quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Lula, o eterno traído

Em 2005, o então presidente Lula afirmou ao país que não sabia do mensalão. "Eu me sinto traído por práticas inaceitáveis, das quais nunca tive conhecimento", disse, em pronunciamento oficial.

Nesta quarta, o agora ex-presidente Lula afirmou que também não sabia do petrolão. "Foi um susto para mim", disse, em entrevista a Roberto D'Ávila. "Muitas vezes, aquele cara que parece um santo na verdade é um bandido", acrescentou.

Acreditar que Lula não sabia de nada é um ato de fé. Os dois escândalos foram gestados em seu governo e tiveram seu partido como beneficiário. No mensalão, a Justiça mandou para a cadeia um tesoureiro e dois ex-presidentes do PT. No petrolão, já foram presos um tesoureiro e um ex-presidente do PT. Por enquanto.

Quando o assunto é corrupção, Lula não costuma se preocupar com a coerência do que diz. Depois de pedir desculpas pelo mensalão, ele passou a sustentar que o esquema nunca existiu. Daqui a alguns anos, é possível que comece a negar os desvios bilionários na Petrobras.

Na entrevista à Globo News, o ex-presidente também negou fatos relatados por políticos e empresários com quem conversa. Disse que não quer derrubar Joaquim Levy da Fazenda, que não quer emplacar Henrique Meirelles em seu lugar e que não tenta influir no governo Dilma.

Faltou acrescentar que seu nome não é Luiz Inácio, que ele não mora em São Bernardo do Campo e que não deseja voltar ao Planalto. A última parte ele até ameaçou dizer, mas foi traído pela própria língua.

Não basta um animador de torcida

Saltam aos olhos o descrédito, o desânimo e a desconfiança dos investidores. Perigosamente o país se aproxima do caos profundo, como alertou o ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga. Diante da deterioração do quadro econômico, Joaquim Levy vai caindo pelas tabelas, agoniza em estado catatônico.

Para fazer frente a momento tão grave, a presidente exige de seu ministro da Fazenda que saia por aí tocando o bumbo, como se fosse um animador de torcida. Isso não basta. É muito pouco para tirar o Brasil do atoleiro no qual o governo Dilma Rousseff nos submergiu.

É preciso muito mais. É preciso um novo rumo, uma nova agenda econômica, capaz de fazer o país a deixar para trás o rame-rame em que vive, onde a recessão e os juros altos provocam a queda da receita da União, o aumento do desemprego, da inflação e da dívida pública. E que, por sua vez, desembocam em mais recessão, mais queda da receita pública e assim sucessivamente.


Um dos grandes erros de Levy foi se deixar aprisionar por este círculo vicioso, além de não ter tido forças para resistir às incursões de Dilma e seus luas pretas desenvolvimentistas.

Diante do esgarçamento do ministro e do esgotamento de seu ajuste fiscal, o Brasil se depara diante de duas alternativas. A primeira é a de Lula emplacar uma solução tipo trocar seis por meia dúzia, com a nomeação de um nome mais palatável ao mundo dos negócios. Seria mais do mesmo, com a diferença de representar uma espécie de café requentado. Na cabeça do ex-presidente a crise atual seria enfrentada tal qual a de 2009, com políticas anticíclicas, tipo injeção no crédito, incentivo ao consumo, direcionamento estatal.

O caminho proposto por Lula não é possível mais, já deu o que tinha de dar. Ele tinha por base o boom das commodities e seu prolongamento até 2014 foi o grande responsável pela catástrofe dos dias atuais. De onde sairia o dinheiro para injetar no crédito, preconizado por Lula? Do Tesouro? Sem chances. Isso só precipitaria mais ainda o advento do caos anunciado.

Há alternativa ao abismo: a retomada da agenda das reformas econômicas.
O grande pecado do governo Lula foi não ter se aproveitado da conjuntura internacional favorável para levar adiante as reformas iniciadas no governo FHC. Perde-se, assim, uma oportunidade de ouro de avançar na modernização do Estado e na conquista do crescimento sustentado. Em vez disso, retrocessos e mais engessamento, como aconteceu na área do pré-sal.

Com a crise, a agenda das reformas volta à ordem do dia, de onde não deveria ter saído. Não há meio termo. Ou ela se materializa, ou o caos previsto por Armínio Fraga se concretizará.

O país não pode ter mais um orçamento que não cabe no PIB. A desvinculação orçamentária total, o desengessamento da lei do Salário Mínimo, a desindexação dos salários e benefícios da Previdência, a definição de idade mínima para a aposentadoria, passam a ser impositivos da realidade, como, positivamente, aponta a Fundação Ulysses Guimarães, do PMDB.

Não se trata de nomes, mas de projetos, de bloco de forças diferentes.

A reforma necessária contraria interesses corporativistas e patrimonialistas incrustados no Estado. Interesses que, aliados ao capitalismo parasitário, foram perpetuados nos governos lulopetistas. Continuam intocáveis em suas casamatas no governo Dilma e daí não serão desalojados, seja quem for o ministro da Fazenda.

Para explodir os bunkers do atraso se faz necessário a construção de um novo bloco capaz de levar adiante as reformas, pelas vias democráticas. Por esse caminho, haveremos de superar a desesperança. Quem disse que o caos é inevitável?

Hubert Alquéres

Limite das multas ambientais não é reajustado há 17 anos

A mineradora Samarco, responsável pela catástrofe de Mariana, em Minas Gerais, foi multada pelo Ibama em R$ 250 milhões. O montante é considerados irrisório por muitos especialistas. Um dos problemas é a desatualização do limites máximos para as multas ambientais. Previsto em lei desde 1998, os valores nunca foram corrigidos. O reajuste depende do Congresso Nacional.

06-dm-marianaDe acordo com a Lei de Crimes Ambientais (9.605, de 1998), que versa sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente, o valor da multa deveria ser fixado no regulamento da lei e corrigido periodicamente, com base nos índices estabelecidos na legislação pertinente, sendo o mínimo de R$ 50,00 e o máximo de R$ 50 milhões.

Dessa forma, apesar da legislação prever a atualização dos valores, isso nunca aconteceu. No caso da Samarco, para se chegar ao valor total de multa, foram impostos cinco autos de infração no valor máximo de R$ 50 milhões.

A empresa terá até 20 dias para pagar os R$ 250 milhões. Caso o Ibama receba o valor dentro do prazo definido, o decreto 6.514, de 2008, prevê desconto de 30% para a Samarco. Com o valor baixo mais o desconto, as empresas podem correr o risco de tragédias ambientais porque sabem que o ônus não é relevante financeiramente.

Fonte ouvida pelo Contas Abertas aponta que quando o setor econômico entende que é mais barato pagar a multa, acabou o processo punitivo. Porém, para além do ajuste do limite máximo, também é preciso pensar na redefinição do processo sancionador ambiental brasileiro, para que sejam efetivamente imputadas consequências a uma companhia a ponto de fazer com que mude a prática infracional. A ideia básica é que crime ambiental não pode valer o risco.

Para o Presidente da Comissão de Direito Ambiental da OAB de Minas Gerais, esse valor é mínimo. “Isso é muito ínfimo, tendo em vista a grandiosidade de um dano de caráter irreversível. Além do mais, estamos falando de valores absurdos que devem abranger a recuperação de todo um ecossistema. Praticamente de um rio que nasce em Minas Gerais, levando as suas águas até o mar. É um absurdo”.

