sexta-feira, 2 de junho de 2017

Quem matou a cidadania?

Tal qual um acidente de avião, o assassinato da cidadania não foi obra de uma pessoa só nem produto de uma circunstância apenas. Foi obra coletiva de erros e omissões. Resulta de questões cumulativas que vão se organizando durante anos, décadas, e vão corroendo nosso sistema.

Se tivermos, porém, que apontar um vilão inicial, faremos isso facilmente: a fragilidades dos princípios. O Brasil é um país sem princípios e, em consequência, é movido por interesses específicos. Os princípios são o conjunto das regras explícitas e implícitas que fundamentam o funcionamento de uma sociedade – e o conjunto de nossos princípios é frágil.
Os princípios do bem comum não são apenas ignorados, sequer são percebidos. Já que não existe a cultura do comum, do coletivo, a educação se destina à mínima sobrevivência. Não é orientada para a dignidade, e sim para o salve-se quem puder.

Tudo aqui, para a maioria, é seu ou é de ninguém. Ninguém está comprometido com nada do que não seja absolutamente seu. E o que é de ninguém, como no faroeste, pode ser meu. Mas, o pior de tudo, é não poder consumir. Ser cidadão no Brasil não é fazer política nem votar: é ter um crediário nas Casas Bahia ou na Ricardo Eletro.

Políticos fazem negociatas para enriquecer e/ou sustentar esquemas políticos. Quando o fazem pela política, justificam os meios pelos fins. Só que, no raso, também gostam dos meios. Para um político poderoso, nada melhor do que colocar um potentado de joelhos obrigando-o a dar dinheiro para alimentar os seus caprichos.

O PT e suas esquerdas aceitavam o roubo como parte de um processo de transformação da sociedade. A cidadania é relativizada pelos interesses dos poderosos. E quem são os poderosos? A burocracia corporativista, o empresariado corruptor e os políticos corruptos. Em associação, expoliam e exploram a sociedade. Impedem o progresso.

Outro dia, em um evento social, eu disse que considerava um absurdo a escolha baseada em listas tríplices para a Procuradoria-Geral da República. Um indignado promotor refutou: e a classe? Não é a classe que interessa à cidadania, já que a classe se organiza para explorar os cofres públicos com férias, auxílio-moradia, auxílio-paletó, planos de saúde generosos e aposentadorias escandalosas.

Também acho uma tragédia os sindicatos que financiam o pão com mortadela e os almoços nas churrascarias de Brasília depois de promoverem baderna na Esplanada. Tudo com o generoso imposto sindical pago por trabalhadores que não foram convidados para o churrasco.

Outro horror são os partidos nanicos que compram helicópteros e aviões com a verba do Fundo Partidário ou alugam jatinhos para seus presidentes irem a São Paulo e não terem de enfrentar o desconforto do encontro com a suarenta patuleia cidadã que se aglomera nos aeroportos. O Tribunal Superior Eleitoral deveria, liminarmente, cassar o registro dessas legendas. O que falta para tal?

Quem matou a cidadania? Fomos nós, que não queremos ir para a política. Que queremos aposentadorias especiais e nos tornamos concurseiros profissionais até que a sorte grande de um trabalho bem remunerado e de baixo impacto nos abençoe com uma vida mansa e farta.

Será que odiamos os que correm riscos? Acho que sim. Nossos riscos já estão identificados: obter boa nota no Enem, tirar carteira de motorista, fugir de blitz e passar em um concurso público, já que ser cidadão em um país sem princípios é correr riscos e viver na mão de políticos, burocratas e corporações de interesses. Para muitos, é melhor ficar do lado deles que do lado de cá.

O conforto da fantasia

O lugar escolhido para o lançamento do “Plano Popular de Emergência”, proposto pela Frente Brasil Popular para “restabelecer a ordem constitucional democrática, defender a soberania nacional, enfrentar a crise econômica, reverter o desmonte do Estado e salvar as conquistas históricas do povo trabalhador”, não poderia ser mais apropriado: um teatro.

É difícil encontrar o que não seja ficção ou encenação nos 76 itens do tal plano, apresentado no Tuca, o teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, na noite de segunda-feira passada. Mas não havia o menor risco de que alguém ali cometesse a indelicadeza de lembrar que tudo o que consta do plano contraria a realidade. Afinal, a plateia, formada por representantes de diversos movimentos sociais, estava ali para aplaudir a farsa.

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Refugiados nas suas fantasias, os petistas e seus associados, mesmo depois de tudo o que protagonizaram desde 2003, quando Lula da Silva chegou ao poder e deu início a essa era trevosa cujos efeitos ainda se fazem sentir um ano depois de encerrada, consideram-se aptos a apresentar soluções para resolver os graves problemas econômicos, políticos e morais que eles mesmos criaram. Seria uma comédia se não fosse uma tragédia – pois ainda há quem acredite nesse teatro do absurdo.

No “Plano Popular de Emergência” da Frente Brasil Popular – um consórcio de gângsteres sindicais, agitadores profissionais, baderneiros em geral e inocentes úteis a serviço do PT – lê-se que seu objetivo é “inverter, no mais curto espaço de tempo, os indicadores econômicos, sociais e políticos que resultaram do interregno golpista”. Isto é, para esses bufões, a profunda crise em que o País está metido é obra do atual governo, que tem apenas um ano, e não dos governos petistas, que ficaram longuíssimos 13 anos no poder.

Mas a afronta à realidade não termina aí. Depois de ter ajudado o governo petista a arruinar a economia nacional, a trupe que se apresentou naquele palco garante ser capaz de “implementar um projeto nacional de desenvolvimento que vise a fortalecer a economia nacional” e promover “o desenvolvimento autônomo e soberano”. Para isso, em primeiro lugar, eles defendem “a revogação de todas as medidas de caráter antipopular, antinacional e antidemocrático aprovadas durante o governo usurpador” – justamente as ações que reduziram o ritmo de destruição das contas públicas e restituíram um pouco de credibilidade à administração federal, depois de anos de pedaladas, contabilidade criativa e política econômica doidivanas.

No faz de conta da Frente Brasil Popular, tudo é muito simples. Basta adotar “uma nova política econômica, tendo como vetor o desenvolvimento, adequando as taxas de juros, o câmbio e a política fiscal à realidade da economia brasileira e dentro de padrões internacionais, buscando elevar os investimentos a 25% do PIB no prazo de quatro anos”. A menção à “realidade”, aqui, é apenas um “caco” – isto é, uma palavra introduzida pelo ator em sua fala para gerar efeito cômico. Pois todo o resto do tal “plano de emergência” é um compilado da política dolosamente irresponsável de Lula da Silva e de Dilma Rousseff.

Lá estão os mesmos erros fundamentais da “nova matriz econômica” petista, desde “a adoção de um plano de desenvolvimento industrial que articule investimentos estatais, política cambial, créditos de bancos públicos e incentivos à iniciativa privada” até a “expansão e barateamento do crédito para produção e consumo (...) em movimento comandado pelos bancos públicos”, passando pelo “restabelecimento das regras de conteúdo nacional na indústria de petróleo e gás, extensiva ao setor elétrico e minerário”, sem falar, é claro, da “expansão de gastos e investimentos sociais”.

Não se pode subestimar a capacidade que essa trupe tem para angariar simpatia, pois eles sabem muito bem vender suas miragens. Em tempos de crise aguda, como o atual, é muito mais confortável acreditar nos desvarios dessa gente inconsequente do que aceitar a aridez do mundo como ele é.

Editorial - O Estadão

Paisagem brasileira

Criança em Vila Flávia (SP), Nacho Doce

Só há vilões no faroeste a caminho do final felizmente infeliz

Na próxima semana, o Tribunal Superior Eleitoral começará a encenar o desfecho da ação movida pelo PSDB contra a chapa formada em 2014 por Dilma Rousseff e Michel Temer ─ um faroeste à brasileira escrito, produzido, dirigido e protagonizado exclusivamente por vilões. Não há mocinhos nesse filme que começou logo depois da última eleição presidencial, quando o senador Aécio Neves teve a ideia de pedir a cassação da dobradinha vitoriosa, e se aproxima do final felizmente infeliz. Todos os protagonistas sairão perdendo. O país que presta será o vencedor.

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Aécio recorreu à Justiça não por sentir-se vítima de práticas ilegais, nem por acreditar que o resultado fora fraudado: como revelou na conversa gravada por Joesley Batista, queria apenas encher o saco daquela gente que não parava de sacaneá-lo. A molecagem que deu no que deu. Neste começo de junho, Aécio está com o mandato de senador suspenso, corre o risco de ser alojado na gaiola e condenou-se à morte política. Descansará num jazigo semelhante ao que abriga Dilma Rousseff, despejada do Planalto pelo impeachment.

Os adversários que duelaram há dois anos e meio logo terão a companhia de Michel Temer. Antes das delações da Odebrecht e da JBS, o presidente hoje agonizante argumentava que não fazia sentido ser castigado pelo que fizera a parceira de chapa. Depois dos espantos deste outono inverossímil, está claro que o prontuário do vice só não superou em quantidade e qualidade a notável folha corrida de Dilma e a imbatível capivara de Lula. Este sim fez o diabo para desfrutar do poder durante 13 anos, cinco dos quais fazendo de conta que o país era governado pelo poste que fabricou.

Temer teima em prorrogar o prazo de validade de um governo que acabou. Todos os brasileiros sabem que trava uma batalha perdida ─ com exceção dos bebês de colo, das tribos isoladas na selva amazônica, dos doidos de hospício, da família Temer e, claro, do ministro Gilmar Mendes. O Brasil nunca foi para amadores. Começa a tornar-se indecifrável para profissionais.

