domingo, 22 de novembro de 2015

'Impacto de lama no mar seria como dizimar Pantanal'

Lama do desastre em Mariana chega à foz do rio Doce
A chegada da onda de lama, resultado do rompimento de uma barragem em Mariana (MG) há duas semanas, ao Oceano Atlântico ─ prevista para ocorrer neste domingo ─ teria um impacto ambiental equivalente à contaminação de uma floresta tropical do tamanho do Pantanal brasileiro.

A afirmação é do biólogo André Ruschi, diretor da escola Estação Biologia Marinha Augusto Ruschi, em Aracruz, Santa Cruz, no Espírito Santo.

De acordo com Ruschi, os 62 bilhões de litros de rejeitos do beneficiamento do minério de ferro ─ o equivalente a 25 mil piscinas olímpicas ─ despejados ao longo de 500 km da bacia do rio Doce atingiriam cerca de 10 mil km² numa região conhecida como Giro de Vitória, importante celeiro de nutrientes para animais marinhos, como a tartaruga-de-couro (ameaçada de extinção), o golfinho pontoporia e as baleias jubartes.

'A lama que chega carregada pelas correntes vai se depositar inicialmente numa área menor, mas como o tempo ─ devido a chuvas, por exemplo ─ pode afetar áreas maiores, Estamos falando do eixo de funcionamento de todo o Atlântico Sul. Essa é a região de maior biodiversidade marinha do mundo. É um sistema especial, único, importante e fundamental'
 .Ele estima que a descarga tóxica contaminaria principalmente três Unidades de Conservação marinhas ─ Comboios, Costa das Algas e Santa Cruz, que juntas somam 200.000 hectares (2.000 km²) no oceano.
Ruschi lembra, contudo, que como o ecossistema marinho é mais vulnerável do que o terrestre, o impacto no mar seria proporcional à contaminação de uma área continental dez vezes maior ─ ou 20.000.000 hectares (200.000 km²) ─ de floresta tropical primária.

(AFP)

"Seria como dizimar, de uma só vez, todo o Pantanal", afirma Ruschi à BBC Brasil. O Pantanal se estende por 250.000 km² pelo Brasil, Bolívia e Paraguai.

"O ecossistema marinho é muito mais eficiente na biossíntese do que o terrestre. Cerca de dois terços de toda a biomassa do planeta é produzida em apenas 5% ou 6% dos oceanos. Trata-se da borda dos continentes ou de regiões com menos de 200 metros de profundidade, onde as algas podem receber luz e fazer fotossíntese", explica.

Ruschi acredita que, se nada for feito, o prejuízo ambiental do 'tsunami marrom' pode demorar 100 anos para ser revertido.

sábado, 21 de novembro de 2015

Crise imóvel

O nó da crise parece longe de vir a ser desatado. Está claro que o governo investiu pesado numa operação-desmonte, até aqui bem-sucedida, tendo como peça fundamental o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, cuja missão consiste em brecar o rito do impeachment: nem encaminhá-lo, nem negá-lo.

Qualquer das duas opções – encaminhar ou arquivar - deflagra o processo, e a presidente Dilma levou a sério a advertência de Fernando Collor de que, uma vez iniciado, não há como detê-lo. Não convém desprezar a voz da experiência.

Cunha, que integrou todos os governos petistas, refluiu de sua atitude hostil inicial quando assumiu a presidência da Câmara, e perfilou-se à estratégia, comandada por Lula e Jacques Wagner.

Nada como o ronco de um camburão para desfazer arroubos de independência. Cunha luta para sobreviver e, mesmo sabendo que a hipótese de triunfo é remota, aceitou os termos da rendição.

O governo aciona uma espécie de estratégia das tesouras: de um lado, blinda Cunha, prometendo defendê-lo na comissão de ética (sim, existe uma, na Câmara!); de outro, orienta a militância – inclusive de aliados, como PSol e PCdoB - a exibir indignação moral contra Cunha. A tesoura está em movimento.

De um lado, Cunha é imobilizado pela esperança de ser salvo; de outro, faz o papel de boi de piranha, lançado separadamente ao rio, para o banquete das piranhas, enquanto o rebanho passa ao largo, livre do assédio.

A delinquência de Cunha, comparada às denúncias da praticada por gente do PT e por pelo menos dois ministros de Dilma – Aloizio Mercadante e Edinho Silva, além do próprio Lula -, é pinto.

Mas, concentrando nele a fúria moralista, o governo atravessa o rio da impunidade sem problemas. As piranhas concentram-se no boi Cunha. Está funcionando e o fim do ano se aproxima. Vencido 2015, o próximo ano trará seus próprios desafios e novas ações táticas serão concebidas. Nisso, o governo é bom.

Outro aliado é a espantosa inépcia oposicionista. À exceção de uns poucos discursos mais veementes de um ou outro parlamentar – e discurso não machuca ninguém -, a oposição nada de propositivo oferece à superação da crise, nem para derrubar o governo, nem para absorvê-lo. Assiste a tudo como observadora neutra. Marina Silva? Aécio Neves? FHC? Silêncios veementes.

Domingo passado, pela quarta vez este ano, as manifestações de rua movimentaram o país, nas capitais e no interior. Mais uma vez, a avenida paulista recebeu, segundo a Polícia Militar, um milhão de pessoas pedindo a saída da presidente. Nem mesmo a mídia, que parece acompanhar o refluxo do Congresso, deu grande importância.

Há quase um mês, manifestantes estão acampados em frente ao Congresso, pedindo que o pedido de impeachment seja examinado. A única resposta, até aqui, foi expô-los à ação de milícias travestidas de movimentos sociais, cada vez mais hostis e criminosas em sua ação predadora. A oposição nada diz ou faz.

Instalou-se um ambiente de exceção. Os caminhoneiros são punidos, com uma medida provisória inconstitucional, por obstruir as estradas, mas o MST é estimulado a fazê-lo.

Na manifestação de domingo, o acesso a Brasília estava barrado pela militância esquerdista. Os caminhoneiros viram-se numa situação singular, simultaneamente impedidos de parar e de trafegar, reprimidos não pela polícia (o Estado), mas pela militância, a soldo governamental.

A menos que Cunha se convença de que confiar na blindagem do governo é um delírio, e encaminhe o pedido de impeachment, o rito continuará este: nem sim, nem não, antes pelo contrário. Uma crise imóvel e anestesiada.

A hipótese de cassação pelo TSE, solicitada pelo PSDB, em vista do financiamento espúrio da campanha de Dilma, com dinheiro roubado da Petrobras – fato que a operação Lava Jato já evidenciou à exaustão -, é ainda mais remota, o que explica a indiferença dos tucanos à manobra bem-sucedida de manter na relatoria a ministra Maria Teresa, que queria arquivar o processo.

Enquanto isso, a economia continua a derreter, o desemprego exibe índices inéditos e a crise social prossegue em sua marcha inapelável e cada vez mais acelerada. É por aí que alguma coisa pode acontecer. Não há truques contra o desemprego e a alta do custo de vida – contra a realidade.

O governo pode até sobreviver, à base de manobras e trapaças, mas governar é outra coisa – e parece definitivamente fora de seu alcance.

Lula e D'Ávila: Metamorfose na Globo News

A montanha pariu um rato! Ou quase. Eis o sentimento (profissional e pessoalmente falando) deixado pela entrevista exclusiva do ex-presidente Lula, ao jornalista e ex-deputado constituinte Roberto D`Ávila, transmitida no começo da noite de quarta-feira, 18, pelo canal privado de televisão Globo News.

A meia hora de conversa gravada em São Paulo, na sede do Instituto Lula (o entrevistado achou o tempo curto e pediu mais, no ar, aos diretores da emissora, em meio ataques pesados à imprensa em geral e à cobertura diária dos escândalos e da crise do país na era PT em particular), foi o suficiente para o impacto do programa do ponto de vista jornalístico, político e do desnudamento de um mito em seus labirintos atuais, sem achar a saída salvadora.

Sob este ponto de vista, o programa foi quase impecável. Afinal, o apresentador é um notório conhecedor da literatura do País e do continente, hábil entrevistador de alguns de seus maiores nomes. Aprendeu como poucos a lançar iscas para pescar peixes grandes, que não resistem a um elogio ou um afago no ego desmesurado.


De terno e gravatas de grife, é verdade, mas, ainda assim, o Lula desta semana, no canal privado de TV, parecia muito um daqueles egocêntricos e tristes mandachuvas que povoam os romances de Garcia Márquez e de tantos outros autores notáveis do realismo fantástico na literatura da América Latina.

A conversa mostrou, na plenitude, a melancólica metamorfose de um "líder de resultados" (como o entrevistado gosta de ser considerado) a retirar, de público, uma a uma, praticamente todas as máscaras, peles e camuflagens sob as quais, frequentemente, tenta se esconder o antigo dirigente sindical de expressão global, ex-chefe da nação, criador do PT há 12 anos no poder, mentor da atual ocupante do Palácio do Planalto.

O entrevistado, mal (ou bem?) comparando, pareceu também, em certos momentos, um daqueles antigos prestidigitadores de rua – habituais, mas sempre surpreendentes nas praças e becos da Cidade da Bahia, onde Lula falou hoje, entre vaias e aplauss, nas comemorações do Dia da Consciência Negra - que esgotou o estoque de mágicas. Não consegue tirar do bolso da casaca nenhum truque novo. Até os bordões do tipo "nunca se viu antes na historia deste País" são repetitivos, óbvios, batidos. Cansam e irritam, em lugar de provocar a surpresa positiva e o riso de simpatia e apoio do passado.

O ar irritadiço do valente do tempo do "hoje eu não estou bom" gravado nas camisetas das lutas sindicais do ABC, não mais produz efeito favorável. Muito menos o "Lulinha paz e amor", de tantos palanques de campanhas eleitorais, funciona mais. Tais artifícios perderam força e substância, diante das graves e urgentes questões que cobram respostas verdadeiras, sérias, urgentes e sem os titubeios estranhos ou buracos que permearam a conversa na TV do começo ao fim: Mentiras da campanha para reeleger a companheira Dilma; tenebrosas transações expostas nas operações Lava Jato e Zelotes; sangria corrupta da Petrobras, tesoureiros, ex dirigentes, "velhos e bons amigos e aliados do PT", gente do círculo mais próximo do governo, na cadeia, sob investigação da P olícia Federal, ou já denunciados em processos judiciais.

