quinta-feira, 19 de novembro de 2020
'Vamos ter fomes de proporções bíblicas em 2021'
Galardoado recentemente com o Nobel da Paz, Beasley tem utilizado o prémio atribuído ao PAM para ganhar mais peso nas conversações com líderes políticos e para enviar “uma mensagem ao mundo de que está a piorar lá fora”. Em abril, alertava o Conselho de Segurança da ONU de que a pandemia ia trazer consigo um efeito pior: “uma pandemia de fome” que iria conduzir o mundo para “múltiplas fomes de proporções bíblicas” em alguns meses.
Agora, com 2020 a chegar ao fim, o líder do PAM mantém a posição, mas com os olhos postos no próximo ano: “O nosso trabalho mais árduo ainda está por vir”. Garante que se tem encontrado com chefes de Estado virtual e presencialmente para reunir esforços, mas “o dinheiro que estava disponível em 2020 não estará disponível em 2021”, já que a economia está a cair em todos os países, incluindo nos mais ricos.
“Agora, precisamos de nos concentrar nos icebergs e os icebergs são a fome, a desestabilização e a migração”, diz. Segundo o Relatório Global de Crises Alimentares, assinado pelo PAM em 2019, os dez países com o maior número de pessoas a passar por uma crise alimentar são, por ordem crescente, Haiti, norte da Nigéria, Sudão, Síria, Sudão do Sul, Etiópia, Venezuela, Afeganistão, República Democrática do Congo e Iémen.
À mesma agência noticiosa, Beasley afirma que, em 2021, o Programa Alimentar Mundial necessita de cerca de 15 mil milhões de dólares, que se dividem em duas vertentes. Num primeiro momento, cinco mil milhões são canalizados “apenas para evitar a fome” e que os restantes dez mil milhões de dólares servem “para realizar os programas globais da agência”, incluindo iniciativas como o lanche escolar, “que muitas vezes são as únicas refeições que os jovens recebem”. “Se eu conseguisse isso com o nosso dinheiro normal, evitaríamos a fome em todo o mundo”, conclui.
A queda da economia fragilizou os governos e, por isso, Beasley tem uma “grande esperança” de que os bilionários que lucraram com a pandemia possam ajudar na luta contra a fome. Disse ainda que vai começar a divulgar a mensagem em dezembro ou janeiro.
A crise de Covid-19 veio agudizar os problemas de fome no mundo. Aos 135 milhões de vítimas deste flagelo, Beasley estima que a pandemia acrescente mais 130 milhões de pessoas. Segundo o líder do PAM, serão cerca de 20 os países que “provavelmente enfrentarão picos potenciais de insegurança alimentar aguda” nos próximos meses.
Iémen, Sudão do Sul e Burkina Faso estão na lista devido a conflitos armados, mas também Afeganistão, Camarões, República Centro-Africana, Congo, Etiópia, Haiti, Líbano, Mali, Moçambique, Níger, Serra Leoa, Somália, Sudão, Síria, Venezuela e Zimbábue requerem uma “atenção urgente”. Para isso, o relatório do Programa Alimentar Mundial chegou a enumerar alguns pontos para a prevenir um maior impacto socioeconómico da crise sanitária nestes e noutros países.
De acordo com o documento, é necessário “expandir sistemas de monitorização remoto de segurança alimentar quase em tempo real” de forma a partilhar informações sobre o impacto da doença “na segurança alimentar e meios de subsistência, saúde, acesso a serviços, mercados e cadeias de abastecimento, entre outros”. É preciso ainda “preservar alimentos humanitários essenciais, subsistência e assistência nutricional para grupos vulneráveis”. A juntar a isto, o programa propõe ainda aumentar o apoio ao “processamento de alimentos, transporte e mercados locais”, com o objetivo de haver sempre um funcionamento contínuo de abastecimento alimentar.
A fome e desnutrição afetam todos os continentes, com destaque para África. As pessoas no estado de Nova Iorque, nos EUA, pagam 0,6% do seu rendimento por um prato de comida. No caso do Sudão do Sul, por exemplo, um prato de comida custa, em média, 186.17% do rendimento. A comparação pode ser feita com outros países, aqui.
Estupidez brutal
Que a estupidez brutal impere não é uma surpresa. Ninguém espera que esse governo que está aí aprenda o que quer que seja, até porque sua incapacidade já se revelou tamanha que todas as máscaras caíram. As eleições municipais deram sinais – ainda tênues, é verdade – de que a população pode estar começando a se cansar das gritarias, dos absurdos, dos desditos.
As pessoas querem políticas públicas, clamam por uma agenda, uma estratégia, um plano, qualquer coisa, enfim, que permita um vislumbre dos rumos do País e da vida de cada um quando 2021 chegar. E 2021 é o ano em que o Brasil estará lidando com desafios simultâneos: o de uma campanha eleitoral precoce para 2022 e o de uma segunda onda da pandemia. A segunda onda da pandemia é tão certa quanto a existência do vírus que a provoca. Ela já está evidente em vários números: o de leitos ocupados nos hospitais, o de novos casos, o de óbitos. Mesmo assim, há quem a negue.
Passada essa experiência, era, se não razoável, justificado imaginar que o Ministério da Economia não iria deixar-se pegar novamente no contrapé, sobretudo porque o vírus nunca deixou o País. Mas as oportunidades de engolir as ondas sucessivas de um RNA encapsulado e obstinado não podem ser desperdiçadas.
Em pleno alvorecer da segunda onda, um dos secretários de Guedes veio a público dizer que não há onda alguma e que os Estados brasileiros estão muito bem, obrigado, porque muitos já obtiveram a imunidade de rebanho. Lembram-se dela? Lembram-se de como teve gente insistindo que era esse o caminho, o modelo da Suécia? “Deixem a infecção natural acontecer, que logo, logo estará todo mundo imune!”, bradou a estupidez brutal.
É curioso porque a Suécia acaba de abandonar o modelo sueco por causa da segunda onda e acaba de abandoná-lo devido à segunda onda porque já está comprovado, inclusive na Suécia, que imunidade de rebanho é conceito inaplicável a uma situação de infecção natural. Como já escrevi neste espaço, o termo usado por epidemiologistas se refere àquelas situações em que existe uma vacina para uma doença infecciosa com eficácia comprovada.
