terça-feira, 21 de abril de 2020

'Governo' do Brasil


O risco Bolsonaro sobre a democracia

O presidente Bolsonaro tentou consertar ontem o que havia feito na véspera, como é de seu estilo. Mas, ao fazer isso, mostrou de novo que de democracia ele não entende. “A Constituição sou eu.” Não é não. A Lei Maior está sobre todos nós, e a ela todos devemos respeito, inclusive o presidente. O ato ao qual compareceu no domingo na prática pedia o fim da Constituição como foi pactuada entre os brasileiros em 1988, porque o que estava em faixas, cartazes e palavras de ordem era a defesa do fechamento do Congresso, do Supremo e a edição de um novo AI-5.

As Forças Armadas ficaram em silêncio durante um dia inteiro. No começo da noite de ontem, o Ministério da Defesa disse que as Forças Armadas trabalham “com o propósito de manter a paz e a estabilidade” e disse que são obedientes à Constituição. Em seguida, a nota passa a falar do assunto que deveria concentrar todas as atenções de Bolsonaro, a pandemia para a qual “nenhum país estava preparado”. Eu falei com dois generais que participam do governo. Um deles disse que o Estado Democrático de Direito é o pilar desta geração que está agora no comando das Forças Armadas. “Não existe a mínima possibilidade de aventuras golpistas.” Mas esse integrante do governo acha que o único reparo a fazer é o local. “Foi ruim o local, nada além disso.” Outro general disse que Bolsonaro é “um ex-militar que virou político” e completou que tem absoluta certeza de que as “Forças Armadas não se prestam a aventuras”.


O problema é que há muita ambiguidade. A ordem do dia de 31 de março exaltava o golpe, dizendo que ele fora feito para defender a democracia. O presidente usa símbolos do Exército – o dia, o local – para passar a mensagem de pedido de intervenção militar. Portanto, era hora mesmo de as Forças Armadas falarem oficialmente sobre o seu compromisso com a ordem democrática.

Ontem, Bolsonaro se fez de desentendido. Alegou que nada falou contra a democracia na manifestação e que o ato foi pela volta ao trabalho. Ora, presidente, não faça tão pouco da inteligência alheia. A presença física do chefe do Executivo, comandante em chefe das Forças Armadas, já era suficiente. Significa endosso ao que estava escrito nas faixas e ao motivo da convocação.

Desde domingo, houve fortes declarações de repúdio ao que o presidente disse. De ministros do Supremo, do presidente da Câmara dos Deputados, dos órgãos da sociedade civil. É preciso mais que palavras, porque Bolsonaro não pode mais continuar brincando com as instituições. Ele não pode continuar sendo leviano como tem sido. Essa não é a primeira manifestação antidemocrática da qual ele participa e não será a última. A menos que o sistema de freios e contrapesos demonstre de forma mais clara que ele não pode mais ferir os limites constitucionais.

O Procurador-Geral da República, Augusto Aras, conseguiu a proeza de iniciar um inquérito sobre as manifestações, mas, de cara, afastando qualquer risco para o presidente. Vai investigar o evento em si, sua organização, e alguns “cidadãos e deputados”. Pede para fazer um inquérito contra pessoa indeterminada, mas já indicou que o presidente não é alvo. O que um procurador que eu ouvi explica é que houve vários erros na decisão do PGR:

– A petição não pode ser sigilosa. Há interesse público na divulgação. E o fato é público, praticado à luz do dia e filmado. A boa investigação seria apurar o que o presidente foi fazer lá e o que fez e apurar quem organizou essa manifestação. A investigação não pode ser genérica, tem que ser contra uma autoridade determinada.

As democracias não morrem mais como antes, com militares, tanques e blindados desfilando nas avenidas das grandes cidades. Eles morrem aos poucos, quando um chefe de governo sem apreço pela democracia vai minando diariamente a força dos poderes, como foi feito pelo coronel Hugo Chávez na Venezuela. Em reportagem que fiz na Venezuela, sobre a qual já falei aqui algumas vezes, me impressionava exatamente a falta de reação das instituições. O coronel se cercou de militares e era isso que se via em Miraflores, uma presidência militarizada. Chávez atacava diariamente a imprensa, os partidos que não se submetiam a ele, a Justiça e estimulava a polarização. Nos seus discursos, ele dizia falar pelo povo. Chávez dizia que, com ele, o povo estava no poder. O populismo é assim.

Nem em se plantando ...

Descobrir o Brasil é finalmente fazer como o Dr. João de Barros, que nos conta, a respeito da nossa terra, coisas de que nunca ouvimos falar. Ainda ontem nos dizia ele, com o seu sibilante sotaque alfacinha, que no Rio de Janeiro "a inteligência, o talento e o gênio tomam as mais fascinantes formas". Ora aí está uma grande novidade para nós, porque a inteligência aqui é relativa, como em toda parte; o talento é raríssimo; quanto ao gênio, ainda está por aparecer, a não ser que o Sr. Barros nos tenha trazido aí um pouco da mercadoria nalgum "barrilote dovos mol's d'Aveiro" 
Antônio Torres, "O descobrimento do Brasil" 

Bolsonaro, comorbidade brasileira

O presidente da República sabotava abertamente o esforço dos governadores contra a epidemia. Não havia tempo para impeachment. Um Bolsonaro que ao menos não atrapalhasse parecia ser o melhor cenário possível. Um dia nos perguntaremos como foi que isso virou o melhor cenário possível e quem bloqueou os outros cenários.

Quando, 15 dias atrás, Bolsonaro foi impedido de demitir o então ministro da Saúde Henrique Mandetta, pareceu que a estratégia daria certo. E talvez ela tenha nos garantido semanas importantes, em que o combate dos governadores pode ter feito diferença.

Mas parou de dar certo, ou está dando bem menos certo. Nem tanto pela substituição do ministro —ainda não estão claras as posições de Nelson Teich— mas pelo desastre que é ter Bolsonaro e seu ódio à ciência de volta à conversa em uma hora dessas.

Mandetta foi demitido porque os militares no governo o abandonaram. Os generais haviam sido decisivos para que não fosse demitido 15 dias antes. Diz-se que a mudança de posição dos militares se deu pela entrevista do agora ex-ministro ao Fantástico, que teria caracterizado "quebra de hierarquia".

O argumento é ridículo. A hierarquia foi quebrada porque o topo da hierarquia enlouqueceu.


Em tempos normais, a entrevista de Mandetta talvez justificasse a demissão. Mas não são tempos normais.

Estamos na pior crise do milênio, e o presidente do Brasil é internacionalmente reconhecido como o pior gestor da crise entre os líderes dos grandes países.

Nós só não somos piada mundo afora porque ninguém acha que o que vai acontecer no Brasil vai ser engraçado.

Se há tempo para nos preocuparmos com a honra ferida de Jair Bolsonaro, certamente deveria haver tempo para discutirmos seus inúmeros e bem documentados crimes de responsabilidade.

Se a oposição aceita não propor impeachment durante a crise, é intolerável que o governo aceite perder tempo com presidente sabotando ministro.

Bolsonaro, como sempre, interpretou a concessão como sinal de fraqueza do adversário e redobrou o ataque.

Poderia ter reagido à queda de Mandetta com sobriedade e aproveitado a vitória. Em vez disso, imediatamente lançou uma nova onda de acusações contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal, criando um cenário de pesadelo de crise institucional durante a pandemia.

É o pior presidente do mundo. É o pior presidente da história. E não conseguimos contê-lo a tempo de salvar as vidas dos brasileiros.

Mesmo se o novo ministro for competente, vai levar tempo para tomar pé da situação. Mesmo se uma nova acomodação com Congresso e Supremo Tribunal Federal for negociada, não vai ser em dois dias. E essas semanas que perderemos são exatamente as que, no início do processo, prevíamos que seriam as piores.

O que é possível fazer nesse quadro?

A pandemia sempre seria difícil para um país pobre como o Brasil, mas muitas forças se mostraram dispostas a combatê-la: governadores, parlamentares, ministros do Supremo Tribunal Federal, imprensa profissional, associações comunitárias, universidades e centros de pesquisa.

Nosso sistema imunológico institucional tinha chances razoáveis, e ainda está na briga. Mas enquanto enfrentarmos a comorbidade do bolsonarismo, o otimismo é difícil.
Celso Rocha de Barros

Chance zero?

Enquanto Jair Bolsonaro fazia discurso inflamado em manifestação não só contra o Supremo e o Congresso, mas a favor de um golpe militar e a volta do famigerado AI-5, um de seus filhos divulgava o vídeo de uma fila de sujeitos praticando tiro, alguns metidos em camisetas pretas com o rosto do presidente e todos gritando: Bolsonaro!(Nota: O vídeo, divulgado no domingo, era de 29 de outubro de 2018, para comemorar a vitória de Bolsonaro) 

No mesmo domingo, o presidente e seus três filhos mais velhos, um senador, um deputado federal e um vereador licenciado, postavam a foto do café da manhã familiar com uma curiosidade: o quadro na parede não era de uma natureza morta ou da tradicional Santa Ceia, tão comuns nos lares brasileiros, mas de uma metralhadora AK-47, deveras inspiradora.

No dia seguinte, circulava um vídeo em que várias dezenas de soldados corriam num calçadão da zona sul do Rio e no fim se aglomeravam, ainda na praia, à luz do dia, gritando “Bolsonaro” e “mito”. Fariam isso sem orientação de superiores? Esses superiores pediram autorização ao Comando Militar do Leste? O comandante consultou o Comando do Exército em Brasília? Afinal, pode?