Pouco restou de convincente nas respostas de Lula, salvo a ambição de dar prosseguimento ao mando petista nas eleições de 2018. A começar pelas frágeis negativas sobre manobras de bastidores para desgastar o governo da presidente Dilma (a afilhada que ele levou ao posto de mandatária maior do País), ou as articulações submersas para derrubar o ministro Joaquim Levy, da Fazenda, o estorvo maior do momento ao projeto de poder do entrevistado e do PT.

"É preciso comparar", ensina o garoto sueco Ingemar, sábio personagem do cultuado filme "Minha Vida de Cachorro", que de tempos em tempos recomendo neste espaço. Para isso é fundamental recorrer à ajuda da memória. Este bem precioso que dá significado à existência, mas cujo valor em geral só começamos à perceber, e a dar importância, quando começamos a perdê-la, como assinala o cineasta espanhol Luís Buñuel, no livro biográfico "Meu Último Suspiro", ao narrar sobre a amnésia de sua mãe com o passar dos anos, dolorosamente acentuada pelo mal de Alzheimer: "Chegou ao ponto de já não reconhecer seus filhos, não saber quem éramos nós, quem era ela", conta.

Mesmo no ambiente quase caseiro da conversa, o entrevistado parecia incomodado e tenso, agressivo, "armado" e atirando para todo lado, sem a pontaria de antes. Principalmente contra a imprensa e o amigo -inimigo preferencial de sempre, - o ex-colega de mando Fernando Henrique Cardoso. Sem reconhecer ninguém direito, nem os filhos, a deduzir pela resposta dúbia sobre as acusações da Operação Zelotes, que pesam sobre o caçula Luís Cláudio Lula da Silva. Sagacidade de mágico de rua, ou temor do futuro? Responda quem souber.

Os três poderes estão cada vez mais apodrecidos

Vamos falar sério, como pedia o saudoso Bussunda. Sob comando direto de autoridades como Dilma Rousseff, Renan Calheiros, Eduardo Cunha e Ricardo Lewandowski, os três Poderes da República atravessam a pior fase de toda a História, exatamente numa momento em que o país submerge num mar de corrupção e incúria. A economia está se derretendo, a dívida pública aumenta descontroladamente, a máquina administrativa cada vez mais obesa e ineficiente, os serviços públicos não funcionam, as agências reguladoras se omitem,o chamado custo Brasil pune os empresários, o ajuste fiscal anunciado pelo governo literalmente não existe, o país inteiro entrou em transe, mas os três mandatários se comportam como se estivessem no melhor dos mundos.

O presidente do Supremo, Lewandowski, tem um excelente curriculum jurídico, mas decididamente não se comporta como um magistrado, na expressão da palavra. Por exemplo, não fica bem que Sua Excelência saia de seus cuidados para participar de um evento aberto e fazer uma palestra classificando de golpe a possibilidade de processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Ele jamais poderia ter feito tal afirmação, porque é a Constituição Federal que prevê a hipótese de a presidente ser afastada, caso cometa irregularidades. E quando o presidente do Supremo chega a ponto de rasgar a Constituição em público, é sinal que as coisas realmente andam mal no país.

Este posicionamento público do presidente do Supremo é uma atitude que desonra o Judiciário, mostra que o Poder está tão podre quanto o Executivo e o Legislativo. Com toda certeza, Lewandowski deveria ficar calado e guardar as convicções políticas para si, sem tentar influir e impor constrangimentos. E nem adianta alegar que estava expressando uma opinião pessoal, porque suas declarações serão sempre atribuídas ao presidente do Supremo e não ao cidadão que ocasionalmente veste a digníssima toga.

Neste ponto, o presidente do Senado, Renan Calheiros, é bem mais discreto do que Lewandowski. Todos sabem que o político alagoano tem um histórico de corrupção, com amante mantida pela empreiteira Mendes Júnior, envolvimento com notas frias e tudo o mais. Sabe-se também que recentemente Renan fechou acordo com o Planalto, está apoiando o governo de peito aberto, porém não costuma se exceder, ninguém consegue fazer com que ele classifique de golpe a medida saneadora prevista na Constituição. Portanto, atualmente o senador demonstra mais decoro do que o presidente do Supremo, que vinha fazendo uma carreira ilibada até o julgamento do mensalão, quando era revisor do processo e votou a favor da inexistência de formação de quadrilha, para reduzir as penas condenatórias dos réus, especialmente José Dirceu, e conseguiu sair vitorioso, deixando uma mancha em sua carreira de magistrado.

Dilma Rousseff é ainda pior do que Lewandowski e Renan, que pelo menos sabem conduzir administrativamente Judiciário e Legislativo. Tudo o que ela faz no Executivo dá errado, não sabe se portar como presidente da República. Este mês, por exemplo, diante do mais grave crime ambiental do país, levou seis dias até ir à região, deu uma sobrevoada e nem saltou do helicóptero, com medo de ser vaiada. Depois, pegou o Aerolula e voltou logo para Brasília.

Sua administração é uma tragédia muito pior do que o desastre de Mariana, que destruiu uma cidade inteira e arruinou o outrora Rio Doce, cujo nome passará a ser apenas referência a um passado distante. Com sua arrogância, soberba e incompetência, Dilma Rousseff está arrasando um país altamente viável. E a culpa – todos sabem – é de um homem chamado Luiz Inácio Lula da Silva, que inventou essa farsante destrambelhada e literalmente a colocou no Palácio do Planalto. A nação agora está pagando caro por esta aventura.

Esperamos que a História faça justiça aos dois, porque, se dependermos apenas do Judiciário e do Legislativo, já está tudo dominado, como se diz atualmente.

'Bem público', o altar

Escusado será dizer que, sob qualquer desses sistemas (socialismo ou fascismo), as desigualdades de renda e padrão de vida são maiores do que qualquer coisa possível sob uma economia livre…, e a posição de um homem é determinada não por sua capacidade produtiva e realizações, mas pela força e influência política. Em ambos os sistemas, o sacrifício é invocado como uma solução mágica, onipotente, em qualquer crise – e “o bem público” é o altar no qual suas vítimas são imoladas
Ayn Rand

A benevolência do açougueiro

Nossos cérebros não foram forjados para viver sob economias modernas. Nós não só temos dificuldade para processar elementos básicos do funcionamento do mercado como ainda gostamos de interpretar o mundo como uma incessante luta do bem contra o mal, do fraco contra o forte.

O resultado disso é que até enxergamos virtudes no industrial ou no fazendeiro, que "criam" produtos, mas é só trazer o comerciante ou, pior ainda, o banqueiro para a equação que já nos pomos a chamá-los de atravessadores e sanguessugas.

Não digo que estes não têm incentivos para esfolar o consumidor e o farão se puderem. Mas a força da economia de mercado reside no fato de que ela não depende tanto da boa disposição moral dos agentes para funcionar. Como escreveu Adam Smith, "não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro e do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelos próprios interesses".

Não se trata de uma panaceia. Há muitas situações em que, se os apetites dos indivíduos não forem contidos pela lei, teremos péssimos resultados. A aposta do capitalismo, porém, é que acertaremos mais se deixarmos as pessoas livres para agir segundo seus interesses do que se tentarmos regular tudo "a priori".

Faço essas considerações a propósito da decisão do STJ de que comerciantes não podem oferecer desconto a quem paga com dinheiro vivo. Ora, se o custo da operação com cartão de crédito é maior, não está ao alcance de nenhuma lei mudar essa realidade. E faz mais sentido deixar para o comerciante definir se é mais vantajoso dividir o custo extra entre todos os clientes ou direcioná-lo para quem de fato contrai o crédito. O interesse do empresário, vale lembrar, já é vender o máximo possível.

Enquanto não nos livrarmos da crença de que bastam leis para criar valores e eliminar custos, o mercado não vai funcionar tão bem por aqui.

Parecem zumbis

Do festival de baixarias encenado na Câmara esta semana, em especial quinta-feira, sobressai o comportamento da bancada do PT. Negativamente, é claro. Como entender que depois de um mês guerreando Eduardo Cunha, os companheiros se tenham transformado em linha auxiliar do presidente dos deputados? Com raras exceções, faltaram à sessão iniciada pela manhã, visando não dar número no Conselho de Ética, ajudando a protelar o início do processo contra o parlamentar fluminense. Um desabafo proveniente de diversas gargantas oposicionistas fazia-se ouvir de quando em quando: “Onde anda o PT?”

O gato comeu. Melhor dizendo, cumprindo ordens do palácio do Planalto, o partido integrou-se na missão impossível de salvar Eduardo Cunha. Por quê? Por ser verdadeiro o abominável acordo da presidente Dilma com o singular personagem hoje empenhado em evitar sua condenação por quebra de decoro. O governo tenta garantir o mandato dele, Madame, de seu turno, vê engavetado o pedido de impeachment apresentado por antigo fundador do Partido dos Trabalhadores. Um acordo digno da quadrilha de Al Capone.

Nem Cunha nem Dilma admitem a hipótese de defender-se das acusações, coisa que seria normal no caso de inocência. Como uma quebrou a Lei da Responsabilidade Fiscal e o outro mentiu negando possuir dinheiro no exterior, empenham-se em sepultar os julgamentos antes de iniciados. Querem chegar incólumes ao fim do ano, adquirindo o oxigênio necessário para apagar a memória nacional.

A gente pergunta como foi possível essa transfiguração da legenda que um dia imaginou-se dona da ética e da moral. A resposta surge clara: com raras exceções, venderam-se os companheiros. Trocaram o ideal de mudar o país pelas mesmas concepções e interesses que combatiam. Pior do que esquecer ou não lembrar de seus antigos propósitos é a desfaçatez com que obedecem as novas instruções. Parecem zumbis. Por certo que compensados com as benesses do poder.