As autuações à Samarco foram definidas após vistoria realizada no local pela presidente do Ibama, Marilene Ramos. “Nada vai reparar o drama humano causado por esta tragédia, mas a mineradora precisa ser penalizada pelo que provocou. O Ibama também vai entrar com uma Ação Civil Pública para garantir recursos para indenizar as famílias e reparar os danos materiais e ambientais, uma obrigação da empresa”, afirmou a presidente.

A Samarco foi autuada por causar poluição hídrica resultando em risco à saúde humana; tornar áreas urbanas impróprias para ocupação; causar interrupção do abastecimento público de água; lançar resíduos em desacordo com as exigências legais; e provocar a mortandade de animais e a perda da biodiversidade ao longo do Rio Doce.

“Foram considerados os danos ambientais resultantes do desastre, em especial os que afetaram bens da União, como rios federais. Como a mancha continua se deslocando pelo Rio Doce em direção ao oceano, outros autos poderão ser lavrados”, disse o diretor de Proteção Ambiental do Ibama, Luciano Evaristo. “Autos de infração relacionados ao licenciamento das atividades de mineração cabem aos órgãos estaduais de Meio Ambiente
”.
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O assassinato das mineradoras

Reuters

A ganância do homem nunca teve limite. Em busca do lucro vale tudo: matar, mentir, manipular, e sabe-se lá o que mais. Sempre foi assim na história da humanidade e hoje não é diferente. O caso do rompimento das duas barragens da mineradora Samarco em Minas Gerais é um exemplo perfeito. Primeiro vamos voltar ao fim do século XVII, época em que descobriram ouro na região onde está a Samarco. O cobiçado metal era tão farto que era fácil achá-lo com uma peneira no leito do Rio Doce, o mesmo rio onde ocorreu o desastre. A empresa conseguiu fazer em poucos dias o que a exploração de ouro não fez em séculos – destruir o rio, envenenado pelos dejetos das barragens, como o mercúrio e outras substâncias tóxicas.

Em seguida foram criadas várias vilas, dentre elas surgiram as famosas cidades históricas Ouro Preto e Mariana, locais onde estavam as barragens. A cobiça pelo ouro gerou uma disputa feroz pelo controle das minas entre os descobridores Bandeirantes paulistas e os portugueses. Os paulistas se renderam e entregaram as armas, mas mesmo assim foram cruelmente assassinados.

Em pouco tempo Portugal enriqueceu mais do que nunca, mas para se proteger dos inimigos teve que fazer aliança com a poderosa Inglaterra. Enquanto Portugal gastava como se não houvesse amanhã, a Inglaterra realizava a Revolução Industrial financiada com o nosso ouro. Nesse período aconteceu a Inconfidência Mineira, o primeiro grande movimento pela independência, que lutava contra os pesados impostos (o quinto do ouro), que acabou com o esquartejamento do nosso herói maior – Tiradentes.

Séculos depois, a tragédia social e econômica continua. Uma das sócias da Samarco é uma empresa inglesa BHP Billiton (Anglo-Australiana), a outra metade pertence à Vale. Até o dia 13 foram confirmadas sete mortes e 18 pessoas estão desaparecidas, dentre elas, crianças. O distrito Bento Rodrigues foi engolido pela lama. Até uma Igreja do século XVIII foi destruída.

Além das tristes mortes, o desastre ambiental do Rio Doce é incalculável, atingiu dezenas de cidades de Minas Gerais e do Estado do Espírito Santo. Peixes mortos, invasão do leito pela lama, contaminação da água...cidades inteiras estão sem água potável e sem renda, porque muitas viviam do rio.

E o Estado sumiu... Não foi capaz de fazer o seu papel de fiscalizar e proteger a população. Há muita corrupção nos órgãos de fiscalização no Brasil ou falta de condições de trabalho. E muitas vezes quando um servidor público quer fiscalizar uma empresa grande e poderosa, encontra resistência e sofre perseguição.

Logo após a tragédia um Secretário de Estado de Minas Gerais, Altamir Rôso, disse que a Samarco foi vítima do acidente. Veja que inversão de valores, que acinte! Ainda o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, deu uma coletiva à imprensa na própria sede da Samarco. A presidente da República, Dilma Rousseff, lamentou a tragédia apenas pelo Twitter e só foi visitar o local uma semana depois. O Ibama, órgão federal responsável pelo meio ambiente, anunciou que as multas podem chegar a centenas de milhões, mas sabemos que elas raramente são pagas, devido a manobras e instâncias para recorrer.

A situação é a mesma que acontece em grandes tragédias no Brasil, no começo um estardalhaço, depois o esquecimento e a falta de punição.

Não se viu qualquer reação dura e indignada de políticos, sejam de direita, esquerda, governo ou oposição. A maioria recebeu contribuições das mineradoras para as suas campanhas eleitorais. As empresas economizam na manutenção, mas gastam fortunas com o perverso lobby político.

Em Minas Gerais mais de 80% da economia gira em torno da mineração, que paga poucos impostos em relação ao lucro obtido com a atividade e aos danos ambientais. A MBR acabou com a Serra do Curral, em Belo Horizonte; a CBMM que explora o nióbio é acusada de esconder a verdade sobre os danos causados em Araxá; e tantas outras vêm destruindo a nossa Minas Gerais. Agora ficou escancarado o fracasso do Estado e a farsa das mineradoras.

Em uma entrevista à imprensa os dirigentes da Samarco, Ricardo Vescovi; da Vale, Murilo Ferreira; e da BHP, Andrew Mackenzie, pareciam que eram anjos da guarda de moradores da região e nobres defensores do meio ambiente, mas não responderam muitas perguntas e não deixaram claro até onde assumirão as indenizações. O presidente da Vale teve coragem de dizer que é apenas um acionista. Os três deveriam implorar perdão e pedir demissão, como acontece em qualquer país sério. Basta lembrar do recente escândalo na adulteração dos carros da Volkswagen. O presidente não durou muitos dias. Aqui não, eles se comportam como se não tivessem nada a ver com o problema.

Não existe competência no Estado brasileiro, que mais uma vez falhou. A empresa jamais poderia deixar este desastre ter acontecido, ela assinou um atestado de incompetência, de descaso e irresponsabilidade. Queremos que as empresas admitam o erro e paguem caro para tentar compensar o estrago humano, ambiental e material.

Os valores no Brasil estão completamente invertidos, não podemos achar normal o que está acontecendo. Não podemos aceitar isso passivamente. O brasileiro vem reagindo diante de tantos desmandos dos governos, mas também deve lutar contra empresas que não cumprem o seu dever com a sociedade.