O que mais impressionou civis e até militares, porém, foi o local onde Bolsonaro discursou para militantes pró-golpe e AI-5: o Setor Militar Urbano, com o Quartel-General do Exército ao fundo. Um oficial pergunta: e se os políticos decidirem fazer protesto ali? Eu acrescento: e se a CUT e o MST também?

Aboletado na carroceria de uma caminhonete, vestido e agindo como vereador em campanha para a prefeitura de Cabrobó e liderando um ato ostensivamente antidemocrático, Jair Bolsonaro esquecia-se de que, além de presidente da República, eleito por 57 milhões de brasileiros, ele é também comandante em chefe das Forças Armadas - ambas as funções exigem decoro e compostura.

O episódio - que estressou o domingo e que o ministro do STF Luís Roberto Barroso chamou de “assustador” - deixou uma dúvida perturbadora: os comandos militares compactuam com pedidos de golpe e AI-5? Acham normal o uso do SMU e do QG - ou seja, da imagem das FFAA - para atos golpistas? Na primeira reação, generais do governo demonstraram “desconforto”, depois falaram em “saia-justa” e no fim do dia passaram a admitir “irritação”, enquanto discutiam como “reduzir danos”.

E os danos são muitos. As Forças Armadas, instituições de Estado, não de governo, durante décadas mantiveram-se profissionais e imunes à política e a governos que vêm e vão. Consolidaram-se assim no primeiro lugar de prestígio junto à sociedade, sem concorrentes. Vão jogar tudo fora em favor de um presidente, e logo de um que só faz o que lhe dá na veneta?

Há, ainda, a questão da hierarquia. Bolsonaro expõe Exército, Marinha e Aeronáutica a um velho fantasma: as divisões internas. Como já me ensinava o general Ernesto Geisel, quando a política entra por uma porta nos quartéis, a hierarquia se vai pela outra. Tendo como fato que a cúpula militar realmente considerou “péssimo” o teatro antidemocrático de Bolsonaro no domingo, a pergunta seguinte é: e as bases, os capitães, majores, sargentos - e suas famílias - acharam o quê?

O vice Hamilton Mourão já disse marotamente que “está tudo sob controle, só não sabe de quem” e nós, meros mortais, ficamos sem entender nada. É uma grande enrascada e remete à entrevista do então comandante do Exército, general Eduardo Villas Boas, em dezembro de 2016, em que ele me relatou como respondia aos civis “tresloucados” que vinham bater à sua porta pedindo intervenção militar: “Chance zero!” Em nota, nesta segunda-feira, o Ministério da Defesa foi mais suave, mas disse que as FFAA trabalham pela “paz e a estabilidade”, “sempre obedientes à Constituição”. Logo, contra o golpe. É o que se espera dos líderes militares, diante não apenas da Nação, mas da história.

Pensamento do Dia

Os cúmplices

Perplexos, políticos não sabem como lidar com Jair Bolsonaro. Apelo ao bom senso, de nunca adiantou. Impeachment ainda não tem força para decolar, avaliam. Ignorá-lo? Mandetta está aí para provar que não dá. Sobram as notas de repúdio que, feitas por quem parece estar pisando em ovos, já merecem todas elas uma nota de repúdio.

Como agir? Ficar como os engravatados da brilhante charge de João Montanaro, a refletir sobre o limite do tolerável até que nenhum mais haja?

Um bom começo poderia ser parar de tratar o sr. Jair Messias Bolsonaro, 65 anos, cinco filhos, mais de 30 anos de velha política nas costas, como um mero moleque travesso.

O método é o mesmo. Avanço, choque, recuo tático. Num dia, ele trepa numa caçamba para estimular ato pró-ditadura de um bando de delinquentes idiotizados. No outro, dá uma amenizada, por assim dizer.

Ufa, suspiram as polianas. Suspiram também seres rastejantes no centrão, suspira Paulo Guedes —essa pessoa que parece habitar a Disneylândia—, suspiram os militares, que emprestam honorabilidade ao moleque travesso. Suspira até Sergio Moro, que se escondeu durante todo o domingo atrás do Fuminho, o traficante, e ainda levou bronca do filhote do presidente —Carlos Bolsonaro cobrou defesa pública do pai sem nominar de quem cobrava, mas tirem suas conclusões.

E nessa toada os limites vão caindo feito dominó. Notem. Há alguns meses, a pornochanchada golpista seria inaceitável. O que será aceitável daqui a alguns meses?

Inglaterra e França não tinham nem de longe certeza de vitória quando decidiram, enfim, delimitar a Hitler o "daqui você não passa". Agiram como adultos, não moleques. A França caiu num primeiro momento, mas a história é sabida. Para quem acha clichê a comparação, penso não ser demais tirar lições de uma catástrofe que custou a vida de mais de 50 milhões de pessoas.

Não defendo que ninguém saque a pistola ao próximo limite rompido. Apenas que faça valer sua dignidade.

Tudo mudou

De tempos em tempos as sociedades são sacudidas por violentos eventos naturais. De repente, o tempo muda de maneira dramática, uma epidemia mata milhares de pessoas ou se rompe uma placa tectônica, de que resulta terremoto, maremoto e incêndio. Isto aconteceu às 09h40 do Dia de Finados, 1º de novembro de 1755, quando a terra tremeu e sacudiu Lisboa. As águas invadiram a parte baixa da cidade e os incêndios duraram seis dias.

A tragédia produziu um líder, um novo homem forte na política portuguesa: Sebastião José de Carvalho e Mello, o duque de Oeiras, depois Marques de Pombal. Ele com poucas palavras reduziu seu plano de enfrentamento do gigantesco problema que tinha pela frente. ‘Enterrar os mortos e alimentar os vivos’. Assim foi feito. Providenciou severas medidas de segurança para julgar e punir, até com pena de morte, salteadores, ladrões e desordeiros. Também fechou a cidade para impedir que pessoas indesejáveis entrassem e homens em boa condição física deixassem a área.

A ocasião fez o líder. O Marques de Pombal deu ordens, organizou a reconstrução de Lisboa e arredores, providenciou o enterro de cerca de vinte mil mortos, hierarquizou providencias e enfrentou o problema com olhar certeiro. Expulsou os jesuítas de Portugal e de todas as colônias. Como se diz hoje manteve o foco. Solucionou seus problemas em tempo razoável. Ele entendeu a gravidade da situação. É um exemplo muito oportuno para o Brasil de hoje. O presidente Bolsonaro parece não compreender que o mal já está feito. Não fará muita diferença retomar atividades do comércio a da indústria hoje, na semana próxima ou no final do mês.



A tragédia econômica já aconteceu. A profunda queda no produto interno bruto está contratada. O ano de 2020 acabou. Quem tinha que demitir, já demitiu. Os próximos meses serão dedicados a cuidar de feridas, feridos, tratar dos enfermos e refazer o tecido social. Discussões políticas, a esta altura da vida, são desprezíveis e inoportunas. Trata-se de salvar a vida e a economia do Brasil.

Este é o xis do problema. O presidente pensa na sua sucessão como se ela fosse acontecer na próxima semana. Trabalha com olhos postos em 2022. Sugere remédios milagrosos para conter a pandemia e pretende até abrir fronteiras fechadas pelos governos vizinhos. Sua diplomacia de apoio explícito a Donald Trump foi para o espaço. Na hora de maior necessidade, o governo dos Estados Unidos desviou encomendas brasileiras que transitavam pelo aeroporto de Miami. O governador do Maranhão (PC do B) foi mais esperto. Fretou aviões que fizeram escala na Etiópia para fugir dos olhos gulosos dos norte-americanos.

E o mundo descobriu por intermédio da pandemia a incrível dependência de todos os países do ocidente da produção da China. Aviões cargueiros de várias nacionalidades estão na fila em aeroportos chineses para comprar equipamentos de proteção individual, respiradouros e outros implementos. A economia chinesa é praticamente o único provedor deste tipo de material para todo o mundo. Trump, que tentou ridicularizar os chineses, foi obrigado a esquecer tudo e mandar cheques para comprar em regime de urgência do único provedor mundial.

A política ultra liberal do ministro Paulo Guedes também subiu no telhado. O capitalismo precisa, de tempos em tempos, de verbas governamentais. Na crise de 2008, o governo dos Estados Unidos foi obrigado a socorrer bancos e grandes empresas. A crise de 1929 gerou a eleição de Franklin Roosevelt que por sua vez produziu o New Deal, programa do governo norte-americano de fantásticos investimentos governamentais (O Tennessee Valley Act foi um deles). É a fórmula imaginada pelo economista John Maynard Keynes: ’o governo deve criar empregos nem que seja para enterrar e desenterrar garrafas’. Neste momento, o liberalismo econômico também está completamente fora da pauta. Ou seja, tudo mudou. Só Bolsonaro não percebeu.

E o pós-Brasil?