Temer virou uma ameaça ao sucesso de Temer

Em meio a um cenário de degradação moral, o IBGE pendurou nas manchetes uma boa notícia econômica: o PIB cresceu 1% no primeiro trimestre, em comparação com o quarto trimestre de 2016. Foi o primeiro dado benfazejo depois de dois anos de resultados negativos. Michel Temer apressou-se em levar os lábios ao trombone: “O Brasil saiu da recessão.” O presidente levou à internet um vídeo festivo (assista acima).

Num país em que os desempregados são contados em 14,3 milhões, a notícia do IBGE representa, de fato, uma lufada de ar. Mas Temer talvez devesse moderar a queima de fogos. A própria gerente de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis, declarou que é cedo para celebrar o fim da recessão: ''É preciso esperar para ver um pouco o que vai acontecer neste ano. A gente teve crescimento no trimestre, mas foi sobre uma base muito deprimida. E, se olharmos no longo prazo, ainda estamos no mesmo nível de 2010.''

Charge O TEMPO 2.6.2017

Na véspera, o Banco Central anunciara um novo corte de um ponto percentual na taxa básica de de juros. O relatório que expôs a novidade alertou para a “incerteza” em relação ao que está por vir. O texto referia-se claramente à crise política que submete o país ao risco de queda de um presidente da República cuja antecessora foi deposta há menos de dez meses. Na visão do BC, a conjuntura põe em dúvida a aprovação de reformas como a da Previdência —algo que pode envenenar o ambiente econômico e comprometer uma redução dos juros com a rapidez imaginada.

Temer tornou-se uma espécie de personificação do paradoxo. Investigado no Supremo Tribunal Federal sob a suspeita de ter cometido os crimes de corrupção passiva, obstrução de Justiça e formação de organização criminosa, o presidente é, no momento, a principal ameaça à recuperação econômica que atribui a si mesmo: é o “resultado das medidas que estamos tomando”, afirmou, sem levar em conta as providências que deixou de tomar para evitar que o melado escorresse para dentro dos palácios do Planalto e do Jaburu.

Diretas Já do PT é golpe e empulhação

A petezada pirou de vez. Agora vai às ruas pedir diretas já como se o país não vivesse na sua plenitude democrática. Como se o vice tivesse chegado ao poder por via indireta, sem voto, dando um golpe na Constituição. Esses lunáticos petistas acham ruim tudo que não é bom para eles. Quando perderam as eleições, foram às ruas e derrubaram o Collor (Lindbergh estava lá com os caras pintadas). Aceitaram o Itamar como governo de transição. E depois esperaram oito anos para chegar ao poder. Na presidência destroçaram a economia, promoveram o maior escândalo de corrupção do mundo e deixaram um legado de 14 milhões de desempregados.

Mas o pior veio a galope: a Comissão de Constituição e Justiça caiu no conto do paco do senador Lindbergh Faria e aprovou Emenda à Constituição que prevê a realização de eleição direta para presidente e vice-presidente da República se os cargos ficarem vagos nos três primeiros anos de mandato. Atualmente a Constituição determina apenas se a vacância ocorrer nos dois primeiros anos. O único senador que teve coragem de peitar o casuísmo foi o Ricardo Ferraço (PSDB-ES). O resto – que é resto mesmo! – embarcou no conto do vigário do PT e aprovou a emenda. Essa CCJ, sem dúvida, é a mais imbecilizada e corrupta de que se tem notícia na história do Congresso Nacional.

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A PEC, se aprovada no plenário, simplesmente antecipa as eleições. Como a petezada que evitar que o Lula vá para a cadeia, eles agora vão se organizar para tocar fogo no país e sair por aí pregando as diretas já como se as instituições brasileiras estivessem trincadas. Querem porque querem trazer de volta a organização criminosa chefiada por Lula, Palocci e Zé Dirceu para acabar com o que ainda resta do país. Dessa vez – pasmem! – com a conivência de alguns senadores idiotizados que integram essa CCJ desmoralizada.

A petezada e seus lunáticos torcem para o quanto pior melhor. Não se conformam terem sidos banidos do poder como ladrões e chefes de quadrilha, como vem dizendo o juiz Sérgio Moro em suas sentenças e o STF quando julgou o mensalão. Eles acham, por fanatismo, que o Lula é o Messias que veio ao mundo para salvar a humanidade das ovelhas negras. Não querem que o vice que eles mesmo elegeram governe. Provocam movimentos populares para enganar os mais incautos. Tentam parecer democrático quando na verdade não passam de tiranos golpistas que, quando não ganham no voto, tentam incendiar à nação. Não enxergam – porque são ignorantes politicamente e despreparados – que o caminho para sair da crise é ter as instituições fortalecidas. Quebrá-las só interessa aos vândalos, aos déspotas e os oportunistas. Eleições fora de hora é golpe, simplesmente golpe. E mesmo assim, a CCJ deixou-se levar no grito. Alguma coisa esses senadores estão armando, porque boa parte dessa comissão está enrolada na Lava Jato.

O Brasil está acostumado a conviver com vices desde Floriano Peixoto. Na Nova República conviveu com Sarney e Itamar que concluíram seus mandatos sem quebrar a normalidade democrática. Se conseguiram administrar bem o país ou não são outros quinhentos. Terminaram seus mandatos aos trancos e barranco sem ferir os preceitos constitucionais. Ressalve-se, contudo, que Itamar botou o país nos eixos ao criar o Plano Real.

A petezada esconde-se no manto da farsa. Quer trazer de volta os gritos das ruas pelas eleições diretas, a exemplo do que ocorreu nos idos de 1980, como um apelo popular para legitimar os seus atos de vandalismo. Acha que pode arrastar multidões por uma causa que eles consideram nobre, quando, na verdade, não passam de golpistas, oportunistas e incendiários. Por trás de toda essa “pelegância”, o capo tutti capi Luis Inácio que vem tentando evitar a primeira condenação ameaçando tocar fogo no país se isso ocorrer pelas mãos de Sérgio Moro. A própria Polícia Federal já interceptou conversa dele com seu pupilo Lindbergh onde eles tramam levar as centrais e os sindicatos às ruas para provocar badernas e criar um clima de instabilidade política.

O mais triste de tudo isso é assistir um monte de artistas – muitos deles que estiveram engajados na redemocratização do país na época da ditadura – clamando para que o povo se manifeste contra um governo que o PT agora considera ilegal, mas o escolheu como comparsa durante os dois mandatos da Dilma. Gritar diretas já nas ruas é compactuar com a organização criminosa que assaltou a nação, provocou a tragédia do desemprego e destroçou a economia. Mais de trinta anos depois da Direjas Já (com caixa alta), o movimento cívico e pacífico que aglutinou o povo contra a ditadura, surge agora uma quadrilha de criminosos tentando fazer do povo massa de manobra para levá-lo a uma tragédia anunciada.

Se você não quer mais que seu país seja governado por criminosos e assaltantes dos cofres públicos, diga não a essas diretas fajutas, oportunista e golpista. Está provado que o voto, apenas o voto, não livra ninguém de bandidos políticos. Se assim fosse, o país não tinha desmilinguido nas mãos de Lula/Dilma, os mais corruptos e venais presidentes que já governaram o Brasil.

Gente fora do mapa

Dany Krom

Operação Carne Muito Fraca

O Brasil viu o PT criar o monstro JBS e ficou calado. O Brasil viu o monstro emboscar um presidente e depois voar livre para Nova York. Cadeia para o Brasil.


O que os companheiros Janot e Fachin consideraram suficiente para abrir investigação contra Michel Temer é um soluço diante daquilo que, durante dois anos, acharam insuficiente para abrir investigação contra Dilma Rousseff – a presidente do petrolão. A incrível rapidez dessa operação (que poderia se chamar Carne Muito Fraca) fez surgir nas redes sociais os codinomes de Rodrigo Enganot e Edson Facinho. Que gente má.

Antes dessa mão de areia jogada nos olhos da plateia, o espetáculo verdadeiro chegava ao coração do escândalo com as revelações de João Santana e Mônica Moura. Ali ficava claro – mais do que nunca – que o proverbial assalto exposto pela Lava Jato fora regido de dentro do palácio petista, sem intermediários.

O marqueteiro e sua esposa mostraram como o governo (repetindo: o governo, não o partido) agia para embaraçar as investigações da força-tarefa – inclusive tentando preveni-los da prisão e, consequentemente, evitar sua delação. Coisa de máfia. Acusado de atuar nesses vazamentos está o ex-ministro da Justiça – o mesmo que triangulava com o procurador-geral e o STF no longo período em que Dilma, a idônea, era tornada imune a investigações.

Como até os pedalinhos de Atibaia estão cansados de saber, Lula e sua revolução redentora inventaram os irmãos Batista como potência empresarial. Os subterrâneos do BNDES têm muito a revelar sobre essa história de sucesso, mas a Operação Carne Muito Fraca chegou bem na hora para embaçar a cena. O que se viu foi uma homologação tipo fast-food da espionagem de Joesley e da conclusão quase mediúnica sobre uma suposta autorização do presidente da República para a compra do silêncio de Eduardo Cunha.

Tudo muito grave. Ou o presidente tem de ser afastado e preso – e essa investigação não pode parar antes do fim – ou terá sido um erro de psicografia. Aí quem psicografou vai ter de pagar. Na mesma moeda.

Existirá psicografia seletiva? Fica a dúvida. Porque as mesmas mentes que detectaram crime do presidente na conversa com o campeão do Lula parecem não ter notado os crimes do campeão. Na mesma conversa, ele diz ter subornado meio mundo. Mas aí deu um tchau para os supremos companheiros e foi pousar livre como um pássaro na Quinta Avenida. Será que é normal? Ou seria paranormal?