De vez em quando é bom lembrar episódios do folclore político. O saudoso mestre Arnaldo Nogueira, pioneiro dos programas de entrevista na televisão, com o inesquecível “Falando Francamente”, nos anos cinquenta, recebia o marechal Cândido Rondon. Velhinho, quase totalmente surdo, o entrevistado mantinha a sagacidade que pautou toda sua vida. Naqueles idos o vídeo-tape não havia sido inventado, todos os programas eram ao vivo.

Como norma, no meio da entrevista, Arnaldo Nogueira fazia um intervalo, informando o convidado de que tomariam “um delicioso guaraná champagne da Antártica”, patrocinadora do programa. Nessa hora entrava no estúdio uma sestrosa mocinha de mini-saia, com taças numa bandeja de prata. Se o entrevistado queria agradar o jornalista, tomava um gole, exclamavam “que delícia” e o programa continuava.

O marechal Rondon custou a entender o intervalo,que só percebeu quando diante de uma taça de guaraná e aí surpreendeu: “Guaraná champagne da Antártica? Eu não bebo essa porcaria”. A tempo em que derramava o líquido no tapete, completou: “Só bebo guaraná ralado na língua do pirarucu!”

Desnecessário dizer que Arnaldo perdeu o patrocinador, mas essa historinha se conta a propósito da recente entrevista que o ex-presidente Lula concedeu ao competente Roberto D’Ávila. Tantas agressões fez o primeiro companheiro aos fatos que o jornalista corre o risco de perder seu patrocinador. No caso, o público admirador de sua capacidade…

República das bananas

Voltar de férias e folhear os jornais acumulados das últimas semanas, hábito revelador de um apego afetivo ao papel, pode também ser uma experiência que deprime. A decadência institucional do Brasil é avassaladora.

Muito além das novidades das investigações criminais, dos sinais persistentes de que a propalada prosperidade da era petista é enganosa, do raquitismo político das oposições e das controvérsias em torno da letalidade policial, a destruição da bacia do rio Doce e o surto de microcefalia no Nordeste, que transforma em pesadelo a alegria de ter filhos, mostram o quanto a administração pública é incompetente e cruel.

Se a economia brasileira permanece entre as maiores do mundo, estamos muito próximos de recantos remotos e atrasados do planeta.

Não são tragédias da natureza. São tragédias da leniência, do descaso, da burocracia, que não se aplacam com apuração de culpa, aplicação de multas ou decretos de emergência. Não têm conserto.

De repente, descobrimos que o mar de lama que escorre pelo interior de Minas Gerais até o Espírito Santo, desastre ambiental de proporções gigantescas e históricas (Dilma demorou uma semana para reagir ao acontecimento), era previsível -fruto da falta de fiscalização e de uma paralisia estatal revoltante.

Descobrimos em novembro que, no mês de agosto, havia índices alarmantes de incidência de malformação craniana em recém-nascidos em Pernambuco. Autoridades e cientistas ainda parecem atônitos e não transmitem segurança. O surto aparece do nada? Se a origem é viral, o problema não irá se alastrar perigosamente? O Ministério da Saúde não poderia ser mais ágil? A resposta do Estado brasileiro não deveria ser mais incisiva do que a recomendação informal de adiamento dos planos de engravidar ou, para mulheres grávidas, evitar os mosquitos? Por que aqui se gasta tanto com propaganda política disfarçada e tão pouco com campanhas informativas?

E, em meio a este singelo leque de notícias constrangedoras, o país sem comando, eis que o Congresso Nacional aprova e a presidente sanciona lei que, a pretexto de regulamentar o Direito de Resposta e preencher o vácuo legislativo decorrente da decisão do STF que revogou a Lei de Imprensa, estabelece normas com o propósito de emparedar o jornalismo e blindar a vida de políticos histriônicos ou picaretas e autoridades investigadas.

A indisfarçável euforia do líder do PT, senador Humberto Costa, sintetiza o pensamento da grande maioria dos parlamentares, todos unidos em torno da sombria proposta, independentemente de diferenças partidárias: "Sem dúvida, um dos projetos mais importantes que o Congresso já teve a oportunidade de votar", necessário para "punir aqueles que utilizam a liberdade de expressão para agredir, caluniar, mentir".

A lei 13.188/15 é uma aberração. Institui desequilíbrios processuais insólitos e cria embaraços concretos para a liberdade de informação e de crítica. Se colar (temos o costume de editar leis que não colam), o Brasil estará mais perto de países vizinhos que tratam o jornalismo com hostilidade. É para sentir saudade da extinta Lei de Imprensa do regime militar, por incrível que possa parecer, mais amena e liberal.

Lula e seu velho bode


“Tudo é tudo, e nada é nada” 
Tim Maia

Sempre se dizendo criticado, perseguido e difamado pela mídia, Lula saiu do governo com o PIB crescendo 7,5% e com a aprovação de mais de 80% dos brasileiros, apesar do escândalo do mensalão. Então, que poder teve essa mídia de formar opinião contra ele? Ninguém ligava para o que eles diziam?

Mas, com inflação alta, recessão cruel e escândalos em série, a mesma mídia é acusada de ampliar a crise e de sabotar o governo, de tentar derrubar a presidente eleita, de estimular o ódio. Os 8% que ainda aprovam Dilma devem ser os que os meios de comunicação não conseguiram enganar com suas lorotas... rsrs.

Sim, é verdade que foi nos governos petistas, ou apesar deles, que a Polícia Federal e o Ministério Público cresceram em eficiência e independência, realizando operações que desvendaram o mensalão e o petrolão — com a ajuda dessa mesma mídia, que deu pistas, publicidade e profundidade às investigações. Como disse o juiz Sérgio Moro, a operação Mãos Limpas na Itália só foi bem-sucedida porque teve na imprensa uma aliada fundamental, mantendo a pressão nas investigações e o público atento e indignado.

A besta-fera, o leviatã, a hidra de mil cabeças, o sonho de consumo dos totalitários de esquerda e de direita, a imprensa livre é uma das mais árduas e valiosas conquistas das últimas gerações de brasileiros. E um dos bodes expiatórios favoritos dos governos petistas que, mesmo com a concorrência acirrada de vários grupos de comunicação e da absoluta liberdade de associação, querem “democratizar” a mídia brasileira.

Culpar e castigar o sucesso de audiência e credibilidade é a vingança de todas as tentativas de rádios, jornais, televisões, revistas e sites “de esquerda” que, mesmo com fartas verbas públicas, nunca fizeram sucesso popular nem conquistaram um mínimo de influência, não porque o público seja “de direita” ou burro, mas por falta de qualidade e verdade, de talento, cultura e humor. O “Pasquim” foi a última exceção.

Hoje, na democracia brasileira, qualquer um é livre para usar a mídia que quiser para dizer o que quiser. O mais difícil é encontrar quem ouça.
Nelson Motta

Crise

Crise é a palavra do momento no Brasil. Temos crise política, econômica, moral, elétrica, hídrica, desemprego crescente, ausência do governo, enfim, o cenário está confuso. Para alguns, a punição de ladrões do caso Mensalão, Petrolão e muitos outros virou atentado à democracia, e os partidos que buscam instituir um governo socialista, pregam a violência e a conturbação social.

Os que querem a saída de Dilma e uma investigação séria sobre Lula, só pedem que a lei seja cumprida, diferente dos outros, que pregam até a luta armada para não sair do poder. Faz sentido, pois eles não sabem o que é construir o progresso na paz. Aprenderam a promover o confronto e dizem que quem não está alinhado com suas ideias precisa ser destruído.

Assim foi o discurso de Lula que, durante um ato em defesa da Petrobras, convocou o “exército de Stédile (MST) para ir para as ruas com armas nas mãos”. Podemos entender que isso é uma confissão de que existem armas ilegais nas mãos desses grupos.

Mais recentemente, Mauro Iasi, professor da UFRJ, militante do PCB, fez um discurso durante o 2º Encontro Nacional da Central Sindical e Popular, onde defendeu o fuzilamento dos opositores do socialismo, citando Bertold Brecht. Para ele, esses conservadores precisam de “um bom paredão, uma boa espingarda, uma boa bala, uma boa pá e uma boa cova”. Quem quiser ver o discurso todo é só procurar na internet. Para qualquer um que saiba interpretar um texto, isto significa promover uma intimidação e pregar uma revolução comunista no país.

No Caderno das Resoluções desse mesmo evento, um parágrafo mostra o pensamento desses grupos, bem ao estilo do Estado Islâmico, quando afirmam com vigor uma posição pelo fim do Estado de Israel, segundo eles, uma “criação artificial das Nações Unidas e do imperialismo norte-americano”.

Intolerância contra todos que discordam de suas ideias é o perfil desses grupos antidemocráticos, sempre em nome dos “trabalhadores”. Esses são os verdadeiros golpistas que pregam o ódio, a luta de classes e vão contra a verdadeira democracia e o Estado de Direito. Como disse o jornal britânico Financial Times, em um recente editorial, a incompetência, arrogância e corrupção abalaram a magia do Brasil.

Os brasileiros livres e de bons costumes têm o dever de lutar contra a ignorância, a mentira, o fanatismo, a corrupção e restaurar essa magia do bem-estar para o nosso país.

Questão de manutenção em Mariana

A despeito da aprovação da Lei 12.334, em 20 de setembro de 2010 — que estabelece a Política Nacional de Segurança de Barragens destinadas à acumulação de água para quaisquer usos e à disposição final ou temporária de resíduos industriais —, continuamos assistindo de camarote aos fenômenos de ruptura de barragens sem que nenhuma obrigação tenha sido cumprida.

Mortes e perda de patrimônio público e privado continuam ocorrendo e se alastrando pelo país afora. A ruptura da barragem de resíduos de Mariana espalha suas consequências desastrosas, de Minas para o Espírito Santo.



