segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Veias abertas

Teotihuacan é o local onde o tempo nasceu. Foi ali que os deuses se reuniram para criar o Quinto Sol. Para os astecas, a Terra havia sofrido quatro criações e destruições anteriores e, graças ao sacrifício dos deuses, o sol que brilhava sobre eles foi criado de novo, precisamente em Teotihuacan.

Hoje, vivemos a criação de um novo sol. Uma nova ordem que parece ter, precisamente na geografia da América Latina, seu primeiro rascunho. A silhueta que ele desenha, porém, nos remete aos dias mais nefastos de nossa história. Uma intervenção armada, o sequestro ilegal de um chefe de Estado e um alerta para toda a região de que sua autonomia será castigada.


Donald Trump foi transparente: quer o petróleo e o controle do hemisfério. Nem sequer citou a palavra “democracia” ao comentar a incursão militar na Venezuela, durante uma coletiva de imprensa. Apenas confirmou o que Eduardo ­Galeano já havia alertado sobre o fato de o percurso da América Latina ser la historia del despojo de los recursos naturales.

Numa era digital, globalizada e virtual, ao contrário do que poderíamos imaginar, o controle de territórios volta a ser fundamental e estratégico. A inteligência pode ser artificial, mas está no subsolo sua massa cinzenta. E, assim, nossa região deixa de ser irrelevante. Para seu desespero.

É no triângulo entre Chile, Argentina e Bolívia que estão 60% das reservas de lítio do mundo. A Venezuela está erguida sobre um tesouro repleto de ouro e petróleo. O Brasil tem a segunda maior reserva de terras-raras do mundo, atrás apenas da China, principal rival dos EUA. Metade da prata do mundo vem da América Latina, assim como 40% do cobre, 22% do zinco e 10% do níquel. A Amazônia faz parte de qualquer equação que possa determinar o futuro da sobrevivência da espécie humana no planeta. Temos um terço da água doce do mundo.

Marco Rubio, ao explicar a intervenção dos EUA em Caracas, não mediu palavras para alertar que seu governo não vai tolerar que tamanha riqueza seja cobiçada por outras potências. Invertendo a canção, a ideia é de que, sim, podem comprar o sol, podem comprar a chuva.

Antes mesmo de assumir a Presidência, o movimento de ultradireita nos EUA havia já mapeado todos os pontos estratégicos da região que estavam nas mãos de potências estrangeiras, principalmente a China. A conclusão é que tal cenário seria inaceitável para a segurança nacional norte-americana.

Quando a nova estratégia de segurança nacional dos EUA foi publicada, em dezembro, essa conclusão ganhou um componente de política pública: a Casa Branca vai declarar sua ambição e interesses por esses pontos estratégicos do continente, inclusive por meios militares. Uma das instruções foi para que a CIA atuasse diretamente na identificação de áreas de recursos naturais estratégicos aos EUA na América Latina. Tudo isso estava escrito.

Antes, contavam histórias, inventavam narrativas para justificar intervenções. Hoje, sem pudor, abandonam o teatro, apenas para explicitar que tudo não passa de uma ofensiva por instrumentos para garantir um espaço de hegemonia no século 21.

Retomam a ideia de protetorados, inclusive quando não precisam disparar uma só bala e contam com o entreguismo de uma ala da elite latino-americana, ávida por ser recompensada pela traição. No caso brasileiro, a depender do resultado das eleições deste ano, Trump não precisará sequer usar seu arsenal militar ou de sanções. Tudo será devidamente entregue de bandeja. São poucos os países que podem dar-se ao luxo de ter a presença de harpias, o maior predador dos céus e a mais poderosa ave de rapina. Não por acaso, seu nome é inspirado na mitologia grega, símbolo de espíritos malévolos do vento, com rosto humano e corpo de abutre.

Parecem ecoar de novo pelos vales do continente as frases de Galeano. “Ahora América es, para el mundo, nada más que los Estados Unidos: nosotros habitamos, a lo sumo, una sub América, una América de segunda clase, de nebulosa identificación. Es América Latina, la región de las venas abiertas”, alertou.

Não é só o petróleo. O riquíssimo subsolo da região, com grandes jazidas de lítio, cobre, terras-raras e outros minerais estratégicos, despertou o apetite das rapinas do Norte

As veias seguem abertas. Após a queda de Maduro, Trump nem sequer disfarça sua ambição em seguir com sua diplomacia das canhoneiras. Para atender à base mais radical de seu governo, a ofensiva cumpre ainda uma missão ideológica: encerrar com qualquer foco de resistência ao sistema capitalista ou à hegemonia dos EUA.

Cuba, portanto, está na mira, e Havana parece ser destinada a viver mais uma vez um capítulo central na história do continente. A capital da ilha nunca foi apenas mais uma cidade. Seria ingênuo dizer que ela tem uma história. Havana tem uma biografia. Foi protagonista do fim do império espanhol, da construção da superpotência norte-americana. Foi o palco de uma tensão que deixou o planeta sem saber se teríamos um amanhã. Mas também embalou o mundo com suas melodias.

Em cada uma de suas ruelas, é como se o caleidoscópio de Alejo Carpentier penetrasse uma nova imagem no imaginário coletivo latino-americano. Ele dizia que hablar de revoluciones, imaginar revoluciones, situarse mentalmente en el seno de una revolución, es hacerse un poco dueño del mundo.

Agora, Havana pode voltar a ocupar esse lugar. O modelo, esgotado e sem o petróleo venezuelano, está ameaçado. No Malecón, qualificado como o divã mais eloquente do mundo em desenvolvimento, basta chegar mais perto de onde as ondas quebram para descobrir que, ali, o ar tem outro gosto. Ali, a espuma, a água e a luz explodem em sete cores. Hoje, aqueles que circulam pelo local, em algum lugar de suas almas, sabem que as ondas parecem trazer, sem negociação, uma ameaça irresistível.

A ofensiva ainda ocorre num momento em que o projeto de integração regional está enterrado. No domingo, a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) nem sequer conseguiu chegar a um consenso sobre o maior ato de agressão à América Latina em décadas. O Mercosul mantém-se em silêncio e, na terça-feira 6, a Organização dos Estados Americanos (OEA) transformou-se em uma plataforma de acusações mútuas, com a extrema-direita regional agindo para proteger Trump.

Maduro é, em muitos aspectos, indefensável. Mas a história não é sobre ele. Nesta semana, o trágico caminho do continente ganha mais um capítulo infausto, como se quisessem tentar nos provar, teimosamente, que somos um hemisfério condenado. “Não temos tido sequer um minuto de sossego”, diria Gabriel García Márquez, ao receber, em 1982, o Prêmio Nobel de Literatura, em um discurso no qual ele percorre a história de fantasias e dramas da região.

As veias abertas da América Latina continuam sangrando. A esperança, ainda assim, é de que elas também resistam, como diria Galeano.

'Ah, mas você tem um Iphone'

Uma foto usada pelo canal francês Arte 7 ilustra a matéria A escravidão moderna. Nela, vê-se um imigrante africano, operário da construção civil na França, que perdeu parte dos dedos após um bloco de concreto cair sobre sua mão. Sem equipamentos de segurança, ele passou dois anos trabalhando nessas condições, recebendo apenas metade do salário e dormindo em um quarto cedido pela empresa. Caso deixasse o emprego, perderia também o lugar para morar. Como ele, a maioria dos trabalhadores do mundo vive sob condições semelhantes. Isso é o capitalismo, ofuscado pelo brilho das parafernálias que nos seduzem, encantam e alienam. 


* As marcas francesas Lancôme (do grupo L’Oréal) e Aerin Beauty (do grupo Estée Lauder) foram citadas em uma investigação da BBC como envolvidas indiretamente na extração de jasmim no Egito, onde há uso de trabalho infantil e exploração de mulheres na colheita. 

* O tênis da Nike é produzido em países asiáticos como Vietnã, Indonésia, China, Coreia do Sul e Taiwan, em fábricas terceirizadas. As condições de trabalho nesses locais já foram alvo de denúncias de baixos salários, jornadas longas e ambientes insalubres. 

* A boneca Barbie é produzida na China por mulheres submetidas a jornadas exaustivas, com mãos queimadas pela cola quente, onde até mesmo as luvas são negadas às trabalhadoras, que recebem um salário de fome. 

* Nos canaviais brasileiros, os trabalhadores cortam, em média, mais de dezoito toneladas de cana diariamente. Para atingir essa meta, passam de 10 a 12 horas em atividade contínua, sob sol forte e em ambiente insalubre. 

* A grande farmacêutica Purdue Pharma, fabricante do OxyContin, é uma das responsáveis por viciar a população em opioides nos EUA, pagando médicos para receitar os próprios remédios. Outras empresas também foram implicadas, como Johnson & Johnson, Teva Pharmaceuticals, Endo International, Mallinckrodt e distribuidoras como McKesson, Cardinal Health e AmerisourceBergen. 

* O cobalto, matéria-prima essencial para a fabricação do iPhone e do computador da Apple, é extraído principalmente no Congo. A jornada de trabalho envolve crianças, falta de equipamentos de segurança. Além disso, grandes empresas armam “rebeldes” para apropriar-se das minas e “protegê-las”, financiando o sequestro de homens e meninos para este trabalho. 

* Nas fazendas do agronegócio, trabalhadores dormem em currais, enquanto o grupo Veneta e seu proprietário é dono da marca de grife Brooksfield. 

* Marcas como Victoria’s Secret usam mão de obra das prisões estadunidenses. Os presos são obrigados a trabalhar de graça. Para manter a produção, as cadeias precisam estar sempre cheias. 

* Todos os países da OTAN são obrigados a gastar, no mínimo, 1% do PIB com armas, para movimentar a indústria bélica. Nunca vimos a cara de um empresário do ramo. 

