quarta-feira, 23 de julho de 2014

Nunca falha

Nani Humor

Alfabetização no Brasil não alfabetiza

Doutor em desenvolvimento da cognição e psicolinguística, o português José Morais defende o envolvimento da neurociência na alfabetização para reformar os pensamentos pedagógicos. Em agosto ele virá ao Brasil para VII Seminário Internacional, promovido pelo Instituto Alfa e Beto (IAB), em Belo Horizonte.
Em recente entrevista Morais fala sobre avalia a alfabetização brasileira. “Infelizmente, baseia-se na crença construtivista — chamo de crença porque contraria o conhecimento científico atual. No Pisa (programa internacional de avaliação de estudantes, na sigla em inglês), não houve variação significativa entre a primeira versão, de 2000, e a última, de 2012. O Brasil está muito abaixo da média dos países e quase 80 pontos abaixo de Portugal, que tem a mesma língua, o mesmo código ortográfico, e as diferenças de dialeto deveriam até ser mais favoráveis à alfabetização no Brasil. Só 1 em mil adolescentes brasileiros lê no nível mais alto de desempenho estabelecido pelo Pisa. A taxa de analfabetismo continua demasiado alta e, sobretudo, quase metade da população não lê de maneira competente. O Ministério da Educação não pode continuar a manter uma proposta de alfabetização que não alfabetiza”.

Ainda segundo o professor emérito da Universidade Livre de Bruxelas, que estuda a psicologia cognitiva associada à educação, o Brasil ainda não sabe que caminho escolher para a educação:
- É uma obrigação social e moral que o Estado fixe a idade de início da alfabetização. Se as crianças da elite aprendem aos 5 ou 6 anos na família ou em colégios particulares, não está certo que as do povo só sejam alfabetizadas (capazes de ler com compreensão e de escrever) aos 8 anos. Está se desviando a atenção daquilo que realmente é importante: a política certa, política de reprodução de privilégios ou política pública realmente democrática.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Apenas parecidas

Nani Humor

Velhos filmes em pobres cenários


Lá pelos idos de 1940 e até 1950, Hollywood produziu filmes, normalmente de classe B, em que o bandido quase sempre fugia para o Brasil. Aqui era o reduto da bandidagem cinematográfica na mesma época em que Havana era o refúgio da máfia norte-americana. O cinema convergia as cenas para o paraíso tropical a fim de não comprometer as aberrações criminosas sob o regime de Fulgêncio Batista. Colocar bandidos em Havana, na época, era contra os interesses nacionais (deles). Então que viessem para o Rio – “Yes, nós temos banana” também.

Os saudosistas podem ficar tranquilos. Os tempos estão voltando. Mas os bandidos não são os de cinema, nem vivem em Hollywood, também o paraíso da impunidade não fica no Rio dos cassinos, que já não existem. Agora a bandidagem, que não é cinematográfica, nem estrangeira, nem estrela, prefere uma pequena e desleixada cidade bem próxima ao Rio.

Depois de abrigar Marcelo Sereno e Maria Helena, prósperos asseclas de Zé “Mensalão”, por um bom tempo, na primeira gestão de Washington Quaquá, o grande nome das paradas já há algum tempo é Lurian Lula, dona de um extenso prontuário de atuações em governos municipais petistas. Depois de passear por São José, cidade vizinha de Florianópolis, onde abocanhou o cargo de secretária de Desenvolvimento Social, quando trocou as cestas básicas pela criação de um Cartão Cidadão, e ser figurinha na última campanha no Maranhão ferrando 13 candidaturas petistas no estado, parece que se encantou pela sujeira de Maricá, onde desde o ano passado vem participando da politicalha local, nos bastidores, como confessou há tempos sobre sua preferência de ação. E com tempo até para acompanhar o casal reinante em passeios internacionais e na passarela do samba.