Por exemplo, se a eficácia das vacinas genéticas da Pfizer e da Moderna forem comprovadas, quando começarem a ser distribuídas e as campanhas de imunização estiverem em andamento, seremos capazes de dizer algo sobre imunidade de rebanho. Mas não agora. E certamente não será pelo secretário de Guedes, que já revelou não entender nem de pandemia, nem de economia. Trata-se do mesmo secretário que inventou conceitos inexistentes na disciplina, como PIB privado. Melhor nem perguntar o que é.
Portanto, a estupidez brutal. Brutal e renitente, como o RNA encapsulado. O melhor a fazer, por certo, é ignorá-la com a leveza do mais absoluto descaso.
O ataque dos maricas
Uma recente fala presidencial de improviso aumentou a confusão. Os termos do pronunciamento ainda estão sendo estudados. Eles podem indicar que o Brasil prepara-se para invadir os Estados Unidos e:
Luis Fernando Veríssimo
Como agem os inimigos da democracia
A esperança no combate ao ódio está nos livros
Concordo no que diz respeito às civilizações, mas não estou tão certo quanto à barbárie. A barbárie é sempre a mesma, move-se às cegas pelas ruas, gritando idênticas frases de ódio contra qualquer transformação. A estupidez não evolui. Transmite-se, como uma doença infame, ao longo dos séculos. Só as circunstâncias se renovam.
Uma das várias versões sobre a destruição da Biblioteca de Alexandria implica no crime o então governador provincial do Egito, Amer Ibn Alas. Quando lhe perguntaram o que fazer com tantos livros, Amer teria retorquido: “Se esses livros estiverem de acordo com o Corão, então são redundantes e, portanto, supérfluos. Se não estiverem, são heréticos.” Esta mesma versão assegura que os livros foram utilizados para aquecer os banhos públicos. Terão sido necessários seis meses para queimar todos os papiros.
Irene Vallejo mostra-nos que a história do livro é também uma história contra o livro — ou seja, contra o pensamento. Há as grandes fogueiras e há as pequenas fogueiras. Normalmente, as grandes começam por ser pequenas. Pensemos no Brasil: hoje, fundamentalistas cristãos queimam os livros de Paulo Coelho e de João Paulo Cuenca. Amanhã, estarão ateando fogo à Biblioteca Nacional. Depois de amanhã, se os deixarem, arrastarão até à fogueira os próprios escritores.
Na essência, não há diferença alguma entre a deformidade espiritual de um fundamentalista islâmico e de um fundamentalista cristão.
Uma única nuvem do tipo cumulus — aqueles flocos de algodão, bem definidos, que se destacam no azul do céu — pode pesar tanto quanto uma manada de elefantes. Obviamente, uma dessas nuvens é muito maior do que um elefante. Um cumulonimbus pode alcançar até 15 quilômetros de altura. Junta, a água esmaga. Dispersa, levita.
Acontece o mesmo com o ódio. Isolado, mal se dá por ele. O ódio isolado quase não tem peso. Um único homem tomado pelo ódio suscita mais facilmente troça do que terror. O problema é quando surgem homens que atuam como catalisadores de ódio. Estamos a ver isso acontecer neste preciso momento em países como Moçambique, onde, no último fim de semana, um grupo associado ao Estado Islâmico decapitou 50 camponeses.
Embora num contexto muito diferente, estamos a ver também isso suceder nos EUA, em torno do inacreditável delírio de Donald Trump, ocupado agora em criar uma laboriosa realidade paralela que lhe permita perpetuar-se no poder.
A única esperança no combate ao ódio e à loucura — como se conclui lendo “O infinito num junco” — está nos próprios livros. Como canta o português Manuel Freire, “não há machado que corte / a raiz ao pensamento. // Nada apaga a luz que vive / no amor, no pensamento.”
A maré não está nada boa para Bolsonaro
Também em outros lugares, os candidatos de Bolsonaro tiveram um desempenho ruim. É claro que eleições municipais não necessariamente indicam tendências no plano federal, pois muitas vezes tratam de problemáticas locais. Mas, quando o presidente entra na briga, não tem como não avaliar o resultado. Portanto, seria esse desempenho ruim de Bolsonaro apenas um ponto baixo temporário ou uma tendência que deve levá-lo a enfrentar um destino semelhante ao de seu modelo, Trump?
Sempre é difícil fazer comparações e paralelos entre Brasil e Estados Unidos. Mas já que Bolsonaro se apresenta como o "Trump tropical" e tenta copiar seu modelo político, não há como escapar de uma busca por semelhanças.
Os EUA têm um sistema bipartidário no qual os republicanos de Trump se transformaram em uma direita radical com características antidemocráticas. Embora esse campo tenha perdido, Trump ganhou, ao mesmo tempo, cerca de 8 milhões de votos a mais do que em 2016. Com isso, se posiciona para um possível retorno em 2024 – desde que consiga manter o controle sobre os republicanos.
Já Bolsonaro e a direita radical e antidemocrática no Brasil não têm uma base partidária tão sólida quanto Trump. O presidente brasileiro está até sem partido, porque não conseguiu criar sua Aliança pelo Brasil. O PSL, com o qual ganhou de forma fulminante em 2018, conseguiu ganhar cargos nas eleições municipais, mas apenas em cidades pequenas.
Bolsonaro é, portanto, o one man show da extrema direita, sem qualquer apoio partidário. E com adversários perigosos no campo da direita. Assim, a direita moderada do Democratas e do PSD pode festejar vitória nessas eleições.
Por outro lado, a esquerda brasileira se saiu mal, sobretudo o PT, mas também PSB e PDT. Somente o PSOL cresceu, se consolidando cada vez mais como uma liderança no campo de esquerda. Mas isso não será suficiente para ameaçar Bolsonaro na eleição presidencial de 2022. A empreitada requer uma ampla aliança de forças democráticas moderadas, tanto da esquerda, como do centro à direita moderada.
Essa aliança existe nos EUA, onde os democratas atualmente unem socialistas, social-democratas e a direita democrática moderada. Juntos, levaram às urnas cerca de 11 milhões de votos a mais do que Hillary Clinton recebeu em 2016 e foram capazes de derrotar Donald Trump.
