sábado, 21 de janeiro de 2017

Lava Jato não está em risco! Isso é terrorismo mixuruca

Desde que a Operação Lava jato existe, vamos ser claros, dizem estar ela em risco, não é mesmo? Vocês já perceberam ser essa a principal peça de marketing dos seus integrantes? Se alguém propõe um lei contra abuso de autoridade, grita-se: “Lava Jato em risco!”. E a imprensa ecoa: “risco, isco, isco, isco…”. Se alguém critica propostas fascistoides do Ministério Público Federal, grita-se: “Lava Jato em risco!”. E a imprensa ecoa: “risco, isco, isco…”. Parte do jornalismo virou mero repetidor de uma espécie de lobby que entende ser “do bem”.

Eis que leio os jornais e os principais portais e, ora vejam, dada a morte trágica de Teori Zavascki, o que temos? Grita-se: “A Lava Jato está em risco”. E a imprensa, bem…, “isco, isco, isco”. Leio no Estadão que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, afirmou na Suíça que a operação “está em jogo”.

Como é que é?

Então morre um ministro do Supremo, o que, sem dúvida, é lamentável, e se parte do princípio de que isso pode ameaçar a operação? Ameaçar por quê? Então não há procedimentos institucionais no Brasil? Então as decisões não são tomadas segundo a prescrição e a disciplina legais? Então somos mesmo uma republiqueta de bananas, onde o estado de direito depende do voluntarismo deste ou daquele?

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Teori era, sem dúvida, um nome adequado para a relatoria do petrolão em razão do perfil. Mostrava-se um homem desapaixonado de abstrações. Nunca se viu nele a centelha da ideologia. Ao contrário: brinquei certa feita que havia nele um quê de burocrata búlgaro. Coibiu excessos, deixou passar outros tantos, errou, acertou… Como todo mundo.

Lamento profundamente a sua morte porque, em primeiro lugar, há a dimensão humana da tragédia, que não pode ser ignorada. Mas lastimo também que se perca, vá lá, uma parcela importante de comedimento e racionalidade fria. Acho que isso sempre há de fazer falta quando estamos a falar dessa operação. Vimos nesta quinta, por exemplo, um delegado da força-tarefa a falar bobagem pelos cotovelos…

Mas é preciso que certos setores parem com essa Síndrome do Coelho do Bambi! A qualquer evento que lhes desagrada ou os assusta, lá vem a gritaria: “ A Lava Jato está em risco! A Lava Jato está em jogo!”.

Fogo, fogo na floresta!

Sergio Moro, o juiz, numa manifestação pública que é menos de apreço por Teori do que de desapreço pelo Supremo, diz que a operação não teria existido sem o ministro. Ora, tenham a santa paciência! Algumas almas sirigaitas que andam por aí aproveitam para erigir o cadáver em mártir de uma grande conspiração, embora, até anteontem, acusassem o ministro de ser o principal responsável por Lula ainda estar solto. A suposição era que ele havia manobrado para isso. Antes, ele era o conspirador. Agora que está morto, é vítima da conspiração. Que gente mixuruca! Que gente patética! Que gente sem-vergonha!

O espetáculo é grotesco. O ministro, de resto, não apanhou menos quando passou a fazer parte do julgamento do mensalão. Sim, eu também o critiquei algumas vezes — críticas que mantenho, porque diziam respeito aos votos que proferia, não à pessoa do magistrado.

É evidente que lamento profundamente a morte de Teori também em razão dos desdobramentos políticos, que já começam a mostrar a fuça…

Risco da Lava Jato? Qual risco?

Não gosto de conversa oblíqua. Nunca gostei. Vamos ser claros? Janot, Moro, o delegado Adriano Anselmo estão é ocupando posições no tabuleiro político. Para quê? Para deixar claro que é bom que o futuro relator da Lava Jato seja um fiel servidor de suas respectivas vontades. Ou eles começam a gritar: “A Lava Jato está em risco…”. E a imprensa vai fazer o de sempre: “isco, isco, isco…”.

O Coelho do Bambi é hoje a personagem mais influente do Brasil. Só que, naquele caso, o incêndio existia…

Paisagem brasileira

Catas Altas (MG)

A rota da lesma

Dizem os historiadores que por volta do ano 200 a.C. surgiu uma certa "Rota da Seda", conectando a China à Europa. Dir-se-ia tratar-se de uma mera via comercial. Nada mais falso. Naqueles distantes dias por ela sacolejavam, sobre o lombo dos camelos, muito mais que mercadorias - ia, antes e acima de tudo, o embrião do que hoje denominamos "aldeia global".

Uns bons dois mil anos se passaram - mas a visão daqueles intrépidos mercadores cruzando desertos e montanhas geladas permanece viva, inspirando um mundo cujo potencial ainda fascina a realidade.

Fiquei a pensar nisso há poucos dias, quando do lançamento de um serviço ferroviário ligando Yiwu, na China, a Londres, no Reino Unido - ao fim do cabo, a atualização de uma ideia milenar.

Economizando metade do tempo, quando comparado com o transporte marítimo, e custando a metade do preço do frete aéreo, os trens percorrem 12.000 km, atravessando sete países em 18 dias - Casaquistão, Rússia, Belarus, Polônia, Alemanha, Bélgica e França. Calculou-se que o volume de mercadorias transportados por esta rota alcance a fabulosa cifra de US$ 2,5 trilhões ao longo da próxima década.

Registre-se, ainda, que este serviço complementa dois outros, já em plena operação, que ligam a China à Alemanha e à Espanha.

Anunciou-se, paralelamente, a expansão da parte chinesa deste fabuloso sistema ferroviário. Serão US$ 503 bilhões investidos até 2020, de forma a que 80% das maiores cidades da China sejam interligadas por uns 30 mil km de ferrovias de alta velocidade.

Enquanto isso, em um vergonhoso contraste, 70% de nossas cargas são transportadas em sangrentos matadouros, digo, rodovias caríssimas, no lombo de milhares de caminhões adquiridos a peso de ouro de empresas transnacionais aqui instaladas. Dos 29.798 km de ferrovias que o Brasil tem, uns 10 mil foram construídos por Dom Pedro II. Para completar, 7 mil km de nossas ferrovias estão desativados, e uns 40% do restante em péssimo estado. Por conta de tal estado de coisas, a velocidade média dos nossos trens gira em torno de 20 km/h. Quem ganha com isso? Aliás, por qual motivo este gravíssimo problema nacional é tão pouco discutido?

Pois é. Do outro lado do mundo, uma pujante e moderna Rota da Seda. E aqui, em um país infinitamente mais rico, a humilhante "Rota da Lesma"...

Pedro Valls Feu Rosa

Abandono da escola e a imersão no crime

A educação nunca foi prioridade no Brasil. O colonizador português restringia a abertura de escolas porque considerava povo instruído um risco a seu domínio. Essa postura foi mantida, após a Independência, sem manifestações explícitas porque era importante camuflar as estratégias de preservação das formas mais iníquas de subordinação de alguns em benefício da classe dominante. Assim, desde a Constituição de 1824, prescreve-se a obrigatoriedade do ensino básico para todas as crianças, mas os investimentos estiveram sempre aquém das necessidades, e nunca há (...) um discurso consistente quanto à relevância da escolarização universal para integração plena de cada cidadão ao mundo moderno. Muitas famílias exigem que os filhos façam curso superior, mas financiam fraudes para que eles se deem bem nas avaliações, sem se preocuparem com os índices de aprendizagem, desde que a diplomação esteja garantida. Surgem, então, mensagens subliminares, depreciando a educação como caminho consistente para a qualificação profissional.

Nas classes subalternas, isso se torna mais dramático, contribuindo para a marginalização dos jovens desses segmentos, porque há mais obstáculos para frequentar a escola e eles não têm experiências compatíveis para a imersão no universo das letras, da ciência e das artes. Seu cotidiano é sempre repleto de dificuldades, que incluem trabalho desde a infância, carência material, desnutrição e deslocamento para o colégio, no campo ou na cidade grande.

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O baixo prestígio da educação tem condicionado a péssima rede de ensino, que inclui a precariedade da infraestrutura e o corpo docente desmotivado. As atividades são, então, pouco atraentes, desestimulando os pais a exigir dos filhos dedicação aos estudos, enquanto os imaturos não reconhecem a relevância da instrução para sua vida. Tudo soa como um mundo indecifrável e sem aplicabilidade em seu cotidiano miserável. Logo, as crianças perdem o interesse nas aulas em instituições públicas, interrompendo a formação que lhes garantiria a participação efetiva na sociedade urbano-industrial. Procuram, então, trabalho para ganhar seu sustento, mas encontram apenas atribuições inferiores; portanto, malremuneradas. Ficam, ao mesmo tempo, acessíveis ao recrutamento por gangues que instalaram o terror no país. Elas assumem, primeiro, funções auxiliares, mas vão, em seguida, para as mais complexas, sempre expostas à violência como agentes ou alvos.

As rebeliões nos presídios vêm escancarando a superlotação e a demanda crescente por vagas. Isso mostra que a raiz do problema é a marginalização das novas gerações porque não frequentaram a escola ou não se adaptaram às atividades e aos objetivos de qualificação profissional, que as levariam à inserção no mercado de trabalho. A irresponsabilidade dos governantes em manter uma rede escolar insuficiente, ineficiente e descomprometida com o futuro dos brasileirinhos está, portanto, escancarada. Resta saber até quando.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017


Os indemissíveis não estão nem aí


Chamaram o Exército...