* A Itália comprou aviões F5, de bilhões de euros, enquanto o sul do país não tem médicos – tiveram que levar os de Cuba. 

* Grandes construtoras como MRV, OAS e Odebrecht também apareceram em listas de trabalho análogo à escravidão no Brasil.

* Países ricos (Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, França, Japão e Austrália) frequentemente exportam seus lixos – como plásticos, eletrônicos velhos e até resíduos tóxicos – para países mais pobres, especialmente na África, Ásia e América Latina. 

* Empresas como Coca-Cola, Nestlé e Danone participam de fóruns globais sobre água, defendendo a ideia de que a gestão deve ser feita pela iniciativa privada. A Coca-Cola já possui concessões de exploração de fontes de água em diversos países, inclusive no Brasil, para produção de refrigerantes e águas engarrafadas. 

* A empresa holandesa Braskem, responsável pela extração de sal-gema em Alagoas, provocou um dos maiores desastres socioambientais urbanos do Brasil. A mineração subterrânea em Maceió levou ao afundamento do solo em vários bairros, forçando a retirada de mais de 60 mil pessoas de suas casas e deixando áreas inteiras da capital em risco permanente. 

* A Vale é responsável por alguns dos maiores crimes ambientais da história recente do Brasil, principalmente os rompimentos das barragens de Mariana (2015) e Brumadinho (2019), que causaram centenas de mortes, destruição de comunidades inteiras e contaminação de rios. 

* As empresas produtoras de carne bovina, soja, papel e celulose, óleo de palma e mineração estão envolvidas com desmatamento de florestas. Entre elas estão Marfrig, JBS, Minerva, Amaggi, Cargill, Cosan, Citrosuco, além de multinacionais que compram insumos dessas cadeias, como Nestlé, Unilever e PepsiCo. 

* A Toyota fabricou e ocultou falhas em veículos, especialmente nos casos de recalls massivos entre 2009 e 2014. Os carros causaram acidentes fatais. E, o Ministério dos Transportes do Japão descobriu que a Toyota, junto com outras montadoras (Honda, Suzuki, Mazda e Yamaha), havia burlado testes de certificação. 

* As Ilhas Cayman, Bermudas, Luxemburgo, Suíça, Singapura, Hong Kong, Panamá, Ilhas Virgens Britânicas, Ilha de Man, Mônaco e Vaticano, são usados como paraísos fiscais. Esses locais oferecem tributação muito baixa ou inexistente, sigilo bancário e estruturas jurídicas que facilitam a evasão fiscal e a lavagem de dinheiro.

Aí, qualquer crítica ao Capitalismo tem como resposta: “Ah, mas você tem iPhone e está reclamando do quê?”

Resistir ao pessimismo quando tudo está a mudar

O otimismo já conheceu melhores dias. Nos tempos turbulentos e surpreendentes em que vivemos, passou a ser muito difícil encarar o futuro com aquele entusiasmo que, até há bem pouco tempo, associávamos à confiança no progresso, à crença de que o mundo estava sempre a melhorar, e de que o ano seguinte seria obrigatoriamente melhor do que o anterior.

Agora, num clima geral de incerteza económica, de regresso a um estado latente de guerra em regiões que pensávamos pacificadas e perante uma transformação acelerada e imparável da ordem mundial, é natural que tenhamos mais dúvidas do que certezas, quando tentamos antecipar o futuro.

A imprevisibilidade está instalada. A desconfiança sobre tudo e todos é fomentada para criar ainda mais incerteza e insegurança. Com um objetivo claro: fazer-nos ter medo do futuro.



É isso que pretende quem quer fazer-nos regressar aos tempos em que a autoridade se impunha unicamente pela força, independentemente da razão. Quem considera que o mundo deve estar dividido entre esferas de influência ditadas pelos mais fortes e não pelo que desejam as populações de cada nação ou território. Por quem quer perpetuar-se no poder, apenas pela força das armas ou da sua fortuna colossal, como se todos os outros fossem irrelevantes ou obrigados a ser, unicamente, obedientes. Quem, no fundo, nos exige que não pensemos no futuro, porque essa tarefa não nos compete – deve estar, dizem, entregue a quem cria esse medo e que, “generosamente” tratará disso por nós, para todo o sempre e a seu bel-prazer.

É inegável que vivemos uma crise generalizada de confiança – alimentada pelo discurso populista, sempre assente na gritaria e no bota-abaixo, e pela ditadura oculta dos algoritmos que, na era da informação instantânea e omnipresente, nos atira continuamente pólvora para a fogueira de qualquer conflito, só para não perder a nossa atenção. As consequências estão à vista: vivemos em sociedades divididas em bolhas, quase sem pontos de contacto entre elas e que se enfrentam, por qualquer que seja o motivo, com a fúria de quem repele um invasor. Com uma agravante: agora, as armas utilizadas, tanto a nível do discurso como do uso da mentira e da desinformação, já não respeitam as regras da guerra – mesmo as não escritas… – e ultrapassaram já todos os limites da ética e do bom senso.

A situação deteriora-se ainda mais quando aqueles que teriam a responsabilidade de ser os garantes da verdade, do humanismo, da justiça e da mais elementar decência, acabam por se deixar envolver no mesmo jogo da polarização e do extremismo absoluto, contribuindo, dessa forma, para a quebra de confiança nas instituições que representam.

É fácil, por isso, nestes tempos, ceder ao pessimismo e entregar a outros a construção do futuro – àqueles que, mesmo recorrendo à mentira e à manipulação dos factos, conseguem capitalizar o sentimento de revolta a seu favor. E fica ainda mais fácil quando os que teriam a responsabilidade de pugnar pelos seus ideais, princípios e valores, tanto na política como na comunicação social, optam pela ambiguidade estratégica, que acaba por ser aliada dos populistas, dos algoritmos e da lenta destruição da confiança nas instituições.

Há quem condene os otimistas, criticando-os por serem incapazes de prever o desastre que os espera, mesmo à frente. A verdade é que o pessimismo é bem pior e muito mais limitador: impede a ação contra a fatalidade do destino, aceita como inevitável as injustiças, limita a capacidade de revolta ou de indignação.

Talvez seja por isso que, neste mundo atual carregado de pessimismo e de polémicas que minam toda e qualquer esperança, não estejamos a prestar a devida atenção a algumas realidades que, provavelmente, irão marcar de forma decisiva 2026 e os próximos anos. Uma delas é a inesperada eclosão de várias revoltas lideradas pela chamada Geração Z que, em muitos países, já fez derrubar governos e obrigar a mudanças que poucos tinham previsto. Outra é a resposta inorgânica, mas com números impressionantes, de consumidores que decidem penalizar os desvarios de quem se acha dono do mundo: foi o que fizeram os canadianos ao boicotarem os produtos americanos, após as tarifas anunciadas por Trump, e o que revelaram os europeus ao deixarem de comprar automóveis Tesla, em resposta à deriva egocêntrica e autocrática de Elon Musk.

Podemos esperar algo do mesmo género nos próximos tempos. Até em geografias inesperadas. Mas basta ver o cuidado que Pequim teve ao abordar as consequências do recente incêndio num bloco de edifícios em Hong Kong, que se transformou no maior desastre daquele território em décadas, para se perceber que mesmo os regimes mais centralizados e aparentemente poderosos têm de lidar com muita cautela com a força da opinião pública. Aliás, foi graças à pressão popular, com manifestações generalizadas em todo o país, que Xi Jinping foi obrigado a rever a política oficial de confinamentos totais na China, no final da pandemia da Covid-19. E, pelos vistos, aprendeu a lição.

Como a História demonstra à saciedade, o futuro pode ser liderado por indivíduos, mas não se constrói sem os povos – e muito menos contra eles. Se há algo que nos ajuda a ser otimistas nestes tempos é lembrarmo-nos de que os ciclos são todos muito mais rápidos e voláteis. Ou seja: mesmo quando cedemos ao pessimismo e sentimos que tudo vai para o buraco, afinal também depressa se abrem os olhos e se avista um novo horizonte de esperança. Mesmo que insistam na mentira e na desinformação, as narrativas antidemocráticas e dos criadores do caos não vão durar para sempre.

É por isso que, nestes tempos, cada vez é mais importante a resistência de uma informação livre, rigorosa e verdadeiramente independente – baseada em factos e que ajude a pensar, de forma crítica e fundamentada, sobre a realidade.

Neste início de 2026, apesar dos ventos de pessimismo que sopram de tanto lado e das dificuldades por que temos vindo a passar nos últimos meses, na VISÃO não desistimos de olhar para o futuro com otimismo – graças ao apoio inexcedível dos leitores, confiantes no nosso profissionalismo e insistentes nos valores do jornalismo. “O destino destina, mas o resto é comigo”, escreveu Miguel Torga, há muito anos. O destino, na verdade, é connosco – todos!

Kast, Maduro, chacina do Alemão, política de segurança de Trump e o algoritmo

Sempre tive um interesse particular pelo tema da criminalidade na América Latina, especialmente no que diz respeito aos crimes midiáticos e às organizações criminosas. Desde o lançamento do filme Cidade de Deus, quando eu ainda era criança, compreender a relação persistente entre pobreza, proibicionismo, tráfico de drogas, corrupção, política e organizações criminosas tornou-se um hobby – especialmente no que diz respeito ao meu consumo de mídia em vídeo. Tropa de Elite foi um dos meus filmes preferidos por algum tempo, até a segunda parte, Tropa de Elite 2.

O fato é que o tema da violência me engajou, e, na era dos streamings, meu algoritmo entendeu isso rápido. Narcos México é a minha série de streaming favorita, seguido da versão colombiana que, assim como Tropa de Elite, é protagonizada por Wagner Moura – desta vez no papel de traficante. Mas não são as únicas séries que me engajaram na fase adulta: Impuros, Arcanjo Renegado, Donos do Jogo, Cidade de Deus (a série), O Jogo que Mudou a História, Todos contra Um, A Divisão etc. E todas estas chegaram até mim por meio dos meus algoritmos. Os sistemas de recomendação não têm dúvidas de que o tema da violência urbana é um dos meus favoritos. Eu não sou uma exceção. Muito longe disso. Sou apenas um homem médio latino-americano. Eu ouso dizer que o tema da violência é, para o homem médio latino-americano, um dos mais engajantes da história recente.