Mas será que tal aliança seria concebível no Brasil para as eleições de 2022? E quem seria o Joe Biden brasileiro para criar uma aliança tão ampla?
Ainda há um longo caminho a percorrer até as eleições de 2022. Mas se existe uma tendência, é o enfraquecimento do poder dos extremos, tanto de esquerda quanto de direita, que ainda dominavam as eleições de 2018.
Em vez disso, os brasileiros parecem ansiar por uma política menos agitada. Por uma figura como o presidente do Congresso, Rodrigo Maia, por exemplo, que poderia construir uma frente ampla contra Bolsonaro com tons mais calmos. Esse pode ser o sinal de novembro de 2020, um mês ruim para Jair Messias Bolsonaro.
Thomas Milz
Uma campanha propositiva
Meia volta, volver
O fracasso do governo Bolsonaro, juntamente com a “nova política”anunciada na campanha presidencial e que acabou ancorada na velha política, mostra que o presidente fez bem ao escolher aliar-se ao Centrão para organizar sua base congressual, mas também que ele agora tem menos força na negociação com seus novos parceiros.
PP e PSD são as estrelas do Centrão, mas partidos que abandonaram o grupo para uma posição independente, como DEM e MDB, também se destacaram. O Centrão é tradicionalmente formado por partidos que se adaptam a qualquer governo, e essa maleabilidade também é uma ameaça à composição parlamentar de Bolsonaro, pois, para se posicionarem em outros caminhos, não custa. Até na esquerda os eleitores procuraram novas alternativas, a mais emblemática o PSOL, que não quer ser moderado, mas não está envolvido em corrupção, ao contrário, nasceu da revolta de alguns membros do PT com relação à corrupção, quando da confissão do marqueteiro Duda Mendonça, que admitiu ter recebido pagamento do PT em contas no exterior no mensalão.
O choro na ocasião de deputados petistas como Chico Alencar, que ontem teve uma grande votação no Rio como vereador pelo PSOL, ainda marca essa dissidência. Não é de estranhar que o PSOL continue aliado do PT, assim como o PSDB, nascido de uma dissidência dentro do MDB, ganhou vida própria, mas não impediu que os tucanos aderissem ao governo Michel Temer. Mas são bichos diferentes.
Está claro que as pessoas querem eficiência – para prefeito, essa exigência ainda é mais forte –, mas diante da tragédia que é o governo Bolsonaro, essa tendência vai contar mais na disputa presidencial em 2022 do que contou em 2018. A capacidade de gestão, o conhecimento, a experiência do candidato, passaram a contar para além da disputa ideológica.
Em São Paulo, o candidato do PSOL Guilherme Boulos, que teve uma votação importante, superando candidatos tradicionais como Marcio França ou Russomano e tornando-se o líder hegemônico da esquerda neste momento, vai procurar jogar o prefeito Bruno Covas para a direita, enquanto Covas já começou a colocá-lo como radical.
Ontem mesmo, depois do discurso de Covas na noite anterior dizendo que os paulistanos recusam o radicalismo, o governador tucano João Doria, candidato potencial do PSDB à presidência da República, disse uma frase que resume o que será a campanha nesse segundo turno: “Aqui, nós defendemos a propriedade privada, eles invadem”.
A pandemia foi fator preponderante nessa eleição. Ficou claro que governadores e prefeitos que tiveram atitudes firmes no combate ao coronavirus, à Covid -19, que adotaram desde o início o afastamento social e a obrigatoriedade de usar máscaras foram recompensados no final pela população, que entendeu que não era uma política contra, mas a favor dela.
É a antítese da pregação de Bolsonaro, que foi derrotado fortemente nessa eleição, não apenas pelos candidatos que apontou terem sido derrotados na ampla maioria dos casos, mas porque a visão dele da pandemia foi derrotada. Ele mesmo ficou irritado, recentemente comentou não entender como os políticos que fecharam tudo, quebraram a economia, estão sendo reeleitos.
Bolsonaro, num claro declínio, só recuperará sua popularidade se conseguir colocar o auxílio emergencial de novo na mão desses milhões de brasileiros que estão perdidos, sem emprego, sem perspectiva. Mas isso ele dificilmente vai conseguir, pois quebraria o país. A deputada mais votada no Brasil em 2018 foi Joyce Hasselman, que ontem foi das ultimas na eleição para a prefeitura de São Paulo. A deputada Carla Zambelli não conseguiu eleger o irmão, e apelou, insinuando fraude na eleição, seguindo os passos do próprio Bolsonaro, que ontem, aproveitando-se do problema técnico na apuração do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), voltou a insistir na inconfiabilidade de nossa urna eletrônica. Michele Bolsonaro apoiou quatro candidatos a vereador, e nenhum se elegeu. A ex-mulher de Bolsonaro, mãe dos 01,02,03, não se elegeu. Carlos Bolsonaro teve menos votos do que em 2016.
Assim como 2016 deu sinais do que poderia acontecer em 2018, agora parece que o vento deu meu volta, no sentido da direita civilizada .
terça-feira, 17 de novembro de 2020
Olhando para o umbigo do passado
O primeiro erro é não perceberem que nos, tempos atuais, Confiança é um fator determinante para o avanço de qualquer economia. Ela não funciona satisfatoriamente sem estabilidade monetária, ética na política, instituições sólidas com regras permanentes, participação no mundo global, capacidade de poupança, distribuição de renda, paz nas ruas, todos os ingredientes para dar confiança ao mercado, consumidores e investidores.
A base destes erros é que os progressistas não perceberam que os esquemas do passado para explicar e orientar o processo político-social não se aplicam aos novos tempos da globalização, da inteligência artificial, da robotização, das comunicações de massa personalizadas e instantâneas. Por isto, os esquemas de organização partidária baseada na divisão binária, “a favor” ou “contra”, capital versus trabalho, estatal contra privado já não servem para orientar o progresso do país em busca de coesão social e rumo histórico. Isto já aconteceu no passado, quando muitos progressistas republicanos se opuseram à Abolição da Escravidão, porque ela chegava pelas mãos de governo conservador e pelas mãos do Imperador. Eles ficaram prisioneiros dos esquemas políticos tradicionais, monarquia versus república, sem entender que o progresso não estava no regime político, mas no trabalho livre e na abertura do país ao comércio internacional.