Muito se pode dizer sobre o furacão covid-19, menos que seja uma crise inesperada. No passado recente tivemos H1N1, SARS, gripes sazonais, outras tantas doenças e pandemias. Mas, ao que parece, embora muitas, tiveram pouca influência sobre a condução da saúde pública ao redor do mundo, imerso no receituário individualista neoliberal ao longo das últimas décadas. De fato, a tendência no Brasil e em outros países seriamente afetados pelo coronavírus, como Itália, Reino Unido e EUA, tem sido a de transformar saúde em questão privada e deixar que cada um cuide de si. Trágica ironia quando se trata de uma doença cuja profilaxia requer ação conjunta da população e intervenção firme dos governos em nome da sociedade. A covid-19 é um problema complexo que vai muito além da virologia e da medicina. É uma questão multifacetada, localizado no centro da integração dos dos mercados, que demonstra, de maneira contundente os muitos e graves equívocos políticos, econômicos e científicos de uma globalização focada quase que exclusivamente nas finanças e em extensas redes de produção e comercialização, mas não na dimensão coletiva e muito menos na inclusão social.


A analogia da covid-19 com um furação é mais estreita do que parece. Assim como nos desastres ditos naturais, pandemias são tragédias que afetam diferentes grupos de forma totalmente diferenciada. Risco é uma realidade socialmente construída e as respostas aos riscos têm relação direta com o balanço de poder e desigualdades sociais e espaciais acumuladas ao longo do tempo. Mais do que uma questão técnica relacionada à propagação de um novo vírus com fator de contágio e letalidade maiores do que a gripe comum, a chegada do coronavírus ao Brasil tem sido envolta pela profunda polarização política e ideológica que tomou conta da sintaxe política e social do país nos últimos anos. Assim, o que teria que ser tratado como uma questão de saúde pública em uma nação com sérias dificuldades materiais e humanas para implementar políticas que se demonstraram eficazes em outros países (por exemplo, testes em grande escala, como na Coreia), vem, na prática, se demonstrando como uma nova etapa no acelerado processo de erosão tanto das instituições do Estado, como da própria institucionalidade democrática, dentro de um processo que tenderá a se agravar nas próximas semanas, com consequências gravíssimas para milhares ou milhões de pessoas.

Como em astronomia, há aqui uma paralaxe evidente quanto à visão do mesmo fenômeno por observadores posicionados em locais distintos. Assim foi no caso da chamada Gripe Espanhola, que começou nos Estados Unidos e foi trazida ao Brasil por um navio dos correios ingleses. Quem mais sofreu foram justamente as comunidades que viviam nas áreas periféricas do Rio de Janeiro e em outros centros urbanos. Durante a crise, a partir do final de 1918, a elite político-econômica e muitas autoridades médicas tomaram uma posição cética e preferiram ignorar as mortes que se somavam exponencialmente, culminando com o falecimento do presidente eleito Rodrigues Alves. O fato de o atual governo brasileiro totalmente desconhecer a condição da população pobre e, por isso mesmo, ter um ministro da fazenda incapaz de formular as mais simples estratégias de alívio momentâneo infelizmente não é novidade. Lembremos que em 1940, durante os terríveis bombardeios alemães a Londres, a elite britânica não queria aceitar que o metro londrino fosse usado como abrigo anti-aéreo, apenas cedendo depois de muita pressão política.

No caso atual, apesar de importantes medidas de isolamento social que vêm sendo implementadas por vários governadores ao redor do país, o combate à expansão da covid-19 no Brasil tem se definido por duas muito preocupantes dinâmicas. Por um lado, o constante confronto entre os poucos membros do governo que trabalham com dados científicos na formulação de políticas públicas —entre eles o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que foi demitido após ser permanentemente ameaçado pelo presidente Jair Bolsonaro, apesar se sua militância anterior em favor da privatização do SUS e destruição do sistema de saúde pública. Por outro, a resistente, talvez mesmo crescente, narrativa de que a ameaça não é tão grave, que o isolamento social não é necessário ou que fará mais mal do que a própria doença; ou ainda que tudo não passaria de uma conspiração internacional, liderada pela inteligência chinesa, para acabar com a economia brasileira (afirmação que carece totalmente de lógica dado o impacto enorme da covid-19 naquele país). Essa visão irracional e perigosa vem sendo vergonhosamente propagada por lideranças empresariais e religiosas neo-pentecostais, especialmente por meio de carreatas de luxo ao redor do país, que exigem o fim das medidas de isolamento —sob o slogan “O Brasil não pode parar!”— processo de culminou no dia de jejum e orações (como medidas, ou bruxarias, de saúde pública) lideradas pelo próprio presidente da República no último dia 5 de abril.

Entre os muitos grupos e áreas afetadas, as populações indígenas parecem estar ainda mais no centro do furacão. Estes grupos já vinham sendo exterminados pela ação deliberada pelo (des)governo atual, em sua defesa incondicional das atividades do agronegócio, mineração e extração de madeira com incentivos à degradação ambiental e um descomissionamento em larga escala de serviços públicos. Líderes indígenas vêm morrendo em um número crescente, enquanto a polícia protege justamente os criminosos; áreas reconhecidas como terras indígenas vêm sendo administradas por militares completamente despreparados e instruídos a não fazer nada para garantir o o atendimento às comunidades; adultos e crianças ficam cada vez mais doentes devido à falta de comida, água, abrigo e assistência médica, mas o governo lhes nega os direitos mais básicos. Essas diferentes estratégias demonstram que a administração federal tem um plano claro para facilitar novas rodadas de aniquilação étnica que relacionadas diretamente ao favorecimento dos setores econômicos mais violentos e atrasados ​​do país, em particular o agronegócio. Assim como no caso de muitos outros grupos brasileiros carentes na periferia das grandes cidades e em áreas dominadas pelo agronegócio exportador, a mobilização de grupos indígenas contra os riscos da pandemia de covid-19 é uma luta árdua pela inclusão social e influência política.

Mesmo após parecer ter sido convencido de que a pandemia seria, sim, um problema real e greve no país, Bolsonaro continua a insistir no discurso negacionista, mais que tudo fornecido pelo guru des-intelectual do Governo, o astrólogo Olavo de Carvalho, quem vem afirmando que trata-se de um grande complô, ao passo que os números oficias (certamente sub-representados) de infecções aumenta rapidamente. Dentro desse contexto de crescente polarização ideológica e deslegitimação da ciência e mesmo do papel do Estado, quais cenários poderiam ser vislumbrados a curto e médio prazos?

Um primeiro cenário ou tendência possível, talvez o mais provável, é que, ao fim da fase mais aguda da crise (entre seis e doze meses), haja um retorno, ou mesmo um aprofundamento, da política econômica neoliberal e anti-povo que vem sendo implementada no país ao longo dos últimos 5 anos. Como no pós-2008, a resposta dominante para a crise do neoliberalismo seria pois mais do mesmo. Com ou sem Bolsonaro, com ou sem Guedes, um governo pós-crise, novamente legitimado pelo controle da retórica e conivência da mídia poderia retomar com ainda com mais força midiática e empresarial a plataforma neo-liberal que, afinal, foi o que legitimou a candidatura de Bolsonaro em 2018. Esse processo frustraria as ambições e receitas neo-kenesianas que em diferentes partes do mundo tentam lidar com os excessos neoliberais, evidentemente sem enfrentar as questões de fundo relacionadas ao poder do capital financeiro, glorificação da acumulação privada e padrões suicidas de produção, consumo e desperdício. Esse cenário levaria, evidentemente, ao aprofundamento da recessão, desemprego e colapso de diversos setores econômicos, inclusive boa parte do agronegócio, cúmplice de primeira hora do neoliberalismo-de-estado. Tais contradições seriam providencialmente negadas, sufocadas pela ação coordenada das milícias estaduais (com a omissão do Exército ou sua ajuda explícita, como foi o caso durante a intervenção recente no Rio de Janeiro, quando o exército foi instrumental para a limpeza de muitas favelas em favor de milicianos) e suas consequências transferidas de forma leviana a governos futuros.

Uma segunda tendência, também bastante provável, é a do aprofundamento do viés autoritário do atual governo. Esse aprofundamento, uma espécie de Leviatã Tropical 2.0, seria feito por um ainda maior (não legítimo) protagonismo das Forças Armadas na política, reencarnadas na tarefa auto-atribuída de manter a lei e a ordem a fim de garantir a manutenção dos ciclos produtivos do capital. Essa processo implicaria numa maior repressão de grupos sociais marginalizados, um ainda maior ataque aos direitos sociais que ainda restam e mesmo a diminuição das liberdades civis e talvez mesmo políticas (vide a ameaça do cancelamento da eleição de outubro), e certamente um aumento cada vez maior dos serviços de inteligência e monitoramento das pessoas —algo que talvez seja necessário na condições atuais e que seria assim promovido como aceitável ou mesmo inevitável no momento pós-crise. A implementação dessa tendência poderia se dar de diferentes formas. Alguns tem aventado a possibilidade vindoura de um auto-golpe (a la Fujimori), com o fechamento do Congresso e uma censura forte da mídia e de qualquer oposição. Cabe ressaltar que esse curso não é necessário já que, com ou sem a tomada direta do governo pelos grupos militares, fica cada dia mais difícil distinguir em que setor a caserna já não está no comando da nação. Diretamente ou indiretamente, um governo militarizado, como atual, seria o mais indicado para implementar concomitantemente as duas tendências apresentadas. Teríamos pois um aumento da repressão estatal contra toda e qualquer resistência ao aprofundamento do receituário neoliberal que estaria, assim, garantido em sua implantação. De maneira sinérgica, veríamos um relacionado aprofundamento das desigualdades sociais e uma erosão ainda maior das noções de cidadania.

