolher um modesto diplomata, que jamais ocupou uma embaixada, Bolsonaro quer mantê-lo agradecido pelo cargo e aberto à sua influência – mais precisamente, à influência do filho Eduardo, um dos grandes artífices da nossa destruidora política externa.

Bolsonaro enfrenta essa crise profunda num momento em que as próprias condições de governabilidade se diluem. Uma clara demonstração disso foi o Orçamento aprovado no Congresso. Sempre se diz que o Orçamento no Brasil é uma peça de ficção. Mas este, que foi aprovado com uma hipertrofia dos gastos militares, talvez esteja mais para um filme de horror.

Não se trata apenas de governabilidade num momento qualquer, mas durante uma pandemia de que o Brasil é o epicentro mundial, campeão indiscutível em número de mortos.

Um presidente incapaz, entregue no campo político à voracidade dos seus aliados do Centrão, buscando de todas as maneiras sabotar a luta contra a pandemia – tudo isso compõe um cenário desolador, sobretudo porque a sociedade está reduzida, no momento, a protestos virtuais.

Cedo ou tarde, julgaremos Bolsonaro.

O rato ruge

“Todo homem nasce original e morre plágio”
“Nunca tantos deveram tanto a tão porcos”
Millôr Fernandes

É inegável que o presidente miliciano sempre teve como intencionalidade a ruptura institucional, uma espécie de saudosismo do golpe de 1964 e da ditadura que se seguiu. Temos afirmado com certa insistência em nossas colunas que o bufão na presidência contava com certos recursos para, pelo menos, dar uma base aos seus arroubos, principalmente no suposto apoio de segmentos das forças armadas, sua base social apoiada nas milícias e nas organizações ditas religiosas, além da base eleitoral que lhe auferiu os mais de 57 milhões de votos.

No entanto, devemos lembrar que tais recursos de nada serviriam se não houvesse uma certa condescendência do grande capital monopolista para com as visíveis trapalhadas do miliciano, uma vez que sua única função no cargo era dar sequência às reformas e medidas exigidas pelo capital e o deus mercado. Uma vez que tais medidas encontravam seu caminho, o suposto presidente ia se equilibrando no cargo apesar de tudo. Nesta direção foi realizado um pacto entre os militares, STF e parlamento para evitar a instabilidade de um possível impedimento do presidente, seja por qualquer motivo entre os inúmeros à escolha (irregularidades eleitorais na chapa Jair/Mourão, atentar contra as instituições com atos antidemocráticos que o dito presidente conclamou e participou, imiscuir-se na Polícia Federal para proteger sua família e amigos criminosos, etc.).

No momento do pacto, o principal fator de instabilidade era a clara intenção que partia de um executivo doentio em acirrar os ânimos para justificar uma ruptura. No entanto, o desenvolvimento da pandemia mudou este cenário. O negacionista no maior cargo da República, ainda que tenha recuado em nome do pacto com o Parlamento e o Supremo, abençoado e tutelado pelos militares no governo, se demonstrou uma fábrica de instabilidade para dar respostas à sua base social e eleitoral ou por qualquer outro motivo. Relativizando a gravidade da doença, defendendo ilusórios e irracionais métodos de tratamento preventivo, recusando-se a um plano ordenado de isolamento social e medidas de proteção defendidas pela ciência, desdenhando a importância da vacina e de medidas logísticas adequadas para a imunização; acabou por jogar o país no caos pandêmico e suas dramáticas consequências sociais e econômicas.

A troca de ministros da Saúde e, principalmente, os motivos de tais alterações, somado à atitude do mandatário maior da República, desmascaram a face grotesca do negacionismo, do irracionalismo e do total desprezo pela vida humana. Mas, o capital e seu amigo imaginário, o mercado, não ligam para isso. Rodrigo Maia, fiel zelador do pacto, não viu nenhum motivo para impedimento. O Supremo e suas inalcançáveis razões e fundamentos jurídicos, contentou-se com a gaveta profunda para onde enviou os processos em andamento que serviram de munição para o suposto pacto que deveria manter o ensandecido presidente no cercadinho.

O que ocorreu é que o desenvolvimento da pandemia, esperado e previsto pelos especialistas, mudou este cenário. O grande capital começa a traçar cenários menos idílicos para a retomada econômica e a montanha de mortes diárias atinge aquela marca que passa a gerar “preocupações” para os donos da riqueza e do destino da nação. Não se tratava mais de sete ou dez mil, que o desprezível dono da rede de lanchonetes estava disposto a aceitar como um custo aceitável, ou mesmo os cem mil que coexistiam com lucros aceitáveis e perspectivas de retomada que a assustada economista saudava a cada edição do telejornal para desmentir na próxima edição. É interessante o que o capital pode encarar como aceitável, o que há de diferente entre os cem mil e os trezentos mil mortos, além da contabilidade macabra de pessoas enterradas a cada dia?

O capital e seus diferentes setores, refiro-me ao capital monopolista e não a malta de supostos empreendedores descartáveis que se julgam ideologicamente mais do que de fato são para a cadeia produtiva, lucraram muito nesta época tenebrosa. Não me refiro aqui à aparência enganosa dos setores mais visíveis, como as televendas, os serviços de entrega, cursos on-line (todo mundo descobriu que podia tocar piano e era fácil, assim como praticar a marcenaria, pintura em aquarela e aplicar no mercado financeiro), mas se tais setores da distribuição e de serviços cresceram é porque mercadorias seguiam sendo produzidas, bancos continuavam financiando e cobrando dívidas. É inegável o impacto para pequenos comerciantes e outros ramos que certamente sofreram com restrições de seus pequenos e médios negócios, mas houve crescimento de lucros e aumento da riqueza e da concentração de forma significativa. Nesta fase a preocupação com o distanciamento e as medidas de prevenção são seletivas. Fique em casa, lave as mãos, use máscaras, lógico, se você não é um operário, um entregador de aplicativo, uma faxineira, um profissional da saúde ou da segurança pública, por que se for o caso, você tem que sair de sua casa, pegar uma condução lotada e fazer as coisas funcionarem.

Então, nesta faixa de mortandade, algo ali entre os cem e trezentos mil mortos, tudo ia bem. Tal sensação que o capital compartilhava com o negacionista com a faixa presidencial era que um dia a pandemia ia passar e tudo voltaria ao normal, quem morreu, morreu, quem lucrou lucrou. Como sempre, como em todos os anos ditos normais em que a sanha do capital mata milhares de trabalhadores. Em 2019 o número de acidentes de trabalho cresceu 5,45%, passando de 341.700 para 360.320 mil. Entre 2012 e 2019 a cada 49 segundos um trabalhador sofria um acidente de trabalho e a cada uma hora e três minutos um trabalhador morria em decorrência de um acidente.

Sendo assim, por que da mudança de atitude do grande capital e seus serviçais togados ou investidos de mandatos parlamentares? Creio que o fato do negacionismo presidencial passa a produzir uma instabilidade em duas frentes. A total desorganização na logística das vacinas, acentua a gravidade da pandemia e, principalmente, incide sobre a perspectiva de saída da crise sanitária. A dimensão temporal aqui tem uma importância grande. Tanto a população como os agentes econômicos podem suportar catástrofes, desde que exista uma perspectiva de retomada mais adiante. A falha grave na produção, compra e logística de vacinação, torna nebulosa a dimensão temporal e materializa as previsões de colapso. Isso prejudica a almejada retomada da normalidade econômica e gera perigosos riscos de instabilidade política e social.

Vejamos se está claro. Queimar florestas, matar índios, assassinar opositores, entregar imensas áreas urbanas para o controle de milícias, desmantelar universidades e centros de pesquisa, impor cortes orçamentários que sufocam as políticas públicas e sociais até a morte, desmontar a cultura nacional, desemprego em massa, mortes por falta de oxigênio ou UTIs lotadas, sucatear a capacidade produtiva do país e a infraestrutura pública, jogar milhares de famílias de volta à fome e à miserabilidade absoluta, pode ser aceitável, mas colocar em risco a estabilidade que permite continuar a acumulação de capitais é preocupante.

Por esta razão era necessário um ajuste no pacto. Agora deve-se incluir nas normas pactuadas (que não sabemos quais são pois o pacto é secreto) que não basta não atentar contra as instituições visando uma ruptura institucional, mas deve-se penar também no enfrentamento adequado da pandemia e de uma política de vacinação eficiente.