Deixem os irmãos Batista curtir sua fortuna tranquilos em Nova York. O mais indicado mesmo, neste momento, é o Brasil se entregar e negociar uma delação premiada. Conte tudo, Brasil. Confesse que você viu o monstro sendo criado pelo PT e engordando na sua cara. Admita que desde o mensalão você viu (ninguém te contou) Lula e seu Estado-Maior transformando grandes empresas nacionais em anexos do PT para comprar seus melhores sonhos totalitários. E, por favor, não venha agora fingir surpresa com o fato de a política nacional estar contaminada por esses tubarões. Dizem que quem não recebia PC Farias na era Collor caía em desgraça. PC era uma criança perto dos seus sucessores na era Lula.

O Brasil acordou invocado na semana passada, olhou-se no espelho e se descobriu virtuoso. Decidido terminantemente a ser a virgem do bordel. Tudo bem. O que acontecia antes disso era que um presidente antiquado, de um partido fisiológico, abrira as portas do Estado brasileiro para que as melhores cabeças pudessem saneá-lo, salvá-lo do desastre petista. Por que Temer fez isso? Não interessa. O que interessa é que o seu time de ouro iniciou um milagre e virou todos os indicadores na direção certa – a única que interessa à sua vida real, Brasil.

Mas você estava com saudade de ver heróis da resistência como Lindbergh Farias sabotando as reformas, não é verdade? Bem, então está dando tudo certo para você. O lobista de José Dirceu, condenado a 20 anos de prisão na Lava Jato, também já está solto. Siga apoiando o processo de depuração das instituições deflagrado pelos irmãos Batista. Quem sabe eles não se comovem e criam uma Bolsa Brasil? Aí talvez você possa até largar essa vida corrida e ir descansar para sempre no Guarujá.

Guilherme Fiuza

Os mascarados


Alguns tomam a ficção de homens de Estado - a máscara de estadistas - e vão impondo aos crédulos as suas razões e as suas leis

Augusto Frederico Schmidt

Lula deixa de lado Diretas, Já!

Uma coisa é o que Lula diz aos seus homens de confiança no escurinho dos gabinetes à prova de grampos. Outra é o que diz em público. Mas ontem, na abertura em Brasília de mais um Congresso Nacional do PT, Lula falou para fora o que ultimamente tem falado para dentro.

Deixou de lado a pregação a favor de Diretas, Já!, e cobrou dos militantes do partido um plano para eleger no próximo ano a maioria dos deputados federais e senadores. Assim, segundo ele, o PT ficaria dispensado de se aliar a outros partidos para governar o país.

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Sim, Lula ainda parece alimentar a esperança de ser candidato a presidente, de eleger-se e de voltar ao Palácio do Planalto de onde jamais gostou de ter saído. De poder também a qualquer hora da madrugada acionar a cozinha do Palácio da Alvorada para comer sanduíche de pão com ovo.

Precisa combinar com o juiz Sérgio Moro, aparentemente pronto para condená-lo, deixando-o solto. E com a segunda instância da Justiça, que se o condenar mandará prendê-lo. Sem esquecer, é claro, dos eleitores, que o presenteiam o mais alto, altíssimo índice de rejeição.

Naturalmente Lula não seria o mesmo Lula capaz de entusiasmar sua turma se não repetisse os chavões de sempre, tipo "lá fora estão os inimigos de classe que querem nos destruir e nós temos que estar preparados para derrotá-los”. Ou se não batesse nas elites com as quais governou e enriqueceu.

Diretas, Já!, para tirar Temer ficou no passado. “2018 está logo ali, já começou. É por isso que eles estão com medo e nós não estamos com medo. Se a esquerda for para disputa com um programa factível, eu tenho certeza que a gente vai voltar a governar esse país", garantiu Lula.

Não faltou o número clássico de se fazer de coitadinho. Réu em cinco processos, sendo três da Lava Jato, sapecou: "Eu não quero que vocês se preocupem com o meu problema pessoal. Eu já provei a minha inocência. Eu agora vou exigir que eles provem a minha culpa.”

Foi delirantemente aplaudido por uma plateia que pouco antes gritara “Dirceu, guerreiro, do povo brasileiro” para homenagear José Dirceu, ex-presidente do partido, em liberdade provisória.

Imagem do Dia

Vernazza, Itália:
Vernazza (Itália)

De espanto em espanto, aos solavancos, lá vai o Brasil...

O novo Ministro da Justiça, Torquato Jardim, o terceiro em 12 meses, afirma que o Brasil é institucional, não é caudilhesco, nem personalista e que, portanto, não depende de pessoas. Que bom seria se Jardim tivesse razão... Mas o simples fato dele ser o terceiro nome a comandar a pasta da Justiça em tão pouco tempo já o desmente. Se não dependesse da pessoa que ocupa a pasta, por que trocá-la em tão pouco tempo?

Só para esclarecer o leitor: os anteriores não faleceram, graças ao bom Deus. Saíram do ministério, apenas. Um foi para o STF e o outro voltou às origens, à Câmara dos Deputados.

Volto ao terceiro ministro. Sua primeira entrevista após a posse foi um espanto. Não sei se é de sua natureza levar as coisas de modo leve de modo a dar a impressão que são menos sérias do que parecem, ou se tentou ser engraçado para aliviar o clima carregado lá no Palácio do Planalto. De qualquer jeito, a mim me espantou ver um Ministro da Justiça fazer piada (por sinal, fraquinha...) com a Segurança Pública ao dizer que desse tema só conhece “os assaltos sofridos por ele e duas tias”. Que tal?

Nenhum texto alternativo automático disponível.

Foi uma piada boba, mas vamos deixar isso pra lá. Pior foi o ministro declarar a respeito de doações a políticos em campanha eleitoral: "Eu não discuto essa questão da origem, se a origem é caixa 1 ou é caixa 10. Eu quero saber se entrou contabilizado no comitê do candidato, no comitê partidário de campanhas, se entrou conforme a lei."

Não é um espanto ouvir um Ministro da Justiça contrariar a opinião da Presidente do Superior Tribunal Federal, Ministra Carmem Lúcia, que já disse e redisse, inúmeras vezes, que “Caixa dois é crime e agressão à sociedade”?

Quem sabe ele esqueceu da bela frase de Winston Churchill: "A verdade é incontroversa. Pode ser atacada pela malícia, ridicularizada pelo desconhecimento. Mas, no final, lá está ela, brilhante como a Estrela de Belém".

Segundo li nos jornais, o novo ministro é carioca. Se para ele tanto faz o dinheiro vir de caixa 1 ou caixa 10, desde que esteja contabilizado no comitê eleitoral dos partidos, gostaria que ele dissesse se não lhe dói na alma ver o Rio no estado em que está. Registrar a doação nos comitês eleitorais dos partidos não deve ser muito difícil, pois todos os acusados de uso de caixa 2 dizem que seu dinheiro está bem legalizado.

Torquato Jardim era o Ministro da Transparência, ministério cujo endereço ninguém conhecia. Pelo menos foi o que ele disse na entrevista ao jornal O Globo. Agora já não tem mais essa desculpa. Todos sabem onde fica o Ministério da Justiça. Num belo prédio, aliás. Onde eu espero os espantos diminuam de intensidade e que o respeito ao que de melhor aconteceu em nosso país, a Operação Lava-Jato comandada pela brilhante Polícia Federal sob a direção do procurador Leandro Daiello, possa nos ajudar a fazer o Brasil abandonar os solavancos e caminhar tranquilo em direção ao arco-íris.

Assim espero.

Meu Brasil brasileiro!

Eu também tenho minhas fontes e o Seu Damásio é uma delas. Ontem, manhã bem cedo, ao conferir as captações da rede social, ele já disparara uma manchete alvissareira:

- Maranhão lança mutirão contra a corrupção!

Nem me apressei em ver o corpo da matéria. Sempre que me chega algo com tantas alvissaras e estando sem ninguém por perto como agora, manejo um tempinho só para mim e mergulho ou decolo em benfazejas utopias rápidas, alegres e variadas.

Essa do seu Damásio chega a ser emocionante. Até demais. Tanto que me dano a rir sozinho. Em gargalhadas mis.

Já tem pesquisa de Harvard ou Princeton, não lembro bem, garantindo que as pessoas com hábito de falar sozinhas tem melhor estrutura mental.

Quando eu era menino, em São Luís, conheci o João Batalha, sempre candidato a Vereador, que não só falava sozinho andando, mas também gesticulava.

O sol despontou e logo esmoreceu como se quisesse ceder sua vez a alguma chuva. O tempo frio não arredou. O mutirão contra a corrupção não me saiu da cabeça. Motivo de orgulho. Onde já se pensou neste País numa coisa dessas, assim tão abrangente e, penso eu, com efetiva participação popular?

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Fica aí todo mundo achando que tudo quanto é mal feito tem que estar sob a mira da força tarefa de Curitiba, seus jovens Juízes e intrépidos Procuradores Federais.

Gente, não é bem assim. A Lava Jato só cuida dos casos de corrupção que de alguma forma, direta ou indiretamente, tenham a ver com as roubalheiras na Petrobrás.

O mais que temos visto são outras vadiações com bilhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Económico, o BNDES. Compra de banco falindo pela Caixa Económica Federal para depois de saneado ser vendido a bom preço a outro banco cujo dono foi preso. Mas logo solto. Lembram?