Declara-se, como justificativa, que as Forças Armadas nacionais entram na parada “pela credibilidade” que os funcionários do sistema presidiário não têm. O presidente da República admite publicamente, portanto, que a “falta de credibilidade”, vulgo corrupção, desses “servidores” está na base da tomada das prisões pelo crime organizado que culminou nos massacres dos últimos 20 dias, mas que é impotente para fazer qualquer coisa a respeito senão pedir vênia aos corruptos para colocá-los de lado, vez por outra, para tomar dos criminosos os telefones, as armas e as drogas que estes regularmente lhes servem nas celas.

A expectativa de eficácia dessa providência é, naturalmente, a mesma das outras “meias-solas” que vêm sendo anunciadas para “consertar a economia nacional” sem deter a hemorragia que a vai matando: essa que mantém o País em profunda depressão moral e material.

“Nada de contrapartidas! Nem de arresto de bens por calote! Demissões, então, nem pensar! Nem um passo atrás!”

No Estado paralelo do crime organizado, com enclaves inexpugnáveis espalhados por todo o grande favelão nacional, todo mundo trabalha pelo fortalecimento da organização e o chefe elimina sumariamente quem pisa a regra estabelecida. No Estado nacional todos trabalham para se locupletar e os chefes, em geral aqueles que tiveram maior sucesso nisso ao longo da carreira, cooptam todos os que são flagrados jogando contra a Nação. A grande novidade deste último meio milênio é haver quem, do lado de dentro da lei, esteja exigindo o cumprimento dela. Mas todos os demais lhes resistem, como sempre...

A declaração de independência dos presídios controlados pelo crime organizado decorre diretamente dessa independência dos agentes do Estado brasileiro da lei e da vontade do Brasil. Os nossos “representantes”, os nossos “servidores”, podem sempre se dar o luxo de ter vontades e comportamentos próprios, diferentes dos nossos, impunemente. Escrevem leis que só valem para eles e que nos impõem sem consulta; escolhem de quem vão cobrar ou deixar de cobrar as que valem para o resto da Nação. A mais “sagrada” de todas as leis escritas por eles só para eles é a que estabelece que cada indivíduo posto para dentro do Estado não sai nunca mais. Ele e a sua descendência. Basta entrar. Não estão obrigados a ser bons no que fazem, nem a mostrar resultados sob pena de perderem tudo, como você e eu aqui, no mundo real. Podem escolher se e quando jogarão a favor da “empresa” sem que isso lhes custe nada. São indemissíveis. São intocáveis.


Charge O Tempo 20/01/2017

O resto, desse marco inicial até a falência nacional e a submissão do País inteiro ao crime organizado, o tempo faz. O raciocínio é simples. Se você for contratar um empregado amanhã e começar a conversa garantindo que a partir do ato da contratação ele será indemissível para todo o sempre e passará a decidir o valor do seu próprio salário, em 15 dias ele estará na sua cama e você na casinha do cachorro. Nem o mais idiota dos idiotas, individualmente, entraria numa roubada como essa. Mas como coletivo, como sociedade, a brasileira tem sido muito mais que idiota. E há tanto tempo que nem casinha de cachorro tem mais. Está na rua, ao relento mesmo.

A dimensão psicológica do problema brasileiro tornou-se maior que a sua causa original. Apesar da obviedade de tudo isso, apesar de cada brasileiro conhecer pessoalmente tipos como os que o parasitam e a obscenidade do resultado que colhem comparado ao que ele próprio consegue suando, você pode ficar o dia inteiro na frente da TV, ler todos os jornais, ouvir todos os “especialistas” e, à altura já da centésima quinquagésima morte por esquartejamento em 18 dias, do sexagésimo milésimo assassinato dos últimos 12 meses, do décimo segundo milionésimo emprego perdido e do terceiro aniversário da morte da economia nacional, não ver a óbvia, a ululante causa original de tudo isso ser apontada uma única vez como tal. Os três Poderes, para cujos titulares até as prisões são “especiais”, podem continuar folgadamente falando apenas de si mesmos. E o quarto, que renunciou à condição de “player” ao deixar de propor e expor soluções, vai a reboque num “lero” infindável sobre o nada; sobre modos “progressistas” ou “conservadores” de fazer as coisas que são luxos de gente que já se libertou e ficou rica.

Outros povos que viveram esse mesmo calvário tomaram a si, com a arma do “referendo” por iniciativa popular, a aprovação ou rejeição das leis escritas pelos seus representantes; instituíram o “recall” para demitir eles próprios os desviados protegidos pelos colegas; aprenderam que a única alternativa para o privilégio é a igualdade perante a lei e que qualquer exceção aberta, por menor e bem “justificada” que seja, acaba inevitavelmente no estouro da boiada. Mas para a alma latina e católica dos nosso intelectuais, dos nossos jornalistas, dos nossos “revolucionários”, essa solução parece muito pouco emocionante. Eles sempre começam cada batalha da sua proclamada guerra contra a miséria brasileira renovando a sua rendição incondicional; comprometendo-se a discutir todas as formas de “resolver o problema” exceto pela remoção da sua causa fundamental. A indulgência plenária, o perdão do comportamento pecaminoso mesmo que continuado, a graça conquistada mais com as orações que com os atos; o privilégio alcançado, seja através da fervorosa persistência do “concurseiro”, seja outorgado ao pobre mortal arrancado deste vale de lágrimas pelo toque miraculoso do poderoso da hora, está sempre pairando no horizonte. São fascinados pelo charme do privilégio. Botam sempre fé que “seremos todos incluídos” nele um dia.

Enquanto for assim, vamos como vamos: compra um carro blindado quem pode mais, uma arma quem pode menos, e segue-se em frente roubando ou sendo roubado, despedaçando ou sendo despedaçado.

Refugiado

o climatólogo James Hansen reforçou na última edição do TED o fato de que o aquecimento global tem afetado mais e mais o planeta. E que se providências sérias não forem tomadas, reverter o problema pode se tornar muito mais difícil e caro.:
Um presidente americano com as ideias e a índole de Donald Trump pode acabar com o mundo de muitas maneiras. Uma delas, em especial, faz-me suar. Literalmente. Ele não acredita em aquecimento global. Ou, como tuitou em 2012, vê o aquecimento global como uma lorota chinesa para tornar menos competitivos os produtos made in USA. Pretende roer a corda do Acordo de Paris e cortar pesquisas em clima e ecologia.

Trump enxerga a vida de modo paroquial. Talvez não ache que o mundo está ficando mais quente só porque seu domicílio eleitoral fica na área do planeta que, de acordo com as medições científicas, teve o clima menos alterado: Nova York, na costa nordeste dos EUA. Mesmo assim, os termômetros da cidade registraram espantosos 22,2° C positivos na véspera do Natal de 2015. Isso dá quase um inverno carioca.

Bem, eu também não acredito em aquecimento global. Eu o sinto na pele. Pode-se no máximo debater se o calorão é resultado de um ciclo que a Terra experimenta periodicamente, e para o qual os cientistas ainda não têm explicação, ou se é produto da industrialização destrambelhada, do consumo desenfreado e da superpopulação humana. Seja como for, acho que temos um papel a desempenhar na atenuação de seus efeitos.

Na quarta-feira, a agência governamental americana que cuida do meio ambiente e do clima divulgou: 2016 foi o ano mais quente registrado na História, desbancando 2015, que desbancara 2014. Nunca antes o recorde havia sido quebrado em três anos consecutivos. Se a temperatura continuar subindo, e nada indica que a tendência vá ser revertida no futuro imediato, fico feliz de estar morto em duas ou três décadas. “Fear no more the heat o’ the sun”, cantam dois personagens de Shakespeare. Num enterro.

Na minha infância e adolescência em Copacabana, o clima no verão tinha uma regularidade agradável. Não era necessário ter a menor noção do que fosse “sensação térmica”. De manhã, dava praia. Quente, mas não tórrida. Depois do almoço, fazia-se a sesta. No final da tarde, batia uma chuva que realmente refrescava. Lembro-me do cheiro das ruas molhadas quando saía para ir a uma livraria ou voltava à praia para jogar uma pelada. Em toda a casa, havia um único ventilador. Ninguém precisava de outro.

Durante parte da adolescência, em busca de um pouco de privacidade, dormi no quarto destinado a uma empregada que não tínhamos. Cabíamos eu, minha cama de solteiro, uma estante para o toca-discos e os LPs, outra estante para os livros e, no alto, um prateleirão para as revistas. A janela basculante dava para uma área fechada que, por sua vez, tinha um único basculante para o mundo externo. Apesar disso, eu possuía só um pequeno ventilador de plástico. Eu conseguia viver — e dormir — dessa maneira.

Após uma breve passagem pelo Flamengo, já adulto e casado, mudei-me para Laranjeiras, que graças à razoável arborização está longe de ser o bairro mais quente do Rio (eu e Marcelo Madureira já apresentamos um documentário no GNT sobre o verão de Bangu, sei do que falo). Estou nesse mesmo apartamento há 21 anos. Vejo o aquecimento global também nas mudanças pelas quais ele passou. Primeiro, vieram os ventiladores de teto. O último a ser instalado substituiu o belo lustre que havia na sala.

Depois, pouco a pouco, vieram, ou melhor, tiveram de vir os aparelhos de ar-condicionado. Um no quarto das meninas. Outro aqui no quarto que uso como escritório e biblioteca. O do nosso quarto de dormir é a aquisição mais recente, tem um ano e pouco de muito uso. Contudo, em dias como a última segunda-feira (sensação térmica de 48,6° C em Guaratiba, delícia), ele não está dando conta do inferno. Para onde ir?