O operador desta linha de ação no parlamento é o chamado centrão. O executivo emplacou o presidente do Senado e da Câmara, mas estes senhores são operadores do pacto e não do presidente. Exigiram e conseguiram a troca do ministro da saúde e agora do chancelar, impuseram uma mudança ministerial e cobraram a fatura no orçamento desfigurado pelas emendas parlamentares e o cala boca ao setor militar em detrimento dos necessários investimentos e recursos para saúde, ciência e tecnologia, educação e outras áreas incômodas para os sanguessugas que nos governam.

Quanto aos militares é cedo para afirmar. É necessário separar o jogo de cena da saída do Ministro da defesa e os chefes das forças armadas em solidariedade ao ministro. O (des)governo Bolsonaro não encontra apoio homogêneo nas forças armadas e sempre apresentou contradições, agora se soma mais esta. Mas a presença militar segue forte e expressiva no governo, isto quer dizer que não creio, como alguns imaginaram esta semana, em rompimento dos militares com o governo. Ficam e continuam validando o pacto do qual são um dos principais protagonistas. O que parece claro é que já buscam alternativas para o futuro e querem se desvencilhar da responsabilidade com um governo que parece estar destinado à lata de lixo (tóxico) da história.

O presidente, desculpem pelo eufemismo, está isolado e na defensiva e foi obrigado a ceder. Ele não está em um pacto por convencimento, mas por força da ameaça de retirá-lo do cargo e sabemos que existem os meios e os motivos para tanto (só Rodrigo Maia não os via). Cedeu na carne, desde a saída de Weintraub até agora com a saída escorraçada de Araújo nas relações exteriores. Nos parece que os pontos de resistência de Bolsonaro são os pontos que são essenciais para ele, as posições que podem proteger seus filhos dos processos que fecham o cerco e que podem levá-los à prisão e a promessa de não apeá-lo do poder via impeachment.

Nestas condições, como fica intenção miliciana de ruptura? Esta não é uma questão fácil de ser respondida. Estamos em uma disjuntiva que pode ser assim respondida. Quanto mais o presidente se vê acuado e perde a gestão efetiva de seu governo, maior é a tentação de golpe e menor as condições de efetivá-lo. Isso quer dizer que a possibilidade de golpe está longe de ser descartada, mas, caso ocorra, assumirá a forma de uma aventura sem base material de sustentação ou consolidação na ordem burguesa. Dito de outra forma, os recursos que o suposto presidente da república em exercício dispunha anteriormente se deterioraram (seja no apoio militar e corpos policiais, seja nas milícias e igrejas S/As, seja na base eleitoral), principalmente, a sua funcionalidade para os interesses da burguesia monopolista, mas o que lhe sobra é suficiente para uma reação desesperada. Isto lhe dá o cacife suficiente para tentar se garantir no cargo e protelar a ofensiva contra sua família criminosa, mas seus sonhos de ser a cópia farsesca de Luís Bonaparte, que foi a farsa de Napoleão, parecem distantes.

Suas esperanças migram para 2022 e a esperança que o desgaste de sua imagem e o abandono de sua serventia para o capital não seja capaz de corroer seu potencial eleitoral para novamente ser a alternativa que resta à direita sem alternativas.

Documentos revelam papel ativo do Brasil na queda de Allende

O Brasil se empenhou ativamente para derrubar o presidente chileno Salvador Allende (1970-1973) e elevar o ditador Augusto Pinochet, segundo documentos de inteligência divulgados pelo National Security Archive dos Estados Unidos nesta quarta-feira.

Por ocasião do 57º aniversário do golpe militar no Brasil, a organização, fundada por acadêmicos e jornalistas investigativos e sediada em Washington, publicou em seu site 12 arquivos antes secretos, que mostram "o esforço do regime brasileiro para subverter a democracia e apoiar a ditadura no Chile".

Presos no Estádio Nacional, em Santiago, a prisão do golpe de Pinochet

Entre esses textos está um telegrama enviado em março de 1971 pelo então embaixador do Chile no Brasil, Raúl Rettig, ao Ministério das Relações Exteriores do seu país, com o alarmante título: "Forças Armadas brasileiras possivelmente realizando estudos sobre guerrilheiros sendo introduzidos no Chile".

Várias fontes haviam informado a delegação diplomática que o regime militar brasileiro estaria avaliando como instigar uma insurreição para derrubar o governo de Allende. Segundo o telegrama, classificado na época como "estritamente confidencial", também foi revelada a existência de uma sala de operações no Brasil com mapas da Cordilheira dos Andes, para planejar como se infiltrar.

Em sua mensagem, Rettig prossegue: "As Forças Armadas brasileiras aparentemente enviaram ao Chile vários agentes secretos, que teriam entrado no país como turistas, com a intenção de obter mais informações sobre as possíveis regiões em que um movimento guerrilheiro poderia operar."

O embaixador ressalta que ainda não havia uma data para o início desse "movimento armado". Entretanto os diplomatas chilenos no Brasil estavam sob vigilância, e um deles escutara de um colega brasileiro que a República Andina era agora vista como "mais um país atrás da Cortina de Ferro".

O centro americano também cita o livro "O Brasil contra a democracia: A ditadura, ou golpe no Chile e a Guerra Fria na América do Sul", do jornalista investigativo Roberto Simon, recém-publicado pela editora Companhia das Letras.

A obra reúne arquivos do Brasil, Chile e Estados Unidos, expondo o papel do regime militar brasileiro no golpe de 11 de setembro de 1973, que permitiu ao general Pinochet chegar ao poder, assim como a contribuição do país na repressão no Chile.

Simon destaca que "o Brasil deu apoio direto a um modelo para a ditadura de Pinochet", e que a imagem do regime militar de Brasília como "marionete de Washington" é "um mito, relegando o país a um mero papel subsidiário na região". Na verdade "a ditadura brasileira tinha suas próprias motivações estratégicas, ideológicas, econômicas e de outro tipo para intervir no Chile".

O jornalista brasileiro destaca que os militares do país estabeleceram canais de comunicação com os chilenos opositores de Allende, e que agentes enviados por Brasília tinham vínculos com o grupo paramilitar chileno de extrema direita Patria y Libertad.

Um memorando contido no livro retrata o encontro de dezembro de 1971 entre os presidentes Richard Nixon e general Emílio Garrastazu Médici, na Casa Branca, em que os dois comentam os esforços para derrubar Allende.

O então líder da ditadura brasileira achava que o mandatário chileno deveria ser deposto "pelos mesmos motivos que [João] Goulart [presidente de 1961 a 1964] foi deposto no Brasil", e deixa claro que seu país se empenhava nesse sentido. A derrubada do governo Goulart, nos primeiros dias de abril de 1964, selou o início da ditadura militar que vigorou no país até 1985.

Por sua vez, o mandatário americano frisou a importância de os dois países trabalharem juntos "nesse âmbito" e ofereceu "ajuda discreta" às operações brasileiras contra o governo Allende.

Entre os documentos divulgados, está ainda um relatório da CIA sobre reuniões entre oficiais militares brasileiros, em que um deles diz crer que "os EUA obviamente querem que o Brasil 'faça o trabalho sujo' na América do Sul".

Bolsonaro finge recuar com militares, mas já cravou sua estaca no terreno

O fato de o presidente Bolsonaro ter respeitado a lista de antiguidade para nomear os novos chefes militares pareceu um recuo. Mas é mais um movimento estratégico. Ele sempre faz isso: ataca uma instituição da República, depois finge recuar. O país pensa que ele passará a ficar moderado, mas ele jamais se moderou.

A nomeação de um general que defende medidas de isolamento e recomendações da OMS, como o general Paulo Sérgio Nogueira, é um bom sinal. Mas insuficiente. Primeiro porque para a Força Aérea ele nomeou um comandante que ecoa a milícia digital bolsonarista em suas postagens, o tenente brigadeiro Carlos Almeida Batista Jr. E o que ele quer é isso: transformar os comandantes militares à imagem de Villas Boas, autor do tuíte de ameaça ao STF. E era isso que o general Edson Pujol não aceitava ser, um agitador de rede social.

Aqui no blog contamos as postagens do brigadeiro. Inaceitáveis para um chefe militar. Hoje já bajulou Bolsonaro chamando-o de “comandante supremo”. Era isso que Bolsonaro pedia, ao dizer que queria de Pujol “demonstração de apreço ao seu governo”.


Segundo, ficou demonstrado que ele pode demitir por motivo fútil, e sem qualquer explicação ao país, os três chefes militares, sem que nada aconteça. É claro que ele tem a prerrogativa de fazer isso. Mas não para intimidar as instituições, não para impor seu mandonismo, apenas quando houver razões para isso. Fez o ato de forma truculenta, e ficou por isso mesmo. O país se contentou com o fato de que informações de bastidores mostram que os demitidos reagiram em reunião tensa.