Crescemos em sociedades marcadas pela violência. Quando temos o privilégio de crescer longe das comunidades mais pobres, tomadas por guerras diárias, pelo tráfico e pelas milícias, a violência nos encontra nos telejornais, nas notícias, nos jornais policiais do meio-dia e, sobretudo, no medo. O medo de andar nas ruas escuras, o medo de encontrar “dois caras numa moto”, de parar num sinal à noite, de ter o celular roubado, o cartão clonado, e, especialmente para as mulheres, a integridade física e psicológica destroçada.

Com isto introduzo alguns comentários sobre fatos políticos recentes. Começando por uma das vitórias eleitorais mais marcantes para a América Latina em 2025: a de José Antonio Kast, eleito presidente do Chile. Apelidado pela mídia tradicional de “Bolsonaro Chileno”, o político de extrema-direita se utilizou de um discurso forte contra o crime e a imigração e foi o presidente mais votado da história do Chile. Segundo o doutor em sociologia Eugenio Tironi, em entrevista à BBC, o medo da criminalidade, comumente associada à imigração irregular, especialmente de venezuelanos, foi um dos fatores preponderantes para a vitória de Kast – que tem um discurso “linha dura” de combater violência com violência.

Kast não foi o primeiro nem será o último a conquistar popularidade ao mobilizar um discurso de combate ao crime organizado, com violência e firmeza. Mas, por vezes, o discurso se transmuta em prática e o resultado pode até ser mais eficiente. Após a operação mais sanguinária da história das polícias civis e militares do Brasil, que deixou 121 mortos nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, a popularidade do governador Cláudio Castro alcançou o seu ponto mais alto desde 2022. Figura política de ascensão recente e pouco expressa no âmbito popular, Cláudio Castro teve seu rosto conhecido em todo o Brasil. O subsecretário de inteligência da Polícia Militar do Rio de Janeiro, Daniel Ferreira de Souza, afirmou no Senado que a megaoperação na cidade teve resultado “ínfimo” para desmontar a estrutura do Comando Vermelho. Mas, na mesma entrevista, disse que a operação foi importante em “nível simbólico”.


Este efeito simbólico da violência, como de costume, se traduziu nos meus algoritmos, especialmente no Instagram e no YouTube. Reels do Instagram e Shorts do YouTube, na minha navegação de ócios diários, foram quase monopolizados por imagens da operação policial. Além de imagens das câmeras dos PMs, de jornalistas “de guerra”, também apareciam policiais dando entrevistas em podcasts explicando as razões da polícia ter que ser violenta, o próprio Cláudio Castro dando entrevistas elogiosas à operação e bolsonaristas diversos que eu nunca assisti voluntariamente (fora dos sistemas de recomendação) afirmando que o governador do RJ estava “fazendo o que o PT não fez”. O ocorrido acelerou o debate sobre a criação de um projeto de lei visando endurecer o combate ao crime organizado no Brasil, com a extrema-direita insistindo em equiparar o crime organizado a organizações terroristas.Ato em frente ao Consulado dos Estados Unidos contra a invasão na Venezuela.

É o que me leva a tratar agora do terceiro tema: a nova doutrina de segurança nacional de Donald Trump. Gostaria de chamar a atenção para três características desta doutrina:


* O reavivamento da Doutrina Monroe, definindo, de forma radical, que as “Américas”, especialmente os países da América Latina, devem ser campo de influência inquestionável dos EUA.

* A intenção de apoiar “governos amigos” na América Latina no combate ao narcotráfico e à influência de rivais geopolíticos, como a China e a Rússia.

* O foco no combate ao narcotráfico, equiparando as organizações criminosas que operam no tráfico internacional de drogas a terroristas (exatamente como a extrema-direita brasileira tentou fazer).

Aí entendemos que um “governo amigo” de Trump no Brasil, sem dúvidas, seria composto por aqueles reproduzindo a narrativa de que narcotráfico é terrorismo: o que justificaria inclusive intervenções militares dos EUA em território nacional, confirmando a radicalidade já demonstrada por Trump no reavivamento da Doutrina Monroe. Já se fala em “corolário Trump à doutrina Monroe”, que levou à invasão da Venezuela e ao sequestro do presidente Nicolás Maduro para ser preso e julgado nos EUA. Porém, Maduro não foi preso nem será julgado por ser um ditador, mas sim por ser, alegadamente, um “narcoterrorista”. O combate ao narcotráfico e ao narcoterrorismo é a narrativa prioritária de Trump para justificar sua intervenção. Esta intervenção teve um efeito midiático natural que também foi impulsionado e alimentado pelo próprio Donald Trump, ao postar uma foto de Maduro sendo transportado para os EUA, algemado e vendado. A foto é digna de abertura da série sobre o narcotráfico, até mesmo em sua estética.

E o que os algoritmos têm a ver com isso? Não é novidade a relação íntima entre Donald Trump e as grandes corporações de tecnologia dos EUA, especialmente as redes sociais, assunto que foi tema de artigo meu publicado no site do Lab 404 e no Le Monde Diplomatique. Desde janeiro, a META, controladora do Instagram e do Facebook, já tinha expressamente prometido se aliar a Trump contra países que visam regular as redes sociais. O que leva à reflexão sobre as capacidades dessa aliança e sobre o papel do tema do combate à violência para fortalecê-la.

No artigo científico intitulado “Opinião Pública Algorítmica”, pesquisadores italianos tratam de como os algoritmos das redes sociais contribuem para direcionar, facilitar ou dificultar a formação da opinião pública nas sociedades. Segundo eles, os algoritmos desempenham um papel decisivo na determinação de quais questões de interesse público importam mais e quais notícias são selecionadas e amplificadas. Eles explicam que, nas redes sociais, a opinião pública se materializa como produto das interações entre usuários e conteúdos organizados por algoritmos, o que impõe aos usuários navegar e negociar sua capacidade de ação como parte de um ecossistema sociotécnico mais amplo. Nestes sistemas, ao mesmo tempo em que o algoritmo molda o que o público recebe, é moldado pela reação do mesmo público às informações. Mas a relação não é apenas entre algoritmos e usuários, pois as tecnologias não são neutras: fazem parte de redes mais amplas de interesses políticos, geopolíticos, corporativos, econômicos etc.

Não foi por isso que o governo Trump obrigou a ByteDance, controladora do TikTok, a deixar que o algoritmo de sua operação nos EUA fosse controlado por atores norte-americanos? Fiz questão de introduzir esse texto, tratando do meu interesse pelo tema da violência, que precede a ascensão dos algoritmos como mediadores de conteúdo, para agora dizer que, nas redes sociais, os usuários não são meros receptores da personalização: eles interagem com uma estrutura maleável e constantemente moldada por acontecimentos tão diversos e dispersos no tempo e espaço que podem incluir na mesma rede: o medo diário da violência urbana, a decisão do STF de responsabilizar plataformas digitais, a fala de Lula sobre “traficantes serem vítima” e a forma de fazer política internacional de Donald Trump. Vai muito além da interação entre o algoritmo e o usuário. O algorítmico intensifica interesses prévios para aumentar sua capacidade de captar a atenção. E quanto mais captura a atenção, mais influência exerce. E esta influência faz parte de uma rede mais ampla de afetos, economias corporativas, disputas geopolíticas, disputas de classe etc. Em resumo: o algoritmo nos leva a fazer coisas e tomar decisões, mas também é levado a fazer coisas. Ele “produz a” e é “produzido pela” realidade social em que funciona.

Os índices de violência que geraram a sensação de medo entre os chilenos e foram capitalizados politicamente por Kast não chegam nem perto dos brasileiros. Mas, embora apresente índices de criminalidade inferiores aos dos países vizinhos, a insegurança dominou o debate eleitoral no Chile. Segundo a Ipsos, 63% dos chilenos colocam crime e violência como sua maior preocupação – percentual superior ao de México, Colômbia e Brasil. Apesar de ter taxas de homicídio muito menores, o Chile se tornou o segundo país mais preocupado com a violência entre 30 nações pesquisadas. É de se esperar que a extrema-direita brasileira adote a mesma estratégia. Isso onde o governo Trump está expressamente disposto a ajudar políticos amigos ao mesmo tempo em que aumenta sua influência na América Latina inclusive com intervenções militares; a META está expressamente disposta a combater governos que querem regular as redes; e o Brasil avança no debate regulatório com a proeminência da ação política de atores progressistas e da Suprema Corte.

É de se esperar, no Brasil, algo como o que ocorreu na Venezuela? Muito improvável, apesar de o “improvável” estar acontecendo na era geopolítica que se inaugura. É de se esperar que haja mais operações policiais cinematográficas para agendar o debate público? Talvez. O que dá para ter certeza é que não estamos livres de intervenções externas em nosso processo democrático no ano corrente. E um dos meus palpites é que é de se esperar que o algoritmo do brasileiro médio, assim como o meu, trabalhe para trazer o tema da violência urbana (especialmente o tráfico de drogas e as organizações criminosas) ao centro do debate eleitoral.

Trump arromba a porta das leis

Começa assim o conto “Diante da lei”, que Franz Kafka publicou ainda em vida (1915) e foi postumamente incorporado à história de Josef K. no célebre romance “O processo”, do mesmo autor:

— Diante da lei, encontra-se um porteiro. A esse porteiro chega um homem do campo que pede para entrar na lei. Mas o porteiro diz que não pode conceder-lhe entrada naquele momento. O homem então pergunta se poderá entrar mais tarde. “É possível”, diz o porteiro, “mas não agora”.

