segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Paris e Mariana mostram que ainda não alcançamos a paz

Diante das recentes tragédias envolvendo conflitos humanos provenientes de agressões descabidas e de rompimento de barragem de mineradora, não podemos nos furtar em analisar nossas reações a tudo isso. Em menos de dez dias nesse mês de novembro de 2015, fomos surpreendidos com a calamidade que atingiu Mariana e demais localidades de Minas Gerais e Espírito Santo ferindo de morte trabalhadores e moradores, bem como todo o ecossistema ao seu redor, com o rompimento de barreira de mineradora em Minas Gerais. Além disso, o ataque terrorista em Paris.

A nossa estupefação com a notícia de um fato não elimina a mesma ou maior estupefação diante de outro. Uma dor não elimina a outra dor. Ambas as situações são de extrema gravidade.

Aí vão dizer: temos que nos preocupar com o que acontece no Brasil, ao nosso redor… o nosso desastre foi bem maior. O que aconteceu em Paris foi pequeno diante do que ocorreu com a queda da barreira em Bento Rodrigues, distrito de Mariana, Minas Gerais. Morte por morte, a nossa guerrilha urbana mata muito mais do que as mortes ocorridas em Paris, a estatística demonstra isso.

Triste verdade, os dados estatísticos estão aí para qualquer um ver, porém, temos que analisar a fundo nossas reações ao que aconteceu em Paris, dando a esse fato, tanta consternação quanto ao que sentimos com o que ocorreu em Minas Gerais, bem perto de nós. Cada um na sua magnitude.

O desastre ambiental com a destruição de um rio importante na distribuição de água em dois estados da federação; a mortandade dos peixes ao longo da trajetória desse rio, a destruição do ecossistema ao seu redor, além das vidas humanas ceifadas com a tsunami de lama; a destruição de toda uma pequena cidade com igrejas, escolas, casas, creches e comércio – tudo isso é irreparável. Todos nós estamos atônitos e sem palavras com essa tragédia que ao dizer de muitos poderia ter sido contida e evitada, mas vivemos num país que ainda engatinha em questões de educação, segurança, saúde e infraestrutura, devido principalmente ao descaso e ao escandaloso desvio de verbas destinadas ao bem estar do seu povo.

Já o ataque em Paris foi também espantoso e assustador. Pessoas comuns, curtindo o seu lazer numa atividade simples e que faz parte da vida de qualquer um que gosta de viver, seja num bate-papo com amigos, assistindo a um show ou saboreando uma boa comida, foram surpreendidas brutalmente por atiradores armados com fuzis e metralhadoras, dando tiros a esmo, atingindo essas pessoas, numa carnificina dantesca.

E tudo isso em Paris, na Cidade Luz! Uma cidade do primeiro mundo que faz parte do nosso imaginário ideológico de segurança, alegria, liberdade! Esse é o ponto!

Cidades como Paris ou Nova Iorque, são para nós um objetivo a alcançar de civilização, organização e liberdade de ir e vir. Quando um atentado acontece numa cidade como essas, o nosso sonho desmorona junto com o seu povo atingido. A revolução francesa ainda está viva e sabemos da luta que foi para a França estabelecer a democracia! A França é o símbolo da civilização!

Foi também a mesma sensação de consternação quando as Torres Gêmeas foram derrubadas no coração de Nova Iorque. Se lá aconteceu isso, o que será de nós? Temos esperança? O nosso sonho, então, vira pesadelo!

Queremos Paz!!! Somos Paris!!!

Dizemos isso, porque não aceitamos que deixe de existir esse ideal de liberdade, de respeito, de civilização que os países do primeiro mundo alcançaram. Temos a velha Europa como meta a alcançar, pois imaginamos que lá não ocorreria nunca uma tsunami como a de Mariana.

Imaginamos que lá o dinheiro do povo volta para o benefício do povo e que ao atingir isso viveremos em paz. Imaginamos que poderemos ir lá um dia para passear felizes e conhecer a famosa Torre Eiffel, ou passear na Champs Elisées e no Rio Sena, sem o medo que sentimos ao sair para passear em nossas cidades.

A nossa esperança depende da existência desse ideal, pois paz é nada mais, nada menos que o respeito pelas diferenças. Paz é viver e deixar viver! Paz é saber, naturalmente, que o direito de uma pessoa acaba quando o da outra pessoa começa. Paz é nos contentarmos com o que podemos ter sem precisar destruir o que o outro tem. Paz é a alegria de poder sair às ruas sem reservas e conversar com um estranho sem ter medo.

Paz é Liberdade, Igualdade e Fraternidade! Je suis Paris e Mariana!!!

E o Lula lá gosta de peras?

A melhor coisa da entrevista que o Lula deu ao Roberto D’Ávila para a Globo News foi como sempre é, nos programas desse jornalista, o próprio entrevistador. Bonito, elegante, educado, inteligente, sabe perguntar e sabe ouvir, o que é, evidentemente, vital para um entrevistador.

A comparação com o ex-presidente chega a ser cruel. Lula, por mais banhos de loja que leve, continua tosco, desajeitado, desarticulado e deselegante.

Interrompe as perguntas do entrevistador para melhor evitar responder com sinceridade àquilo que lhe é perguntado. Gabola, como já disse alguém, ele está convencido que o brasileiro é besta e que acredita em tudo que ele diz. Os palanques lhe fizeram esse mal: as plateias são convocadas e as palmas e aplausos obrigatórios. Desse modo, o ex-presidente se convenceu que sua palavra é sempre ouvida e respeitada.


E aí, sai dizendo tolices atrás de tolices. São frase e pensamentos que de tão repetidos todas as vezes que ele se vê diante de um microfone, já poderiam ser ditos em coro com os convocados para encher o espaço onde ele fala.

De sua mãe, conta com orgulho que ela nasceu analfabeta como, aliás, todas as nossas mães nasceram. Pena que dona Lindu não tenha aproveitado melhor a força do filho que, já em 1975, era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, para fazer um curso de alfabetização de adultos e poder ter o prazer de ler sozinha as notícias diárias que os jornais estampavam sobre seu Lula. Ela faleceu em 1980.

Na entrevista que deu ao jornalista Kennedy Alencar, do SBT, em 5 de novembro, Lula fala aquilo que repete desde sempre: que duvida que haja alguém, seja lá quem for, que tenha se aproximado dele com um papo menos republicano, digamos assim.

Falando com Roberto D’Ávila em 18 de novembro, esquece que quinze dias antes deu entrevista ao SBT e menciona que há cinco anos não dá entrevistas para não atrapalhar o governo de sua eleita! E torna a dizer que nunca ninguém se aproximou dele com uma oferta menos ortodoxa, nem uma pera lhe ofereceram!

Será que ele gosta de peras? Ou prefere um ’poire’? Ou é homem fiel a uma boa cerveja? Sei lá, nunca vi o Lula em pessoa. Não sei, com certeza, do que ele gosta, a não ser do Corinthians. Mas deduzo algumas coisas: que adora viajar em jatinhos, hotéis seis estrelas (do tipo que oferece menu de travesseiros), e casas de campo super confortáveis, com boas piscinas e campos de futebol. Ah! e mesas para um bom carteado...

Peras? Que ideia!

Também pudera!

Também pudera! Não dava mesmo para esperar resultado diferente. Sofrimento era e sempre foi inevitável. Dizem que dois erros não fazem um acerto. Verdade. Conjuntos incontáveis de erros convidam desastres. E desastre parece ser nossa vocação.

Houve época que a gente confundiu desmatamento com progresso. Conquistar a floresta para subjuga-la era quase missão civilizatória, talvez até vista como divina. Deu no que deu. Florestas eliminadas, falta de agua, mudança climática, desertificação e provavelmente um monte de outras coisas que não consigo ou não sei.

Já achamos que fumaça era progresso. Em todo o canto, chaminé de fabrica era motivo de orgulho. Sem considerar em momento algum, como reduzir a poluição do ar. E, consequentemente, condenando gerações a respirar ar sujo.

Assistimos ao extermínio (ou tentativa de) da escola publica. Já faz muito tempo, os pais não querem seus filhos matriculados nelas. E também faz tempo que a escola publica piora. Culpar o governante de plantão é fácil (embora parcialmente verdadeira). O difícil é reconhecer que a melhoria da escola publica depende do envolvimento da sociedade e, em especial, dos pais. Culpa de todos, portanto.

Na saúde, a mesma coisa. Faz tempo que piora. Tanto tempo, tantas décadas de piora na qualidade, acesso e disponibilidade da saúde pública não da para ser culpa exclusiva do governo da vez. Requer considerável parcela de alienação, desinteresse e apatia da população. Quem pode, prefere pagar saúde privada. Melhorar a saúde publica não parece prioridade da população. Se fosse, alguma coisa já teria melhorado.

Ninguém gosta de impostos. Sejamos francos. Mas eles são necessários. Desde que gastos pelas razoes e da maneira certa. Mas a carga tributaria continua aumentando e os serviços piorando e diminuindo. Orçamento é considerado tema sem interesse para a população em geral. É razoável esperar melhorias na politica publica se a população não se interessa em como o dinheiro publico esta sendo gasto?

Democracia é bom. Votar é bom. É a oportunidade de escolher lideres corrigir rumos, navegar na direção certa. Mas, para funcionar, democracia exige muita coisa. Controle permanente. Envolvimento. Discussão. Negociação. Pactuar objetivos e métodos. Dá trabalho, enfim.

No final, a qualidade dos lideres eleitos refletem as exigências e o controle que a população exerce sobre eles. E isto tudo, gera os resultados colhidos no tempo.

Também, pudera!

Entre Dilma e Marina, votamos pelo desastre

A memória curta encobre de lama nossos olhos d’água. Quem chora hoje pela morte do Rio Doce, pelo drama de soterrados e desabrigados... quem chora pela imagem dantesca, alaranjada e sólida que fez sumir comunidades inteiras, antes ribeirinhas... talvez tenha esquecido que, num momento, lá atrás, Dilma Rousseff, ministra de Lula nas Minas e Energia e na Casa Civil, ganhou uma briga de foice com Marina Silva, então ministra do Meio Ambiente.