Nessas vadiações e promiscuidades, e é sempre bom lembrar, que esses bilhões foram furtados do seu, do meu, do nosso dinheiro que pagamos em impostos - uma das maiores cargas tributárias do mundo - a um Estado decadente e perdulário que gasta mais do que arrecada e agora sabemos que não são apenas os gastos, são também, e em maior escala, as propinas e doações a campanhas eleitorais milionárias que resumiram a prendas de leilão de largo de festa de santo padroeiro os mandatos eletivos no Executivo e Parlamentos nos três níveis federativos.

Os dois traquinas que pegaram bilhões de reais em empréstimos no Brasil para comprarem empresas nos Estados Unidos, onde levam vida de folgados, tendo levado daqui até iate particular, eram tidos como “campeões nacionais” na avaliação dos Governos dos últimos governos.

A análise que o Senador Álvaro Dias apresentou ao plenário do Senado dá conta de que num período de seis anos, o Governo Federal, ou seja, a União Federal, que é formada pelos Estados, Munícipios e Distrito Federal, emprestou ao BNDES 716 bilhões de reais.

Mas como o Tesouro Nacional não tinha tanto dinheiro, o Governo tomou emprestado aos bancos a juros de mercado, a 14,25% ao ano pela taxa SELIC, aquela que lasca o contribuinte devedor da Fazenda Nacional.

A dinheirama foi repassada à JBS, à Odebrecht e outras a um custo de entre 5% e 6%, pela TJLP. Eles têm 42 anos para pagarem esse empréstimo. Haja Lava Jato!

Assim, feliz porque o Maranhão não teve nem terá a mínima condição de se emparelhar com esses avanços do Brasil em matéria de corrupção, até porque segue sendo um Estado de coisas menores, ou conforme o pior, de estatísticas maiores, retorno a minha fonte matinal:

- Sua informação procede, Seu Damásio. Eu, como algumas vezes, é que não me controlo no delírio. Procede em parte. O mutirão será de juízes em suas Comarcas julgando, preferencialmente, ações contra denunciados por corrupções menores, quero dizer, as que costumam acontecer nas administrações municipais e também na estadual. É pouco, sim. Mas vale a pena.

Edson Vidigal

1984 em feitio de nostalgia

O ano é emblemático: 1984 da ficção de George Orwell e da campanha das Diretas Já. Carente de causas com posições e contraposições nítidas, desprovidas de nuances, a nova geração (um pouco da velha também) entrou no modo nostalgia à deriva ao escolher como bandeira de luta a realização de eleições diretas como solução à crise instalada desde a demonstração de que Michel Temer fazia jus ao posto de vice-presidente em parceria com Dilma Rousseff. Dissimulado e venal tanto quanto.

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Falta a esses ativistas da ocasião, substância e informação. E aqui não tratamos da obviedade expressa na Carta Maior: eleição com vacância depois de dois anos de cumprido o mandato original, é indireta. Falamos direta e cruamente de falta de memória histórica. A campanha de 1984 foi essencial porque vivíamos uma ditadura contra a qual a defesa das diretas era um ponto crucial. No entanto, os ponderados sabiam perfeitamente bem que a emenda Dante de Oliveira não passaria no Congresso. Se passasse, seria um problema, entrave à transição negociada pela oposição responsável

A despeito da presumida frustração popular, os comícios haviam criado o ambiente propício para a derrota do regime em seu habitat: o Congresso. Tancredo Neves tinha um plano e, o minar a candidatura de Paulo Maluf o realizou. Somos filhos daquele ato que o PT recusou-se a reconhecer e e hoje pretende patrocinar. Construímos o fim da ditadura pela vida indireta, do Congresso. Podemos trilhar caminho semelhante para marcar posição definitiva e efetiva contra a velha política patrimonialista, corrupta, sustentada pelo silêncio dos compadres.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Paisagem brasileira

OBRAS DE CADA DIA MÁRCIO ANDRADE - Paisagem Óleo sobre tela                                                                                                                                                                                 Mais:
Márcio Andrade

Legalidade criativa

Escreve-me um amigo italiano: “Vocês, brasileiros, são realmente inventivos. Depois da contabilidade criativa, agora inventaram a legalidade criativa”.

No primeiro mandato da presidente Dilma, para esconder a penúria fiscal do país, a equipe econômica transformava déficits públicos em superávits através de malabarismos contábeis dignos de pastelão, que ajudaram a empurrar o Brasil para a maior recessão de sua história.

Agora, o governo trata de criar a legalidade criativa. Funciona assim: se tem uma coisa ilegal acontecendo, o jeito mais rápido de acabar com a ilegalidade é legalizar a coisa. A proposta de anistiar o caixa 2 é o exemplo mais claro em tempos de Lava-Jato.

Mas é contra a proteção do patrimônio natural brasileiro que este fenômeno tem sido mais escancarado e corrói a reputação brasileira.

O Brasil assumiu o compromisso de acabar com o desmatamento ilegal e a grilagem de terras públicas e promover o fortalecimento do sistema de áreas protegidas.

Tá lá na nossa lista de compromissos no Acordo de Paris “Zerar o desmatamento ilegal na Amazônia” — o que, digamos, já é muito pouco, pois se é ilegal deveria ser eliminado já, não em 2030, e deveria valer para todos os biomas.

Já em 2012, o governo, em articulação com o Congresso Nacional, aprovou uma revisão do Código Florestal que reduziu a obrigação de recuperar 40 milhões de hectares (dez vezes o Estado do Rio de Janeiro) ocupados ilegalmente em Reserva Legal e Preservação Permanente. Assim, quase todos os desmatamentos ilegais anteriores a 2008 foram anistiados.

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Agora, o Congresso, estimulado pelo próprio governo Temer, perdeu completamente o pudor. No espaço de poucas semanas, aprovou MPs que reduzem as áreas protegidas e permitem legalizar a grilagem e o desmatamento de terras públicas e, nas próximas semanas, promete aprovar uma lei que praticamente acaba com o instrumento do licenciamento ambiental. Se estivesse em vigor na época do acidente de Mariana, não haveria qualquer crime do maior acidente ambiental da história no país.

Desde a Constituição de 1988, o Brasil vinha construindo um dos mais sólidos arcabouços legais de proteção ambiental e das populações tradicionais. Na esteira deste compromisso, conseguiu reduzir drasticamente o desmatamento e as emissões de gases de efeito estufa entre 2005 e 2012, atraindo a atenção, o respeito e os recursos da comunidade internacional, isso sem qualquer prejuízo à produção agropecuária ou à economia do pais, que teve um dos seus períodos de maior crescimento.

Esta legalidade criativa, além de atentar contra o patrimônio natural de todos os brasileiros, coloca em risco a credibilidade e a competitividade do país. Depois de anos como campeão da redução das emissões de gases de efeito estufa, passamos nos últimos dois anos a campeão do aumento das emissões — e com a economia em frangalhos. Eles estão rifando o nosso presente e futuro. Assim não dá para levar o Brasil a sério.

São as margens, estúpido!

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Do rio que tudo arrasta se diz violento, mas ninguém diz violentas as margens que o oprimem
Bertolt Brecht

Temer é a prova de que o 'projeto torniquete' falhou

Na sua primeira entrevista como ministro da Justiça, Torquato Jardim fez comentários bem comportados sobre a Lava Jato. Disse que a operação é um marco civilizatório. É um programa de Estado, não de governo. É coisa da sociedade brasileira. O novo ministro deixou em aberto, porém, a possibilidade de trocar o comando da Polícia Federal. Disse que estudará o tema com serenidade.

Horas antes da posse de Torquato Jardim, seu antecessor, o deputado Osmar Serraglio, anotou numa carta de despedida que foi retirado da poltrona de ministro da Justiça porque Michel Temer “sofreu pressões de trôpegos estrategistas.” Com essas palavras, insinuou que caiu porque os estrategistas do presidente achavam que ele não controlava adequadamente a Polícia Federal.


As primeiras declarações de Torquato Jardim soaram adequadas. Mas é impossível deixar de notar que ele é ministro de um presidente sob investigação, apoiado por políticos que foram grampeados defendendo a sabotagem das investigações. A boa notícia é que, até o momento, todos os que agiram para estancar a sangria da Lava jato se deram mal.

A própria presença de Michel Temer como protagonista de um processo criminal no Supremo Tribunal Federal é uma evidência de que a Lava Jato e outras operações fugiram ao controle dos investigados. O 'projeto torniquete' não prosperou. Pessoas poderosas tornaram-se impotentes.

Brasil supera apenas Venezuela e Mongólia no ranking de competitividade

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O Brasil está próximo da lanterna da competitividade global, aponta um relatório divulgado nesta quarta-feira pelo instituto de pós-educação suíço IMD em parceria com a Fundação Dom Cabral.

Segundo o levantamento anual, apenas Venezuela e Mongólia estão em situação pior do que o Brasil. O país está na 61ª posição dentre as 63 economias avaliadas. De acordo com o diretor do estudo, o professor Arturo Bris, a má performance se deve à crise política no país.

No topo do ranking estão Hong Kong e Suíça, já haviam garantido o primeiro e segundo lugar na edição passada, seguidos por Cingapura e Estados Unidos, respectivamente, que trocaram de posição em relação à análise anterior.

O ranking, que é publicado desde 1989, avalia o perfil dos países com base em quatro pilares: performance econômica, eficiência de governo, eficiência empresarial e infraestrutura.

Por meio de uma estimativa baseada em estatísticas compiladas sobre essas categorias, um país é comparado com o outro. Os dados utilizados para a edição atual são referentes ao período de janeiro a abril deste ano.