Na parábola citada, o portão da lei parece estar sempre aberto, e o recém-chegado se inclina para espiar o que há lá dentro. O porteiro percebe e ri.

— Se a tentação é tão grande, tente entrar apesar da minha proibição. Saiba que tenho poder, mas sou apenas o porteiro do escalão mais baixo.


Para além dele, haveria mais salas, cada uma com um guardião mais poderoso que o da sala anterior. O homem do campo não esperava tais dificuldades. A lei deveria ser sempre acessível a todos, pensa ele; mas, ao observar com mais atenção o porteiro em seu casaco de pele, seu nariz grande e pontudo e sua longa e fina barba tártara negra, decide que seria melhor esperar até obter permissão para entrar. O porteiro lhe oferece um banquinho e permite que se sente, do lado de fora do portão. Ali o homem permanece sentado por dias e anos. Faz inúmeras tentativas para ser admitido e cansa o guardião com seus reiterados pedidos de acesso.

O porteiro frequentemente o interroga pró-forma, questionando-o sobre sua terra natal e muitas outras coisas, mas são perguntas lançadas com indiferença. Ao final, sempre repete que ainda não pode deixá-lo entrar. Para conquistar o almejado acesso à lei, o homem vai lhe oferecendo o que levava consigo de mais valor. Este aceita tudo, e ao aceitar, diz:

— Estou levando isto apenas para que você não pense que falhou em nada.

Assim passam meses, anos, muitos anos. Nada muda. O homem observa o porteiro quase continuamente. Esquece os outros porteiros, pois o primeiro lhe parece ser o único, senão o maior obstáculo. E amaldiçoa a infeliz circunstância da situação — em voz alta nos primeiros anos de espera, como murmúrio para si mesmo à medida do envelhecer. Vai se tornando infantil. De tanto estudar o porteiro, ele passa a conhecer até as pulgas que frequentam sua gola de pele, chegando a pedir-lhes que o ajudem a persuadi-lo. Sua visão enfraquece, e ele não sabe se as coisas a seu redor se tornaram realmente mais escuras ou se é enganado pelos próprios olhos. Restando-lhe pouco tempo de vida, tem uma iluminação ao repassar o que vivera e consegue formular a única pergunta que ainda não fizera ao porteiro. Este tem de se curvar bastante para ouvir e falar, pois a grande diferença de altura mudou as coisas em desvantagem para o homem.

— Então, o que você ainda quer saber?

— Todos se esforçam para cumprir a lei. — diz o homem — Então como, em todos estes anos, ninguém além de mim pediu para entrar?

O porteiro vê que o homem está morrendo. Para se fazer ouvir, berra a resposta:

— Aqui ninguém mais pode entrar, já que esta entrada foi designada apenas para você. Vou fechá-la agora.

Fim da parábola.

Existe uma versão de 1962 desse conto, narrada por Orson Welles.

Por que revisitar esse texto centenário, tantas vezes dissecado por pensadores de várias correntes? Porque 2026 começou com o mundo parado à porta da Casa Branca, com o guardião-mor destruindo até mesmo leis que funcionavam mal. Kafka, que estudara Direito em Praga (uma das poucas profissões ainda permitidas a judeus no Império Austro-Húngaro), conhecia o poder destruidor de uma Justiça fugidia e de uma verdade inalcançável.

— Cada pessoa tem seu portão, e ele está aberto. Mas não sabemos que está — escreveu, sobre “Diante da lei”, o filósofo austro-israelense Martin Buber (1878-1965).

Pois é tempo de saber.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Pensamento do Dia

 


Prefiro rosas

Prefiro rosas, meu amor, à pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.

Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.

Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,

Se cada ano com a primavera
As folhas aparecem
E com o outono cessam?

E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?

Nada, salvo o desejo de indiferença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.

Ricardo Reis (heterônimo de Fernando Pessoa)

'A vida dos pobrezinhos é um mistério'

Saímos das estradas mais movimentadas. Andámos por muito tempo até chegar a uma colina um pouco isolada. Lá em cima, um punhado de pequenos prédios iguais, com não mais de quatro andares e um ar desolado sob o céu cinzento e ventoso. “É aqui? É mesmo longe de tudo”, perguntei ao fotógrafo, enquanto subíamos a colina. Tocámos à campainha e subimos a pé vários lanços de escadas, galgando os degraus de mármore claro, frios e húmidos. A porta abriu-se e o nosso olhar quase conseguiu abarcar toda a casa. Era pequena. Na sala, para onde nos convidaram a entrar, havia um monte de roupa equilibrado em cima das costas do sofá. Não estava desarrumado. Era roupa acabada de lavar, dobrada, sem outro sítio onde estar.


Estávamos ali porque eu tinha escrito a história de Liliana, uma mãe a quem retiraram oito filhos porque era pobre. Nas semanas a seguir a essa história ser impressa, recebi muitos emails e telefonemas. Houve até uma mãe que veio ter comigo, à redação do jornal, garantir que tinha sido também por esse delito de pobreza que a tinham afastado dos filhos. E agora estava ali em frente a mais uma mulher, ainda jovem, mas já com a cara marcada e três filhos de uma relação anterior, que a tinha feito fugir e pedir ajuda. Vítima de violência doméstica, com dificuldades em pôr comida na mesa dos filhos, pediu auxílio na escola onde andavam as crianças e, em troca, puseram-lhe em cima um foco de luz demasiado pesado, que revelava todas as falhas, todos os erros. O mais velho começou a dar chatices na escola e passado pouco tempo estava institucionalizado.

Mas não era por isso que eu ali estava. A rapariga tinha refeito a vida com um novo companheiro, que estava ali ao seu lado. Quiseram ter mais um bebé. A criança nasceu, mas não veio para ali. Ficou no hospital porque as assistentes sociais acharam que não havia estrutura familiar naquela casa para a receber. Tinham-se passado meses. A mulher levou-me a um dos quartos e abriu, uma a uma, as gavetas onde tinha dobradas as roupinhas que o filho nunca chegou a vestir. Engoli em seco. Aquelas gavetas cheias foram a coisa mais vazia que já vi.


Ela foi-me explicando o inferno que era provar que queria continuar a ser mãe do seu próprio filho. Desempregada, não podia faltar aos cursos marcados pelo Centro de Emprego, que lhe davam os poucos euros de que precisava para viver. Mas também não podia faltar às visitas para ver o bebé, mesmo que isso lhe custasse demasiado dinheiro e tempo em transportes, atravessando concelhos para estar ali a manter um vínculo. Qualquer passo em falso podia custar-lhe o fim do subsídio ou a decisão de que a criança estaria melhor com uma família adotiva. Todas as escolhas daquela mulher eram impossíveis e insuportáveis.

Nunca cheguei a saber o que aconteceu depois de voltar ao jornal e escrever. Lembro-me de ter pensado que aquela periferia onde estive era num país diferente do que conhecia. E ocorreu-me que talvez essa estranheza me viesse de não ser uma alfacinha de gema. Mas acabei por concluir que há muitos lisboetas para quem as fronteiras de algumas periferias são um abismo ou um mistério.

“A vida dos pobrezinhos é um mistério”, diz-me às vezes um amigo, carregando na ironia, porque ele não é dos que viram as costas aos bairros que os jornais classificam como “difíceis” e onde as televisões só entram para mostrar raides policiais, marcas de balas e graffiti nas paredes.

Nos meses em que fui acompanhando as histórias de mães pobres, assustadas com o sobressalto de poderem ficar sem os filhos, não conseguia deixar de pensar no que exigimos aos que nada têm. Os pobres têm de ser perfeitos, imaculados. Já lhes toleramos a pobreza como falha. Não estamos dispostos a perdoar mais nada. E vão ter de nos provar uma e outra vez que são merecedores de qualquer direito. Os pobres estão sempre à prova. E sabem disso. E é talvez por isso que se escondem. Não é por vergonha. É por cálculo. É por saberem quais serão as consequências de qualquer sombra de ingratidão, pecado ou erro. O melhor é andarem de cabeça baixa ou, para os que têm sorte, esconderem a pobreza o melhor que podem, exibindo o pouco que têm, sem se aperceberem de que há quem os tope à légua e se indigne ainda mais por ser possível ser pobre e ter uns ténis de marca ou um iPhone. Não, não é fácil.

Os pobres aprendem depressa que o respeitinho é bonito. Os ricos não. Sabem que têm mais a ganhar quando questionam e exigem. Um estudo da Nova SBE Economics mostra que 31,7% dos mais pobres acham que as pessoas devem fazer o que lhes mandam e cumprir sempre as regras. Só 17,7% dos mais ricos acham o mesmo. E, como de pequenino é que se torce o pepino, 84% dos pobres acreditam que a obediência e o respeito pela autoridade são os valores mais importantes para ensinar às crianças, quando só 54,2% dos mais ricos defendem a mesma ideia.

Uma vírgula numa lei pode valer milhões para um rico. Mas os pobres arriscam todas as migalhas quando a austeridade lhes corta os apoios ou os aperta nos impostos. São os primeiros a sentir na carne o que se decide nos gabinetes. Mas nem por isso se interessam por política. O mesmo estudo diz que 45,2% dos mais pobres não têm nenhum interesse por política. Entre os mais ricos, apenas 11,5% que dizem não se interessar de todo. A explicação é simples: 50,1% dos pobres dizem que o sistema político não dá voz às pessoas (apenas 10,3% dos mais ricos pensam o mesmo) e 56,9% acreditam que é impossível influenciar a política (só 16,5% dos ricos sentem a mesma impotência).