Por fim, muita gente elogiou o fato de Braga Netto ter falado em defesa da democracia na apresentação dos três chefes. Mas Braga Netto falou também que as Forças Armadas garantem as liberdades democráticas. Quem garante, general, é a Constituição. No mesmo dia de ontem, triste 31 de março, o mesmo Braga Netto dizia que o país tinha que “celebrar” a ditadura, que ele em raciocínio tortuoso chama de “movimento” e diz que foi feito para garantir a democracia. É dessa democracia que ele está falando. A que as Forças Armadas controlam.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Bolsonaro: Mau militar, bom miliciano

O capitão Jair Bolsonaro deixou o Exército depois de ser absolvido em um tribunal militar, mas nem por isso evitou a porta dos fundos. É um episódio revelador. Nos anos 80, foi acusado de planejar a explosão de bombas em quartéis, na Academia Militar das Agulhas Negras e na adutora do Guandu, responsável pelo abastecimento de água no Rio de Janeiro. Mesmo com depoimentos e laudos demonstrando sua participação no caso, foi liberado pelo Superior Tribunal Militar. Assim, pôde construir uma carreira política como porta-voz dos interesses das baixas patentes.

Em sua lida no Congresso, o deputado-capitão se fez acompanhar por figuras como o ex-policial militar e faz-tudo Fabrício Queiroz. Durante anos, rendeu homenagens a — e empregou nos gabinetes da família Bolsonaro — parentes de PMs acusados de envolvimento com as milícias do Rio de Janeiro, entre os quais o agora famoso matador de aluguel Adriano da Nóbrega. Milícias, nunca é demais lembrar, são grupos de policiais que se desviam de sua função para cometer crimes e impor suas próprias leis à margem do Estado.

Nada disso era segredo para o generalato. Já nos anos 90, Ernesto Geisel classificou Bolsonaro como um mau militar, alguém “completamente fora do normal” para a carreira. O ex-presidente e general dizia acreditar que, à medida que o país se desenvolvesse, a interferência do Exército na política diminuiria.


Geisel não viveu para ver o engajamento dos militares na campanha de Bolsonaro. Ao subir a rampa do Planalto, o capitão tinha a seu lado o general Hamilton Mourão e outros sete fardados, em ministérios normalmente ocupados por civis. Desde então, dezenas de militares da ativa e da reserva foram nomeados para o segundo escalão, e mais de 2.500 aceitaram cargos na administração pública.

Enquanto buscava cooptar a nata da instituição militar, Bolsonaro governava para as baixas patentes e para as milícias. Nos últimos dois anos, tentou fazer passar no Congresso leis que facilitam a posse de armas e ampliam as situações em que um policial pode matar sem ser punido. Nada disso incomodou as Forças Armadas. Para os militares, milícias e segurança pública são um não assunto, coisa menor, de polícia, e não de Exército.

Os militares se consideravam contemplados pelos cargos e pela defesa que o presidente sempre fez de sua atuação no período da ditadura. Havia alinhamento, também, em pontos doutrinários considerados cruciais, como o conservadorismo nos costumes e a soberania do Brasil sobre a Amazônia. Quando cobrados por alguma barbaridade professada pelo capitão, os generais diziam, à miúda, que eram apenas bravatas sem consequência. E se empenhavam em explicar que quem se envolvia na política eram as pessoas, nunca a instituição.

Ou os generais tinham perdido a capacidade de análise, ou preferiram acreditar no que mais lhes convinha. Mais de uma vez, o capitão demonstrou não só com palavras, mas com gestos, julgar que o Exército lhe devia respaldo para além de suas funções constitucionais. Desde o início da pandemia, toda vez que se viu em apuros, Bolsonaro ameaçou com uma revolta dos fardados.

O roteiro se repetiu nesta semana. Ao mesmo tempo que o capitão demitia toda a cúpula da Defesa, seus acólitos tentavam emplacar uma narrativa falsa para inflamar as polícias estaduais. A morte de um PM de Salvador, depois de atirar contra colegas num surto psicótico, foi travestida, nas redes bolsonaristas, de ato heroico de revolta contra o distanciamento social. Derrotado nessa questão no Supremo Tribunal Federal, Bolsonaro apelou ao Congresso que lhe desse poderes para interferir nos governos estaduais. Perdeu de novo.

O último capítulo da crise mostra que, por superestimar também sua ascendência sobre as Forças Armadas, o presidente deu a elas a chance de confrontá-lo. Não é um detalhe que, antes de ser demitidos, os comandantes tenham deixado vir a público a intenção de entregar os cargos em protesto contra a mão pesada de Bolsonaro. Além disso, o Alto-Comando do Exército conseguiu alçar à chefia o general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira — que implantou regras de distanciamento social no Exército e foi apontado como um dos pivôs da irritação de Bolsonaro com o ex-ministro da Defesa.

Para os códigos da caserna, foram reações enfáticas. Mas estão longe de ser atos de heroísmo. A história mostra que, por mais que não queiram admitir, os militares são sócios da obra bolsonarista. Sob o pretexto de não atuar na política, silenciaram diante da falta de compostura institucional, das mortes e do desgoverno criado por Jair Bolsonaro. Se reagiram agora, é porque até mesmo seus largos limites foram ultrapassados. Antes assim.

Quem sabe os militares passem a cortar na raiz as bravatas golpistas, ajudando a fortalecer a democracia. E o vaticínio de Geisel ao final acabe se cumprindo, ainda que por linhas tortas.

Brasil virou furacão

 


Bolsonaro despertou no brasileiro o que ele tem de pior

A verdade é que a popularidade do presidente Jair Bolsonaro já deveria ter desmoronado há muito tempo, mas ainda resiste como atestam as pesquisas. O que explica isso? Arrisco um palpite: ele despertou o que existe de pior em cada um de nós. E milhões de brasileiros deixaram transbordar o que antes escondiam.

O desprezo pela vida alheia, por exemplo. Desde que eu sobreviva à pandemia, pouco me importa quantos morram. Como disse Bolsonaro: morrerão os que tiverem de morrer, principalmente os mais fracos, doentes, incapazes de resistir a uma mera gripezinha que em dezembro, como ele previu, estava no finalzinho.

A ambição dos que tentam extrair vantagens de tudo é outro exemplo. Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara, patrocina a aprovação de um projeto para que empresários possam comprar vacinas, se imunizarem e imunizarem seus empregados, despesas que seriam abatidas do Imposto de Renda.

A justificativa de Lira, um deputado a serviço de quem lhes paga as contas: se está difícil para o Ministério da Saúde vacinar todo mundo, que a iniciativa privada o faça. Um funcionário de fábrica vacinado graças ao seu patrão, afirmou Lira, será uma pessoa a menos a ser vacinada pelo poder público.

Em parte alguma do mundo isso acontece. A Rainha da Inglaterra só foi vacinada quando chegou a sua vez. De resto, a escassez de vacinas é geral. Só os governos responsáveis foram capazes de se antecipar ao aumento da demanda comprando vacinas para além do necessário. Não foi o caso do governo do ex-capitão.


Outro exemplo: a indisposição de uma sociedade por excelência individualista em obedecer ordens baixadas em nome do bem comum. É por isso que tantos dão razão a Bolsonaro quando ele diz que as pessoas devem fazer o que quiserem, ir aonde quiserem, mesmo que se contaminem e contaminem os próximos.

É por esses motivos, e também porque o presidente acredita que procedendo assim garante as chances de se reeleger no ano que vem, que o Brasil bate recordes de mortes pela Covid. Março, que terminou ontem, foi o pior mês de toda a pandemia, superando julho do ano passado que detinha o título macabro.

Mesmo assim, sentiremos saudades de março a confirmarem-se as previsões de que este mês de abril para os brasileiros será o pior das nossas vidas até aqui. Isso não impede que o presidente da República e os que compartilham suas ideias sigam indiferentes à tragédia que ainda não ganhou seus contornos definitivos.

O comitê recém-criado para coordenar as ações do governo federal no combate ao vírus revela-se inócuo. Do que adianta o ministro da Saúde defender tardias e limitadas medidas de isolamento se na mesma hora, em outro evento oficial, Bolsonaro prega o contrário, recomendando a todas as pessoas que circulem à vontade?

O procurador-geral da República, Augusto Aras, pediu ao Supremo Tribunal Federal que suspenda decretos municipais e estaduais que proíbem a realização de cultos, missas e outras atividades religiosas de caráter coletivo. Alegou que a assistência espiritual é essencial para muitas pessoas enfrentarem a pandemia.