Será que não está claro que optamos contra o verde, contra a proteção ambiental e a favor da autonomia total e falta de fiscalização de mineradoras, ao dar carta branca para um país com a cara da Dilma? Ninguém lembra mais a rixa entre Dilma e Marina? Lula nomeou Marina ministra do Meio Ambiente em 2003. 

Mas Dilma achava Marina uma xiita ambiental e a acusava de atrasar licenças ambientais para “obras de infraestrutura” e hidrelétricas. Qual era a resposta de Marina, hoje indisputável em face de Mariana?

“A discussão entre conservação do meio ambiente e desenvolvimento para mim é um falso dilema. Ainda que na prática tenha de ser superada, não é possível advogar pelo desenvolvimento sem promover a conservação ambiental. As duas questões fazem parte da mesma equação.” Marina buscava o desenvolvimento sustentável com uma obsessão: preservar a biodiversidade e a vida. Sobre a demissão de Marina em 2008, Lula declarou: “O importante é que tenha alguém isento para tocar o Plano Amazônia Sustentável. A Marina não é isenta”.

Depois de cinco anos como ministra, Marina saiu desgastada. Perdeu a luta histórica contra os transgênicos e contra a usina nuclear de Angra III. Ao pedir demissão, citou a Bíblia: “É melhor um filho vivo no colo de outro”. O filho era a política ambiental. Ela tinha brigado com outra mãe cheia de energia, Dilma.


Na última campanha eleitoral, com Marina na disputa, Dilma passou a discursar sobre meio ambiente. Mandou beijos e acenos para pequenos agricultores, quilombolas, pescadores e indígenas, prometeu quintuplicar os produtores de orgânicos, sem agrotóxicos. Defendeu assentamentos agrários. Hoje, uma grande aliada de Dilma e sua ministra da Agricultura é Kátia Abreu, empresária, pecuarista, porta-voz dos ruralistas.

O vazamento de 62 milhões de metros cúbicos de lama, considerado a pior hecatombe ambiental de nossa história, não deve ser atribuído apenas a Dilma. Mas não chamem de “acidente” o horror que cimenta as águas e o solo e avança por 800 quilômetros até o mar. Em dez anos, cinco barragens se romperam em Minas Gerais. Mas só agora, com o rompimento da barragem da Samarco, controlada pela Vale e pela BHP, anuncia-se a busca de formas alternativas de disposição de rejeitos de mineração.

O que houve foi um crime num país negligente que adotou uma legislação frouxa com empresas como a Vale, que despejam milhões para financiar eleição de parlamentares. As leis são tolerantes, as multas são ridículas e a fiscalização é zero. A omissão dói. A região só foi sobrevoada por Dilma uma semana depois. A atual ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, em reunião com procuradores, sem saber o que prometer, disse: “As hidrelétricas estão paradas por questão de segurança, okay? Então isso é passivo, o governo está avaliando etecetera”. “Okay” e “etecetera”? Ninguém mais sabe falar no país?

Acho lindo que todo mundo se una, comovido, para salvar o Rio Doce. Dilma já disse que ficará melhor do que era! Mas não posso me conformar com o descaso oficial. Há 402 barragens de mineração cadastradas no Brasil e o laudo de risco vem assinado pelas próprias empresas. Oi? Na barragem de Mariana, estava “tudo bem”, segundo o laudo. Agora, Exército, caminhões-pipa e helicópteros estão mobilizados. Bombeiros seguem urubus para encontrar corpos. São feitos buracos na lama para liberar cheiro de decomposição.

No DNPM – Departamento Nacional de Proteção Mineral –, só há cinco fiscais especializados em barragens. Cinco. De que adianta acionar “os sistemas de alerta” à população, simular novos rompimentos, instalar câmeras e monitoramento – se o negócio em si não é fiscalizado? O DNPM está “sucateado”, segundo os próprios diretores.

Não vou falar das tartarugas, dos mamíferos, dos golfinhos, dos peixes, dos corais. Não vou falar da recuperação dos olhos-d’água dos rios. E nem das vítimas cujas vidas foram desviadas de seu leito normal. Só vou falar do caráter nacional de leniência e impunidade que propicia “desastres naturais”. Só vou falar de nossa responsabilidade. Vamos tirar a lama que cobre nossos olhos e enxergar as escolhas que fizemos. Para decidir em que Brasil queremos viver.

Ruth de Aquino

Foi-se o que era Doce

Semana brava, com desastre ambiental no Brasil, atentado em Paris. Ao chegar em casa, com as botas enlameadas, vejo que algumas pessoas me criticam porque não fiz discurso sobre Mariana. Se fizesse, reclamariam por Paris, se fizesse por Paris, reclamariam por Bagdá. Pensei que deixaria as patrulhas no universo analógico. Mas elas sobrevivem no mundo digital. Detalhes.

Na década de 80, esta frase me impressionou em Minas: olhe bem as montanhas. Eu a vi em muitos carros. Na minha interpretação, a frase completa seria essa: olhe bem as montanhas, antes que desapareçam.

Minas Gerais minerais, dizia Drummond, que nasceu em Itabira, na cidade toda de ferro em que as ferraduras batem como sinos.

Nessa viagem por Minas, levava na mochila o livro de Drummond e nele o poema “Canto mineral”:

“Minas exploradas
no duplo, no múltiplo
sem sentido,
minas esgotadas,
a suor e ais”


Vi uma montanha pela metade, em Mariana. A face escura da pedra, seus restos circulando em longos trens de carga era a Minas nos ferindo com “suas pontiagudas lascas de minério, laminados de ironia”. Dessa vez não bastava olhar apenas as montanhas. Os rios estão sumindo, alguns exauridos pela seca, e o Doce afogado pela montanha liquefeita, a lama mineral.

Sei que a hora pede discursos, comunicados, “não vamos mais tolerar” etc. Mas o Rio Doce para mim não é apenas uma palavra de ordem. É uma memória azulada que queria compartilhar com os amigos que moram na cidade onde ele se forma: Rio Doce. É uma cidade de três mil habitantes que não conhece um assassinato há 50 anos. Calma, limpa, 100% saneada, ônibus escolares cruzando suas ruas desertas. Povo e polícia se entendem bem, a cidade se protegeu da violência. O lugar onde o Rio Doce se forma era uma atração turística. Coberto de lama.

A orla do Doce, ponto de lazer da cidade, foi devastada. A mais bonita fazenda da região, a Porto Alegre, coberta de lama. A morte violenta, que os habitantes não viam há meio século, apareceu na forma de nove cadáveres arrastados desde Mariana. Em Rio Doce, pensei também Paris, não para agradar as patrulhas, mas porque Paris para mim também não é apenas uma bandeira, é uma cidade onde passei alguns dos melhores momentos de minha vida. A conclusão a que cheguei na pousada da Cachoeira, quase toda ocupada por bombeiros que vieram de Ubá, é de que não existe uma defesa inexpugnável contra o mundo exterior.

Uma cidade tão limpa invadida pela lama, tão pacífica, recebendo nove corpos, uma cidade luz atacada pelas trevas do extremismo religioso de bandeiras negras. Num momento como esse, de terror, desastre ambiental, corrupção, cinismo, não há como negar o mundo que temos. E encará-lo de frente. Empurrar com a barriga significa mais força para o terrorismo do ISIS, mais desastre ambiental, mais impunidade.

“Ideologia, eu quero uma pra viver.” Esse verso de Cazuza passou muitas vezes pela minha cabeça. Conheci Cazuza em 1986 e o visitei depois em Petrópolis. Por tudo o que sei dele, o termo “ideologia” aqui não significa uma visão de mundo totalizante, que tudo explica, explica, às vezes antes de acontecer, às vezes sem sequer examinar os fatos.

“Ideologia” aqui, creio, significa um sentido na vida, ainda que precário e incompleto. Este sentido está em falta no país: somos um gigante desengonçado, que não discute nem sabe para onde vai. Vivemos uma crise econômica, política, ética e ambiental — um bicho de quatro cabeças. É feio, mas está aí. É absolutamente necessário combatê-lo de forma integrada.

Temos uma oposição que não aponta o caminho, mas não se dispõe a sair perguntando. Um governo cujo sonho de consumo é nos entupir de carros e eletrodomésticos e comprar refinarias enferrujadas, para chamar de “minha Ruivinha”. A única saída é conversar por baixo, discutir intensamente, embora isso seja contraditório com a rotina dura do trabalho.

Olhe bem as montanhas. Ainda bem que olhei o Doce muitas vezes antes de vê-lo em seu caixão de barro. A contemplação apenas me entristece. Preciso fazer mais, sem patrulhas nos calcanhares. Cada um sabe de seus limites, embora, de vez em quando, precise ultrapassá-los. As pessoas da minha geração talvez não vejam mais o Rio Doce. Visitei um dos seus formadores, o Piranga; águas normais, apenas um pouco castigadas pela seca. Na Serra do Caparaó subi pelas cabeceiras do rio José Pedro. Também está raso, mas joga água limpa no Doce, através do Manhuaçu.

Isso é uma esperança para as novas gerações. O Doce pode sair da UTI em alguns anos. Depende de nós, assim como enfrentar o monstro de muitas cabeças.

O país que conhecemos está desaparecendo. É preciso uma aliança com os que podem desfrutá-lo depois de nós, com base numa visão ainda que modesta de nosso futuro comum.

Um rumo, um sentido até que fariam bem nesse vale enlameado.

 Fernando Gabeira

A escrivaninha vazia de Negrão de Lima

Deputado Federal, Ministro da Justiça, das Relações Exteriores, Prefeito do Distrito Federal, Embaixador em Portugal, por último Governador da Guanabara, Negrão de Lima trouxe de Minas Gerais múltiplas lições de competência política. Uma delas, de jamais ir para casa, à noite, sem despachar o último papel levado ao seu gabinete ou adotar a derradeira decisão inadiável. Deixava limpa a sua escrivaninha e explicava não ter certeza de que voltaria na manhã seguinte para continuar a trabalhar. Em especial quando depois de eleito governador, candidato das oposições ao regime militar e sob a má vontade dos então detentores do poder. Tentaram impedir sua posse e viu-se processado como comunista em Inquéritos Policiais Militares, livrando-se deles por sua óbvia resistência a todo tipo de radicalismos. Era visto como adversário, até como inimigo pelos generais-presidentes, mas conseguiu conviver com todos e cumpriu os cinco anos de seu mandato. Morreu pobre.