Apesar de a Lei 12.334 criar o Sistema Nacional de Informações sobre Segurança de Barragens e alterar a redação do artigo 35 da lei 9.933 de 8 de janeiro de 1997 e do artigo quarto da lei 9.984 de julho de 2000, na prática, “tudo continua como Dantes no mar de Abranches”. É inacreditável!

E, vejam: este é um país de dimensões continentais, com inúmeros rios e córregos, que precisam não somente atravessar o Brasil pelos seus percursos naturais, mas também serem contidos em barragens, com os fins de abastecimento de água e de energia, e para a acumulação de resíduos.

Com frequência cada vez maior, o Brasil tem assistido a desastres causados pelo rompimento de barragens, sejam elas de acumulação e retenção de água ou de resíduos. Nos fins do ano 2009, os telejornais mostraram os estragos causados pelo rompimento de uma construída para regulação do nível de um rio na periferia de São Paulo. Chuvas intensas e excepcionais, mas não totalmente improváveis ou imprevistas, castigaram várias regiões do país naquele ano.

Tais acidentes poderiam ser evitados com correta manutenção. Barragens não são estruturas convencionais como a maioria das obras civis. Exigem atenção permanente do proprietário, em função das mudanças contínuas nas solicitações a que são submetidas durante a vida útil. Este não é assunto para leigos. Só engenheiros especializados são capazes de avaliar as reações e o comportamento delas, de propor medidas preventivas e corretivas, além de acompanhar se tudo está compatível com o projeto.

Barragens são sempre vitimadas pelos excessos de precipitação, que podem causar aumentos bruscos de cargas por elevação não prevista do nível da água ou pelo encharcamento dos resíduos contidos. Muitas têm sistemas de monitoramento que precisam ser lidos continuamente, seguindo um manual. Não podem, portanto, ficar abandonadas à própria sorte, sem que se obedeçam às medidas de segurança destinadas a impedir sua degradação.

A qualidade das obras públicas vem sendo posta em xeque na imprensa. Todos se perguntam como tantos desastres podem acontecer quando a engenharia brasileira é reconhecida internacionalmente pelo alto padrão técnico. Lógico que pode haver erros de concepção, projeto, planejamento ou gestão, mas a principal razão para os recorrentes eventos a que temos presenciado é a falta de manutenção.

Obras de engenharia precisam de manutenção permanente, não apenas para aumentar e garantir a vida útil da construção, mas, principalmente, por motivos de segurança. O gasto com manutenção de uma estrutura de concreto, por exemplo, é 25 vezes menor do que o custo de renovar a estrutura deteriorada, isto sem contar os possíveis riscos de acidentes.

Esta é uma verdade incontestável, mas dificilmente obedecida, principalmente no setor público! Não há no Brasil uma consciência da importância dos gastos com manutenção, que deveriam ser permanentes e não esporádicos.

O Brasil precisa de uma lei de Responsabilidade Administrativa, com regras claras, para nos anteciparmos aos desastres previsíveis.

Francis Bogossian (Associação das Empresas de Engenharia do Rio de Janeiro) 

Quem não pisa na lama

Quando vou a um lugar, eu não posso chegar sem saber o que nós vamos fazer. Eu vou lá para fazer, eu não vou lá só para visitar
Dilma Rousseff

Infraestrutura e incúria administrativa no país

A tragédia em Mariana é exemplo irretocável da negligência de empresas diante da sociedade, da natureza e do futuro do país. O caso da mineração é mais sério porque suas técnicas obsoletas aumentam os riscos para a população e a devastação ambiental, mas elas realizam seus negócios sob a complacência de governantes lenientes, justificando a criação de novos postos de trabalho. Miram, entretanto, apenas alto lucro pela redução de custos na montagem da infraestrutura, mesmo que isso implique prejuízo à comunidade e ao ecossistema. Ou seja, não se detêm na possibilidade de que seu empreendimento possa desencadear danos irreparáveis a pessoas, ao patrimônio e ao ecossistema, esperando que a impunidade prevaleça como em catástrofes semelhantes. Ignoram, então, um plano de contingência para atuação rápida, eficiente e consequente, se houver desastre natural ou falhas de projeto.



Infelizmente, estamos vulneráveis em relação a outros problemas na infraestrutura, decorrentes de obras malplanejadas e executadas com desleixo, mesmo quando são de responsabilidade direta do poder público. A malha rodoviária de Minas Gerais, por exemplo, tem sido cenário constante de sinistros, sendo pesadelo maior para os moradores junto às principais vias, pelos deslocamentos diários em péssimas estradas com trânsito nacional.

Outro perigo permanente é o cabeamento aéreo para eletricidade fornecida pela Cemig. Mantendo técnicas da primeira metade do século XX, ela impõe a Belo Horizonte, bem como a muitas outras cidades, transformadores e múltiplos fios em todas as vias públicas, apesar dos vários problemas que isso implica. A depreciação da rede pela exposição a intempéries é muito mais rápida do que em cabeamento subterrâneo. Seu patrimônio fica mais vulnerável à ação dos ladrões de cobre, o que pode interromper o fornecimento de energia à clientela devidamente cadastrada.

A empresa viabiliza também ótimo campo para que espertos de todas as classes sociais instalem “gatos” nos postes para reduzir sua conta ou mesmo ter esse serviço sem pagar por ele. Há ainda comprometimento da estética das cidades, pois o grande número de fios interfere na beleza das edificações, bem como das praças e dos parques, planejados para propiciar espaço agradável em território urbano. É indispensável enfatizar o mais grave: os riscos à integridade física de todas as pessoas por rompimento de cabos por desgaste ou impacto de qualquer natureza na rede. Isso é potencializado pela geração de faíscas elétricas por atrito de fios pelo movimento de galhos de árvores, quando há tempestade.

A tragédia em Mariana não inspirou, até agora, a adoção de medidas efetivas para recuperar o ecossistema naquela área nem reflexão sobre outros riscos na infraestrutura construída com descaso e inexplicável redução de custos no que realmente conta: a preservação da vida humana e da natureza em benefício de todos.

Como estão as investigações do desastre de Mariana?



Duas semanas após o rompimento de uma barragem de rejeitos de minério em Mariana (MG) ainda sobram perguntas sobre os responsáveis pelo que já é considerado o maior desastre ambiental do Brasil e a dimensão dos custos para lidar com suas consequências.

A Samarco, empresa que opera o complexo de barragens na região, e suas acionistas, a brasileira Vale e a anglo-australiana BHP Billiton, têm anunciado medidas de emergência para atender as populações locais e tentar reparar os já inúmeros danos ao meio ambiente.

No entanto, faltam esclarecimentos sobre como avançam as investigações que vão determinar as razões do desastre. Entre as 48 notas publicadas pela mineradora Samarco em sua página oficial, apenas 2 mencionam "investigações e estudos" sobre as causas do rompimento da barragem de Fundão.

Em uma coletiva de imprensa na última terça-feira, o diretor de operações e infraestrutura da mineradora, Kleber Terra, disse que a empresa iniciou as investigações "imediatamente" e contratou "especialistas do mundo inteiro, dos mais renomados" para um trabalho que "leva meses".

No entanto, as perguntas enviadas pela BBC Brasil à Samarco sobre quem seriam os profissionais contratados pela empresa e qual o cronograma para divulgar os resultados de suas investigações não foram respondidas em 24 horas, até o fechamento desta reportagem.

A Samarco já é considerada a principal responsável pelo ocorrido, segundo a promotora de Justiça do Ministério Público do Espírito Santo Isabela Cordeiro.

"Costumamos dizer que a empresa é responsável, mesmo se tivesse adotado todas as medidas necessárias de prevenção. Ela é responsável por qualquer evento danoso ambiental ou social decorrente da atividade dela. Não tem desculpa", disse à BBC Brasil.

É por este motivo que a empresa já recebeu multas preliminares do Ibama e assinou termos, também preliminares, com os MPs dos dois Estados afetados pelo desastre ambiental, nos quais se compromete a realizar ações de emergência, de reparação e de prevenção nas regiões onde a lama ainda não havia chegado.

Outra questão é se a empresa será considerada criminosa. Quem determina oficialmente se o rompimento da barragem foi um crime ambiental é o inquérito da Polícia Federal que está em curso.

Questionada pela BBC Brasil, a PF não quis comentar a investigação, mas confirmou que apura a "possível ocorrência do delito ambiental previsto no artigo 54, § 2º, incisos I, II e III, e 62, da Lei nº 9.605/98, tendo em vista suposta incidência de crime ambiental".

Caso a Polícia Federal determine a existência de crime, a Samarco terá que responder a um processo penal e seus dirigentes, assim como a Vale e a BHP Billiton, podem ser condenados.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Liberdade ameaçada


Talvez não exista na literatura jurídica internacional garantia mais sólida para a preservação da liberdade da imprensa do que a Primeira Emenda à Constituição dos EUA:

"O congresso não deverá fazer qualquer lei a respeito de um estabelecimento de religião, ou proibir o seu livre exercício; ou restringindo a liberdade de expressão, ou da imprensa; ou o direito das pessoas de se reunirem pacificamente, e de fazerem pedidos ao governo para que sejam feitas reparações de queixas”.

É notável a objetividade do direito anglo-saxão assim como a tradição no reconhecimento do papel vital da liberdade de imprensa como parte constituinte de qualquer estrutura democrática digna desse nome.

Em outras palavras: não pode haver democracia sem liberdade de imprensa.


A Constituição brasileira de 1988 também garante plenamente o exercício da liberdade de imprensa e de expressão e garante também o direito de resposta, remetendo ao Código Penal em vigor (crimes de calúnia e difamação, em honra e reputação-subjetiva e objetiva).

A antiga Lei de Imprensa, editada durante o regime militar, foi considerada extinta pelo Supremo Tribunal Federal, ultrapassada que foi pela CF 88, mas como ela estabelecia um rito para o exercício de direito de resposta, o rito acabou sepultado junto com ela.

