quinta-feira, 23 de abril de 2020

O presidente virou vivandeira

Vivandeira é uma palavra bonita que designa coisa feia. A expressão foi usada em agosto de 1964 pelo marechal-presidente Humberto Castello Branco, numa memorável lição:

“Há mesmo críticas tendenciosas e sem fundamento na opinião pública de que o poder militar se desmanda em incursões militaristas. Mas quem as faz são sempre os que se amoitaram em meios militares. Felizmente nunca rondaram os portões das organizações do Exército que chefiei. Mas eu os identifico a todos. E são muitos deles, os mesmos que, desde 1930, como vivandeiras alvoroçadas, vêm aos bivaques bolir com os granadeiros e provocar extravagâncias do poder militar”.

O presidente Jair Bolsonaro amoitou-se diante do quartel-general do Exército, onde havia uma aglomeração de vivandeiras que pediam extravagâncias do poder militar. No dia seguinte, disse que não tinha nada a ver com as faixas que pediam o fechamento do Congresso, do Supremo Tribunal Federal e uma volta à ditadura escancarada do Ato Institucional nº 5.


O capitão disse também que “eu sou, realmente, a Constituição”. Não é. Dias antes, falou em “minhas Forças Armadas”. Minhas?

Deve-se voltar ao marechal Castello Branco. Como chefe do Estado-Maior do Exército, no dia 20 de março de 1964, uma semana depois do comício do João Goulart ao lado do quartel-general enfeitado por tanques, ele assinou uma circular reservada para os comandos. Disse que “os meios militares nacionais e permanentes não são propriamente para defender programas de governo, muito menos a sua propaganda, mas para garantir os Poderes constitucionais, o seu funcionamento e a aplicação da lei”.

Mais: “Não sendo milícia, as Forças Armadas não são armas para empreendimentos antidemocráticos”.

Castello Branco era um general francês. Já o seu colega Aurélio de Lyra Tavares, subchefe do Estado-Maior do Exército, era qualquer outra coisa. No dia seguinte, mandou-lhe uma carta na qual dizia que havia lido a circular depois de sua expedição. (Portanto não tinha nada a ver com aquilo). Informou que percebia um clima de apreensão “pela leitura dos jornais”. (Maldita imprensa.)

Em qualquer corporação há Castellos e há Lyras. O general viria a ser o desastroso ministro do Exército do presidente Costa e Silva e integrante da patética junta militar de 1969. Deu no que deu.

Nem todos os eleitores de Jair Bolsonaro eram golpistas, mas todos os golpistas votaram no capitão. Em janeiro de 2019, quando ele entrou no Planalto com seus 58 milhões de votos, poderia haver o sonho de um emparedamento do Congresso. Passado um ano, o Executivo ficou menor que o Parlamento. Atingido pela pandemia, o capitão meteu-se num negacionismo pueril e viu-se atirado ao olho de uma crise econômica que não provocou e que não mostra competência para administrar. Nas suas palavras: “Se acabar economia, acaba qualquer governo. Acaba o meu governo. É uma luta de poder”. Não é uma luta de poder, nem acaba qualquer governo e o dele deve continuar até 31 de dezembro de 2022.

Se o presidente nada teve a ver com a vivandagem, torna-se impossível encaixar o Bolsonaro de domingo (19) no Bolsonaro da segunda-feira (20). Do alto da caçamba de uma camionete ele disse que “não queremos negociar nada. (...) É agora o povo no poder”.

Sem golpe, não haverá como.

Taokey, Jair Bolsonaro, você venceu. Batatas fritas!

Daqui a uma semana, o ministro Nelson Teich, da Saúde, divulgará seu plano de desmonte do isolamento social adotado como meio de combate à pandemia do coronavírus. Caberá então a governadores e prefeitos pô-lo ou não em prática, como decidiu recentemente o Supremo Tribunal Federal. A responsabilidade será deles.

Mas, na prática, o isolamento já começou a acabar sob a pressão do presidente Bolsonaro e de empresários preocupados em salvar a Economia. Bolsonaro é a favor do passe livre para o vírus. Quanto mais brasileiros forem contaminados, menos restarão para ser. Se a Economia for para o brejo, levará junto o governo e a reeleição.

A marca de três mil mortos deverá ser ultrapassada hoje. Nas últimas 24 horas, o vírus matou por aqui mais 165 pessoas. Foram quase sete por hora, uma morte a cada nove minutos. O total oficial de mortos, de fevereiro para cá, é de 2.906. E de contaminados, 45.757. Os números estão bem aquém da realidade.

O pico da primeira onda da doença deverá se abater sobre o país entre meados e final de maio. Haverá uma segunda onda. Os Estados Unidos trabalham com a hipótese de haver uma terceira. Nem por isso as medidas restritivas serão mantidas aqui e lá. Bolsonaro reza pela cartilha de Trump, candidato à reeleição.



Em Santa Catarina, ontem, os shoppings reabriram e foram registradas grandes aglomerações de pessoas. Em São Paulo, o governador João Doria (PSDB) anunciou que parte do comércio poderá reabrir suas portas a partir do próximo dia 11. Hoje, o governo do Rio deverá decidir algo parecido.

No Rio Grande do Sul, a volta parcial à normalidade começará em breve. A princípio, a volta às aulas no Distrito Federal está marcada para o dia 18. Pelo menos mais oito Estados avançam na mesma direção. Naturalmente, falta combinar com o vírus que já matou no mundo quase 180 mil pessoas e contaminou 2,6 milhões.

Um governo incapaz de fazer chegar com rapidez 600 reais mensais às mãos dos mais vulneráveis não é capaz de mais nada – a não ser fabricar crises, perseguir adversários e segurar em alça de caixão. É isso o que acontece. O adiantamento previsto da segunda parcela da ajuda de 600 reais foi cancelado por falta de dinheiro.

Sem o aval do Ministério da Economia, o ministro Braga Neto, chefe da Casa Civil da presidência, antecipou o lançamento de um plano de recuperação econômica pós-covid 19 que prevê aumento dos gastos com investimentos públicos para os próximos anos. O plano é vago e carece de recursos para ser executado.

Por ora, o governo bate cabeça e dá sinais de que está perdidinho da silva.

Heil, Pró-Brasil ariano

No país de maioria negra, programa de recuperação é branqueado

Abertura do país antes da hora

O governo federal apresentou um programa de retomada da economia sem o Ministério da Economia. Lembrava uma mistura do PAC do período Dilma com os PNDs do regime militar, mas ainda em rascunho. É o Plano Pró-Brasil, com dois eixos, Ordem e Progresso, para quando a pandemia passar. Os estados começaram a anunciar a saída do distanciamento social. Alguns com mais planejamento, outros com menos, mas em todos os casos talvez seja cedo demais, porque o Brasil continua subindo o Everest. O coronavírus não nos deu trégua ainda.

O ministro Nelson Teich continua seu período de aprendizagem. Reclama das perguntas dizendo que só está no cargo há cinco dias. Mas ele não está inaugurando o Ministério da Saúde. A máquina está lá, e lá estão a memória e os dados que ele diz desconhecer. Quem aceita assumir no meio de uma emergência tem que saber o que fazer. O ministro Teich ainda pesquisa e divaga. Disse que se preocupa com a saúde dos hospitais privados se os enfermos de outras doenças não forem se tratar. “Os hospitais não vão sobreviver” e isso levaria, segundo ele, a outro problema, quando acabar a pandemia, “a não capacidade de atender à demanda reprimida do não covid”. Sobre o SUS ele faz apenas breves referências.

O ministro disse que em uma semana entrega diretrizes aos governadores sobre como abrir a economia. Chegará atrasado, porque os estados já estão fazendo seus próprios planejamentos. O governador João Dória apresentou ontem, com equipe completa, o seu Plano São Paulo. Tinha pelo menos as palavras certas, a obediência à ciência, a tomada de decisão no diálogo entre saúde e economia, e a criação de parâmetros para saber quando e por que abrir. Segundo a secretária de Desenvolvimento Humano, Patrícia Ellen, as atividades serão retomadas por fases, por regiões e por setores. Tudo será dividido em cores. Hoje o vermelho é dominante em todo o estado e o distanciamento continua até 10 de maio. Depois só abre dependendo de fatores como testagem e capacidade hospitalar. Não será ao mesmo tempo em todo o estado. “Em hipótese alguma será desordenada, com flexibilização aleatória ou desrespeitando a ciência.”

O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, também começou a abrir a economia obedecendo a critérios e seguindo a testagem feita por universidades. Em entrevista à CBN, disse que os testes feitos pela Universidade de Pelotas mostraram que apenas 0,05% dos gaúchos foram infectados e isso não pode parar um estado com 495 municípios. Essa conta de percentual da população também foi feita em Brasília por Teich. O ministro disse que 2% da população teve contato com o vírus e que 70% podem vir a ter, que isso vai demorar muito e um país não pode ficar parado tanto tempo.

É preciso, claro, planejar a retomada como estão fazendo alguns governadores, e é necessário pensar em como reativar o crescimento após a pandemia, como está fazendo o governo federal. O problema é que, antes de qualquer plano, precisamos saber como vencer o Covid-19. O país ainda vive o enorme desafio do crescimento do número de infectados e de mortos pelo vírus. Em São Paulo, 73% dos leitos de UTI estão ocupados, Manaus está em colapso, o governador Hélder Barbalho, do Pará, disse à revista “Veja” que teme que Belém seja uma nova Manaus, o governador Camilo Santana disse à Globonews que ainda é hora de aumentar o rigor. O Ceará foi um dos primeiros estados a adotar medidas, inclusive teve que entrar na Justiça para fechar o aeroporto de Fortaleza para voos internacionais. Mesmo assim, é o terceiro estado com mais casos da doença.