Os progressistas de hoje não respondem ao povo e para o futuro, mas aos eleitores do momento emperrando a marcha ao futuro. Não é por acaso que depois de 26 anos no poder, nós progressistas deixamos o quadro social trágico que as estatíscas divulgadas ontem mostram. Os progressistas também não se livraram da tradição sociológica de explicar pobreza como falta de renda e não como falta de acesso aos bens e serviços essenciais, nem todos comprados no mercado.
O maior erro é ficar preso às ideias do passado e ficarem tão reacionários quanto os conservadores. Estes olhando para o passado e nós, progressistas, presos ao presente, olhando para o umbigo.
Cristovam Buarque
Onda bolsonarista virou marolinha
O presidente pediu votos em seis capitais. Em quatro delas, seus candidatos naufragaram ainda no primeiro turno. Em Manaus, Coronel Menezes amargou um quinto lugar. No Recife, Delegada Patrícia terminou em quarto. Em Belo Horizonte, Bruno Engler ficou em segundo, mas não conseguiu nem 10% dos votos válidos.
Em São Paulo, Bolsonaro teve uma tripla derrota. Seu aliado Celso Russomanno, que liderava as pesquisas, derreteu e acabou na quarta posição. Os dois finalistas não querem conversa com o capitão. Bruno Covas já dispensou qualquer hipótese de apoio, e Guilherme Boulos faz oposição radical ao Planalto.
O presidente teve mais um revés em seu berço político. Seu filho Carlos Bolsonaro perdeu o título de vereador mais votado do Rio. Foi ultrapassado por Tarcísio Motta, do PSOL. A outra representante do clã, Rogéria Bolsonaro, teve míseros dois mil votos.
A família ainda colheu uma derrota anedótica no estado. Apontada como assessora fantasma do capitão, Wal do Açaí tentou se eleger vereadora de Angra dos Reis com o nome de Wal Bolsonaro. Apesar do empenho e do sobrenome do patrão, só atraiu 266 eleitores.
Numa tentativa de encobrir o vexame, Bolsonaro apagou o post em que pedia votos para seus candidatos. Não adiantou. No fim da noite, sua tropa adotou outra tática diversionista. Passou a usar o atraso na divulgação de resultados para disseminar teorias conspiratórias sobre fraude nas urnas.
segunda-feira, 16 de novembro de 2020
É hora de trabalhar, presidente
Como se sabe, contudo, Bolsonaro foi um dos mais ativos cabos eleitorais nesta campanha, bem como alguns de seus ministros. Nem a pandemia acabou nem a economia engrenou, mas o presidente achou espaço na sua agenda para entregar-se a suas especialidades – participar de eleições e ignorar promessas. O presidente alegou que pedia votos para seus candidatos somente “depois do expediente” – como se a Presidência fosse um cargo ocupado por um barnabé que bate cartão.
O problema é que Bolsonaro não trabalha. A prova disso é a absoluta incapacidade de seu governo de encaminhar as reformas e as medidas sem as quais o País não se recuperará tão cedo do desastre em curso. Há sempre uma desculpa para a procrastinação, e a mais recente era a realização das eleições municipais.
Pois bem: as eleições foram realizadas ontem e, portanto, não há mais razão para que o presidente e seus auxiliares não arregacem as mangas e façam o que deve ser feito. Para tentar mostrar serviço, o líder do governo na Câmara, deputado Ricardo Barros (PP-PR), chegou a anunciar que logo depois do primeiro turno das eleições o governo colocaria para votar uma extensa pauta, que inclui um projeto de renegociação das dívidas dos Estados, a autonomia do Banco Central e a regulamentação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb). De novo, contudo, faltou articulação: o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, responsável por pautar as votações, disse desconhecer o tal pacote do governo. “Não estou nem sabendo disso aí. Não sei de onde veio essa pauta”, declarou Maia.
Esse é o padrão do governo Bolsonaro: a confusão, o mal-entendido e, principalmente, a falta de iniciativa do presidente da República, de quem todos esperam o norte da administração. Como Bolsonaro não sabe o que quer como presidente e já se queixou diversas vezes do fardo do cargo, esquiva-se de tomar decisões, esperando que ou as coisas se resolvam por si mesmas ou que o Congresso afinal se encarregue de tocar o País adiante.
O Congresso, praticamente desde a posse de Bolsonaro, assumiu o protagonismo político que, no presidencialismo, deveria obviamente ser do presidente. O problema é que os compromissos obscuros de Bolsonaro com o Centrão, que lhe garantem sobrevida no cargo a despeito de seus inúmeros atentados à dignidade da Presidência da República, podem acabar transformando o Congresso numa extensão do desastroso governo bolsonarista.
No início do ano que vem haverá eleição para a presidência da Câmara e do Senado, pleito que Bolsonaro tenta influenciar em favor do Centrão, cujo modus operandi ficou claro na disputa pela presidência da Comissão Mista de Orçamento (CMO). A CMO, responsável por votar a Lei de Diretrizes Orçamentárias, sem a qual o governo não tem respaldo para executar o Orçamento, nem sequer foi instalada, porque o Centrão quer a direção da comissão, desrespeitando um acordo parlamentar prévio. Como o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, bateu o pé em relação ao acordo, o Centrão, como se fosse da oposição, passou a obstruir qualquer votação, inclusive de temas de interesse do governo, até que sua vontade seja feita.
É esse o senso de urgência dos governistas. Em nome de seus interesses, não se importam em adiar a aprovação de medidas importantes para o País. Enquanto isso, o presidente Bolsonaro, que deveria liderar o processo político, passa todo o expediente a fazer o que sabe melhor: criar confusão e ultrajar os brasileiros.
Com o fim do primeiro turno da eleição, acabou a última desculpa de Bolsonaro para não trabalhar. Qual será a próxima?
Custo que o Exército viria a pagar para ter Bolsonaro foi previsto, dito e escrito
Não há sinais de insatisfação no Exército com o governo. Nisso se tem confirmado a comunhão de visões entre Bolsonaro e os referidos militares do Exército. Mesmo nas práticas que mais choquem o mundo da cidadania, como a entrega da Saúde e da vigilância farmacológica a militares sem a formação específica. Ou a destruição da riqueza natural, sobre ela recaindo a recente advertência aprovadora do general-vice Hamilton Mourão: “A eleição [nos EUA] não muda a política ambiental”.