O resultado está à vista. Dentre os mais pobres, 30,2% admitiram não ter votado nas legislativas anteriores ao inquérito. Agora, imaginem que eles votavam. E imaginem o que terá a dizer uma mãe que tem de provar a cada instante a perfeição, que é colocada perante dilemas impossíveis, a quem os transportes falham e a comida escasseia, que é posta de lado e julgada, mesmo antes de abrir a boca, e que sai da maternidade com o ventre vazio e os braços sem nada, obrigada a deixar para trás o bebé que quis, mas que lhe dizem que não pode ter.

Não podemos falar sobre isto. É populismo. O certo é defender baixas de impostos às grandes empresas e esperar que o dinheiro jorre em cascata por aí abaixo. O certo é apoiar os benefícios fiscais aos grandes investimentos. O certo é aceitar como mantras as obrigações orçamentais e rezar ao Deus das contas certas.

As vidas dos pobres são pornografia política. Não podem ser ditas em voz alta. Alguém alguma vez viu mesmo um pobre? Como, se há uma revista que assevera que vivemos na melhor economia do mundo? Se por um acaso muito remoto se cruzarem com um pobre, saibam que seguramente não se esforçou o suficiente. Ou, pior ainda: vive certamente às custas do dinheiro dos vossos impostos. Que não vos passe pela cabeça achar que essa gente merece sequer as migalhas que tem. E não pensem demasiado sobre porque é que só 10,3% dos mais ricos acham que o sistema político não lhes dá voz. Não pensem nisso. Nem pensem nisso.

Humilhação espetacular

A captura – ou rapto, ou sequestro – de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, na madrugada de sábado, foi amplamente analisada e comentada na imprensa. Só ficou faltando um pedaço. Além das razões geopolíticas (que levam a Casa Branca a tentar expulsar as influências russas e chinesas do mar do Caribe e da América do Sul), além das pressões exercidas sobre o presidente pela indústria petrolífera norte-americana (que quer beber o óleo extrapesado das águas venezuelanas) e além da ameaça de perda de popularidade interna (que o governo imagina conseguir desviar com agressividade bélica em plagas estrangeiras), há um quarto fator a se levar em conta.


Esse quarto fator é a imagem, a comunicação, a propaganda no seu sentido mais superlativo. Não se pense que seja apenas uma questão de modular a fala ou de escolher a melhor mensagem para o melhor momento. Para o trumpismo, a propaganda açambarca toda a episteme, mais ou menos como aconteceu com o nazismo. No Terceiro Reich, a massificação da ideologia constituiu a única forma de conhecer, explicar e moldar o mundo – na era Trump, a comunicação se realiza como a apoteose performática que reduz o mundo à lógica do entretenimento. Segundo essa doutrina, existir é aparecer, não importa a que custo e não importa para quê.

Aparecer implica empalidecer a imagem do outro. Pela chave do exibicionismo compulsivo, podemos compreender a política de aviltamento sistemático que o trumpismo dirige contra outras nações e seus representantes legítimos. Não se trata meramente de um jeito espalhafatoso de ser, mas de um discurso fechado, compacto e pesado que define o modo de ser. Donald Trump adestrou-se em seu discurso quando se tornou uma celebridade da televisão como apresentador do programa The Apprentice.

Mais adiante, aprendiz deslumbrado que sempre foi, elevou seu estilo discursivo ao patamar de escola para as relações externas. O método consiste em submeter o interlocutor a rituais sucessivos de humilhação explícita para quebrarlhe a dignidade, a autoconfiança e a independência. Adeus, ONU. Adeus, democracia. Adeus, soberania nacional dos outros – e, se a Otan bobear, adeus também para a Otan.

Foi com base nesse parâmetro que o vice-presidente J. D. Vance compareceu a uma reunião sobre segurança mundial na Europa, em fevereiro do ano passado, para anunciar aos seus pares que havia “um novo xerife na cidade”. Isso na mesma semana em que seu chefe, o assim chamado “xerife”, deixava claro que preferia negociar com Putin a se entender com os líderes europeus. Poucos dias depois, Trump, em pessoa, ladeado por Vance, admoestou com arrogância extrema o presidente ucraniano Volodmir Zelenski, durante uma reunião no Salão Oval: “Você está brincando com a Terceira Guerra Mundial”. A partir daí, vieram em cascata demonstrações de prepotência e soberba, como o bombardeio das instalações nucleares do Irã, em junho – bombardeio, diga-se, mais cenográfico do que efetivo: mal arranhou o projeto de enriquecimento de urânio do regime iraniano.

Na natureza do trumpismo, a dimensão do espetáculo é mais determinante do que a dimensão geopolítica (a vigilância das “áreas de influência”), a dimensão econômica (representada no caso presente pelas companhias de petróleo) e a dimensão da política interna (especialmente quando bate em índices de popularidade). O espetáculo condiciona e determina todo o resto.

Basta ver que o receituário de Trump, uma forma sistêmica de loucura, não tem nenhuma compatibilidade com a coerência e com o cultivo do respeito. Sobre sua incoerência constitutiva, lembremos que ele mandou prender Maduro porque o acusava de chefiar o narcotráfico. Depois, sem maiores explicações, retirou a acusação de narcotraficante, mas manteve a prisão. Lembremos também a patacoada que foi o capítulo das tarifas abusivas contra o Brasil. No início, a razão seria a defesa de Bolsonaro. Então, Bolsonaro ficou de escanteio mas a guerra tarifária prosseguiu. O show tem de continuar. Quanto ao cultivo do respeito, tentemos imaginar um Trump polido, cortês, afável e adepto do soft power. Esse Trump jamais existirá. Ele é puro bullying internacional.

O que aconteceu no sábado passado foi furor performático – e bem ensaiadinho. Teria de ser como foi, com a Força Delta de abre-alas, secundada por 150 aeronaves, entre bombardeiros, aviões de combate, helicópteros e drones, como se a política externa fosse a continuação de um filme de Bruce Willis por outros meios, passando pelos filmes de Tom Cruise, por certo. Em Trump, o fascismo alcança seu feitio mais avançado de entretenimento sem caráter e totalizante.

A investida contra Caracas, que fez letra morta do Direito Internacional, humilhou indistintamente os que apoiam Maduro e os que se opõem a ele. Os primeiros não tiveram como proteger seu ídolo e se desmoralizaram. Os segundos ficaram no papel de crianças, jurídica e politicamente incapazes, que chamam o irmão mais velho para bater no coleguinha. O continente inteiro está humilhado.

No mais, o Brasil, em ano eleitoral, está na alça de mira.

Crime superorganizado

As epidemias biológicas contagiam pelo contato; as epidemias morais contaminam pelo exemplo. O comportamento dos líderes espalha a corrupção ao ponto de a honestidade, que era um valor ético generalizado, passar a ser mania de poucos excêntricos que ainda a praticam. Em vez de servir à comunidade, os agentes públicos, especialmente mas não apenas os políticos, passaram a priorizar os próprios interesses, usufruir das funções, sem respeito aos interesses nem à opinião pública. As eleições perderam o propósito de escolher quem apresenta as melhores propostas para o país e passaram a eleger quem oferece vantagens pessoais ao eleitor. Tal como nas epidemias biológicas, ao contaminar a maior parte da população, a corrupção passou a ser vista como um simples incômodo: uma “gripe de consciência”.


Há um sentimento geral de que tudo o que é legal pode ser feito, mesmo que não seja decente; e de que o que é ilegal pode ser praticado, desde que não seja descoberto. A diferença em relação aos antigos coronéis é que os atuais usam dinheiro público para beneficiar seus eleitores, agora informados por outdoors ou redes sociais. O setor público brasileiro gasta bilhões com supersalários viabilizados por truques legais promovidos pelos próprios beneficiários. Em um país cujo rendimento médio mensal mal chega a R$ 3 mil e em que mais de 50 milhões de pessoas vivem com rendimento domiciliar per capita abaixo de R$ 1,5 mil, um pequeno grupo de privilegiados aufere remunerações que chegam a superar 100 vezes o salário mínimo de um trabalhador, além de contar com dezenas de penduricalhos e privilégios que fariam inveja às elites aristocráticas e aos ditadores mais extravagantes. Esse exemplo contamina e alimenta a epidemia do vírus da corrupção e faz com que ela pareça tão legal e natural que os excluídos passam a aceitar a existência dos privilégios, desejando, um dia, ter também acesso a eles, como escravos que sonhassem morar na casa-grande e não em abolir a senzala.

Os governos brasileiros gastaram, no ano passado, cerca de R$ 31 bilhões para pagar precatórios, resultantes não apenas de erros e inoperância administrativa, mas também de alianças e tráfico de influência entre sindicatos, advogados e aqueles que decidem esses pagamentos, definindo sua legalidade e o momento de sua quitação, mesmo em detrimento de serviços públicos essenciais. Quando um médico recebe honorários muito acima do que recebem outros igualmente competentes, passa-se a ideia de que existe algum tipo de tráfico de influência com Deus. Isso vale para outras profissões que dependem de redes de prestígio ou de mecanismos de poder.

Até mesmo bondades sociais foram corrompidas: bolsas sem exigência de contrapartida escolar ou produtiva; diplomas de curso superior sem exigência do respectivo conhecimento; greves justas por melhores salários de professores nas escolas públicas que provocam concentração de renda ao negar escola aos filhos das camadas de baixa renda; estabilidade no emprego transformada em argumento para descuido no trabalho.

A epidemia da corrupção, sob a forma de apropriação de recursos públicos, de ineficiência, desperdício e prioridades equivocadas espalhou-se tanto quanto os vírus biológicos, que, ao contaminarem a maioria da população, passam a ser parte do organismo, sentida apenas como um incômodo passageiro nos dias seguintes a um escândalo, logo aceito, explicado e normalizado por estar dentro da lei, embora seja indecente. A corrupção chegou a tal ponto que denunciar esse comportamento passou a ser visto como atitude preconceituosa contra o Estado ou a favor de meritocracia.