Passado e futuro se encontram novamente pela mineração, com as mesmas práticas de corrupção, manipulação, mentira, injustiça e mortes. Enquanto as mineradoras pagam uma mixaria de impostos, frente aos astronômicos lucros e danos ambientais, o governo impõe novos impostos à população. Quem sabe a partir de agora diante desse infame acidente bem no coração da Inconfidência Mineira os brasileiros promovam mais um movimento para mudar o país para melhor.
Francisco Câmpera 

É a maior tragédia ambiental do Brasil. Mas tem solução'


O renomado fotógrafo Sebastião Salgado já clicou mundo afora uma infinidade de tragédias, mas foi na sua terra natal que presenciou um dos espetáculos mais terríveis da sua vida: a morte do Rio Doce, o rio da sua infância. Natural de Aimorés, cidade do leste de Minas, afetada pelo rompimento das barragens da Samarco, ele tenta agora mobilizar as autoridades para criar um fundo de investimento para a recuperação da bacia. A proposta já foi entregue à presidenta Dilma Rousseff que afirmou que lutará por essa bandeira. Desde o fim dos anos 90, o fotógrafo mantém na região o Instituto Terra, uma ONG Ambiental, que toca projetos de recuperação do Rio Doce e tem, inclusive, parceria com a mineradora Vale, uma das proprietárias da Samarco. Inicialmente a ideia de Salgado é conseguir o dinheiro necessário para colocar em prática a proposta de recuperar as 377.000 nascentes da bacia. Um projeto de longo prazo, que deve gerar frutos apenas daqui a duas ou três décadas. "Hoje é muito mais importante eu lutar por esse fundo que fazer fotos".
Leia a entrevista de Sebastião Salgado

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Paris e Mariana

Paris tem 2,2 milhões de habitantes. Mariana 58 mil. Ambas são lindas e estão enlutadas. O gosto amargo da dor vem da violência que sofreram. São de naturezas distintas, mas nenhuma das atrocidades é natural.

Em Paris morreram, até aqui, 130 pessoas, alvejadas no espaço de meia hora. Não há causa, ideologia, visão de mundo que justifique a chacina covarde de tantos inocentes. As guerras do século passado tinham alvos militares e palcos de combate. Agora, o terror ataca onde quer e a quem quer, para impactar. Jovens que namoravam, dançavam, bebiam, cantavam, faziam planos ou apenas riam tiveram suas vidas ceifadas abruptamente.

As potências ocidentais, em suas políticas para outras áreas do mundo, costumam nutrir seus adversários, chocar o ovo da serpente. Por interesses geopolíticos e econômicos, os EUA já apoiaram Bin Laden e Sadam. Por interesses econômicos e geopolíticos, países ocidentais, como a França, armaram grupos que queriam derrubar Assad, na Síria. Parte deles agora constitui o Estado Islâmico, empenhado na construção do seu ‘califado’ de barbáries.

Em Mariana foram destruídas casas, rios e vidas – humanas e animais. As sequelas durarão um século! A mineradora Samarco/Vale, como quase todas do ramo, quer lucros, ao custo de intervenções que agridem a paisagem. Os pobres que encontrem lugar para morar, mesmo que seja a dois quilômetros das barragens. Sem acompanhamento técnico, elas podem romper. E romperam! A onda de lama tóxica matou gente e se alonga de Minas Gerais ao Espírito Santo. Minas de desgraças gerais, Espírito Santo onde a destruição produz um novo estado de espírito: apreensão. Poucas vozes, porém, têm coragem de dizer: “essa sanha de lucros não vale, Vale!”

O papa Francisco repete que estamos vivendo a 3ª Guerra Mundial em etapas. Guerra entre culturas, países, interesses. Guerra de destruição do planeta, em que estão em campos opostos o sistema de produção e consumo predatório, insustentável, e os que acreditam em um outro mundo possível, onde o realmente necessário será o suficiente.

Nada de fazer ranking macabro do que mais mata: cada assassinato de um ser humano ou de um ecossistema é tragédia. A Humanidade está perdendo a batalha para o ódio, a ânsia de vingança, o afã do ganho a qualquer preço. Em Paris, jovens encapuzados e fanatizados deixaram um rastro de sangue, eliminando mais de uma centena, quase todos jovens. Em Mariana, a tenebrosa máscara de lama destruiu vidas, povoados e mananciais. O rastro marrom segue seu curso devastador.

É urgente dizer NÃO!

Chico Alencar

O mundo mudou. E agora?

Quem estuda a história militar conhece bem as batalhas que mudaram a geopolítica, expandindo fronteiras, derrubando governantes e matando milhares.

Waterloo e a batalha da Rússia, na era de Napoleão Bonaparte, são dois exemplos. A segunda foi tão importante para os russos, que a venceram, que Tchaikovsky compôs a belíssima "Ouverture 1812".

A batalha de Verdun, um dos momentos mais heróicos da história da França, transformou-se num marco inesquecível da primeira guerra mundial e trouxe o reconhecimento internacional ao Marechal Petáin, que caiu em desgraça quando decidiu assinar o armistício que consolidou a ocupação da França pela Alemanha nazista.

Na segunda grande guerra, as batalhas históricas foram numerosas, como as de Iwo Jima, Guadalcanal e o Dia D, quando se iniciou a derrocada dos alemães.

A sociedade do conhecimento trouxe inúmeros benefícios à humanidade, como a utilização da ciência no tratamento de doenças até recentemente incuráveis, a realização de grandes obras de engenharia e o aumento da produção de alimentos.

A globalização acelerou-se acentuadamente nas últimas décadas do século XX, provocando mudanças sensíveis no conceito de nação e na ordem econômica, concretizada nos tratados de livre comércio.

As instâncias de decisão foram deslocadas dos estados-nação para organizações internacionais, como o Conselho de Segurança da ONU e a Organização Internacional do Comércio.

A moeda única retirou os símbolos nacionais mais fortes na identidade dos países.

A internet e a televisão tornaram mais curtas as distâncias.

Alguns conceitos, muitos deles seculares, mudaram fortemente. As guerras passaram a ser pontuais, regionais e apoiadas nas ações terroristas. Podem ocorrer em terra firme, no mar ou no ar.

No mar, elas são vistas diariamente naqueles milhares de refugiados que cruzam o Mediterrâneo, preferindo morrer à enfrentar a tortura. No ar, quando um avião com turistas russos é detonado em vôo. Acontecem nos subterrâneos, repletas de ações clandestinas e perversas.

Hoje, atos terroristas. como os que ocorreram na última semana em Paris, ou em Beirute, têm grande repercussão por todo o planeta. A globalização nos aproxima perigosamente das zonas de conflito, levando à todos os países um estado de tensão incomum. A reação não é apenas daquele país atingido e sim de toda a comunidade internacional.

Dessa forma, a guerra é realimentada numa espiral cada vez mais mortal, onde, quando menos se espera, centenas de inocentes são assassinados. Na verdade, esta espiral começou há muitos anos e é um resultado de políticas imprudentes das grandes potências.

Mas o mundo globalizado não aceita mais as guerras, sejam elas as “antigas”, convencionais, ou as “novas guerras”. Esta últimas não acontecerão mais nos campos de batalha, não identificarão seus heróis e não serão celebradas pelos grandes compositores.

É urgente que as organizações internacionais, que foram criadas para dar fim aos conflitos, deixem de se comportar como observadoras, e parem de se limitar aos inócuos discursos de advertencia ou de tomar posições equivocadas, movidas até por interesses de um ou outro país. É preciso que assumam o protagonismo, sem titubear, e com a firmeza que a situação exige.

Também é inaceitável que continuemos a dar guarita ao terrorismo internacional ou a reconhecer nações que fizeram da xenofobia e da perseguição política ou religiosa suas formas de se manter.

Chegou o tempo de uma nova organização global das nações, capaz de responder com rapidez e eficácia aos desafios trazidos pela realidade do século XXI. Ou será que devemos renunciar de vez à nossa liberdade?