Essencial é que fiquem em casa todos que puderem ficar. E que mesmo em casa, não façam reuniões familiares. No Distrito Federal, hospitais não têm como acomodar os corpos de vítimas da Covid, e cemitérios distribuem senhas entre famílias que desejam enterrar seus mortos dada à falta de covas em número suficiente.

O Ministério da Saúde reduziu quase à metade o número de doses de vacinas que estariam disponíveis em abril. O neurocientista Miguel Nicolelis, professor da universidade Duke, nos EUA, adverte no jornal El País: “Estamos a poucas semanas de um ponto de não retorno da crise do coronavírus no Brasil”.

O que isso pode significar, de acordo com ele: mais de 4.000 e até 5.000 mortes diárias e um total de 500.000 vítimas em julho. O que mais o preocupa é a possibilidade de um colapso funerário. Se isso ocorrer, “veremos corpos abandonados pelas ruas em espaços abertos e o uso de valas comuns para enterros coletivos”.

Se você não acredita nisso, acha um exagero, ou pensa que nada o afetará, esteja certo: você é um bolsonarista enrustido e não sabe.

Bolsonaro e a escada do caos

Jair Bolsonaro se alimenta do caos. Ele precisa da confrontação, da provocação e da contradição. O conflito constante é seu motor. Já era assim durante o tempo dele como militar de baixo escalão, quando planejou detonar uma bomba na lavanderia de uma caserna para obter um soldo mais alto.

A coisa continuou quando, no começo dos anos 90, ele se tornou o deputado cuja marca registrada era insultar outros cidadãos, sobretudo da esquerda ou de minorias, desejar-lhes morte, violência e tortura. Repetidamente em sua carreira, Bolsonaro defendeu a ditadura militar brasileira e, sem inibições, expressou fantasias totalitárias.

Como presidente, aperfeiçoou o método da quebra de tabu. Desde a posse, em janeiro de 2019, ele e seus filhos, assim como um círculo de deputados, assessores e propagandistas fiéis, bombardeiam o país semanalmente com novos descalabros, mentiras, provocações e ameaças. Elas não são a exceção, mas sim a regra.

Esse método serve para criar uma sensação constante de estado de exceção. "O caos é uma escada", diz Petyr Baelish, o sinistro conselheiro dos poderosos da série Game of Thrones. Esse é o princípio do bolsonarismo: na escada do caos agitado por ele próprio, ele quer subir cada vez mais e ampliar seu poder.

É por essa ótica que se deve ver a renúncia forçada dos três chefes das Forças Armadas brasileiras. Como tantas vezes nos últimos anos, diversos observadores, sobretudo correspondentes estrangeiros, falam de "caos no Brasil" e perguntam como interpretar a coisa toda. Alguns já anunciam o breve fim da presidência Bolsonaro, tendo perdido o apoio dos militares.

A leitura mais costumeira afirma: generais corajosos se opuseram a Bolsonaro para protestar contra sua tentativa de instrumentalizar as Forças Armadas para seus fins políticos. Ele teria pretendido empregar o Exército contra os lockdowns antipandemia decretados pelos governadores, além de ter contado com mais cobertura na eterna luta com o Supremo Tribunal Federal, que barra alguns de seus intentos mais radicais.

Com a tomada de posição conjunta, os líderes do Exército, Marinha e Aeronáutica teriam agora demonstrado que as Forças Armadas não são um instrumento bolsonarista, mas sim do Estado, e que estão firmemente plantados no solo da Constituição democrática. Até mesmo a esquerda brasileira exultou diante dessa suposta sensatez dos generais.


Na verdade, por trás dos acontecimentos se oculta a lógica interna do bolsonarismo, a do agravamento constante da crise. Em meio à pior fase da pandemia – uma média de cerca de 3 mil brasileiros morre a cada dia de covid-19 – Bolsonaro invoca um conflito com os máximos escalões militares, por supostamente não serem suficientemente fiéis ao regime.

Não é uma ruptura com os militares, em si, mas sim com os velhos senhores do Supremo Comando. Ao mesmo tempo, é um sinal para que os escalões mais jovens, mais baixos e também mais politicamente radicais, se atrelem mais firme ao presidente. "Esta é a tua chance", é a mensagem aos oficiais cujo entusiasmo por Bolsonaro era, desde o início, maior do que o dos generais, para quem o capitão da reserva era antes um bizarro estranho no ninho.

O cancelamento dos três chefes de armas aponta, ao mesmo tempo, para uma radicalização ainda maior do bolsonarismo. Para ele, já não basta mais procurar seus inimigos do lado de fora, ou seja, na esquerda. Agora é excluído quem não seja suficientemente bolsonarista.

Já foi assim com diversos ex-ministros, sendo os exemplos mais notórios os ex-chefes de pasta da Justiça Sérgio Moro e da Saúde Henrique Mandetta. Hoje, eles são vistos no movimento bolsonarista como traidores e infiltrados pela esquerda.

A ação de faxina continua agora com os veteranos militares. Quem expresse crítica ou hesitação é isolado e condenado como herege pelos tribunais bolsonaristas nas redes sociais. Desse modo, o bolsonarismo se encurrala cada vez mais – o que não é o prenúnco de nada de bom: o movimento deve se tornar mais paranoico, mais incalculável e mais perigoso.

Do outro lado dos turbulentos acontecimentos da semana corrente, estão os militares, que são saudados de todos os lados com atestados de responsabilidade político-estatal, mesmo por parte das forças esquerdistas e moderadas. Mas a verdade é que as Forças Armadas até hoje fomentam o circo bolsonarista.

Segundo o Tribunal de Contas, mais de 6 mil militares têm cargos no governo – mais da metade do que sob o presidente Michel Temer, que começou com a nomeação em massa dos uniformizados. Outra estimativa chega a 342 militares nos postos mais altos e mais bem pagos da já gigantesca maquinaria governamental de Brasília.

Eles estão por toda parte, do palácio presidencial aos órgãos ambientais, passando pelo Ministério da Saúde, e comandam quase um terço das firmas estatais. Não é sem motivo que observadores comparam o quadro ao da Cuba ou da Venezuela, onde numerosas empresas estão nas mãos dos militares.

Por isso não se pode falar de um racha entre as Forças Armadas e Bolsonaro. Nos pontos políticos fundamentais, reina consenso: a interpretação da ditadura militar como revolução necessária para deter o comunismo; o total rechaço de um processamento judicial da ditadura; o prosseguimento da ocupação e exploração da Amazônia, também das reservas indígenas; e, claro, a entrega dos cargos lucrativos aos homens de uniforme.

Portanto a explicação das renúncias dos chefes militares é menos uma questão de diferenças de opinião fundamentais do que de considerações táticas. Os militares procuram se distanciar da catastrófica política de Bolsonaro na crise do coronavírus.

Até alguns dias atrás, essa política ainda era codefinida pelo general Eduardo Pazuello, enquanto ministro da Saúde. Agora os generais parecem ter notado que, em algum momento, poderão ser responsabilizados pelos cerca de 3 mil brasileiros mortos diariamente.

Sobretudo os conservadores queriam ver, até agora, os militares como força equilibradora no governo Bolsonaro. Ao contrário dos ideólogos (malucos) encabeçados pela ministra da Família Damares Alves, e do ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo (agora afastado), os uniformizados teriam um efeito moderador e procurariam soluções pragmáticas.

Essa lenda não é mais sustentável desde a pandemia de covid-19. O Brasil está diante de uma catástrofe do sistema de saúde pela qual é o próprio culpado. As Forças Armadas aparentemente agora querem fazer de conta que não têm qualquer responsabilidade por isso. Para Bolsonaro, a confusão resultante é a chance de ocupar com seus acólitos cargos importantes no aparato militar.

O caos é uma escada. Por ela se sobe, até que se despenca. A escada de Bolsonaro balança, mas ele ainda continua subindo.

Corretor da matança


Essa política de isolamento, toque de recolher, supressão do direito de ir e vir extrapola em muito até mesmo um Estado de Sítio. Apelo a todas as autoridades do país que revejam essa política e permitam que o povo vá trabalhar
Jair Bolsonaro

Bolsonaro entre seus fantasmas

O país passou o dia 31 de março cercado de fantasmas do passado, que o presidente convocou e aos quais vive agarrado. Assombrou a democracia com uma crise militar plantada num dia emblemático, quando todos viviam um momento dilacerante da pandemia. O Brasil não sabe mais onde enterrar seus mortos, o ministro da Saúde pede para se “racionar” o oxigênio, hospitais fecham emergências por incapacidade de atendimento e Jair Bolsonaro nos atormenta.