Especula-se que o agravamento das condições climáticas virá a ocasionar guerras por recursos hídricos e movimentos migratórios de massas sedentas e famintas em dimensões inéditas. O Brasil tem problemas de desertificação na Região Nordeste e em áreas do Rio Grande do Sul, além do desmatamento endêmico na Amazônia, mas nesse quadro pré-apocalíptico ainda parece ter salvação. Porém, há momentos em que o meu cérebro frita dentro da caixa craniana, e me imagino como um refugiado do clima.

Três cenários. Pacote Imperial: deixo o Rio de Janeiro e me instalo na cidade de Petrópolis, próxima, simpática e amena. Pacote Maju: deixo o Rio de Janeiro e me instalo em Urupema, Santa Catarina, que superou São Joaquim, no mesmo estado, como a capital nacional das temperaturas mínimas. Pacote Ferrou-a-Parada-Toda: deixo o Rio de Janeiro e me instalo na América do Norte. Fica frio, Donald, no Canadá, no Canadá.

Costumo brincar que sou geneticamente programado para me sentir à vontade no frio e sofrer horrores no calor. Porque, embora eu seja carioca da gema, três galhos da minha árvore ginecológica — quem comeu quem, onde e quando, não é disso que se trata? — cresceram em regiões montanhosas, nas quais costuma ou costumava nevar no inverno. Ou seja, Donald, você tem razão: eu devo ser um fresco.

Arthur Dapieve

Paisagem brasileira

Mauro Ferreira

Alegria e dor nos calendários

A maioria dos calendários apresenta os dias em vermelho para os feriados, e preto ou azul para os dias úteis.

Calendários explicitam algumas coisas, mas ocultam outras tantas. A etimologia pode indicar o verdadeiro significado. Calendário veio do latim calendarium, caderno para anotar as calendae, dias de pagar as contas, quando as autoridades dedicavam-se a calere, convocar, a população para o pagamento de impostos e outras contas.

O nosso calendário é gregoriano, assim chamado em homenagem ao Papa Gregório XIII, que em 1582 ajustou uma diferença do calendário juliano, do qual foram suprimidos dez dias, para fixar corretamente a data da Páscoa, das estações e de outros eventos. Assim, o dia seguinte a 4 de outubro foi 15 de outubro.

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Há calendários mais antigos, como o hebraico e o chinês. Mas hoje todos aceitam o padrão gregoriano de contar o tempo. A folhinha, como é popularmente conhecida, guarda a memória das folhas das árvores em que as sibilas, mulheres adivinhas, escreviam as profecias do ano que começava. Estas profecias há muito tempo são outras: fases da Lua, eclipses, previsão de chuvas, dias em que vão cair os feriados móveis, dias de jejum e de abstinência, efemérides etc.

Os dias úteis, marcados na cor escura para diferenciá-los dos feriados civis e dias santificados, ainda fixam como castigo o significado do trabalho, segundo a primeira condenação bíblica que expulsou nossos primeiros pais da esfera das coisas sagradas, condenando o homem a ganhar o pão com o suor de seu rosto e a mulher a sofrer nos partos.

Nesta metáfora, Adão e Eva, expulsos do paraíso e condenados ao trabalho, foram os primeiros imigrantes e refugiados do mundo. Trabalho veio do latim tripalium, um instrumento de tortura de três paus, como indica o étimo, no qual a vítima era supliciada, como ainda o é em muitos empregos.

A incontida alegria que a todos afeta nas sextas-feiras remete a um jazigo do inconsciente de onde podemos ressuscitar por dois dias, ainda que tenhamos que voltar na segunda-feira para cumprir mais uma daquelas perpétuas parcelas semanais da mítica e antiga condenação.

As palavras que designam as cores do calendário também têm uma etimologia curiosa. Vermelho veio do latim vermiculus, minúsculo verme que fornecia o pigmento para tingir a roupa da gente fina e nobre: chefes religiosos, chefes políticos, chefes militares, às vezes englobados numa pessoa só. Seu outro nome era púrpura, molusco de difícil captura. Na antiguidade, a caça e a pesca do porphiros, seu nome grego, e da purpura, seu nome latino, eram proibidas para que somente os poderosos tivessem acesso a essa cor.

Os cardeais da Santa Sé, príncipes herdeiros da monarquia mais antiga do mundo, vestem vermelho ou púrpura, esta última a cor preferida das altas insígnias da realeza e da magistratura. De resto, tapetes vermelhos são estendidos, literal ou metaforicamente, para personalidades a honrar.

O calendário das nações lusófonas como o Brasil tem uma singularidade única: os dias da semana não homenageiam deuses pagãos desde o século VI, quando o bispo de Braga aboliu as referências ao Sol, à Lua, a Vênus e a outras divindades, que continuam homenageadas em outras línguas, de que são exemplos o Sol e a Lua no inglês Sunday e Monday.

Com exceção de sábado, do hebraico xabbat, dia do descanso, pelo latim sabbatum, nossas semanas começam sempre com o domingo, dia de feria, que pode ser festa ou feira, e segue de segunda a sexta, lembrando que todos são dias de festejar, comprar e vender.

Quem será grande em 2017? Quem foi grande em 2016? Fazemos diversas retrospectivas, mas ainda é cedo para sabermos quem teve importância no ano passado ou terá importância no ano que começou. Como disse o romancista francês Gustave Flaubert,“quem cria os grandes homens é a posteridade”.

A posteridade cria os pequenos também. Ou apequena os grandes e engrandece os pequenos.

Deonísio da Silva

Há diferença?

Enquanto não negociarem, este prédio continuará ocupado
Guilherme Boulos, do MTST. dando ordens durante a invasão da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano, em São Paulo
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A gente só sai quando derramar a última gota de sangue
Detento da penitenciária de Alcaçuz (RN)  

Em jogo, o futuro da Lava-Jato

Com a morte do ministro Teori Zavaski, caberá, a princípio, a um dos integrantes da 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) a relatoria provisória de ações urgentes da Lava-Jato até que o presidente Michel Temer, como manda a Constituição, nomeie um novo ministro e submeta o seu nome à aprovação do Senado.

Fazem parte da 2ª. Turma: Celso de Mello, Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowiski e Dias Toffoli. A escolha de um relator provisório poderá ser feita mediante sorteio ou de comum acordo entre os demais 10 ministros do STF, que em breve trocarão ideias a respeito com Cármen Lúcia, presidente do Tribunal.

Temer não tem prazo para indicar o substituto de Teori. Nem o Senado para aprovar a indicação. Dada às circunstâncias, o processo não deverá ser tão demorado quanto foi o que resultou na substituição de Joaquim Barbosa por Edson Fachin, a última que aconteceu ali. Passaram-se longos 11 meses.

A morte inesperada de Teori deixa a Lava-Jato em xeque. O ex-ministro era respeitado por envolvidos, desafetos e aliados da operação comandada pelo juiz Sérgio Moro. Não será fácil encontrar um sucessor para ele com um perfil igual ou parecido. O novo ministro levará um bom tempo para dominar o assunto.

Teori estava pronto para homologar no início do próximo mês a delação dos executivos da Odebrecht. Não tinha data marcada para fazê-lo, e nenhum prazo que o obrigasse a isso. Mas era o quer faria. O relator provisório da Lava-Jato assumirá esse compromisso? Difícil que assuma. É razoável que peça mais tempo para concluir a tarefa.

Quanto mais se arrastar a Lava-Jato no STF, melhor para os que ali são denunciados ou réus. Pior para o país que cobra mais agilidade da Justiça. Enquanto, em Curitiba, Moro coleciona condenações já confirmadas pela 2ª instância da Justiça, o STF ainda não julgou ninguém da Lava-Jato. Tudo no STF se arrasta com a velocidade de uma tartaruga.

É possível que desta vez, preocupado com sua imagem, o STF ofereca uma saída rápida pelo menos para a escolha de quem tocará ali a Lava-Jato depois da morte de Teori. Em tese, caberia ao ministro a ser nomeado por Temer herdar os processos que estavam a cargo de Teori. Mas, se quiser, o STF poderá dar outra solução.

A morte de Teori abriu uma vaga na 2ª Turma do STF que cuida da Lava-Jato. Um ministro da 1ª Turma poderá vir a ocupar tal vaga. E a dele, na 1ª. Turma seria preenchida mais tarde com o nome a ser indicado por Temer. Portanto, quem herdaria em definitivo os processos que eram de Teori seria um dos integrantes da 2ª. Turma recomposta.

Só não será Celso de Mello, o decano do STF e membro da 2ª. Turma, se ele não quiser. Ou se Cármen Lúcia quiser acumular a presidência do tribunal com a relatoria da Lava-Jato. Improvável. O que se configuraria um absurdo seria deixar a Lava-Jato no STF aos cuidados de um ministro indicado por Temer e aprovado pelo Senado.

Temer e vários dos seus parceiros foram citados em delações da Lava-Jato. Um terço dos senadores, entre eles Renan e seu possível sucessor, Eunício Oliveira, também foi. Quem convenceria o distinto público de que um ministro agora avalizado por essa gente se comportaria com isenção à frente da Lava-Jato?

É bom não cutucar a “fera”. A “fera” atende também pelo nome de opinião pública.