Paris, 13. Mariana, 4. Novembro, 2015

Brasilien Staudammbruch bei Mariana - Einwohnerin von Paracatu

O rio? É doce
A Vale? Amarga
 (Drummond/Lira Itabirana/1984)



Mariana, distrito de Bento Rodrigues, Minas Gerais, Brasil. Barragens de Fundão e Santarém estouram, rompem paredes de contenção. Tsunami de 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos, carregados de metais pesados, rolaram terra adentro.

Incontida, a lama devasta, soterra e mata – gente, bicho, plantas, água, história. Seca, pavimenta 500 km de solo brasileiro. São 11 mortos/gente contados até agora. Quantos mais estarão sob o barro seco?

Ai, antes fosse
mais leve a carga

O governo lamenta. O dono da lama – a Vale do poema de Drummond - tem no nome o rio que faz agonizar: Rio Doce. Ainda não providenciou contenção da lama. Promete fazê-lo. E também socorrer, indenizar, pagar multa. Um bilhão paga o estrago?

Entre estatais
E multinacionais,
Quantos ais?

31 de outubro, no Sinai, avião explodido. 220 mortos. 12 novembro, Beirute, 41 mortos, 230 feridos. 14 novembro, Paris, 129 mortos, 352 feridos. Todos civis. A maioria jovens.

O assassino batizou-se de EL. Diz-se califado. Em nome de fé bruta, degola e queima prisioneiros, estupra e escraviza mulheres, faz de seus fieis bombas humanas, ameaça, aterroriza o mundo inteiro.

Barbariza na guerra da Síria que, desde 2011, já fez 250 mil mortos - 72 mil civis, 12 mil crianças -, quatro milhões de refugiados.

Quantas lágrimas disfarçamos
Sem berro?

Neste 2015, de 162 países do mundo, só 11 não estão envolvidos em conflitos armados, contabiliza a ONG IEP (Institute for Economics and Peace’s). O Brasil é um desses. Aqui, matamos muitos – tantos quantos nas guerras -, mas aos poucos.

Em São Paulo, até este novembro, 15 chacinas fizeram 62 mortos. No ano passado houve outras 15, de 64 mortes. Ano a ano, elas acontecem às pencas, sempre nas periferias pobres. Não só em São Paulo.

Como nos assassinatos do EL, os mortos são civis, inocentes e majoritariamente jovens.

A violência urbana brasileira dribla estatísticas com eufemismos. “Mortes de autoria desconhecida” ou “em confronto com a polícia”, significam a mesma coisa: execuções praticadas pela polícia. Essas que vemos na TV, gravadas em vídeos de perplexos anônimos.

Neste 2015, a autoria desconhecida já abateu 120, só em SP, onde os matados em confrontos com policiais, até novembro, já somam 57. Em 2014, foram 853.

Por todo o Brasil, também matamos muitas dezenas de policiais. Temos milícias e justiceiros, compostas de assassinos com e sem fardas. A matança nacional bate guerras celebres, como as do Vietnam e a do Iraque.

Mas não estamos em guerra, como a França declarou-se hoje. Nem padecemos de terrorismo e terroristas oficiais. Apenas praticamos, com empenho, descaso e impunidade. (Inclusive com espancadores de mulheres. Deles, na maior cara de pau, diz-se: “são apenas homens imperfeitos”).

Quantas lágrimas disfarçamos
Sem berro?

Hoje, nossas lágrimas não caem apenas pelos assassinados de Paris. Temos dores e lágrimas pelo descaso com os mortos e com a tragédia de Mariana.

Ainda que disfarçadas, choramos lágrimas de medo – de muito medo das desumanidades, que chegam cada vez mais perto. De todos. No mundo inteiro.

Tânia Fusco

A cassadora


O povo não conseguiu cassar Dilma, mas Dilma cassou o povo
O Antagonista sobre manifestação a favor do impeachment em Brasília

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Sangue em Paris

A maior descoberta dos assassinos do Estado Islâmico foi a mídia. Foram as redes sociais. A Al Qaeda dependia da decisão do líder Osama. Hoje não há mais um chefe total, mas milhares de jihadistas em rede. Osama era analógico, o EI é digital. Outra grande descoberta dos ratos de Alá foi o “indivíduo ocidental”. Não há mais um atentado puramente político ou religioso, mas a busca do grande horror que só a morte individual desperta. “Já pensou se eu estivesse lá?”.

Como dizia o Stálin: “A morte de milhões é uma estatística; a morte de um só é uma tragédia”.


Eles descobriram o uso da tragédia ao vivo, o furo em nossa compaixão, quando começaram a degolar pessoas diante das câmeras. A descoberta também da mise-en-scène: vídeos em alta resolução, com os carrascos vestidos com um “terror fashion”, preto e amarelo, botas, capuzes, impecavelmente vestidos, chiquérrimos diante dos pobres diabos ajoelhados. Eles vêm marchando diante de uma bela praia, lindo sol no mar e vapt. Degolam.

E isso impressiona os jovens imbecis que enchem o mundo.

Mais de 2.000 ratos malucos foram lutar no EI; 500 já voltaram... Que farão eles? Parece que mataram o filho da p... inglês Jihad John, mas outros virão.

Eles também trazem a morte em lugares do prazer. Onde houver alegria traremos a morte – pensam –, como na discoteca de Bali (lembram?) ou sexta-feira 13 no Bataclan, de Paris. Escolheram Paris, o orgulho da civilização e da democracia. É lá que atacam.

Bataclan foi um ataque ao prazer, foi um ataque a tudo que amamos: a alegria, o sexo, a música, a liberdade, a beleza.

Outra coisa que nos fascina/apavora nesses ratos sujos é que eles querem atingir a plenitude do mal, por si mesmo. Eles querem superar o demônio, desmoralizar o demônio.

É preciso destruir a beleza dos monumentos, queimar prisioneiros vivos, cabeças cortadas, eles querem provocar nosso horror e cuspir na imagem de Bem que ainda professamos. Eles querem o mal absoluto. E o mal absoluto não pode ter motivo.

Há alguns anos eu vi um homem sendo decapitado. Chegou um vídeo completo na TV e vi. Um bando de demônios de preto gritando “Só Deus é grande!” agarra o pobre norte-americano e lhe corta o pescoço como o de um porco. Ele grita enquanto a cabeça lhe é arrancada, com o sangue que lhes suja as mãos, enquanto eles gargalham de felicidade, porque se sentem mais perto do céu: a cada cão infiel morto à faca, eles sobem de ranking para a salvação.

Na religião islâmica, a morte é um prêmio. Quando havia degola na Argélia, eles chegavam ao detalhe de decapitar os inimigos com uma faca rombuda, porque, quanto mais o cara gritava, mais se enobrecia o degolador perante Alá. O terrorista também quer ascensão social: um fugaz poder com bombas no corpo, sucesso “post mortem” e subida aos céus, para comer as mil virgens, as “huris”, dançando de odaliscas, enquanto as desgraçadas sem clitóris vestem burca. A guerra de nações está acabando. Agora é a guerra da teocracia contra a tecnologia. Foram atingidos: o ateísmo, o iluminismo, a arquitetura, a paz burguesa, o turismo, a sensação de invulnerabilidade, o consumo.