Na performance econômica, o Brasil recuou de 55 para 59, na eficiência do governo piorou de 61 para 62, na eficiência empresarial foi de 51 para 49 e na infraestrutura, caiu de 46 para 51.Direito de imagemREUTERSImage captionDiretor do estudo diz que solucionar corrupção deve preceder reformas propostas por Temer

A intenção do estudo é servir de referência para a criação de políticas públicas que gerem prosperidade para os indivíduos do país. No caso do Brasil, o país está falhando porque a crise de desgoverno não estão levando em consideração o interesse da sociedade, explica Bris.

"O Brasil é o caso clássico em que o setor público é um obstáculo à competitividade do país", avaliou Bris em entrevista à BBC Brasil.
Corrupção

Apesar de defender a necessidade de reformas no país, o professor avalia que não é sustentável nem eficiente tentar se levar adiante a pauta sem resolver a questão da corrupção primeiramente.

"A percepção do mercado (sobre o Brasil) é muito negativa, o país está entre os dez piores para se fazer negócios. O setor privado não acredita no governo. Eles não podem tomar a tarefa de investir e criar empregos para deixar o país mais competitivo. Isso não vai funcionar", pondera.

O estudo avalia que os objetivos brasileiros devem ser: acelerar a retomada econômica, modernizar e facilitar as leis, aprovar reformas-chave e reconquistar a confiança internacional. Para isso, é necessário desenvolver e implementar uma estratégia de competitividade digital, além de aumentar a eficiência e qualidade do sistema educacional.

"Competitividade é sobre criar empregos, estimular a prosperidade de uma nação", resume Bris.

De acordo com a perspectiva do estudo da IMD, a maior vulnerabilidade do Brasil é a falta de visão de longo prazo, como políticas de melhora da qualidade da educação pública e de inserção na economia digital. Esses aspectos do investimento público são avaliados sob o tema infraestrutura e recuaram também. Educação caiu de 51 para 55 e infraestrutura científica retrocedeu de 36 para 41.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados na quarta-feira apontam que 13, 6% da população economicamente ativa está ociosa. Há uma piora em relação ao trimestre anterior - mais de 1,1 milhão de brasileiros perderam o emprego nos últimos três meses.

O indicador doméstico reforça a avaliação da IMD de que a situação está se deteriorando. O total de brasileiros desempregados já chega a 14 milhões. O número de pessoas sem trabalho é pouco menos que duas vezes a população da Suíça (que tem cerca de 8,3 milhões de habitantes).

"Primeiramente há que se combater a corrupção e se começar pelas escolas. O país precisa retomar a reforma do sistema educacional. Isso não é para o curto prazo, isso é para o longo. Essa é definitivamente uma das principais vulnerabilidades do país", afirma o professor.

"O investimento em educação primária tem sido muito ineficiente, sem conquistas. É necessária uma reforma maciça."

O instituto também lançou um ranking que mede a competitividade digital dos países. Nesse novo índice, o Brasil foi avaliado na 55ª posição, caindo um ponto em relação a 2016.

A política de subsidiar companhias brasileiras por meio de empréstimos do BNDES, banco estatal de fomento, foi um dos marcos dos anos do PT no poder.

A chamada promoção de "campeões nacionais" favoreceu iniciativas como as empresas do grupo X, de Eike Batista, e a JBS, de proteína animal. Ambos os grupos estão envolvidos agora nas investigações da operação Lava Jato.

Bris acredita que esse tipo de estratégia pode ter resultados adversos, tudo dependendo de como ela é gerida, pois o objetivo final para ganho de competitividade precisa ser a criação de empregos.

"Veja o caso da Espanha, meu país, por exemplo. Lá os campeões nacionais são provedores de serviços que operam globalmente. Bancos como o Santander, ou empresas de construção, ou petroleiras como a Repsol. Ter gerado esses campeões nacionais não ajudou a reduzir o desemprego na Espanha, porque essas são empresas que investem e crescem muito no exterior, mas não empregam tantos espanhóis", avalia.

"Por outro lado, veja a Suíça. Ela promove campeões nacionais como a Nestlé, Novartis ou ABB. Essas empresas são manufatureiras, produzem muito no país e geram uma grande quantidade de empregos. Isso ocorre não apenas porque elas empregam diretamente, mas também porque elas possuem empresas satélites que proveem serviços para elas", pondera.

"Se o governo do Brasil vai criar empresas que exportam muito e fazem apenas algumas poucas pessoas ficarem ricas, então a política de campeões nacionais não vai funcionar."

quarta-feira, 31 de maio de 2017


O Brasil em seu labirinto

Em julho de 2015, escrevi que, na mais grave crise de sua história, o Brasil caminhava para o labirinto; o Blog ainda estava no Estadão. O labirinto se faz aos poucos, no errante ziguezaguear dos passos e dos dias; quando se vê, está posto, com seus caminhos intrincados e redundantes. Numa dinâmica de tentativa e erro, os atores não se entendem; cometem equívocos, sem correção. Entram por uma porta, atravessam uma outra e mais outra, retornam ao mesmo ponto; não se vê saída.

Passados quase dois anos, o país permanece no labirinto: ao preservar o sistema político que se esgotou, persevera nos mesmos métodos, quase sempre fisiológicos; repete o desgastado padrão mental de cooptação parlamentar; bate cabeça. No final dos anos 1990, FHC já reclamava desse tipo de prática, no funcionamento do Congresso; a primeira vez em que ouvi o termo “voracidade fisiológica” foi pela boca de Pedro Malan, que havia pouco deixara o governo. O processo não seria sustentável.

Lula, por meio do Mensalão, depois pela adesão do PMDB, não alterou a lógica e embrenhou-se ainda mais nesse charco redundante. Dilma, em sua concepção burocrática da política, chegou a crer o Congresso como dispensável; comprou a tese do marqueteiro, seria “gerente”. Miserável tese, pobre Dilma, tomada pela ilusão de si mesma: 39 ministérios, um país quebrado e a convicção de que a distribuição de cargos e a liberação de esquemas bastaria. Não bastou.

Veio o impeachment e a pretensão de que Michel Temer — por vir do ventre dessa baleia —controlasse o processo. Mas, quem, estando dentro do labirinto, pode de fato contorná-lo? Assumido filho do sistema, a presidência da República era questão de manutenção do status quo: mudar tudo, para mudar nada. As necessárias reformas econômicas — Previdência e Trabalhista — como os anéis que o sistema custava a entregar.


O presidente agora se agarra ao que pode, nega indícios e evidências, desqualifica o tumor que corrói o sistema; manobra por dentro, não sai do lugar. Faz sentido: para Temer, renunciar não é simples questão de voltar para casa; ficar significa a sobrevivência política e a liberdade — sua e de seu grupo. Trata-se, então, da permanência de uma lógica agonizante que grita por socorro, que não quer morrer. Mas, que morre aos poucos, perdida no labirinto de cada dia.

Lamentar o leite derramado do desenvolvimento perdido é improdutivo: entrando pelas mesmas portas, o labirinto vai dar no mesmo descaminho da ingovernabilidade. O que se esperava era a mágica das reformas econômicas sem o desembaraço do nó político; alçar um voo de galinha, sufocar os jacobinos do Ministério Público com a reversão de expectativas. Nova falha de diagnóstico: não será a economia que salvará a política, mas o contrário. Insistir nos erros é mais que teimosia.

Quando se insiste na solução interna comprometida com o jogo viciado, os erros se repetem. A Câmara, aflita para afastar o pavor da Lava Jato e o pesadelo da perda de mandatos, quer um dos seus. Mas, o Minotauro do fisiologismo não perdoa: mais parecido com Saturno, devora os próprios filhos; Rodrigo Maia será a próxima iguaria servida no banquete da voracidade? No que seu nome alteraria o traçado repetitivo do desencontro com a saída?

Mais inteligente será mudar a lógica: enfrentar o Minotauro, descartar o fisiologismo, punir a cada um de acordo com a gravidade de cada crime; comunicar-se com a população, estabelecer outro diálogo com o Congresso, num governo de União Nacional; reformar estruturas. Resgatar a Política que significa História, buscando alguém comprometido com a mudança e, assim, realizar a transição. Com os olhos postos no futuro, conquistar a libertação do labirinto.

Carlos Melo 

A glamorização da barbárie

Por quase quatro horas Brasília esteve em chamas.

A batalha campal da última quarta-feira foi protagonizada por manifestantes, muitos deles mascarados, durante o protesto organizado por centrais sindicais e movimentos de esquerda contra as reformas que tramitam no Congresso Nacional, pela saída do presidente Michel Temer e por eleições diretas. Oito Ministérios foram depredados, dois incendiados e 49 pessoas feridas.

Mascarado,black blocs (Foto: Pixabay)

Diante da violência o presidente da República decidiu convocar o Exército em defesa da ordem pública.

Desde as grandes, heroicas e predominantemente pacíficas passeatas de 2013, o país assiste a esse tipo de barbárie. E com defensores enérgicos.

Como entender a enorme dificuldade de parte da nossa intelectualidade e da maioria dos partidos de esquerda em condenar atos de vandalismo cometidos por mascarados, black blocs e similares?

Membros da comunidade acadêmica fazem esforços teóricos gigantescos para justificar o quebra-quebra promovido por uma minoria violenta e antidemocrática. Alguns chegam a considerar a depredação de bancos na Avenida Paulista e de outras instituições privadas ou públicas como uma ação anticapitalista.

Dentro desta ótica, o vandalismo seria uma resposta à “violência do Estado” cometida contra jovens da periferia. Haveria, assim, um conteúdo revolucionário e contestador em um movimento que, na verdade, padece de conteúdo substantivo.