Lurian teria trocado São Paulo, o apartamento em Florianópolis e as praias nordestinas pela suja e desleixada (pelo governo) cidadezinha fluminense encantada. Por que deixaria o bem-estar lá de fora por um muquifo em Maricá, sem ruas asfaltadas, saneamento básico, saúde, segurança? Ou será, dizem as más línguas, que é uma cidadã virtual podendo confortavelmente fazer seu trabalho através do mundo e receber tudo via internet? Pois Lurian agora é a jornalista responsável (sic) pela revista Maricajá, de propriedade do casal Quaquá, que tem como diretora nada menos do que a consorte Zeidan, candidata à Câmara federal.

O caso Maricajá, agora nas mãos de Lurian, é o mais escandaloso uso de verbas públicas para abastecer a empresa sem registro do prefeito, que se tornou órgão oficioso e de propaganda da Prefeitura. E no comando agora temos a sempre zelosa pelo bem do povo, Lurian, uma representante de sangue azul dos pelegos. É ou não é a volta dos velhos filmes classe B, em que pontuavam os mafiosos?       

E no cordão dos puxa-sacos...


"Presidentes temperamentais dizem o que querem, e os áulicos aprendem a fingir que concordam"
Elio Gaspari 

Altas contas dos TCEs

Benefícios como 14º e 15º salários são pagos como ‘aquisição de obras técnicas’
 Os salários ultrapassam R$ 26 mil. A eles, somam-se auxílio-alimentação que chega a R$ 1.000 por mês; auxílio-moradia que, em alguns casos, ultrapassa R$ 7 mil por mês; R$ 2.924 por abono de permanência, pago ao magistrado que, aposentado, continua trabalhando; e 14º e 15º salários camuflados sob a rubrica de “aquisição de obras técnicas”. É a folha dos conselheiros dos Tribunais de Contas dos estados no país.

Em Mato Grosso, por exemplo, o auxílio-moradia é de R$ 7.235 — mais que o dobro do que têm direito os deputados federais, que podem receber até R$ 3 mil. Mesmo com as regalias, há diversos casos de conselheiros acusados de desvios de verba pública, como mostrou O GLOBO neste domingo. Além disso, os tribunais, que cobram a prestação de contas de vários entes governamentais, não são transparentes.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

O maior bem

"A cultura assusta muito. É uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo escravo" 

António Lobo Antunes

Parada pra poesia

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919 – 2004)

As pessoas sensíveis

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

“Ganharás o pão com o suor do teu rosto” Assim nos foi imposto
E não:
“Com o suor dos outros ganharás o pão”

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito
Perdoais–lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem


Olho vivo com a morte lenta


As democracias, como registrou Guillermo O’Donnell, não só morrem de maneira súbita com golpes de Estado. Também perecem de maneira gradual quando se concentra o poder no Executivo, se restringem liberdades que permitem o pluralismo e o Estado coloniza a esfera pública e a sociedade civil. Os governos de Rafael Correa, no Equador, como de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, na Venezuela, dificilmente podem ser considerados como democracias liberais. Apesar de legitimados ganhando eleições, essas se deram em condições de inequidade que sistematicamente favorecem aos candidatos do governo. Na Venezuela e Equador, o poder está concentrado no Executivo e as cortes de Justiça, como as instituições de controle e regulamentação, estão subordinadas ao presidente.

Quando Chávez e Correa chegaram ao poder, as instituições políticas estavam em crise. O sistema partidário da democracia cooptada venezuelana, que se constituiu excluindo a esquerda marxista, se transformou em um regime corporativista e corrupto. Entre 1996 e 2006 nenhum presidente equatoriano pôde terminar seu período e o Congresso destituiu com artimanhas legais três mandatários. Neste contexto de desencanto e desconfiança com os partidos, parlamentos e cortes de Justiça, estes políticos se apresentaram como forasteiros que prometeram a reforma de todas as instituições e o fim do neoliberalismo.