Uma terceira tendência, diretamente relacionada ao aprofundamento dos cenários anteriores, envolveria uma crise crônica da autoridade e da intervenção estatal talvez nunca vista no Brasil. Vivenciaríamos uma escalada de protestos ao redor do país —derivados da deterioração acelerada das condições de vida, desemprego elevado, economia fragmentada e violência generalizada—, sem, contudo, que esse processo consiga ser organizar de modo a oferecer uma alternativa viável de organização social e política ao país.Apenas alguns setores extrativistas diretamente ligados aos interesses internacionais teriam alguma capacidade de atuação, situação hoje presente no Delta do Rio Niger, no Iraque e na Amazônia peruana. As elites nacionais perderiam influência em favor de elites regionais, ainda mais obscurantistas, em aliança com fundamentalistas evangélicos, grupos neo-fascistas e milicianos em posições de mando ainda mais importantes que nos cenários anteriores. O estado nacional seria mantido nominalmente e o emblema ‘Brasil’ seria mantido para consumo externo (manter a bandeirinha na frente das Nações Unidas e participação em jogos de futebol, por exemplo), mas o território seria na prática fragmentado entre as elites nacionais e parceiros internacionais. Em alguma medida, este cenário já se manifesta hoje, com a crescente presença dos interesses chineses na Amazônia e na soja do centro-oeste, o turismo europeu no nordeste e a decadência pronunciada dos estados sulinos, e não seria pois nada surpreendente que se aprofunde nos próximos tempos.
O Pós-Brasil

A lógica individualista e o neoliberalismo-Talibã disseminados no país com uma voz monocórdica nos últimos anos ajudaram, em muito, a viabilização eleitoral do reacionarismo de viés fascista em 2018. Como em todo discurso negacionista e falacioso, especialmente sob o manto de um patriotismo maniqueísta, essa narrativa ainda tem a capacidade de atrair simpatizantes entre diversos grupos sociais, notadamente entre os mais desmobilizados e com baixíssimo nível de informação além das chamadas bolhas. Bolsonaro representa, pois, um movimento mais amplo que tomou conta do país em favor de fanatismo econômico e medievalismo intelectual.

Muitos ainda apostam que a crise de saúde nas próximas semanas será algo administrável pela ação governamental montada, ainda que de maneira esquizofrênica, na capital federal. A depender do tamanho da dor da perda de algum ente querido, os níveis de apoio ao status quo serão maiores ou menores. De todo modo, a crise institucional em curso tenderá a se aprofundar em qualquer cenário vindouro, onde as tendências acima apontadas parecem adquirir capacidade quase autônoma de continuar a definir o caráter anti-democrático, anti-popular e anti-natureza dos rumos em curso. É fundamental, pois, pensarmos de maneira crítica e corajosa não somente no Brasil pós-crise, mas nas consequências mais profundas de um Pós-Brasil distópico que se configura no horizonte.
Rafael R. Ioris (Universidade de Denver) e Antonio A. R. Ioris (Universidade de Cardiff)

Apesar de você

A música de Chico Buarque, lançada há 50 anos, sob a presidência militar de Emílio Garrastazu Médici, volta a ser 50 anos depois o hino nacional. Se lá atrás condenava a ditadura, agora serve de denúncia à estupidez militarizada de um ex-capitão expulso da corporação.

Contra o mortal vírus da ignorância, da sanha ditatorial e do milicianismo, pipocam felizmente cada vez mais movimentações independentes em contraponto à ignorância governamental.

Diante do Quartel General do Exército, em Brasília, no Dia do Exército, numa afronta às Forças Armadas, como deveria ser vista, a manifestação de domingo faz parecer, aos olhos de quem viveu aqueles duros anos, uma parada militar sob a continência complacente, pois apenas se ouviu o toque de silêncio.

 Quando a ditadura percebeu o deslize da censura, com o sucesso 
da música, as lojas e a gravadora tiveram seus estoques destruídos

Quando o país, como todo o mundo, tenta sobreviver à pandemia do coronavírus, um ex-capitão, expulso da corporação, conclama a intervenção militar e o fechamento do Congresso, não é mero gesto político de conclamação de sua base eleitoral. É uma declaração ditatorial com ou sem apoio de seu gabinete militarizado, que merece repúdio hoje e sempre, porque despreza a morte, a fome e o sofrimento de milhões de brasileiros, que não recebem nenhuma continência. 

Aos brasileiros, com que enche a boca, o eleito Messias já avisou que não deverá ser responsabilizado pelo que acontecerá ao país depois da pandemia. Esquece que em vez de passeatas antidemocráticas, que só objetivam a glorificação de um desavergonhado governo, deveria dar o exemplo de abnegação, trabalho e respeito ao povo que tanto se orgulha de "governar". 

Quase um ano e meio depois de empossado na imagem mais desrespeitosa de todos os tempos na história do Brasil - o desfile presidencial com um dos filhos enganchado no encosto do banco traseiro do carro oficial -, esse mesmo eleito se arvora em novo ineditismo histórico: conclama massa de manobra eleitoreira para entronar de vez sua incapacidade e ignorância como um novo ditador, seguindo uma "dinastia" ditatorial. 

É um tapa na cara da população se ver desgovernada num momento tão angustioso de doença, morte e fome, quando precisaria de liderança. Conta apenas com um pretenso mito arrotando a valentia de idólatra dos torturadores, com asseclas do mesmo calibre sempre dispostos à subserviência hierárquica em defesa de uma democracia de bananas.

Restará apenas aos sobreviventes construir um amanhã independente de quem preside com tanta incompetência, insensatez e desprezo pela vida (dos outros).
Luiz Gadelha

Paisagem brasileira (agora um quadro na parede)

Paisagem rural (1946), José Marques Campão

Um novo normal

A Natureza tem sido clara desde o primeiro dia de crise: basta a produção abrandar para que o planeta aplauda. Fábricas a meio gás, uma quebra no consumo de petróleo e a redução do tráfego aéreo chegam para que emitamos menos um milhão de toneladas de CO2 por dia. Nos canais de Veneza, cidade-fantasma desde que o vírus assolou Itália, avistámos patos e alegres cardumes de peixes – cenário inédito desde há décadas, devido à poluição, aos cruzeiros e ao trânsito de gôndolas. Mas mais do que retirar conclusões místicas, importa deixarmos que estas fábulas de La Corona nos despertem para a ciência.


“Não podemos esquecer que a crise climática continua a ser o maior desafio que a Humanidade já enfrentou”, pode ler-se no site do movimento ambientalista português Climáximo. De facto, é irónico que a Humanidade precise de enfrentar uma terrível pandemia para cumprir, involuntariamente, grande parte daquilo para o qual a comunidade científica vem a alertar há décadas: temos de consumir menos, produzir menos e encontrar fontes de energia alternativas aos combustíveis fósseis (petróleo, gás, carvão), ou estamos todos tramados. Alice Stocco, do departamento de Ciências Ambientais da Universidade de Veneza, pretende usar este momento atípico enquanto exemplo no projeto de investigação que propõe a recuperação dos canais e da qualidade do ar da cidade – o que resultaria, ao mesmo tempo, no resgate da beleza romântica da velha sereníssima. Nesta linha, à escala planetária, a Greenpeace, entre outras organizações e movimentos ambientalistas, faz apelo a que se aproveite a infeliz oportunidade para sonhar com um mundo diferente. Mas o que podemos nós, cidadãos comuns, fazer em relação a isto?

Em primeiro lugar, é fundamental não encararmos a pandemia enquanto fenómeno externo, fruto do castigo divino ou acaso natural. Nas palavras do professor Soromenho-Marques, não podemos fingir que nada disto tem a ver com “a forma como está organizada a sociedade, a produção e a economia, mas pelo contrário: é exatamente por estar organizada da forma que está que nós chegámos aqui”. Mais de 75% das novas doenças na última década tiveram, segundo a Organização Mundial de Saúde, origem em animais, sendo consequência direta do comércio e consumo de carne, aliados à destruição pela indústria dos habitats naturais. O novo coronavírus não é exceção: surgiu nos mercados de animais exóticos na China e já são vários os apelos a que este comércio seja proibido.

Todavia, o problema não acaba aí, nem devemos perder-nos em discursos chauvinistas. É o sistema global que tem de mudar, se queremos durar enquanto espécie. O alastramento de novas doenças é uma de várias consequências previstas há muito pela comunidade científica, fruto de um sistema económico cego e híperconsumista que destrói o equilíbrio dos ecossistemas. As fabulosas imagens do reino animal, flagrantes desde que o COVID-19 se instalou – veados e corsas a saltitar no Japão, leões a passear no alcatrão sul-africano, elefantes a marchar nas ruas de Yunnan ou os bandos de macacos em protesto na Tailândia – não vêm, portanto, dizer-nos que os humanos são o vírus, mas sim que os humanos são responsáveis por este vírus. É um facto. Independentemente do poder poético e metafórico destas imagens, são fenómenos esplêndidos que devem relembrar-nos o nosso papel na Terra, como sinais subtis para uma urgência óbvia. Fazemos parte de um ecossistema cuja força e beleza nos ultrapassa. Seria suicida regressarmos ao mesmo, depois de Corona.