Lembra-se a memória de um dos grandes políticos que o Brasil já teve por conta da escrivaninha vazia de todas as noites. Se não voltasse, nada ficaria devendo às suas obrigações.

Transplantando aqueles idos para hoje, a conclusão é de que fazem falta as lições de Negrão de Lima. Porque a prática dos governantes de agora é de não fazer hoje o que pode ser deixado para amanhã. Quantas decisões a presidente Dilma vem protelando, especialmente depois de reeleita? Da reforma do ministério que levou quase um ano para acontecer de forma pífia, até convencer-se de que vivíamos uma crise dos diabos, Madame hesitou e ainda hesita. Precisaria virar o jogo, adotando um programa de sacrifícios e de retomada do crescimento, mas não se decide. Deveria, mas não ousa, enquadrar as elites através do imposto sobre grandes fortunas e a taxação de heranças. Passa ao largo da necessidade de estabelecer amplo projeto de combate ao desemprego por meio de obras públicas. Deixa de elaborar mudanças essenciais no pacto federativo, como se Estados e Municípios não lhe dissessem respeito. Volta as costas para aumentar investimentos em educação e saúde públicas. Tergiversa frente à importância de reduzir juros e duplicar o salário mínimo.

Essas e quantas outras iniciativas a presidente leva para casa, todas as noites, sequer sem trazer soluções no dia seguinte? Ao retornar, encontra a mesa de trabalho sempre mais atulhada de obrigações adiadas. Deveria, ao menos, encomendar uma biografia de Negrão de Lima...

Ilhas do tempo

De todas as ilhas visitadas, duas eram portentosas. A ilha do passado, disse, onde só existia o tempo passado e na qual seus moradores se entediavam e eram razoavelmente felizes, mas onde o peso do ilusório era tal que a ilha ia afundando no rio cada dia um pouco mais. E a ilha do futuro, onde o único tempo que existia era o futuro e cujos habitantes eram sonhadores e agressivos, tão agressivos, Ulisses disse, que provavelmente acabariam se comendo uns aos outros
Roberto Bolaño

Pobreza pode voltar a crescer na América Latina

A fase de ouro da redução da pobreza na América Latina pode estar com os dias contados, e este mal histórico deve voltar a crescer. O Banco Mundial (Bird) alerta que 38% da população - 241 milhões de pessoas que não são pobres nem chegaram à classe média -são vulneráveis a caírem na pobreza, ou seja, a viverem com menos de US$ 4 por dia. E os pobres temem ser jogados na miséria. A primeira consequência a ser sentida será a volta da informalidade no trabalho, que passará dos atuais 37% para mais da metade da população adulta do continente se nada for feito.

Mais de 18 mil lojas de informática fecharam no país em um ano
A América Latina e o Caribe, que formam a região mais desigual do mundo, sofrem com a queda no preço das commodities, a falta de investimentos em educação e a desaceleração chinesa. O CAF - Banco de Desenvolvimento da América Latina calcula que uma redução de 1,5 ponto percentual no crescimento da China faça a economia local encolher 1,75 ponto percentual.

- Todos os países da região terão mais dificuldade para se recuperar - alerta Pablo Sanguinetti, diretor corporativo de Análise Econômica do CAF, para quem os governos podem atenuar estes riscos.

Os dados mostram que a pobreza na região está estagnada desde 2012. São 167 milhões de pobres, sendo 71 milhões de miseráveis. A extrema pobreza já começa a mostrar tendência de alta, inclusive no Brasil. Segundo a Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), a miséria por aqui subiu, e cerca de 6% dos brasileiros são miseráveis.

- No Brasil, onde esperamos que o PIB (Produto Interno Bruto) vá cair em 2015 e em 2016, o nível de pobreza deve aumentar, ainda que menos que nos anos 80, quando havia menos políticas de suporte à renda dos menos afortunados. Todavia, um possível aumento da pobreza no país seria temporário - afirma Marcello Estevao, especialista do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Mas Oscar Calvo-Gonzales, gerente para a área de pobreza do Bird, acredita que os problemas da região são estruturais:

- Hoje a região enfrenta condições externas difíceis, que não são transitórias e que podem durar muito tempo. Uma nova geração de programas sociais vai além da rede de segurança em tempos de crise, mas também ajuda a aumentar a produtividade e reforçar o capital humano, permitindo novos progressos na redução da pobreza.

O Brasil, o país que mais reduziu a pobreza, hoje é um dos mais ameaçados, devido à forte crise econômica e política. Tem de lidar, simultaneamente, com o empobrecimento e o problema fiscal.

- O desafio hoje é não piorar muito, enquanto há alguns anos estávamos debatendo como acelerar a queda na pobreza - sintetiza Michael Shifter, presidente do Inter-American Dialogue. - Mas ninguém quer deixar de ser pobre temporariamente, e isso pode gerar pressão social para que as reformas, enfim, saiam do papel.

Na vizinhança da sede do Banco Central brasileiro, uma cena resume a situação do país. Ao lado do prédio que guarda US$ 370 bilhões - a enorme poupança de dólares para proteger o Brasil da crise - famílias vivem do lixo. Nos contêineres dos arredores, nada que possa ser vendido permanece muito tempo.
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Os meninos do Brasil

Enquanto a Europa discute o que fazer com seus jihadistas, o Brasil sequer discute o que fazer com sua juventude transviada que se agrupa em hordas sob a bandeirinha do PT para cacarejar e gritar palavras de ordem em homenagem aos seus guerreiros, forrados de grana na cueca. É um espanto.

Evidente que aquela e esta agremiação criminosa deveriam ser proscritas. Mais evidente ainda a comoção que causará, com o resto da lama que ainda falta boiar no território destes alegres milicianos do atraso e do barbarismo, que desnudarão ainda mais dejetos que os que já contabilizamos.


Talvez a existência de um Cunha explique a existência de um Lula, pois para a roubalheira ser completa sempre é necessário quem furte as galinhas e quem abra a porta da granja. Neste quesito, talvez a única verdade consumada pela vigarice é que eles só fazem aquilo que todos já fizeram ou ainda fazem, só que com muito mais audácia, desprendimento e irresponsabilidade. Para muitos, parecem qualidades insofismáveis. Para o todo, no entanto, os prontuários dessas entidades só os credencia para as dependências da polícia.

Eu sempre me pergunto o que fazer do espólio moral que essa gente vai deixar por aqui. O que será dos “meninos do Brasil” entregues à própria sorte de terem que pensar com as próprias cabeças? Não bastasse a índole alvejada, a ideologia torta, a burrice faraônica e a ignorância rombuda que todos exibem faceiros em suas agitações frenéticas de bandeirinhas tortas, o culto à pobrice como estética do manco vai fazendo uma escola perigosa para o país.

As barragens não caem sozinhas, meus caros. Elas precisam de um longo processo de solapamento, devidamente descaracterizado como movimento importante, que um dia será o estopim de uma tragédia anunciada. Eu começo a acreditar que esses políticos simplesmente não se dão conta de com que forças estão mexendo. Dançam uma dancinha esquisita, no alto do vertedouro de suas ideologias pilantras, acreditando cegamente que a estrutura jamais virá abaixo, soterrando-os num amontoado de dejetos.

Eu já disse aqui mesmo – e muita gente não me interpretou corretamente – que não é a quadrilha desse mamulengo que vai me fazer sair daqui. É a herança maldita, deixada por todos estes grupamentos, que condenou inexoravelmente o país a ser um quintal de si mesmo, onde suas muambas vão sendo negociadas a céu aberto para fabricar os novos cretinos que almejam nos governar em seguida.

O reinado de Lulão, Marinão, Macedão, Dilmão e contramão não termina nunca. Ele é uma extensão do nosso cérebro, da nossa finitude marreta, da nossa malemolência e da nossa simpática apatia. Ele é o produto certo, para o consumidor certo que cultivamos por aqui. Uma lástima. 

Metade das espécies de árvores da Amazônia pode estar ameaçada


Metade de todas as espécies de árvores da região amazônica pode estar ameaçada, o que aumentaria em mais de um quinto o número de espécies de plantas em risco no mundo. A conclusão, publicada na revista Science Advances, é de um grupo com 158 pesquisadores de 21 países, liderados por Hans ter Steege, do Museu de História Natural de Leiden, na Holanda.

No estudo, os cientistas usaram dados de mais de 1.500 levantamentos sobre a floresta amazônica. Dessa forma, eles puderam determinar como o desmatamento tem afetado, desde 1900, o número de árvores de cerca de 15 mil espécies. A equipe também estimou os efeitos do desmatamento até 2050.

Os resultados foram, então, comparados com os critérios da Lista Vermelha da União Mundial para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN), que faz um inventário de espécies em risco. O resultado mostra que de 36% a 57% de todas as espécies da região amazônica podem ser tidas, mundialmente, como ameaçadas. Entre elas, há espécies como a castanheira-do-Brasil, que chega a 50 metros de altura, e o cacaueiro.

Os pesquisadores ressaltam que os resultados não são o suficiente para a criação de uma Lista Vermelha completa das árvores da Amazônia. Para isso, cada uma das espécies deveria ser individualmente examinada pela IUCN. No entanto, as descobertas reforçaram a extensão e urgência dessa tarefa.

No Brasil, a cobertura florestal tem diminuído há décadas, mas existe pouca informação sobre a quantidade de espécies de árvores afetadas. "Não estamos dizendo que a situação na região amazônica se deteriorou de repente", explica o co-autor da pesquisa Nigel Pitman, do Museu Field de História Natural, em Chicago. "Fornecemos uma nova estimativa de como as árvores foram afetadas pelo desmatamento no passado e serão no futuro."