Foi patética a apresentação dos novos comandantes. Toda a cena — na verdade, todo o episódio — lembrava os piores momentos da ditadura. O país não foi informado sobre o que levou o presidente a demitir o ministro da Defesa e os três comandantes das Forças. A democracia exige transparência dos atos do setor público. O general Braga Netto fez um discurso em cadência castrense, curto e ambíguo. Os três se perfilaram como na frente de um pelotão e saíram sem dar palavras. Toda a cerimônia durou 2 minutos e 30 segundos. Isso depois de uma Ordem do Dia cheia de mentiras sobre os fatos históricos.


O que Bolsonaro quis com tudo isso? Ele criou esse estridente ruído no 31 de março, data que venera, deliberadamente. Os militares da ativa garantem aos seus interlocutores que as Forças Armadas continuarão evitando a politização nos quartéis. Mas, para Bolsonaro, não importa o que é, e sim o que parece ser. Ele quis dar a impressão de que pode fazer o que quiser com o “seu” Exército, “suas” Forças Armadas. Ele quer que acreditem que elas estão alinhadas a ele.

Bolsonaro é comandante em chefe das Forças Armadas, como foram Dilma Rousseff, Lula, Fernando Henrique e Michel Temer. Como me disse um general esta semana, “prestamos as homenagens ao cargo, mas é absurdo pensar em alinhamento ao governo em si”. Bolsonaro quer mostrar que está tudo controlado, porque isso deixa a sua turba exultante, e os adversários, acuados. Os extremistas que o seguem, como lobotomizados, tinham sofrido um revés. A demissão de Ernesto Araújo foi imposta a Bolsonaro pelo Senado. Para não parecer derrotado, ele criou uma crise militar.

O alvo dele era o general Edson Pujol. Ele queria uma vassalagem digital que Pujol não quis dar, mas que o Brigadeiro Batista Jr., o novo comandante da Aeronáutica, já oferece. Ativo na rede social, o brigadeiro tem postagens identificadas com os bolsonaristas. Havia um outro problema com Pujol. A inveja de Bolsonaro. Segundo explicação de quem está bem perto do presidente: “É briga antiga. Pujol é um destaque inconteste pois além de excelente aluno realizou todos os cursos operacionais. Alia o físico ao intelecto.” Bolsonaro fracassou na carreira militar, como se sabe. E fracassa como presidente porque, na explicação de um general que conviveu com ele, falta ao presidente qualquer “noção institucional”. Bolsonaro não entendeu a função de cada instituição ou cada órgão de governo.

Os brasileiros estão morrendo aos milhares. Ontem foram 3.950, novo recorde diário. Somos, há vários dias, o país onde mais se morre por Covid-19. A pandemia está fora de controle. O Brasil vive dor excruciante. A culpa maior é de Bolsonaro. Essa última crise, artificial e desnecessária, foi criada por ele no momento em que o país virou uma aberração diante do mundo. Trocar comandantes das Forças Armadas no meio de uma pandemia é o retrato de um país caótico. E ele insiste. Ontem, logo depois da primeira reunião do comitê de coordenação para o enfrentamento da Covid, o presidente apareceu dizendo que era preciso mandar “o povo trabalhar”.

No discurso, Braga Netto disse que o dia era histórico. Segundo o ministro, as “Forças Armadas não faltaram no passado e não faltarão agora” e vão garantir “os poderes constitucionais e as liberdades democráticas”. Na Ordem do Dia, Braga Netto havia defendido “celebrar” o “movimento de 64”, que teria garantido “as liberdades democráticas que hoje desfrutamos”. Isso é mentira. Várias mentiras numa ordem só. A verdade: foi um golpe que gerou 21 anos de ditadura e a liberdade de hoje é resultado da luta contra aquele regime. A garantia dessa liberdade vem, claro, da Constituição, à qual as Forças Armadas estão submetidas. Em que democracia do mundo se permite que o governo mande celebrar um golpe militar? Quanta infâmia o país ainda vai tolerar?

Tudo isto aconteceu

(...) Tenho poucas provas directas de atrocidades cometidas na Guerra Civil espanhola. Sei que algumas foram da responsabilidade dos republicanos, e muitas mais (que ainda prosseguem) forma cometidas pelos fascistas. Mas o que me impressionou então, e impressiona ainda, é que se dê ou não crédito a atrocidades unicamente em função de simpatias políticas. Toda a gente acredita nas atrocidades do bando inimigo e recusa acreditar nas atribuídas ao seu, sem se dar ao trabalho de examinar os indícios. Recentemente , uma tabela de atrocidades cometidas entre 1918 e o presente; não houve um único ano em que não se tivessem cometido atrocidades em qualquer lugar do mundo, e dificilmente se encontra um caso em que a esquerda e a direita tivessem dado crédito simultaneamente aos mesmos relatos. Mais estranho ainda é que a qualquer momento a situação pode inverter-se rapidamente e a atrocidade que ontem era dada como absolutamente provada pode hoje ser tida como uma mentira ridícula, simplesmente porque a paisagem política se alterou.


Na guerra actual , encontramo-nos na curiosa situação de a nossa campanha de propaganda por meio de difusão de atrocidades ter sido largamente efectuada antes do início da guerra e sobretudo pelos esquerdistas , que normalmente se orgulham da sua incredulidade. Durante o mesmo período, a direita responsável pelas atrocidades de 1914-18, olhava para a Alemanha nazi e recusava-se terminantemente a ver no país qualquer mal. Depois, assim que rebentou a guerra, foram os pró-nazis de ontem quem começou a repetir histórias de horror, enquanto os antinazis se puseram de súbito a questionar se a Gestapo existia realmente. Esta atitude não se devia apenas ao Pacto Germano-Soviético. Devia-se em parte ao facto de até 1939 os esquerdistas terem acreditado, erradamente, que a Grã- Bretanha e a Alemanha jamais entrariam em guerra, o que lhes permitia serem simultaneamente antibritânicos e antigermânicos; e em parte à propaganda de guerra oficial, cuja chocante hipocrisia e pretensão se superioridade moral tendem a levar a classe pensante a identificar-se com o inimigo. Parte do preço que pagámos pelas sistemáticas mentiras de 1914-18 foi a exagerada reacção germanófila que se seguiu. Entre 1918 e 1933, nos círculos de esquerda , éramos vaiados se sugeríssemos que a Alemanha tivera alguma responsabilidade pelo deflagrar da guerra. Em todas as denúncias do Tratado de Versalhes que ouvi durante esses anos, penso que nem por uma vez ouvi perguntar, e muito menos discutir a questão: " O que teria acontecido se tivesse sido a Alemanha a ganhar ?" O mesmo sucede com as atrocidades. A verdade, sente-se, torna-se mentira quando é o nosso inimigo a pronunciá-la. Recentemente, reparei que as mesmas pessoas que engolem todo e qualquer relato de horror a respeito de japoneses em Nanquim em 1937, recusam dar crédito a relatos similares a respeito de Hong Kong em1942. Havia até uma certa tendência a acreditar que as atrocidades de Nanquim se haviam tornado , por assim dizer , retrospectivamente falsas pelo facto de o governo britânico ter chamado agora a tenção para elas.

Mas infelizmente a verdade sobre atrocidades é muito pior do que o facto de serem objecto de mentiras e transformadas em propaganda. A verdade é que elas acontecem. O facto que amiúde se invoca como motivo de cepticismo -o de que os mesmíssimos relatos de horror tendem a reaparecer em todas as guerras - apenas torna mais provável que esses relatos sejam verdadeiros. Claramente, trata-se de fantasias muito comuns, e a guerra fornece o ensejo de as pôr em prática. Além disso, e apesar de já não estar na moda dizê-lo , não há grandes dúvidas de que aquilo a que podemos chamar , grosso modo, os " brancos" cometem muitas e mais graves atrocidades do que os "vermelhos". Não existe a menor dúvida , por exemplo, a respeito do comportamento dos japoneses na China. Tal como não há a menor dúvida a respeito da longa lista de selvajarias fascistas cometidas na Europa durante os últimos dez anos . O volume de testemunhos é enorme e uma respeitável proporção deles provém da imprensa e rádio alemãs. Estas coisas aconteceram realmente e é isso que temos de ter em mente. Aconteceram, apesar de Lord Halifax ter dito que aconteceram. As violações e morticínios nas cidades chinesas, as torturas nas caves da Gestapo, os professores idosos judeus atirados para fossas, o metralhamento de refugiados nas estradas espanholas - tudo isto aconteceu, e não é menos real pelo facto de o Daily Telegraph o ter descoberto de repente, com cinco anos de atraso.
George Orwell, "Ensaios Escolhidos"

quarta-feira, 31 de março de 2021

Pensamento do Dia

 


O triste papel dos generais que se renderam ao ex-capitão

Encantaram-se pelo quê os generais que servem ao presidente Jair Bolsonaro? O único que tem direito a responder que recebeu uma missão e que se sentiu obrigado a cumpri-la é Eduardo Pazuello, general da ativa, que trocou o quartel pelo Ministério da Saúde, e se deu mal. Os demais, da reserva, servem por decisão própria.