– É bom ter um plano, mesmo que não seja lançado na data. São Paulo deve ter sido o primeiro local de infecção, mas os números de casos ainda estão em fase ascendente da curva e nas próximas duas semanas devem continuar assim – disse a economista Monica de Bolle, sobre o plano do governador João Dória.

O Plano Pró-Brasil, lançado pelo ministro-chefe da Casa Civil, general Braga Netto, ainda não é nada além de uma coleção de projetos de obras. O anúncio passou a impressão de que tudo está sendo feito sem a concordância da equipe econômica. Tem o cheiro daqueles velhos planos estatizantes. E a ideia do Ministério da Economia não era bem esta.

A espera do pobre

Hermes de Paula / Agência O Globo
Estou só esperando a morte chegar
Maria das Dores Costa, 80 anos, durante doação de cestas básicas na favela do Mandela, no Rio 

Não chega a surpreender que populistas falhem no teste crucial do coronavírus

Uma coisa que populistas autoritários, de Donald Trump a Jair Bolsonaro, têm em comum é que desconfiam dos especialistas e de instituições independentes.

Por acreditarem que eles, e apenas eles, são os verdadeiros representantes do povo, aspectos tradicionais da democracia liberal, como a separação dos poderes, lhes são estranhos.

Por que, questionam eles, juízes, que não são eleitos, devem ser capazes de impor limites ao que fazem?

E, exigem saber, como se justifica que especialistas ou burocratas possam lhes dizer como proteger sua população contra uma ameaça inusitada (como, por exemplo, uma pandemia global sem precedentes)?

Desde o início da ascensão política de Trump e de Bolsonaro, seus críticos vêm avisando que todos nós podemos pagar caro por essa megalomania.


Quando um presidente acha que tem a capacidade de tomar todas as decisões por conta própria, quando ele coloca seguidores leais mas incompetentes em cargos de alta confiança pública e passa por cima dos conselhos de peritos e cientistas, as consequências podem ser mortíferas.

Essa mensagem foi em grande medida ignorada. Até o momento em que o coronavírus rapidamente transformou nossas vidas, a maioria dos cidadãos simplesmente não fora afetada pela ascensão dos populistas.

Ainda no início deste ano, muitas pessoas no Brasil ou nos Estados Unidos podiam dizer honestamente que sua vida não tinha sido afetada em absoluto pelos supostos perigos do populismo.

Acabamos descobrindo que os governos são como navios transatlânticos robustos. Mesmo um capitão incompetente ou caprichoso não consegue mudar a trajetória deles em pouco tempo.

E, se eles começarem a se desviar do rumo correto, levam algum tempo para se chocar com um iceberg.

Mas, se a lentidão do Estado é uma grande fonte de resiliência em tempos normais, ela também constitui um perigo grave em momentos de emergência genuína, como o que estamos vivendo hoje.

Para fazer frente a uma pandemia, as ações de sempre não bastam.

Pelo contrário –o presidente precisa funcionar como uma figura de união; precisa impor medidas de distanciamento social, estabelecer protocolos para a realização de exames em grande parte da população e colocar em quarentena as pessoas que podem ter contraído a doença.

Nada disso pode acontecer por conta própria. Tudo isso requer confiança em especialistas e coordenação com burocratas.

Assim, não chega a surpreender que muitos populistas estejam falhando da maneira mais espetacular neste teste crucial.

Em nenhuma grande democracia essa falha vem sendo mais evidente que no Brasil. Bolsonaro foi ainda mais longe que Trump ao minimizar a gravidade do perigo, recusar-se a promulgar as medidas necessárias para evitar inúmeras mortes desnecessárias e negar-se a permitir que outros realizem o trabalho que ele se recusa constantemente a fazer.

Agora ele chegou ao ponto de demitir seu ministro da Saúde pelo crime imperdoável de ser tremendamente mais competente –e, também, por conta disso, mais popular— que ele.

Para aqueles entre nós que há muito tempo temos advertido sobre a ascensão do populismo, pode ser tentador sentirmos um pouco de “schadenfreude” (termo em alemão para descrever o sentimento de alegria pela desgraça alheia) com o fato de os índices de aprovação de Bolsonaro se manterem baixos.

Finalmente o presidente pode vir a pagar o preço político de sua própria incompetência.

Mas, por mais tentadora que possa ser essa "schadenfreude", ela não capta plenamente por que era tão importante se opor aos populistas em primeiro lugar: porque precisamos fazer o que pudermos para impedir que eles imponham sofrimento desnecessário a seus próprios cidadãos.
Yascha Mounk (Universidade Johns Hoplins)

Um mundo de ansiedade, medo e estresse

Se as emoções pudessem ser auscultadas, todos os estetoscópios do planeta escutariam duas: medo e incerteza. A ameaça até agora circunscrita a datas funestas (11 de setembro, 11 de março) ou localizadas em países quase sempre distantes, quase sempre pobres, assumiu, com seu avanço invisível e letal —160.766 mortos até 19 de abril— uma dimensão planetária, desconhecida no último século. A nova peste irrompeu no centro da próspera Europa e da superpotência americana com uma virulência e velocidade da qual ninguém, esteja confinado em uma luxuosa cobertura ou em uma casa humilde, pode se considerar a salvo. E essa súbita falta de certeza, esse medo, é apenas o começo de outra crise sanitária que surgirá em nossas cabeças, dizem vários especialistas em saúde mental, alguns com vasta experiência em catástrofes e guerras.


O epidemiologista e investigador dos efeitos mentais das grandes emergências Sandro Galea, reitor da Escola de Saúde Pública de Boston, diz: “Esta crise é um acontecimento traumático maciço sem precedentes, maior do que qualquer outro por sua dimensão geográfica”. A comoção é ampliada naqueles que adoecem (mais de dois milhões apenas com os números oficiais), nas famílias atingidas pelas mortes e naqueles que já estão com os bolsos vazios. “Haverá uma avalanche de transtornos de humor e de ansiedade nos próximos meses e anos em todo o mundo”, prevê esse especialista, “isso inclui depressão, ansiedade, estresse pós-traumático, aumento do consumo de álcool e violência machista. Tudo isso terá grandes consequências econômicas e sociais.” A OMS estima que uma em cada cinco pessoas terá um distúrbio mental, duas vezes mais que em circunstâncias normais.

O que vai acontecer? Serei contagiado? Terei trabalho? Como estará minha mãe? Voltarei a vê-la? A psicóloga Sara Liébana ouve constantemente perguntas como estas, repetidas por pessoas com insônia, no telefone disponibilizado pelo Ministério da Saúde. “É a coisa mais extraordinária que já vivemos”, exclama esta profissional experiente no cuidado às vítimas de terrorismo, “não apenas porque ocorre em todo o mundo, mas também por esta maciça sensação de incerteza em tudo, na saúde, no trabalho, nos estudos, nas bolsas, vivemos nesse estresse, nessa ansiedade... Agora somos uma sociedade que faz perguntas”. Sua colega psiquiatra Carmen Moreno, do Hospital Gregorio Marañón, em Madri, insiste: “Não acaba e não sabemos quando terminará. São dadas recomendações que mudam de um dia para o outro, isso gera incerteza e desproteção, atinge todos igualmente, é algo imprevisível. E o ser humano precisa de previsibilidade”.

Essa sociedade que faz perguntas, a sociedade dos que temem e dos que padecem (os doentes e os enlutados dos mortos) está trancada há mais de um mês. E isso não está livre de efeitos colaterais. “Passo o dia dizendo às pessoas que elas não ficaram loucas”, diz o psicólogo Fernando Egea, “que a irritabilidade, as mudanças de humor e a insônia são reações normais”. Isso é confirmado por uma revisão recente de estudos publicada pela revista The Lancet. Estamos desanimados (acontece com 73% das pessoas, segundo um dos estudos) e irritadiços (57%). A quarentena provoca confusão, raiva e sintomas de estresse pós-traumático (aqueles pesadelos e flashbacks que revivem a experiência dolorosa, acompanhados de hipervigilância e anestesia emocional), de acordo com a maioria das pesquisas. “As circunstâncias mais estressantes”, observam os autores, “são o confinamento prolongado, o medo de se contagiar, a frustração, o tédio, a falta de alimentos ou produtos básicos, informações inadequadas, perdas financeiras e estigma.” O isolamento também mudou o paradigma doméstico. “Fechamo-nos em torno da família, como em uma espécie de retorno às cavernas, restabelecendo laços e voltando a uma forma muito básica de relacionamento para nos protegermos dessa guerra estranha”, reflete o psiquiatra Enrique García Bernardo, “em que morre muita gente, vivemos na incerteza, adaptando-nos, com o paradoxo de que voltamos a ouvir os pássaros enquanto tanta gente morre, prendendo a respiração para que não nos pegue.”

A brutal irrupção da crise causou algo que surpreendeu ao psiquiatra Alberto Fernández Liria, por seu potencial nocivo, quando trabalhava como enviado de várias ONGs em cenários bélicos: “Os maiores estragos não se devem ao combate, e sim à destruição maciça da vida cotidiana. Num mundo onde você se define por sua ocupação, seu papel fica suspenso, há uma desorientação da qual pode sair qualquer coisa. Você precisa encontrar culpados, distinguir entre os bons e os maus, como nas guerras”.