Imagem do Dia

Vespa na lente de insetos de Muhammad Roem

Sob luto, Supremo precisa proteger a Lava Jato

A morte do ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal, reclama providências urgentes. Convém investigar com rigor máximo todas as circunstâncias que envolvem a queda do avião que transportava o magistrado. Simultaneamante, o Supremo precisa tomar providências urgentes para proteger a Operação Lava Jato.

Relator da Lava Jato, Teori se equipava nas férias para homologar ao longo de fevereiro os acordos de colaboração de 77 delatores da Odebrecht. Em condições normais, os processos do ministro seriam herdados por seu substituto, a ser indicado pelo presidente Michel Temer. Mas o Supremo cometerá um erro histórico se tratar a Lava Jato como um processo normal. Não é.


O bom senso recomenda que o Supremo escolha imediatamente, por sorteio, um novo relator para a Lava Jato. Se tiver juízo —e parece ter—, a presidente do tribunal, Cármen Lúcia, se entenderá com seus nove colegas para que o novo titular do processo seja anunciado nos primeiros dias de fevereiro, na volta das férias.

Ponto alto da Lava Jato, a delação coletiva da Odebrecht lança na fogueira do maior caso de corrupção da história da República a nata da política nacional. Foram mencionados de Michel Temer a Lula, passando por Dilma Rousseff, Renan Calheiros, Rodrigo Maia, José Serra, Aécio Neves e um interminável etcétera.

Pois bem. Tratando-se a Lava Jato como algo trivial, a encrenca seria herdada pelo escolhiodo de Temer, um potencial investigado. O nome teria de ser sabatinado pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado, cuja presidência é reivindicada pelo réu Renan Calheiros. Na sequência, o indicado precisaria ser aprovado pelo plenário do Senado, apinhado de suspeitos. A moralidade pública não e a paciência dos brasileiros não merecem passar por semelhante tortura.

Felicidade de corrupto

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E quando disserem que o crime não compensa, você tem de lembrar que isso é porque, quando compensa, não é crime
Millor Fernandes

Sobreviver a grandes naufrágios é uma via estreita e de final incerto

Entro na livraria e pasmo: duas mesas, longas, cheias, com títulos que se repetem. A lista é exaustiva mas exaustão é preciso: "Como Viver sem Ansiedade"; "Livre de Ansiedade"; "As 10 Melhores Técnicas para Vencer a Ansiedade" etc., etc.

Depois, os dramas sobem de tom: "Cure os Seus Medos"; "As Regras Essenciais para Viver sem Medo"; "Como Parar o Envelhecimento"; "A Dieta Anti-idade" etc., etc.

Finalmente, e após todas as tormentas, o santo graal: "Pequenos Passos para a Imortalidade"; "Curar para a Imortalidade"; "A Promessa de Imortalidade" etc., etc.

A moda não começou hoje. Mas só hoje reparei na moda. Duas conclusões. A primeira é que a nossa sociedade já não admite certos traços da condição humana que os nossos antepassados compreendiam e com os quais conviviam do berço até a cova. Ansiedade. Medo. Velhice. Mortalidade.

A história da literatura, desde Homero, é um catálogo desse rio permanente. Hoje, é uma mancha que estraga a "euforia perpétua", como a chamou Pascal Bruckner, e que humilha os seus sofredores.

Amigos meus, ansiosos, não sofrem apenas de ansiedade. Eles sofrem com a ansiedade de terem ansiedade. Eles têm medo de terem medo. Eles olham para a velhice e para a morte como os homens primitivos olhavam para trovões e tempestades.

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Mas os títulos mostram outra coisa: a pós-modernidade não passa de uma ilusão. Vivemos ainda tempos racionalistas: se existe um problema, qualquer problema, então existe uma solução para ele. Nem a morte escapa a estes "engenheiros de almas humanas". A ideia de que alguns problemas não têm solução –uma solução clara e distinta, como diriam os cartesianos– é intolerável para a sociedade "prêt-à-porter". Que fazer?

Sugestão: assistir ao filme "Manchester à Beira-Mar", que estreia nesta semana, uma espécie de "missa solemnis" filmada por Kenneth Lonergan. Então encontramos Lee (Casey Affleck, em papel que só aparece uma vez na vida), um "handyman" que vive em Boston.

Ele cumpre o trabalho com o entusiasmo dos condenados. Bebe forte e bate forte, normalmente no mesmo bar. Não admite os floreados sociais que decoram as nossas existências –conversas, alegrias, intimidades. Para quem gosta de mortos-vivos, Lee é a prova de que é possível encontrar um fora da fantasia.

Mas eis que chega um telefonema com uma notícia funesta. É o primeiro momento em que Lee permite a sombra de uma emoção. De volta à cidade de Manchester, de onde saiu anos antes, Lee volta também ao passado –um passado brutal, infernal, inominável.

"Manchester à Beira-Mar", apesar de alguns excessos formais que se dispensam (quem ainda usa a música de Albinoni para momentos dramáticos?), cumpre duas ideias antiquadas.

A primeira, explorada em tempos por um certo escritor russo, é a certeza de que não existe nada de tão insuportável como um crime sem castigo –e, por essa via, sem expiação.

Nesse passado, que se vai revelando em sutis "flashbacks", Lee confessou à polícia a sua tragédia. A polícia escutou-o, compreendeu-o e liberou-o.

A reação de Lee é uma mistura de incredulidade e revolta –a revolta de quem não terá punição externa; apenas interna. Em dez minutos, Kenneth Lonergan joga no lixo a ideia simpática de que a "culpa" não passa de uma relíquia judaico-cristã.

Mas existe uma segunda ideia que nos permite medir a vida de Lee e a vida daqueles que "seguiram em frente", para usar a expressão das novelas. Acontece quando ele conversa com a ex-mulher, ou melhor, quando contemplamos a incapacidade de haver qualquer conversa porque até as palavras têm limites.

Só então perguntamos qual dos destinos será pior: o mundo petrificado de Lee ou a busca desesperada de fugir desse mundo rumo a um simulacro de normalidade.

"Manchester à Beira-Mar" não é o filme ideal para quem lê "Como Viver sem Ansiedade" ou "Cure os Seus Medos". Mas é o filme ideal para uma classe de adultos que sabe, ou pelo menos suspeita, que sobreviver a grandes naufrágios é uma via estreita, longa e de final incerto.

No primeiro diálogo do filme, quando a vida ainda era uma vida, Lee conversa com o sobrinho pequeno para lhe perguntar quem ele levaria para uma lha deserta: o pai ou o tio?

Ironicamente, para essa ilha deserta só viajou Lee. E quando nos perguntamos se algum dia haverá um barco para o visitar ou até resgatar, o pano desce com pudor. O futuro é um porto distante para quem navega um dia de cada vez.

Velhos tempos

"Velho realejo", de Sadi Cabral e Custódio Mesquita.

Os dois 'pobrema'

A “mídia” tenta vender a ideia de que a roubalheira é suprapartidária – e é – disseminada e parte da alma do cidadão brasileiro, o que obviamente é uma vigarice retórica das mais calhordas. Esconde-se com isso o segundo “pobrema”, que é o fato de que, dentro da roubalheira institucionalizada, infiltrou-se uma quadrilha de esquerdistas em botão – muito bem organizada, por sinal – que rouba, mas rouba por uma causa, com método, interesses e ações bem definidas.

Esta quadrilha é reflexo e ressonância de uma outra, muito maior, disseminada numa boa conjunção de países que professam em suas administrações a presença do organismo público – e sua consequente inflexão ao roubo do dinheiro alheio – como parte de um tipo de administração onde o “azeite” da máquina pública é a confraria ou o dinheiro, distribuído em inconfessáveis interesses. Na margem de tudo isso, a sociedade pagante.

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Assim como não há um “censo presidiário”, para sabermos quantos bandidos estamos bancando no falido sistema prisional brasileiro, não há também um censo – ou senso – para a ocupação do serviço público e sua devida eficiência. Não sabemos portanto, quantos bandidos estamos patrocinando do lado de fora dos presídios, eleitos em tenebrosas eleições para manter a massa bovina sob controle, debaixo da maior carga tributária de que se tem notícia.

Vamos ter um pingo de bom senso, meus caros e pacatos cidadãos. Eu topo pagar mais imposto, desde que me provem que o judiciário funciona, que as instituições funcionam, que o peleguismo sindical será combatido junto com as organizações criminosas, que as organizações não-governamentais narco-dependentes do Governo serão varridas da coisa pública e que os nossos agentes públicos pimpões terão rígidas funções de mérito e metas a cumprir.

Que tal isso? Isso ninguém quer defender, não é mesmo? Preferem defender mesmo o simplismo tacanho da volta da CPMF ao lombo dos contribuintes. Eu sabia que desse mato não sairia coelho. Eu lamento pelo jornalismo que se professa por aí. Está perdendo o senso do ridículo e a pouca vergonha ostentada na cara parva. É um espanto.

Tiros de chumbinho

Escalar militares para inspecionar presídios equivale a enfrentar o crime organizado empunhando uma espingarda de chumbinho. É o que diz Walter Maierovitch, desembargador aposentado e ex-secretário nacional Antidrogas. O professor assistiu com ceticismo ao anúncio feito pelo porta-voz do presidente Michel Temer. “Mais uma vez, estão fazendo uso político das Forças Armadas diante de uma situação de descontrole. Já vimos isso acontecer antes, nos governos Lula e FHC”, critica.