O desgaste já é em nível de ridículo. Quem, no grupo de militares palacianos, tentou conter um pouco a produção bestial, teve como resultado a demissão grosseira, caso dos generais Santos Cruz e Rêgo Barros. Ou rompeu relações, como o indemissível Mourão. Os demais conduzem-se como acovardados. Para essas pessoas que se pensam admiráveis, poderosas, distinguidas pela força da arma, responsáveis pelo país que nem entendem, verem-se até em anedótico desafio a militares de verdade, convenhamos, há de doer. Mourão nem percebeu que seu remendo usual também ficou grotesco: a pólvora contra os EUA “foi retórica”. Não, foi mesmo insuficiência mental.
Nenhum dos incomodados sabe como deter a corrosão. E todos sabem que vai continuar. Com risco de chegar ao paroxismo de um impeachment atrasado, o capitão-comandante e seus subordinados generais, almirantes e coronéis a sair, ou melhor, marchar pela porta da cozinha. Todos pisando na imagem do Exército.
O vice Mourão tenta transferir as responsabilidades: ”Política não pode entrar no quartel”. O Exército não foi buscado por político algum, nenhum partido, por ninguém. A política, sim, foi invadida pelo Exército na pessoa do seu então comandante, Eduardo Villas Boas, que interveio no processo eleitoral, com disposição ostensiva, por ao menos duas vias. Uma, a pressão sobre o Supremo Tribunal Federal, para o impedimento eleitoral de Lula. Outra, ao patrocinar, na condição de comandante do Exército e sempre no cenário do seu gabinete, a candidatura presidencial, a violência e a desordem mental de um excluído das Forças Armadas, elevado a símbolo político dos militares. O custo que o Exército viria a pagar para ter Bolsonaro, com um governo militarizado por generais e coronéis, foi previsto, dito e escrito. Por civis. Quem não previu o óbvio, muito menos preverá o desfecho.
A República e os quartéis
A República fez aniversário. Cento e trinta e um anos e ainda não tomou juízo. Começou instável, pela espada do Deodoro, e continua aí na corda bamba.
Essas frases foram escritas por Otto Lara Resende, em 1991. O diagnóstico continua certeiro. Só atualizei a contagem dos anos.
Em 15 de novembro de 1889, o país passou a ser governado por um marechal. Hoje está nas mãos de um capitão. Não foi só nisso que regredimos.
Na semana das eleições municipais, os holofotes se deslocaram dos candidatos para o comandante do Exército. O general Edson Pujol afirmou que as Forças Armadas “são instituições de Estado”. A obviedade não deveria chamar a atenção numa democracia.
“Não somos instituição de governo, não temos partido. Nosso partido é o Brasil”, disse o general. Ele cometeu um ato falho. A última frase estampava a camiseta de Jair Bolsonaro quando ele foi esfaqueado em Juiz de Fora.
Na sexta, o vice-presidente Hamilton Mourão endossou as palavras de Pujol. “Política não pode entrar dentro do quartel. Se entra política pela porta da frente, a disciplina e a hierarquia saem pelos fundos”, afirmou.
O general não costumava pensar assim. Antes de passar à reserva, ele foi punido duas vezes por se meter na política. Em 2015, Mourão afirmou que o impeachment de Dilma Rousseff significaria “o descarte da incompetência, má gestão e corrupção”. Em 2017, disse que Michel Temer promovia um “balcão de negócios” para não cair.
Nas duas ocasiões, o general sabia o que estava fazendo. Ao atacar presidentes, ele quebrou a hierarquia para se projetar na política. Deu certo. Em 2018, seria convidado a integrar a chapa de Bolsonaro.
A declaração de Pujol também não combina com a atuação de seu antecessor. Às vésperas da eleição, o general Eduardo Villas Bôas pressionou o Supremo Tribunal Federal a negar um habeas corpus ao ex-presidente Lula.
A interferência da caserna no Judiciário empolgou o então candidato Bolsonaro. “Estamos juntos, general”, tuitou o capitão, que seria o maior beneficiário do julgamento.
Ao vestir a faixa, o presidente premiou o militar com um cargo no Planalto. A filha dele está pendurada no gabinete da ministra Damares Alves.
No início do mês, surgiram novas informações sobre a atuação política de Villas Bôas. Nos meses que antecederam o impeachment de Dilma, ele teve “vários encontros” com o então vice-presidente Michel Temer, segundo relato do professor Denis Rosenfield.
O comandante do Exército reclamava da Comissão Nacional da Verdade, que investigou crimes da ditadura. Na mesma época, o senador Romero Jucá foi gravado dizendo que os chefes militares prometeram “garantir” a derrubada da presidente.
Ao assumir a cadeira de Dilma, Temer deu ministérios a dois generais ligados a Villas Bôas. Um deles assumiu a pasta da Defesa, que só havia sido ocupada por civis.
Começava ali o retorno dos militares ao centro do poder. Com a vitória de Bolsonaro, os generais pensaram que voltariam a mandar no país. Agora alguns se dizem arrependidos, mas não o suficiente para deixarem os cargos.
A esperança no combate ao ódio está nos livros
Concordo no que diz respeito às civilizações, mas não estou tão certo quanto à barbárie. A barbárie é sempre a mesma, move-se às cegas pelas ruas, gritando idênticas frases de ódio contra qualquer transformação. A estupidez não evolui. Transmite-se, como uma doença infame, ao longo dos séculos. Só as circunstâncias se renovam.
Irene Vallejo mostra-nos que a história do livro é também uma história contra o livro — ou seja, contra o pensamento. Há as grandes fogueiras e há as pequenas fogueiras. Normalmente, as grandes começam por ser pequenas. Pensemos no Brasil: hoje, fundamentalistas cristãos queimam os livros de Paulo Coelho e de João Paulo Cuenca. Amanhã, estarão ateando fogo à Biblioteca Nacional. Depois de amanhã, se os deixarem, arrastarão até à fogueira os próprios escritores.