Não há ineditismo nesta interpretação. A violência e o banditismo já foram romantizados e traduzidos como um produto direto da pobreza. O que é absurdo.

A esmagadora maioria dos pobres não é composta de bandidos, assim como a maioria da juventude da periferia quer distância da selvageria dos mascarados.

No final dos anos 70, a “sociologia da miséria” conferiu glamour ao Comando Vermelho, como se ele promovesse a justiça social nas favelas cariocas. Criou-se o mito que o CV aprendeu com os grupos da esquerda armada, de quem teria absorvido tanto a tática dos grupos militaristas, como alguma “consciência política”.

À época, foi sucesso de bilheteria o filme “Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia” - um assaltante de banco, que aderiu ao banditismo em resposta “às injustiças sociais” e à corrupção da polícia.

A ideologia do ressentimento, inerente aos segmentos que adotam a barbárie como forma de luta, tampouco leva à transformação da sociedade. Nada constrói. Ao contrário, destrói.

A bandeira do anticapitalismo, por si só, não quer dizer grande coisa. Na história, ela foi argamassa de regimes racistas e genocidas. O nazismo que o diga.

Como caracterizar a agressão de vândalos a lojistas (às vezes pequenos comerciantes), a profissionais de mídia, como os ataques às TVs Globo e Record? E o que há de revolucionário no ato de quebrar lixeira, placas de ruas e outros bens públicos?

Estas violências se assemelham aos métodos dos camisas negras na Itália fascista de Benito Mussolini. E são totalmente incompatíveis com o Estado de Direito Democrático.

A auto definição dos black blocs como anarquistas é uma injustiça para Bakunin, uma das grandes referências de uma ideologia cujo eixo é a pregação da autonomia e do fim do Estado.

Nossos vândalos não têm esta sofisticação intelectual. Não têm objetivos estratégicos claros. Eles promovem apenas a baderna. Uma espécie de banditismo que deveria ser condenado claramente por toda a intelectualidade, movimentos sociais e forças políticas.

Do início do século vinte até os dias de hoje, tivemos diversos embates: a revolução russa, o surgimento do fascismo e do nazismo, o stalinismo, duas guerras mundiais, Hiroshima, a guerra fria, a queda do muro de Berlim e o fim da guerra fria. O único valor que sobreviveu a tantos confrontos, e se fortaleceu, foi a democracia.

É ela que vem sendo atacada pelos mascarados de agora, daí seu caráter deletério.

A juventude de 1968 encarou a ditadura sem cobrir o rosto. Aliás, nos anos de chumbo os torturadores usavam capuz para que ninguém soubesse quem eram eles. O mesmo sempre fizeram os carrascos. Desde a idade média.

Como glamorizar movimentos que escondem a face? Na cultura brasileira, isso é prática de traficante, assaltante de banco, membro de milícia paramilitar.

Democrata que se preza vai às ruas de peito aberto e rosto à mostra.

Paisagem brasileira

Edgar Walter (1969)

Temer assume o satanismo e pretende se transformar num 'presidente zumbi'

Um dos aspectos mais curiosos da Lava Jato foi o relato do marqueteiro João Santana sobre o presidente Michel Temer. O publicitário revelou que em 2010 o PT fez pesquisas que revelaram queda nas intenções de voto para Dilma Rousseff quando o então candidato a vice participava das propagandas. O motivo seria uma suposta vinculação da imagem de Temer ao satanismo. Dando risadas, Santana disse ter feito um estudo sobre ocultismo e encontrou um personagem do século 17 que tinha o mesmo nome do atual presidente e era adepto do satanismo.

É claro que uma coisa nada tem a ver com a outra, porque no caso de Temer quem inventou essa estória foi o então senador Antonio Carlos Magalhães, do antigo PFL, quando presidia o Senado. Em 1999, ACM comprou uma briga com Temer, que presidia a Câmara, e o apelidou de “Mordomo de Filme de Terror”. De lá para cá, a piada vem sendo repetida.

Em dezembro de 2015, Renan Calheiros era presidente do Senado e também se desentendeu com Temer. Disse no plenário que iria sugerir ao vice-presidente que, se perdesse o cargo no julgamento do Tribunal Superior Eleitoral, poderia pensar em outros empregos, como “mordomo de filme de terror ou carteiro”, referindo-se à carta que Temer acabara de mandar a Dilma Rousseff, dizendo-se desprestigiado no governo do PT.

No final de março de 2016, em pleno processo do impeachment, o deputado Davidson Magalhães (PCdoB-BA) fez um discurso na tribuna da Câmara, para acusar Temer de conspirador, e seguiu na mesma balada: “Se ACM o taxava de ‘Mordomo de Filme de Terror’, eu acrescento que hoje ele é o Drácula da Democracia”.

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Pouco mais de um ano depois, agora Michel Temer parece ter incorporado o personagem vislumbrado por ACM e ameaça se transformar num presidente-zumbi, para assombrar o Planalto na convivência com os fantasmas que declarou vislumbrar no Palácio Alvorada quando se mudou para lá, cujas aparições fizeram com que voltasse a residir no Jaburu.

Sua rejeição bate todos os recordes, sua imagem pública está destroçada, mas Temer finge governar, convoca reuniões e dá ordens à base aliada, que finge obedecer. Ele continua nessa encenação e no domingo resolver nomear um novo ministro que aceita fazer sua defesa sem cobrar nada, contentando-se apenas com aqueles 15 minutos de fama celebrizados pela genialidade de Andy Warhol.

Mas não há como segurar Temer, porque o deputado que recebeu a mala dos R$ 500 mil vai fazer delação, para destruir o que ainda resta do presidente. Mesmo assim, ele não renuncia. Pelo contrário, conta com a amizade e cumplicidade de ministros do TSE para retardar o julgamento e manter mais algum tempo esse governo morto-vivo.
 A inexistência de governo traz consequências, é claro. Ao invés de estarem preocupados em reduzir direitos sociais, os três Poderes deveriam se dedicar a outras missões mais necessárias, como desativar a boma-relógio da dívida pública ou reduzir a criminalidade, adotando leis mais duras e tolerância zero. Mas como fazê-lo, se o crime se instalou lá na Praça dos Três Poderes, subvencionado com recursos públicos e protegido pelo foro privilegiado.

Se a Justiça funcionasse, a impunidade diminuiria, haveria um maior respeito às leis. Mas os ministros do Supremo são os primeiros a dar o exemplo, ao libertar perigosos meliantes devido a meras tecnicalidades processuais, e ainda chamam isso de Justiça.

Sangria desatada

As meias solas em consideração pelo Congresso não mobilizam ninguém. E a continuação dos apunhalamentos entre “podres” e “santos” nos sangrará a todos até à última gota. Se houvesse uma alternativa séria de compromisso com o futuro este país cansado de guerra certamente a agarraria

O mecanismo

Eu era jovem quando, em Minas Gerais, ouvi a palavra “mecanismo” ser usada fora dos quadros da mecânica dos relógios, para designar um misterioso e inexorável impulso humano relativo a desordem ética, a dualidade entre norma e desejo, e a autodestruição.

Um membro de nossa “turma” de esporte e “brincadeiras” - reuniões dançantes nas quais podíamos chegar perto das moças pegando suas mãos, sopesando seus corpos e sentindo o seu hálito - fugira de casa!

Sabíamos de sua revolta aberta contra o “Pai” radical na obediência às convenções. Afinal, quem é que ia de bom grado à missa das naqueles domingos frios por puro catolicismo e não para pecaminosamente vislumbrar a namorada - então o grande e infinito amor de sua vida?

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Talvez o Gabriel, cuja vocação sacerdotal era inegável. Mas a maioria fugia da igreja como o diabo da cruz e eis que, um belo dia, fomos obrigados a viver não na tela do cinema Palácio mas, na vida real, o sumiço do Carlos Alberto.

Era claro que o Carlinhos tentava sair do seu aprisionamento familiar. Fugiu para o Rio levando com ele os pagamentos em dinheiro da empresa na qual seu pai, um homem de prestígio esmagador, o havia empregado.

“Cometeu um enorme pecado”, disse o padre Geraldo na reunião para a qual nos convocou na sala de visita da igreja Senhor do Passos.

“Não, padre, desculpe...Ele usou um mecanismo bem conhecido”, disse o Dr. Freitas, psiquiatra amigo da família que, para escândalo dos círculos mais cultivados e ardorosamente católicos da cidade, falava muito num perigoso Dr. Freud.

“Ele rompeu”, prosseguiu o Dr. Freitas, “com os recalques. Ousou escapar da roda implacável do mecanismo que junta, nas suas correias, as regras de controle que devem valer para todos, com seus fabricantes e controladores - essas pessoas que, por isso mesmo, ficam maiores do que as leis. No processo, há uma luta entre normas institucionais e super-indivíduos ou pessoas. A mentira aparece como um valor e a desonestidade vira virtude. Corre-se o risco do suicídio - esse exagero de egoísmos rasos com altruísmos confusos. Esses crimes para dentro, como o assalto a coletividade. Disto resulta uma culpa que vaga pedindo punição, mas punir é também algo complexo pois exige admissão do erro. Algo complicado na nossa cidade.”

*

Leis e desejos, regras gerais e interesses particulares. A fuga do companheiro colocava o absurdo: todos temos apenas um destino, mas o nosso coração encerra muitas vidas e possibilidades. Inúmeras fugas, a maioria fugaz e fantasiosa. Como conciliar egoísmo e altruísmo; a parte que nos individualiza, com o todo que nos persegue até o fim do mundo.