Para o especialista Maierovitch, a medida não conterá a barbárie nas cadeias. Ele diverge da ideia de usar as tropas como força auxiliar das polícias estaduais, “que não conseguiram fazer nada para conter a crise”. “Isso é populismo. O que o governo pretende, botar soldados de fuzil ao lado dos carcereiros?”, questiona.

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Especialista no estudo de máfias, o professor recebeu com igual descrença o Plano Nacional de Segurança Pública, anunciado pelo ministro da Justiça, Alexandre de Moraes. Ele diz ter visto pouca substância e muita pirotecnia no pacote.

“O que o plano pode fazer diante de presídios superlotados de pequenos traficantes? Estão botando esparadrapo em fratura exposta. Parece que o ministro só está lá para fazer autopromoção”, ironiza.

Na opinião de Maierovitch, o governo deveria encampar ideias mais ousadas, como descriminalizar o uso de drogas e reservar as cadeias para criminosos de alta periculosidade. Ele diz que os últimos presidentes não tiveram coragem de enfrentar o debate quando estavam no poder. “E parece que o Temer amarela a cada dia”, acrescenta.

O professor também não se animou com as declarações da presidente do Supremo, Cármen Lúcia. “Tenho respeito pela ministra, que quer fazer um recenseamento dos presídios. Ótimo, mas o que isso vai adiantar? Quanto tempo vai demorar? As cadeias estão lotadas porque a Justiça não funciona”, afirma.

A fila hospitalar é virtual

A todo momento entramos numa fila, portanto, chegue primeiro!

É justo?

Quem vai a um grande parque temático no estrangeiro enfrenta filas, separadas em labirintos gradeados, onde ficam pais e filhos durante longas horas e sem reclamar “muito” da espera. Na fila todos são iguais, alegres, coloridos, e a música ajuda a comer o tempo. Pessoas com necessidades especiais são bem recebidas e têm prioridade.

Pode-se divertir quantas vezes quiser na mesma atração e não se paga mais por isso. Quem consegue driblar o “tô cansado, quero dormir um pouco mais” consegue ir a muitas atrações no mesmo dia. Criaram-se passes rápidos, otimizando o tempo, e, com isso, outros parques podem ser visitados. É mais divertimento, consumo e lucro.

Imaginemos essa estratégia no sistema de saúde.

Como seria a fila de consulta para a clínica geral, ginecologia, pediatria e ortopedia? E a da mamografia, endoscopia, tomografia ou ressonância magnética? E a fila das pessoas aguardando cirurgia, radioterapia ou quimioterapia?

Tudo visível, sem tons de cinza. Faltaria música, mas OK!

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O passe rápido facilitaria vencer várias filas, sem a necessidade de trocar de hospital. Alguns não seriam atendidos no que esperavam, mas perceberiam a organização, transparência e compromisso para fazer o melhor do possível. Ninguém furaria a fila. Pessoas com necessidades especiais receberiam a justa prioridade, levando-se em conta que todo ser humano, quando doente, tem necessidades especiais.

Mas o sistema de saúde brasileiro, com sua casa dos espelhos, sempre distorce nossa imagem. Há anos inventou o Sistema Nacional de Regulação - SISREG, para “gerenciamento através de módulos que permitem a solicitação de consultas, [...] exames e procedimentos de média e alta complexidade, bem como a regulação dos leitos hospitalares, maior otimização na utilização dos recursos e humanização no atendimento”.

Há também uma outra invenção: a Central Estadual de Regulação, para “organizar a lista de espera por procedimentos no SUS”; com “gestão estadual”, permite a “regulação de procedimentos ambulatoriais de alta complexidade, iniciando sua atuação nos serviços de radioterapia, hematologia, cirurgia bariátrica, gestação de alto risco e terapia renal substitutiva”, sendo “responsável pela regulação de toda a rede de Hospitais Federais e Institutos do Rio de Janeiro, além das redes estadual e municipal”. Haja regulação!

Mas a cereja do bolo é que “as listas de espera [...] têm a finalidade de controlar [...] dar mais transparência ao acesso da população aos serviços especializados de saúde.

Não somos patetas.

Se há uma coisa que gestores não gostam é a filmagem de pacientes em filas que invadem calçadas. Agora as longas filas saíram das ruas e estão escondidas em computadores protegidos por senhas.

As pessoas passaram a morrer em “bancos” (de dados) e não em calçadas frias, longe de atentos fotógrafos e cinegrafistas.

Hoje a fila hospitalar é virtual.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

É de mentira a intervenção das Forças Armadas no sistema penitenciário

A ideia inicial foi de Alexandre Moraes, ministro da Justiça, que a levou direto ao presidente Michel Temer: por que não usar as Forças Armadas para enfrentar o agravamento da crise no sistema penitenciário brasileiro?

Temer gostou da ideia e chamou para conversar a respeito os ministros Raul Julgmann, da Defesa, e Sérgio Etchegoyen, do Gabinete de Segurança Institucional. Foi longa a conversa.

Os dois desaconselharam Temer a embarcar na canoa furada de Moraes. Argumentaram com a falta de treinamento das Forças Armadas para cumprirem tal papel.


Falaram dos riscos de contaminação dos militares em contato direto com o crime organizado. E lembraram que a Constituição é muito clara quando define quais são as verdadeiras funções das Forças Armadas.

Mas Temer insistiu que alguma coisa deveria ser feita mesmo assim. Foi então que se inventou a intervenção militar de mentirinha. Porque é disso que se trata, e nada mais.

Uma vez que os governos estaduais peçam, uma vez que os detentos do presídio a ser vistoriado sejam retirados de lá e isolados em outro lugar, militares com detectores de metal inspecionarão as celas.

O serviço poderia ser prestado por empresas privadas que dispõem do mesmo tipo de equipamento. A farda, porém, servirá para lhe conferir maior credibilidade.

Servirá, também, para demonstrar a preocupação do governo com a situação dentro e fora dos presídios. Nada mal para um governo carente de popularidade e de boas ideias.

Paisagem brasileira

Fim de tarde, José Rosário

Posse de vereadores presos é espelho do país

Costuma-se dizer que há muitos corruptos em Brasília. Mas as pessoas esquecem que eles são enviados pelos eleitores dos seus Estados. Já chegam à Capital prontos. O que aconteceu nesta quarta-feira em Foz do Iguaçu, no Paraná, ajuda a entender o que se passa em Brasília e no Brasil.

Cinco vereadores reeleitos em outubro do ano passado e presos desde dezembro por suspeita de corrupção tomaram posse na Câmara municipal. Chegaram escoltados pela política, prestaram juramento e, depois de empossados, voltaram para a cadeia. Tudo isso sob vaias de manifestantes, pedidos de renúncia dos vereadores-presidiários e gritos de “vergonha”.

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Ronilson Marcílio Alves (PTB), com algemas e uniforme
de presídio, compareceu à Câmara Municipal de Caratinga

Você pode pensar: bom, isso aconteceu no Paraná, na fronteira com o Paraguai. Está muito distante de mim. Engano. Isso acontece no país inteiro. A política apodreceu. E você, que é eleitor, não pode nem se eximir de culpa. Depois de examinar o comportamento dos políticos, que, em tese, deveriam representar o que há de melhor na sociedade é inevitável concluir que o brasileiro parou de evoluir.

Não é à toa que falamos tanto sobre ladrões, assaltastes e facções criminosas. Sem esses personagens, o Brasil de hoje perderia o que tem de mais vital. O país ficaria sem enredo. Nesse contexto apodrecido, ou você reage ou não deve perguntar o que seu país pode fazer por você. Pague o IPTU e o IPVA, que vencem agora, no início do ano, pague todos outros tributos e vê se não chateia.

O poder paralelo venceu

Na noite de 25 de maio de 1992, uma segunda-feira, o então prefeito do Rio de Janeiro, Marcello Alencar, foi entrevistado no Roda Viva, da TV Cultura. Lembro-me bem, fui um dos entrevistadores. Já naquele tempo o crime organizado mandava nos morros cariocas. As autoridades desconversavam, minimizando a existência de um Estado paralelo que só iria crescer. O prefeito do Rio não fugia à regra.

Armando Nogueira também estava na bancada de entrevistadores. Depois de 25 anos no comando do jornalismo da Rede Globo, da qual se tinha desligado em 1990, ele conhecia de perto a tragédia da segurança pública no Rio. Foi, então, com naturalidade que perguntou: “Prefeito, parece que não há a menor dúvida que há uma condenação, no mundo inteiro, à chamada megacidade. E parece que a violência é um mal de todas elas, não há a menor dúvida. Mas no Rio de Janeiro nós temos um ingrediente que tem complicado nos últimos dez anos: este problema é o narcotráfico. Qual é a sua visão do problema do narcotráfico na geografia do Rio de Janeiro?”.

Enquanto o prefeito tomava fôlego para responder, fui um pouco indelicado e fiz uma interrupção: “Eu posso só pegar uma carona pequena nessa pergunta? Porque, além desse problema do narcotráfico existe uma outra diferenciação no Rio de Janeiro, que a criminalidade, principalmente o narcotráfico, constitui um poder político diferenciado, um poder político judiciário, porque o narcotráfico organiza julgamentos e execuções, e a imprensa registra inclusive julgamentos com absolvições, um poder político executivo, porque os traficantes, os comandantes nos pontos de tráfico, promovem ‘benfeitorias’ e acabam administrando, em termos executivos, aquela região, e um poder político também legislativo, uma vez que o narcotráfico impõe as regras de conduta dando origem ao que se chama de um direito alternativo. Então ali existe uma duplicidade de poder e existem regiões onde o único poder político é o poder da criminalidade. Então esse narcotráfico que o Armando falou que existe…”.