Nesta mesma crise da Covid-19, mas na China, que foi o primeiro país afetado, um terço da população sofria ansiedade de moderada a severa, segundo um estudo. Outro veterano em emergências, o psiquiatra Ricardo Angora, coordenador de Saúde Mental da ONG Médicos do Mundo, acredita que não temos experiência em situações nas quais todos estamos ameaçados. “Não tinha acontecido nunca, ao menos em nossas gerações. Na África há cólera, secas e conflitos bélicos. Eles estão mais habituados e têm uma aprendizagem, aqui não a temos. Do ponto de vista emocional, nos apanhou sem anticorpos”.

Nos dias atuais, a doença e a morte transcorrem solitariamente. “As evoluções dos doentes são muito complicadas, tudo acontece muito rápido”, diz a psiquiatra Moreno, “ou o familiar se apressa muito em chegar, sempre é um, e é preciso cumprir uma série de condições, ou não poderá se despedir”. A especialista acredita que a gestão da morte é muito difícil, “não se pode velar e existe uma espécie de congelamento da emoção. Os lutos complicados e prolongados aumentarão”. A psicóloga Liébana escuta parentes desconsolados, que às vezes nem sabem onde está o corpo de seu pai. “Nós os acompanhamos em sua dor, na impotência de não podermos compartilhá-la com ninguém, os incentivamos a entrar em contato com seus familiares através de videoconferências em grupo, e dizemos a eles que poderão se despedir quando isto acabe.”

Agora, e a partir de agora, são as perdas as que emergem em nosso panorama emocional. “As depressões vão ter a ver com as perdas, as reais, as dos nossos mortos, e outras de diferente dimensão: a renúncia a um status, a uma forma de vida pelo desemprego ou a ruína dos autônomos”, observa García Bernardo, “o que inclui o sujeito isoladamente (com a perda de sonhos, expectativas), a família (perda de horizontes) e o aspecto social (o emprego)”.

Fernández Liria está de acordo: “Haverá um fenômeno maciço de perdas; trabalhos, propriedades, referências, coisas que têm a ver com a identidade, para muita gente sua identidade profissional – pensemos no turismo, a atividade fundamental deste país [a Espanha]. O que fará um cozinheiro, o dono de um bar? Terão que se reinventar, e isso é um processo muito complicado. Se for encarado com apoio social pode ser muito construtivo. Deus nos livre da aparição de movimentos populistas muito descarnados”.

A experiência prévia diz que o impacto econômico que se abate atacará a saúde mental. A crise econômica mais recente, de 2009, fez crescerem a depressão (18%), a ansiedade (8%) e os transtornos por abuso de álcool (5%), segundo um estudo da Sociedade Espanhola de Saúde Pública e Administração Sanitária (SESPAS). “A economia pode se recuperar; as vidas, não. Se evitarmos que haja novos surtos, isso fará a confiança se recuperar”, reflete Angora.

O que fazer diante desse amontoado de dor em sobreviventes, profissionais de hospitais, centros de saúde e ambulâncias, familiares de falecidos e desempregados? “Educar as pessoas para estes desafios e preparar os sistemas sanitários para enfrentá-lo”, responde Galea. “Há um risco de falta de atendimento”, acredita Fernández Liria, “e também de psiquiatrização. Mas é preciso aproximar o atendimento, porque os que estão piores não são capazes de irem pedir ajuda”. Aí, concordam todos, os médicos que nos acompanham, os de cabeceira, serão fundamentais para detectar essa avalanche de sofrimento submerso.

Bolsonaro fracassa como presidente, mas confia que vai se dar bem como ditador

Jair Bolsonaro é um fenômeno da enganação política semelhante a Jânio Quadros e a Lula da Silva. Seu carisma é impressionante, apesar de ser um governante omisso, que se dedica à reeleição (ou ao golpe) 24 horas por dia. Em 2018, o eleitorado votou nele julgando que iria tomar as seguintes iniciativas: 1) lutar contra a corrupção e a favor da Lava Jato; 2) reduzir os privilégios e penduricalhos salariais dos três Poderes; 3) conter os gastos do governo; 4) colocar na cadeia os criminosos e corruptos, reduzindo a criminalidade; 5) criar empregos e diminuir a desigualdade social.

Essas cinco metas eram a sensacional plataforma do candidato que empolgou as massas, mesmo sem verba vultosa para a campanha e sem horário gratuito no rádio e TV.

Agora, já se passou mais de um ano de governo, mas nem se pode fazer um balanço, pois tudo continua em gestação. Na verdade, o presidente ainda não fez absolutamente nada quanto às promessas de campanha. Vamos conferir, item por item.

1 – Lutar contra a corrupção e fortalecer a Lava Jato – No tocante a esse quesito, Bolsonaro se omitiu claramente e até torceu contra, pois não fez a menor pressão no Congresso para aprovar o Pacote Anticrime do ministro da Justiça, Sérgio Moro.

Além de rejeitar o Pacote, o Congresso aprovou um projeto a favor do crime, ao criar a Lei do Abuso de Autoridade, e o presidente não protestou. Enquanto isso acontecia no Congresso, o Supremo extinguiu a prisão após segunda instância, para garantir a impunidade das elites, e Bolsonaro também não disse uma só palavra contra, porque seu interesse era proteger os filhos, envolvidos em rachadinhas e funcionários fantasmas.

E assim a Lava Jato sofreu um retrocesso impressionante, enquanto Bolsonaro se dedicava a tentar demitir Sérgio Moro, por considerá-lo um futuro oponente.

2 – Reduzir os privilégios e penduricalhos salariais – Esta esperança dos eleitores de Bolsonaro se desfez logo no início. Ao preparar a reforma da Previdência, em nenhum momento a equipe econômica aventou a hipótese de reduzir aposentadorias dos servidores beneficiados pelo teto, que é alto demais para a realidade brasileira.

E agora, na reforma administrativa, a frustração é absoluta. O ministro Paulo Guedes preparou o projeto sem tocar em nenhum privilégio dos múltiplos penduricalhos que elevam salários nos três Poderes, por considerá-los “direitos adquiridos”, uma regalia que a Constituição até proíbe. A ideia é impedir reajustes, penalizando o servidor de médio e baixo salário.

Bolsonaro não mexeu em nada, manteve a farra dos carros chapa-branca, com combustível liberado, as outras mordomias e até mesmo o cartão corporativo, cujos gastos são mantidos em sigilo.

3 – Conter os gastos do governo – Essa promessa o governo também vai ficar devendo. Paulo Guedes não conseguiu superávit no primeiro ano e confessou que também não ia conseguir no segundo ano, mas veio a pandemia, foi declarada calamidade pública, e não se fala mais no assunto. Esse quesito vai ficar para o próximo presidente, que está arriscado a ser o próprio Bolsonaro, caso não sofra impeachment, hipótese cada vez mais provável.

Os outros dois itens que fizeram Bolsonaro ser eleito também não serão cumpridos até 2022. Seu governo não vai colocar na cadeia os criminosos e corruptos, e os principais já foram até soltos pela Justiça, sem que em nenhum momento o presidente Bolsonaro tivesse manifestado ao Supremo sua contrariedade com a prisão somente após quarta instância, liberalidade que só existe no Brasil, um privilégio verdadeiramente medieval..

Quanto ao desemprego e à redução da desigualdade social, o governo também deixará para outra oportunidade. Com toda a empolgação do primeiro ano, o ministro Paulo Guedes só conseguiu fazer o PIB aumentar 1,1,%, enquanto Henrique Meirelles, que pegou a economia destroçada pelo PT, emplacou 1,3% nos dois anos do governo Milton Temer.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Recessão aumentou mortes em cidades onde gasto com assistência e saúde foi menor

Na última recessão pela qual passou, o Brasil registrou aumento no número de mortes em municípios onde houve menos gasto com assistência social e atenção à saúde. O desemprego mais alto foi responsável por mais de 30 mil mortes adicionais entre 2012 e 2017.

Essa é a constatação de um artigo elaborado por sete pesquisadores, entre brasileiros e estrangeiros, publicado no fim do ano passado na revista Lancet Global Health.

Para surpresa dos autores, o texto começou a ser compartilhado por pessoas que defendem o fim da quarentena, como argumento de que o isolamento social poderia prejudicar a economia e portanto levar a mais mortes.

Os pesquisadores correram para dizer que as conclusões do artigo estavam sendo distorcidas e argumentaram que a discussão sobre salvar vidas ou a economia é um falso dilema.

Um dos responsáveis pelo estudo, o epidemiologista Rômulo Paes de Sousa, pesquisador da Fiocruz, disse à BBC News Brasil que "as pessoas querem fazer contraposições que não são reais, como: morrer infectado ou morrer como consequência do desemprego". Ele diz que, na verdade, as mortes dependem da resposta do governo para conter a epidemia e os efeitos dela.


"O Brasil ficou infantilizado do ponto de vista político. Discutimos coisas que não fazem sentido. Uma delas é: 'preciso que a gente saia logo do isolamento porque aí a economia vai voltar e vamos prevenir mortes no futuro em função da recessão'. Isso não faz o menor sentido. Se você sai de forma desorganizada, descontrolada, as pessoas vão se contaminar e vão começar a morrer."

Em países ricos, recessões passadas trouxeram redução da mortalidade, que pode ser explicada por redução em acidentes de trânsito, doenças hepáticas e doenças cardiovasculares nesses períodos.

Uma possível explicação para essas reduções é que o declínio da produtividade durante as recessões resulta em menor participação em atividades prejudiciais, como direção e consumo de álcool, redução do horário de trabalho e aumento do tempo gasto em atividades saudáveis.