*

Quando o fujão voltou, nós o cercamos com perguntas. Viajou para o Rio de noite, hospedou-se no Hotel Serrado, comeu nos melhores restaurantes e “pegou algumas mulheres”, pois, naqueles tempos, “pegavam-se (imagine só...) mulheres”. Mas logo entrou num regime de angustia.

Disse sem rodeios: “Quanto mais meu pai c... regras, mais ele as descumpria. Chegamos num ponto onde não se distinguia mais o legal do ilegal, pois todos agiam de acordo com as lei, mas seguindo seus interesses. Lá em casa fazíamos interpretações de interpretações de interpretações. Elas ficaram maiores que os fatos e então eu criei um arremedo de morte - fugi de casa.

“Entendi”, continuou o fugitivo, “que o ético não é apenas o certo, é o que está dentro dos nossos corações. Podemos descumprir e dispensar as regras, mas não podemos arrancar do nosso peito o nosso coração”. “Agora eu entendo”, disse o menino perdido e jamais achado, “o problema do Pai é que ele imagina que o mundo pode ser resolvido por leis quando, de fato, as leis são aplicadas, interpretadas e limitadas por pessoas. Dentro de uma fatal e abençoada liberdade que engendra o mecanismo. Pois, quanto mais leis, mais se reforçam e se instrumentam as amizades. E quanto mais arranjos pessoais, mais leis e mais hipocrisia e má-fé”.

*

P.S.: Sei que, exceto pela mera coincidência, isso nada tem a ver com a chamada crise brasileira que, por ignorar o mecanismo, repete-se e reitera-se como uma indecorosa rotina.

Gente fora do mapa

A república dos compadres

Em nossa capital dos convescotes, onde os três Poderes da República se confraternizam nos fins de semana e passam os dias úteis conspirando para salvar as próprias peles e esfolar a Nação, a máfia dos compadritos, malfeitores portenhos da ficção genial de Jorge Luis Borges, se esfalfa para não ser extinta.

No Poder Legislativo, bocas malditas dão conta à boca pequena que se conspira para dar de mão beijada aos ex-presidentes José Sarney, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff (por que não Fernando Collor?) indulgência perpétua para manter Michel Temer solto, caso seja defenestrado, como o major boliviano Gualberto Villarroel. Este foi atirado pela janela do palácio de Quemados e linchado pela malta enfurecida em 21 de julho de 1946. Ninguém espera que Temer seja atirado vidraça afora do Palácio do Planalto, tendo a palavra defenestrado sido usada apenas como um reforço de linguagem, uma metáfora do desejo da quase totalidade da população brasileira que o prefere sem poder. Mas que saia inteiro, como a rainha da sofrência Roberta Miranda, se dirige ao ex-amor no sucesso Vá com Deus. Embora seja mais difícil querer que ele saia íntegro desde a explosão sobre a faixa presidencial da Bomba H da delação de Joesley Batista, o marchante de Anápolis que virou tranchã do próspero negócio da proteína animal no mundo.

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Passadas duas semanas das revelações do delator premiado, Temer não contestou nenhuma das acusações que lhe faz, com base na delação, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, no pedido de abertura de inquérito, encaminhado ao relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Luiz Edson Fachin: corrupção passiva, organização criminosa e obstrução à investigação. Em vez disso, contratou o perito Ricardo Molina para acusar a gravação da conversa nada republicana de delator com delatado de má qualidade e de prova de incompetência e ingenuidade dos procuradores que a negociaram. OK. E daí?

O Palácio do Planalto já desmentiu o procurador-geral. Mas, junto com o desmentido, foi dada a prova mais evidente de culpa do chefe do governo, ao introduzir o roque do xadrez na gestão pública para qualquer cidadão com quociente de inteligência superior a 50. Insatisfeito com a “timidez” de seu ministro da Justiça na direção da Polícia Federal (PF), ele demitiu o deputado Osmar Serraglio (PMDB) e o substituiu pelo jurista Torquato Jardim, cuja opinião depende tanto do interesse do patrão quanto a do atrapalhado legista. Renan Truffi revelou neste jornal que, em texto escrito em julho de 2015, ele escreveu que, “desconstituído o diploma da presidente Dilma, cassado estará o do vice Michel”.

Como se sabe, em maio de 2016, dez meses depois, o vice Michel era presidente e, no mês seguinte, o renomado causídico assumiu a pasta da Transparência, Fiscalização e Controladoria-Geral da União. Desde então, tornou-se um devoto discípulo do “Velho Capitão” Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, cujo engenho, mesclado à flexibilidade ética que praticava, produziu a pérola que pode servir de lema para o brasão do mais ilustre membro do clã Jardim: “A coerência é a virtude dos imbecis”. É ou não é?

Segundo Felipe Luchete, do site de notícias jurídicas Conjurs, em 21 de fevereiro passado, o ministro criticou procedimentos da operação Lava Jato: ele “listou problemas como as longas prisões provisórias, com duração de até 30 meses, e condenações sem provas, já reconhecidas pela Justiça. Ao comentar a operação, ele afirmou ainda que vazamentos seletivos geram ‘nulidade absoluta’ de processos”, segundo o relato. ODiário do Povo do Piauí publicou no dia de sua posse no ministério de Temer, sua profecia de que a Lava Jato teria igual destino ao das operações anteriores da Polícia Federal, caso da Castelo de Areia, sepultada no STF. Bidu!

Fiel ao brocado de Chatô professado pelo chefe, sua assessoria desmentiu os fatos acima revelados, contrários à opinião da maioria da população, em nota ao Fantástico, que os noticiara. Mas isso não quer dizer que sua troca por Osmar Serraglio difira da substituição por Dilma Rousseff do advogado José Eduardo Martins Cardozo pelo procurador Eugênio Aragão, alcunhado por seu chefe, ex-amigo e agora desafeto, Janot, de “Arengão”.

Mais pernóstica do que a missão que ele nega, contudo, é a transferência de seu antecessor para a pasta que antes o incoerente ocupava. O boquirroto Serraglio se jactava a quem se dispusesse a lhe dar um minuto de atenção de que não era “pato manco” no governo Temer. E todos sabemos que isso se devia a que sua permanência na pasta garantia o salvo-conduto para o suplente Rodrigo da Rocha Loures continuar no lado bom do dilema “ou foro ou Moro”, mantendo o foro privilegiado na cadeira para a qual o novo ministro da Transparência fora eleito.

O episódio cancela todos os significados que os dicionários reservam para definir as palavras transparência, fiscalização, controle, justiça e outras, já jogadas no lixo da prática administrativa e política do Brasil, tais como ética, decoro e vergonha. Mas essa consequência é menor do que o motivo real do “movimento combinado do rei e de uma das torres, que se desloca para uma posição mais atuante para dar mais segurança ao rei”, como o Dicionário Houaissdefine o roque, jogada de xadrez citada no início deste texto.

Assim como a tentativa de desqualificar o depoimento do marchante delinquente por causa de seus crimes pregressos ou da má qualidade da gravação que fez nos porões do palácio, a matéria orgânica, à tona de 17 de maio para cá, já ficou insuportável. E exige mais atenção às manobras com que os compadritos da política tentam manter o status quo. Desfaçatez, chicanas e negaças não perfumam o ar apodrecido das catacumbas da máfia multipartidária que nos governa.

Originalidade

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Originalidade marcada, só nos homens da roça que não leem jornais. Ideias proprias, pontos de visa unicos, personalíssimos, e a sublime coragem do pitoresco mental.

Nas cidades grandes, o jornal ingerido pela manhã desoriginaliza, bota-nos a todos bitolados pela mesma regra de pensar.

A opinião publica só existe nos lugarejos. Nas capitais desaparece substituida pela opinião que se publica.

Monteiro Lobato

Temer transformou país em república de bananas

Pela manhã, Michel Temer discursou para investidores estrangeiros em São Paulo. “A responsabilidade rende frutos”, declarou. À tarde, de volta a Brasília, Temer assumiu o comando de uma articulação irresponsável para assegurar que o suplente de deputado Rodrigo Rocha Loures, o homem da mala, não perca o escudo do foro privilegiado. Como um centauro metafórico, o governo Temer mantém a cabeça nas alturas do mercado globalizado e o corpo aqui embaixo, na politicagem enlameada, nos arranjos de um presidente investigado que tenta evitar a aparição de outro delator.


Para demonstrar que ainda dispõe de apoio congressual, Temer levou ao seminário com investidores os presidentes da Câmara e do Senado: Rodrigo Maia, o ‘Botafogo’ das planilhas da Odebrecht; e Eunício Oliveira, o ‘Índio’ da escrituração do departamento de propinas da construtora. A dupla soltou a língua em discursos sobre reformas modernizadoras. Também derramaram saliva pelas reformas e por Temer os investigados tucanos Geraldo Alckmin e Aloysio Nunes, além do neotucano João Doria.

Em Brasília, para segurar a língua do potencial delator Rocha Loures, Temer corre atrás de um deputado paranaense que se disponha a assumir uma vaga no ministério, pois Osmar Serraglio (PMDB-PR), que cedera a poltrona ao suplente da mala, não topou ser rebaixado da pasta da Justiça para o Ministério da Transparência. Conselheiros do presidente avisam que a utilização tão escancarada do organograma do Estado pode pegar mal. Aconselham moderação. Mas a simples cogitação de plantar um deputado qualquer na sacrossanta pasta da Transparência apenas para adular um potencial delator é reveladora do ponto a que chegou a gestão Temer.

A cabeça do centauro assegura que o governo vive situação de franca normalidade. Mas o Supremo Tribunal Federal autorizou a Polícia Federal a interrogar o investigado Temer sobre a movimentação anormal do corpo do centauro, dado a travar diálogos desqualificados com empresários suspeitos no escurinho do Palácio do Jaburu.