A corrupção deixou de ser exceção e foi normalizada: o crime organizado transformou-se em crime superorganizado, incorporando não apenas os que estão fora da lei, mas também os que fazem e administram as leis. Crime organizado é quando a máfia unifica bandidos; crime superorganizado é quando incorpora bancos, bancas, tribunas e tribunais em suas conexões.

É possível que isso já existisse durante a ditadura sem que soubéssemos, mas a democracia não trouxe vacina anticorrupção, ampliou para bilhões os valores desviados e legalizou suas práticas, permitindo que as tolerássemos como simples “gripe de consciência”.

​Contra a indiferença, o deixa-andar e o calculismo de conveniência

É um dos paradoxos dos nossos tempos. Apesar de vivermos na era da discórdia permanente, das polémicas sucessivas e da indignação por tudo e por nada, também assistimos, cada vez mais, a um crescimento da indiferença em relação àquilo que, de facto, mais devia revoltar-nos e obrigar-nos a agir. E grande parte do problema começa exatamente nesse ponto: preferimos indignar-nos, porque assim já não precisamos de agir, de fazer alguma coisa para mudar o que está mal. Este adormecimento coletivo, potenciado pelos algoritmos que tanto dominam as redes sociais como a paisagem mediática, tem a consequência que se vai vendo: crescem os sinais de intolerância sobre tudo, mas promove-se a tolerância à indiferença, como se essa fosse a atitude mais cómoda, tranquila e, no fundo, a mais prudente. Numa sociedade em que apenas se quer ganhar a atenção, isso é feito não para estimular o pensamento e a ação, mas apenas para aceitar aquilo que nos é “servido”, sem ser preciso pensar em mais nada.


A lógica instalada, por quem mais quer prender-nos a atenção sem estar preocupado com o conhecimento, é simples: promover a polémica, o combate, mas deixar que tudo se resolva com um “gosto” ou não “gosto”, com um comentário violentíssimo nas palavras, mas sem qualquer relevância na realidade. Com um bónus: o de permitir que tenhamos outros a aplaudirem a nossa reação, fazendo com que sintamos que cumprimos a nossa missão, com brio, esforço e, sabe-se lá, até valentia – quando, afinal, não fizemos nada, de facto, que tivesse consequências para mudar a realidade.

É este contínuo fechar de olhos ou encolher de ombros às injustiças, às indecências, até às ilegalidades que acaba por minar o sentido de comunidade. Para tudo, há sempre um “mas” a justificar uma ação que deveria ser condenável ou um “também” para minimizar o impacto de algo que, em condições normais, deveria ser escandaloso e, por isso mesmo, inadmissível.

É por isso que, nesta época, é cada vez mais necessária uma informação livre, rigorosa e independente, inclusive dos humores e dos negócios escondidos do algoritmo. Uma informação que saiba hierarquizar os temas pela sua importância e não apenas para captar a atenção. Precisamos de informação que nos ajude a abrir os olhos, e não para ser consumida como se estivéssemos de olhos fechados. Não é preciso que estejamos sempre de acordo com o que ela nos transmite nem de a ter como fonte única e exclusiva de conhecimento – muito pelo contrário. O necessário é que, nestes tempos em que já nem sempre conseguimos distinguir o verdadeiro do falso, ela seja de confiança e credível – o que, convenhamos, é cada vez mais difícil de encontrar, infelizmente.

Uma sociedade mais informada será sempre, necessariamente, uma sociedade mais esclarecida e exigente. E, nessa medida, menos tolerante para com sentimentos de indiferença e mais severa com quem, na política ou no espaço público, faz da sonsice um estilo de vida ou insiste na mentira, sem qualquer pudor nem embaraço.

Vivemos num tempo de grandes transformações mundiais, em que as relações de força e as alianças estão metidas numa espécie de máquina centrifugadora, sem sabermos muito bem o que virá a seguir.

Na vida, como na política e nas relações internacionais, é importante que não nos remetamos permanentemente para o lugar da indiferença ou do calculismo exacerbado, como a querer dizer que “nada temos a ver com o que se está a passar”. A verdade é que temos. A guerra na Ucrânia, os massacres em Gaza, as convulsões em África ou a invasão ilegal da Venezuela podem parecer-nos longe, mas têm tudo a ver connosco. Não podemos ser indiferentes ao que lá se passa, nem usar pesos diferentes para medidas semelhantes. E, no mínimo, deveríamos preparar-nos para as convulsões que, inevitavelmente, se adivinham num futuro muito próximo. É melhor que, nessa altura, estejamos sustentados na verdade e não em perceções. De olhos bem abertos.

A próxima invasão de Trump será à Groelândia?

Por mais terrível que fosse o regime do ditador Nicolás Maduro na Venezuela, nada justifica a invasão determinada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao país vizinho do Brasil. Além de contrariar todas as regras do direito internacional e de rasgar a carta da Organização das Nações Unidas (ONU), a ação militar norte-americana sanciona, a partir de agora, todos os abusos que venham a ser cometidos mundo afora.

Não cabe ao presidente de nenhum país definir qual será o destino de outra nação soberana, muito menos usar a sua força militar para remover um governante do poder. É ilegal e inaceitável, sobretudo, por abrir precedentes num mundo em que o autoritarismo vem destruindo democracias e reduzindo liberdades. Maduro havia passado de todos os limites, mas caberia, unicamente, aos venezuelanos destituí-lo do poder. Não ao presidente dos Estados Unidos, que está obcecado pelo petróleo da Venezuela.

Trump não economiza no seu delírio de se tornar o ditador do mundo. Diante do que se está vendo na Venezuela, qual a garantia de que o presidente norte-americano não levará adiante o desejo de invadir a Groelândia, território no Ártico que pertence à Dinamarca.

O presidente dos EUA tem repetido, sistematicamente, que a Groelândia é fundamental para a “segurança nacional” de seu país. A Groelândia fica na rota mais curta da Europa para a América do Norte, fundamental para o sistema de alerta de mísseis balísticos dos Estados Unidos, que também cobiçam as riquezas naturais da ilha.

Não há também como descartar, depois da invasão dos EUA à Venezuela, que Trump decida por atacar a Colômbia, governada por Gustavo Petro, que é malvisto pelo norte-americano. O presidente da maior economia do planeta, inclusive, já tem o discurso pronto, o mesmo que utilizou contra Maduro, acusado de chefiar um cartel do narcotráfico. A Colômbia é um dos maiores produtores de cocaína do mundo.

Trump, inclusive, deu a senha para que o ditador russo, Vladimir Putin, aja para sequestrar o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelensky, e retirá-lo do poder. Não seria nada diferente do que fizeram os Estados Unidos neste sábado, 3 de janeiro, ao sequestrar Nicolás Maduro e a mulher dele, Cilia Flores, e levá-los a julgamento em Nova York, outra ilegalidade, pois ali não é o tribunal adequado para decidir sobre os crimes cometidos pelo venezuelano.

Não só: Trump também abriu o caminho para que a China derrube o governo de Taiwan ou outro país mais forte ocupe regiões cobiçadas sem prestar contas a ninguém. Não há nenhum exagero nisso, uma vez que o presidente norte-americano indicou que, quando se tem um objetivo e poder, não há nada que impeça as invasões. Trump, convenhamos, nunca foi afeito à democracia. Tudo para ele é business. Ou seja, dinheiro.

É importante ressaltar ainda que todas as invasões cometidas pelos Estados Unidos foram desastrosas. Vamos ficar nas mais recentes, como as do Iraque, do Afeganistão e da Líbia. Tudo piorou naqueles países. Foram fracassos retumbantes. Nem de longe a democracia chegou naquelas nações.

Trump acredita que pode definir os rumos na Venezuela ao assumir o controle do país. Será? Enquanto a megalomania do norte-americano destrói as regras estabelecidas em 1947, após o fim da Segunda Guerra Mundial, os líderes mundiais se mostram atônitos e incapazes de reação. As portas aos abusos se escancararam de vez.
Vicente Nunes

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Uma epidemia mundial de passividade: a câmera na mão

Um teto em chamas, pânico, mortes. Mais um incêndio em boate, mais uma vez pelo mesmo motivo: fogos de artifício em ambiente fechado. República Cromañon, Buenos Aires, 2004, 194 mortos. Boate Kiss, Santa Maria, 2013, 242 mortos. Le Constellation, Alpes suíços, semana passada, 40 mortos. Em algum momento vamos entender que não se acendem fogos dentro de boates.

As tragédias se repetem, mesmo assim seguimos como se fossem inéditas.

Mas não é sobre o incêndio em si que quero escrever. É sobre algo maior: a quantidade de vídeos gravados na boate suíça. Vejam bem, era um lugar que estava pegando fogo. Nas gravações que circulam por aí, há várias pessoas filmando o incêndio sobre a própria cabeça; em uma delas, quatro pessoas filmam quem tenta apagar o início do fogo com o próprio casaco.


Uma pessoa viu o perigo e resolveu agir. Outras quatro acharam que o melhor não era ajudar, chamar os bombeiros ou mesmo gritar por socorro. Decidiram que o certo era filmar o incêndio se espalhando e só. Não quero dizer que os quatro foram irresponsáveis ou culpados, afinal eram eles mesmos as possíveis vítimas. Só que o gesto revela algo mais assustador: uma epidemia mundial de passividade, com câmera na mão.

Estamos acompanhando há mais de uma década a escalada: Primeiro, a multiplicação dos celulares, produzindo milhões e milhões de fotos e vídeos. Quando a memória dos aparelhos já não dava conta de tanta imagem, vieram as redes sociais e o frenesi dos likes e compartilhamentos. Só existe o que for filmado.

No começo parecia algo inofensivo: em shows, festas e eventos, eram cada vez mais celulares no alto, registrando tudo o que acontecia. De início os mais velhos ficaram chocados: qual o sentido de pagar caro por um ingresso, conseguir um bom lugar e passar o tempo todo filmando o que está em volta, sem prestar atenção ao que está na frente? Os mais velhos ainda reformularam a pergunta do Caetano em “Alegria, Alegria”: quem vê tanta imagem?