Nesse ponto, quem sofreu a interrupção fui eu. Minha pergunta estava se alongando em demasia, inquietando o entrevistado, que me atalhou: “Eu acho que você está indo muito longe, meu caro”. E riu.

Tentei retomar a palavra: “Pode ser que esteja, mas…” Nisso, o apresentador do programa, Jorge Escosteguy, também riu: “A carona era pequena que ele ia pegar”. Insisti: “Eu queria que o senhor comentasse essas diferenciações”.

O prefeito saiu pela tangente: “Eu devo te dizer que há realmente, e não há como ocultar, quer dizer, muita, muito registro quanto à incidência da traficância na nossa cidade, mas se vocês apelarem para as leis de mercado...”.

Armando Nogueira voltou à carga: “Prefeito, quando eu falo da geografia, é por causa do morro, deitado sobre a cidade, facilitando o acesso…”.


Alencar retomou seu discurso e, pode acreditar, sugeriu que a situação brasileira era comparável à do Canadá: “Armando, não existe uma causa, existem concausas disso, isso também não é geração espontânea. Quer dizer, de repente aparece a droga, e ela apareceu porque houve um relaxamento e o governo é frágil? Não. Isso daí é uma construção. A sociedade está enferma, mas não só aqui, no mundo inteiro a questão… Eu estive no Canadá e o prefeito da cidade, que se tornou até meu amigo, confidenciou os dramas que vive. Hoje, nos países de Primeiro Mundo, já se cogita de legalizar a venda de drogas, de fornecer inclusive a droga. Esse problema da droga não se esgota aqui nessa materialidade dos nossos morros, pelo traficante que tem uma hegemonia em determinado ponto. Não, isso é um fenômeno do nosso tempo. Aí estão as revelações que no mundo inteiro a droga… Eu acredito que as estatísticas registrem que o grande mercado das drogas sejam os Estados Unidos da América”. (Parece incrível, mas foi exatamente o que ele disse. Quem quiser conferir, eis o link: https://vimeo.com/17328928.)

Agora, passados quase 25 anos dessa entrevista, o presidente Michel Temer, no dia 11 de janeiro de 2017, falou sobre as chacinas sequenciais nos presídios brasileiros. Foi menos evasivo que Marcello Alencar e não tentou insinuar que o sistema penal brasileiro está em pé de igualdade com o canadense.

Com a palavra, o presidente da República: “Estas organizações criminosas, PCC, Família do Norte, etc., constituem-se quase, digamos, numa regra jurídica, numa regra de direito fora do Estado. Veja que eles têm até preceitos próprios. E, para surpresa nossa, até quando o fazem aquela pavorosa matança, o fazem baseado em códigos próprios. Está é uma questão que ultrapassa os limites da segurança para preocupar a Nação como um todo”.

As organizações criminosas que comandam presídios, subornando os dirigentes dessas instituições, já mataram 134 presos só nos primeiros 18 dias de 2017. O presidente tem razão em apontar uma “regra jurídica fora do Estado”. Nos vazios deixados pelo poder público nas prisões – assim como nos morros e nas comunidades carentes – ergueu-se um Estado paralelo, um regramento jurídico elaborado, aprovado e sancionado pelo crime. Milícias, tráfico, PCCs da vida (e da morte) e autoridades corrompidas compõem um organismo integrado que não apenas está “fora do Estado”, mas vai canibalizando o Estado.

A solução que Temer propõe é insuficiente: “Meu desejo é de que daqui a alguns anos não haja necessidade de anunciar a construção de presídios, mas só escolas e postos de saúde. Mas o Brasil ainda tem um longo caminho para este efeito. No momento, a realidade que nós vivemos exige, naturalmente, a construção de presídios”.

Aí você pergunta: mas os novos presídios não serão eles também governados pelo poder paralelo que mata detentos e compra servidores públicos na base de propinas e votos de cabresto? Quem sabe, daqui a mais 25 anos, outros 25 anos, uma resposta apareça.

Gastar bem

“É proibido gastar” foi a mensagem do empossado prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, em seu primeiro discurso no cargo e que imediatamente sintetizou lema e sina de mais de 5.500 novos alcaides das cidades brasileiras.

A deprimida conjuntura nacional, a sandice internacional e a tristeza política local apontam para gestões municipais que precisarão ser austeras e rigorosas. Conseguirão ser ousadas ou criativas?

Três dias depois, o prefeito da capital fluminense apresenta o novo logotipo da prefeitura e que, de certo modo, passa a ser também a marca da cidade pelos próximos quatro anos.


Novas cores, nova tipografia, nova concepção gráfica para o brasão e pronto, está criada uma marca que identificará a cidade que simboliza o Brasil no mundo.

Desse modo, começa-se a mudar sinalização e a identidade visual de equipamentos públicos, de serviços, veículos, uniformes, cartões de visita, papelaria, envelopes, etc. Tudo, absolutamente tudo que leva o logotipo precisará ser trocado. Mais de mil escolas, centenas de clínicas de saúdes, dezenas de hospitais, espaços culturais.

Alegres ficarão as gráficas e as empresas de letreiros.

Um simples ato de afirmação de identidade de gestão mal planejado e gastamos todos nós milhões em recursos públicos. Deveria ser proibido gastar mal.

Antes que o leitor se exalte, não comete pecado sozinho o novo prefeito. Há oito anos fez-se o mesmo. E há dezesseis, idem. E assim ocorre por todo o país. E também pelo mundo afora. Não nos humilhemos com comparações.

Quando então mudam-se posições ideológicas é aí sim que o dono da empresa de letreiro sorri mais ainda: toma-se a trocar vermelho por azul, verde por amarelo.

Críticos de design temos muitos. Recentemente o filho temporão do presidente Temer manifestou seu apreço pela nova marca do governo federal que emula o “Ordem e Progresso” da bandeira nacional, tentando solenemente dizer algo há 128 anos enquanto balança ao vento.

Triste frase incompleta, sempre à espera do “Amor”. Isso ninguém tem coragem de propor. Talvez algo místico ocorre-se com o tema positivista finalmente completo.

A força do design é tão soberba que uma pequena decisão, ou melhor, uma pequena omissão de projeto, tem impacto transversal em diferentes aspectos da vida cotidiana, das organizações do trabalho, à criação de identidades e a manutenção dos símbolos.

Mesmo com tal supremacia evidente do bom projeto, como modo de comunicar, afagar, acolher, prover segurança, sustentabilidade, presente desde como organiza-se a leitura desse texto na sua tela, leitor, até como você se veste, as decisões que toma sobre o que comer, as vestes que te seduzem no corpo da sua pessoa amada. Na praga do seu celular (que muda todo ano para um jeitão mais bacana e sexy, menos para o seu bolso). Mesmo com essa onipresença na vida cotidiana, por que ainda os políticos brasileiros quando convertem-se em gestores públicos não conseguem perceber a importância do bom projeto?

Será que mesmo vivendo no monumento astronômico ao design que é Brasília eles não conseguem sensibilizar-se para a relevância de como o mundo material se organiza? Como nos serve e nos explica?

Todo o arcabouço legal e jurídico brasileiro que orienta a produção pública dos objetos que são o universo material onde existimos e que deveriam servir à sociedade, como esfera pública, despreza o bom projeto e o desenho.

Optam as leis por ignomínias como “economicidade” que acabam custando caro, que ferem, matam, e pior, que embrutecem a todos nós como nação.

Repito: dos logos às calçadas, das placas, das marcas às sinalizações, dos edifícios públicos à cidade; todo o sistema de coisas e de serviços que deveriam dar forma pública ao Brasil, são, por força legal, por mediocridade administrativa, escolhidas sem dar a devida ênfase ao papel do projeto e do design.

Tornam-se assim, coisas inertes a nos suplantar, plenas em sua vitória.

Lei de licitações, RDC, Minha Casa Minha Vida, marcas burras, burocracia, desinformação, falta de transparência, websites estúpidos, serviços mal organizados, são os monstros reinando no sonho da razão brasileira.

Curiosamente o design “privado" brasileiro é cada vez mais admirado e desejado pelo mundo. Assim como nossa força cultural é estupenda pela sua doçura, oferecendo ao planeta o tal amor ausente da bandeira. Amor pela natureza e pelo humano. Pelo gozo em estar vivo.

Esses designers conquistam a todos com inteligência vívida. Com formas, materiais, marcas, edifícios, roupas, gráficas, que são também mensagens sobre um novo mundo ainda a ser conhecido, enraizado que é na nossa singularidade.

Mas o que acontece que as leis não espelham essa graça? As leis do país que regem como devemos desenhar o bem público ignoram a própria beleza nacional.

Alguém deve estar feliz. Será o dono da empresa de letreiros? Claro que não. São aqueles que podem vender esse bem público desprovido de graça, pois gasta pouco. São tão malditos em sua contribuição ao país que já ocupam os próprios presídios que construíram sem projeto executivo. Logo, conjuguemos o verbo da moda, na modinha atual: rebelar-se-ão?

Portanto o que quer o brasileiro é que gaste-se bem. Que seja belo, sustentável e que dure, que venha a ter sentido para as gerações futuras, que possa vir a ser considerado patrimônio cultural um dia.

Gastar bem é enfatizar o plano, o projeto e o design pois estes ofertam coerência pública ao cidadão, imerso está ele num oceano de formas privadas belas e sedutoras.