De seguida é, mais do que nunca, essencial exigir aos governos medidas sérias para a mitigação da crise climática, enquanto é tempo. O regresso à tão-aclamada normalidade dará compreensivelmente um foco muito grande à recuperação da economia global, mas é essencial não retomar o caminho do cataclismo. Não podemos regressar ao normal sem conceber um novo normal. O bloqueio industrial não é viável no sistema económico atual, claro, mas a habitual espiral de consumo e produção irresponsável também não, diz-nos ciência. A adaptação será complexa, mas vital e, como se vê, conseguimos perfeitamente organizar-nos em defesa do bem comum quando tem de ser. A crise pode e deve ser um primeiro passo no processo de transição justa: a passagem para um sistema económico verde, baseada na salvaguarda da coesão e justiça social. Há vários projectos em desenvolvimento neste âmbito. É fundamental renovar fontes de energia, reformular transportes, estudar alternativas, construir novas redes de comércio e criar novos empregos: empregos verdes. Tudo isto depende da nossa pressão e do nosso envolvimento. Agora.

O despertar para a importância de preservarmos o planeta é a única arma válida no meio do braço-de-ferro contra a doença: garantir que saímos da crise para um mundo diferente, mais belo, mais justo e mais respirável.

Covid-19

Ontem era destino, fado, sina,
E estava escrito antes de se nascer.
Hoje se morre à toa, por morrer,
Morrer é agora um fato de rotina.

Presidentes que não governam

Diante do drama humanitário e econômico causado pelo novo coronavírus, tem sido frequente a constatação de que faltam líderes no cenário mundial à altura da crise. Uma das raras exceções é a Alemanha, em que até políticos da oposição têm reconhecido o privilégio de poder contar, em momento tão delicado, com a liderança da chanceler Angela Merkel.

O caso brasileiro é de outra ordem. Não se trata de lamentar a ausência de lideranças magnânimas e altruístas. Aqui, o problema é básico. Desde 2003 o País tem assistido a uma sucessão de presidentes que, eleitos para governar, não governam, preferindo fazer do mandato uma contínua campanha eleitoral, seja para sua reeleição, seja para a eleição de seu sucessor.

A exceção foi o presidente Michel Temer, que buscou de fato governar, sem submeter o interesse público a questões eleitorais. No entanto, o interregno durou pouco. Tão logo assumiu o cargo, o presidente Jair Bolsonaro mostrou, sem maiores pudores, que reinstalaria a prática petista de não descer do palanque.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi exímio manobrista da cadeira presidencial para fins eleitoreiros. Nos oito anos em que esteve no Palácio do Planalto, Lula orientou toda a ação do governo, em seus mais variados âmbitos, em benefício da empreitada eleitoral do PT.


São abundantes, nos dois mandatos de Lula, os exemplos de captura do Estado para fins partidários. Ainda que contasse com o apoio da maioria do Congresso, Lula não realizou nenhuma reforma estruturante, receoso de que eventual aprovação poderia trazer riscos para sua reeleição ou para a eleição de seu sucessor. Com esse critério eleitoral a guiar o governo, Lula também não fez nenhuma ação que contrariasse, por exemplo, os interesses das corporações do funcionalismo. Os privilégios foram mantidos intactos. Além disso, valeu-se amplamente de nomeações nas estatais, agências reguladoras e cargos comissionados para o aparelhamento do Estado.

Candidata inventada a partir dessa lógica eleitoreira, a presidente Dilma Rousseff, uma vez no cargo, deu continuidade ao estilo petista de não governar. Sem enfrentar os problemas nacionais, ela optou por medidas populistas, em cópia piorada do voluntarismo de seu criador.

Quando começaram a aparecer os efeitos nefastos de sua política econômica, Dilma Rousseff temeu por sua reeleição e, em vez de fazer as devidas correções, fez o diabo para esconder a realidade dos olhos da população. Colocava em prática, assim, sua famosa frase, dita em 2013, de que “nós podemos fazer o diabo quando é a hora da eleição”. Reelegeu-se em 2014, mas pouco depois o País inteiro tomou conhecimento não apenas do tamanho da crise, mas da gravidade de suas pedaladas fiscais, o que lhe rendeu o devido processo de impeachment.

Durante a campanha de 2018, o candidato Jair Bolsonaro prometeu romper com a lógica eleitoreira. Disse até que pretendia “fazer uma excelente reforma política, acabando com o instituto da reeleição, que começa comigo, caso seja eleito”. Tudo isso foi logo esquecido. Desde o início do ano passado, Jair Bolsonaro imita à risca a estratégia de Lula de não governar, estando em contínua campanha eleitoral. Além de aprofundar a divisão do País – há sempre um inimigo a inventar, até mesmo dentro do próprio Ministério –, Bolsonaro esquiva-se de tudo o que possa representar algum risco eleitoral, como é o caso da reforma administrativa.

Prometida várias vezes, até agora a proposta do Executivo não saiu do forno. Além disso, o presidente comporta-se no pior estilo da propaganda eleitoral, falsificando a realidade. “Nosso time está ganhando de goleada”, disse Bolsonaro, em coletiva no mês passado para tratar da pandemia do novo coronavírus. Maior alheamento, impossível.

Como escreveu Rosângela Bittar no Estado, “ambos, Bolsonaro e PT, recrudescem a polarização para evitar que o centro, em crescimento evidente, os atropele. Jogam para daqui a três anos sem saber o que acontecerá daqui a três horas”. Que o eleitor, nas próximas eleições, não se esqueça dessa irresponsabilidade e indiferença em relação ao País. É preciso eleger quem queira de fato governar.

A peleja entre Bolsonaro e o coronavírus

Corte! Recuemos 10 ou 14 anos. O presidente da República chama-se Luiz Inácio Lula da Silva. Com dificuldades para governar, ele autoriza militantes do PT a irem às ruas em seu socorro. No dia marcado, um grupo numeroso de militantes, empunhando bandeiras vermelhas e vociferando contra o Congresso e a Justiça, se concentra diante do Quartel-General do Exército, em Brasília. Lula aparece, discursa e prega a ascensão do povo ao poder.

Como reagiriam os militares? Soltariam uma nota condenando o ato de natureza claramente golpista? Pelo menos uma nota para garantirem que nada tiveram a ver com o que assistiram tão de perto? Renovariam seu compromisso em respeitar a Constituição? Ou nada fariam, recolhendo-se ao silêncio? O “povo no poder” dito por Lula soaria à provocação, coisa de esquerdista? O de Bolsonaro, um extremista de direita, como coisa normal?

O Grande Mudo, como é conhecido o Exército, foi dormir calado. Políticos de todos os matizes foram dormir apreensivos. Quando se pensa que Bolsonaro ultrapassou todos os limites da irresponsabilidade, ele vai adiante. No seu caso, por desespero, mas não incoerência. Bolsonaro enveredou há muito tempo pela Avenida da Irrelevância. Perdeu o bonde da História quando subestimou o coronavírus. Não soube ou não quis corrigir o passo.


Por incoerência não morrerá. Foi um mau militar, como dele disse o ex-presidente Ernesto Geisel. Afastado do Exército por indisciplina e conduta antiética, alojou-se durante 28 anos na Câmara e, ali, foi um deputado sem nenhuma importância. Acidentalmente eleito presidente, o que se poderia esperar dele se não que fosse um presidente medíocre? Muita gente, mesmo assim, ainda acha que valeu a pena porque derrotou o PT.

A situação terá que piorar muito para que só depois comece a melhorar, ouvi de um ministro do Supremo Tribunal Federal. Em meio a uma pandemia, não se depõe presidente. Sirva de consolo que em meio a uma pandemia também não se aplica golpe. Impeachment não é golpe. É instrumento previsto na Constituição para remover governantes ineptos que perdem o apoio político necessário para governar. A hora de Bolsonaro chegará.

Ninguém, mais do que ele, se empenha tanto para que chegue a hora da verdade. Bolsonaro compete com o coronavírus para ver quem causará maior estrago ao Brasil.

Brasília, túmulo da ética e da moral no Brasil, comemora o Jubileu de Diamante

Nesta terça-feira. 21 de abril de 2020, ocorre o “Jubileu de Diamante” de Brasília. Sessenta anos do poder distante do povo. A lonjura da opinião pública resultou na implantação de uma ordem política corrompida, baseada no ganho fácil, no antitrabalho e na corrupção. E isso veio e vem ocorrendo desde a sua construção e inauguração.

Para que os funcionários trabalhassem em, o governo dobrou-lhes os salários e os presenteou com os apartamento funcionais. De lá para cá, os “penduricalhos” nas remunerações foram se expandindo.

Em Brasília, longe do povo, a classe política passou a legislar em causa própria e para os agentes públicos dos demais poderes; além dos salários altíssimos, criou para si verba de gabinete; auxílio terno; auxílio moradia; “cotão” inclui passagens aéreas, fretamento de aeronaves, alimentação do parlamentar, cota postal e telefônica, combustíveis e lubrificantes, consultorias, divulgação do mandato, aluguel e demais despesas de escritórios políticos, assinatura de publicações e serviços de TV e internet, contratação de serviços de segurança, além dos telefones dos imóveis funcionais, de uso livre e sem franquia, que estão fora do “cotão”.

Os agentes públicos dos demais poderes também foram beneficiados com significativa soma de “penduricalhos”. O corporativismo é como um vírus contagiante.


No Rio de Janeiro todos os deputados federais e senadores residiam na cidade, com suas famílias, em imóveis urbanos comuns como os demais moradores. E com eles se integravam socialmente, o que era um possante estimulante para que tivessem perfeita conduta cívica e honesta, pois seria muito desagradável que suas fotos saíssem nos jornais ilustrando matérias referentes a atos de corrupção.

De fato, a interação social existente no Rio de Janeiro era um forte elemento disciplinador, que alcançava a todos os agentes públicos dos demais poderes.