Os legisladores consideraram que ficou faltando o estabelecimento de normas e ritos mais claros para o exercício de direito de resposta, e aproveitando-se da omissão da própria imprensa em cuidar de auto regulamentar-se para cobrir essa lacuna, criaram uma lei cuidando de potencializar a salvaguarda de seus próprios interesses.

A Lei do Direito de Resposta, de autoria do senador Roberto Requião, repete o pecado de muitas das leis formuladas pelo nosso Legislativo: mal formulada, ambígua, deixa espaço para todas as intepretações possíveis. E estabelece um rito extremamente desigual, em prejuízo dos direitos das empresas de comunicação, tanto que a OAB está contestando a sua constitucionalidade no Supremo.

O artigo 2o, em seu parágrafo 1o, pode dar margem a interpretações tão elásticas, que acaba, a rigor, estabelecendo uma espécie de delito de opinião, que a Constituição teve o cuidado de evitar:

“Para os efeitos desta Lei, considera-se matéria qualquer reportagem, nota ou notícia divulgada por veículo de comunicação social independentemente do meio ou plataforma de distribuição, publicação ou transmissão que utilize, cujo conteúdo atente, ainda que por equívoco de informação, contra a honra, a intimidade, a reputação, o conceito, o nome, a marca ou a imagem de pessoa física ou jurídica identificada ou passível de identificação.”

As notícias sobre os depósitos na Suíça atentam contra o conceito, o nome ou imagem de Eduardo Cunha? Se um produto qualquer for recolhido ou proibido pela Vigilância Sanitária a notícia sobre essa apreensão atentará contra o conceito e a marca doproduto ? Inequivocamente sim. Mas o que fazer? Deixar de publicar a notícia?

Não por acaso, os dois primeiros políticos que manifestaram a intenção de recorrer à nova lei, são exatamente Eduardo Cunha e Delcídio Amaral, citado pelo delator Fernando Baiano como beneficiário de uma propina entre R$ 1 milhão e 1,5 milhão na Operação Lava Jato.

O direito de resposta já foi oferecido aos dois acusados pelos próprios meios de comunicação que publicaram a notícia. Mas ao recorrer à Justiça, o que eles querem não é dar a sua versão sobre os fatos, mas impedir que as denúncias sejam publicadas.

A Lei do Direito de Resposta, pelas suas imperfeições, é uma claríssima ameaça à liberdade de informação e de expressão.

Pensamentos avulsos

A cabeça não para de girar com a força dos acontecimentos que nos esmagam e angustiam. São tantas as barbaridades, de todo tipo, tamanho e feitio, o Homem cada vez mais minúsculo, cada vez mais afastado do amor ao próximo, que fica difícil escolher falar de um só desses acontecimentos, mencionar este e não aquele...

O novo espectro que assombra a Europa (Foto: Cartoon Movement)
A carnificina em Paris será mais monstruosa do que o assassinato do rio Doce? Meu coração diz que sim, mas ver o rio morrer levando com ele a rica flora e fauna da região que banha há centenas de anos uma das regiões mais significativas da história do Brasil não será tão duro quanto saber que 129 jovens morreram debaixo de um grande tormento em nome de tiranos estúpidos e cruéis?

C.S.Lewis, o grande escritor inglês autor de 'As Crônicas de Narnia', nos deixou esta mensagem: “ De todas as tiranias, aquela que é exercida para o bem das vítimas é a mais opressiva. É melhor morrer sob os barões que nos assaltam do que sob os intrometidos que se ocupam em regular a vida e a mente dos outros. A crueldade dos barões corruptos pode, por vários motivos, ter intervalos de pane, de trégua, de catatonia. Sua cupidez pode, em certo momento, ser saciada; mas os que nos atormentam pelo nosso bem o farão sem descanso porque o fazem de acordo com a aprovação de sua consciência perturbada”.

Vamos acabar com a civilização ocidental porque um dia, há muito tempo, o homem se deixou levar por uma ambição desmedida e quis dominar o mundo?

E tudo o que deixaram de bom como herança cultural vai ser esquecido em nome de quem? De um Alá que eles estão recriando e que não tem nada a ver com o Alá do Corão?

Os cristãos pecaram com sua inquisição brutal, mas foram vencidos. Será que o mundo não vai vencer a estupidez desse Islã de fancaria?

Beirute, que já foi chamada de Paris do Oriente, merece esse suplício?

Damasco, por onde caminhou Paulo, o grande santo da Cristandade, mereceria cair nas mãos de alucinados que em nome de Alá prometem 72 lindas virgens no paraíso aos que se martirizam pela causa? Às mulheres prometem o inferno em vida e depois da morte, o que é que lhes prometem?

Da minha parte, ouso dizer que detesto o politicamente correto, os direitos humanos que nos desrespeitam em nome do quê mesmo? Para mim, os radicais islamitas são seres inferiores que invejam o que o europeu construiu.

Se Churchill, Stalin e Roosevelt fossem politicamente corretos a Europa não teria resistido aos horrores da II Guerra Mundial. Ainda bem que eles foram fortes e souberam lidar com a violência, o último refúgio do incompetente, segundo Isaac Azimov. Hitler e sua Wermacht eram canalhas que foram tratados como mereciam.

Um novo espectro assombra a Europa. O futuro, as crianças, não pode ficar nas mãos desse medo. A União Europeia, os EUA, a Rússia, estão se unindo e unidos vencerão os sub-humanos que não respeitam seus filhos. A islamofobia não é uma solução. Os refugiados devem ser respeitados, desde que respeitem quem os acolhe.

Falta ao político, de todos os partidos, também se unir em nome da Paz e deixar de se preocupar com a derrubada do partido que está no poder. Cabe aos que estão no leme, hoje, a pior missão. Nós só podemos, os civis, cada um com a força de sua Fé, seja ela qual for, pedir a Deus que a razão volte a reinar no mundo.

E encerro novamente me valendo de C. S. Lewis: “ O futuro alcança todos nós à razão de sessenta minutos por hora, não importa quem somos ou o que fazemos".

Vai chegar. É bom não esquecer.

Passadena não passará

Passa, passa, Pasadena. Não passou. A refinaria no Texas que deu prejuízo de US$ 700 milhões reaparece agora com novo nome: Ruivinha.

Ninguém faria um negócio desses, tão prejudicial ao lado brasileiro, se não gastasse alguns milhões de dólares com propina. Agora, está comprovado que houve corrupção. Há até uma lista preliminar de quem e quanto recebeu para aprovar a compra de uma refinaria enferrujada, docemente tratada pelos próprios compradores como a Ruivinha.

A Operação Lava Jato tem elementos para pedir a anulação da compra e o dinheiro de volta. Acontece que Pasadena está no Texas. Foi uma transação realizada na esfera da legislação americana. Necessariamente, a Justiça dos EUA terá de analisar todos os dados enviados pelas autoridades brasileiras e, eventualmente, pedir outros.

Existe uma questão cultural e política no caminho. Os americanos não conseguirão ver a compra de Pasadena só como uma conspiração criminosa de quadros intermediários da empresa que comprou. A tendência natural será verticalizar a investigação. Quem eram os responsáveis pela Petrobrás, como deixaram que isso acontecesse?

Não só nos EUA, como em outros países, os dirigentes máximos são responsáveis, mesmo quando alegam que não sabiam de nada. Numa empresa privada, se uma direção fizesse um negócio tão desastroso, renunciaria imediatamente e responderia aos processos legais fora do cargo. O caso de Pasadena, se internacionalizado, como na verdade tem de ser, vai pôr em choque a tolerância brasileira com os dirigentes que alegam não saber de nada.

A própria Petrobrás deveria pedir a anulação da compra de Pasadena. No entanto, isso é feito pela Lava Jato. A empresa assim mesmo, parcialmente, só reconhece que Pasadena foi um mau negócio. Ainda não caiu a ficha de que foi uma ação criminosa, que envolve também os vendedores belgas. Por isso é bom internacionalizar Pasadena. A Justiça americana poderá cuidar do vendedor belga, mais fora de alcance da brasileira.

Uma pena a Petrobrás ainda não ter percebido seu papel. É uma questão político-cultural. A própria Dilma diz que não sabia de nada porque teria sido enganada por um relatório. Esse impulso de jogar para baixo toda a culpa já aparecia no mensalão, quando Lula se disse traído.

Duas grandes empresas brasileiras vivem um inferno astral. Petrobrás e Vale: o maior escândalo de corrupção no País, o maior desastre ambiental de uma associada.

No caso do mar de lama lançado no Rio Doce, com mortes e destruição pelo caminho, os dados técnicos e científicos ainda não foram divulgados. Mas já se sabe que os mecanismos de contenção, filtragem e escoamento nas barragens mineiras já não são usados em alguns países do mundo. Há métodos mais modernos, possivelmente mais caros. Isso questiona toda uma política de investimento, no meu entender, de forma semelhante ao que ocorre no setor público.

O Brasil ainda não universalizou o saneamento básico porque são obras que não aparecem, não rendem votos.

Nas empresas privadas, como na Vale e na própria Samarco, existem políticas ambientais, mas também uma preocupação com a margem de lucro. A sustentabilidade nem sempre responde rápido ao quesito lucro.

Muitas pessoas veem o princípio de precaução – um dos temas que a ecologia política levantou – como um exagero de ambientalistas apocalípticos. Em termos econômicos, a precaução revela a sua importância no longo prazo: quanto custa um desastre ambiental? Quanta custa a renovação dos equipamentos?

Uma semana nas margens do Rio Doce, pontuada por um atentado terrorista em Paris, me entristece. No entanto, fica cada vez mais claro que é o mundo que temos e é preciso encará-lo. Não há como escapar.

As coisas só pioram na economia e o País se limita a contemplar o próprio declínio. Não há uma resposta política. O Congresso é um pântano. Só haverá um pouco de esperança no ar se discutirmos um caminho para depois desse desastre. O PT propõe apenas entrar no cheque especial e continuar entupindo o País com carros e eletrodomésticos.