Na essência, não há diferença alguma entre a deformidade espiritual de um fundamentalista islâmico e de um fundamentalista cristão.
Uma única nuvem do tipo cumulus — aqueles flocos de algodão, bem definidos, que se destacam no azul do céu — pode pesar tanto quanto uma manada de elefantes. Obviamente, uma dessas nuvens é muito maior do que um elefante. Um cumulonimbus pode alcançar até 15 quilômetros de altura. Junta, a água esmaga. Dispersa, levita.
Acontece o mesmo com o ódio. Isolado, mal se dá por ele. O ódio isolado quase não tem peso. Um único homem tomado pelo ódio suscita mais facilmente troça do que terror. O problema é quando surgem homens que atuam como catalisadores de ódio. Estamos a ver isso acontecer neste preciso momento em países como Moçambique, onde, no último fim de semana, um grupo associado ao Estado Islâmico decapitou 50 camponeses.
Embora num contexto muito diferente, estamos a ver também isso suceder nos EUA, em torno do inacreditável delírio de Donald Trump, ocupado agora em criar uma laboriosa realidade paralela que lhe permita perpetuar-se no poder.
A única esperança no combate ao ódio e à loucura — como se conclui lendo “O infinito num junco” — está nos próprios livros. Como canta o português Manuel Freire, “não há machado que corte / a raiz ao pensamento. // Nada apaga a luz que vive / no amor, no pensamento.”
José Eduardo Agualusa
Saliva ou Pólvora
Eis um resumo do filme. Um pequeno país nos Alpes europeus, Fenwick, entra em bancarrota quando os Estados Unidos resolvem produzir o mesmo tipo de vinho Pinot, o que acaba com o mercado de Fenwick. Revoltadas, as autoridades e os habitantes de Fenwick declaram guerra aos Estados Unidos, o que causa ondas de gargalhadas no país americano.

Armado com arcos e flechas, o exército de Fenwick é enviado para a invasão do território Americano. A primeira parte da viagem é feita num ônibus, depois pegam um navio a vapor e finalmente chegam a New York.
Quis o destino que naquele dia a grande cidade americana estivesse em completo lockdown, pois é o dia de um treino contra uma nova bomba superpoderosa e os novaiorquinos devem ficar enfurnados em imensos abrigos subterrâneos.
Claro que o exército de Fenwck acha que sua presença assustou os americanos que fugiram do combate com o exército invasor. Achando-se vencedores, as autoridades de Fenwick usam muita saliva para exigir dos States um milhão de dólares, a retomada total de seu mercado de vinho e um completo armistício.
Procurem o filme para alugar. Garanto que não vão se arrepender.
O mundo pré-Trump se foi para não mais voltar
Apesar das diferenças, entretanto, algumas das lições das eleições nos EUA são bastante relevantes para a Europa. Em sua peça teatral Jumpers, de 1972, o dramaturgo britânico Tom Stoppard sugere, jocosamente: "Não é a votação que faz a democracia, é a contagem." A eleição de 2020 provou que ele tinha razão.
A democracia é um sistema em que, ao aceitar a derrota, o perdedor legitimiza o resultado da eleição. Os ataques do presidente Trump à idoneidade do pleito não só danificam a reputação dos EUA, mas podem ser um presságio do que está por vir: uma proliferação de eleições contestadas, não só nos Estados Unidos, mas também no exterior.
Para partidários políticos em estados divididos, a ameaça mais existencial à democracia não é a ruptura das regras estabelecidas, mas a vitória da outra facção. E muitos estão mais e mais preparados para incendiar a casa, de forma a evitar que o outro lado assuma o poder. Em tal clima, há o risco de instituições imparciais, como tribunais, bancos centrais e a livre imprensa, serem instrumentalizadas politicamente.
A eleição americana também nos adverte que, mesmo nas sociedades mais devastadas pela pandemia, é mais provável os choques e perdas causados pela crise do coronavírus intensificarem as divisões existentes, do que proporcionarem unidade nacional e propósito coletivo.
Uma análise da agência de notícias Associated Press revelou que, de 376 distritos americanos com a mais elevada taxa per capita de casos de covid-19, a maioria esmagadora, 93%, votou em Trump. Os europeus devem ver os eventos nos EUA como uma advertência. Se os confinamentos forem prolongados, e as economias, paralisadas, nossas sociedades podem começar a se assemelhar ao caos explosivo que estamos vendo nos EUA.
Embora se costume louvar a genialidade da democracia em suplantar divisões nas sociedades modernas, a experiência americana dos últimos quatro anos revelou que a política democrática também é capaz de solidificar e intensificar essas divisões. As eleições expuseram o fato que democratas e republicanos não são apenas dois partidos políticos: eles se tornaram dois países diferentes em guerra eleitoral mútua. E essa guerra política não terminará com a derrota trumpista.
Demografia pode ser destino
A partir da experiência americana, os europeus também podem aprender que, na política, demografia geralmente é destino. Números definitivamente importam: quando eles mudam, o poder troca de mãos. A narrativa democrática há muito tem insistido que o que decide a vitória eleitoral é a mudança de mentalidade dos votantes. Contudo o poder também pode se inverter quando um eleitorado é alterado.
Isso ocorre quando uma nova geração com preferências coletivas fortes alcança a maioridade, como foi o caso das democracias ocidentais nas décadas de 1960 e 1970. Mas também pode acontecer quando um grupo considerável de novos eleitores passa a integrar o corpo político, reconfigurando-o.
Tal se deu em diversos países, ao ser introduzido o sufrágio universal, ou em consequência de migrações em grande escala. A mudança da composição demográfica em estados como Arizona ou Geórgia é o que ajuda a explicar o respeitável desempenho de Joe Biden, mais do que uma mudança nas mentes da população.
Assim, não surpreende que tantos partidos nativistas vejam o número crescente de imigrantes em seus países como uma ameaça não apenas econômica ou cultural, mas também política. As maiorias étnicas temerosas de se tornar minorias em seus próprios países permanecerão a mais poderosa fonte de apoio para os populistas nativistas dos EUA e da Europa.