Rompimento das barragens: Por que ninguém será punido

O rompimento das barragens em Minas Gerais provocou uma avalanche de publicações no sentido de tentar fazer a sociedade ver a tragédia como resultado do capitalismo, já que a Vale, controladora da Samarco, é apresentada como uma empresa privada − privatizada por FHC!

Se considerarmos que um partido político é uma instituição privada, sim, a Vale foi privatizada. A Vale é do PT. A Samarco também.

O processo de tomada do controle da Vale pelo PT é muito bem descrito num dos capítulos do livro "Reinventando o Capitalismo de Estado", de Aldo Musacchio e Sergio Lazzarini.


Um resumo:

A privatização da Vale promovida por Fernando Henrique Cardoso em 1997 foi parcial. O governo vendeu pouco mais de 41% das ações da empresa para a Valepar, holding que na época era liderada pelo empresário Benjamin Steinbruck. Porém, o governo manteve o controle das golden shares, ações que lhe dava poder de decisão em vários assuntos, por exemplo, sobre os objetivos da empresa.

No ano de 2001, o conselho de administração da Vale aprovou a nomeação de Roger Agnelli como CEO da empresa. Um ano depois, a privatização foi concretizada com o BNDES vendendo 31,5% de sua participação. No entanto, no ano seguinte, 2003, início do governo Lula, o mesmo BNDES recomprou 1,5 bilhão em ações da empresa. Nesse mesmo ano, Lula apadrinhou a nomeação do ex-sindicalista e ex-vereador petista Sergio Rosa (hoje investigado pela Operação Lava Jato) como CEO do Previ, o fundo de pensão do Banco do Brasil.

Sob a liderança de Agnelli, a Vale deu um salto de produtividade, de rentabilidade, de admissão de funcionários e de pagamento de impostos e de royalties.

A partir de 2009, o grupo que reúne fundos de pensão de empresas estatais controlados pelo PT (Previ, Petros e Funcef) se utilizou da Litel, holding criada por eles mesmos, para assumir o controle da Valepar e por meio dela obter 49% das ações da Vale, o que somados aos 11,5% que já estavam nas mãos do BNDESPAR, braço de investimentos do BNDES, deu ao PT o controle sobre mais de 60% das ações da empresa.

Começou, então, a pressão de Lula sobre Agnelli para que a Vale fizesse mais investimentos no Brasil, principalmente na aquisição de siderúrgicas e na encomenda de navios, mesmo que os similares estrangeiros custassem a metade do preço.

Lula também tentou fazer um certo Eike Batista chegar à presidência da Vale. Não conseguindo, tentou substituir Agnelli por Sergio Rosa. Também não conseguiu.

A despeito das pressões, Agnelli continuou seus projetos na Vale, incluindo a encomenda de navios na China e na Coreia do Sul, o que enfureceu Lula. Em 2011, logo após a Vale registrar um lucro trimestral quase 300% acima do trimestre anterior, Agnelli foi demitido. Seu sucessor e atual presidente, Murillo Ferreira, foi indicado por Lula – e até dois meses atrás, Ferreira também ocupava uma cadeira no conselho de administração da Petrobrás. Desde então, os rumos da Vale são ditados pelos interesses PT.

Ignorando normas de licitação e do TCU, a mineradora firmou diversos contratos com empresas beneficiadas pelo programa de proteção e de incentivo à indústria nacional iniciado por Lula e que, obviamente, formava o grupo de financiadores (Odebrecht, por exemplo) de seu partido e de todos os movimentos que o apoiavam.

Não por acaso, desde então a Vale vem registrando perdas. Hoje, a Litel tem, sozinha, 52,5% das ações da Vale.

Em tempo: Todos os setores que foram beneficiados pelo protecionismo do PT estão hoje em colapso e todos os fundos de pensão de empresas estatais controlados por petistas estão deficitários.

Três perguntas:

O grupo que detém o controle acionário da Vale não seria o maior responsável pelos projetos de suas empresas?

O governo não foi negligente na concessão de alvarás e na fiscalização?

O PT, que controla a Vale, que governa Minas Gerais e o Brasil não tem nada, absolutamente nada a ver com isso?

E assim, mais uma vez nos deparamos com a razão do estado não poder participar do mercado. Quando participa, o próprio estado se torna o mais interessado em abafar as responsabilidades em caso de incompetência e de negligencia, deixando a sociedade completamente desamparada institucionalmente. As pessoas que perderam suas casas, suas fontes de renda e familiares na tragédia com toda certeza ouvirão muitas promessas do governo e talvez recebam algum dinheiro, mas a probabilidade é de que não verão ninguém sendo punido.

A realidade que deveria ser vista pela sociedade é que a maioria das grandes empresas brasileiras estão sob influência direta ou indireta do governo, estão sujeitas aos interesses de militantes do PT e de políticos de sua base aliada que geram lucros para si mesmos e prejuízos para a sociedade. Os bancos, os fundos de pensão e as agências regulatórias do estado não passam de instrumentos políticos. Para saber quais são as empresas que estão sob o controle do PT, basta checar seus quadros acionários, os benefícios fiscais, a quantidade de dinheiro que receberam do BNDES e os valores que doaram aos partidos nos últimos anos.

Se estivéssemos num país regido pelo livre mercado, a Samarco e a Vale seriam empresas realmente privadas e suas responsabilidades nesse acidente seriam realmente levantadas, julgadas e punidas, já que o governo não teria interesse em livrá-las do peso da justiça. Se fossem privadas, o estado iria com toda sua força contra as empresas. Se fossem privadas, alguém iria para a cadeia.

Como se fosse pouco as mortes e os prejuízos ambientais, a tragédia também levará consigo muitos bilhões de reais investidos pelos fundos de pensão que controlam as duas empresas, ou seja: Os prejuízos serão estendidos aos funcionários da Caixa, da Petrobrás e do Banco do Brasil.

Um acidente como o ocorrido em Minas poderia ter acontecido com qualquer empresa e em qualquer lugar do mundo, como já ocorreu tantas vezes, porém, o caso em questão evidencia mais uma vez que a participação do estado na economia potencializa a impunidade. Ninguém será punido pela tragédia em Minas, assim como ninguém foi punido pelos acidentes nas plataformas da Petrobrás nem pelos prejuízos sociais e ambientais provocados pela falência das empresas de Eike Batista, o ilustre filho bastardo das políticas “desenvolvimentistas” do PT.

Para evitar problemas, dias depois da tragédia em Minas, Dilma assinou o decreto 8572 que diz que “…considera-se também como natural o desastre decorrente do rompimento ou colapso de barragens que ocasione movimento de massa, com danos a unidades residenciais”. Com uma simples canetada, Dilma tirou da Samarco e da Vale toda a responsabilidade sobre a tragédia.

domingo, 22 de novembro de 2015

Samarco
Simanca

A França falhou

No rescaldo dos atentados de janeiro em Paris passei dois dias sem poder desligar, diante dos canais de notícias. No rescaldo dos atentados de 13 de novembro, quase não liguei a televisão; contentei-me em ligar para as pessoas que conhecia nos bairros atingidos (e que era um monte de gente). Você se acostuma aos atentados.

Em 1986, uma série de explosões ocorreu em Paris, em diferentes locais públicos (foi o Hezbollah libanês, acredito, o responsável). Houve uns quatro ou cinco atentados, num período de alguns dias, talvez por uma semana. Não me recordo exatamente. Mas o que me lembro perfeitamente é da atmosfera no metrô, naquela primeira semana. O silêncio dentro dos carros era total; e os olhares dos passageiros se cruzavam carregados de desconfiança.


Era a primeira semana. E então, logo depois, as conversas foram retomadas, o clima voltou ao normal. A perspectiva de outra iminente explosão ainda estava lá, na mente de todos; mas havia passado a um segundo plano. Você se acostuma aos atentados.

A França vai se segurar. O francês vai se segurar, sem mesmo precisar de um heroísmo particular, sem mesmo ter a necessidade de uma “reação nacional”. Eles vão se segurar porque não há outra maneira de fazer, e porque você se acostuma a tudo. E porque nenhuma força humana, nem mesmo o medo, é mais forte do que o hábito.

‘Descrédito que atinge partidos políticos na França não só é massivo: é legítimo’
“Mantenha a calma e siga em frente”. Tudo bem, é o que vamos fazer (mesmo que estejamos bem distantes, infelizmente, de ter um Churchill para nos conduzir). Ao contrário da crença difundida, os franceses são bastante dóceis, bastante fáceis de governar. Mas igualmente eles não são completos idiotas. Sua principal falha reside muito numa espécie de frivolidade negligente que torna necessário, periodicamente, refrescar-lhes a memória. A situação desafortunada na qual nos encontramos tem responsáveis, e responsáveis políticos; e estas responsabilidades políticas haverão de ser, cedo ou tarde, analisadas. É pouco provável que o insignificante oportunista que detém o cargo de chefe de Estado ou o débil mental congênito que faz as vezes de primeiro-ministro, ou mesmo os “tenores da oposição” reapareçam fortalecidos desta análise.

Quem, exatamente, diminuiu os efetivos das forças policiais, até que estivessem completamente no limite, e quase incapazes de cumprir sua missão? Quem, exatamente, martelou ao longo dos anos que as fronteiras eram um absurdo antiquado, símbolo de um nacionalismo rançoso e nauseante?

As responsabilidades, como se pode ver, são largamente compartilhadas.

Quais responsáveis políticos engajaram a França nas operações absurdas e dispendiosas cujo principal resultado foi mergulhar no caos o Iraque, em seguida a Líbia? E quais responsáveis políticos se preparavam, há bem pouco tempo, para fazer a mesma coisa na Síria?

(Estava esquecendo, é verdade que nós não fomos ao Iraque; não pela segunda vez. Mas foi por pouco, e parece certo que Dominique de Villepin, então ministro das Relações Exteriores, entrará para a História unicamente por isso — o que não é nada — por ter impedido que a França por uma vez, por somente e uma única vez em sua História recente, não participasse de uma operação criminosa que também foi uma estupidez).

A conclusão que se impõe é, desgraçadamente, severa: nossos sucessivos governos após dez (20? 30?) anos, lamentavelmente, sistematicamente, categoricamente falharam na sua missão essencial: proteger a população sob sua responsabilidade.