Aos pouquinhos, Temer vai consolidando o projeto iniciado nos 13 anos de administrações petistas. Consiste em transformar o Brasil numa república de bananas. Assim eram chamadas as nações da América Central governadas por oligarquias corruptas e subservientes ao capital estrangeiro. Uma Banana Republic era, normalmente, pequena. Mas o Brasilzão, com suas peculiaridades, entra no clube como um bananão onde a corrupção generalizou-se de tal forma que tudo tende a acabar em palavras com a desinência ‘ão’ —como acordão, por exemplo.

Imagem do Dia

illa Roja. Costa Brava, Spain. - Whether you're looking for sandy beaches, rocky coves, tranquil villages or mountain scenery, Spain's Costa Brava has something to offer you. Situated in the north-east of the country overlooking the Mediterranean Sea, the Costa Brava region enjoys hot summers and mild winters, making it an all-year-round holiday destination.:
Illa Roja (Espanha)

Cotidiano de exceção

Cartaz da edição brasileira do livro 'Sobre a tirania' 
O sobressalto encarnou-se nos dias. Não é mais inerente ao cotidiano, mas o próprio cotidiano. Temos vivido no Brasil (e acredito que em boa parte do mundo), aos espasmos. Um espasmo, outro espasmo, mais um espasmo. A cada noite, dormimos (ou tentamos dormir) sem saber o que acontecerá no país. Ou mesmo com qual presidente o dia terminará. Não há mais como imaginar o dia de amanhã. Às vezes, não dá para imaginar a hora seguinte. O sobressalto tece a experiência – tanto a coletiva, a maneira como estamos com os outros, como a individual, nosso modo de estar consigo mesmos. Acusamos o impacto nas nossas vísceras, o sentimos na ansiedade misturada aos goles de café, mas não somos capazes de dimensionar. É assim que a exceção vai se infiltrando nas horas – e também nas almas. E é assim também que ela mina a nossa resistência. Como persistir, então?

O controle é, desde sempre, uma ilusão. Mas em momentos como este, estamos além da possibilidade de ilusão. Se isso não é novo na história da humanidade, e obviamente não é, há algo que acentua e amplia essa percepção da realidade, que é a vida conectada pela internet, em que segundo a segundo algo salta na tela para contar de um sobressalto, sobressaltando. E, sobressaltados, replicamos o que nos sobressalta, sobressaltando outros. E, assim, criamos um mundo de gente que suspende a respiração – e às vezes também o pensamento.

Em épocas como esta, as armadilhas são várias. E talvez a maior delas esteja na reação. Há uma diferença entre reagir por reflexão – e reagir por reflexo. A reação por reflexo obedece à mesma lógica de alguém que se coça ao sentir a picada de um pernilongo. Assemelha-se a uma resposta sem pensamento, rápida como um “curtir” das redes sociais. É difícil alcançar qual é o efeito de uma reação generalizada por reflexo. Mas é importante perceber que, neste momento, há parcelas da sociedade que disputam o poder – ou lutam para mantê-lo – que reagem com pensamento e reagem com planejamento. E parte do seu pensamento e do seu planejamento é contar com o fato de que a maioria seguirá reagindo por reflexo.
Resistir ao autoritarismo é deixar de reagir por reflexo – e passar a reagir por reflexão
No tempo da aceleração, o que se infiltra nas horas é esta sensação de anormalidade que não passa. Convertida num presente contínuo, é como se o dia seguinte nunca chegasse. O risco é que, para recuperar a “normalidade”, qualquer normalidade, se aceite o inaceitável. Quanto maior for o anseio por “normalidade”, mesmo que ilusória, mais as pessoas e grupos tornam-se dispostos a conceder e a perder direitos. E é aí que mora o perigo.

Resistir neste momento é também deixar de reagir por reflexo – e passar a reagir a partir da reflexão. Quando tudo parece caótico, quando tudo fica meio misturado e parecido, é preciso olhar para os fatos. Olhar para os fatos com toda a atenção. São eles que nos apontam onde estão as verdades e nos ajudam a enxergar onde está a manipulação, assim como a falsificação. O pensamento é ainda a melhor forma de resistência.

Há um livro que pode nos ajudar a pensar sobre este momento. Sobre a tirania – Vinte lições do século XX para o presente será lançado pela Companhia das Letras no início de junho. Perturbado pela chocante eleição de Donald Trump, Timothy Snyder, professor de história da universidade de Yale, postou um texto no Facebook que se tornou viral. Ele começava assim: “Os americanos não são mais sábios que os europeus, que viram a democracia dar lugar ao fascismo, ao nazismo ou ao comunismo. Nossa única vantagem é ser capaz de aprender com a experiência deles”. O texto foi ampliado e se tornou um livro best-seller nos Estados Unidos, já convertido para várias línguas. Agora chega ao Brasil, traduzido por Donaldson M. Garschagen.

Escrito para os americanos, o livro diz muito também para os brasileiros, já que as novas máscaras do velho autoritarismo são tão globalizadas como o mundo que as gesta. A seguir, faço uma conversa minha com este livro, a partir da experiência de viver no Brasil o que chamo de “cotidiano de exceção”.
Leia mais o artigo de Eliane Brum

Classe de desclassificados

 
Você tem uma classe que ganhou autonomia em relação à sociedade. Ela é intocável, é uma classe que está aí desde a ditadura militar. Vivemos num país que não conseguiu aprofundar a participação popular dentro do processo de política institucional. Conseguimos criar uma situação em que a estrutura política é completamente autista em relação à pressão popular
Vladimir Safatle

Governabilidade de escárnio

Quando a cadeira presidencial balança, o ocupante não vacila em subir nas tamancas. Alguns vão mais além: tiram do armário a fantasia, limpam a poeira e a naftalina, para mais se exibir com o garbo de quem sonhou com uma coroa de pedrarias de poder.

Com Michel Temer, bastou cair a máscara de beato político, senhor de leis, que as cumpre assim e assado, para se autocoroar. Nada de se estranhar no país do ministro Gilmar Mendes que "está se tornando uma grande organização Tabajara".

Infelizmente não é programa humorístico, mas uma grande patuscada da casta político-governamental, que se deixa corromper em nome de uma governabilidade de escárnio. 


Desde que pego pela língua tentando justificar-se e passando por cima dos crimes na calada da noite, jogou no lixo a toga de tribuno. Está nu e fede como qualquer parlamentar brasileiro investigado.

Quem iria levar o país à estabilidade e entrar na História não passa de outro, mais um da infindável série, mascarado. Faz no privado o que condena no público.

Para recuperar o já irrecuperável, troca seis por meia dúzia em plena crise política. Acuado pelo flagra da não explicação, confessa-se mais uma vez como reles político. A troca ministerial na Justiça, renda ou não frutos para seu carreirismo, desesteabiliza ainda mais a instável sociedade. Dar cartadas em prol da garantia no cargo, quando deveria governar, e não imperar, é mostra de que quer salvar uma biogrfia já enlameada.

Mais uma vezo país assiste às lideranças jogarem um Estado no fogo para livrar a pele entre a fumaça. É o espírito público da canalha.
Luiz Gadelha

O golpismo das celebridade em Copacabana

Quando se trata de juntar gente para dizer que o povo comparece a seus eventos, a esquerda reúne companheiros de viagem, pilotos de vôo pelos ares da utopia, figurinhas carimbadas, cantores, atores, músicos e promovem grande espetáculo. Alguma conta no exterior paga os cachês ou o crédito fica gerado e certificado para futuros resgates.

Então, pequenas multidões são atraídas pela oportunidade de um show que seria totalmente grátis não fora o dever de escutar discursos políticos proferidos por pessoas cujo pouco conhecimento enche a paciência antes de encher uma xícara de cafezinho. Sem artistas e celebridades, vai-se o público. Cria-se, então, um insolúvel mistério: quem é que estava ali, mesmo? A permanência dessa dúvida nos eventos da esquerda é uma clamorosa denúncia do esvaziamento de suas pautas e de sua credibilidade.


A concentração ocorrida em Copacabana neste último domingo reuniu numa dessas aglomerações algo entre 10 mil e 30 mil pessoas. A turma do palanque queria diretas já. Ali estavam, pelo que li, Caetano Veloso, Criolo, Mano Brown, Maria Gadu, Milton Nascimento, Gregório Duvivier, Sophie Charlotte, Daniel Oliveira, Maria Casadeval, Antônio Pitanga, Bete Mendes e Zezé Motta. Não sei se alguém se deixa conduzir pelas posições políticas desse pessoal, mas o evento em si, misturando música, dança de rua e diretas já, como afirmei antes, tem o peso político de uma rolha.

Por outro lado, os oradores, ao apelarem para a ruptura com a ordem constitucional, alegam uma suposta ilegitimidade do Congresso para cumprir o preceito que determina eleição indireta se a vacância ocorrer depois da primeira metade do mandato presidencial. Ora, a legitimidade do Congresso só foi contestada pelo PT após o impeachment da presidente Dilma; e se ele é ilegítimo para cumprir o preceito constitucional e promover a eleição indireta, onde irá buscar legitimidade para alterar a Constituição e romper a periodicidade das eleições presidenciais?

Sublinhe-se: foi para evitar casuísmos golpistas, voltados a atender interesses de oportunistas como os que recheavam o palanque de Copacabana, que os constituintes de 1988 definiram a periodicidade das eleições como cláusula pétrea da Carta maior da República.

Mas não podemos querer que a turma daquele palanque entenda e se conforme com isso, não é mesmo?

Percival Puggina