Do ponto de vista institucional, o parlamentarismo europeu está mais bem posicionado para resistir à polarização política extrema, mas o exemplo polonês também mostra que não é necessariamente uma defesa confiável contra ela. As democracias europeias serão contaminadas pela polarização à moda americana, se não encontrarmos uma forma de mediar o abismo entre as áreas urbanas e rurais, entre os que tiveram educação universitária e os demais, e entre as preferências políticas de jovens e idosos.
A experiência americana pode igualmente sugerir que uma nova geração progressista, cuja vasta maioria votou em Biden, possa estar pronta para quebrar o jugo populista que oprime a sociedade. Mas no tocante à promessa política da geração mais jovem, os europeus deve ser cautelosos em adotar o sonho americano inteiramente.
Na Europa, os que têm menos de 30 anos representam uma percentagem muito menor da população do que nos EUA. Um estudo recente do Centro pelo Futuro da Democracia da Universidade de Cambridge revelou que, por todo o planeta, as gerações jovens se mostram cada vez mais insatisfeitas com a democracia, não só em termos absolutos, mas também em relação a gerações anteriores em fases da vida comparáveis. E o fato de alguém ter votado em Biden não significa que seja imune aos encantos do majoritarismo populista, principalmente partindo da esquerda.
Ainda levará algum tempo até o próximo presidente americano ser oficialmente anunciado, e provavelmente será preciso esperar até meados de janeiro para saber quem vai dominar o Senado. Contudo, mesmo no cenário mais otimista, seria equivocado os europeus se fiarem nos americanos como vinham fazendo há décadas. O fato de haver novamente um democrata na Casa Branca não significa que o mundo pré-Trump tenha retornado.
Os europeus tinham bons motivos para crer que a destruição da União Europeia constasse da agenda de um segundo governo Trump. Agora que esse risco está aparentemente banido, será errado os europeus esperarem Biden nos dizer o que espera da Europa. É hora de o bloco ir até Washington e apresentar uma visão do futuro da parceria transatlântica, baseada nas novas realidades em ambos os lados do oceano.
Ivan Krastev, presidente do Centro de Estratégias Liberais em Sófia (Bulgária) e associado permanente do Instituto de Ciências Humanas de Viena
Rir dos gracejos dos déspotas já produziu milhões de mortes
É verdade que dadas as proporções entre o aparato bélico dos Estados Unidos e o do Brasil, a frase soa como piada. E, no entanto, é verdade que o aspirante a ditador Jair Bolsonaro, que foi expulso do Exército quando era apenas capitão e sempre teve complexo dos generais, sonha em fazer uma guerra. Flertou com participar de um possível conflito armado contra a Venezuela e agora posa de valentão desafiando a maior potência bélica do planeta.
E é curioso que todos eles apareçam em suas biografias com uma sanha especial contra homossexuais e mulheres.
Segundo seus biógrafos, existe uma curiosa coincidência entre estes perigosos complexados e sua capacidade de semear o mundo de cadáveres. E aparentemente em todos eles se revela no final um conflito não resolvido com sua sexualidade e sua paixão por armas, símbolo fálico do poder.
Em Stalin o mal-estar com a sexualidade era tal que chegou a proibir o Kama Sutra e anunciou que na Rússia “a sexualidade havia acabado”. Seus complexos o levaram a sacrificar milhões de pessoas.
Na Itália, o ditador Benito Mussolini, considerado no princípio um excêntrico e até mesmo palhaço, acabou levando o país a declarar guerra à Etiópia quando a Itália era assolada pela fome e pela pobreza.
Il Duce também tinha relações complexas com sua sexualidade. Ele se gabava, por exemplo, humilhando a dignidade das mulheres, que gostava de fazer amor apenas com “sujas e peludas”. Os italianos riram de seus gracejos e Mussolini acabou entregando o país nas mãos do nazismo.
Em relação a Hitler, ainda existem muitas lacunas em sua biografia, talvez porque muitos documentos acabaram desaparecendo para sempre quando a Áustria foi literalmente destruída. Do Adolf Hitler também foi estudada sua aversão aos homossexuais, os possíveis conflitos com sua própria sexualidade para explicar sua violência que culminou no maior holocausto da história com seis milhões de pessoas, principalmente judeus, sacrificadas em campos de concentração.
De Hitler se chegou a dizer que seus problemas nunca resolvidos com a sexualidade e sua fobia pelos homossexuais se deviam ao fato de que talvez ele próprio fosse um gay enrustido. E até pelo complexo por ter perdido um testículo, algo que nunca foi comprovado.
Do caudilho Franco, na Espanha, que levou o país a uma guerra civil que fez um milhão de mortos, à qual se seguiram 40 anos de ditadura em que continuaram as execuções e torturas, sabe-se que foi ridicularizado desde que era soldado por ter voz de mulher e baixa estatura, razão pela qual lhe deram um fuzil menor. O fuzil era pequeno, mas a vingança nascida de seus complexos não teve limites.
Franco também desprezava os homossexuais, que chamava de “mariquinhas”, e dizia-se que era um “sem jogo, sem religião e sem mulheres”. Acabou, no entanto, como Mussolini, entregando-se por cálculo político aos braços do Vaticano, que o encheu de privilégios e criou o “nacional catolicismo”.
Em vão, a psicologia e a psicanálise se empenharam em estudar os problemas internos não resolvidos dos ditadores. Foi o que aconteceu nos Estados Unidos com o derrotado presidente Trump e está acontecendo com o Bolsonaro no Brasil.
Também foi escrito sobre o caudilho brasileiro que sua possível agressividade e fobia por homossexuais e mulheres viriam de uma homossexualidade mal resolvida.
O desprezo pelos homossexuais ficou evidente quando ele confessou que teria preferido ver um filho morto, atropelado por um carro, a que fosse gay. E sua fobia pelas mulheres ficou plasmada quando revelou que seu quarto filho, Laura, de nove anos, nasceu mulher por uma “fraquejada sua”, pois seu desejo era que também fosse homem.
Às vezes penso o que o coração dessa menina sentirá quando crescer e lhe contarem que o pai não queria que fosse mulher, mas homem como seus outros quatro filhos. Ou quando lhe contarem que o pai chegou a dizer no Congresso a uma colega deputada que só não a estupraria “porque era feia”.
Dias atrás Bolsonaro surpreendeu o país ao qualificá-lo como um povo de “maricas e covardes cheios de ódio”.