Apesar de que Chávez e Correa redistribuíram a riqueza e reduziram a desigualdade, criaram regimes autoritários que colonizaram a sociedade civil e a esfera política. Criaram leis para regular as Ongs e os movimentos sociais foram cooptados e reprimidos. Os ativistas que resistem em subordinação ao regime são criminalizados como terroristas. Estes governos criaram instituições que regulam os conteúdos da mídia e o Estado, que controla canais de televisão, emissoras de rádio e jornais públicos, se converteu em principal comunicador. Nos países em que não se diferencia o público do estatal, os meios públicos funcionam como porta-vozes do Governo. Estrangula economicamente a imprensa crítica e fomenta grupos econômicos afins ao governo para que comprem os meios críticos. Como resultado, a qualidade dos debates na esfera pública se empobreceu, os meios se autocensuram e quase não há espaços para que investiguem os abusos de poder.

domingo, 20 de julho de 2014

Nem sempre séria

"Uma democracia não precisa ser sempre séria, embora possa competir com as ditaduras quando quer"
Graham Greene (1904-1991)

D. manteve tradição




Como já se tornou uma tradição no governo Dilma, a presidente enfim resolveu encontrar espaço na agenda eleitoreira para visitar os desafortunados das enchentes no Sul, mas só viu a desgraça do ar num sobrevoo de 12 minutos na área atingida pela cheia do rio Uruguai. E liberou, segundo alguns jornais – outros dão cifras maiores -, R$ 40 milhões para reconstrução de estradas.

A presidente teria aventado a hipótese de se utilizar o Minha Casa Minha Vida para atender aos milhares de desabrigados, mas com o prejuízo geral não há como se pagar as prestações do programa, que não é gratuito como se propala, com prestações até de R$ 600, custo impensável para quem já perdeu tudo, restando apenas a eles apenas a dignidade pessoal e a indignidade dos políticos. 

Tal lá como aqui

Repressão na Venezuela contra manifestantes continua e mantém presos em protestos. Mais de cem pessoas continuam presas na Venezuela por violência em protestos

A procuradora-geral da Venezuela, Luísa Ortega Díaz, disse hoje (17) que 101 pessoas permanecem presas por suspeita de participação em atos de violência registados em protestos contra o governo, desde fevereiro, no país. Segundo ela, entre os detidos estão 14 funcionários públicos e seis estudantes.

"Isso foi explicado durante uma reunião, entre funcionários do Ministério Público e representantes da Anistia Internacional, que manifestaram o desejo de se deslocarem à Venezuela para abordar o tema dos direitos humanos, especialmente os acontecimentos violentos ocorridos entre 12 de fevereiro e junho", disse.

De acordo com a procuradora, foram também discutidas as causas da morte de 43 pessoas durante os protestos. "Explicamos que nove [das vítimas] eram oficiais das Forças Públicas, uma era procurador do Ministério Público e que seis venezuelanos morreram tentando limpar barricadas colocadas por outro grupo que protestava violentamente".

Há mais de cinco meses que se registram protestos diários na Venezuela devido à crise econômica, inflação, escassez de produtos e medicamentos, insegurança, corrupção e repressão por parte de organismos de segurança do Estado.

Alguns protestos acabaram em confrontos violentos durante os quais morreram pelo menos 43 pessoas. Mais de 900 pessoas ficaram feridas, e mais de 3,2 mil foram detidas. No total, 14 policiais continuam presos e estão em curso 197 investigações sobre violações de direitos fundamentais dos manifestantes.

sábado, 19 de julho de 2014

Você sabia?



Criada em 1965 pela ditadura militar, a propaganda política dita gratuita custou, nas eleições de 2010, R$ 850 milhões de desconto em Imposto de Renda para as emissoras, milhões que bem poderiam ser utilizados em benefício da população, mas que serve aos políticos para brigarem por minutos milionários .

Escolha seu ladrão vem aí



Roubo de duzentos milhões aqui eu acho que nem sai do jornal, de tão fichinha, aqui é roubo municipal no interior, esse inglês (Raymond Whelan) não tem qualificação nem para uma deputança. Esqueçamos o passado, vêm aí as eleições, hora de escolher democraticamente o seu ladrão!
João Ubaldo Ribeiro (1941-2014), da crônica "Maus perdedores"  

Congresso de R$ 1 milhão a hora


Mesmo em recesso branco, o Congresso Nacional custa aos cofres da União cerca de R$ 1 milhão por hora. Dispensados das sessões deliberativas até o dia 31 de julho pelo acordo, os parlamentares continuarão recebendo integralmente os seus salários de R$ 26.723,13 mesmo sem apresentar projetos ou participar de votações nas Casas.