Em países de baixa e média renda, no entanto, as tendências são diferentes.

A partir de dados do Ministério da Saúde, do Ministério de Desenvolvimento Social, do IBGE e do Sistema de Informações sobre Orçamentos Públicos em Saúde (Siops), de 2012 a 2017, os pesquisadores decidiram verificar a relação entre recessão, desemprego e mortalidade nos municípios brasileiros.

O resultado verificado foi que a recessão brasileira contribuiu para aumentos da mortalidade, mas que gastos com saúde e proteção social mitigaram os efeitos prejudiciais à saúde, especialmente entre populações vulneráveis.

Eles identificaram que os aumentos no desemprego não foram associados a aumentos na mortalidade em municípios com maiores gastos com assistência médica e proteção social.

"Nossas descobertas destacam a importância de sistemas de proteção social apropriados nacionalmente para proteger populações em risco dos impactos adversos à saúde das recessões econômicas nos países de média e baixa renda", apontam os autores.

A mortalidade por todas as causas aumentou entre brasileiros pretos e pardos, homens, e indivíduos de 30 a 59 anos de idade.

Isso tem a ver, segundo os autores, com evidências anteriores de que os brasileiros negros e pardos têm maior probabilidade de ter um emprego informal do que os brasileiros brancos, têm renda mais baixa do que os brasileiros brancos empregados no mesmo cargo, e que têm mais chances de estar na pobreza, dependendo de investimento público em saúde e programas de proteção social.

O estudo aponta que renda mais baixa, maior risco de problemas de saúde relacionados à pobreza e aumento do estresse psicossocial estão entre os fatores que podem ter contribuído para o aumento da mortalidade durante a recessão.

As mais de 30 mil mortes adicionais que ocorreram devido ao aumento do desemprego de 2012 a 2017, segundo os pesquisadores, foram principalmente devido a câncer e doenças cardiovasculares.

Devido ao artigo, Paes de Sousa diz que muitas pessoas têm perguntado a ele qual será a quantidade de mortes devido à nova recessão que o país deve viver como consequência da pandemia. Ele pondera, no entanto, que o contexto é diferente e que é necessário, primeiro, focar em questões como: saber a quantidade de mortes devido à covid-19, se os sistemas de saúde entrarão em colapso, e as políticas para reduzir os efeitos da crise.

"A recessão não acontece de forma exclusiva", afirmou, ao comentar o cenário atual.

Paes de Sousa diz que foi positivo o aumento de R$ 200 para R$ 600 no auxílio emergencial para trabalhadores informais, microempreendedores individuais, autônomos e desempregados, com objetivo fornecer proteção emergencial no período de enfrentamento à crise causada pela pandemia do coronavírus.

Ele diz, no entanto, que acredita que o valor pode ser insuficiente para manter os trabalhadores em casa sem trabalhar, porque está abaixo da renda média de cerca de R$ 1.400 dos trabalhadores sem carteira assinada, segundo dados do IBGE.

"Quando fazemos transferência de recursos, queremos mudar a atitude das pessoas. Qual é o objetivo dessa transferência neste momento? Que as pessoas reduzam sua atividade laboral, sobretudo nas grandes cidades, onde circulação do vírus tende a ser maior. Se o valor não permitir que possam pagar as contas, elas podem receber benefício e ele não ser eficaz na obtenção desse propósito."

O pesquisador disse, ainda, que o país hoje falha em políticas de combate à fome. "O Brasil já teve políticas de segurança alimentar muito mais fortes e isso faz com que, hoje, a entrega de cestas básicas, por exemplo, ocorra de forma desorganizada", diz.

Ele aponta que há "iniciativas generosas de parcelas da sociedade", mas que "algumas áreas são mais próximas dos centros de distribuição e são razoavelmente atendidas, enquanto lugares mais remotos e de maior conflito social ficam descobertos".

A responsabilidade pela distribuição, ele diz, é do Estado. "Perdemos capacidade de fazer política pública de segurança alimentar e voltamos para ação de caridade."

Só Freud explica

A política brasileira está confinada pela tragédia da pandemia e já não é possível desdenhar da realidade macabra. Portanto, não é política o que pratica o presidente Jair Bolsonaro no segundo ano do seu mandato. Por mais que deboche da vida e invente movimentos para esconder sua incapacidade de liderar e enfrentar os problemas, o placar das mortes e de contaminados não permite distrações.

Espera-se sempre pela próxima atração presidencial que só não é circense porque o circo se dá ao respeito. Uma performance vai superando a outra. Já se sabe que recuará se o seu teatro do absurdo extrapolar a medida. No dia seguinte, nova insanidade. E assim se passaram 16 meses.

De novo: não é política isto que se pratica, hoje, no Brasil, a partir do desempenho do presidente da República.


A negação da existência da pandemia que acha estar enxotando com seu megafone; a insistente, insolente e impune agressão aos poderes Legislativo e Judiciário; a tentativa de aliciar o Centrão na figura-símbolo de Valdemar Costa Neto, para uma pouco convincente vontade tardia de fazer base parlamentar de apoio; o recurso à velha política, condenada no palanque, se lhe serve melhor na ocasião; a escolha, a cada dia, de um inimigo forjado por temores paranoicos; o corte radical das cabeças que lhe devem o contrato, como os ministros Gustavo Bebianno, Santos Cruz, Luiz Henrique Mandetta, e a campanha permanente e irritada contra quem não pode domar, como o presidente da Câmara, Rodrigo Maia; a retórica autoritária; o desrespeito à condição humana, mais perfeita expressão de fascismo.

Jair Bolsonaro transcendeu a política e a crônica não pode usá-la como régua para medir a extensão do atual desastre imposto ao País.

Um presidente que funciona aos espasmos. Se o espelho lhe aponta um ministro mais popular que ele, acende o alerta vermelho da traição; se a imagem refletida é de alguém em posição constitucional de interromper sua festa, muda sem pejo a rota da cruzada.

Fura o consenso do combate à pandemia, sai trôpego e de olhos vendados na contramão do mundo todo que se harmoniza para salvar a vida. Jair Bolsonaro é tão artificial que nem quando pede golpe militar dá para crer. A manifestação do último domingo, em frente ao QG do Exército, foi a mais recente provocação de um ex-capitão aos generais da ativa e da reserva que o servem. Um prazer vingativo de demonstrar poder sobre eles.

Se passar a pandemia e Bolsonaro se mantiver vivo e no poder, o Brasil que se prepare para uma página em branco. Um grande vazio, pois ele mostra, hoje, que não faz ideia do que fará, depois. O liberalismo econômico, sustentado em reformas estruturantes, vedete de suas intenções, desmanchou-se no ar em 40 dias.

Muitos intelectuais estão expondo sua perplexidade em estudos que tentam traduzir o impacto da pandemia sobre a humanidade. O ex-deputado, professor e sociólogo Paulo Delgado, em um ensaio por enquanto definido como “psicohistória presidencial”, sobre os nove presidentes que conheceu, desde Tancredo Neves, não foge à conjuntura político-sanitária ao tratar de Jair Bolsonaro.

“Vasculhar o inconsciente ajuda a entender por que ele se identifica tanto com este vírus, a ponto de ter necessidade sádica de ridicularizá-lo, insultá-lo, desafiá-lo.”

Invocando Freud, Delgado lembra que o presidente “coloca libido” nestas manifestações públicas de que participa, provocando “aglomeração, contato, contágio”. Diz, ao argumentar sobre esta hipótese: é “um comportamento psicossocial repetitivo, estimulado pelo prazer contínuo de transgredir”.

Um irônico enquadramento da ação presidencial no ambiente psicanalítico, que “só Freud explica”. Enfatiza a hiperexcitação do presidente brasileiro que poderá, conclui ele, conduzir o País a uma “derrota” de Pirro, uma espécie de fracasso altamente dispendioso. Bem além da competência da política.

Meia-volta, morrer

Trocar o ministro da Saúde durante a pandemia do novo coronavírus foi uma manobra arriscada. Abalou o precário equilíbrio entre a Ciência, as evidências sobre a magnitude e gravidade da doença e os adeptos da fé, em si próprios, em seus gestos e palavras, como indicadores de verdade. O recém-empossado titular da pasta — dedicado a estudar a futura saída da quarentena e omisso em relação ao presente aumento exponencial da ocorrência de casos — é funcional aos desejos de passar por cima das advertências sanitárias. Na última domingueira presidencial, desta vez acompanhada por carreatas em diversos estados, ouviu-se um brado de independência — “Nós não queremos negociar nada, queremos ação” — e manifestações contra o Congresso Nacional e o Poder Judiciário. Trata-se de uma emancipação política de araque, já que as conversas entre o núcleo de poder da presidência com parlamentares do Centrão seguem a pleno vapor.

Achatar o significado da palavra liberdade estimula mais gente nas ruas, comércio aberto e torna irrelevante o aumento do número de mortes, que dobra a cada dois dias. A autoridade máxima do país e ministros deram as costas para profissionais de saúde que se desdobram para atender a população.