A população, ela não falhou. No fundo, não sabemos exatamente o que ela pensa, os governos sucessivos têm tomado muito cuidado com referendos (com exceção de um, em 2005, sobre uma proposta de Constituição Europeia, cujo resultado preferiram ignorar). Mas pesquisas de opinião são permitidas e, no que elas são valorosas, revelam mais ou menos as seguintes coisas. A população francesa sempre manteve sua confiança e sua solidariedade acerca de seus policiais e suas Forças Armadas. E tem amplamente recebido com desgosto a pregação da “moral de esquerda” (moral?) sobre o acolhimento de refugiados e de imigrantes. E ela jamais viu sem suspeição as aventuras militares no exterior que os governos julgaram boas de se associar.

Poderíamos multiplicar os exemplos de divergências, que se tornaram abissais, entre a população e aqueles que supostamente a representam. O descrédito que atinge atualmente, na França, a todos os partidos políticos não só é massivo: é legítimo. E me parece, parece-me bem que a única solução que nos resta é ir suavemente para a única forma de democracia real: que entendo, rumo à democracia direta.
Michel Houellebecq

Um final de semana de inferno astral para Lula, Dilma & Cia

Apesar de o noticiário ainda continuar dominado pelos atos terroristas em Paris e pelo desastre ambiental do Rio Doce, algumas reportagens políticas chamaram atenção neste final de semana, deixando cada vez mais claro que a espantosa corrupção na Petrobras envolveu diretamente o então presidente Lula da Silva, sua sucessora Dilma Rousseff e o executivo petista Sérgio Gabrielli, que presidiu a Petrobras na época em que as propinas se institucionalizaram, com cobrança de percentual fixo para o PT e outros partidos da base aliada.

O Estadão deu show, ao publicar uma impressionante entrevista com Thales Rodrigues de Miranda, ex-coordenador jurídico da Petrobras, que participou das negociações para a compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos. Miranda se recusou a assinar um parecer favorável à compra da unidade de refino no Texas, que se encontrava em péssimo estado de manutenção e chegou a ser apelidada de “Ruivinha” pelos engenheiros da Petrobras, devido à ferrugem em atinge suas instalações.

O advogado, que entrou na Braspetro por concurso, afirmou que houve “orientação do Rio” – em referência à sede da estatal – para fossem aceitas as polêmicas cláusulas do contrato e omitidas as informações aos membros do Conselho de Administração.

Outra matéria do Estadão revela que o ministro Vital do Rêgo, do Tribunal de Contas da União, determinou que a área técnica do tribunal reavalie a responsabilidade da presidente Dilma Rousseff e de demais ex-integrantes do Conselho de Administração da Petrobras, na compra da refinaria de Pasadena. O ministro também requereu que se analise eventual culpa de representantes da Astra Oil, antiga sócia da estatal brasileira no negócio.

Um comunicado sobre os novos passos da investigação será feito por Vital aos demais ministros da corte de contas em sessão marcada para esta quarta-feira. Vital, que é relator dos processos que apuram dano ao erário na compra da refinaria americana, mandou juntar ao processo a íntegra da delação de Agosthilde Monaco de Carvalho, engenheiro da Petrobras, que trabalhava na Área Internacional

Carvalho disse que, em 20 anos de empresa, nunca tinha visto o Conselho de Administração ser convocado para aprovar uma decisão da diretoria no dia seguinte, como ocorreu com a aquisição da refinaria do Texas. No depoimento, o braço direito de Nestor Cerveró disse que só com a ordem de “alguém de muito poder na Petrobras” poderia haver uma convocação expressa do Conselho de Administração, sem questionamento.

Na Veja, uma instigante reportagem de Daniel Pereira, Robson Bonin e Hugo Marques revela que a Diretoria Internacional, na gestão de Nestor Cerveró, foi transformada pelo então presidente Sérgio Gabrielli num órgão arrecadador de recursos para as campanha políticas do PT, com destaque para a campanha de Lula à reeleição, em 2006.

Uma das negociatas foi a exploração de poços secos em Angola. A Petrobras pagou US$ 300 milhões e Cerveró disse ter ouvido de Manuel Domingos Vicente – então presidente do Conselho de Administração da Sonangol, a estatal angolana do petróleo – que até 50 milhões de reais oriundos de propinas produzidas pelo negócio foram mandados de volta ao Brasil para irrigar os cofres da campanha de Lula.

Segundo Cerveró, a negociação foi conduzida pelas cúpulas dos dois governos. O delator apontou como negociador do lado brasileiro o então ministro Antonio Palocci, da Fazenda, que era membro do Conselho de Administração da Petrobras. A empresa perfurou poços secos e teve gigantesco prejuízo com a operação em Angola, mas, como explicou Cerveró, isso pouco importou, pois o objetivo era cozinhar os números e deles arrancar propinas para financiar a campanha presidencial de Lula.

Bem, com tanta notícia ruim, pode-se dizer que foi mais um fim de semana de inferno astral para Lula, Dilma & Cia., que inutilmente lutam para ganhar tempo e se preservar no poder, sem perceberem que o tempo conspira contra eles.

O Estado brasileiro e o acidente em Mariana

A sociedade brasileira ainda acompanha perplexa e penalizada os acidentes com as barragens de rejeito rompidas no município mineiro de Mariana (a primeira Capital do Estado de Minas Gerais) e suas terríveis conseqüências na bacia hidrográfica do Rio Doce. Por conta da dimensão dos prejuízos, o noticiário nacional e mundial tem dado grande destaque ao tema. Por ele, ficamos sabendo que existem mais de trezentas barragens de características semelhantes só no Estado de Minas Gerais e outras tantas no resto do país. Ficamos sabendo, também, que existem apenas quatro funcionários especializados no órgão competente (o DNPM – Departamento Nacional da Produção Mineral) para monitorar o desempenho dessas estruturas e atestar-lhes a higidez. Essa é uma missão impossível para tão pouca gente especializada, mesmo considerado o regime de rodízio com que o trabalho parece ser desenvolvido.

As deficiências na estrutura técnica e administrativa do Estado brasileiro não se concentram apenas no licenciamento e fiscalização das barragens de rejeito, embora essa tenha sido a surpresa do momento. O brasileiro comum sabe, por experiência própria, que as coisas também não marcham adequadamente em outros serviços importantes, principalmente nos da saúde, da educação e da segurança, que lhe afetam mais diretamente a vida cotidiana. Parece muito difícil entender essa situação, quando as mesmas notícias da imprensa apontam a existência de quase quatro milhões de funcionários no serviço público brasileiro e que, apenas no período de 2003 a 2012, o governo federal teria contratado quase 180 mil novos trabalhadores. As mesmas fontes da mídia diária mostram que, se somados os funcionários públicos estaduais (quase quatro milhões) e os municipais (perto de sete milhões), o corpo do pessoal à disposição dos governos alcança mais de 7% da população brasileira total.


Mesmo num exame mais ligeiro, fica mais ou menos evidente a possibilidade de que exista um desequilíbrio importante na distribuição e alocação desse grande efetivo de pessoal. Se essa for a realidade, precisamos racionalizar isso com urgência. Não tem cabimento a falta de técnicos especializados para fiscalizar a segurança das barragens e de outras obras de engenharia, enquanto existir excesso de efetivo (ainda que com perfil distinto) em outras áreas da administração. A importância de um exame acurado desse assunto fica mais potencializada, ainda, no quadro geral da crise econômica em curso. Atenção administração: mãos à obra. Vamos confirmar a existência desse eventual desequilíbrio funcional e, caso verdadeiro, ajustar os meios e os contingentes de funcionários, de acordo com as grandes prioridades nacionais. Não podem faltar técnicos, equipamentos e outros meios para o licenciamento adequado e para o monitoramento eficaz das barragens de rejeitos.

Por oportuno, não gostaria de deixar sem comentar o fato de que considero o Rio Doce um presente valioso dado ao país e à natureza, proveniente das entranhas de Minas Gerais, estado onde ocorre a gênese da maior parte das suas vazões, antes que elas alcancem o Espírito Santo e, finalmente, o oceano. Registrei isso apenas para situar a circunstância de que, quando esse mesmo presente transforma-se, por iniqüidade ou displicência, em castigo desastroso, a organização eficiente das mitigações e do seu custeio competem, também e principalmente, à administração federal e a toda a nação.

Rubens Menin

Negociar com terroristas

Deve estar bem presente na lembrança de todos a espantosa declaração da presidente Dilma na Assembleia da ONU, em 23 de setembro do ano passado, recomendando "diálogo, acordo e intermediação" para resolver o terrorismo do EI. Na véspera, os Estados Unidos haviam bombardeado posições dos terroristas e nossa mandatária lamentou "enormemente" a conduta. Perguntei então: como negociar com aqueles degenerados? Quem iria levar um papo com eles? A própria presidente? O Marco Aurélio Garcia? Nesse tipo de encontro, o negociador entra com o pescoço e o EI com a faca. O negociador com a mulher e o EI com o estuprador.

Percebeu-se, então, a coerência entre aquelas declarações e os seguintes fatos: a) a criação do Foro de São Paulo, por Lula e Fidel, com a presença das FARC e as estreitas relações entre o PT e a narcoguerrilha colombiana, conforme insistentemente denunciado por Olavo de Carvalho; b) a acusação feita por Lula ao presidente Álvaro Uribe, em 2002, de praticar "terrorismo de estado" contra as FARC; c) a posterior recusa de Lula, já presidente, ao pedido colombiano, para que o Brasil reconhecesse as FARC como organização terrorista; d) as posições do governo petista, sempre alinhadas com as posições do grupo terrorista Hamas; e) o apoio às pretensões atômicas do iraniano Ahmadinejad, malgrado sua declarada intenção de destruir Israel.


Lembremos, também, que vários de nossos atuais governantes participaram de ações terroristas durante a luta armada nos anos 60 e 70. Sequestravam personalidades e aeronaves, explodiam bombas, rugiam ameaças. Não estaria aí a causa principal da indulgência do nosso governo para com esse tipo de ação política? Além disso, as forças dirigentes da política externa brasileira jamais expressaram às nações democráticas qualquer sentimento de proximidade e parceria semelhante ao que cultivam com as ditaduras comunistas e com os tiranetes da Ibero-América.