Não vale a desculpa de que aceitaram o convite porque assim prestam mais um serviço à pátria. Palavras vazias, frase feita, clichê ordinário. Uns servem porque eram amigos de Bolsonaro e se deixaram seduzir por ele. Outros, para ganhar mais dinheiro, status, apartamento de graça, despesas pagas e outras sinecuras.

Ah, a vaidade! Ah, o vil metal que compra tudo. A princípio, é do jogo. C’est la vie. O mal está na subserviência com que eles se comportam. De homens formados nas melhores academias das Forças Armadas, esperava-se que soubessem até que ponto ir, em respeito à farda e ao passado do qual se orgulham.

Normal, definitivamente não foi o presidente da República, em meio de mandato, promover uma reforma ministerial, essa, sim, algo normal, e aproveitar para demitir em conversa de 5 minutos o ministro da Defesa, e, no dia seguinte, mandar demitir sem explicação os comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica.


O que o ministro e os três comandantes tinham a ver com os problemas de falta de sustentação política que tanto fragilizam o presidente? Com as apostas erradas feitas por ele desde que tomou posse – desprezo pelo meio ambiente, política externa equivocada, excesso de radicalismo, passe livre para que o vírus mate?

As atribuições das Forças Armadas estão definidas na Constituição. A elas não cabe interferir no dia a dia do governo, salvo em momentos excepcionais como uma pandemia. No caso, por exemplo, o que elas fizeram e estão fazendo comprova sua eficiência e a capacidade de planejamento dos seus comandantes.

Enquanto os civis à frente do governo, incitados pelo presidente da República, tomaram partido do vírus porque adversários políticos resolveram combatê-lo, os militares cumpriram à risca todas as recomendações da Organização Mundial da Saúde. É um case de sucesso. A mortalidade entre eles é muito menor.

O general Edson Leal Pujol, o comandante do Exército ontem demitido, começou a cair em desgraça aos olhos de Bolsonaro justamente por tê-lo cumprimentado uma vez encostando seu cotovelo no dele, gesto prescrito por autoridades médicas. Bolsonaro jamais o perdoou por isso, mas não o demitiu por isso.

Bolsonaro quer um ministro da Defesa e comandantes das três Armas alinhados com seus objetivos políticos, e dóceis às suas ordens – para o quê, sabe-se. No mínimo, para que o ajudem a se reeleger de qualquer modo, por cima de pau e pedra, se necessário. No limite, para implantar um regime autoritário no país.

Os generais Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Braga Neto, da Defesa, Luiz Eduardo Ramos, da Casa Civil, estão carecas de saber disso. São homens experientes e relativamente cultos. Não se deixariam enganar. Se não abrem mão dos seus postos é porque concordam com o chefe.

Heleno parece ter mergulhado há meses, ou para sobreviver, ou por discordar de umas tantas coisas que testemunha. Ramos, depois de operar a rendição de Bolsonaro ao Centrão, foi deslocado a contragosto para a Casa Civil. Lá, o trabalho é duro e chato. Braga Neto aceitou a tarefa de decepar a cabeça de velhos colegas.

O ex-comandante do Exército, o general Eduardo Villas Bôas, deve estar pasmo com a pusilanimidade dessa turma que já foi a sua. Como ela se presta a tal papel? Como não reage à agressão sofrida pela instituição que diz tanto prezar? Por que se humilha diante de um ex-capitão rejeitado pelo Exército por conduta antiética?

Ao fim e ao cabo, o ex-capitão, presidente acidental, voltará à sua insignificância de onde não deveria ter saído. Não passará de uma trágica lembrança. Duro será suportá-lo pelos próximos 550 dias, caso seja derrotado no primeiro turno da eleição de 2022. Ou 578, se a agonia se estender até o segundo turno.

Bomba presidencial

O Congresso precisa entender que o atual presidente é uma ameaça à vida dos brasileiros, como se constata pela sua atuação na pandemia, e também à da própria democracia, como ilustra o episódio da saída de Fernando Azevedo e Silva do Ministério da Defesa
Mario Sabino 

O precisar do precisando

O Brasil precisa de precisar precisando. Precisando cada vez mais porque, sem o precisando preciso e precioso, não se pode continuar precisando tanto do precisar que conforma o centro do precisar precisando.

As “elite” molecas, aristocráticas, paranoico-legalistas e negacionistas que tanto precisam deveriam substituir o paradoxal e comteano “Ordem e Progresso” por um “É preciso precisar”.

E é precisando do precisar que vamos continuar a fazer história, pois o que é a história, senão um precisar do precisando de que tanto precisamos?

Esse viés vem de um sistema relacional em que uma das questões fatais é “o que você quer?”. Essa pergunta inocente é sugestiva de favores, obséquios e empenhos. Ela é adequada à sociedade hierarquizada, que nos obriga a saber quem somos.

Uma ponte entre uma afinada gradação fidalga e uma chocante igualdade cidadã veio com o republicanismo repressor de séculos de escravidão africana e nobreza branca e mestiça. Uma mestiçagem que não cabia na homogeneidade do arianismo europeu que os sub-sociólogos nacionais levaram mais a sério do que seus mestres estrangeiros.

O Brasil foi condenado pela mistura. Hoje, com o Black Lives Matter, surgem dúvidas. Você prefere segregação e violência ou mistura?

Do que você precisa? Espera-se essa pergunta-oferenda quando um amigo “vira” ministro ou um pai é eleito presidente. Ela revela como os deveres públicos se curvam diante do poder das obrigações pouco estudadas do filhotismo. Os pensadores brasileiros jamais entenderam o peso desses costumes visto por um “reacionário” Gilberto Freyre.

Quando os laços de afeto não são levados a sério, eles voltam como vergonhas quando — por erros processuais — se anulam crimes de inegável responsabilidade política, num supremo carnaval jurídico. O legalismo furiosamente praticado é a lepra do nosso sistema de poder porque, como o coronavírus, ele é de direita e de esquerda...

É preciso acabar com a fraternidade no Brasil? Tal argumento é tão absurdo quanto não levar a sério as exigências democráticas dos cargos públicos, cuja eficácia jaz na separação entre o pessoal e o impessoal. Max Weber distinguiu no protestantismo uma ética individualista em que o crente fala diretamente com Deus. Esse Deus sem Santa Igreja, sacerdócio, confissão e purgatório como recurso e prescrição. Não foi o caso do Brasil, onde há um protestantismo fetichista.

Corrupção é o conflito entre as obrigações universais dos papéis públicos e as expectativas dos laços de família. Não é por acaso que a Justiça seja a primeira esfera a ser agredida quando ela impede a proteção dos filhos ou dos companheiros.

No Brasil, os presidentes não inauguram. Eles tomam posse para, messianicamente, acabar com a roubalheira ou com a incompetência, como se todo mal só estivesse no governo, e a sociedade fosse inocente. Tal concepção divide governantes e cidadãos, criando estadomania e estadolatria — esses criadores de estadopatia. O resultado é que elegemos, com perdão do trocadilho, presidentes-messias que iriam tudo mudar, mas que (com uma ou duas vênias) repetem em escala escabrosa o que condenavam. A falta de debate sobre a natureza do papel público desmoraliza o projeto democrático.

O poder à brasileira é mais inspirado por ordenações do que por constituições. Nessa receita, o Estado seria o ordenador da sociedade vista como mestiça, libidinosa e repleta de capitalistas opressores. Enquanto isso, somos sistematicamente roubados por administradores públicos de todos os quilates em todos os níveis.

O delito foi politizado e, neste momento, sei apenas o que escrevi na minha obra e aqui reitero: no Brasil, o crime não depende da lei, mas de quem o cometeu! Um axioma perfeito para a sociedade do “quem foi rei, sempre é majestade”. Um princípio que aristocratiza os responsáveis por roubalheiras públicas realizadas em nome do povo.