No Poder Judiciário, vamos tomar por exemplo o Supremo Tribunal Federal, instituição que enquanto esteve sediada no Rio de Janeiro (1829-1960) permaneceu protegida pelo manto da discrição. Seus ministros caminhavam a pé pelo centro da cidade, sem guarda-costas (hoje apelidados de “seguranças”) e eram respeitados por toda a população.

A vida recatada do Supremo sofreu brusca alteração após a mudança da capital para Brasília. Hoje há até transmissão ao vivo das sessões, nas quais ministras e ministros, que deveriam se recatar sob a liturgia exigida pela toga, envolvem-se em exibições de soberba, poder e erudição e não titubeiam nas frequentes manifestações de rivalidade, ira e orgulho.

E não raro tomando decisões das quais até Deus duvida, sempre com base nas leis aprovadas pelo Congresso Nacional, cujos componentes atuam contra a vontade do povo, fingem que não escutam o grito desesperado das ruas, desprezam os urgentes anseios de probidade da sociedade e aprovam leis que inibem a punição dos ladrões do dinheiro público.

No Rio de Janeiro, capital da República, a sentença condenatória emitida por juiz de primeiro grau, mesmo recorrível, tinha dupla consequência: nas infrações inafiançáveis, ser o réu preso ou conservado na prisão; e nas afiançáveis, preso enquanto não prestasse a fiança. E mais, o nome do réu seria lançado no rol dos culpados

Naquele tempo eram raros os crimes de colarinho branco e praticamente impossível advogado criminal ficar milionário. Com a mudança da capital para Brasília, a legislação mudou e hoje, em síntese, permite que processos julgados em segunda instância, em Tribunais de Justiça (estaduais) tenham acesso à terceira e quarta instâncias.

E até que condenados em terceira instância fiquem em liberdade viajando para o exterior, como o ex-presidente Lula.

A impunidade também é garantida por nossa Carta Magna que prevê o Foro Privilegiado, funesto para o Brasil e maldito para os seus cidadãos decentes.

Até aqui foram descritos fatos. Tenho lido muitos textos que afirmam peremptoriamente que Brasília deu errado. Outro dizem, que deu certo. Respeito todos os autores. Fui favorável, quando jovem, à mudança da capital para o Planalto central, mas os fatos me levaram a pensar diferente, pois mostraram que o Império de Brasília foi feito com roubalheira para a roubalheira e marcou o princípio da corrupção do Estado, com obras superfaturadas desde o seu início, cujo objetivo sempre foi estabelecer um governo permanente que escravizaria o povo brasileiro.

O tempo, senhor da razão e pai da verdade, provou exatamente isso. Ratificou que os faraós do Egito construíram túmulos para si e o faraó-cigano tupiniquim os bateu em apoteose mental, construiu um túmulo para a ética e a moral de seu país, um túmulo para o Brasil. E Brasília deu mesmo certo, porque foi construída para ser o que é hoje e jamais mudará.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Brasil no carro presidencial


Tristes, generosos, apaixonados? Somos ratos de laboratório em um experimento natural

Durante a Segunda Guerra Mundial, o embargo de alimentos imposto pelas tropas nazistas provocou uma fome catastrófica na Holanda. As sequelas desse período marcaram para sempre a saúde dos fetos que estavam sendo gerados nos ventres de grávidas famintas. Essa terrível experiência permitiu que a ciência entendesse mecanismos do desenvolvimento humano e sua genética que, de outra maneira, teria sido impossível: durante décadas, a análise dessas crianças e de seus descendentes forneceu material de estudo muito valioso. É o que se entende como um experimento natural: uma experiência que não podemos controlar, mas afeta decisivamente os sujeitos e nos permite estudar as consequências. Algo parecido, mas ao contrário, ocorreu quando Pequim decidiu reduzir drasticamente a poluição para não prejudicar os Jogos Olímpicos de 2008. Esse experimento natural permitiu observar que os bebês gerados nesse período sem fumaça nasceram muito mais saudáveis que os anteriores.

Hoje, bilhões de pessoas estão vivendo na pele um novo experimento natural em escala gigantesca. E milhares de pesquisadores, de todas as disciplinas, estão aproveitando para estudar seus efeitos.

Talvez isso marque para sempre nossas vidas, certamente serão publicados, durante décadas, estudos analisando este período e suas consequências psicológicas, políticas, econômicas, no consumo, nas relações sociais... Mas também é necessário estudá-lo já para melhorar as políticas que estão sendo adotadas. “Muito mais pessoas do que pensávamos estão cumprindo as medidas de distanciamento”, afirma Margarita Gómez, pesquisadora da Universidade de Oxford, que está analisando uma pesquisa realizada atualmente em um grande número de países, de Rússia e Índia até México e Argentina. “Temos de entender como as pessoas estão se comportando, é algo que nunca aconteceu, por isso gera grande incerteza e demanda por informações”, acrescenta Gómez, diretora do People in Government Lab de Oxford. “Há uma alta aprovação, pelos cidadãos, das políticas públicas mais exigentes quanto ao distanciamento social, vemos isso em todos os países.” Além disso, a saúde mental da população se ressente quando as pessoas consideram que seus governantes estão sendo pouco contundentes. No entanto, os pesquisadores estão analisando as características particulares de cada país: “Não há receitas gerais”, diz Gómez. “No México, com 30 ou 40 milhões de pessoas que vivem em situação precária, não dá para fazer como na Dinamarca.”

Outro aspecto observado é que aqueles que menos seguem essas normas são, em todo o planeta, homens jovens de 30 a 40 anos. “Talvez influa o fato de que são eles que têm de sair para trabalhar e ganhar a vida”, aponta. Esse padrão foi observado em diferentes estudos concentrados em populações mais específicas, como um trabalho preliminar da Universidade Autônoma de Madri, que mostra as mulheres espanholas com “uma atitude mais responsável” em relação à pandemia, ou outro feito com italianos, que indica que os homens jovens e com emprego fixo são os menos favoráveis a ficar em confinamento. Na França, somam-se a esse grupo as pessoas com ideologias mais extremistas. “Como é mais difícil mudar o comportamento de homens jovens, acreditamos que é algo que deve ser levado em conta nas mensagens dirigidas à população”, explica Gómez.

Alfredo Rodríguez e sua equipe da Universidade Complutense de Madri foram uns dos primeiros a apresentar um trabalho sobre a psicologia dos confinados: já na primeira semana foram observados maiores índices de ansiedade, depressão, estresse e problemas de sono. Nas etapas seguintes de seu estudo (o questionário já foi enviado oito vezes), viu-se como a população estava se acostumando à situação até ser prorrogada a quarentena, o que provocou uma intensificação dos sintomas. “Existe uma enorme preocupação com a situação trabalhista, há incerteza quanto ao futuro, e isso gera desconforto e problemas para dormir”, assinala Rodríguez. Um fator socioeconômico ilustra isso: o jardim. “As pessoas com jardim têm significativamente menos níveis de ansiedade e depressão. Este fato certamente está relacionado com a possibilidade de passear ao ar livre e se expor ao sol e à vitamina D”, mas também com aspectos de classe, aponta o especialista, já que é mais provável que uma família com jardim tenha uma situação socioeconômica mais tranquila. Rodríguez destaca: “Também fizemos o estudo para transmitir uma mensagem normalizadora quanto ao mal-estar emocional: é natural que as pessoas se sintam mal, é razoável. Há quem se sinta culpado por se sentir mal”.

Rodríguez está particularmente preocupado com a saúde mental das crianças espanholas. São um experimento natural dentro do experimento natural: quando tudo terminar, será possível comparar sua evolução com a das crianças europeias que tiveram permissão para sair às ruas. Diferentes estudos em vários países observaram um padrão entre adultos responsáveis por menores de idade: mães e pais se sentem mal por não poderem dar o máximo de si no trabalho e no cuidado de seus filhos. Entre irlandeses, ter que dar aula para as crianças é uma das situações mais difíceis emocionalmente, e dois terços dos britânicos acreditam que não estão sendo capazes de cumprir suas obrigações nem como funcionários nem como pais.

“É quase impossível nos concentrarmos em nossos trabalhos anteriores, porque parecem irrelevantes; queremos ajudar a entender esta situação”, afirma Libertad González, da Universidade Pompeu Fabra, que redirecionou seus estudos sobre a economia do trabalho e o gênero para o peso das tarefas familiares e domésticas em tempos de confinamento. “Estudamos se essa carga vai recair sobre as mães, se aumentou ou se foi compensada neste período. Também queremos ver como as políticas familiares prévias, como a licença-paternidade, influem nos pais que já estavam se encarregando mais dos filhos: se agora continuam sendo mais igualitários ou se isso se reverteu.”

Gabriel González de la Torre, da Universidade de Cádiz, está reutilizando os mesmos questionários que aplica em seus estudos sobre a psicologia das viagens espaciais. “É uma situação análoga, uma grande oportunidade, porque você tem as pessoas fechadas em casa, embora em uma situação que vai mudando. Sofremos porque não vemos o final da missão, como se tivéssemos um contratempo na nave e a volta para casa fosse adiada”, explica o psicólogo, crítico da pouca atenção que as autoridades estão dedicando à saúde mental. Juntamente com outras universidades europeias, a de Cádiz está estudando efeitos psíquicos, mas também questões como conflitos e consumo de estimulantes.