Enfim, ninguém se ofereceu, em 2014, para um tête-a-tête com o "califa" Abu Bakr Al-Baghdadi. Agora, diante dos atentados de Paris, com os estragos produzidos pelo EI e outros grupos jihadistas jogando milhões de refugiados sobre a Europa, pergunto: a presidente mudou o tom? Muito pouco. Dilma ficou "consternada", expressou "solidariedade ao povo e ao governo francês", chamou os terroristas de "covardes" e disse, textualmente que - "os atos cometidos em Paris devem ser combatidos sem trégua". Isso é combate ao terrorismo? Não. Isso é combate a alguns terroristas na França.
Percival Puggina

Jihadismo petista

Palco para o ex Lula repetir o papel de vítima que desempenha cada vez com maior desenvoltura, a abertura do 3º Congresso Nacional da Juventude Petista foi uma ode à desfaçatez. Na plateia, gritos de “Fora Levy” e “Fora Cunha” competiam com o falso didatismo de Lula, que tentava insuflar a galera contra a oposição e a mídia. Na lateral do ginásio brasiliense, um painel gigante “Heróis do povo brasileiro” com os rostos de José Dirceu, João Paulo Cunha, José Genoino, Delúbio Soares e João Vaccari Neto não deixava dúvidas quanto à moral da turma.

Lula, que tem se dedicado a tentar safar a si e aos seus – não mais aos amigos, mas a família - agrediu com as obviedades de sempre e se superou.

Desfiou a ladainha da perseguição da oposição, da direita, da mídia e de setores da sociedade que estariam usando todas as suas forças para destruir o PT. Convocou os jovens petistas a levantar a cabeça, mas “sem arrogância” – algo como faça o que eu digo, mas não o que eu faço – para impedir que eles (como sempre sem nominar quem é a tal entidade “eles”) destruam o governo e o partido.

Sem ter como explicar a roubalheira de gente que frequenta a sua intimidade, arguiu se o dinheiro do PSDB vinha da sacristia.

Certa altura, para tentar conter os que cobravam a ruptura com o PMDB de Eduardo Cunha e com o liberalismo do ministro da Fazenda Joaquim Levy, disparou um libelo em prol do partido único: “o ideal de um partido é que ele pudesse ganhar a Presidência da República, 27 governadores, 81 senadores e 513 deputados sem se aliar a ninguém”. Agregou uma adversativa que piora, em muito, os conceitos nefastos que ensinava para a juventude. “Mas, muitas vezes, temos que aceitar o resultado e construir a governabilidade.”

Sem tirar nem por esse é o verdadeiro projeto do PT, expresso sem qualquer constrangimento pelo líder maior da legenda. É essa a democracia em que o PT de Lula crê. Ter tudo. Dominar todos os espaços. E só abrir para uns e outros – “aceitar os resultados” - quando não tiver saída.

Na prática, como ficou provado no julgamento do Mensalão, o PT decidiu comprar em vez de construir a governabilidade. E multiplicar seus esquemas de financiamento – a Operação Lava-Jato não deixa qualquer dúvida – para se perpetuar no poder. Imaginava assim, livrar-se do trabalho do “muitas vezes”.

Não há novidade nisso. Desde que se viram flagrados na roubalheira, petistas tentam inverter a lógica, não raro a história.

Assim como no painel que a juventude já não tão jovem do PT expôs, criminosos condenados são heróis do povo brasileiro, larápios de dinheiro público são apenas malfeitores que existem em todos os cantos, em todos os partidos.

E as dezenas de denúncias e condenações que pesam sobre o PT não passam de uma gigantesca armação de gente da elite, talvez da CIA. Os “eles” mancomunados, que passam os dias e as noites armando contra o PT para excluí-lo.

Ironia deixada de lado, é gravíssima a inversão moral da pregação de Lula e sua turma.

É angustiante ver jovens defendendo ou mesmo achando natural lançar loas a José Dirceu, condenado pelo Mensalão e preso pela Lava-Jato, e a outros petistas de primeira grandeza também pegos embocados na botija. Que líderes com a capacidade de convencimento de Lula insistam em incutir neles valores tão obscenos.

Aliando-se ao presidente da Câmara para que ele não inicie o processo de impedimento da presidente Dilma Rousseff, na cumplicidade bandida de comparsas no Parlamento e na nata do empresariado, elite que muito lucrou e ainda lucra com o esquema petista, Lula e seu partido exacerbam no modus operandi.

Acham que podem contar com a ignorância da maioria, a cegueira de uns e o fundamentalismo de outros. E prosseguem atentando contra o país.

Em 48 horas, tudo mudou

Os ventos mudaram. Mais do que tempestades, prenunciam-se ciclones. No caso, abalando as colunas do palácio do Planalto e da Câmara dos Deputados. De repente, tornou-se outra vez uma possibilidade o impeachment da presidente Dilma. Raios e trovões adensam-se novamente sobre a Praça dos Três Poderes, depois de conhecido o teor da delação premiada feita ao Ministério Público por um ex-funcionário da Petrobrás, auxiliar de Nestor Cerveró, ex-diretor de assuntos internacionais da empresa, condenado e preso meses atrás como envolvido na escandalosa compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos. O prejuízo foi de 800 milhões de dólares, e segundo a delação, Madame sabia de tudo, pois presidia o Conselho de Administração da Petrobrás durante a venda, que autorizou. A acusação acaba de ser lida no plenário do Tribunal de Contas da União e servirá para alimentar o pedido de afastamento de Dilma, a tramitar no Congresso.

Junte-se a essa explosiva situação a não menos pior sorte do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, a um passo de ser catapultado de suas funções por decisão do Supremo Tribunal Federal. Seu último ato poderia ser, como vingança, a aceitação do pedido de impeachment.

Em 48 horas, tudo mudou. Parece desfeito o acordo entre Dilma e Cunha para um salvar o mandato do outro, já que a natureza das coisas prevaleceu na dinâmica política. À lambança conduzida pelo presidente da Câmara para impedir a sessão do Conselho de Ética, quinta-feira, juntou-se, na sexta, a nova denúncia contra a presidente da República, no TCU.

A impressão é de que a chefe do governo acaba de perder o que lhe restava de sólida base parlamentar, assim como ao representante fluminense começa a faltar número suficiente de deputados para respaldá-lo.

Estivesse o país vivendo dias normais e dificilmente chegaríamos a esse ponto de ebulição, mas como evitá-lo em plena crise, com o desemprego se multiplicando, a inflação chegando aos dois dígitos, os impostos crescendo, os direitos trabalhistas sendo reduzidos e a corrupção campeando?

Registra-se à vista de todos a rejeição da sociedade às instituições encarregadas de conduzi-la. Ninguém acredita mais em partidos políticos, em governos e mesmo em associações civis. O ensino e a saúde viram-se criminosamente contingenciados no orçamento, os serviços públicos permanecem em queda livre, até a natureza nos castiga. Por que salvar Dilma e Cunha, mesmo diante da evidência de não serem os únicos responsáveis pelo caos?

O luto é só para alguns mortos

O jornalista Habib Battah, editor do sítio Beirut Report, fez um sentido desabafo em artigo para a rede Al Jazeera.

Na essência, reclama de que o luto não é o mesmo para todos os mortos pelo terrorismo.

Ou, dito de outra forma: ninguém, no Ocidente, colocou a bandeira do Líbano no seu Facebook depois dos atentados do dia 12 passado em um bairro do sul de Beirute em que morreram 44 pessoas.

É verdade que os mortos de Paris foram bem mais, o triplo, mas o direito à vida e a solidariedade com as vítimas não podem ser medidas por quilo.


Battah lembra, em seu artigo, que o presidente Barack Obama classificou as bombas de Paris como "um ataque a toda a humanidade", mas não dedicou uma vírgula ao caso de Beirute.

Mas "mais perturbador" do que a omissão, escreveu o jornalista, foi o fato de que grande número de reportagens nos meios ocidentais tratou de "rotular" as vítimas libanesas, em vez de simplesmente pranteá-las, ao contrário do que se fez com as vítimas de Paris.

Minuto de silêncio pelas vítimas dos atentados em Paris

De fato, o título do "The New York Times" para os atentados em Beirute foi: "Explosões mortais atingem praça forte do Hizbullah no sul de Beirute".

O lamento implícito no texto é o de que os mortos de Beirute não foram tratados como seres humanos, mas como militantes do Hizbullah, como tal desprovidos de humanidade, porque o grupo é radical e considerado terrorista.

O que torna a queixa de Battah ainda mais consistente é o fato de que os atentados de Beirute têm o mesmo responsável (o Estado Islâmico) e a mesma suposta explicação que os de Paris: o Hizbullah luta contra o Estado Islâmico na Síria, em defesa de seu aliado Bashar al-Assad, assim como a França bombardeia territórios do Estado Islâmico.

Eu acrescentaria que há outros atentados terroristas, quase cotidianos, cujas vítimas não são choradas fora de seu país: os judeus que estão sendo mortos por palestinos, quase sempre a facadas.

Mal saem notícias fora de Israel. E sempre haverá os que acham que matar judeus está justificado, ou por puro antissemitismo, ou porque Israel ocupa indevidamente territórios que a ONU destinou aos palestinos.

Do meu ponto de vista, desrespeito à vida é sempre injustificável, sob pena de se implantar a lei de talião e, de olho por olho em olho por olho, acabarmos todos cegos –e sem lágrimas pelos mortos dos outros.

 Clóvis Rossi

Fim de festa

O kirchnerismo argentino entrou no em seu ocaso. Seja qual for o resultado da eleição de domingo, a onipotência dessa vertente pessoal do peronismo chegou ao final. Só a derrota da eleição para governador da província de Buenos Aires, que representa 38% do eleitorado nacional e seu bastião histórico, é um sinal de uma nova era.