A partir daí, todo mundo virou cientista político. Surgiram multidões de analistas de bom senso, tentando fazer a tragédia absurda caber numa narrativa coerente. Mas o terror não cabe na razão.

De uma forma repugnante, a verdade do mundo apareceu. A América achava que chegaria a um futuro de paz e progresso.

Tudo que fazemos tem o alvo da finalidade, do progresso. Os islâmicos já estão no futuro. Seu futuro é hoje. Não há passado. Nunca estiveram tão presentes como agora.

O islã não quer progresso. Quer o imóvel, a verdade incontestável. O islã transcendeu o político há muito tempo. Suas multidões jazem na miséria, conformadas, perfazendo um ritual obsessivo cotidiano do Corão que os libertou da dúvida e da consciência de si.

Nós temos a ilusão da liberdade. Eles nem sabem que porra é essa. Graças a Alá – pois islã significa “submissão”. O “projeto” agora é procurar bombinhas em aviões, localizar bueiros com bombas e cartas venenosas. O islã está nos expondo ao ridículo.

Acabaram também com o conceito de “vitória”. Não há mais vitória contra inimigos invisíveis. O homem-bomba não existe – ele se volatiliza em segundos. Sua força está em “não existir”. A grande arma secreta do islã é o suicídio. Não o suicídio melancólico dos ocidentais, mas o suicídio triunfal, feliz, ativo, o suicídio como esperança.

A chegada de Deus foi a maior novidade do século XXI. Esperávamos um grande triunfo, o futuro no presente. Só que Deus veio armado, Deus enlouqueceu com seu exército de fanáticos se matando e querendo nos destruir em nome de uma superstição, um ser que não existe. Quem diria que o novo século, tecno-científico, sucumbiria a essas sinistras macumbas?

Eles trouxeram a peste para o Ocidente. Eles nos odeiam, eles têm inveja de nós, porque eles vivem no lixo do deserto, nós somos civilizados, e eles, uma barbárie da Idade Média. E vamos parar com o papo meio “esquerdofrênico” de que estamos pagando pelo mal que lhes fizemos no passado.

Nada disso. Não são mais “consequência” de nada, eles são a vanguarda de uma nova forma de morte, agora que tiveram a ideia de usar as máquinas do Ocidente, aviões e mísseis contra os infiéis. Pode? A morte não estará mais num leito burguês, com extrema-unção e a família chorando.

A morte agora será um cachorro pelas ruas, atacando de repente. Que fazer contra esses ratos que infestam o Oriente Médio? Como atacar essa nova forma de crueldade?

Mas como resolver questiúnculas políticas lidando com gente como o Putin, por exemplo? Deveria haver uma coalizão séria entre os países ocidentais para ataques maciços contra os canalhas... Em suma, o que deveria ter sido feito logo no início, quando ainda dava tempo para derrubar o Assad.
Mas, agora, talvez só reste aos países ameaçados a paranoia.

Eles ganharam todas até agora, porque, como disse o mulá Muhamed Omar, com desdém : “Nós amamos a morte. Vocês sempre gostaram de viver!”.

Os crimes socioambientais e a pedagogia da catástrofe

Desde a década de 70 está em gestação o esboço de um pacto em torno da defesa do planeta Terra, tido como um patrimônio comum da humanidade. Ao menos, esse é o discurso consensual corrente, embora não haja uma compreensão coesa do que seja realmente a “defesa da natureza”. Todavia, a marca pública dos debates ecológicos é a denúncia da degradação que o ser humano impôs à água, ao ar e à terra. O sentimento mais presente nos discursos ecológicos é o medo. Não sem razão.

Os exemplos são terríveis: as catástrofes das indústrias químicas, como em Seveso, o gás mortífero da fábrica Icmesa, na Itália, em 1976; o gás tóxico de Bhopal, na Índia, em 1984; a poluição do rio Reno pelo incêndio da fábrica da Sandoz na Basileia, na Suíça, em 1986; a doença de Minamata, no Japão, por intoxicação de mercúrio da fábrica Chisso, que lançava dejetos desde 1930 na baía de Minamata – o primeiro caso humano diagnosticado ocorreu em 1956, mas morreram cerca de 2.000 pessoas, e as sequeladas são incontáveis!

Não ficam atrás os casos das indústrias petrolíferas: marés pretas da Bretanha, do Alasca, do Rio de Janeiro (2000), na Espanha (2002), no golfo do México (2010) etc. O incêndio por vazamento de gasolina na Vila Socó, em Cubatão, em São Paulo (1984), que oficialmente resultou em 93 mortes, mas há estimativas de que foram mais de 500.

As catástrofes das fábricas e os artefatos nucleares são de grande vulto: a bomba atômica de Hiroshima e Nagasaki, em 1945, no Japão; Three Miles Island, em 1979, nos Estados Unidos; Chernobyl, em 1986, na Ucrânia, ex-URSS; o césio de Goiânia, em 1987; e Fukushima, em 2011, no Japão. Como se isso não bastasse, há o justo temor de catástrofes biológicas, via armas biológicas “bioengenheiradas”.

Mas eis que em 5 de novembro passado, por volta das 16h, o povoado de Bento Rodrigues, em Mariana, foi soterrado pela não inócua lama tóxica – rejeitos de mineração – após o rompimento das barragens do Fundão e Santarém, da mineradora Samarco, de propriedade da anglo-australiana BHP Billiton e da Vale, ex-Vale do Rio Doce...

O povoado de Barreto, em Barra Longa, também foi soterrado, sem mortes humanas, mas perdeu escolas, pontes, estradas e casas. Bento Rodrigues contava mais de 200 anos, mas agora acabou! Sete mortes foram confirmadas, 12 pessoas estão desaparecidas e os impactos socioambientais são incomensuráveis.

Rompimento de barragens de mineradoras em Minas Gerais não é novidade: em Nova Lima, cinco operários morreram (2001); Cataguases (2003); Rio Pomba (2007); e Itabirito (2014), na qual três operários morreram e cinco ficaram feridos. Porém, os governos de Minas e os brasileiros foram incapazes de beber na “pedagogia da catástrofe” – constatação do ecologista suíço René Longet, que diz que Seveso “mudou a visão da opinião pública a respeito da indústria química, passando a considerá-la potencialmente perigosa”.

A pedagogia dos crimes das mineradoras aqui não sensibiliza governos nem parlamentares, de todas as esferas. O caso Mariana é um dos maiores crimes socioambientais do mundo, o maior do Brasil; além de ter ceifado vidas humanas e a de outros animais, “cimentou” o rio Doce, com impactos ambientais que a sanidade mental não alcança. Não há mais lugar para peixes e passarinhos no rio Doce!

Como disse o jornalista Alceu Luís Castilho, em “De Paris ao rio Doce: do horror político ao horror econômico” (14.11.2015): “Os atentados em Paris e o crime ambiental em Mariana não são hierarquizáveis; o problema consiste em minimizar uma das tragédias por determinadas conveniências”.

As garras ditatoriais do PT

No Brasil tropical onde a moralidade foi sempre frouxa, a corrupção é entranhada no tecido social, a impunidade predomina, o PT encontrou terreno fértil para se estabelecer e não dá sinal que vai deixar o inebriante poder.
Além disso, uma das técnicas petistas para dominar mentes e corações é a propaganda enganosa. Nessa soma-se a exaltação dos feitos do líder ao temor de criticá-lo, o que é interpretado como sacrilégio.