Quem está na linha de frente da assistência diz nunca ter visto nada igual. A Covid-19 é uma infecção que mata silenciosamente. Pacientes sem queixas respiratórias, que não sentem faltar de ar, diabéticos, pessoas que desmaiaram sem motivo aparente, quando examinados já desenvolveram pneumonia difusa. Os esforços para salvar vidas têm sido orientados pela necessidade de diagnosticar — de preferência na fase inicial da doença e do suporte—, manter ventilação e condições favoráveis à respiração. Serviços básicos de saúde não podem mandar de volta para casa pessoas sem a verificação do nível de oxigênio e precisam acompanhar a evolução de quadros clínicos leves. O atendimento em hospitais e unidades de terapia intensiva requer médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e outros especialistas, equipes completas. Manter doentes com ventilação mecânica implica, além do tubo na traqueia, o uso de sedativos, acessos intravenosos e arteriais, sondas gástricas e vesicais. Para melhorar a função pulmonar, é necessário contar com cinco ou seis profissionais para virar pacientes ligados a respiradores e bombas de infusão de medicamentos. De barriga para baixo e para cima, duas vezes por dia.

A vantagem do tempo, quatro meses após os primeiros registros da epidemia, foi gasta indevidamente com a polarização gripezinha versus alta letalidade. Continuamos com insuficiência de leitos, testes, respiradores, equipamentos de proteção individual e profissionais de saúde. Promessas de elevados investimentos no SUS ainda estão no papel, houve remanejamento do Orçamento e, por enquanto, o Ministério da Saúde empenhou para despesas relativas à Covid-19 apenas R$ 8 bilhões.

Os termos colapso do sistema e seu antônimo, existência de leitos vagos — antes bastante abstratos em função das imprecisões das informações sobre capacidade instalada —, perderam sentido. Unidades básicas de saúde e UPAS estão às voltas com inúmeros atendimentos de sintomáticos respiratórios e dificuldades para transferir pacientes graves. Manaus e Fortaleza não são exceções, unidades de terapia intensiva da rede pública de São Paulo e do Rio estão lotadas. Essa dura realidade sensibiliza a maioria da população, cientistas, quem trabalha na saúde, governadores e prefeitos, aqueles que não admitem escolher quem irá viver, que se indignam com a exposição de critérios para justificar genocídios.

Como decidir pela morte de alguém? Um idoso e ativo cientista que está pesquisando a vacina para o coronavírus deve se sacrificar pelos netos, a seleção deve recair sobre uma mãe cujos filhos ficarão órfãos? Sobre médicos? No Brasil, esses tradicionais questionamentos éticos, sem as devidas mediações científicas e democráticas, costumam ser respondidos com o uso indiscriminado da crueldade. Negros, os indígenas e os pobres foram imolados em nome da pátria e agora convocados para a morte para salvar a economia do pibinho. Existem sugestões alternativas. As redes sociais estão repletas de parâmetros para excluir do atendimento os arautos das aglomerações humanas que necessitarem de cuidados. Outra possibilidade é exigir a assinatura de um termo de responsabilidade pela ressurreição. Caso não ocorram milagres, os defensores da quebra do isolamento social e da subordinação das vidas à economia renunciam aos cargos.
Ligia Bahia

Brasil com nova cara

Novas covas em Manaus

O jogador

O pior dos mundos nesta pandemia de coronavírus no Brasil seria uma crise institucional, num momento em que as instituições políticas precisam convergir para combater a doença e mitigar os seus efeitos na economia. Em circunstâncias normais, o maior interessado nesse esforço coordenado seria, sem dúvida, o presidente da República, mas acontece que Jair Bolsonaro faz tudo ao contrário. Como no domingo, quando foi ao ato de extrema-direita em frente ao quartel-general do Exército para apoiar manifestantes que pediam o fechamento do Congresso, do Supremo Tribunal Federal (STF) e uma intervenção militar.


É difícil compreender seu comportamento, que foge à racionalidade, num momento tão dramático da vida nacional. O gesto de domingo, como não poderia deixar de ser, aprofundou o isolamento político de Bolsonaro. Foi repudiado pelos ministros do Supremo, pelos líderes da Câmara e do Senado, por instituições da sociedade civil e provocou um pedido do procurador-geral da República, Augusto Aras, para que o STF apure as responsabilidades pela organização do ato, que atenta contra a democracia, nos termos da Lei de Segurança Nacional. Bolsonaro foi poupado pelo Ministério Público Federal, mas o presidente do Cidadania, Roberto Freire, e o líder do partido na Câmara, deputado Arnaldo Jardim (SP), se encarregaram de requerer à PGR que investigue também os que participaram do ato.

Ontem, ao sair do Palácio da Alvorada, Bolsonaro minimizou os acontecimentos de domingo. Disse que em nenhum momento endossou os pedidos de fechamento dos demais poderes e de intervenção militar. Ironizou: “O pessoal geralmente conspira para chegar ao poder. Eu já estou no poder. Eu já sou presidente da República (…). Eu estou conspirando contra quem, meu Deus do céu? Falta um pouco de inteligência para aqueles que me acusam de ser ditatorial. O que eu tomei de providência contra a imprensa? Contra a liberdade de expressão?”

Mas Bolsonaro revelou preocupação com o que aconteceu, quando nada porque sabe que seu gesto pode ser interpretado como crime de responsabilidade, sobretudo se houver ligações efetivas entre os organizadores do ato e o chamado “gabinete do ódio”, o grupo ideológico que o assessora na Presidência. “Em todo e qualquer movimento tem infiltrado, tem gente que tem a sua liberdade de expressão. Respeite a liberdade de expressão. Pegue o meu discurso, dá dois minutos, não falei nada contra qualquer outro poder, muito pelo contrário. Queremos voltar ao trabalho, o povo quer isso. Estavam lá saudando o Exército brasileiro. É isso, mais nada. Fora isso, é invencionice, é tentativa de incendiar uma nação que ainda está dentro da normalidade”, disse Bolsonaro, em defesa prévia.

Bolsonaro estimula uma militância fanatizada, que defende claramente um golpe de Estado. Militarizou seu governo a tal ponto que hoje existem mais generais na Esplanada do que em todos os governos do regime militar. Toda vez que tem um problema e não consegue resolver, apela aos ex-colegas de farda. Seu problema não é chegar ao poder, é a ambição de ter poderes absolutos, pois não consegue administrar a institucionalidade da própria Presidência, em situações emblemáticas, como a de domingo, desrespeitando a liturgia do cargo que ocupa. Não digere o sistema de pesos e contrapesos que normatiza as relações com o Congresso e o STF. No fundo, como um Luís XIV, tem uma visão absolutista da Presidência: “Eu sou realmente a Constituição”.

Enquanto isso, a epidemia avança. No balanço do Ministério da Saúde divulgado ontem, já são 2.575 mortes (no domingo, eram 2.462, aumento de 5,6%, ou seja, 113 óbitos a mais), num universo de grande subnotificação: apenas 40.581 confirmados (no domingo, eram 38.654, aumento de 5%, sendo a taxa de letalidade de 6,3% de letalidade). São Paulo tem 1.037 mortes e 14.580 casos confirmados. Bolsonaro minimiza a progressão da epidemia, diz que 70% da população será contaminada e “não adianta querer correr disso”. Lida com a morte como aquele general que manda seus soldados resistir apenas para ganhar tempo para a própria retirada, sabendo que o front está perdido e eles voltarão para casa dentro de um saco plástico: “Aproximadamente 70% da população vai ser infectada. Não adianta querer correr disso. É uma verdade. Estão com medo da verdade?”, afirmou.

Bolsonaro dobra a aposta de altíssimo risco: “Espero que esta seja a última semana desta quarentena, desta maneira de combater o vírus, todo mundo em casa. A massa não tem como ficar em casa, porque a geladeira está vazia”, disse. Assim, estimula a população a desrespeitar a quarentena, culpando governadores e prefeitos pela retração econômica e pelo desemprego, embora a situação esteja se agravando no sistema público de saúde, como em Manaus e Fortaleza, à beira do colapso. Seu novo ministro da Saúde, Nelson Teich, foi eclipsado. Não pode abrir a boca pra falar sobre o aconteceu no domingo. Não pode criticar Bolsonaro nem endossar suas ideias equivocadas.

O preço da pusilanimidade

O presidente Jair Bolsonaro assumiu de vez que é candidato a caudilho. Em comício para seus simpatizantes, de caráter escandalosamente golpista, anunciou: “Nós não queremos negociar nada. Queremos é ação pelo Brasil. Chega da velha política. Acabou a época da patifaria. Agora é o povo no poder. Lutem com o seu presidente”.

Não é possível dizer que Bolsonaro desta vez passou dos limites, pois, a rigor, ele já os havia ultrapassado quando, ainda militar, se insubordinou ou então, quando deputado, violentou o decoro parlamentar seguidas vezes. No primeiro caso, recebeu uma punição branda; no segundo, nem isso. Ou seja, a pusilanimidade das instituições ao lidar com Bolsonaro deu-lhe a segurança de que, para ele, não há limites, salvo os ditados por seu projeto autoritário de poder.


É reconfortante, no entanto, observar que, desta vez, integrantes de todas as instituições da República se manifestaram com firmeza contra mais essa afronta de Bolsonaro e de seus seguidores à democracia. Até mesmo o procurador-geral da República, Augusto Aras, que vinha se omitindo ante a escalada bolsonarista, anunciou a abertura de um inquérito para investigar “fatos em tese delituosos envolvendo a organização de atos contra o regime da democracia representativa brasileira”. O presidente não está entre os investigados, porque não há indícios de que tenha ajudado a organizar o comício, mas o simples fato de o procurador Aras ter qualificado como atentatório à democracia um ato que teve como sua estrela o presidente da República deveria ser suficiente para embaraçar Bolsonaro.