A condição de favorito que o governador de Buenos Aires, Daniel Scioli, tinha até recentemente, mudou de sinal. Com a mesma firmeza com que as pesquisas davam sua vitória como certa, agora preveem a de Mauricio Macri, que parece abençoado pelos deuses quando até o Boca Juniors, a equipe que presidiu por 12 anos, voltou a vencer o campeonato de futebol argentino.


Paradoxalmente, Scioli, com a primeira maioria (36,8%) parece derrotado, enquanto Macri (com 34,3%) e Sergio Massa (21,3%) parecem vitoriosos. Acontece que esses números expressam uma rejeição clara ao continuísmo. É possível sentir um cansaço das 46 intermináveis redes nacionais que a presidenta ocupou este ano com sua retórica tensa e barroca; da forma autoritária de lidar seu partido como um absolutismo monárquico; sua agressividade constante contra a imprensa e uma situação econômica que já não tem a possibilidade esbanjar o que o comércio exterior fornecia até recentemente, com os melhores preços da história em produtos agrícolas. No segundo turno que se aproxima, Macri é a esperança de uma mudança; Scioli é uma dupla resignação: da presidenta, que o aceitou como candidato sem querer e do eleitorado kirchnerista que não o considera um dos seus.

A outra eleição que se aproxima, a de 6 de dezembro na Venezuela, também marca outro formidável fracasso dos regimes populistas. A Venezuela vive hoje a maior crise de sua história. Seu PIB caiu da 4ª para a 7ª posição na América Latina, com o anúncio de outro declínio acentuado este ano. A inflação, muito difícil de estimar, é a maior do mundo, e se o Governo fala em 85%, economistas independentes estimam em 200%, com uma perspectiva hiperinflacionária. O desabastecimento é generalizado e o autoritarismo já é exibido sem pudor, a tal ponto que o Governo nem sequer reconhece que a Corte Interamericana de Direitos Humanos sentenciou o Governo a devolver aos proprietários a Radio Caracas Televisión. No meio desse panorama, o promotor no julgamento ao líder da oposição Leopoldo López, condenado a 13 anos de prisão, foi para os EUA, escapando da “imensa pressão” que era vítima para validar as “provas falsas” que o Governo exibia.

Macri é a esperança de uma mudança; o eleitorado kirchnerista não considera Scioli um dos seus

Frente a essas circunstâncias, o presidente Maduro mostra grosseiramente sua intenção e anuncia que, no caso de uma derrota parlamentar, “não vai entregar a Revolução” e “que vai governar com o povo”, em uma “união cívico-militar” (a mesma expressão que, naquele momento, usou a ditadura uruguaia). Mais que uma ameaça é uma expressão de que haverá fraudes, a qualquer custo.

No Brasil, por sua vez, a situação continua piorando. A economia está indo para outro ano recessivo e os escândalos de corrupção ligados à Petrobras são inigualáveis. Os números são tão grandes quanto o território brasileiro e estão presos os principais empresários da construção e as principais figuras do Governo de Lula. A presidenta Dilma Rousseff administra o país sem o menor consenso nacional, em meio a um clima de descrédito moral que envolve seu partido e o governo.

É muito significativo que isso ocorra simultaneamente em três países muito importantes que até recentemente eram vistos como bem-sucedidos, conduzidos por líderes populares acima do bem e do mal. A estrela de Lula é eclipsada pelos escândalos de seu Governo, a de Maduro desce para uma exposição grosseira de arbitrariedade e Cristina Kirchner sofreu o colapso de seu projeto de continuidade hegemônica. Como o Brasil vai terminar não está claro, mas – como disse Fernando Henrique Cardoso – se a presidenta não agir com grandeza, seu regime vai se desgastar até chegar à paralisia. No caso da Venezuela, a pergunta é até onde e quando continuarão resistindo os civis e militares aos que impõe sobre eles os pesados deveres da arbitrariedade. Somente na Argentina parece se abrir o panorama esperançoso iluminado pelo triunfo de Macri.

O que está claro é que a festa populista está em seu ocaso. Na América do Sul, o sol não sai só para o Pacífico.

Julio Maria Sanguinetti, ex-presidente do Uruguai.

Somente a próxima geração verá o rio Doce reviver

Um desastre ambiental anunciado destruiu o Rio Doce nos 853 quilômetros entre o município do Rio Doce em Minas Gerais até o município de Linhares no Espírito Santo. O rompimento da barragem de rejeitos de Fundão e Santarém, um desastre anunciado que poderia ser evitado causou efeitos irreversíveis no ecossistema de toda extensão do Rio Doce. Não tem preço que possa ser mensurado quanto aos prejuízos ao meio ambiente totalmente devastado. As margens do rio, o leito e as águas foram tomados pela lama, subproduto da mineração, além da falta de oxigênio, metais pesados compõe o cenário de devastação.

Governador Valadares se encontra em estado de calamidade, o fornecimento de água foi interrompido. Cada família recebe 20 litros de água por dia, a higiene pessoal de cada cidadão mineiro ficou em segundo plano. Sem a água para as necessidades vitais, os animais tendem a desaparecer e o homem pode ter que migrar para outras cidades fora do circuito das águas doces. Os peixes morreram todos, pela falta de oxigênio. A pesca era um nicho de sobrevivência, que foi interrompido indelevelmente.


A morte do Rio Doce, o espetáculo de lama que soterrou casas e tudo que encontrou pelo caminho no primeiro município afetado pelo descaso da mineradora Samarco/Vale e se prolonga até o oceano é uma catástrofe de proporções inimagináveis. Além dos municípios de Minas Gerais e do Espírito Santo, o oceano também terá seu desastre associado à tragédia. A decantação da lama no fundo do oceano, similar a uma massa de cimento se diluindo, causará impacto na fauna marinha, as algas morrerão pela falta da fotossíntese e os plânctons, alimentos dos peixes, inexistirão em meio a lama, provocando a mortandade. A areia das praias no entorno de Linhares tomarão a cor da lama por um longo período. Por todos os ângulos que se analise a gigantesca tragédia, que poderia ser evitada, os efeitos são devastadores sob todos os aspectos humanos, econômicos e ambientais.

Não havia um plano de contingência, um plano B, para mitigar os estragos do rompimento da barragem da morte, técnicos da mineradora e os fiscais e prefeitos dos municípios atingidos nada fizeram em matéria de previsibilidade para evitar o pior. E, ainda mais, nenhuma medida destinada a impedir que a lama avançasse, como diques provisórios, em algum ponto dos 853 km do Rio Doce. Todos ficaram inertes à espera da correnteza de lama em direção ao oceano. Simplesmente lamentável a inércia do poder público e da iniciativa privada, essa instituição tão louvada por gregos e troianos. Somente um objetivo, os lucros acima de tudo. Todos são culpados, não há inocentes nessa incrível tragédia ambiental.

Somente a próxima geração poderá voltar a ver o verde florescer junto às margens e as águas do Rio Doce no esplendor da vida (oxigênio e peixes) compondo o quadro da natureza que o homem destruiu. Entretanto, há um novo perigo que ronda as cidades atingidas pela lama da Samarco/Vale, me refiro a mais duas barragens de Mariana, que estão com trincas prestes a cederem com o peso da lama acondicionada. O reforço nestas duas barragens levarão três meses para estarem prontas, até lá teremos que contar com a sorte, que não foi nossa amiga no rompimento do dique atual. Será que ficaremos inertes, à espera de um novo desastre? A quem culpar se houver nova catástrofe? Será que simplesmente multar a mineradora é suficiente para minorar os danos? Quem será responsabilizado pela morte contabilizada até agora de 12 moradores de Mariana. Perguntas sem respostas dos responsáveis pela mineradora até agora. Quem sabe mais tarde, não é mesmo?
Roberto Nascimento

Esqueça a sexta-feira 13

O massacre de Paris levou a Europa ao estado de guerra, e o mundo ao estado de alerta. Mas o Brasil só pode se indignar com um dos mais graves atentados terroristas da história da humanidade se lamentar primeiro a ruptura da barragem em Minas Gerais. Esse incrível dilema parece coisa do demônio, porque, como dizia Hélio Pellegrino, o demônio é burro. Só ele poderia, em meio ao sangue e à dor, sacar a calculadora.

O ser humano se choca e se revolta com o que quiser. O ser desumano decide o que deve chocar e revoltar os outros. Ele é imune ao sentimento. Perplexidade, medo e morte não atrapalham seus cálculos politicamente corretos. Sua bondade e seu altruísmo estão à venda na feira por 1,99. E acabam de produzir uma façanha: o país voltou a ter uma Lei de Imprensa igualzinha à da ditadura militar. Sancionada pelo governo da esquerda bondosa (1,99).
A presidente da República, que foi guerrilheira e declarou seu horror à censura, acaba de aprovar uma lei apunhalando a liberdade de expressão. Não deve ter ligado o nome à pessoa. A nova Lei do Direito de Resposta impõe aos veículos de comunicação prazos e ritos sumários para defender-se dos supostos ofendidos — uma mordaça, dado o risco de jornais e TVs terem que passar a veicular editoriais dos picaretas do petrolão, por exemplo. Este é, e sempre foi, o plano dos petistas amigos do povo em defesa da verdade: falar sozinhos.

É uma lei inconstitucional, e o Supremo Tribunal Federal terá que se manifestar sobre isso. Claro que a independência do Supremo vem sendo operada pelo governo popular segundo a mesmíssima tática progressista — onde progresso é você assinar embaixo do que eu disser. A democracia brasileira está, portanto, numa encruzilhada — e só Carolina não viu.

Carolina e os convertidos, que não são necessariamente comprados. Fora as entidades e cabeças de aluguel, existe a catequização sem recibo. Estudantes de escolas públicas e privadas do país inteiro enfrentam provas — vestibular inclusive — onde a resposta certa é aquela em que o governo do PT é virtuoso e os antecessores são perversos. O nome disso é lavagem cerebral, e os resultados estão aí: em qualquer cidade brasileira há estudantes sofrendo bullying ideológico da maioria catequizada. Essa é a verdadeira tropa de choque (ou exército chinês) dos companheiros que afundaram o Brasil sem perder a ternura.