Outra maneira de engabelar intelectos não muito atilados é o apelo à vitimização. Baseia-se tal estratagema nos seguintes dogmas: 1º - O PT não erra. 2º - Mesmo que hajam “malfeitos” os companheiros devem pairar acima da lei. 3º - Somente os outros erram. 4º- Especialmente Lula e seus familiares jamais cometem falhas.

Para confirmar tais dogmas ou mandamentos o PT lançou recentemente uma Cartilha do Cinismo onde é afirmado que a Operação Lava Jato existe apenas para criminalizar os coitadinhos dos petistas, inocentes acusados sem provas. Só faltou Rui Falcão, presidente do PT, pedir a prisão do juiz Sergio Moro, do ministro do STF, Gilmar Mendes, dos delegados da Polícia Federal, dos procuradores, dos juízes federais. Todos estão errados, menos os petistas.

Há também outro fator fundamental do fortalecimento do PT: a falta de uma verdadeira oposição e, principalmente, o apoio que nunca faltou do PSDB a Lula. Nesse momento crucial de nossa história os tucanos querem que Eduardo Cunha, tido como o único corrupto da República, inicie o processo do impeachment de Rousseff, mas querem também destituí-lo do cargo, virando assim a casaca do apoio para vestirem o terno do bom-mocismo. Simultaneamente os tucanos se prostram mais uma vez aos pés do PT e se disponibilizam para apoiar o ajuste fiscal, cujo efeito é justamente criar condições para a permanência de Rousseff. É o que se chama de exercício da dubiedade.

Enquanto na política vilezas e traições se alternam, o descalabro na economia gerado por Lula e sua obediente criatura vai retirando todas as caridades oficiais dadas pelo governo petista aos pobres e infernizando a vida dos brasileiros como um todo. Nessa situação, temeroso de perder seus privilégios e sua vida nababesca, o PT expõem suas garras totalitárias que, aliás, são por demais conhecidas quando os petistas desqualificam, agridem, ameaçam os considerados inimigos e usam a violência dos chamados movimentos sociais sustentados pelo partido.

Exemplo atual foi visto quando o governo Lula/Dilma se abateu contra caminhoneiros em greve. Além das pesadas multas que inviabilizaram o protesto, a senhora governanta estigmatizou a greve como criminosa, porque bloquear estradas é algo criminoso. O MST pode bloquear e invadir o que quiser. O MTST da mesma forma. Índios também com direito de agredir quem ousar desobedecê-los. Do mesmo modo a Via Campesina que destrói pesquisas em fazendas quando lhe dá na telha. A CUT pode bloquear o que desejar e é especialista em greves políticas. Os petroleiros estão exercendo seu sagrado direito de greve. Porém, para os caminhoneiros que pedem a saída da senhora que infelicita o país, tratamento de choque.

O PT ainda tem força e não vai deixar facilmente as delícias do poder. Por isso Lula está mandando defenestrar o ministro Joaquim Levy para colocar em seu lugar Henrique Meirelles. Esse daria um jeito de retomar os erros do passado e aliviar artificialmente as agruras populares, não sei se por milagre ou por mágica, preparando a volta do salvador da pátria. Quem sabe o PSDB pode ajudar de alguma forma o companheiro Lula nesse sentido?

Enquanto o tempo passa e a governanta vai ficando, os petistas vão pondo sorrateiramente em prática suas garras neocomunistas e atentando contra o direito de propriedade. Observem com cuidado a seguinte e pequena nota publicada na Folha de S. Paulo (12/11/2015), que faz lembrar a Venezuela:

“O prefeito Fernando Haddad (PT) regulamentou projeto de IPTU progressivo que prevê a desapropriação de imóveis vazios ou subutilizados em um prazo de cinco anos”. “Pelo decreto, a alíquota aumenta ano a ano após a notificação do proprietário, até chegar a 15% do valor venal do imóvel”. Já pensaram se a moda pega
?

Cheiro de queimado

Ao som do tango Volver, que Gardel canta cada vez melhor, o ex-presidente Lula foi a estrela da abertura da 7.ª Conferência Latino-Americana e Caribenha de Ciências Sociais, em Medellín (Colômbia). Ovacionado por uma claque de jovens estudantes colombianos - plateia simpática a slogans terceiro-mundistas que o chefão do PT usa como ninguém e decerto desinformada a respeito da extensão do desastre lulopetista que se abateu sobre o Brasil -, Lula alertou que o projeto populista que ele tão bem encarna está sob sério risco de ser desalojado do poder na América Latina.

Em tom de advertência, ao final de uma hora de discurso em que fez um histórico das alegadas conquistas sociais das quais ainda se jactam vários governantes irresponsáveis no continente, Lula disse que está sentindo um “cheiro de retrocesso” na América Latina. “Retrocesso”, nesse caso, é o desmonte do circo que encantou os incautos nos últimos dez anos, fazendo-os crer que, pela mágica do voluntarismo estatista, as desigualdades seriam superadas, inaugurando-se um período de desenvolvimento igualitário sem precedentes.

Mas a prestidigitação populista, um embuste por natureza, não tinha lastro na realidade - como sabem hoje muito bem as classes desfavorecidas no Brasil, na Argentina, na Venezuela e em outros países que tiveram a infelicidade de ser governados por esse esquerdismo corrupto e inconsequente.

Como resultado, os eleitores - antes meros clientes de políticas assistencialistas em larga escala e, portanto, vistos apenas como referendários do modelo dito “progressista” - passaram a indicar rejeição a esses governos, pois ficou claro que as promessas que lhes foram feitas não apenas eram falsas, como também foram usadas como pretexto para um assalto ao Estado. Assim, os pobres perceberam que não havia nenhum coelho na cartola estatal - ou porque o animal nunca existiu ou porque fora surrupiado por algum larápio governista.

Na Argentina, ao fim do tresloucado governo de Cristina Kirchner, o kirchnerismo parece fadado a sair como o grande derrotado na eleição presidencial do próximo dia 25. Mesmo o candidato de Cristina, Daniel Scioli, não se esforça para ser visto como herdeiro da desgastada presidente, que passará à história como aquela que, enquanto maquiava dados para inflar conquistas sociais e econômicas, convocava redes de rádio e de TV até para falar das fraldas de seu filho.

Já na Venezuela, berço do “bolivarianismo”, são conhecidos os apuros pelos quais passa o autocrata Nicolás Maduro. A eleição parlamentar do mês que vem, se não houver uma fraude monumental, deverá decretar o fim da hegemonia chavista. Maduro já mandou avisar, sem meias-palavras, que não aceitará outro resultado que não seja a vitória de seus correligionários. Ou seja, não lhe restou alternativa senão ameaçar o país com um banho de sangue.



Finalmente, no Brasil de Lula, tem-se uma chefe de governo que nem governa mais, refém que é dos arranjos de seu padrinho para sobreviver à tormenta que açoita o Planalto. Sem dinheiro para continuar a fazer redistribuição de renda por decreto e com seu partido afogado em corrupção, a presidente Dilma Rousseff talvez seja hoje o principal símbolo do fiasco que ameaça o projeto de poder de Lula et caterva na América Latina.