Mas será difícil constranger o presidente, cuja desconsideração pela opinião alheia, salvo quando é a dos filhos ou dos bajuladores que o cercam, é notória. Diante da repercussão negativa de seu discurso autoritário, o presidente, como sempre, tratou de minimizar o fato, insultando a inteligência de todos. No dia seguinte à afronta, Bolsonaro negou que tivesse atacado os demais Poderes e disse que, “no que depender do presidente Jair Bolsonaro, democracia e liberdade acima de tudo”.

Felizmente, nem a democracia nem a liberdade dependem de Jair Bolsonaro. Dependem, exclusivamente, do cumprimento da Constituição. Num arroubo à Luís XIV, Bolsonaro chegou a dizer: “Eu sou realmente a Constituição”. Não é. A Constituição é a materialização do pacto democrático, aquele ao qual todos se submetem, do mais humilde cidadão ao presidente da República.

Mas Bolsonaro, como sempre fez em sua trajetória política, está testando a disposição da sociedade de defender a ordem democrática por ele sistematicamente ameaçada. Pode-se quedar inerte diante das bravatas bolsonaristas, permitindo que se instaure um clima golpista, mas também se pode riscar uma linha no chão e dizer que, deste ponto em diante, é o terreno do intolerável.

Por isso, espera-se que o até agora silente ministro da Justiça, Sérgio Moro, faça jus à sua fama de inflexível cruzado da moralidade e da lei no exercício do serviço público e manifeste pelo menos desconforto diante do comportamento acintosamente impróprio de Bolsonaro na chefia da Nação. O mesmo se espera dos tantos ministros do presidente, militares reformados e da ativa, tidos como bedéis do governo, responsáveis por conter os muitos excessos de Bolsonaro. Até agora, contudo, predomina o silêncio - tão mais embaraçoso quando se recorda que o ato golpista protagonizado pelo presidente Bolsonaro, que é o comandante em chefe das Forças Armadas, ocorreu no Dia do Exército e diante do QG do Exército.

Consta que a afronta bolsonarista gerou mal-estar nas Forças Armadas, que não querem se ver vinculadas a movimentos que pedem a volta da ditadura militar e de medidas de exceção, como o famigerado AI-5, em franco desafio à Constituição. Para os generais, a guerra a ser vencida hoje não é contra os inimigos que Bolsonaro inventa todos os dias, mas contra o coronavírus.

Mas a guerra de Bolsonaro, já está claro, é contra as instituições da República e contra a maioria absoluta dos brasileiros, afrontados por um presidente que só se importa com o poder. Quem estiver na trincheira com Bolsonaro, seja no governo, seja em movimentos golpistas, vai se desmoralizar junto com ele.

Achatar as desigualdades

(...) Da parte de quem sempre defendeu políticas neoliberais, não vale a pena contar com um momento de iluminação socialista. Para salvarem a própria pele, políticos, comentadores e meios de comunicação que sempre defenderam a corrosão do Estado em benefício de interesses privados precisam, momentaneamente, da nossa disciplina sanitária. A COVID-19 não se detém às portas das suas vivendas. Nem às portas de hospitais privados que vivem das transferências do público ou de empresas que esmagam salários para arrecadar lucros. 


Mas a seguir aproveitarão a nossa aceitação da perda de instrumentos de trabalho e de acção colectiva – como o direito à greve. Basta olhar para o que tem escrito o director do jornal Observador para ver que os neoliberais não mudaram uma linha ao seu pensamento: mesmo pedindo subsídios ao Estado, querem manter o direito de despedir. Os únicos aliados em que vale a pena confiar são aqueles que, achatada a curva da contaminação, continuarão a trabalhar para achatar a curva das desigualdades. E isso só se faz lutando por justiça social, por políticas de emprego e de rendimentos robustas, por um SNS forte e por um ecossistema sustentável. Achatar as desigualdades
Sandra Monteiro

Quarentenando

Armando descobriu que sua maquina de lavar roupa tem cinco níveis de água. Enroscou-se. Pra que serve o menor nível d’água?

Pra lavar meias, arrisquei. Minha santa máquina, mais modesta, só oferece três níveis d’água. Um problema a menos na minha vida.

A lavadora superprogramável da Mirian rebelou-se. Só lava. Não enxágua, não enxuga. Parece, anda sentindo falta de sua costumeira operadora. A auxiliar doméstica de Mirian, no momento, em ausência compulsória.

Silvio conta que a quarentena pegou a família no meio de uma reforma – da cozinha. Sem saída (literalmente), ele e a mulher seguem quarentenando sem cozinha.

Joana, limpando armários, encontrou um precioso e perdido vidro de doce de leite uruguaio. Foi a alegria de sua sexta semana de prisão domiciliar.


Meu amigo Toni lamentou: Imagina se a gente depois de, lá pra trás, se acabar em sexo sem camisinha, morrer agora por um singelo aperto de mão.

Leila foi despertada na madrugada por Cris que, em crise de pânico, pedia socorro. Foram três segundos de susto. Não pela crise que poderia ser socorrida com uma ligação ao SAMU, mas pelo ressurgimento do Cris, ex tudo - amor, marido, amigo -, com quem não falava há anos.

Meio engasgada, fez a recomendação básica: respire! Era o que podia fazer. Ela vive em São Paulo, ele em Barcelona. Ele emendou algum respiro com uma declaração de amor.

Ela nem pode dizer que era tardia e despropositada. Fingiu que não entendeu e continuou recomendando: respire, respire, respire. Retomando o bom humor – e o ar -, Cris despediu-se: Infelizmente, esse seu respirador não me alcança. Riram. Foi refeito o contato.

Meu cachorro manifestou-se de direita. Faz de tudo pra quebrar a quarentena e chora quando ouve bateção de panela e gritos de Forabolsonaro! Felizmente os dois gatos, indicam, são de esquerda. Completamente solidários e atentos aos panelaços, focadíssimos no forabozo. Temos gastado madrugadas debatendo essas domésticas diferenças político-ideológicas.

Histórias – pequenas na causa e no tamanho - da confortável quarentenice da colegagem de classe média, onde, além do medo com o inusitado de tudo, pesam a impossibilidade de ir e vir, a trabalheira no constante e frenético limpar muito tudo – casa, compras, gavetas, cabeça, tronco e mãos. Não falta dinheiro, não falta conforto, não faltam família e amigos - ainda que só em lives.


Quem me relembrou disso tudo foi minha amiga Dora, quando me salvou de uma derrapada no baixo astral. “Sufoco de verdade a gente sabe bem onde está.”

Cada um de nós sabe bem onde está e qual é esse onde. Está na nossa rua, na esquina e segue periferias afora, nas grandes e pequenas cidades, no campo. São os brasileiros mais desiguais do que a desigualdade. Os sem quase tudo, os do dinheiro suado que passa ligeiro da mão pra boca. Os do sufoco diário de levar comida pra casa com um ou dois cômodos e muitas bocas.

São milhares. Sempre os mais ameaçados, desconsiderados. Na pandemia, seguem sendo. São números mal contados pela economia oficial, descartáveis pela saúde oficial. De ofício, ameaçados pela doença, pela desassistência, pela fome.

A propósito, meu neto Caio, de 16 anos, o down mais incrível do planeta, nas conversas quarentenárias sobre sufocos e desigualdades, declarou-se: Sou muito comunista!

Comunista? Jura?

Completamente.

Decameron, o humano obrigatório

“E a peste ganhou maior força porque dos doentes passava aos sãos que com eles conviviam, de modo nada diferente do que faz o fogo com as coisas secas ou engorduradas que lhe estejam muito próximas. E mais ainda avançou o mal: pois não só falar e conviver com os doentes causava a doença nos sãos ou os levava igualmente à morte, como também as roupas ou quaisquer outras coisas que tivessem sido tocadas ou usadas pelos doentes pareciam transmitir a referida enfermidade a quem as tocasse.” Boccaccio, Decameron (1348 e 1353)
Muito já a espécie humana viveu de lutas contra pandemias. Longa seria essa história com momentos de gravíssimas crises, com mortandades incontáveis, com sofrimentos indescritíveis. Uma das mais graves e que maiores marcas deixou no nosso imaginário foi a chamada Peste Negra, que teve o seu momento máximo no século XIV, tendo sido erradicada apenas no séc. XIX.

É a essa pandemia que hoje quero regressar através de uma das maiores obras da literatura, o Decameron de Boccaccio. Nunca como hoje se tornou tão atual ler este clássico que nos descreve a própria peste, a forma como ela grassava e, acima de tudo, as múltiplas respostas dadas pelas populações atacadas.

Uns retiravam-se para um verdadeiro exílio, procurando numa vida virtuosa e sem pecado sobreviver ao contágio, enquanto outros afirmavam que era pelo quebrar dos limites morais que se conseguiria sobreviver. Uns e outros buscavam loucamente a sobrevivência nos limites do humano.


É nesse ambiente, propício a místicas de intensidades imediatas, onde procissões e orações se repetiam, que Boccaccio nos dá um quadro de um grupo de dez jovens, sete damas, “formosas e dotadas de bons costumes e elevada dignidade”, e três cavalheiros, “bastante agradáveis e [também] de bons costumes”, que nos narram cem contos.

“Que fazemos aqui? Que esperamos? Que sonhamos?” questiona Pampineia, uma das sete donzelas, logo no arranque do debate. É esta a tónica das narrativas que cada um irá fazer ao longo do tempo, sempre em busca da natureza humana, dos amores, das paixões e dos valores, mas também dos ódios e mesquinhices, das traições e invejas.