Pense duas vezes, portanto, antes de se horrorizar com a carnificina da sexta-feira 13 em Paris. Sempre haverá alguém ao seu lado, ou na sua tela, para denunciar o seu elitismo. E para te perguntar por que você não se choca com a violência em Beirute. E para te ensinar que os próprios europeus são os culpados de tudo. Não adianta discutir — como já foi dito, o demônio é burro. Mas se você achar que isso é cerceamento da liberdade, não conte para ninguém: é mesmo. Trata-se da censura cultural, uma prima dissimulada da censura estatal (a da Lei de Imprensa).

A censura cultural se alimenta desses dilemas estúpidos — sempre buscando um jeito de colar no inimigo o selo de “conservador”, palavra mágica. No Brasil, quem é contra a indústria de boquinhas estatais do PT é conservador — e os que conservam as boquinhas são progressistas. Quem era contra o monopólio estatal da telefonia era conservador (neoliberal, elitista etc.). O monopólio foi quebrado, gerou um salto histórico de inclusão social, mas o sindicalismo petista que tentou conservar esse monopólio é que é progressista. Conservadores são os que acabaram com a conservação.

Jornalistas que criticam as malandragens fisiológicas da esquerda são conservadores — e para realçar o maniqueísmo, claro, vale inventar. O perfil de Carlos Alberto Sardenberg na Wikipédia, por exemplo, foi reescrito com algumas barbaridades por um computador progressista do Palácio do Planalto. O perfil do signatário deste artigo também foi enriquecido com algumas monstruosidades. Depois de retiradas, surgiu ali um editorial sobre “polêmicas” com o PT (que continua lá). Cita um vice-presidente do partido que acusou este signatário de maldizer os pobres e sua presença nos shoppings e aeroportos. Naturalmente, é o partido dele quem ameaça a presença dos pobres nos shoppings e nos aeroportos, com a pior crise econômica das últimas décadas — e com seu tesoureiro preso por desviar dinheiro do povo. Mas esses detalhes conservadores não estão no verbete.

Como se vê, a verdade tem dono. Se você não quer problema com a patrulha, leia a cartilha direito. E, se possível, diga que os 130 mortos pelo Estado Islâmico em Paris não são nada perto da matança nas periferias brasileiras (use à vontade a calculadora do demônio). Pronto, você está dentro. Aí, pode falar de tudo. Lula, por exemplo, disse a Roberto D’Ávila que passou cinco anos sem dar entrevista para não interferir no governo. Procede. Esse que você ouviu falando pelos cotovelos devia ser o palestrante da Odebrecht.

Guilherme Fiuza

Inconfidência de Itabira: tragédia mineira e meio ambiente no Brasil

Itabira é certamente a cidade mais mineira do Brasil e, provavelmente, uma das mais mineiras do mundo. A poucos quilômetros de distância, se encontram cidades coloniais em cuja arquitetura barroca se preserva o esplendor da mineração do ouro e do diamante dos séculos XVIII e XIX. A mineração, mais do que qualquer outro ofício, tem influenciado a história e a cultura do Estado de Minas Gerais, de forma que aqueles que nascem nesta região do Brasil são conhecidos como mineiros.


Em 1902, Itabira reforçou suas raízes mineiras ao ver o nascimento de um dos poetas mais famosos da língua portuguesa. A obra de Carlos Drummond de Andrade está impregnada de uma mineiridadeque o autor atribui à sua infância em Itabira. No poema Confidência do Itabirano, Drummond revela ter levado uma pedra de ferro como recordação de sua cidade natal quando se mudou para Belo Horizonte, e depois para o Rio de Janeiro.

Em 1942, Itabira inaugurou a segunda onda extrativa brasileira, liderada pela empresa Vale do Rio Doce. Em poucas décadas, essa se tornaria a maior exportadora de minério de ferro do mundo, transportando pedaços das montanhas de Minas Gerais através do vale do Rio Doce até o porto de Tubarão. A transformação da paisagem de Itabira foi descrita por Drummond, quando soube que a casa de seus pais havia sido inundada por uma represa da Vale do Rio Doce:

O maior trem do mundo
Puxado por cinco locomotivas a óleo diesel
Engatadas geminadas desembestadas
Leva meu tempo, minha infância, minha vida
Triturada em 163 vagões de minério e destruição
O maior trem do mundo
Transporta a coisa mínima do mundo
Meu coração itabirano


Ao longo do tempo, a Vale do Rio Doce se expandiu para outros 12 Estados do Brasil, novos continentes e bolsas de valores de cinco países. Em 2007, dispensou o sobrenome "Rio Doce", passando a se chamar Vale S.A., e desde então se consolidou como uma das maiores multinacionais do planeta.

Em 5 de novembro de 2015, o rio que conviveu com os primeiros trens da Vale foi vítima de uma ineficiência à qual Drummond dedicaria toda uma antologia poética se estivesse vivo. Duas reservas de uma mina de ferro da Samarco S.A., um consórcio entre a Vale e a BHP Billiton, se romperam e deixaram um rastro de destruição sem precedentes. Dezenas de pessoas morreram e o distrito de Bento Rodrigues foi soterrado por toneladas de lama e resíduos minerais. A lama alcançou o Rio Doce, um dos principais corredores hídricos e fonte de captação de água potável do Sudeste brasileiro.

Há vários dias a sociedade brasileira vem refletindo sobre os riscos aceitáveis de mineração em grande escala. O prefeito de Mariana, cidade onde ficam os reservatórios que romperam, argumentou que a desativação da Samarco causaria a falência de várias cidades do interior de Minas Gerais. Em meio a declarações de Dilma Rousseff, atribuindo responsabilidade exclusiva à Samarco, foram aplicadas multas ambientais irrisórias e foi fechado um acordo preliminar indenizatório entre a Samarco e o Ministério Público.

O ocorrido em 5 de novembro evidencia uma cadeia de imperícias e imprudências tanto da empresa como das autoridades públicas. Ao contrário do que foi dito pela presidente Dilma Rousseff, o Estado tem responsabilidades claras neste e nos cinco rompimentos de barragens de mineração nos últimos 14 anos no Brasil. A Samarco operava sem plano de evacuação e, no âmbito federal, o Departamento Nacional de Produção Mineral fiscalizou, em 2014, apenas 141 das 602 represas de mineração do país.

O ponto crucial do risco ambiental no Brasil parece estar em um relacionamento obscuro entre os interesses públicos da população e privados das grandes empresas dos setores de mineração, energia e construção civil. Essa realidade foi parcialmente desmascarada com o escândalo dos contratos da Petrobras e outras empresas públicas, mas nada indica que a cooptação corporativa vá mudar. De fato, vários deputados das comissões parlamentares federais e do Estado de Minas Gerais, criadas para investigar as causas do acidente da Samarco, receberam financiamento da Vale para suas campanhas eleitorais.

Sindicatos de mineiros também fizeram doações para campanhas de 17 dos 37 membros da Comissão da Câmara dos Deputados que avalia o texto do novo Código de Mineração. Por fim, a Vale e outras grandes empresas de mineração e construção civil fizeram doações milionárias para as campanhas do atual governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, e de Dilma Rousseff, madrinha política da usina hidrelétrica de Belo Monte e de outras obras faraônicas, cujas viabilidades econômica, ambiental e social têm sido amplamente questionadas.

Enquanto a política ambiental passar pelo filtro da corrupção e da contabilidade eleitoral no Brasil, os recursos naturais, tais como o Rio Doce, serão prescindíveis, não só como nome civil de uma grande mineradora, mas como fonte de vida e água potável para centenas de milhares de pessoas.

Daniel Cerqueira

'Impacto de lama no mar seria como dizimar Pantanal'

Lama do desastre em Mariana chega à foz do rio Doce
A chegada da onda de lama, resultado do rompimento de uma barragem em Mariana (MG) há duas semanas, ao Oceano Atlântico ─ prevista para ocorrer neste domingo ─ teria um impacto ambiental equivalente à contaminação de uma floresta tropical do tamanho do Pantanal brasileiro.

A afirmação é do biólogo André Ruschi, diretor da escola Estação Biologia Marinha Augusto Ruschi, em Aracruz, Santa Cruz, no Espírito Santo.

De acordo com Ruschi, os 62 bilhões de litros de rejeitos do beneficiamento do minério de ferro ─ o equivalente a 25 mil piscinas olímpicas ─ despejados ao longo de 500 km da bacia do rio Doce atingiriam cerca de 10 mil km² numa região conhecida como Giro de Vitória, importante celeiro de nutrientes para animais marinhos, como a tartaruga-de-couro (ameaçada de extinção), o golfinho pontoporia e as baleias jubartes.

'A lama que chega carregada pelas correntes vai se depositar inicialmente numa área menor, mas como o tempo ─ devido a chuvas, por exemplo ─ pode afetar áreas maiores, Estamos falando do eixo de funcionamento de todo o Atlântico Sul. Essa é a região de maior biodiversidade marinha do mundo. É um sistema especial, único, importante e fundamental'
 .Ele estima que a descarga tóxica contaminaria principalmente três Unidades de Conservação marinhas ─ Comboios, Costa das Algas e Santa Cruz, que juntas somam 200.000 hectares (2.000 km²) no oceano.
Ruschi lembra, contudo, que como o ecossistema marinho é mais vulnerável do que o terrestre, o impacto no mar seria proporcional à contaminação de uma área continental dez vezes maior ─ ou 20.000.000 hectares (200.000 km²) ─ de floresta tropical primária.

(AFP)

"Seria como dizimar, de uma só vez, todo o Pantanal", afirma Ruschi à BBC Brasil. O Pantanal se estende por 250.000 km² pelo Brasil, Bolívia e Paraguai.

"O ecossistema marinho é muito mais eficiente na biossíntese do que o terrestre. Cerca de dois terços de toda a biomassa do planeta é produzida em apenas 5% ou 6% dos oceanos. Trata-se da borda dos continentes ou de regiões com menos de 200 metros de profundidade, onde as algas podem receber luz e fazer fotossíntese", explica.

Ruschi acredita que, se nada for feito, o prejuízo ambiental do 'tsunami marrom' pode demorar 100 anos para ser revertido.