Além dos passos políticos e econômicos, será preciso considerar algo que ainda não foi acrescentado à corrente descrição da crise. Não é só econômica, política e ética. Vivemos também numa crise ambiental. No cotidiano, documento problemas agudos de falta d’água, cachoeiras reduzidas a fios, rios secando e, agora, o Doce levando este golpe lamacento. Há uma seca prolongada em grandes regiões do País, queimadas aparecem em vários lugares, algumas em áreas teoricamente protegidas.

Políticos convencionais tendem a subestimar a importância que as pessoas dão hoje à crise ambiental. Não é preciso percorrer os lugares atingidos pela lama. As cidades ameaçadas por barragens vivem em tensão.

A oposição, homens e mulheres que foram eleitos e ganham para isso, deveriam estar propondo alguma coisa para superar essa crise, que tem muitas cabeças. Se eles não têm ideia do que propor, pelo menos poderiam sair perguntando, sentir os anseios de renovação e deduzir algo deles.

Muito se falou de pauta-bomba nesse Congresso. Essa etapa está quase passando. Eles inauguraram a pauta-míssil: repatriar dinheiro suspeito e uma patética lei sobre a imprensa.

Neste momento da História do País, apesar de morto politicamente, o governo, que tem seus tentáculos na Justiça, agora pode brandir uma espada sobre a cabeça dos jornalistas. Começam dizendo que você não viu o que está acontecendo porque sofre de miopia ideológica. Em seguida, tomam precauções para que os juízes de linha justa os liberem: agora, preparam o caminho para punir quem divulga a verdade que os ofende.

É o tipo de lei que, mantida com esse texto, acaba sendo um convite a desobedecer. Lembro-me de que escrevi uma apresentação da edição brasileira do Desobedeça, de Henry David Thoreau. Voltarei ao livro em busca de inspiração.

Descaso de poucos, danos a muitos


É possível um ataque terrorista nas Olimpíadas do Rio?

Antes da tragédia terrorista cometida em Paris pelos fundamentalistas do Estado Islâmico, o Brasil dormia tranquilamente diante da possibilidade de que algo parecido pudesse acontecer durante os Jogos Olímpicos do Rio, que serão realizados dentro de alguns meses.

E hoje? O cenário mudou de repente, e os maiores especialistas em segurança afirmam que a possibilidade de que o terrorismo internacional volte seus olhos ao Brasil não pode ser descartada.

O ex-secretário de Segurança Nacional, José Vicente Filho, afirmou ao jornal O Dia que a possibilidade de um ato terrorista no evento “é cada vez mais real”, já que o Brasil receberá pessoas de todo o mundo e os olhos do planeta estarão fixos no Rio.

Novembro - 19-11-15 - Ranking de cidades violentas - NET

Como se isso não fosse o suficiente, o Brasil precisará resolver sua grave crise política para enfrentar tal desafio, crise que enfraquece as instituições e deixa a sociedade insegura.

É verdade que os organizadores das Olimpíadas já planejaram um forte dispositivo antiterrorista com a colaboração de outros países e o estão intensificando depois dos atentados de Paris. Mas, como disse André Wolszyn, um dos maiores especialistas brasileiros no assunto, autor de várias publicações sobre o tema, a Humberto Trezzi, do jornal Zero Hora, “o Brasil não está de modo nenhum preparado para o antiterrorismo”.

Na verdade, hoje os fatos estão demonstrando que nenhum país, nem os mais desenvolvidos e acostumados a sofrerem violentos ataques terroristas, parecem estar preparados. Os Estados Unidos não estavam, com seus poderosos serviços secretos, quando as Torres Gêmeas de Nova York foram derrubadas; a Espanha não estava, quando sofreu a tragédia de Atocha, apesar da dura experiência com o terrorismo do ETA; e a França não estava dias atrás quando foi surpreendida, apesar de se tratar de um país acostumado ao terror, desde a guerra de Independência da Argélia.

Todo o planeta é hoje um possível alvo do terrorismo islâmico, formidavelmente armado e organizado.

Mas, pelo menos hipoteticamente, o Brasil é ainda mais vulnerável por diversos motivos, como por se tratar de um território propício, com imensas fronteiras difíceis de se controlar; por não ter aprovado ainda uma dura lei antiterrorismo; pela facilidade, em um território de dimensões continentais, de infiltração dos fundamentalistas; pelas possíveis conexões e conivências entre o terrorismo islâmico e os traficantes de drogas que contam aqui com sistemas de informação e armas até mais sofisticadas do que as próprias forças policiais, sem esquecer a possibilidade de que uma parte da polícia pode ter sido comprada pelo narcotráfico.

Se os terroristas do Estado Islâmico buscam hoje cenários de impacto para ressoar suas proezas de violência, o Rio, cidade símbolo do turismo mundial, com os Jogos Olímpicos que trarão ao país milhares de atletas, meio milhão de turistas, e que serão assistidos por 4 bilhões de pessoas pelo mundo, não poderia ser melhor palco para eles.

O Rio, além disso, tem duas realidades que contrastam com a cultura de morte e de fanatismo religioso que odeia outras crenças e os prazeres da vida.

O Rio tem o Cristo Redentor como símbolo, emblema laico e cristão ao mesmo tempo, e a cidade é considerada como um dos lugares mais divertidos e desinibidos, amiga da festa e dos prazeres da vida, acolhedora como poucas do movimento gay internacional.

Tudo o que, justamente, os terroristas tentaram castigar com os ataques a Paris, cidade cristã por excelência e berço da diversão juvenil, algo que contrasta com a cultura da morte e do anti-prazer do credo do fanatismo islâmico.

Por último – e talvez no caso do Brasil, o mais importante – o melhor antídoto contra um possível ataque do terrorismo internacional são um Governo e um Estado fortes, unidos, capazes de enfrentar a nova violência demoníaca dos extremistas islâmicos. Um Estado sem medo e que gere segurança.

O Brasil se encontra, nas vésperas das Olimpíadas, em seu melhor momento de esplendor político e institucional, forte e com credibilidade entre seus governantes para enfrentar uma tragédia semelhante a que colocou a França de joelhos?

Talvez não, já que o país vive um dos ciclos de sua história republicana de maior crise política e econômica, com o governo fragilizado e desafiado no Congresso, com ameaças de impeachment contra a Presidenta da República, Dilma Rousseff, que goza de baixíssima popularidade, com políticos e empresários de peso na cadeia, acusados de corrupção, e com o PT, o partido do Governo, no momento mais baixo de credibilidade junto à população.

Por isso a urgência, segundo os especialistas, de que o Brasil chegue aos Jogos Olímpicos do Rio com pelo menos a crise política já resolvida. É triste e perigoso que um acontecimento dessa envergadura mundial seja realizado com forças políticas ainda desorientadas e em conflito, com uma sociedade dividida e com uma Presidenta da República que pode ser vaiada e contestada durante as Olimpíadas, como ocorreu na Copa do Mundo, ao invés de ser aplaudida e respaldada por todos os brasileiros.

Os lobos do terror sabem muito bem que nenhum país é tão vulnerável como o dividido, com um Estado fraco e em crise de credibilidade. E o Brasil sofre hoje um pouco de tudo isso.

É um país que muitos invejam por suas riquezas naturais e seu peso no jogo de xadrez mundial, mas que as crises política e econômica, as catástrofes naturais mal resolvidas como o desastre de Mariana, assim como a cada vez mais grave violência da população, não parecem oferecer, nesse momento, a melhor imagem de tranquilidade aos seus moradores.

Uma utopia em crise

Os tempos não estão bons para quem pensa encontrar um mundo de tranquilidade e de paz. Creio que é para isso que nascemos e que toda a actividade humana devia ter subjacente os sentimentos morais na vivência de todos os outros comportamentos, nomeadamente os políticos, os económicos e os científicos.

É verdade que nem todos pensam assim mas também é verdade que o exemplo dos outros devia ser motivador dos nossos comportamentos. Confesso que, desde pequeno, me interessam, me comovem ou me magoam os actos da espécie humana e, que me lembre, nunca tive a mínima atracção, mesmo infantil, por aqueles que pretendiam impor a sua vontade aos outros. “Nunca exerças o teu poder sobre os outros de maneira que eles fiquem sem poder sobre ti.” De certo modo, este é um dos lemas da minha posição no mundo nesta matéria tão difícil que é viver em comunidade.

Novembro - 14-11-15 - Terror na Franca - NET

Viver com os outros é inevitável. Viver sozinho é quase sempre trágico: aqueles que o acaso fez viver sem nenhum contacto humano nem sequer puderam entrar na humanidade e os que, já senhores de si, resolveram optar pela solidão, acho que se subtraíram à decisiva prova humanaque é a de viver com os outros. Quase todos os problemas humanos vêm daí mas é também aí que devemos procurar as soluções.

Lembro-me que Lanza del Vasto me contou que, quando ainda novo, partiu para a Índia, descrente da Europa infestada pelas guerras, foi viver junto de um guru que estava sozinho na montanha. Não aguentou a falta dos outros e foi isso que o levou a partir para o pé do Gandhi, em cuja comunidade viveu durante 12 anos e a conselho de quem regressou à Europa para fundar em França uma comunidade – L’Arche – onde o conheci e acompanhei alguns dias.

A muito custo, com avanços e recuos, a humanidade parece às vezes que caminha para um mundo de paz e fraternidade mas os homens não nos deixam viver assim. Neste momento da história parece mesmo que estamos a viver um período de regressão. O sonho da expansão da democracia e da confiança mútua foi quebrado pelo pavor do terrorismo. Entrámos outra vez num destino de insegurança mas acho que não devemos desanimar: temos de admitir um recuo numa utopia que nos parece um projecto razoável mas, como disse, estamos numa regressão perante a ideia de “paz perpétua” que sentimos no fundo de nós. Talvez a paz não seja só a inexistência da guerra ou talvez a guerra não seja só o afrontamento de dois exércitos que espalham a destruição e a morte. É que a guerra começa nos comportamentos de cada um: na maneira como tratarmos os que estão ao pé de nós – maridos, mulheres, filhos, pais, empregados, patrões, em resumo, o nosso próximo. 
António Alçada Baptista, Revista Máxima

O Brasil desarrumado


O país não atravessa apenas uma crise: vivemos uma desarrumação que, se não cuidarmos, vai nos levar para a decadência.