Suas palavras, que tiveram repercussão mundial e revelam desprezo pelo país que preside, ainda precisam ser analisadas.
Poucas vezes se viu um chefe de Estado zombar dessa maneira de seu próprio país.
A psicologia ainda terá que estudar essa relação que Bolsonaro fez entre homossexuais e covardes. Seja Freud ou Lacan, que examinaram a força das palavras para tentar descobrir o inconsciente de uma pessoa. Esse simbolismo da homossexualidade ligada à covardia está cheio de significados ocultos e inconfessáveis. As palavras de Bolsonaro foram um dos piores insultos feitos a todo um povo. O que também chocou é o silêncio da Justiça diante de uma das mais graves acusações que podem ser feitas contra uma nação como a que Bolsonaro acaba de fazer.
Não basta rir de seu gracejo, principalmente quando foi pronunciado no contexto de zombar do drama da pandemia, chegando a afirmar que ter medo de se infectar é coisa de covardes, pois “todos nós vamos morrer”. Mais de 160.000 mortos na pandemia seriam para Bolsonaro outros tantos covardes, como também seriam as famílias das vítimas.
Justamente Brasil e Estados Unidos são os dois países do mundo com mais vítimas mortais onde os dois presidentes minimizaram a epidemia e a instrumentalizaram politicamente.
As afirmações de Bolsonaro há poucos dias são de tal gravidade e ofendem toda a nação que não poucos perguntam sobre o silêncio da Justiça, que não interveio para punir essa loucura verbalizada pelo presidente.
Caberia perguntar como Cícero em sua famosa frase das Catilinárias: “Até quanto, Catilina, vai abusar da nossa paciência?”. A paciência dos povos quando se sentem defraudados por aqueles que deveriam defendê-los também poderia ter um limite.
O grave silêncio das instituições diante das ofensas feitas a todo o país pelo chefe de Estado poderiam acabar tendo um grande peso de responsabilidade, porque o Brasil está com sua imagem cada dia mais desprestigiada no exterior, o que também poderia criar sérios prejuízos econômicos.
Os palhaços profissionais são capazes de fazer rir pequenos e grandes. São liberadores das tensões. Os palhaços políticos, ao contrário, são perigosos porque acabam corroendo a dignidade de um povo e arrastando-o para holocaustos e genocídios.
Melhor levá-los a sério.
O derrotado e o nosso risco
Essa última fala é tão ridícula que não merece ser analisada. O que o incomodou mesmo foi o fato de o senador Flávio Bolsonaro ter sido denunciado.
O grande projeto do presidente é ele mesmo e seus filhos. Ele é tão desagregador que dispersou até as forças com as quais chegou ao poder, há dois anos. Brigou, humilhou, traiu um grande número de aliados. Chegou a esta eleição sem partido. A Aliança, legenda que tentou criar, foi, segundo definição de Jairo Nicolau, “o maior desastre da história da formação dos partidos”. Os candidatos que apoiou estão tendo um fraco desempenho e sua reprovação está subindo.
Eleição municipal tem outra lógica, como ensinam os especialistas. Mas o bom desempenho eleitoral de administradores que levaram a pandemia a sério revela que o eleitor reprova o desprezo que o presidente demonstrou com os riscos da pandemia, que vai do “e dai?” ao “país de maricas”.
O argumento do cientista político Jairo Nicolau foi que Bolsonaro malbaratou seu próprio capital político. “Ele perde para o que poderia ter sido” se tivesse usado o impulso da sua eleição para organizar o seu campo político. Mas ele perde também pela trajetória daqueles que apoiou nesta campanha.
A questão é que o Brasil na gestão Bolsonaro tem perdido demais. Perdido vidas, tempo, rumo, inserção no mundo, valores civilizatórios, florestas, coesão social. Nesses quase dois anos, o país retrocedeu e as instituições foram fracas. Não defenderam o nosso patrimônio político.
Como é possível que ele não tenha enfrentado um processo de impeachment depois de ter, em plena pandemia, realizado por sete domingos consecutivos manifestações antidemocráticas?
Atentou contra a saúde e a Constituição ao mesmo tempo, e qual foi a resposta? Notas de repúdio e um processo no Supremo no qual ele não é o alvo, mas apenas os financiadores dos atos.
Bolsonaro foi para frente do quartel-general do Exército e disse que as Forças Armadas estavam com ele. E qual foi a resposta? Alguns generais, inclusive da ativa, e o ministro da Defesa estiveram com ele na maioria desses atos.
As Forças Armadas foram usadas como espantalho contra seu próprio povo. E aceitaram. A declaração do general Edson Pujol foi um alento na sexta-feira, mas com a nota de ontem voltou-se à ambiguidade.
Então, sim, a última semana foi ruim para Jair Bolsonaro. Seu filho foi denunciado pelo Ministério Público estadual, e nos Estados Unidos seu farol político foi derrotado. Perdeu do Rio a Washington. Terá um desempenho pífio nas eleições. O mais importante, contudo, é o que o país perde diariamente por ter um presidente como Jair Bolsonaro.
Ele mentiu quando disse que a vacina, desenvolvida pela China e o Instituto Butantan, provoca “morte, invalidez e anomalia”, e não foi cobrado por isso. A Anvisa teve que liberar o retorno dos testes, porque ficou escandalosa a suspensão, mas Bolsonaro deu mais um passo na destruição da credibilidade da Agência de Vigilância Sanitária indicando o coronel da reserva Jorge Luiz Kormann para a diretoria do órgão.
Ele é obviamente a pessoa errada: sem notório saber, negacionista da ciência, divulgador de fake news, autor da tentativa de manipular números da Covid. Não tenho esperança de que o Senado o rejeite. O Congresso tem ajudado o presidente a desmontar instituições confirmando todas as suas indicações desastrosas.
Uma eleição municipal tem muitos significados, mas claramente esta não fortalecerá o movimento que levou Bolsonaro ao poder. Entretanto, o triste balanço desses 22 meses e 15 dias é que Bolsonaro tem dilapidado o legado dos constituintes de 1988. E a resposta das instituições tem sido fraca diante do dimensão do risco.
