Gastar bem preenche a alma coletiva e cria identidade perene. Além de evitar a cadeia.

O abortado logotipo do prefeito Crivella pariu um processo melhor que pode vir a ser belo: a ideia agora é fazer um concurso para a marca do Rio. Que seja profícuo nesse caminho, e que esta futura marca possa ser escolhida através de um bom processo público, transparente, com muito rigor e excelência. Assim conta a própria história da cidade.

Em 1965, o concurso da marca do Quarto Centenário, além de premiar Aloísio Magalhães, premiou a todos com um emblema eterno. Em 2015, quando do concurso da marca da celebração dos 450 anos, não venceu apenas a Crama Design, mas venceram todos os cariocas com um signo que é, literalmente, a cara do Rio. Para inovar e fazer bem feito, basta, muitas vezes, olhar para a nossa história.

A tradição do Rio é o compromisso com o bom desenho, com o projeto. Está presente pela cidade. Basta ter olhos de ver. E sabedoria em gastar bem.

'O sol da meia-noite'

Vítimas esquecidas

A lei que criou o Fundo Penitenciário Nacional (Funpen), há 23 anos, prevê no inciso IX do seu artigo 3º um “programa de assistência às vítimas de crime” que jamais foi criado e no qual nunca se aplicou um centavo. No site do Ministério da Justiça, o Departamento Penitenciário Nacional informa que o Funpen existe para aprimorar o sistema prisional e não faz qualquer referência a iniciativas de apoio às vítimas do crime.

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O Funpen banca ações educativas e culturais e assistência jurídica para presos, diz o site oficial. Não dedica às vítimas nem uma linha.

Especialistas acham que Itamar Franco errou criando o Funpen, dando musculatura ao Depen, cabide de empregos no Ministério da Justiça.

As contas do Funpen são um mistério, mas arrecadou R$ 3 bilhões até 2011 segundo a mais recente edição da “Funpen em Números”, de 2012.

A lei que criou o Funpen prevê a participação de seus representantes em eventos no Brasil ou no exterior. Para isso nunca faltou dinheiro.

Memórias, fósforos, gatos

Uma noite, acordei sem saber onde estava. Acendi a luz. Eram três da manhã, e aquele quarto não era o meu quarto. Eu estava num hotel, mas que hotel? E em que parte do mundo? Eu não me lembrava de ter feito mala, de ter saído de casa, de ter pegado avião. Na verdade, eu não me lembrava de nada referente àquela viagem — estava a trabalho, estava de férias? O que tinha ido fazer lá? E onde era lá?

Fiquei sentada na cama, ponderando a situação. Não adiantava entrar em pânico. Também não adiantava ligar para a recepção — eu corria o risco de me jogarem numa ambulância e me mandarem para o hospital. Mas que hospital? Onde? E em que língua? E se eu tivesse compromisso logo cedo?

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Dei uma volta pelo quarto, mas nada me dizia nada. Nem podia dizer — detesto aquela papelada que os hotéis espalham, como cardápios e guias de TV, e a primeira coisa que faço quando chego é sumir com tudo. As possíveis pistas da minha localização estavam provavelmente numa gaveta ou no alto do armário. Abri uma ou duas, não encontrei nada, e aí me lembrei de que o computador poderia me ajudar a matar a charada. Liguei a máquina.

“Adoro o Windows Phone e amo a Nokia há muitas e muitas luas, mas fiquei perturbada com a notícia da compra da finlandesinha valente pela gigante americana...”, dizia a página do dia do meu blog.

Oi? Como assim? A Nokia tinha sido comprada pela Microsoft?!

Aquela notícia, que eu não me lembrava de ter escrito, me fez mais mal do que estar perdida no mundo. Eu podia não saber onde estava, mas tinha certeza de que aquilo não ia dar certo. Aliás, já tinha tido essa sensação antes:

“Não conheço culturas corporativas mais diferentes do que MS e Nokia”, continuava o blog. “Sem falar que a Microsoft tem o perverso talento de matar tudo o que compra. Ainda assim, continuo torcendo pela Nokia, uma das minhas empresas favoritas de todos os tempos. Espero, de coração, estar redondamente enganada na visão pessimista dessa aquisição”.

Bem, eu não estava. A compra foi um desastre. Isso, porém, a gente sabe agora — naquele dia 4 de setembro de 2013, o que eu queria saber mesmo era onde estava. Nem uma palavra sobre viagem no blog, nem uma palavra sobre viagem no Facebook. Quem me salvou foi o Instagram, onde eu havia postado uma foto do Aeroporto Internacional El Dorado, de Bogotá. Ufa!

O mais engraçado é que, assim que vi a foto, foi como se alguém religasse um interruptor na minha cabeça: de repente estava tudo lá, da correria com as malas à chegada à cidade e à agenda combinada com os meus anfitriões.

No dia seguinte, tomando café com um pequeno grupo de jornalistas, comentei o que havia acontecido comigo. Um colega do México disse que já havia passado por isso tantas vezes que chegou a procurar um médico. Perguntei qual era a causa.

— Estresse. Pura e simplesmente estresse.

Lembrei-me dessa história, de que convenientemente tinha me esquecido, porque a Nokia voltou com tudo ao noticiário. A marca pertence atualmente a uma empresa formada por antigos funcionários, e hoje começa a ser vendido, por enquanto apenas na China, o primeiro smartphone que produz depois da separação da Microsoft. Até ontem à noite, já havia mais de um milhão de encomendas do novo aparelho.

Tirando o diagnóstico por tabela do médico mexicano, nunca vou saber o que apagou a minha memória. Nunca mais tive a sensação — bastante angustiante — de não saber onde estou, mas lendo os jornais nas últimas semanas tive vontade, muitas vezes, de “desler” o que havia lido. Os massacres nos presídios, a febre amarela, o ministério do Temer, as escolhas do Crivella, todas as várias camadas de violência em que estamos mergulhados... E ainda há a posse do Trump amanhã.

É muita notícia ruim para administrar ao mesmo tempo, muito desgosto, muita falta de luz e de esperança.

Cora Rónai (Leia mais)

Encurralado, governo federal cria falsas soluções

No mesmo dia, duas reuniões separadas anunciaram em Brasília decisões que não levam a nada. São apenas factóides, criados para demonstrar que o governo federal – ao contrário do que se constata – não permanece omisso diante da gravidade do caos nas penitenciárias. É claro que não se possa culpar exclusivamente a inércia do atual governo, porque a crise vem de longe, este país jamais teve um sistema carcerário verdadeiramente civilizado. Muito pelo contrário, a realidade brasileira é garantir impunidade às elites e oferecer masmorras superlotadas e sangrentas para as classes mais carentes, que representam a maioria da população.

Mas o fato de se tratar de uma questão muito antiga não pode servir de justificativa para um governo que já está no poder há quase um ano, herdou o gravíssimo problema, nada fez para amenizá-lo e agora, quando a crise irrompe, mostra que não sabe que providências tomar. As autoridades estão completamente perdidas, chega a ser constrangedor.

Nestas reuniões de quarta-feira na capital, os ministros que respondem pelo governo não apresentaram solução, apenas falsos paliativos que na verdade não farão a menor diferença, somente servem para marcar presença, como admitiu o próprio presidente Michel Temer, ao afirmar que o objetivo “é fator de atemorização para aqueles que estão nos presídios, e fora também”.



Conforme se noticiou com estardalhaço, na reunião do ministro da Defesa com os comandantes militares foi anunciado que o governo planeja empregar cerca de mil militares em vistorias a serem realizadas nos presídios. Embora o ministro Raul Jungmann tenha até admitido a possibilidade de aumentar o efetivo “caso seja necessário”, a iniciativa é ridícula e revela grotesco desconhecimento da situação.

O Brasil tem quase 2 mil estabelecimentos prisionais, entre penitenciárias de grande, médio e pequeno porte. Portanto, teremos de dividir os mil militares em grupos de cem e criar uma estrutura burocrática que agende as vistorias (também chamadas de varreduras). Por óbvio, vai ser muito complicado concretizar essas operações para apreender armas, drogas e celulares, pois terão de ser feitas de surpresa, essa intenção de fazer varreduras não pode vazar, deve ser Piada do Ano.

O mais incrível é que o responsável pela política carcerária, o ministro Alexandre de Moraes nem foi chamado a participar da reunião, vejam como estão batendo cabeça no governo, no dizer de antigamente.


Sem ter sido convidado, o ministro da Justiça, que balança mas não cai, respondeu comandando outra reunião com representantes da Federação Sindical Nacional dos Servidores Penitenciários (Fenaspen). E também deu entrevista coletiva para anunciar outra grande idéia do governo – a criação do Grupo Nacional de Intervenção Penitenciária, para atuar dentro dos presídios, em conjunto com os governos estaduais.

Mais uma Piada do Ano. O tal grupo deverá ter apenas cem integrantes, a partir da cessão de agentes penitenciários que já trabalham nas penitenciárias estaduais, e o objetivo é que operem em “situações pontuais”, a pedido dos governadores. Ou seja, o grupo é federal, mas formado por agentes penitenciários que são servidores estaduais ou até terceirizados. Com toda certeza, isso não vai funcionar, é só um novo factóide.

Outra proposta sensacional de Alexandre de Moraes foi a criação de um curso federal de capacitação para o aperfeiçoamento dos agentes penitenciários, percebam que o ministro parece estar vivendo em outro país.