É o regresso que hoje nos faz falta, entre tanta informação que temos. Urge, em cada ser que somos, ir a fundo nas questões existenciais a que este confronto com a morte nos obriga. Um confronto que é com o estabelecido, com o que julgamos acertado e mesmo adquirido, com o que julgamos ser o humano e os valores pelos quais nos regemos.

Basta seguir Boccaccio:

“… como o é a dolorosa lembrança da última peste, com que ela se inicia, para todos os que a viram ou que de algum outro modo souberam de seus estragos. Mas não quero que isso as assuste e impeça de prosseguir, como se, lendo, houvessem de estar sempre entre suspiros e lágrimas. Este horripilante início não deve ser diferente do que é para o caminhante a montanha acidentada e íngreme, atrás da qual se encontre uma planície belíssima e amena, que lhe parecerá tanto mais agradável quanto maior tiver sido o padecimento da subida e da descida. E, assim como os confins da alegria são ocupados pela dor, as misérias têm seus limites no contentamento que sobrevém.

A este breve aborrecimento (digo breve porque contido em poucas linhas) seguem-se logo o deleite e o prazer já prometidos, que talvez não fossem esperados de tal início, caso isto não fosse dito. Na verdade, se me tivesse sido possível levá-las convenientemente àquilo que desejo por outro caminho, e não por esta senda tão árdua, eu o teria feito de bom grado: mas como, sem esta rememoração, não seria possível explicar por qual razão ocorreram as coisas que a seguir serão lidas, disponho-me a descrevê-las como que impelido pela necessidade.

Digo, pois, que os anos da frutífera encarnação do Filho de Deus já haviam chegado ao número 1348 quando, na insigne cidade de Florença, a mais bela de todas as da Itália, ocorreu uma peste mortífera, que – fosse ela fruto da ação dos corpos celestes, fosse ela enviada aos mortais pela justa ira de Deus para correção de nossas obras iníquas – começara alguns anos antes no lado oriental, ceifando a vida de incontável número de pessoas, e, sem se deter, continuou avançando de um lugar a outro até se estender desgraçadamente em direção ao ocidente.

E, de nada havendo servido os saberes e as providências humanas, como a limpeza das imundícies da cidade por funcionários encarregados de tais coisas, a proibição de entrada dos doentes e os muitos conselhos dados para a conservação da salubridade, e tampouco encontrando efeito as humildes súplicas feitas a Deus pelos devotos, não uma vez, mas muitas, em procissões e de outros modos, era já quase início da primavera do ano acima quando começaram a manifestar-se de maneira prodigiosa seus horríveis e dolorosos efeitos.”
Há muitas edições online, livres de qualquer custo.

Basta ler, por exemplo, no exemplar da Biblioteca Particular de Fernando Pessoa, que está online

terça-feira, 21 de abril de 2020

Nos tempos de Pinochet

Evitei sempre tocar no tema da prisão durante a ditadura chilena. Evitei, porque, por um lado , a vida sempre foi apaixonante e digna de ser vivida até ao último suspiro, pelo que tocar num acidente tão obsceno era uma vil forma de a ofender. E, por outro lado, porque se escreveram demasiados - infelizmente, na sua maioria , muito maus - testemunhos a esse respeito.
Dois anos e meio da minha juventude passei-os encerrado numa das mais miseráveis prisões chilenas , a de Temuco.

O pior de tudo não era o encerramento em si mesmo, pois lá dentro a vida continuava, e às vezes mais interessante do que fora. Os " prigué" - prisioneiros de guerra - com mais preparação- e lá estava todo o corpo docente das universidades do sul - formaram várias academias , e assim muitos de nós aprenderam línguas, matemáticas, física quântica, história universal, história de arte, história da filosofia. Um professor de apelido Iriarte orientou durante duas semanas um magnífico seminário sobre Keynes e o pensamento político dos economistas contemporâneos, a que assistiram, além de uma centena de presos , vários oficiais do exército. Andrés Müller, jornalista e escritor , dissertou sobre os erros tácticos dos comunards de Paris perante a estupefacção da soldadesca que guardava a oficina de calçado, baptizada por nós como Gran Salón del Ateneo de Temuco. Outro ilustre prigué, Genaro Avendaño - " desapareceram-no" em 1979 -, emocionou presos com uma dramatização de Unamuno em Salamanca.

O meu grande orgulho é saber que não esqueço nem perdoo aos seus verdugos






Até chegámos a ter uma pequena biblioteca com títulos que lá fora eram proibidíssimos, graças à curiosa censura praticada pelo sargento encarregado de filtrar os livros que nos mandavam os familiares e amigos. Nunca deixámos de lhe agradecer que catalogasse entre os livros de primeiros socorros o exemplar de Las venas abiertas de América Latina que ornamentava a biblioteca. Até aulas de alta cozinha nós tivemos. Como esquecer a paixão de Julio Garcês , ex-cozinheiro do Club de La Unión, a Meca da aristocracia chilena, quando defendia a subtil gordura do coelho como insubstituível na preparação de um bom molho de fígado do mesmo animal, e insistia que era fundamental cozinhar o molho de congro com o mesmo vinho branco que depois alegraria a mesa. Anos depois encontrei Garcés na Bélgica. Era o chef de um prestigiado restaurante de Bruxelas, e mostrou-me com orgulho os dois diplomas com que o guia Michelin premiara a sua arte culinária.

(...)Novecentos e quarenta e dois dias durou a permanência naquela terra de todos e de ninguém. Estar dentro não era o pior que nos podia acontecer. Era mais uma forma de estar de pé na vida. O pior vinha quando, mais ou menos de quinze em quinze dias, nos levavam ao regimento de Tucapel para os interrogatórios. Então compreendíamos que por fim chegávamos a lado nenhum.

*


Os militares tinham um conceito bastante elevado da nossa capacidade destruidora. Perguntavam-nos acerca de planos para assassinar todos os oficiais da história militar da América para fazer ir pelos ares pontes e sepultar túneis , e para preparar o desembarque de um temível exército exterior que não podiam identificar.

Temuco é uma cidade triste, cinzenta e chuvosa. Ninguém diria que é apta para o turismo, e no entanto o regimento de Tucapel chegou a ser uma coisa assim como uma permanente convenção internacional de sádicos. Nos interrogatórios, além de militares chilenos que mal por mal eram os anfitriões , participavam também símios da inteligência militar brasileira - eram os piores -, norte-americanos do Departamento de Estado, paramilitares argentinos , neofascistas italianos e até uns agentes do Mossad.

Como esquecer Rudi Weismann, chileno, amantes do sul e dos veleiros, que foi torturado e interrogado no doce idioma das sinagogas? Rudi que arriscou tudo por Israel - participou num Kibutz mas foi mais forte a saudade da Terra do Fogo e regressou ao Chile -, não foi capaz de suportar aquela infâmia. Não conseguiu entender que Israel apoiasse aquela pandilha de criminosos, e Rudi Weismann, que sempre foi um monumento ao bom humor, tornou-se seco como uma planta esquecida. Certo amanhecer encontrámo-lo morto no saco de dormir. A sua expressão tornou desnecessária qualquer autópsia: Rudi Weismann morrera de tristeza.

O comandante do regimento de Tucapel - e não cito o seu nome por um elementar respeito ao papel - era um fanático admirador do marechal Rommel. Quando simpatizava com um prisioneiro convidava-o a restabelecer-se dos interrogatórios no seu escritório. Lá, depois de lhe garantir que tudo o que acontecia no regimento servia os sacrossantos interesses da pátria , oferecia-lhe um cálice de Korn - alguém lhe mandava da Alemanha o insípido licor de trigo e obrigava-o a ouvir uma conferência sobre o Africakorps. O tipo era filho ou neto de alemães, mas o seu aspecto não podia ser mais chileno: rechonchudo, pernas curtas, cabelo escuro e rebelde. Podia muito bem passar por camionista ou vendedor de frutas , mas ao falar de Rommel transformava-se na caricatura de um guarda hitleriano.

(...) Regimento Tucapel. Intendência. No fundo verde do monte Ñielol, sagrado para os Mapuches. A sala de interrogatórios era precedida por uma sala de espera , como numa consulta médica. Sentavam-nos num banco com as mãos atadas nas costas e um capuz preto na cabeça. Nunca percebi a razão do capuz, porque uma vez lá dentro, tiravam-no e podíamos ver interrogadores, os soldaditos que, com expressão de pânico giravam a manivela do gerador eléctrico, os enfermeiros que colavam os electrodos no anus, nos testículos , nas gengivas na língua , e depois auscultavam para decidir quem fingira e quem desmaiara realmente na grelha.
(...)

*
Num dia de Junho de 1976 acabou a viagem a lado nenhum. Graças às diligências da Amnistia Internacional saí da prisão e, embora rapado e com menos vinte quilos, enchi os pulmões com o ar denso de uma liberdade limitada pelo medo de a perder novamente. Muitos dos camaradas que ficaram lá dentro foram assassinados pelos militares . O meu grande orgulho é saber que não esqueço nem perdoo aos seus verdugos.
Luís Sepúlveda, "Patagónia Express". O escritor chileno morreu na semana passada pelo coronavírus 

E como trabalham!!!