O que não entendíamos é que não bastava mais estar aqui e agora: é preciso se projetar nos olhos dos outros. Alguns acharam que era o ovo da serpente, o começo de uma era de dispersão crônica e exibicionismo agudo, mas a maioria não se importou muito. Que mal há em desperdiçar um show, um ingresso? São jovens; logo vão entender que só o que sentimos fica na memória.

Infelizmente, não parou nos shows, festas e eventos.

Hoje temos gente caindo de penhascos ou sendo levada por ondas porque queria uma selfie mais ousada, que desse mais engajamento. Há casos de acidentes em que se veem várias pessoas filmando, sem que façam nada. Ninguém é obrigado a atuar como herói e sabemos que a solidariedade está fora de moda, mas nem sequer usam o telefone para chamar os bombeiros ou a polícia. Em qualquer catástrofe, lá estão as testemunhas com o celular apontado, impassíveis, sem qualquer tipo de empatia, como se a tragédia fosse um espetáculo que existe apenas para ser compartilhado online.

Assim como é necessário repetir até cansar que não é para acender fogos em ambientes internos, vai ser necessário repetir que em situações de perigo é preciso guardar o celular no bolso e ajudar, fugir ou pedir ajuda.

Venezuela: Ataque de Trump foi 'Piratas do Caribe' sem graça

Em tempos houve uma distinção entre piratas e corsários. Os piratas atacavam barcos e cidades costeiras, roubavam, pilhavam e faziam mil malfeitorias, ilegalmente, e portanto eram feios, porcos e maus. Os corsários faziam tudo isso, mas com uma carta outorgada por um soberano, e portanto eram belos, bravos e legais.

O que aconteceu esta semana na Venezuela é como se no século 17 um desses monarcas tivesse decidido acabar com o fingimento dizendo: "Pessoal, não há diferença entre piratas e corsários, é tudo a mesma coisa. Os soberanos já não precisam fingir fazer o bem, podem pilhar como se fossem piratas, e admiti-lo."


Os argumentos de Vladimir Putin já eram tacitamente esses. Ele não precisava convencer ninguém de que estava do lado do bem, bastava insinuar que todos os líderes eram igualmente maus. E Donald Trump fez agora o mesmo no Caribe, só que foi ainda mais ostensivo.

Este estado de coisas faz com que não haja atividade mais humilhante no mundo do que a de quem tenta justificar Trump. O próprio presidente dos EUA acaba sempre por aparecer, um par de horas depois, dizendo em voz alta tudo aquilo que supunha-se estar encoberto por um manto diáfano de mentiras e pretextos.

Os justificadores de Trump ainda procuram fazer como antes e encontrar boas razões para maus atos (a democracia, os direitos humanos, o combate às drogas etc.) para logo serem desmentidos pelo próprio homem assumindo que o negócio dele é mesmo o petróleo e o exercício nu e cru do poder.

Para alguns observadores pode até parecer que a situação atual é preferível, porque caiu a máscara da hipocrisia. Mas não é. Entramos num mundo muito mais perigoso, e toda a gente vai ter de se adaptar.

O mundo ficou mais perigoso porque a hipocrisia é, afinal, o entendimento comum de que as justificações para os nossos atos têm de ter um quadro moral que, no caso presente, é o do direito internacional.

Se neste novo mundo o que vale é apenas o que o líder mais forte, mais tirânico, mais armado e mais desavergonhado quer, então ninguém está propriamente a salvo, a não ser que esteja armado até aos dentes, de preferência com armas nucleares. Imagino que muitos países, incluindo talvez o Brasil, estejam agora a pensar nisso mesmo.

E o mundo ficou mais perigoso ainda porque, como é hábito acontecer nestas situações, as nossas sociedades vão estar divididas entre os inconformados de um lado e os apaziguadores, oportunistas e traidores do outro. E essa reorganização vai esvaziar a política de sentido e inverter sua moral, ficando apenas a ideia de que realismo é aceitar a todo o momento aquilo que os chefes do mundo quiserem, mesmo que queiram a cada momento coisas diferentes. Que o mundo, no fundo, é só o mando de quem pode mandar e a obediência de todos os outros.

Na "Guerra dos Mundos", de H. G. Wells, há a figura de um oportunista que vende a sua rendição aos marcianos como realismo, não como traição. Assim vai ser agora, só que Trump no lugar do marciano que quer subjugar a Terra. Contra os que acharem que a capitulação é o caminho, afirmemos que a dignidade é neste momento o supremo realismo.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Pensamento do Dia

 


Gilded Age e a bolha das big tech

Fala-se em Mark Twain e imediatamente nos lembramos das aventuras de Huckleberry Finn e Tom Sawyer, no sul dos Estados Unidos da América. Mas foi o seu menos conhecido livro The Gilded Age: A Tale of Today que deu o nome ao período histórico entre 1870 e finais de 1890. Um período da História dos EUA marcado pela expansão económica e o excesso materialista. O desenvolvimento tecnológico, com a expansão do caminho de ferro, marcou a época, financiado via mercado de capitais de Wall Street. A economia era dominada por monopólios, que controlavam todas as fases de produção de um determinado bem. A mecanização promoveu a eficiência. Os comboios criaram a gestão moderna, que se expandiu dos caminhos de ferro para os setores financeiro, industrial e comercial. O comboio mudou a América, homogeneizando culturalmente um país de dimensão continental.

O lado negro do desenvolvimento desenfreado foi a disparidade económica, onde 1% dos mais ricos detinham 51% da riqueza. Isto, enquanto o big business condicionava as decisões políticas, financiando políticos de forma a garantir que os negócios em expansão não eram objeto de regulação. Para a História, os presidentes americanos da Gilded Age são denominados forgotten presidents (os presidentes esquecidos), dada a sua prestação medíocre na defesa da causa pública.

A industrialização exigia mão de obra, fomentando a imigração europeia e chinesa. A imigração tornou-se um tema político e a imigração chinesa chegou a ser proibida.


A Golden Age terminou fruto de duas crises financeiras, conhecidas como Panic 1873 e Panic 1893. Mais de 100 empresas ferroviárias e 500 bancos faliram e 15 000 negócios sucumbiram. Um número gigantesco para a economia da época. O índice de desemprego escalou, atingido 35% no estado de Nova Iorque (o mais dinâmico). Multiplicaram-se as sopas dos pobres.

A bolha dos comboios explodiu e deixou rasto.

Lemos sobre a Gilded Age e parece o nosso presente. O desenvolvimento tecnológico, os monopólios, a promiscuidade entre a política e as grandes empresas tecnológicas, a desregulação, a desigualdade social, a imigração…

Discute-se se, ou melhor, quando, irá explodir a bolha das big tech. As próprias já se prepararam. A dívida tomada para construir a infraestrutura desta revolução está a ser desviada dos balanços destas empresas para SPV (special purpose vehicles), ou seja, sociedades que emitem dívida, que financia a construção dos data centers. Como garante da dívida já não estão os balanços das big tech e os seus muito rentáveis negócios, mas os data centers cuja construção afirmam ser indispensável para atingir a Inteligência Artificial Genérica. O jornal Financial Times dava conta, num artigo recente, de que o risco de a bolha tecnológica explodir “estava agora em Wall Street”.

Mas o que significa “estar” em Wall Street? Significa que o risco está com os investidores institucionais e entre estes os mais relevantes são os fundos de pensões e seguradoras. Pressionados por garantir rentabilidades que lhes permitam no futuro fazer face aos compromissos de uma população envelhecida, são atraídos pelas rentabilidades mais elevadas da dívida das big tech. Caso a bolha venha de facto a explodir, não serão Mark Zuckerberg ou Larry Ellison (respetivamente, os donos da Meta e da Oracle) a sentir o estoiro, mas o cidadão comum, que mensalmente paga prémios de seguro e desconta para o fundo de pensões.

A crise financeira de 1890 permitiu reequilibrar poderes, com o Estado a assumir o seu papel de regulador da economia. À Gilded Age sucedeu a Progressive Era, marcada por um esforço reformista. Será também necessário a bolha das big tech explodir, com o seu expectável custo social, para que o Estado retome o seu papel na defesa do bem público?

Ilusionismos são perigosos em ano eleitoral

Quem não gosta de uma boa ilusão? Todo espetáculo do mágico Harry Houdini, fosse qual fosse a novidade apresentada, deixava maravilhadas gerações de crianças e adultos. Húngaro de nascimento e cultuado até hoje por sua arte inimitável, Houdini era simplesmente o maior e melhor de sua época (1874-1926). Uma noite específica se tornou histórica — a de 7 de janeiro de 1918, que reuniu 5.300 espectadores num vasto anfiteatro de Nova York, o antigo Hippodrome Theater. Saíram dali boquiabertos.


Uma elefanta que pesava perto de 7 toneladas fora trazida para o palco dentro de um contêiner giratório, aberto, como carroça de circo. Chamava-se Jennie, era filha de Jumbo, gentil e gostava mais de açúcar que de ganchos. Apresentada aos três níveis da sala (orquestra, balcões e galerias), sem jamais sair do campo de visão do público, a mastodonte rotacionava 180 graus iluminada de todos os ângulos o tempo todo. Nada mais parecia haver no palco além de 30 homens que acionavam polias e cabos. Em determinado momento, Jennie sumiu. Houdini a fizera desaparecer num passe de mágica analisado até hoje. Para aficionados do caso ou de leitura de férias, “Hiding the elephant”, de Jim Steinmeyer, talvez seja a melhor entre as muitas versões, explicações e teorias sobre o feito.

Viradas de ano costumam ser propícias à construção de ilusões, luas de papel ou castelos de areia. Não confundir com a arte da magia, a que Houdini deu grandeza benigna e humanista. Coube ao alemão Thomas Mann fazer caminho inverso, ao explorar o uso maligno e desumanizante do ilusionismo como arma política.

