segunda-feira, 16 de novembro de 2015

História para acordar o boi

Não posso criticar Dilma por cantarolar “Alegria, alegria”, de Caetano Veloso. Eu mesmo faço isso várias vezes. Mas aqui, nas amargas margens do Rio Doce, lamento que uma presidente não tenha, na semana do acidente, da solidariedade às vítimas da tragédia, sequer reunido sua gente para fazer um plano de recuperação do rio. Dilma foi saudada pelo poeta Augusto de Campos como uma heroína da democracia. A política pode ser bem mais derramada que a poesia, mas exige um certo rigor conceitual.


Para a luta armada, a democracia burguesa tinha sido um fracasso, e a prova disso foi a queda de Goulart. Os documentos da época apontavam para o socialismo, uma ditadura do proletariado. Os menos audazes propunham uma fase anti-imperialista que desembocaria rapidamente no socialismo, como em Cuba. Está tudo lá nos textos, e o próprio ministro Juca Ferreira sabe disso, pois lia e escrevia documentos na época. O destino dos poetas de vanguarda no socialismo russo foi uma tragédia. Da mesma forma, em Cuba, a geração em torno do poeta Virgilio Piñera foi dizimada pelo governo de Fidel Castro. Isso pode ser lido nas memórias do novelista Reinaldo Arenas. Também está lá.

Um economista americano preocupado com o suicídio e autodestruição no país, sobretudo na classe média branca, apontou como uma causa a perda da narrativa, a falta do sentido na vida. O poeta estava construindo sua narrativa ao ser condecorado por uma heroína da democracia. Dilma construía a sua de coração valente. No entanto, as narrativas de coragem precisam ser confrontadas com a realidade. Dilma foi a Mariana, na quinta, e realmente falou em enquadrar Samarco e Vale. Mas se esqueceu das responsabilidades do seu governo no episódio. Passou de mansinho, apontou o culpado e se foi.

Na mesma semana da festa, os caminhoneiros pararam muitas estradas no Brasil. As estradas para quem se desloca de avião ou helicóptero são manchas abstratas. Para quem as utiliza quase que diariamente estão cada vez mais difíceis. É simples reduzir os caminhoneiros a um movimento de direita. Foi assim no Chile, e eram financiados pela CIA. Hoje movem-se pelas redes sociais, não precisam de ninguém a não ser de si próprios. O mundo mudou.

Hoje, por exemplo, quem está no governo não é Salvador Allende, que caiu por seu rumo político ideológico. O fator corrupção é a novidade. Allende caiu porque achavam seu governo perigoso. Não havia cartazes dizendo que o governo era podre, como os de agora nas estradas brasileiras.

No escurinho do palácio, esse fator foi esquecido. Não o foi, por exemplo, pelo grande repórter Seymour Hersh: “A corrupção ferrou a esquerda no Brasil por muitos anos”.

Acrescento ainda a opção pelo populismo. Em 2002, Lula não quis ir ao túmulo de Vargas para não se queimar. Hoje, o próprio porteiro do cemitério talvez o barrasse. Uma tática que negue o mar de lama, com a tragédia ambiental, os mares de lama, contribui para que a esquerda se ferre por décadas. Se o conceito redutor esquerda-direita ainda sobreviver.

A estrada nos dá pouco tempo para amenidades. Mas me diverti com uma voz caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento no coração do monstro burocrático que exige papel e carimbo para qualquer coisa em nosso cotidiano. O Brasil está perdendo o Rio Doce como se descartasse uma velha geladeira. Marés de lama rolam em Minas. No congresso paralisado, Cunha contando histórias sobre venda de carne enlatada na África.

Somos uma cultura de festas. Mas algumas, em certos momentos, como o Baile da Ilha Fiscal, acabam em forte ressaca. Depois disso, caiu a monarquia.

O poeta Augusto de Campos foi claro quanto ao impeachment de Dilma: considera um golpe, um retrocesso. Com isso reforça uma linha divisória: há os que acham que o impeachment não só é legal como necessário. Por mais que gostemos um do outro, por mais que nos respeitemos, sempre levaremos essa divergência conosco. Os que querem e os que não querem a mudança. Augusto de Campos expressa uma opinião que não é, por exemplo, a de Ferreira Gullar. Em algum momento na história do concretismo estiveram em campos opostos. Era uma questão muito restrita aos grupos de vanguarda. De novo, encontram-se hoje em posições opostas, mas num tema muito mais amplo e acessível que a poesia concreta.

Assim como no universo da poesia, a divisão perpassa quase todas as dimensões de nossa vida. Ainda há muitas vozes caladas. O que pensam os intelectuais brasileiros sobre esse momento? É melhor, democraticamente, aceitar o confronto de peito aberto do que negá-lo. E é sempre bom, no futuro, saber onde estivemos num determinado momento histórico. Assim, as narrativas pessoais se defrontam com os fatos da vida. Chega de história para boi dormir: carne enlatada, conferências milionárias de Lula, sem nenhum registro visual ou escrito.

Precisamos inventar uma expressão para uma história em que o boi não dorme e está bravo.
Fernando Gabeira

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