Isto porque a ausência de sessões faz com que os dias não trabalhados não sejam interpretados como falta. O cálculo feito pela ONG Contas Abertas para obter o custo-hora dos deputados federais e senadores - dos demais serviços prestados ao Legislativo -, estando eles em exercício parlamentar ou não, levou em conta a soma do orçamento da Câmara e do Senado, chegando-se ao montante aproximado de R$ 23,9 milhões por dia.

Chega de panfletários


O sistema político brasileiro, desde há alguns anos, se transformou em uma arapuca. Pouco há como escapar dele que não seja destruindo a armadilha do continuísmo. Em nome de uma democracia, que muitos apelidaram de socialista, se aplicou um golpe branco para instauração de uma desavergonhada política, muito parecida com projetos semelhantes aos louvados e festejados na ditadura. Estão aí mesmo para confirmar essa “ditadura democrática” do petismo e aliados em inúmeros programas e obras. 

A lista grande serve para pensar sobre o que se está criando no país.
Mas não se deve apenas criticar a situação dos últimos anos, que deu exemplos de banditismo explícito. Teve espaço a oposição para se mostrar defensora de políticas honestas, e não politicamente incorretas, mas deixou tudo pelo caminho. Fez o jogo que jogava a situação. A mascarada foi geral sem que uma voz dissonante surgisse para anunciar um novo caminho. O beco ficou sem saída e restaram ao povo o direito de votar e o dever de ficar calado diante dos desmazelos de uns e outros.

Há a defesa do voto para se construir a democracia, mudar o país. No entanto, a mudança tem quer ser feita nas pessoas, aquelas que votam. E mudar só através de refletir, se informar, deixar de lado o panfleto partidário. Pensar como gente, como cidadão responsável por si e por todos os outros, já que o egoísmo do levar vantagem não leva ninguém, muito menos uma nação, à frente. E esse discurso partidário do “nós contra eles” é um atraso de anos, deixa o sujeito vivendo no século XXI com a cabeça retrógrada nos tempos do arranca-rabo do século passado, quando se dividia o mundo em dois, como se a Terra não fosse de todos. 

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Nem precisa explicar

Nani Humor

Você sabia?


Segundo a revista Veja,que o índice de inadimplência na faixa de financiamento para o Minha Casa, Minha Vida, que inclui participantes com renda mensal mais baixa, até 1 600 reais, está em 20%. É um número dez vezes maior que a média dos financiamentos imobiliários no Brasil e 4 pontos mais alto que a porcentagem de atrasos em pagamento de hipoteca nos Estados Unidos em 2007, quando se acentuou a crise que serviu de gatilho para a pior recessão desde o fim da II Guerra Mundial. 

Vale tudo pelo troninho


Para reeleição de Dilma, PT incorpora parte da agenda de adversários. Temas como meio ambiente, combate à inflação e reforma federativa, ganha mais destaque no plano petista deste ano em relação há quatro anos.

Faz-se bandido antes do crime


“Há arbitrariedade. Tanto o juiz que expediu os mandados de prisão como o promotor, quanto o Governo Federal e o Estadual, que articularam a ação com a Justiça, estão sendo arbitrários. Eles estão fazendo com que o criminoso exista antes do crime. Eles prenderam pessoas diante de suposições de que elas realizariam atos ilícitos. Estão subvertendo a regra do direito penal”. A declaração é do deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) em entrevista para o jornal espanhol El Pais sobre a prisão de manifestantes. Com essa e outras afirmativas – “O Brasil está fazendo a gestão da sua pobreza por meio do extermínio e por meio do encarceramento" – Wyllys analisa o momento brasileiro em particular com os casos jurídicos envolvendo os movimentos de rua.