Nos últimos 12 meses, a moeda brasileira se desvalorizou cerca de 50% em relação ao dólar, e os preços internos cresceram 10%. A visão técnica chama isso de “desvalorização e inflação”; na verdade, é uma profunda desarrumação nacional. Desestrutura o sistema de trocas: os empresários aumentam os preços; os salários caem; os trabalhadores fazem greves; a economia entra em uma ciranda caótica; e todo o sistema de relações econômicas se desarruma, como uma véspera do caos.

A economia brasileira está desarrumada pelo tamanho da dívida e pelos consequentes juros exorbitantes, pela falta de regras jurídicas estáveis, pela escassez de mão de obra qualificada, pela baixa capacidade de inovação, pela falta de perspectiva e planejamento em médio e longo prazos, pelo alto custo derivado da infraestrutura obsoleta e ineficiente, pelo atraso em relação à economia do conhecimento. Uma desarrumação que levará à decadência.

O Estado brasileiro é um exemplo de desarrumação: no caos da política, na generalização e na profundidade da corrupção, na desorganização, na burocracia, na política salarial sem critério, salvo como resposta às pressões corporativas. As finanças públicas de União, Estados e municípios, como das estatais, estão totalmente desarrumadas.

A violência domina as ruas de nossas cidades, desarrumando a vida urbana: o número de mortos, o medo de ir a escolas e restaurantes e de tomar o ônibus são provas de algo mais profundo do que a simples afirmação de insegurança. As ruas das cidades do Brasil estão desarrumadas também pelo trânsito caótico, pela pobreza, pelo transporte público ineficiente.

A democracia convive com greves. Mas, quando elas se sucedem com frequência e se espalham por todos os setores e demoram longamente, o país vive uma desarrumação. O sistema educacional brasileiro, especialmente o público, está desarrumado pelo quadro quase permanente de violência dentro das salas de aula, pela desmotivação dos professores, pela falta de equipamentos necessários, pela desatenção dos alunos, pelo descuido dos pais e dos governos.

O sistema de saúde pública do Brasil está desarrumado. Não é uma questão de falta de recursos financeiros, é desordem gerencial, descumprimento de obrigações.

O papel de um novo governo será arrumar o Brasil para criar as bases de seu futuro como nação eficiente e justa no mundo da economia e da sociedade do conhecimento; corrigindo o desajuste fiscal; acabando com a corrupção e criando e respeitando o marco jurídico; montando as infraestruturas física, educacional, científica e tecnológica que o futuro exige. Mas o caos da desarrumação não nos permite esperar: desde já é preciso que as lideranças nacionais, independentemente de partido e de cálculos eleitorais, se encontrem, com o propósito de arrumar o Brasil.

Desvendando a 'lama inerte' que vazou da barragem da Samarco

É inadmissível que, 14 dias depois do rompimento da barragem da Samarco, em Mariana (MG), a empresa, sociedade da Vale com a BHP, não tenha ainda apresentado ao público um laudo químico completo e detalhado sobre o que continham os rejeitos de beneficiamento do minério de ferro. Foram 55 milhões de metros cúbicos de rejeitos, cuja avalanche deixou até aqui 11 mortos (4 não identificados), 12 desaparecidos, mais de 600 pessoas desabrigadas e um mar de lama que escorrega em direção ao Atlântico pelo rio Doce. Seu impacto ambiental e social ainda está longe de ser mensurado.

A Samarco disse em seu site que o rejeito é “inerte”, composto em sua maior parte por sílica (areia), e que “não apresenta nenhum elemento químico que seja danoso à saúde”. OK, mas é muito pouco para um desastre desta natureza. Por que a empresa não apresenta o laudo químico completo?

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O diretor de um sindicato de trabalhadores em mineração da região me explicou por telefone que a empresa usava reagentes químicos como amido, amina e soda em seu processo industrial. Somente a Samarco pode informar se estes produtos químicos, independentemente de serem inertes, estavam dentro da barragem que vazou. No dia seguinte ao rompimento, um repórter de O Globo escreveu: “o cheiro da tragédia era de barro misturado com soda caustica”. Além de areia, o que havia exatamente ali? Já sabemos que a maior parte era sílica, OK, mas e o resto? Em quais quantidades e concentrações?

A informação é fundamental para dar segurança às populações diretamente impactadas. Não à toa pessoas em Governador Valadares (MG), por onde passaram os rejeitos há 7 dias, não querem tomar a água tratada do rio. Mas não só isso. Conforme os rejeitos descem pelo rio Doce – a esta altura a mais de 700 quilômetros do local da barragem rompida – a lama vai carregando poluições outras, de forma que fica impossível estabelecer o que veio da Samarco e o que veio de outras fontes, pois há outras indústrias no caminho. “Sem o laudo químico original será impossível estabelecer, ao longo do rio, a pegada de poluição da mineradora”, me explicou Moacyr Duarte, pesquisador do Grupo de Análise de Risco Tecnológico e Ambiental (Garta) da Coppe/UFRJ.

Falei também Gergely Simon, do Greenpeace em Budapeste, na Hungria. Simon acompanhou de perto um desastre ambiental na cidade húngara de Kolontar, no ano de 2010, quando vazou o material de uma indústria de alumínio para o rio Danúbio. Mostrei a ele o resultado da análise de água encomendada pela prefeitura do Baixo Guandu (ES), quando a lama passou por lá alguns dias atrás – e que indicou alta porcentagem de ferro, arsênio e bário. Mas como a lama já havia viajado mais de 400 quilômetros até o momento da coleta, Simon fez a pergunta óbvia: “mas e o laudo químico do que continha a barragem? Sem esta informação, a análise fica comprometida, inclusive para se detalhar a extensão da responsabilidade dos envolvidos no vazamento em relação aos efeitos no percurso do rio. Sem este DNA, investigações futuras serão falhas”, alertou.

Em breve a lama inerte chegará ao Atlântico. Transformar seu conteúdo original em mistério será um acinte. Que autoridades ambientais federais e estaduais de Minas Gerais não estejam cobrando isso publicamente das empresas de forma enérgica é incompreensível (depois não se sabe de onde vem a profunda crise de representação que vivemos). 

Mal comparando, é como se após um desastre de avião com vítimas fatais, a companhia aérea ignorasse a existência da caixa preta. É tragável?

Terremoto nas terras de ninguém

Reportagem rodou 560 km em quatro dias, passando por seis cidades em MG e ES, para registrar prejuizos gerados por rompimento de barragem em Mariana, no interior mineiro (BBC Brasil)

Tenho medo e estou apreensivo com tantos terremotos nas terras da desgraça. De repente, o mundo começa a tremer de Mariana ao Atlântico, e assim fica explicado o rompimento das barragens da Samarco. Coincidência ou conveniência? É tudo isso e mais irresponsabilidade das empresas que exploram esse tipo de trabalho escravo, além das autoridades, as de agora e também as de outrora... Culpar terremoto é uma boa tática pra ficar livre de indenizações, né? Assim como de todos nós, que votamos por obrigação legal... Muitos são aqueles que jogam no time do “quanto pior, melhor”. Nesse cenário infeliz, o governador perde pontos quando anuncia o desastre da mineradora Samarco fora do palácio do governo e justamente na sede da empresa.

Não será essa falta de desconfiômetro das autoridades o motivo do acirramento dos ânimos políticos? O povo cansou de tanta mentira e roubalheira e está no limite da tolerância. Não é sem motivo que Dona Dilma aparece na televisão, e, de repente, não se sabe de onde saem tantas panelas. O ex-Luiz, acostumado a andar nos braços de uma “currumaça” de puxas do seu governo, em que mamou até vomitar, sente falta das mamadeiras, e, daí, sobram vaias para todo mundo. Petistas estão sendo vaiados em todos os lugares públicos onde aparecem.

Na semana passada, uma manifestação de repúdio ao petista Patrus Ananias, vaiado quando tomava umas pingas com um casal amigo em um dos nossos botecos, foi motivo de reclamações até de adversários, já que é sabido que ele, Patrus, é boa gente, além de pertencer a um clã familiar dos mais tradicionais daqui, das Gerais. E surgiu a dúvida: os protestos e as vaias não teriam sido para o casal que o acompanhava? Pode ser, já que o ministro e ex-prefeito de BH goza de elevado conceito na capital. E, por isso, apareceu numa dessas correntes sociais da internet um movimento com o nome de “rolezinho para tomar cerveja com o Patrus”. E aí, também, novas reações.

A penúltima edição da revista “Veja”, de número 2.451, de 11.11.15, publicou trechos do depoimento do dono da construtora UTC, que está preso por envolvimento na operação Lava Jato, em que esse delator denuncia políticos, alguns mineiros, que receberam dinheiro das obras do Comperj – Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro – nesta última eleição e também na de 2012. Para minha surpresa, o nome de Patrus está lá, com mais meia dúzia de deputados do PT.

Também é voz corrente no meio político que durante todo o tempo em que ele foi ministro de Estado pela primeira vez, no governo Dilma manteve, e mesmo agora mantém, gabinete permanente na chamada augusta Assembleia, onde é funcionário efetivo com todas as prerrogativas de líder de bancada. Será mesmo?

Custo a acreditar nisso, e nem preciso, mas a seus amigos de opa, que o têm como guru, e cujo partido é esconderijo de apóstatas terroristas, é bom que ele dê explicações se não quiser levar mais vaias. O inferno está cheio de inocentes...

De Getulio.Vargas@edu para Lula@org

Senhor presidente:

Faz tempo que eu organizo um churrasco para os presidentes do Brasil que estão por aqui. Depois da carne, jogamos pingue-pongue. Fizemos o último encontro há uma semana, e resolvi escrever-lhe porque falou-se muito do senhor. Vosmicê não é popular entre nós. Simpatia, o senhor tem a do Itamar Franco e do Floriano Peixoto. O Médici não pode ouvir seu nome. Eu procuro entender seus pontos de vista, mas sua gabolice dá-me nos nervos.