Lula, que não é bobo, já percebeu o risco. Se fosse um democrata de verdade, o petista aceitaria a derrota como parte do jogo político. Mas não - ele prefere insistir na ladainha segundo a qual as agruras dos governos “progressistas” resultam da campanha dos inimigos. Lula repetiu em Medellín que “a grande oposição” quem faz é a imprensa - quando esta critica governos que, na concepção do petista, só pensam no bem do povo. Para ele, a “elite” não aceita “que a gente frequente as mesmas praças que ela frequenta, ou que a gente frequente o mesmo teatro” - logo Lula, que se aliou ao que há de pior na oligarquia nacional e que se tornou milionário como lobista de empreiteiras. Mas Lula tem razão: hoje, ele e seus companheiros não podem mesmo ir a praças e teatros - mas porque serão estrepitosamente vaiados.

Jornalismo hoje

Algumas críticas ideológicas ao jornalismo, amargas e corrosivas, têm a garra do pessimismo amargo e do sectarismo ressentido. Irritam-se, alguns, com o vigor do jornalismo de denúncia e vislumbram interesses espúrios ou engajamentos partidários. Uma retrospectiva honesta, contudo, evidencia que os jornais nunca tiveram uma relação amorosa com governos, independentemente do colorido ideológico dos poderosos de turno. E é assim que deve ser. As relações entre jornalismo e poder devem ser pautadas por certa tensão. O estranhamento civilizado é bom para a sociedade e essencial para a democracia.

O jornalismo brasileiro, não obstante suas deficiências, tem desempenhado papel relevante. Ao lancetar os tumores da corrupção, por exemplo, cumpre um dever ético intransferível. A mídia, num país dominado por esquemas cartoriais e assustadora delinquência pública, assume significativa parcela de responsabilidade. O Brasil, graças à varredura dos jornais, está mudando. Para melhor. A cultura da impunidade, responsável pela rotina do acobertamento e dos panos quentes, está, aos poucos, sendo substituída pelo exercício da cidadania responsável.

A “mcdonaldização” dos jornais é um risco que convém evitar. A crescente exploração do entretenimento e da superficialidade informativa, em prejuízo da informação de qualidade, tem frustrado inúmeros consumidores de jornais. O público-alvo dos jornais não se satisfaz com o hambúrguer jornalístico. Trata-se de uma fatia qualificada do mercado. Quer informação aprofundada, analítica, precisa e confiável.

É preciso investir na leveza formal e no fascinante mundo digital. Sem dúvida. O investimento em didatismo, a clareza, pautas próprias e uma agenda positiva são, entre outras, algumas das alavancas do crescimento. O jornal precisa moldar o seu conceito de informação, ajustando-o às necessidades do público a que se dirige. Mas nada disso, nada mesmo, supera a qualidade do conteúdo. É aí que se trava a verdadeira batalha. Só um produto consistente tem a marca da permanência. O “The New York Times” sabe disso como nenhum outro: “produzir jornalismo de qualidade e matérias sérias de maneira mais atraente”. Qualidade e bom humor. É isso.

Apostar em boas pautas (não muitas, mas relevantes) é outra saída. É melhor cobrir magnificamente alguns temas do que atirar em todas as direções. O leitor pede, em todas as pesquisas, reportagem. Quando jornalistas, entrincheirados e hipnotizados pelas telas dos computadores, não saem à luta, as redações se convertem em centros de informação pasteurizada. O lugar do repórter é a rua, garimpando a informação, prestando serviço ao leitor e contando boas histórias. Elas existem. Estão em cada esquina das nossas cidades. É só procurar.

O jornalismo moderno, mais do que qualquer outra atividade humana, reclama rigor, curiosidade, ética e paixão. É isso que faz a diferença.

Brasil ainda usa agrotóxicos proibidos em outros países


Uma lista extensa de agrotóxicos utilizados na agricultura brasileira é proibida na União Europeia (UE) e nos Estados Unidos. Além disso, o Brasil é, desde 2008, o maior consumidor de pesticidas do mundo, o que levou o jornal francês Le Monde a chamar, em tom irônico, os pesticidas de o "tempero preferido" dos brasileiros.

São permitidos para uso nas lavouras brasileiras 434 ingredientes ativos de agrotóxicos. Entre os 50 mais utilizados, 22 são proibidos em países europeus. Entraves políticos e jurídicos são os principais fatores para que substâncias perigosas continuem a ser empregadas nas plantações do Brasil.

Em 2008, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) passou a reavaliar o uso de 14 substâncias, utilizadas na fabricação de mais de 200 agrotóxicos. Segundo avaliações internacionais, elas podem causar câncer, má formação fetal, problemas pulmonares e distúrbios hormonais.

Dessas 14 substâncias, até agora apenas cinco foram banidas (cihexatina, endossulfam, forato, metamidofós e triclorfom), e duas foram mantidas no mercado, mas com restrições de uso (acefato e fosmete).

"Poucas foram proibidas porque a indústria do agrotóxico, o Ministério da Agricultura e os fazendeiros fazem pressão para o processo de revisão não andar", critica Wanderlei Pignati, pesquisador da Universidade Federal de Mato Grosso. "Fabricantes de alguns produtos entraram na Justiça e conseguiram liminares para parar a análise."

A Anvisa é responsável por avaliar se a quantidade de agrotóxico presente nos alimentos é prejudicial à saúde humana. O órgão pode requerer mudanças na formulação e no método de aplicação, restringir o uso ou mesmo suspender o registro do agrotóxico.

"A proposta de nós, pesquisadores, era revisar inicialmente esses 14 para que depois fossem avaliadas outras 50 substâncias, algumas até mais perigosas do que as que estão na lista atual", afirma Pignati.
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História para acordar o boi

Não posso criticar Dilma por cantarolar “Alegria, alegria”, de Caetano Veloso. Eu mesmo faço isso várias vezes. Mas aqui, nas amargas margens do Rio Doce, lamento que uma presidente não tenha, na semana do acidente, da solidariedade às vítimas da tragédia, sequer reunido sua gente para fazer um plano de recuperação do rio. Dilma foi saudada pelo poeta Augusto de Campos como uma heroína da democracia. A política pode ser bem mais derramada que a poesia, mas exige um certo rigor conceitual.


Para a luta armada, a democracia burguesa tinha sido um fracasso, e a prova disso foi a queda de Goulart. Os documentos da época apontavam para o socialismo, uma ditadura do proletariado. Os menos audazes propunham uma fase anti-imperialista que desembocaria rapidamente no socialismo, como em Cuba. Está tudo lá nos textos, e o próprio ministro Juca Ferreira sabe disso, pois lia e escrevia documentos na época. O destino dos poetas de vanguarda no socialismo russo foi uma tragédia. Da mesma forma, em Cuba, a geração em torno do poeta Virgilio Piñera foi dizimada pelo governo de Fidel Castro. Isso pode ser lido nas memórias do novelista Reinaldo Arenas. Também está lá.

Um economista americano preocupado com o suicídio e autodestruição no país, sobretudo na classe média branca, apontou como uma causa a perda da narrativa, a falta do sentido na vida. O poeta estava construindo sua narrativa ao ser condecorado por uma heroína da democracia. Dilma construía a sua de coração valente. No entanto, as narrativas de coragem precisam ser confrontadas com a realidade. Dilma foi a Mariana, na quinta, e realmente falou em enquadrar Samarco e Vale. Mas se esqueceu das responsabilidades do seu governo no episódio. Passou de mansinho, apontou o culpado e se foi.