As Forças Armadas trabalham com o propósito de manter a paz e a estabilidade do país, sempre obedientes à Constituição Federal
Fernando Azevedo e Silva, ministro da Defesa

O ar do vírus e do golpismo

Bolsonarismo aula zero: técnica desviante. Apertou aqui, abre-se outro pasto para o gado mugir ali. O presidente é mestre em lançar o que se chama de cortina de fumaça. Sob forte pressão, acuado pelas consequências de suas escolhas irresponsáveis ante a peste, informado de que seu comportamento sociopata no curso de crise sem precedentes lhe esvazia a base social, Jair Bolsonaro reage cultivando modalidade de conflito que o coloque em zona de conforto e atraia a atenção da sociedade a um ponto distante daquele em que se dá seu grotesco chamamento a que o povo vá às ruas respirar o vírus.

Bolsonaro é um girassol publicitário cujo sol é o pulso das redes. Esse é o termômetro do populista do século XXI. Ele decerto se baliza em pesquisas. Não apenas as que apontam perda de apoio em decorrência de haver se referido à Covid-19 como gripezinha; mas também as que lhe indicam o remédio para minimizar o estrago: o discurso lavajatista de combate à corrupção, de criminalização da atividade política e de luta contra o sistema “patife”.

O lavajatismo é o mais eficaz agente aglutinador que atua no país. É o próprio espírito do tempo. A melhor materialização da mentalidade autoritária a que vamos submetidos sem nem sequer perceber — a mesma que concorreu decisivamente para a eleição de Bolsonaro. Ele sabe que a sociedade tem raiva da figura do político e aversão à ideia de elite política. De modo que, quando ante a mais mínima desmobilização de sua militância, logo sopra o apito lavajatista. Opera assim com maestria.


Não é, portanto, que seja o popular, o amado, centro irradiador de popularidade e atração. Não. Com rara capacidade para identificar oportunidades e com extraordinária vocação para interpretar, Bolsonaro se associa a demandas populares, aquelas que disparam o gatilho da comoção,e as incorpora. Faz isso há décadas — e, sob todos os holofotes, diariamente, há 16 meses.

Fico perplexo com a constatação de que haja alguém ainda surpreso com o comportamento revolucionário — palavra que, registro, tenho na pior conta — do presidente no último domingo. O sujeito procede dessa maneira desde que assumiu, líder escancarado de um fenômeno reacionário de ímpeto para a ruptura. Alegoricamente, está sobre um carro (poderia ser boleia de caminhão), diante de quartel, projetando discurso autocrático a uma plateia que pede intervenção militar e ostenta pregações por fechamento do Congresso e do Supremo, desde que assumiu.

A fala de domingo expõe — novamente — a noção precária e inconformada do bolsonarismo sobre o que seja a democracia liberal. Vontade popular, para Bolsonaro, é a vontade de seus apoiadores — e a isto se reduz o povo: a seus apoiadores. Essa vontade popular compreende o fato de o sujeito haver sido eleito como ordem, mandato mesmo, para que os demais Poderes se submetam aos desejos do que seria, pois, um imperador.

O bolsonarismo é campanha permanente — campanha no sentido de guerra. Campanha para submissão.

Sob essa lógica totalitária, num mecanismo de espantosa inversão de valores, o exercício garantidor dos freios e dos contrapesos — símbolo da ponderação republicana que controla a força excessiva — torna-se uma espécie de traição, de conspiração do sistema contra o presidente; o presidente, que se confunde com a vontade popular até se converter mesmo na vontade popular. O presidente: o povo no poder. O presidente: eu sou a Constituição.

Por isso Bolsonaro (diz que) não negocia. Não negocia (é mentira) porque se impõe. Essa é a fantasia do populista autoritário.

O bolsonarismo aposta pesadamente no estabelecimento de uma cultura plebiscitária entre nós. Puro chavismo. O objetivo é minar o edifício da democracia representativa para tornar descartável a ideia de Parlamento. Qual seria a necessidade desse tipo de intermediação, se o líder pode falar diretamente a seu povo?

Bolsonaro é forja de inimigos, usina de conflitos — o gerador de instabilidades. Era assim antes da peste, em tempos de paz. Se o tempo vira e é de crise, será a crise dentro da crise. Nunca houve dúvida de que radicalizaria. Quer o choque e investe na desordem.

Não me surpreenderei se, instalada a depressão econômica, afundado o Brasil enfim na ingovernabilidade que ele próprio forja, de resto propagando teorias conspiratórias e acusando até a Corte Máxima de tramar golpe contra si, Bolsonaro decretar medida extrema, como estado de sítio. Uma provocação para que o Congresso reaja, derrube o decreto, promova o que seria choque institucional violento — daí irrompendo o caos social, a desobediência civil, a anomia em meio à pandemia. O golpismo está no ar tanto quanto o vírus.

Aliás, tendo falado sobre chavismo, alerto para a possibilidade de o apoio armado com que conta o bolsonarismo não ser o militar; mas o de milícias como aquelas que se amotinaram, contra o Estado, no Ceará. Atenção a isso.

Crise pode jogar 15 milhões na pobreza extrema no país

Com o período de confinamento afetando emprego e renda, o novo coronavírus pode empurrar mais 5,7 milhões de brasileiros para a pobreza extrema caso o governo não consiga efetivamente ampliar seus programas sociais e não consiga apoiar as empresas a manter empregos.

Isso representaria elevação de 60% na pobreza extrema no país, para 15 milhões de pessoas vivendo com menos de US$ 1,90 per capita por dia, segundo cálculos do Banco Mundial obtidos pelo Valor. Essa é a linha de pobreza usada para países de renda média como o Brasil. Dessa forma, a taxa de pobreza extrema (proporção em relação ao total da população) cresceria de 4,4% no ano passado para 7% neste ano.

O Banco Mundial também estimou o potencial aumento de uma linha de pobreza mais “branda”, de US$ 5,50 per capita por dia. Por esse recorte, a taxa de pobreza cresceria de 19,5% em 2019 para 22,4% em 2020. Seriam 6,2 milhões a mais de brasileiros pobres por esse recorte.


Francisco Ferreira, pesquisador sênior e coordenador do Programa de Pesquisa em Pobreza e Desigualdade do Banco Mundial, afirma que os cálculos estão baseados no cenário de queda de 5% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2020, atual projeção da entidade para o Brasil.

“Não se pode menosprezar o tamanho do desafio. Uma queda de produto e renda de 5% obviamente é um choque colossal, principalmente porque não tínhamos sequer recuperado o que perdemos em 2015-16”, diz Ferreira, economista que fica sediado em Washington.

Ele explica que esse impacto econômico da crise do novo coronavírus afeta mais o trabalhador informal, principalmente no setor de serviços. Sem trabalho e sem receber seguro-desemprego, esse trabalhador e sua família estão numa situação de altíssimo risco, afirma o economista.

“Sem uma resposta de política pública, que felizmente aconteceu, teria muito mais gente passando fome mesmo. Não tenho a menor dúvida que a pandemia contribui para um aumento da desigualdade de renda, no Brasil e no mundo. A questão é quanto tempo esse aumento vai durar.”

O governo anunciou pagamento de R$ 600 para trabalhadores sem emprego formal com renda per capita de até meio salário mínimo (R$ 522,50) ou familiar de até três salários mínimos (R$ 3.135). A Caixa pagou em auxílio emergencial R$ 12,2 bilhões a 17,9 milhões de pessoas em operações realizadas até às 12 horas de ontem.

Além disso, o governo anunciou medidas para evitar perdas de empregos com carteira de assinada, como a diminuição da jornada de trabalho, com redução de salário de até 70%. A antecipação do seguro-desemprego vai recompor parte da redução dos salários de trabalhadores.

Ferreira destaca a importância do capacidade institucional de política social desenvolvida a partir da implantação do programa Bolsa Família e da criação do Cadastro Único de programas sociais, há 18 anos. Sem isso, seria impossível, ele diz, fazer a renda chegar rapidamente às pessoas mais pobres.

“Felizmente, o governo reagiu de várias maneiras, inclusive com o fim da fila de espera do Bolsa Família e a renda básica de R$ 600 por mês. Se efetivamente distribuída, essa transferência pode ser muito eficaz no combate a esse aumento de pobreza, podendo até neutralizá-lo.”

A rápida operacionalização dessas políticas, porém, é um grande desafio. Cuidadora de idosos, Mayara da Silva Fernandes, moradora do Complexo do Lins, favela do Rio, aguarda há mais de duas semanas a aprovação de seu nome pela Caixa para receber o benefício de R$ 600.

“Estou sem renda do trabalho de cuidar de idosos. Meu marido vendia minipizza nas ruas do Rio e está também sem renda. Temos uma filha de 11 anos. Estamos sem nada. Pegamos um cesta básica na comunidade. Estamos agora pela misericórdia”, disse.

Além do aumento da pobreza, a crise econômica provocada pelas medidas de enfrentamento ao coronavírus deve aumentar a desigualdade de renda no Brasil - assim como no restante do mundo. Ferreira diz que a o vírus afeta de forma desigual a parcela mais pobre e mais rica da população.

“Há quem chame as pestes europeias da Idade Média de ‘grandes niveladoras’ já que, supostamente, matavam reis e camponeses indiscriminadamente. Não sei se era verdade naquela época, mas infelizmente sabemos que não é verdade no caso do novo coronavírus”, afirma o pesquisador.

Ele explica que o trabalhador mais qualificado - em geral mais rico - tem mais condições de usar o trabalho remoto para continuar empregado e com renda, apesar da paralisação da economia. Além de ter maiores reservas financeiras para atravessar períodos ruins.

Para ele, a crise do coronavírus tornou muito clara a necessidade de um programa voltado para o risco de renda e trabalho do trabalhador informal e de conta própria (como o MEI). São trabalhadores sem a proteção e benefício do emprego formal.
 Bruno Villas Bôas