Os estudos que estão sendo realizados são inúmeros. A Universidade do Texas observou que há pessoas que passam quase uma jornada de trabalho, mais de sete horas diárias, mergulhadas em assuntos relativos à pandemia. Esse fator, a exposição permanente a informações sobre o vírus, aparece diretamente relacionado com sintomas depressivos e consumo de álcool. Na Universidade de Salamanca está sendo analisada essa influência da exposição às mídias sociais, como o WhatsApp, na percepção de risco e no mal-estar afetivo. Uma equipe da mesma universidade está descrevendo o fenômeno dos músicos de varanda, e no Loyola Behavioral LAB, em Córdoba, está sendo estudada a evolução da generosidade com o medo da pandemia. Nos EUA, observou-se que as pessoas mais acumuladoras são aquelas que mais têm, as que se sentem mais sozinhas e as mais jovens; que no Twitter está sendo vivido o maior período de tristeza; que os casais que se davam bem estão se dando melhor; e, como apontou o Instituto Kinsey, que a situação está sendo aproveitada para ampliar o repertório sexual.

Os aspectos políticos também estão sob a lupa acadêmica. Um grupo da Universidade de Barcelona, por exemplo, observou nos espanhóis uma mudança inicial nas preferências em direção a um Governo tecnocrático e autoritário. O sociólogo Pep Lobera, da Universidade Autônoma de Madri, está estudando a confiança na resposta de instituições e de Governos à crise, com dados de sete países. Os dados mostram, por exemplo, que em todos esses países a resposta de seus respectivos Governos é considerada muito fraca. “É muito complicado analisar algo em que você mesmo está envolvido, mas é difícil se concentrar em outras coisas. Acredito que muitos de nós pesquisamos aspectos da pandemia como uma pulsão defensiva diante do que está acontecendo conosco... É muito mais fácil começar a trabalhar nisto que está afetando tudo”, admite Lobera.

Mas pode haver um problema com muitos destes estudos. Para fornecer informações rapidamente, muitos deles estão circulando como pré-publicações, antes que outros colegas verifiquem que seus resultados são completamente confiáveis e úteis. Para evitar esse problema, no campo da psicologia já se organizaram pequenos exércitos de revisores para garantir que os estudos sejam publicados com rapidez, mas também com qualidade. “Queremos gerar dados o mais rápido possível, mas tomar as decisões mais bem informadas possíveis”, destaca Margarita Gómez. Por exemplo, a psicóloga experimental Helena Matute, da Universidade de Deusto, em Bilbao, pensou durante semanas em realizar um trabalho, mas acabou descartando a ideia. “Podemos fazer um experimento sobre pensamento mágico e ver que os níveis estão muito altos. Tudo bem, ótimo, mas vamos compará-lo com o quê? Ou seja, não poderíamos concluir de maneira nenhuma que isso se deva à pandemia”, explica. Durante décadas serão estudadas as consequências do que está acontecendo nestas semanas, por isso é fundamental que a foto que for tirada deste momento seja da melhor qualidade.

Viver na incerteza

Simone de Beauvoir escreveu no célebre livro “O segundo sexo” que era difícil se sentir uma princesa, em tempos de menstruação, com um incômodo pano entre as pernas.

É difícil se sentir o rei da cocada preta fechado em casa, com um medo de uma invisível partícula proteica que mata as pessoas e devasta a economia planetária. Sobretudo, é difícil sentir-se dono de grandes certezas, num mundo em que a normalidade foi para o espaço.

Edgard Morin merece admiração por isso. É quase centenário, e seu pensamento ao longo dos anos evoluiu para enfatizar a complexidade e a incerteza.


Apesar de ter escrito muitas vezes sobre segurança biológica e ter detectado o impacto desse vírus nos seus primórdios, confesso que, como quase todos os outros, o subestimei.

Ao sair de Fernando de Noronha, em 16 de março, ainda tinha esperanças de seguir viajando pelo Brasil, na presunção de que o vírus não chegaria aos lugares onde vou.

De fato, tenho tido contato permanente com pontos remotos do Brasil e, à exceção de Fernando de Noronha e grandes cidades, o vírus ainda não chegou lá.

Esqueci-me das estradas, dos postos de gasolina, dos restaurantes e hotéis no caminho, dos perigosos aeroportos e aviões. E esqueci que estava bem próximo dos 80 anos.

Interessante nesse mundo de grandes incertezas como as pequenas certezas nos mobilizam. As redes estão cheias de conselhos sobre o que ler, como se exercitar, rezar, o que comer, a que filmes assistir, como organizar toda a rotina.

Essa enxurrada de conselhos às vezes confunde. Por isso, achei engraçado um áudio que caiu na rede. Era de um homem que lamentava com a amiga: todos dizem que tenho de lavar as mãos, lavar as mãos, não se esqueça de lavar as mãos, mas eu queria também tomar um banho, será que pode?

Da mesma forma, achei interessante o desabafo de uma jovem diante de um certo otimismo exagerado, do gênero “o coronavírus veio para melhorar nossos sentimentos, aumentar a solidariedade, mudar o mundo”.

O vírus veio para nos destruir e devastar a economia. Essa é a verdade inicial. Ele não é revolucionário. Tudo vai depender de nossas escolhas daqui para a frente.

Sem dúvida, bons sentimentos afloraram, milhares de profissionais de saúde arriscam suas vidas pelas nossas, mas houve também quem tentasse aplicar golpe nas pessoas que precisam dos R$ 600 emergenciais, gente que hostilizou enfermeiros em transporte público, países que confiscam carregamento de máscaras ou especulam com o preço de equipamentos médicos.

O mundo continua um espaço onde bem e mal coexistem, assim como a grandeza e a miséria dos seres humanos não desapareceram com o vírus.

Certamente, ficaremos materialmente mais pobres, com movimentos mais limitados e sempre sujeitos a um novo recolhimento forçado, enquanto não aparecer uma vacina.

Certamente, sairemos mais humildes e não pronunciaremos o termo civilização com arrogância. Mas o que nos favorece é a grande capacidade humana de se adaptar às novas situações, e encontrar uma centelha de felicidade mesmo nos lugares e momentos mais difíceis.

Às vezes, à noite, depois de uma torrente de notícias pesadas, acordo sobressaltado, qualquer tosse noturna traz sempre a pergunta: será ele, o vírus, será essa a hora?

Tomei todas as precauções. Se ele entrou pelo vão da porta, se veio navegando pelo suave vento que entra pela janela, o que fazer?

Nessas horas, respira-se fundo e se reafirma o compromisso com a vida. No mais é como dizem nos países hispânicos: "que vengan los toros", "let it be", na linguagem dos 60.

Assim como as viagens, segundo o poeta, nos lembram que estamos sós ao nascer, o vírus pelo menos tem a utilidade de nos lembrar que somos mortais. Com ou sem ele, temos de usar bem esse tesouro: o tempo que nos resta.

Não quero adicionar mais uma avalanche de conselhos que nos soterra desde o início da crise.

Mas já parou para sentir como é bom respirar?

Para aprovar novos 'benefícios' aos banqueiros, Guedes criou falsas salvaguardas

Conforme denunciamos aqui na Tribuna da Internet neste sábado, dia 18, o ministro da Economia, Paulo Guedes armou uma jogada de mestre no projeto do “Orçamento de Guerra” e incluiu um dispositivo que permite aos bancos “vender” ao Banco Central seus “créditos podres” (empréstímos a pessoas físicas e jurídicas que não foram pagos a longo dos últimos 15 anos). Esse suposto prejuízo dos bancos chega a quase R$ 1 trilhão, sem contar outros trilhões de correção monetária e juros de mora.

A armação feita por Guedes permite que o Banco Central possa comprar, em mercado de balcão e sem o menor controle, esses papéis antigos existentes nas carteiras de bancos. Essa vergonhosa excrescência, que nada tem a ver com a pandemia, veio a ser aprovada na Câmara.


Esse golpe no erário está previsto no parágrafo 9º do artigo 115, que autoriza o Banco Central a atuar em mercados de balcão e comprar qualquer tipo de papel privado, entre os quais derivativos e outros créditos, que incluem a carteira de empréstimos não pagos por clientes nacionais ou estrangeiros, sem qualquer limite ou controle. Com essa manobra, o governo assumirá os prejuízos e riscos dos bancos, engordando ainda mais seus lucros, às custas do Tesouro Nacional.

A especialista Maria Lúcia Fattorelli, criadora do site Auditoria Cidadã, identificou o golpe de Guedes e o denunciou ao senador Antonio Anastasia (PSDB-MG), relator da PEC 10/2020, que versa sobre o “Orçamento de Guerra”.

O relator da PEC 10/2020 se assustou, porque a proposta já tinha sido aprovada na Câmara. Mas cometeu um erro. Ao invés de derrubar o dispositivo, indagou à equipe econômica como deveria proceder.

Assim, na chamada undécima hora, Anastasia alterou seu parecer para impedir o golpe de Guedes, mas o resultado ainda não é satisfatório, porque a equipe econômica conseguiu deixar estratégicas brechas na lei.

O fato concreto é que Anastasia aceitou as “salvaguardas” de Guedes, mas todas são ilusórias. A primeira diz que o BC só comprará ações privadas desde que limite as operações a mercados secundários nacionais, mas isso não altera o risco e a obscuridade das operações nesse mercado de balcão, pois papéis relacionados a créditos internacionais podem ser negociados no mercado nacional.

A segunda “salvaguarda’, segundo a equipe de Maria Lucia Fattorelli, também é ardilosa. Prevê que os ativos a serem adquiridos pelo Banco Central tenham classificação em categoria de risco de crédito equivalente a “BB-“, ou seja, coloca na Constituição que o BC poderá comprar ativos de “grau especulativo”, que é o significado de “BB-“.