Na mesma semana da festa, os caminhoneiros pararam muitas estradas no Brasil. As estradas para quem se desloca de avião ou helicóptero são manchas abstratas. Para quem as utiliza quase que diariamente estão cada vez mais difíceis. É simples reduzir os caminhoneiros a um movimento de direita. Foi assim no Chile, e eram financiados pela CIA. Hoje movem-se pelas redes sociais, não precisam de ninguém a não ser de si próprios. O mundo mudou.

Hoje, por exemplo, quem está no governo não é Salvador Allende, que caiu por seu rumo político ideológico. O fator corrupção é a novidade. Allende caiu porque achavam seu governo perigoso. Não havia cartazes dizendo que o governo era podre, como os de agora nas estradas brasileiras.

No escurinho do palácio, esse fator foi esquecido. Não o foi, por exemplo, pelo grande repórter Seymour Hersh: “A corrupção ferrou a esquerda no Brasil por muitos anos”.

Acrescento ainda a opção pelo populismo. Em 2002, Lula não quis ir ao túmulo de Vargas para não se queimar. Hoje, o próprio porteiro do cemitério talvez o barrasse. Uma tática que negue o mar de lama, com a tragédia ambiental, os mares de lama, contribui para que a esquerda se ferre por décadas. Se o conceito redutor esquerda-direita ainda sobreviver.

A estrada nos dá pouco tempo para amenidades. Mas me diverti com uma voz caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento no coração do monstro burocrático que exige papel e carimbo para qualquer coisa em nosso cotidiano. O Brasil está perdendo o Rio Doce como se descartasse uma velha geladeira. Marés de lama rolam em Minas. No congresso paralisado, Cunha contando histórias sobre venda de carne enlatada na África.

Somos uma cultura de festas. Mas algumas, em certos momentos, como o Baile da Ilha Fiscal, acabam em forte ressaca. Depois disso, caiu a monarquia.

O poeta Augusto de Campos foi claro quanto ao impeachment de Dilma: considera um golpe, um retrocesso. Com isso reforça uma linha divisória: há os que acham que o impeachment não só é legal como necessário. Por mais que gostemos um do outro, por mais que nos respeitemos, sempre levaremos essa divergência conosco. Os que querem e os que não querem a mudança. Augusto de Campos expressa uma opinião que não é, por exemplo, a de Ferreira Gullar. Em algum momento na história do concretismo estiveram em campos opostos. Era uma questão muito restrita aos grupos de vanguarda. De novo, encontram-se hoje em posições opostas, mas num tema muito mais amplo e acessível que a poesia concreta.

Assim como no universo da poesia, a divisão perpassa quase todas as dimensões de nossa vida. Ainda há muitas vozes caladas. O que pensam os intelectuais brasileiros sobre esse momento? É melhor, democraticamente, aceitar o confronto de peito aberto do que negá-lo. E é sempre bom, no futuro, saber onde estivemos num determinado momento histórico. Assim, as narrativas pessoais se defrontam com os fatos da vida. Chega de história para boi dormir: carne enlatada, conferências milionárias de Lula, sem nenhum registro visual ou escrito.

Precisamos inventar uma expressão para uma história em que o boi não dorme e está bravo.
Fernando Gabeira

Sempre alerta, que estado é este de viver?

Já ia mesmo falar sobre isso. Sobre o medo, o estado constante de alarme, de alerta, de atenção, aqueles que decretamos por nós mesmos praticamente todos os dias. A sexta-feira de terror e sangue em Paris, no entanto, mostrou que os horizontes do perigo passaram a ser ainda maiores, mais mortais e complexos. Fica difícil viver em paz com tantos inimigos, inimigos gente, inimigos insetos, inimigos fatos, inimigos governantes, inimigos destinos, inimigas ideias, inimigos dia a dia. E nossos inimigos pensamentos

Parece paranoia, mas vou liberá-la porque entendo que você aí também pode ter algum aspecto desse problema. Chama temor. Toca o telefone. O coração dispara. Campainha toca e se pensa no pior do pior. Orelha em pé. Olhos bem abertos. Atenção aos cheiros. Um grito mais forte, a sirene intermitente, muitos helicópteros no céu. Alguma coisa está acontecendo, e enquanto eu não sei o que é não sossego. É uma agonia. Vivendo na região central de São Paulo está cada dia mais difícil encontrar algumas horas de serenidade.

Imagino quem tem filhos como é que se sente – hoje entendo as nóias de meus pais, as dores de minha mãe. Essa, entre outras, de tanto se inclinar no parapeito da janela para me ver voltar para casa, criou um calo, um machucado. Baixinha, precisava se debruçar. Esse pior foi quando eu resolvi ser motoqueira aos 13 anos de idade.

Não tenho filhos. Tenho meu pai, com quase 98 anos, meu irmão, minha gata e os satélites, amigos, famílias ligadas a mim de alguma forma, gente que gosto, gente que admiro e me emociona. Gente que nem conheço pessoalmente, mas que são importantes e das quais gosto sem elas saberem. Se acontecer algo com qualquer um deles serei também atingida duramente. Engraçado é que pouco penso em mim, e não sei bem em qual momento dessa vida virei assim protetora, pensando bem.

Pois vivemos assim. Há bêbados guiando por aí. As calçadas estão cheias de buracos. Árvores podres ruindo. Tem assalto, tem tiroteio, tem polícia, tem bandido. Tem gente do mal, tem homens perversos, psicopatas atrás de vítimas. Vítimas distraídas. Tem descaso e falta de fiscalização. Tem fogo, tem água, e agora tem lama. Tem El Niño, calor escaldante, ar seco, mudanças bruscas de temperaturas. Tem falta de saúde, de educação, de solidariedade, de bom senso.

Tem a barbárie. Sob um manto religioso e dogmático jovens se vestem de bomba para matar outros jovens porque dizem que queriam um mundo por eles idealizado como perfeito, mas ao qual jamais vão pertencer nem ver porque não estarão mais aqui. Só podem mesmo achar que há vida após a morte e que não irão para o inferno. Só podem estar loucos. Pior, loucos armados.

Apelam para que todos acabemos religiosos, rezando de manhã, de tarde e de noite para que celerados como esses não estejam entre nós. Foi Paris. Mas poderia ter sido qualquer lugar desse mundo. Eu poderia estar lá. Você poderia estar lá, ou alguém de sua família. Ou alguém que você ama.

É chocante. Viver mais um fato que pode ser divisor de águas mundiais, que alerta que ninguém está mesmo seguro, nem nas grandes capitais, nem nas pacatas cidades que viraram lama arrastadas de um Estado a outro.

Estado de observação, estado de alarme, estado de alerta, estado de emergência, estado de sítio, estado de calamidade pública, estado de Defesa.

Estados são decretados. Quando chegam, determinam nossos passos, acabam com a liberdade. Muitos aparecem para nos proteger; outros para cercear.

Há o Estado de Direito. O Estado de Exceção. O Estado de Choque.

Agora há o Estado Islâmico. Aqui, o Estado inoperante que nos deixa em estado de insolvência.

Pior, vivemos ainda o estado de inércia, de torpor diante desses tempos difíceis quando os fatos se sucedem completamente fora de qualquer controle nosso.

Não há como se distrair diante de um estado desses de coisas.