“Mário e o mágico: Uma experiência trágica de viagem” é uma novela de pouco mais de cem páginas publicada depois do colossal “A montanha mágica”, de 1924. Ambientada num balneário do sul da Itália em período de ascensão do fascismo, a história acompanha uma família alemã de férias, cujos dias de descanso são assombrados por uma atmosfera opressiva, indefinida.

A experiência da família atinge o clímax quando ela se junta à população local para assistir à apresentação de um hipnotizador de audiências, o mágico Cipolla. Figura grotesca e carismática, o ilusionista criado pelo escritor porta o título de “Il Cavaliere Cipolla”, evocando Mussolini. Seus métodos e manipulações funcionam como alegoria para o autoritarismo emergente na Itália. Cipolla é o “moderno domador das multidões, homem de vontade e ação, cuja astúcia e energia estavam inteiramente a serviço do mal”.

A aparência do mágico — um homem fisicamente deformado, fumante inveterado, de dentes estragados e pele amarelada — apenas camufla seu extraordinário poder hipnótico. Domina a multidão com um carisma inquietante e uma espécie de supremacia psicológica. Ao longo do espetáculo, Cipolla constrange o público a executar atos bizarros e humilhantes, como fazer um homem contorcer-se de dor por mera sugestão ou obrigar outro a servir de banquinho humano. Escolhe uma pessoa por noite para servir-lhe de alvo. O público ri, aplaude, se entrega à manipulação, e o espetáculo vai ganhando em intensidade, mal-estar e crueldade. O clímax ocorre quando Cipolla chama um garçom local que assistia de pé ao espetáculo — o Mário do título — e o obriga a beijar sua repulsiva boca na presença da noiva.

Nesse momento, a obediência de Mário se rompe. Ele se rebela contra a humilhação pública e mata Cipolla com dois tiros após descer do estrado, quebrando o feitiço que o mágico exercia sobre os demais. Com a chegada da polícia, a família de veranistas alemães foge do local, no que pode ser lido como uma libertação ambígua e ilusória, tingida de trauma. Afinal, não tardaria muito para que brotasse, na própria Alemanha, a insânia hitlerista.

Com o mundo recém-estreando 2026 e eleições múltiplas na agenda, convém lembrar o poder sedutor de manipuladores de massas. Candidatos a Cipollas não faltam, e cumplicidade passiva de multidões perante regimes sem freios, também não. É relativamente rápida a decomposição ética de uma sociedade enquanto o público ri.

O que falta são Houdinis, cuja arte é honesta. E faltam Mários, muitos Mários, para quebrar a marcha da ilusão. Mas sem tiros, por favor.

Fascismo e irracionalidade

O fascismo e suas variantes são uma preocupação constante para os democratas ao redor do mundo. Suas principais características estão presentes na política externa norte-americana e, também, no populismo latino-americano.

Tanto Donald Trump quanto Nicolás Maduro são exemplos perfeitos disso.

Refiro-me aqui às características do fascismo clássico italiano. São elas: nacionalismo exacerbado, irracionalidade, corporativismo sindical, conluio com o grande capital, presença do líder carismático, desprezo pelas instituições, demagogia recorrente, autoritarismo frequente e corrupção sistêmica. Um pacote completo, logo se vê.

Contudo, desses componentes da doutrina e da prática fascistas, o principal, a meu ver, é a irracionalidade. Se a Grécia desenvolveu, sobretudo no século V a.C., o pensamento, a literatura e a retórica, isso se deveu ao seu compromisso inabalável de buscar entender o homem do seu tempo por meio da razão. E razão é o que mais falta faz no mundo de hoje, sobretudo no contato entre as nações.

A situação atual se aproxima perigosamente daquela que forjou um cenário de guerras mundiais no passado. Daí a necessidade de uma política de Frente Ampla, e, também, da valorização da coexistência pacífica entre os povos do mundo.
 Ivan Alves Filho

Auto-consumação

Esta onda de extremismo se consumirá a si mesma, porque as promessas dos populistas serão confrontadas pela sua incapacidade de criar um mundo melhor e mais seguro.
Mia Couto

Uma ideia subversiva: o ar é de todos

Os cientistas descobriram uma forma de canalizar todo o ar respirável que há no mundo. Nem um fôlego fica de fora. São agora capazes de o separar por grau de pureza, odor e níveis de concentração de oxigénio. Foi a maneira ideal de fugir à poluição que se instalou em vastas zonas do planeta. E, claro, agora o ar está à venda. Há para todos os gostos e (claro) para todas as carteiras. Há o que vem canalizado diretamente das mais altas montanhas dos Alpes, puro, sadio e frio. O que vem misturado com a maresia do Atlântico Norte, salgado e intenso, ou o mais cálido e com cheiro a aloendros, vindo do Mediterrâneo. Há o seco e ligeiramente áspero, que vem dos desertos, ou o húmido, carregado de notas de verde, trazido das florestas tropicais. Isto para os que podem pagá-lo.

Há, obviamente, versões mais baratas. Ares saturados de químicos, recolhidos junto a fábricas, poluídos e estafados, apanhados nos centros das grandes metrópoles, pestilentos e pesados, vindos diretamente das imediações de esgotos a céu aberto das mais sombrias favelas. Cada um paga o que pode. Mas todos pagam.

Há quem só respire de vez em quando, caindo zonzo no chão, de tanto suster a respiração. Há quem trabalhe horas extraordinárias para levar para casa mais um pouco de ar para a família. Há quem ande de mão estendida, mendigando pelo sopro de que precisa para se aguentar. Para os que são realmente miseráveis, inventou-se um sistema subsidiado pelo Estado, que entrega a conta-gotas ar de baixa qualidade. Mas as filas de espera são enormes. De cortar a respiração.


A iniciativa privada, que controla todo o negócio, incluindo a parte que vende aos serviços públicos, a preços inflacionados, também não se esquece dos que mais precisam. Por isso, há eventos de caridade, destinados a angariar fundos para quem não tem como pagar o ar que respira. E uma vez por ano organiza-se um grande sorteio para atribuir ar gratuito vitalício a quem comprar a senha vencedora. Há quem diga que esta lotaria tem levado muitos sonhadores à miséria, gastando o pouco que têm na esperança de serem premiados com ar, mas, como é claro, o problema é o vício do jogo que afeta os mais fracos.

Nos recreios, as discussões deixaram de acabar com a frase: “O ar é de todos.” Já não faz sentido. O ar é de quem pode pagá-lo. E essa é que é uma frase que não tem discussão, porque já ninguém se lembra dos tempos em que pagar para respirar era só uma piada arrevesada. Só os muito antigos têm uma vaga lembrança de que em tempos não era preciso comprar o ar. Mas já só de ouvir contar. E a maioria aposta que a história é uma lenda, daquelas que se contam às crianças, ou talvez o delírio de uma utopia esquecida do passado.

Só os historiadores sabem que tudo começou quando se percebeu que toda a água tinha de ser cobrada. Não só a que saía das torneiras, pura e cristalina, mas também a que jorrava dos céus em dias de tempestade, a que corria por rios e riachos e, claro, a que estava nos lagos, mares e oceanos. Era o que fazia sentido. Era o que era sensato. Que desvario isso de pensar que uma coisa tão valiosa podia só existir sem ser comercializada! Se não pagamos algo, como podemos dar-lhe valor?

Foi assim que começou a combater-se o desperdício. Claro que muitos morreram à sede e milhares foram explorados para ter o que beber. Mas foi o progresso a acontecer. E se milhões caíram numa endividada miséria para ter o que beber e o que respirar, é preciso que se diga que isso os impediu de cair numa indolência acomodada, fê-los sair da sua zona de conforto e permitiu estimular o empreendedorismo. Além disso, floresceram as fortunas antigas, já donas de terrenos onde corriam cursos de água, e capazes de investir nas tecnologias inventadas para garantir a monetização deste recurso.

Isso aumentou a desigualdade? Sem dúvida. Mas esse é o efeito colateral do progresso. Pelo menos, é isso que acham os ricos herdeiros, sentados em cima do seu mérito, vivendo das rendas do ar e da água.

Um dia, houve alguém que encontrou um livro poeirento, esquecido numa velha biblioteca abandonada, que falava de Direitos Humanos e coisas que tinham de ser garantidas a todos. Foi preciso encontrar grandes especialistas para decifrar aquela mensagem bizarra e antiquada, na qual se falava – entre outras excentricidades esdrúxulas – da habitação como um direito. “Como assim?”, perguntou-se quem leu sobre este escrito antigo nas notícias. “O que é um direito?”, questionaram-se alguns, antes de passar à frente para ver os resultados do campeonato de futebol.

Felizmente, ninguém levou a sério aquelas patacoadas, sobreviventes em páginas amarelecidas, escritas num tempo em que uns tolos sonhadores, desconhecedores das maravilhas do pragmatismo realista dos nossos dias, ousaram pensar que podiam existir coisas dadas a quem nada fez para as merecer sem que elas fizessem parte de uma herança. Eram ideias loucas, insensatas. E, por isso, ficaram guardadas no mais recôndito e escuro depósito de um museu, acessíveis apenas a especialistas devidamente habilitados a lidar com tais pensamentos subversivos sem ficarem por eles contaminados.

Agora, falta perceber como é que se pode cobrar pela luz do dia ou pelo céu nas noites estreladas ou nas (obviamente) mais caras noites de lua-cheia. Os cientistas já estão a estudá-lo. E chegarão certamente à melhor fórmula para garantir que nada se desperdiçará. Nada ficará por explorar. E, sobretudo, que ninguém ouse pensar que tem direito a alguma coisa só por existir (a menos, claro, que se trate de alguma coisa herdada da família). É assim que o mundo faz sentido. E nem é possível imaginar que pudesse ser de outra maneira.