Além disso, s agências classificadoras têm tido sua conduta seriamente questionada, em especial desde a Crise de 2008, por atuarem a favor de seus contratantes, ou seja, os bancos, com evidentes conflitos de interesses. Também têm sido acusadas de fraudes até em processos movidos pelo governo dos Estados Unidos,

Ademais, será altamente questionável a avaliação, por uma agência internacional de risco, de derivativos privados emitidos por empresas não-financeiras, sendo que tais ativos sequer são negociados em bolsas de valores! É evidente a impossibilidade de uma avaliação minimamente séria!

Por fim, Anastasia aceitou dar preferência à aquisição de títulos emitidos por micro, pequenas e médias empresas, o que denota desconhecimento quanto ao tipo de empresa que pode emitir papéis financeiros (debêntures e derivativos que a PEC 10/2020 menciona).

Somente grandes empresas – S/A – podem emitir tais papéis, a não ser no caso de empresas de fachada, fantasmas, ou as novas empresas estatais não dependentes, que têm sido criadas para operar esquemas financeiros fraudulentos da denominada Securitização de Créditos Públicos (estas costumam ser criadas com capital reduzido e emitem debêntures com garantia estatal elevadíssima).

O próprio relator, em seu parecer, afirmou que nenhuma empresa seria beneficiada com recursos dessas aquisições feitas pelo Banco Central, e chegou a usar essa afirmação como argumento para rejeitar emendas de senadores que pediam contrapartidas (manutenção de empregos e não distribuição de lucros aos sócios). Ou seja, os bancos é que serão os maiores beneficiários.

Como se vê, o relator Anastasia foi iludido ou se aliou à equipe econômica, ao aceitar as falsas salvaguardas. Agora a PEC desceu para a Câmara, e espera-se que seja expurgada mais essa generosidade do ministro Guedes para seus amigos banqueiros.

Agora, as perguntas do site Auditoria Cidadã, que a equipe econômica e o presidente da República têm de responder, são instigantes, inquietantes e intrigantes: “Por que autorizar o Banco Central a comprar de carteiras de derivativos e outros papéis privados de empresas e bancos nacionais e estrangeiros em poder dos bancos? Isso não significará ajuda alguma para as empresas ou para a economia do país, mas exclusivamente beneficiará os bancos! E isso não tem absolutamente nada a ver com a pandemia do coronavírus! Qual é a urgência dessa medida?”

Perdemos o caminho de casa

1.

Volte para o quarto da sua infância que não existe mais. Antes disso, tente reconstruí-lo intacto, suspenso no ar.

O cômodo era simples, quadrado, uma cela com as dimensões da que você ocupa hoje, décadas depois. Em frente ao catre, uma mesinha com o tesouro mais valioso: uma caixa robusta de metal, um Gradiente MSX, ligado ao televisor de tubo e ao teclado. Ali você se debruçava para datilografar linhas em BASIC reproduzidas de compilações com encadernação colorida. Eram formas geométricas em arranjos cinéticos, objetos craquelados, enigmas, ilusões, livro-jogos que você reinventava – para depois perdê-los num átimo, a cada tomada elétrica.

Não havia conexão telefônica, discos, nem sequer fitas-cassete num datacorder, seu som estridente transformando-se em código. O aparelho não guardava nada, o jovem monge recopiava.

Na cabeceira, um pequeno refletor iluminava sobre os lençóis pilhas de livros, ele próprio equilibrado sobre outra. Junto à janela, uma amendoeira antiga, e às vezes o vento levava uma grande folha cor de cobre – gentileza da amendoeira. Que tinha outras: rolinhas cinzentas que entravam corredor adentro, seguindo riscos de alpiste até a sala.

E, no verão, como as cigarras zuniam. E, toda noite, como os boêmios urravam – vivíamos sobre um bar. Em certas tardes mudas dos finais de semana, você desenterrava um carretel parrudo e traçava teias, amarrando os móveis uns aos outros até que ninguém pudesse passar por ali, o derradeiro laço envolvendo o nó de porcelana da porta, agora fronteira trancada entre você e o mundo.

2.

Andamos com mania de passado.

Cada dia trancado em casa, um passo montanha acima, de onde tentamos contemplar o caminho que nos trouxe até aqui – sobre um mar de névoa, como naquele óleo de Caspar David Friedrich.

E lembrar, talvez de quartos em que a porta podia ser aberta, o barbante cortado. Onde fomos felizes com amores antigos, que nos vêm de assalto, como um sopro de ar quente no meio de uma dessas tardes tão iguais à ontem. Quartos de onde vimos os fascistas marchando pela janela, enquanto nossa cama convertia-se num porão. Quartos, ainda, onde olimpicamente sozinhos abandonamos toneladas de horas encarando o teto, mas cujas regras e horários de entrada e saída eram definidas pelo nosso desejo – ou equilíbrio dos neurotransmissores, que seja.

Hoje, vivemos em cidades sem cigarras e pássaros, nossos apartamentos da infância já foram demolidos. Trancar-se não é mais uma opção, e as portas apenas sublinham nossa fragilidade. Do alto da montanha, quando as nuvens se dissipam, finalmente enxergamos um labirinto. Como Paul Valéry olhando a lua ao amanhecer, "como se eu não estivesse em meu coração".

Todos perdemos o caminho de casa, todos – e ao mesmo tempo.


3.

Minha amiga em Berlim diz que as pessoas estão experimentando um tipo de depressão forçada. Algo que nós, jedis do claustro, conhecemos bem. Lanna escreve: "Nós compartilhamos esse ciclo desafortunado de notícias, novas mortes, esse e aquele desastre, regras contra o contágio, e a dúvida se isso vai mudar tudo, e se nada for igual de novo, e o que isso significa? Quantas mortes hoje, as pessoas estão exagerando, quais são as regras, como lavo as mãos, e se eu não estiver lavando minhas mãos o suficiente? E daí nós tentamos nos distrair com filmes, ou pornografia, ou lendo, e ficamos cada vez mais tempo com a tela, sozinhos. Parece demais e não o suficiente ao mesmo tempo."

Meu amigo em Paris está visitando hospitais para escrever sobre a pandemia. Mario escreve: "Hoje fui a uma unidade dos pacientes mais críticos. Grande maioria de homens. Muitos usando um pulmão artificial. Não é um respirador. É uma máquina que drena teu sangue, oxigena e injeta de novo no teu corpo. Perguntei pro médico qual era a porcentagem de pacientes curados. Ele me disse que 30%. Até agora não sei se entendi direito, embora faça todo o sentido pelo que se vê. Vários ali já parecem mortos. Todos na faixa dos 35 aos 55 anos, sem patologias prévias."

"Tudo bem?" – minha amiga de São Paulo pede desculpas antes de desabafar: "Você quer mesmo saber? É que hoje 'tudo bem' deixou de ser uma pergunta retórica."

4.

Uma pandemia vivida 24/7 online: talvez não exista outro evento histórico a unir tantos seres humanos sob a mesma circunstância. Mesmo as Guerras Mundiais do século passado desenrolaram-se com lógica mais fragmentada, espalhadas pela cronologia e pelo espaço. Mas hoje parecemos estar sob a mesma ameaça, com os mesmos temores, ao mesmo tempo.

Nunca antes tão juntos – e tão sozinhos em nossos quartos.
J.P. Cuenca

domingo, 19 de abril de 2020

Os mortos de Bolsonaro

Jair Bolsonaro não é economista, historiador, sociólogo, advogado ou médico, o que lhe daria pelo menos instrução básica. Também não é empresário, fazendeiro ou banqueiro, com o que teria alguma visão do país. Sempre foi um político menor e da Velha Política —que, como candidato, fingia combater e, no Planalto, pratica nas barbas de seus seguidores.

Velho político, Bolsonaro deveria perceber uma oportunidade quando ela se apresentasse. Com a dissolução da economia, do meio ambiente, das relações exteriores, da educação e da cultura em seu governo, a Covid-19 seria um inimigo ideal a enfrentar —numa luta em que ele teria o país a seu favor e que, caso vitoriosa, apagaria as brutalidades que já cometeu.


No passado, outro presidente, Rodrigues Alves, sobre quem não pairava a menor nódoa, passou à história como o governante que mais combateu as epidemias no país. Em sua gestão, 1902-06, ele erradicou a febre amarela e a peste bubônica e, mesmo com enorme desgaste político, impôs a vacina obrigatória contra a varíola. Foram campanhas vitoriosas, graças ao homem que as criou e coordenou: seu diretor-geral da Saúde Pública, Oswaldo Cruz, nomeado por ele. Não havia ciúme —eles lutavam a favor da vida.

Bolsonaro, ao contrário, prefere lutar a favor de sua miserável campanha pela reeleição em 2022. O preço disso já se faz sentir. O Comando da 1ª Região Militar, no Rio, está mandando os postos de recrutamento contar as sepulturas do estado. Também no Rio, o cemitério de S. Francisco Xavier apressa a construção de 2.000 gavetas. No de Vila Formosa, em São Paulo, o maior da América Latina, os enterros estão sendo feitos em covas rasas e têm de levar no máximo dez minutos. Nos hospitais de Manaus, já há cadáveres no chão ao lado de pacientes nos leitos.

O país se torna um enorme jazigo ao ar livre. São os mortos da Covid —e de Bolsonaro.
Ruy Castro