Somos avessos ao igualitarismo. Se o viés pessoal é o modelo do precisar precisando, o igualitarismo impessoal republicano não é progresso, é retrocesso. Como a lei pode valer para todos se, branco e doutor sou, tenho foro privilegiado, fui presidente, e papai é o dono do país?

P.S.: Leio que o Museu Nacional pode virar um ponto de turismo. Nada mais me espanta no Brasil. Se apagamos a história e anulamos condenações, por que não completar a obra abolindo a República e proclamando revolucionariamente a Monarquia? Tem imperador à espera.

'O meu Exército', cuspiu Bolsonaro

Em outubro último, o Brasil assistiu ao então general da Saúde, Eduardo Pazuello, dizer a frase "É simples assim. ". A seu lado, um salivante Jair Bolsonaro. Dias antes, Pazuello autorizara a compra de 46 milhões de doses da vacina chinesa Coronavac pelo Butantan. Mas Bolsonaro, por razões eleitorais, não queria saber da China nem do Butantan. "Já mandei cancelar", invectivou. "O presidente sou eu e não abro mão da minha autoridade". Se quisesse honrar as cuecas que vestia —estava internado com a Covid num hospital—, Pazuello teria se demitido assim que foi desautorizado. Mas preferiu abaixá-las para Bolsonaro. Um manda e o outro obedece

Ali se transpôs uma linha na hierarquia militar. Ao contrário dos quartéis, onde a obediência é essencial, a razão deve primar no mundo civil —principalmente quando há vidas em jogo. Naquele dia, 155 mil brasileiros já tinham morrido do vírus. Desde então, contando os que morreram por Bolsonaro ter cancelado aquelas vacinas, perdemos outros . Sendo Pazuello, co-autor dessa chacina, um general da ativa, deveria juntar uma medalha às tampinhas de Coca-Cola em sua farda: 155 mil.


Bolsonaro quer pazuellar as Forças Armadas. Sua estratégia de afrontar, submeter, desacatar, subjugar, jungir, domar, humilhar, acoelhar e, em última análise, pôr na linha —na sua linha— o comando da Defesa e das três Armas é uma continuação de outras duas políticas que vem se empenhando em implantar: sublevar as polícias militares, como no gravíssimo episódio em curso na Bahia, e armar a população. Em 31 de março de 1964, o nome disso era subversão.

Nada mal para quem começou condecorando matadores de aluguel. Hoje Bolsonaro tem procuradores e juízes infiltrados nas instituições para lhe dar apoio legal. Já é muita bala a seu favor. Mas ele sabe que precisa controlar a instituição maior.

"O meu Exército", como vive cuspindo. É dele e ninguém tasca.

Brasil sob ataque de alienado

 

 Maarten Wolterink (Holanda)

Não há vez para arroubos golpistas e celebração de 1964

Supunha-se que nada haveria de causar mais horror do que a insistente cantilena negacionista do presidente da República face ao extermínio diário de mais de 3.000 vidas pela Covid-19. Neste momento, o Brasil assiste a uma escalada de ameaças à democracia. Estamos diante de mais uma grave crise, desencadeada pela demissão do ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, por defender as Forças Armadas como instituições de Estado diante dos arroubos golpistas do presidente.

Os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica renunciaram aos cargos em protesto.

Outro episódio relevante para esta quarta-feira (31) foi a decisão do Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5), em Recife, de que proibir reverências ao golpe de 1964 significaria “negar a discussão sobre qualquer perspectiva da história, o que seria um contrassenso em ambientes democráticos, visto que o Estado democrático de Direito (artigo 1º, caput, Constituição da República) pressupõe o pluralismo de ideais e projetos”.

Entendem que coibir tal comemoração “representa impor somente um tipo de projeto para a sociedade brasileira, sem possibilitar a discussão das visões dos fatos do passado”. Os magistrados proferiram que a exaltação do golpe “não ofende os postulados do Estado democrático de Direito nem os valores constitucionais da separação dos poderes ou da liberdade”.


O golpe militar: é fato provado e documentado que, de 1964 a 1985, prevaleceu no Brasil um regime de exceção que torturou, executou, “fez desaparecer” milhares de pessoas — entre elas, estudantes, militantes políticos e sindicalistas. Todas as violações de direitos humanos, os crimes contra a humanidade praticados pela ditadura militar, além da bibliografia nacional e internacional, estão registrados fartamente em arquivos diplomáticos, por exemplo, dos Estados Unidos, da França e do Reino Unido.

Há relatórios abundantes sobre a ditadura nos órgãos da Comissão de Direitos Humanos da ONU, assim como na Comissão e na Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), em relatórios da Comissão Internacional de Juristas, da Anistia Internacional e do Tribunal Russell.

Os magistrados primam por ignorância crassa do relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV), elaborado a partir dos depoimentos de centenas de vítimas e seus familiares, bem como de documentação oficial disponível nos arquivos de órgãos governamentais brasileiros, como o Serviço Nacional de Informações (​SNI), o Centro de Informações do Exterior, do Ministério das Relações Exteriores, e alguns arquivos militares.

As investigações realizadas pela CNV comprovaram que o Estado brasileiro na ditadura foi responsável por graves violações de direitos humanos, perpetradas de forma sistemática e em função de decisões que envolveram as cúpulas dos sucessivos governos do período.

Os sequestros, as detenções arbitrárias, a tortura, as execuções, os 434 casos de mortes e desaparecimentos de cidadãos não constituíam eventuais “excessos” ou episódicos “abusos”. Resultaram de política de Estado, acatada por uma cadeia de comando que ia do general presidente até os órgãos de inteligência e repressão subordinados às Forças Armadas. Um dos grandes chefes da tortura, o coronel Ustra, reverenciado pela extrema direita, era lotado no gabinete do ministro do Exército.

Essa realidade, ao contrário do que decidiram os magistrados do TRF-5, torna incompatível com os princípios que regem o Estado democrático de Direito a realização de eventos oficiais de celebração do golpe militar; devem, sim, ser objeto de rigorosa proibição.

Seria um escárnio para as vítimas dos crimes perpetrados pela ditadura militar e um enorme constrangimento para as atuais Forças Armadas, que hoje não querem mais se envolver com aventuras golpistas nem em ditaduras como em 1964.

Fugindo da irresponsabilidade


Bolsonaro está lutando contra qualquer esforço político para responsabilizá-lo pela negligência criminosa que já levou a dezenas de milhares de mortes desnecessárias e muitas milhares mais por vir
Peter Kornbluh, diretor do Projeto de Documentação Brasileira do Arquivo de Segurança Nacional Americano, em Washington

Um carro funerário se aproxima. Em seguida outro. E mais outro

Um carro funerário se aproxima. Em seguida outro. E mais outro. Vão surgindo de repente, vindos de várias direções. No cemitério municipal de Vila Formosa, o maior da América Latina, na cidade de São Paulo, cinco veículos ficam estacionados ao mesmo tempo diante da quadra 101. Alguns chegam a formar fila. Em volta deles, familiares aguardam a vez de enterrar seus mortos. Nem todos faleceram pela covid-19, convém dizer. Mas as vítimas dessa doença são maioria. “Só nesta manhã foram uns 70 enterros”, dizia um dos trabalhadores em conversa com outros três colegas nesta quarta-feira, relatando a pressão do sistema funerário como um dos sintomas do agravamento da pandemia de coronavírus, que neste mesmo dia fez que com que o Brasil superasse a marca de 300.000 mortes.

Quando os veículos começam a chegar, o trabalho volta a ser incessante. Para carregar um caixão são necessários pelo menos quatro trabalhadores, dois na frente e dois atrás. Todos vestem um macacão especial de proteção. “Chego em casa com o maior cuidado, só falta pegar minha carteira com vara de pescar. Porque aqui a gente está exposto”, comenta um coveiro. “Estamos aqui porque precisamos estar.”

Os velórios são em sua maioria simples. Não só pelo fato de a Vila Formosa ser destino daqueles com menos recursos financeiros, mas também porque nem velório existe direito. A cerimônia com muitos amigos e familiares é restrito para quem morre por causas naturais ou doenças que não sejam a covid-19. Não há tempo nem espaço suficiente para velar as vítimas da pandemia. Por causa dos protocolos rígidos, o caixão chega lacrado no cemitério e, acompanhado por um grupo pequeno de familiares, segue direto para o enterro. Os veículos maiores chegam a levar quatro caixões ao mesmo tempo. Tampouco há muitas flores, homenagens e rezas. Tudo precisa ser feito às pressas, como em uma linha de produção de fábrica.