O tema de nossa conversa foi sua relação com a senhora Rousseff, e estamos todos de acordo: o senhor está jogando uma cartada inédita, ruim para o país e para ambos.

À mesa éramos 25. Em graus variáveis, todos desentenderam-se com seus sucessores. Uns, nunca os toleraram, como Kubitschek com Jânio. Outros, tendo-os ungido, como vosmicê, desencantaram-se e arrependeram-se. Confidencio-lhe que o Ernesto Geisel mal cumprimenta o general Figueiredo. Eu dou-me bem com todos, até com Geisel, que cercou meu palácio em 1945.

Por maiores e até mesmo injustos que tenham sido os desencontros, nenhum de nós tentou sequestrar o governo do seu sucessor. Mesmo quando procuramos interferir, preservamos a discrição. O Itamar lembrou que disse poucas e boas do Fernando Henrique Cardoso, mas sua força extinguira-se. Não é esse o seu caso. A presidente precisa do seu apoio, e a destruição dela será a sua. Intuo que o senhor precisa mais dela do que ela do senhor.

Resta outro argumento, o do recato. O senhor tirou o nome da presidente da sua cartola, como fizeram o Médici com o Geisel e o Geisel com o Figueiredo. Se arrependimento matasse, ambos teriam chegado aqui muito antes. Por recato, diziam horrores dos seus escolhidos, mas mantinham as queixas num círculo fechado.

O senhor está rompendo essa etiqueta. Quer mudar a política de sua herdeira, chegando ao ponto de indicar um ministro da Fazenda que, sem ter sido convidado por ela, sugere condições inaceitáveis até mesmo para um síndico de edifício.

O Washington Luiz, que sabe História, diz que vosmicê quer instalar uma regência no seu Instituto Lula mantendo a titular no Palácio do Planalto. Coisa inédita. Isso só foi tentado uma vez, com um presidente fisicamente incapacitado. O marechal Costa e Silva lembrou que, depois de ter sofrido uma isquemia cerebral, estava mudo e paralítico, mas os generais empossaram uma Junta Militar dizendo que ela era provisória. Esse gauchão sempre repete que deveriam ter empossado o vice-presidente. Foi dele a ideia de não chamar os membros de juntas militares para nossos churrascos.

O senhor diz com frequência que se pode pedir tudo a um governante, menos a própria humilhação. Meu caso foi extremo, mas, quando tomei a decisão de sair da vida, reagia à humilhação que os militares amotinados queriam impor-me. Em 1945, já deposto, recebi dois oficiais, fumei meu charuto e saí de cabeça erguida. Em 1954, armou-se uma situação em que sairia escorraçado. Escorracei-os entrando para a História e escorraçados meus inimigos estão até hoje, obrigados a conviver com suas infâmias.

Do seu patrício,

Getúlio Vargas.
Elio Gaspari

Carapuça para três

Daqueles que ocupam cargos importantes como são os cargos da chefia do Legislativo, do Executivo, do Judiciário, se aguarda uma postura exemplar, que sirva de norte ao cidadão. E essa postura nós não estamos constatando. Nós precisaríamos aí de uma grandeza maior para no contexto haver o afastamento espontâneo. Quem sabe até a renúncia ao próprio mandato
Marco Aurélio Mello, ministro do Supremo Tribunal Federal.

Brasil .2016, único entre os maiores, na recessão

Entre as 12 maiores economias e blocos econômicos do mundo com previsões no novo relatório "Global Economics Analyst" produzido pelo Goldman Sachs, o Brasil é o único que deve registrar queda do Produto Interno Bruto (PIB) em 2016. Para o banco, todos os demais países devem ter crescimento no próximo ano. Até mesmo a Rússia - país que divide com o Brasil o posto de pior desempenho do G-20 - voltará a registrar expansão no próximo ano.

De acordo com o relatório divulgado em Londres, a economia brasileira seguirá em recessão no ano das Olimpíadas no Rio de Janeiro, quando terá contração de 1,6%. Na tabela das previsões do Goldman Sachs, o Brasil é o único com números negativos no próximo ano. Todas as demais previsões mostram estimativas em azul.

A Rússia, país que deve ter contração do PIB de 3,5% neste ano, caminha para a recuperação e deve ter expansão da economia de 1,5% no próximo ano, prevê o banco. Outros grandes emergentes terão desempenho muito superior ao esperado para o Brasil: Índia terá avanço de 7,8% e China, 6,4%.

No grupo dos desenvolvidos, não há nenhum país com números negativos. Os Estados Unidos devem crescer 2,2% em 2016, o Japão terá avanço de 1% e o conjunto da zona do euro, 1,7%, prevê o Goldman Sachs. Entre os europeus, o crescimento deverá ser liderado pelo Reino Unido (2,7%) seguido pela Espanha (2,5%), Alemanha (1,8%), Itália (1,6%) e a França (1,4%). 

O Brás e Brasília

Ligo o computador e pouco mais de 15 minutos depois começo a sentir algo que me incomoda muito. O mesmo acontece ultimamente quando sento para ver um telejornal ou quando ligo numa estação de rádio. Penso em desistir. Começo a buscar subsídios para largar tudo de mão. Não escrever mais, não me expor mais. Lei de Gerson só para eles? Dinheiro de montão só para eles? Vale roubar e não perder mandato, não ser preso? Vale comprar apartamento em Miami ou fazenda em Uruguaiana? 

Ora, eu também quero tudo isto! Vale ser deputado, senador ou ex-presidente e ter tríplex na praia e sítio com laguinho pagos por empreiteira? Meus filhos não merecem morar em apartamentos de 600 m2 comprado com dinheiro sem origem? Por que não? Lamborghini, Ferrari, Porsche Cayenne ou Panamera, quero todos! Se der para ter tudo isto sem trabalhar, se der para tomar vinho de 3 mil roubando sem ser preso, quem não quer? Eu!


Corta para a matéria dos assaltantes no Brás, em São Paulo. São os nossos homens e mulheres públicos brasileiros aqueles ali. Cidadão distraído é roubado, descobre, olha para os lados, procura o bandido e não acha. É o equivalente a um dia de trabalho no Congresso Nacional! Igualzinho! 

Parlamentar bate carteira do contribuinte, passa adiante e faz cara de paisagem. Cidadão fica ali, procurando Nemo. Nenhuma diferença. Zero. Daí aparece um que reage e, paradoxalmente, surgem aos borbotões mais bandidos que batem nele. Eu vi ali o juiz Sérgio Moro, reagindo e apanhando, tendo o MP e o STF correndo para lhe espancar para salvar o meliante. Eu Moro e não vejo tudo...
Mesmo vendo tudo aquilo em Brasília e no Brás, eu desisti de desistir. Tenho todos os motivos do mundo para desistir, mas sou um covarde às avessas, tanto quanto Lula é um mentiroso e Dilma incompetente. A política é para os ladrões, mas também é para os imbecis como eu, que mantém o lúdico da democracia e o sonho da liberdade ainda intactos. Não sei roubar, não me ensinaram e nunca tive curiosidade de aprender. Só acredito na liberdade, na solidariedade e num futuro melhor. Sou aquela senhora com a bolsa aberta cuja carteira foi roubada, sou aquele que foi saqueado, humilhado. A meu favor quase mais nada. A meu favor, tudo!

Desisto de desistir. Chega de largar de mão, de achar que a briga não vale a pena. Eu vou andar pelo Brás mais cauteloso, de olho nas “bonitonas” e nos feiosos. Vou reagir, mesmo que apanhe. Daqui onde eu estou, vou fazendo o que posso. Não tenho pressa. Brás e Brasília tem seu próprio tempo e sofrem suas próprias misérias. A polícia prendeu vários no Brás e, por 48 horas, as compras vão ficar mais seguras. Em Brasília, 48 serão presos, ou mais, e poderemos ficar mais seguros, talvez, por alguns anos.

O Brás é a praça dos Três Poderes.

O Brás não é uma ilha. É Brasília.

Terror e inépcia

Enquanto, em Paris, o tiroteio terrorista no Bataclan se confundia com o som produzido por uma banda de rock –difícil distinguir uma coisa da outra–, no Brasil os 62 bilhões de metros cúbicos de rejeitos químicos sob responsabilidade de uma mineradora prosseguiam na sua trajetória de destruição por 500 quilômetros de Minas Gerais e Espírito Santo. Pela situação até agora, os efeitos da tragédia francesa se farão sentir por muitos anos. Os da brasileira, talvez para sempre.

Lá fora, o controle e a paranoia azedarão as relações humanas. A cordialidade dará lugar à desconfiança. Ter olhos e cabelos pretos, com ou sem barba, bastará para produzir um suspeito. Homens de bem levarão geral à luz do dia no meio da rua. A xenofobia, já latente, recrudescerá. Países outrora adoráveis poderão se tornar Estados policiais. Se esses forem os objetivos do terror, já estão sendo alcançados.

Aqui, o descaso, a fiscalização ridícula e as verbas "contingenciadas" geraram a morte de um curso d'água do porte do rio Doce e a quebra de uma cadeia de fauna, flora e recursos hídricos. Milhões de brasileiros serão afetados. Se a lama tóxica chegar ao mar, tomará santuários ecológicos, como Abrolhos, na Bahia; se outras barragens se romperem, como se teme, destruirão as cidades históricas mineiras. É possível pagar por isto?

O presidente francês François Hollande devia estar cochilando ao ignorar as advertências que lhe fizeram sobre possíveis atentados. Mas, assim que eles aconteceram, acordou e assumiu o comando. Já Dilma levou sete dias para despertar da letargia e sobrevoar a região desgraçada. Ninguém a aconselhou a dar uma rápida, mesmo que burocrática, satisfação ao país.

Na Europa, cedo ou tarde, o terror será derrotado. Mas, no Brasil, a inépcia parece invencível.