Como se vê, as autoridades estão mais perdidas do que cego em tiroteio dentro de penitenciária. Não têm foco. Todos deviam saber que o problema é a guerra entre as facções criminosas pelo domínio e controle dos presídios. O governo precisa decidir o que fazer a esse respeito. Eis a questão.

Não adianta criar cursos de capacitação e grupos especiais de agentes penitenciários, nem fazer supostas varreduras nas prisões. Isso tudo é perfumaria, como se dizia antigamente. O povo quer saber é como o governo pretende enfrentar as facções criminosas. Mas será que fá-lo-á? Ou apenas fá-lo-ia?

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Sem comentário

O exercício da política no Brasil tornou-se algo tão abjeto que esta semana vamos nos limitar à simples exposição de alguns fatos, sem comentá-los. Caminhamos para a absurda situação de achar normal o que antes nos envergonhava, mas, quero crer, talvez até ingenuamente, que como eu outros cidadãos possam vir a se indignar com a bandalheira ética que atinge o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, de alto a baixo.

FOZ DO IGUAÇU – Com autorização da Justiça, Anice Gazzaoui deixou a cadeia no dia 11, tomou posse como vereadora e voltou para trás das grades. Anice está presa desde o dia 15 de dezembro, acusada de participar de um esquema de corrupção em troca de apoio a projetos da Prefeitura. A vereadora, filiada ao PTN, foi reeleita com quase 5.000 votos, o segundo maior número de votos da cidade paranaense.
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MINAS GERAIS – O governador Fernando Pimentel (PT) nomeou Arthur Maia Amaral para a presidência da Fundação Ezequiel Dias (Funed), estatal encarregada da fabricação de medicamentos. Amaral é investigado pela Polícia Federal, suspeito de vender remédios adquiridos com dinheiro público em uma farmácia de sua propriedade, em Luminárias, interior do estado. Por sua vez, Pimentel responde a processo no Superior Tribunal de Justiça por crimes de corrupção e lavagem de dinheiro.

MAGGI – O ministro da Agricultura, Blairo Maggi, teve alguns de seus bens bloqueados no dia 11 como parte de um processo de improbidade administrativa. Maggi é acusado de participar de um esquema para comprar uma vaga de conselheiro no Tribunal de Contas do Estado (TCE) de Mato Grosso. O político, dono de uma maiores fortunas do país, cerca de R$ 2,3 bilhões, já foi considerado o maior produtor individual de soja do mundo.

DESEMBARGADORA – Mesmo afastada desde junho do Tribunal de Justiça do Amazonas por suspeita de ligação com a facção Família do Norte, responsável pela rebelião que terminou com 56 mortos no dia 1º, a desembargadora Encarnação das Graças Salgado recebeu, entre junho e outubro do ano passado, 261.000 reais, a título de subsídios (salário mais indenizações e vantagens pessoais), segundo cálculos do jornal O Estado de S. Paulo. Isso equivale a 278 salários mínimos.

JUVENTUDE – O presidente não eleito, Michel Temer, nomeou para secretário nacional da Juventude Francisco de Assis Costa Filho, em lugar de Bruno Júlio, aquele que incentivou um massacre por semana nos presídios brasileiros. Costa Filho tem seus bens indisponibilizados pela justiça do Maranhão por responder a um processo de improbidade administrativa. A ação sugere que Costa Filho e outros 47 indiciados mantinham fantasmas no quadro de funcionários de Pio XII, 172º pior IDH entre 217 municípios do Maranhão, estado do ex-presidente José Sarney, que possui o segundo pior IDH do Brasil – só superado pela Alagoas do presidente do Senado, Renan Calheiros, e do ex-presidente Fernando Collor.

GEDDEL – O ex-ministro da Integração Social do governo Lula e ex-ministro da Casa Civil de Temer fazia parte “de uma verdadeira organização criminosa”, segundo o Ministério Público Federal. Geddel é suspeito de participar de uma esquema de fraude na liberação de recursos da Caixa Econômica Federal para empresas entre 2011 e 2013, período em que foi vice-presidente de Pessoa Jurídica do banco, em troca de "vantagens ilícitas".

Enquanto isso, no país real as coisas não vão nada bem. Em seu relatório “Situação Econômica Mundial e Perspectivas”, a Organização das Nações Unidas(ONU) estima que o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil deve crescer 0,6% este ano – pouquíssimo, mas mais que a projeção do Fundo Monetário Internacional (FMI), que prevê crescimento de apenas 0,2%. Já a Organização Internacional do Trabalho (OIT) divulgou documento que prevê que o Brasil responderá por um terço de todos os novos desempregados que vão surgir este ano no mundo. A projeção da OIT é de que a taxa de desemprego subirá de 11,5% em 2016 para 12,4% em 2017.

Lorota da globalização

As desigualdades sempre existiram, mas de vários séculos para cá se acreditou que a educação podia restabelecer a igualdade de oportunidades.
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Agora, 51% dos jovens diplomados estão desempregados e aqueles que têm trabalho têm empregos muito abaixo das suas qualificações
Zygmunt Bauman

Como evitar que desastres naturais causem terremotos na economia brasileira

A cada vez que uma chuva forte cai nas cidades ou uma seca afeta qualquer região brasileira, a economia do país sofre um golpe considerável. Foram nada menos do que 9 bilhões de reais anuais (2,8 bilhões de dólares) entre 1995 e 2014, ou 182,8 bilhões de reais (56,7 bilhões de dólares) ao longo desses 20 anos.

As perdas se acumulam na infraestrutura, na agricultura, nos serviços públicos e privados e na indústria. Muitas vezes, as verbas destinadas às ações de emergência superam as originalmente destinadas pelos governos a áreas como saneamento e transportes. Com isso, desfaz-se a velha impressão de que o Brasil não é afetado por desastres naturais, apesar de não sofrer com terremotos de grande magnitude (como o Chile ou o Haiti) ou furacões (como o Caribe).
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Obter um retrato fiel do impacto só se tornou possível porque o Brasil dispõe hoje de uma base de dados sobre os prejuízos reportados pelos municípios: o Sistema Integrado de Informações de Desastres (S2ID), da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil. Modelo sem equivalente na América Latina, deu origem a um estudo que analisou quase 53,8 mil registros de desastres no Brasil entre 1995 e 2014.

O Relatório de Danos Materiais e Prejuízos Decorrentes de Desastres Naturais no Brasil foi publicado no fim de 2016 pelo Banco Mundial e o Centro de Estudos e Pesquisas sobre Desastres, da Universidade Federal de Santa Catarina.

Segundo a pesquisa, as secas — que evoluem lentamente e, por isso, os governos demoram a reagir — são os fenômenos reportados pelos municípios com maior frequência. “Eles representam 48% dos registros e ocorrem mais nas regiões Nordeste e Sul”, explica Rafael Schadeck, organizador do documento. Os desastres relacionados ao excesso de chuvas, documentados principalmente no Sudeste, vêm em segundo lugar, com 39% das ocorrências.

O advento do S2ID possibilitou não somente o acesso a uma fonte de informações àqueles envolvidos com gestão de riscos de desastres, mas uma mudança cultural significativa.

“Os municípios brasileiros apenas reportavam eventos de desastres caso tivessem interesse em acessar recursos do Governo federal para o apoio humanitário e resposta a desastres. Mais recentemente, observa-se que inúmeros municípios fazem esse relato sem a intenção de pleitear recursos federais, o que nos possibilita melhor compreender a dimensão do desafio no Brasil, bem como suas especificidades”, comenta o especialista em gestão de riscos de desastres Frederico Pedroso, do Banco Mundial.
Proteção financeira

O sistema e o novo estudo fazem parte de um esforço maior em entender como os desastres naturais afetam a América Latina e Caribe e como é possível evitar danos mais graves. Também no fim do ano passado, um relatório calculou o impacto dos desastres sobre os pobres e constatou que as perdas causadas por desastres são, em média, de 84 bilhões de dólares por ano, o dobro do calculado em estimativas anteriores.

Quando a população pobre é vítima de uma catástrofe, a perda proporcional de riqueza é de duas a três vezes maior do que entre a não-pobre, devido à natureza e à vulnerabilidade dos seus bens e meios de subsistência.

Em 2014, por exemplo, mais de 500.000 famílias pobres na Nicarágua, El Salvador, Honduras e Guatemala ficaram sem ter o que comer por causa das chuvas sem precedentes. Na Guatemala, a probabilidade de as crianças trabalharem aumentou em pelo menos 7% nas áreas afetadas pelo furacão Stan.

Outra constatação importante do estudo é a de que cada dólar gasto em proteção social após um desastre representa 4 dólares em benefícios em países como Bolívia, Brasil, Colômbia, Honduras e Panamá.

Dados desse tipo cada vez mais possibilitam aos países da América Latina adotar políticas públicas bem fundamentadas e investir tanto na prevenção quanto na resposta. No Brasil, por exemplo, o Banco Mundial tem fornecido apoio técnico aos governos nacionais, estaduais e municipais para calcular a exposição de bens a perigos naturais, apresentar ferramentas para proteção financeira contra desastres e avaliar perdas e danos pós-desastres.

Todas essas atividades, cujos resultados aparecerão a longo prazo, são fundamentais para reduzir cada vez mais os impactos humanos e econômicos provocados por chuvas, secas, vendavais, granizo e outros fenômenos na atualmente fragilizada economia brasileira.

Mariana Kaipper Ceratti (produtora do Banco Mundial)