Uma vez retirados do carro funerário, os caixões são levados por alguns minutos até a cova recém-aberta. O tempo só se alonga no momento de descer o caixão. É quando vem a dor da despedida. O silêncio impera no cemitério da Vila Formosa, mas é quebrado quando um familiar cai aos prantos e grita alto sua indignação —como uma senhora que, nesta quarta-feira, precisou ser deitada no chão e socorrida.

O Estado de São Paulo bateu o recorde de 1.021 mortes nesta terça-feira, mesmo dia em que o Brasil registrou 3.251 óbitos. A pandemia obrigou que cemitérios de todo o país ativassem novas e antigas áreas e deixassem centenas de covas preparadas para receber as vítimas da covid-19. É o caso da quadra 101, onde foram realizados os enterros desta quarta-feira na Vila Formosa. O sindicato dos servidores municipais de São Paulo vem chamando atenção para o aumento dos sepultamentos nos cemitérios públicos e privados e no crematório, o que gera um risco de colapso no sistema similar ao que já ocorre nas redes pública e privada de hospitais —a taxa de ocupação de leitos de UTI é superior a 91% tanto no Estado como na Grande São Paulo. “Na terça-feira [16 de março], foram realizados 336 sepultamentos. No último sábado [20 de março] foram inacreditáveis 372″, afirmou a entidade em nota. De acordo com ela, o número de sepultadores é muito baixo para dar conta da alta demanda.

“Eu nunca vi nada parecido. Antes da pandemia, quando havia um fim de semana com muitas mortes, na segunda-feira não havia tantos enterros assim”, comenta um agente da Guarda Civil Municipal (GCM), admirado pela pequena aglomeração de famílias que esperam enterrar seus mortos. Mas ele mesmo já se acostumou com a perda. Nesta semana soube da morte de um colega de profissão e amigo. Na semana passada foram oito pessoas próximas que faleceram. “Mesmo quando não é alguém próximo, toda semana ficamos sabendo nos grupos de WhatsApp de colegas que morreram”, conta. Ao ser perguntado sobre o que achava da determinação do Governo João Doria (PSDB) de começar a vacinação dos profissionais de segurança no início de abril, afirmou: “Isso deveria ter acontecido junto com os profissionais da saúde bem antes, porque estamos sempre na rua.”

Mais carros funerários chegam, mais pessoas são enterradas. Até o fim do dia são realizados uma média de 87 enterros na Vila Formosa, o mais demandado do município, segundo a Prefeitura. É muito até mesmo para o maior cemitério da América Latina. Em janeiro e fevereiro, a média de sepultamentos por dia no local foi de 45. Em maio, junho e julho de 2020, eram 55 enterros. “Deus é tão bom com a gente que ninguém aqui da linha de frente pegou a doença”, comenta um coveiro. “Mas se eu pegar, já avisei pra minha mulher me dar logo um pau, porque não quero ir pro hospital ficar intubado. Se eu pegar, não me intuba não.”

Fritura de comandante é perde-perde

Faltavam três dias para a posse de Jair Bolsonaro, e o professor Delfim Netto ensinou:

— Na quarta-feira, o presidente terá que abrir a quitanda às nove da manhã com berinjelas para vender a preço razoável e troco no caixa para atender à freguesia. Pelos próximos quatro anos, a rotina essencial será a mesma: abrir a quitanda, com berinjelas e troco. Todos os desastres da economia brasileira deram-se quando deixou-se de prestar atenção na economia da loja.


O capitão trocou seis ministros. Noves fora as berinjelas, tinha na quitanda 14 milhões de desempregados e uma pandemia que já matou quase 318 mil pessoas — e decidiu criar uma encrenca militar.

Bolsonaro teria aumentado sua influência sobre o primeiro escalão. Falta dizer para quê.

No rastro dessa troca, veio o veneno: a saída do ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, abriria o caminho para a troca do comandante do Exército, general Edson Pujol.

Não se frita comandante do Exército. A troca mais traumática dos últimos 50 anos ocorreu em 1977, quando o presidente Ernesto Geisel demitiu o general Sylvio Frota. Os dois não se bicavam há tempo, mas fritura não houve. Tanto foi assim que Frota chegou ao Palácio do Planalto sem saber que seria demitido. (Quando Bolsonaro era um capitão afastado do Exército abrigado na política, Geisel definiu-o com três palavras: “um mau militar”.)

Fritura de comandantes do Exército foi coisa do governo João Goulart, com quatro ministros em apenas três anos. Em 21 anos, os presidentes militares tiveram oito ministros. Deles, um deixou o cargo para ser presidente (Costa e Silva), e outro morreu (Dale Coutinho). Nenhum foi frito.

Desde que foi criado, em 1999, o Ministério da Defesa teve outros 11 titulares. Todos chegaram e partiram sem ruídos. A demissão do general Azevedo e Silva resultou na saída dos comandantes das três Forças, coisa nunca vista.

O primeiro murmúrio de uma eventual fritura de Pujol surgiu em maio do ano passado, mas não prosperou. Pujol pouco fala e não tuíta.

Trocar comandantes da Marinha, do Exército ou da Aeronáutica é atribuição do presidente da República. Afinal, ele é o comandante das Forças Armadas. Apesar de o capitão gostar de se referir ao “seu” Exército, elas não são de sua propriedade. Chefes como Henrique Lott, Orlando Geisel e Leônidas Pires Gonçalves nunca usaram essa expressão possessiva. O problema aparece quando se acende o fogareiro da fritura. Isso porque se cria uma situação de perde-perde. Perde se frita e perde se não frita.

O marechal Castello Branco era cauteloso (até demais) e tinha as ideias no lugar. Em março de 1964, ele chefiava o Estado-Maior e distribuiu uma circular reservada onde dizia:

— Não sendo milícia, as Forças Armadas não são armas para empreendimentos antidemocráticos. Destinam-se a garantir os poderes constitucionais e sua coexistência.

O presidente acreditava estar amparado num poderoso dispositivo militar com seus “generais do povo”. Um mês depois, João Goulart estava no Uruguai. Deu no que deu.

As Forças Armadas não são milícia, e na porta da quitanda há quase 318 mil mortos e 14 milhões de desempregados. Em qualquer país e qualquer época, quem tem problemas desse tamanho não precisa de novas encrencas.

No aniversário da ditadura, Bolsonaro sonha com um novo golpe que não conseguirá dar

Parodiando os geniais compositores Luiz Reis e Haroldo Barbosa, não há dúvida de que Jair Bolsonaro tem cara de maluco, pinta de maluco e jeito de maluco. Mas na undécima hora, quando todo mundo pensa que o chefe de governo vai concretizar a maluquice, ele dá uma meia trava e demonstra ter a exata noção do que está fazendo.

Foi o que aconteceu nesta segunda-feira, dia 29, quando a Lula Cheia e a proximidade do 31 de Março parece que mexeram com a psiquê do presidente, que entrou em alfa e demitiu o ministro da Defesa, seu amigo de juventude Fernando Azevedo e Silva.

O objetivo é claro – fazer as Forças Armadas se envolverem com a política e apoiarem o estado de sítio (ou de exceção) que o atual presidente tanto almeja.


A estratégia de Bolsonaro era demitir os comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica na segunda-feira, mas o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, recusou-se a obedecer. Mas na terça-feira, diante da saída do ministro da Defesa, os comandantes ficaram revoltados e também deixariam seus cargos.

Era exatamente o que Bolsonaro almejava, porque eles abriram caminho para a nomeação de comandantes de baixíssimo nível, amoldáveis, maleáveis e manipuláveis a ponto de apoiar Bolsonaro num golpe de estado. Essa é a missão impossível do novo ministro da Defesa, general Walter Braga Netto, que agora tem de encontrar três patetas para comandar as Forças Armadas.

Esta quarta-feira, 31 de março, é mais um aniversário da Revolução de 64. Bolsonaro terá de estar perfilado junto ao novo ministro Braga Netto no Forte Apache, onde ouvirá a leitura da Ordem do Dia sobre a importância democrática do golpe militar que derrubou o presidente João Goulart.

O general Braga Netto vai desfilar de saia justa, por saber que não pode obedecer Bolsonaro e lhe dar poderes ditatoriais, pois o Alto Comando já vetou essa possibilidade. Se atender a Bolsonaro, o novo ministro da Defesa estará traindo as instituições que jurou honrar e vai se arrepender muito.

Aliás, se sucumbir à pressão e acabar dando força a um golpe militar de um desequilibrado mental como Bolsonaro, o general Braga Netto mostrará que também não está em seu juízo perfeito. Assim, também precisará ser medicado e cumprir internação, quando poderá se exibir à vontade como Napoleão de hospício.